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A Palavra do Frei Petrônio

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quinta-feira, 9 de fevereiro de 2017

REGRA DO CARMO: O SILÊNCIO PRIMORDIAL

Frei Robson José, O.Carm.

CONTEXTO ANTROPOLÓGICO, BÍBLICO E DA TRADIÇÃO CARMELITANA.
Silêncio: sossego da alma, repouso divinizado no Amado.

BELO HORIZONTE
Convento do Carmo – Comunidade Edith Stein. 2016

Dedico esta pesquisa a uma alma silente, Irmã Albarosa.

Silêncio: partilha das almas que se amam1

“Nada  perto  de  Jesus:  secura!  Sono!  [...].  Mas,  pelo  menos,  ao silêncio! [...]. O silêncio faz bem à alma! (CT 74.). O silêncio, eis a única linguagem que pode lhe dizer o que passa na minha alma (CT
106). E o bem amado instrui minha alma, Ele lhe fala no silêncio nas trevas (CT 135). Às vezes, só o silêncio é capaz de exprimir minha oração, mas, o hóspede divino do tabernáculo compreende tudo, mesmo o silêncio de uma alma de criança, que está cheia de gratidão! (CT 138). Sem se mostrar, sem se fazer ouvir sua voz, Jesus me instrui em segredo. Não é por meio dos livros, pois não compreendo o que leio, mas, por vezes, uma palavra como a que tirei no fim da oração, depois de ter ficado no silêncio e na secura, vem me consolar (CT
196). O silêncio é a doce linguagem dos anjos, de todos os eleitos.

Deve ser também a partilha das almas que se amam em Jesus. (PS 7).”

1- TERESINHA, do Menino Jesus.

INTRODUÇÃO

Voltemos à fonte silenciosa e ela dar-nos-á a possibilidade de mantermos a poesia, a beleza e o encanto de nossas origens: na busca de viver uma vida solitária e de intimidade com Deus, um grupo de ex-cruzados instalaram morada no Monte Carmelo, na Palestina. Estes homens desejavam  viver no deserto  à imitação do profeta Elias, homem solitário. Aquele estilo de vida proporcionava aos primeiros eremitas uma vida de oração e silêncio. Munidos pela ação do Espírito Santo, esse grupo pede a Alberto, patriarca de Jerusalém (1206-1214), uma regra de vida que os ajudasse no caminho espiritual. Assim, atendendo ao seu pedido, os carmelitas receberam a sua primeira aprovação canônica.
O caminho que a Regra do Carmo propõe é o viver em obséquio de Jesus Cristo e servi-Lo de coração puro e reta consciência. Assim ela descreve como os carmelitas devem pautar a sua vida na subida do Monte Carmelo, onde se dá o encontro transformante da alma com o Amado. Nesta subida, o silêncio surge como uma bússola segura, capaz de guiar a alma ao cume do Monte.
O Silêncio, para o carmelita, não é vazio, ou sem-sentido; ao contrário, ele é o indício  de  uma  totalidade  significante.  Isto  nos  leva  à  compreensão  do  silêncio  como horizonte e não como falta, é algo positivo que, em sua plenitude pode ser saboreado pela alma numa vida de recolhimento. Estar em silêncio diante de Deus é estar sempre unido à sua Santa Vontade, para viver com Ele, coração a coração, uma perfeita união de amor.
A presente pesquisa abordará a temática do silêncio em três capítulos nas diferentes dimensões: antropológica, bíblica e na tradição carmelitana, esta última com enfoque para a Regra do Carmo. No primeiro capítulo abordaremos o silêncio como caminho para o conhecimento de si e de Deus, o que favorece a maturidade humana sem a qual o homem permaneceria na superfície de si mesmo. Veremos como o silêncio era entendido na antiguidade e como o homem moderno o concebe nos dias atuais.
No segundo capítulo teremos o sentido bíblico do silêncio. Deus conduz o homem bíblico ao deserto e com ele fala de coração a coração. O silêncio e a solidão do deserto proporcionarão ao homem a escuta atenta da voz sutil de Deus e o cumprimento de sua vocação. No Antigo Testamento destacaremos o exemplo do profeta Elias, que no deserto encontra Deus numa leve brisa. Com enfoque no Novo Testamento apresentaremos dois modelos  por  excelência  de  silêncio:  Jesus  Cristo,  Palavra  de  Deus  e  Maria,  Virgem  do silêncio que no coração meditava os desígnios de Deus em sua vida.
E, por fim, no terceiro capítulo ressaltaremos o silêncio na tradição carmelitana. Tomaremos por base a Regra do Carmo e alguns documentos da Ordem. Veremos a partir deste capítulo como desde as origens o silêncio era cultivado como sinônimo para uma vida espiritual profunda, capaz de levar a alma aos mais elevados gozos espirituais. Em vista disso, poderemos contemplar os testemunhos das grandes figuras silenciosas que a partir de uma vida recolhida no silêncio e na solidão se tornaram não só para o Carmelo, mas para toda Igreja, modelos de íntima união com Deus.

SILÊNCIO: FONTE DE AUTOCONHECIMENTO

O ser humano, desde os primórdios da humanidade, anela por autoconhecer-se e tornar-se  cada vez  mais  imagem  e semelhança  do  Ser Silencioso2   que o  criou.  Intentos caminhos percorre, e dá-se conta de que uma vida voltada para a sua interioridade, postula as condições necessárias para o conhecimento de si e d‟Aquele que o habita.
A antropologia cristã parte da interioridade humana por creditá-la como lugar do encontro com Deus. A tradição bíblica também nos revela que no silêncio interior se pode escutar Deus3. Assim ocorreu ao longo das grandes revelações na história da salvação preludiadas nos exemplos de grandes homens que buscaram uma vida silenciosa e transformaram, assim, as realidades de seu tempo: Elias (I Rs 17, 1-8); Jesus de Nazaré (Mt 4,
1-12) e Paulo de Tarso (Gl 1, 17). “O silêncio, de fato, ajuda a interiorizar, amadurecer e discernir as realidades [...]”. 4
Talvez a interpretação mais antiga do silêncio provenha como quase tudo que é remoto, do Oriente. Entre nós do Ocidente, a primeira exegese sugestiva do silêncio é cristã, e sua formulação encontra-se na concepção monástica5. Ao falar sobre esta concepção, Thomas Merton diz:
A finalidade principal do silêncio monástico é preservar, como estilo permanente de vida, esta atenção a outro mundo, esta lembrança de Deus que é muito mais do que uma simples memória. É uma consciência total da presença divina que é impossível sem o silêncio, o recolhimento e um certo afastamento em um ambiente geral de verdadeiro amor. Diante da imensidão desta Presença, o monge adotará, espontaneamente, uma atitude de quietude apaixonada que, pouco a pouco, se apossará de toda a sua existência, convertendo-a em oração. 6
O monge reconhece que é preciso buscar um lugar silencioso, solitário, longe de todos os barulhos para entrar no verdadeiro santuário de sua intimidade. Reconhece a própria condição ligada à solidão própria do ser humano, uma vez que cada pessoa é um ser único no
mundo. Só assim se pode corresponder aos estímulos em uma proximidade compreensiva de


2 Deus criou o homem à sua imagem e semelhança (Gn 1, 27).
3  Quando um profundo silêncio envolvia todas as coisas e a noite chegava ao meio do curso, vossa Palavra
Onipotente descia do céu, qual um guerreiro implacável. (Sb 18, 14-16).
4 O silêncio na vida Carmelitana, pg 16.
5 O silencio primordial, p. 23.
6 Thomas Merton, Vida Contemplativa la Trapa, Ed. Vozes, Petrópolis, 1960. p. 54.



autorrecolhimento a fim de “enfrentar o caminho da solidão que o conduz ao mais profundo recolhimento de si mesmo, ao outro, e principalmente, de Deus”.7 A solidão nesta perspectiva, não se confunde com isolamento, que torna incapaz de escutar e de abrir-se, mas é garantia do verdadeiro amor que dá sentido à vida humana.
O homem, atraído pela voz que emana de dentro de si, sente um forte atrativo pelo Silêncio interior, que se une ao deserto, à solidão, e vê este caminho seguro na busca da própria identidade humano-espiritual, na descoberta das próprias raízes e do próprio sentido de sua existência. Poderíamos aqui comparar o silêncio como um espelho no qual o homem deve  refletir-se  para  contemplar  quem  é.  Por  isso  tanto  os  profetas  quanto  os  eremitas tomavam muitas vezes o caminho do deserto, onde o silêncio é absoluto, para provar a si mesmo sua capacidade de estar a sós, num recolhimento profundo que gera atitudes interiores de amadurecimento, de escuta e louvor a Deus.
A  compreensão  que  se  dá  através  desse  recolhimento  silencioso  é  que  irá proporcionar o abrigo da voz do silêncio infinito nas profundezas do ser. “A voz do Senhor sobre as águas [...] A voz do Senhor na força, a voz do Senhor no poder. A voz do Senhor quebra os cedros” (Sl 29, 3-5). Perceber a voz sem som que evoca de Deus é acontecimento do espírito, é a experiência do coração verdadeiramente cativado e empenhado em seu crescimento espiritual. Nota-se, então, o silêncio como o lugar da revelação, do falar de Deus
à alma, da aliança:
O senhor fará que gozes de um repouso perpétuo, inundará a tua alma com seus resplendores; fortificar-te-á os ossos. Serás como um jardim bem irrigado, como uma fonte cujas águas secam [...] Elevar-te-á acima do que há de mais elevado neste mundo (Is 58, 10, 10-12).
No período denominado de antiguidade, encontramos algumas figuras notórias e influentes que contribuíram para a importância de uma vida voltada para o interior como fonte de conhecimento, amadurecimento. Destaco, pois, o aporte filosófico de Platão, a partir das considerações do filósofo CARRETO8. Platão, ao focar as questões sobre a República, diz Carreto,  reporta-se  ao  silêncio  na  tentativa  de  definir  o  termo  juízo,  termo  esse  que  é concebido como um discurso proferido não para o exterior e para outrem, mas em silêncio e para si mesmo9. Em sua ótica, o silêncio é o lugar em que se define o limite do próprio
homem, já que cada um tem em si uma noção de juízo, tem uma voz interior que lhe dita o


7 O Silêncio na vida carmelitana, p. 17.
8 Filósofo e antropólogo.
9 CARRETO, 1996, p.281.
julgar e o escolher. Como um lugar de recolhimento, o silêncio constitui-se para Platão, segundo o antropólogo, como um recurso para salvaguardar o homem do mundo da oralidade, do mundo do excesso verbal e do riso, compreendidos por ele, em muitas situações, como “expressões de uma violência ameaçadora e perturbadora” 10.
Neste sentido, recordamos a Regra dos Irmãos da Bem-Aventurada Virgem Maria do Monte Carmelo (RC), que ao falar sobre o silêncio11, alude às palavras do profeta Isaías, convidando ao seu observante a cultivar o silêncio e libertar-se do muito falar. Tal convite é condição para o domínio da mente e para a consciência crítica que revela as situações de morte que ameaçam a vida. A prática de uma vida silente, na solidão, constitui-se como sinônimo de vida plena e íntima com Deus.  Para nós carmelitas, esta é uma importante
abordagem que estudaremos mais adiante.
Quanto à exaltação ao silêncio, interpretada da mensagem platônica, ligada aos excessos de fala, não se trata de um repúdio das palavras, mas uma atenção a esta zona do silêncio donde emerge o sentido e a verdade. Nesta perspectiva, somente no silêncio, ou seja, somente num “discurso interior que a alma mantém consigo própria” 12, é que se tem expectativas quanto às centelhas do conhecimento. O caminho da interioridade, do silêncio autêntico, surge exatamente como proposta de construção de uma experiência de vida mais profunda e plena13 buscando a interação e o crescimento entre as instâncias que constitui o ser humano: corpo, mente e espírito.
Ao espírito, é própria a inclinação à transcendência da Verdade-Bem, já que essa transcendência faz-se presença no interior dele. Como afirma Lima Vaz:
É no encaminhar-se para a transcendência que o itinerário perfaz a reflexão total do espírito sobre si mesmo e o sujeito pode reencontrar-se no nível mais profundo do seu ser, onde enquanto espírito acolhe o Absoluto, o Ser, como fim de todo ato de inteligência e liberdade. 14
Para o ser humano o silêncio profundo, o olhar para dentro de si, apresenta-se como uma arma poderosa, que revela ao seu ser a sua identidade, aguça a consciência de suas limitações, favorece o crescimento do seu „coração‟, e assegura-lhe uma vida harmoniosa e feliz. Fonte de ilusões é o homem ordenar sua felicidade a elementos externos. Poderíamos
afirmar que a felicidade, inerente ao ser humano, não pode ser alcançada sem verdadeira vida

10 PLATÃO apud CARRETO, 1996, p. 282.
11 RC 21.
12 PLATÃO apud CARRETO, 1996, p. 282.
13Eu vim para que todos tenham vida, e atenham em plenitude (Jo 10,10).
14 VAZ, Henrique Cláudio de Lima. Antropologia Filosófica II. p. 96.
interior.  Muitos  não  a  encontram  porque  vivem  longe  de  si  mesmos,  ou  seja,  vivem procurando fora, enquanto a felicidade está dentro.
A infelicidade, diz PASCAL, consiste na incapacidade do ser humano de olhar para dentro de si, de viver o silêncio ao descobrir que “toda infelicidade dos homens vem de uma só causa, que é não saberem ficar quietos dentro de um quarto, [...] é o ruído que nos desvia de pensar em nossa condição e nos diverte” 15. Lançado na distração, na diversão e dispersão o homem torna-se superficial, vítima de si mesmo.   Não suporta o silêncio e odeia o recolhimento e a solidão. É homem de consciência anestesiada, que muitas vezes informa-se
de tudo, mas nada é verdadeiramente assimilado por ele.
Apesar de todo o seu valor e toda a sua riqueza, parece que o silêncio é considerado inútil no mundo moderno que prima sempre pelo som ensurdecedor. Com isto, temos uma sociedade de atos inconsequentes e doente. Aqui recordo as palavras do filósofo Kierkegaard: “O mundo e a vida, em sua situação presente, estão profundamente enfermos. Se eu fosse médico e tivesse de receitar, depois de consultado, diria: criai o silêncio”. O povo oriental considera o silêncio como sinônimo de respeito e de sabedoria16, reconhece que o silêncio favorece a maturidade humana e que sem ele o ser permaneceria na superfície de si mesmo. Já a sociedade ocidental parece temer o primordial silêncio; o vê como sinônimo de vazio, do isolamento, e vivem desumanizados pela cultura do barulho, incapazes  de  contemplar  o  seu  mundo  interior.  Preferem  viver  num  constante  falatório, mesmo quando já não há mais o que dizer de necessário; nem de sua realidade existencial se dão conta: homens da matrix17 incapazes de separar a consciência de si realidade supérflua e barulhenta que o circunda.
Quando o ser humano volta-se para si, para o seu interior, é impulsionado a refletir, meditar em si mesmo e em Deus, transcende em sua relação com as outras pessoas e com a própria natureza. O ser humano precisa vivenciar essa interiorização, meditação por meio do silêncio para aprofundar-se na compreensão de si mesmo, na sua interioridade, na sua capacidade de amar18. E para amar é necessário conhecer a própria condição humana. Esta é ligada à solidão que lhe é própria, por mais que o queira negar a cultura atual. Ao homem que busca a maturidade humana, o silêncio não é uma obrigação, mas uma necessidade, um caminho para se chegar a uma nova harmonização de todo seu ser e uma

15 Cf. PASCAL, B. Pensamentos, São Paulo, Difusão europeia do livro, 1961, p. 86-87.
16 Cf. MELLO, R. de. O silêncio faz sentido, disponível em www.filologia.org.br/ileel/artigos/artigo_146.pdf, acesso em 14/09/2016; acesso em 24/10/2016, p. 25, 89.
17 Matrix é a mãe do relativismo, da hipocrisia, das ilusões. Sua força é proporcional à fraqueza e ao apego do homem pelas ilusões.
18 Cf. MERTON, T. Contemplação num mundo de ação, Petrópolis, Vozes, 1975, p. 162
forma mais coerente de preservar a imensidão de Deus. O silêncio, definitivamente, é um ato de reverência19, é o espaço do mistério, do incompreensível, intransmissível e, por isso, do indizível. Vê-se que o silêncio tem uma função decisiva sobre o desenvolvimento da personalidade humana; conduz o homem à plena maturidade de sua existência e lhe faz conquistar o senso de responsabilidade no mundo. É unicamente na solidão que ele se torna consciente de seu ser e de sua posição diante de Deus. Por meio dela aprende a mergulhar na sua   própria   interioridade,   a   compreender   seu   próprio   mistério,   a   autodefinir-se,   a
autoconhecer-se, a encontrar a própria verdade: Deus.

19 Cf. BALDINI, M. Il místico fra silenzio e parola, in Le forme Del Silenzio e dela parola, Brescia, Morcelliana, 1989, p. 259.

O SENTIDO BÍBLICO DO SILÊNCIO

A Sagrada Escritura é um livro silencioso e de uma riqueza fascinante. É assim que muitos homens ao lê-la se sentem: fascinados pela revelação do Deus-Amor que dialoga em silêncio, ao longo da história da salvação, com o ser humano. Deus fala no silêncio e é preciso, pois, ouvi-Lo em silêncio: “Silencia diante do Senhor e espera nele” (Sl 37,7). O calar-se de Deus voltado para o ser humano exige ouvidos atentos e corações disponíveis.
Para ouvir Deus, o homem bíblico necessita conhecer a sua linguagem, pois Deus deseja dialogar com o ser humano, deseja produzir-lhe frutos abundantes: “Toda Escritura é inspirada por Deus e é útil para ensinar, para argumentar, para corrigir, para educar conforme a justiça. Assim, a pessoa que é de Deus estará capacitada e bem preparada para toda boa obra” (2 Tm 3, 16,17).
No silêncio da alma Deus fala, e esta precisa calar-se, aquietar-se para deixar que Ele purifique e dê sentido à sua vocação, ao seu chamado: “[...] fiz calar e sossegar a minha alma; como a criança desmamada se aquieta nos braços de sua mãe, como essa criança é a minha alma para comigo” (Sl 131, 2). Calar se torna expressão de sabedoria. Em Provérbios (8. 34-
35), o povo é instruído a permanecer em silêncio ao dizer “bem-aventurado o homem que me dá ouvidos”, ou seja, aquele que fica em silêncio para ouvir Deus.
O sábio reconhece que em certos momentos deve permanecer em silêncio, ou que em determinada  situação  certas  palavras  não  devem  ser  ditas.  Essa  atitude  sapiencial  pode adquirir um valor quando o orante reza a Deus para torná-Lo Senhor da própria linguagem: “Senhor, coloca um guarda em minha boca, uma sentinela à porta dos meus lábios” (Sl 141,
3). Segundo BÁEZ, carmelita descalço e bispo auxiliar de Manágua (Nicarágua), são raros os casos de oração silenciosa20 nos relatos bíblicos, no entanto, não faltam experiências em que a pessoa que ora se comunica com Deus sem ouvir a própria voz por meio da contemplação. Por isso, BAÉZ afirma que a oração é composta por duas dimensões que estão interligadas, que se relacionam mutuamente: o falar com Deus e o estar silenciosamente diante Dele. 21
Sendo assim, é possível encontrar algumas expressões bíblicas nas quais a “oração é simplesmente olhar silencioso” 22. São João da Cruz já afirma que: “o que mais precisamos fazer é conservar calados, na presença deste grande Deus, o nosso espírito e a nossa língua,
pois a linguagem que ele ouve é o amor silencioso”. 23
  

20 BAÉZ, S. J. Quando tudo se cala: o silêncio na Bíblia, São Paulo, Paulinas, 2011, p. 65.
21 Ibid. p. 93.
22 Ibid. p. 101.
23 CRUZ, J. Obras Completas. Petrópolis: Vozes, 1984, p. 951.



Na Antiga Aliança, o deserto era tido como o lugar da experiência íntima com o Senhor. Ele mesmo diz pela boca de Oséias: “Levá-la-ei à solidão e aí falarei a seu coração” (Os 2, 14). Na solidão da alma Deus fala e, de um modo especial, apresenta aos profetas a sua vontade para o povo; assim aconteceu com o profeta Elias, cujo nome significa meu Deus é Senhor24. Ele viveu numa época envolta em problemas sociais e crises religiosas. Sentindo-se profundamente  abatido,  por ser  o  único  que permanecera fiel  à Aliança,  recebe  a força necessária para prosseguir a realização de sua vocação: nunca deixou de anunciar que Deus vive. Na solidão do deserto e no „deserto do coração‟  de Elias, Deus se revela não nos
fenômenos da natureza que podiam ser escutados pelo ouvido, mas num silêncio que falava mais do que as próprias palavras, uma brisa leve, uma voz mansa, um ruído renovador: Lá ele entrou na gruta, onde passou a noite. E foi-lhe dirigida a palavra de Iahweh  nestes termos: “Que  fazes aqui,  Elias?”  Ele  respondeu:  “Eu  me consumo de ardente zelo por Iahweh dos Exércitos, por que os Israelitas abandonaram tua aliança, derrubaram teus altares, e mataram teus profetas a espada. Fiquei somente eu e procuraram tirar-me a vida.” E Deus disse: “Saí e fica na montanha diante de Iahweh.” E eis que Iahweh passou. Um grande e impetuoso furacão fendia as montanhas e quebrava os rochedos diante de Iahweh, mas Iahweh não estava no furacão; e depois do furacão houve um terremoto, mas Iahweh não estava no terremoto; e depois do terremoto um fogo, mas Iahweh não estava no fogo; e depois do fogo, o ruído de uma leve brisa. Quando Elias o ouviu, cobriu o rosto com o manto, saiu e pôs-se a entrada  da  gruta.  Então,  veio-lhe  uma  voz,  que  disse:  “Que  fazes  aqui, Elias?” Ele respondeu: “Eu me consumo de ardente zelo por Iahweh dos Exércitos, porque os israelitas abandonaram tua aliança, derrubaram teus altares e mataram teus profetas a espada. Fiquei somente eu e procuram tirar- me a vida.” (1 Rs 19, 9-14).
Numa perspectiva teológica, o silêncio é também “uma rica metáfora do ser e do agir de Deus que se revela através da Palavra que o manifesta e do silêncio que o esconde”.25 Na Nova Aliança o silêncio é necessário, a fim de que o homem, esvaziando-se de todas as palavras inúteis, acolha a Palavra de Deus que se faz carne e fixa morada entre os homens (Jo

24 OTTO A. Goerl. Elias o tesbita, Porto Alegre, Concórdia LTDA, 1991, p. 12.
25 Cf. FORTE, B.Teologia dela storia. Saggio sulla-rivelazione, L‟ inizio e il compimento milano: San Paolo,
1991, Simbólica Ecclesiale, p. 63.
1: 14). Nota-se que tanto na Antiga quanto na Nova Aliança, há uma relação existente entre o silêncio e a Palavra: Todo o Antigo Testamento, trajetória humana do pensamento à Encarnação da Palavra, é uma manifestação deste atributo de Deus: „silêncio-palavra‟. A exortação „Ouve Israel!‟ (Dt 6,4) ecoa por toda a História da Salvação à conclusão: Muitas vezes e de muitos modos, falou Deus outrora a nossos pais pelos profetas. Nos últimos dias nos falou pelo Filho, que constituiu herdeiro de tudo, por quem criou também o mundo (Hb 1, 1,2). Deus, em Jesus Cristo, traduziu a Palavra gerada no eterno silêncio trinitário (Sb18,
14-15),  através  da  Encarnação  e  no  nascimento  terreno  da  Palavra  no silêncio da noite de Belém (Lc 2, 1-4).26
Na Nova Aliança, vemos o silêncio da Virgem Maria antes e após a Anunciação do arcanjo Gabriel (Cf Lc, 1, 26-38). Ela, dócil às aspirações divinas, aprendeu no silêncio e na solidão, a meditar em seu interior as palavras que lhes eram ditas a respeito de sua vocação: ser mãe do Verbo Encarnado, Jesus Cristo.
Recolhida em oração e solidão reverente, Maria confia nos desígnios do Senhor, “toma consciência de que a melhor homenagem, a melhor maneira de agradecer e de ser fiel a tanta gratuidade era reverenciar todo aquele mistério com um silêncio total” 27, mesmo diante das consequências que acarretariam a partir de seu “fiat” (sim), como, por exemplo, o abandono do seu futuro esposo José, pois nada contou a ele (Cf. Mt 1, 19), e o apedrejamento social.  O  silêncio  de  Maria  aos  poucos  lhe  foi  dando  forças  para  enfrentar  todas  as
dificuldades que colocavam em risco a concretização desta missão. Até aos pés da cruz chorava em silêncio. Na dor e por amor encontrava-se abandonada em Deus. Assim, a Virgem de Nazaré torna-se o “protótipo e o modelo acabado” 28 da Igreja. A Mãe de Deus é imagem da  Igreja  “enquanto  arquétipo,  isto  é,  enquanto  „ideia‟ realizada  de  forma  perfeita  e inigualável”.29
O modelo bíblico por excelência deste silêncio é Jesus Cristo, Palavra do Pai. Todo o seu itinerário é uma lição profunda do silêncio; nasce no silêncio da gruta de Belém, vive
oculto, em silêncio antes de sua vida pública e, ao iniciá-la, recolhe-se em silêncio para orar

26 O silencio na vida carmelitana.
27 LARRANÃGA, Inácio. O silêncio de Maria. Paulinas, 1977 p. 115.
28 CONCÍLIO ECUMÊNICO VATICANO II. Constituição Dogmática Lumen Gentium. São Paulo: Paulus,
1997, 53
29 RATZINGER, Cardeal Joseph; BALTHASAR, Hans Urs Von. Maria, Primeira Igreja.Coimbra: Coimbra,
1997, p. 143.
ao Pai. No ápice daquele ardil momento em que a multidão gritava “mate-o, crucifica-o”, silencia, e, mesmo inocente condenado à morte, permanece em silêncio profundo. Na cruz, cercado por vozes que o insultavam e desafiavam a sua realeza, sente o silêncio do Pai. Abandonado, exclama: “Meu, meu Deus, por que me abandonaste?” E no silêncio da cruz se consome a vontade do Pai.
O silêncio divino, do qual procede a Palavra, se torna acessível no evento da cruz. O silêncio do Pai, que abandona o Filho e o entrega à morte, e o silêncio do Filho, que em amorosa obediência aceita a própria morte, é expressões de uma superabundância de amor, que excede toda capacidade humana de amar. O abandono total do Filho nas mãos do Pai, no silêncio lacerante do abandono e da morte na cruz, enche de sentido o tempo da escuridão e do silêncio de Deus. Naquele silêncio mortal no qual Jesus de Nazaré assume o pecado do mundo, realiza-se a comunhão infinita do amor entre o Pai e o Filho. 30
Não poderíamos acabar esta pesquisa sem mencionar, embora brevemente, que as Sagradas Escrituras ocupam um lugar primordial na vida de um carmelita. A RC, apesar de ter apenas 24 capítulos, possui mais de 100 citações bíblicas31. O Carmelita, homem da Palavra, no desejo de amar e de ser amigo de Deus é chamado a meditá-la através da sua leitura orante (Lectio divina). A leitura lenta, atenta e amorosa da palavra de Deus o permitirá sintonizar a sua vida com o próprio Cristo que o convida a viver o carisma do silêncio e da solidão como
caminhos para uma vida contemplativa e feliz.

O CARMELO E O SILÊNCIO

Na  proposta  de  vida  da  Regra  do  Carmo,  o  silêncio  é  essencial  e  um  meio indispensável àquele que deseja levar uma vida contemplativa e de união com Deus. E é exatamente na solidão do Monte Carmelo, que os primeiros carmelitas buscaram viver uma profunda intimidade com o mistério de Deus. Ao apresentar o silêncio, a Regra do Carmo compreende-o como caminho prudente, que deve ser observado, para o crescimento na vida de oração, na vida interior. Vejamos então o conteúdo do capítulo 21 da Regra do Carmo:
Recomenda  o  apóstolo  o  silêncio,  quando  em  silêncio  manda  trabalhar, assim como  o  profeta  afirma:  o  silêncio  fomenta  a  justiça,  e  ainda,  no silêncio e na esperança está a vossa força. Por isso, determinamos que, após a  recitação  das  completas,  guardeis  silêncio  até  depois  da  conclusão  da oração da Prima do dia seguinte. No tempo restante, ainda que não seja rigorosa a observância do silêncio, contudo evite-se com diligência todo o excesso no falar; pois conforme está escrito e ensina a experiência: no muito falar não faltará pecado e quem fala sem refletir julgará mal. Do mesmo modo, quem fala muito se prejudica. E diz ainda o Senhor no Evangelho: de toda a palavra inútil que os homens disserem darão conta no dia do juízo. Cada um de vós, por tanto, pese as suas palavras e ponha freio na boca, para não  escorregar  e  cair  por  causa  da  língua,  e  a  sua  queda  não  se  torne incurável e mortal. Vigie sobre a sua conduta, para não pecar nas suas palavras, como diz o profeta; procure observar atenta e prudentemente o silêncio que fomenta a justiça. 32
Apesar  da  insistência  em  que  a  Regra  recomenda  o  silêncio,  ele  não  é  uma imposição, mas um modo de vida a ser seguido a fim de alcançar uma vida coerente e justa. Historicamente, percebemos que mais do que normas a serem seguidas, as regras no período monástico eram direcionadas aos monges no intuito de alcançarem a sabedoria. E desde esse período, as regras, direcionadas aos homens, tendiam a “evitar os extremos da loquacidade [falar por falar] e priorizar a taciturnidade [ausência de som].” 33 Assim, a Regra do Carmo, nos diz MESTERS, “sintetiza e canaliza as águas do rio da tradição monástica e eremítica e a faz passar pelo jardim do Carmelo [...] para que produza frutos de justiça, de fraternidade e de santidade a serviço da Igreja e do povo”. 34
No jardim do Carmelo os primeiros Carmelitas experimentavam a doçura de Deus através do recolhimento de sua alma, mas isso não significa que viviam isolados cada um em sua gruta, nem tão pouco estavam desligados da realidade atual; ao contrário, mantinham o contato fraterno e juntos se encontravam para rezar, saborear o mel da doçura espiritual. Deste modo conservavam o dinamismo da vida carmelitana. Testemunha Jacques de Vitriy: “A vinha do Senhor brotou novamente. [...] Viviam em solidão, cada um a si, em cubículos como
colmeias, onde como abelhas colhiam o mel divino da doçura espiritual.” 35 Nesta realidade, o
silêncio povoava a todos e circundava cada coração apaixonado por aquele estilo de vida à imitação do profeta Elias.
O número 21 da Regra, diz MESTERS em sua célebre obra Ao Redor da Fonte, “têm quatro partes: 1) Descreve o valor do silêncio; 2) Organiza o Silêncio; 3) Recomenda a prática do silêncio; 4) Aponta o objetivo do silêncio.” 36  Cabe, pois fazermos uma releitura destes seguintes pontos parafraseando-os, contudo sendo fiel ao que diz o autor.
Na primeira frase, vemos que a Regra descreve o valor do silêncio, inicia pedindo que se trabalhe em silêncio. Depois, cita duas frases do profeta Isaías: “A justiça é cultivada pelo silêncio”, e “É no silêncio e na esperança, que se encontrará a força de vocês”. Desta maneira percebe-se que o silêncio recomendado pela Regra tem a sua origem nos profetas. É um  silêncio  que  gera  atos  proféticos  de  justiça,  de  esperança  e  de  força.  E  para  nós, carmelitas, o silêncio profético nos recorda o profeta Elias. Este silêncio profético se expressa em duas frases de Isaías: A justiça é cultivada pelo silêncio, que indica o esforço ativo para se atingir um determinado resultado; e a atitude de espera resistente de algo que deve ocorrer, e que não depende do esforço humano, mas do próprio Deus.
Seguindo a segunda parte do número 21 encontramos a organização do silêncio ao longo do dia e da noite de um carmelita. A noite é silenciosa, produz passividade. Já o dia é barulhento, em vez de silêncio, produz distração e, portanto, deixa as pessoas agitadas. Assim, a Regra pede um silêncio mais estrito para a noite e um menos estrito durante o dia. Dessa maneira, a Regra insiste para que o silêncio seja organizado de acordo com o ritmo do dia e da noite, a fim de criar canais concretos pelos quais o silêncio possa atingir as pessoas e gerar nelas a justiça, a esperança e a resistência.

34 AO REDOR DA FONTE, p. 159.
35 COMO PEDRAS VIVAS, p. 30.


Na terceira parte a Regra recomenda a prática do silêncio expondo como a pessoa deve fazer para cultivar o silêncio que gera a justiça. Tal cultivo expressa-se no controle da língua que é condição para o domínio da mente e para consciência crítica que nos revela as situações de morte que ameaçam a vida. Alberto aponta os perigos: no muito falar não faltará pecado; quem fala sem refletir sentirá um mal estar; quem fala muito prejudica a sua alma. E ainda diz Jesus: das palavras inúteis que os homens disserem prestarão contas no dia do juízo.
Por fim, conclui descrevendo o objetivo do silêncio. Ela pede para cada um fazer uma balança para as suas palavras e rédeas curtas para a sua boca, para que não tropece e caia, numa queda sem cura que conduz à morte. Pede que, assim como o profeta, cada um vigie a sua conduta para não pecar com a língua e que diligente e prudentemente se observe o silêncio pelo qual se cultiva a justiça. Noutras palavras: a ausência de silêncio conduz ao pecado e à morte. A prática do silêncio conduz à justiça e à vida.
No final do século XII, a Ordem se tinha estendido pela Europa. Contava com cerca de 150 casas, agrupadas em 12 províncias. Nicolau Gálico, que foi prior geral depois da metade do século, tentou reconduzir os carmelitas à vida puramente eremítica de silêncio e solidão. “O Carmelo de volta ao deserto”, era o grito do venerável carmelita, que ao escrever a Ignea Sagitta convoca os religiosos da Ordem a deixar as cidades e voltar ao estilo de vida eremítico, no silêncio e na solidão.
Na Ignea Sagitta encontramos um grande elogio à solidão, onde Deus revela os segredos de seus mistérios e consola os seus amigos. Fala da experiência que Abraão teve com Deus no Monte Sinai; menciona que na solidão deste monte a Lei foi dada a Moisés; retrata ainda que foi na solidão de uma cela37 que o Arcanjo Gabriel se manifestou a Maria e assim o Verbo do Pai se encanou verdadeiramente. “Felizes escondidos da vaidade do mundo, na solidão da nossa cela receberam as delícias do paraíso, que de tal maneira deleitam e saciam o nosso homem interior, que o seu apetite sempre aumenta e ao mesmo tempo fica saturado.” 38
A De Institutio Primorum Monachorum dá ênfase ao silêncio que deve ser guardado no recôndito do coração, como caminho para atingir o fim da vida monástica e eremítica: a perfeição. Como modelo, traz a figura do profeta Elias que, com firme vontade e em profundo silêncio,   decide   viver   na   aridez   do   deserto.   “Elias   foi   o   primeiro   homem   que,
deliberadamente, escolheu viver a vida monacal eremítica, e começou a vivê-la bem conforme



37 Entendida como tal, enquanto habitat pessoal de oração.
38 IGNEA SAGITTA, CAPÍTULO 9, p. 22.
o  significado  do  nome,  na solidão  da torrente do  Carit.” 39.  O deserto  é um  lugar que proporcionará ao homem se tornar virtuoso e a ter um coração puro. O documento segue narrando a primeira experiência dos carmelitas no Monte Carmelo, e que através do silêncio e da solidão se tornariam homens justos, sábios e profetas.
As Constituições da Ordem também estimula a prática do silêncio e do deserto do coração, sendo fiel às origens da Ordem no Monte Carmelo. Ela pede, veementemente, que o silêncio seja prudentemente observado em todas as casas da Ordem. Vê o silêncio como meio eficaz para a proximidade com Deus e a solidão do coração onde Deus se manifesta.
“O homem que deseja levar uma verdadeira vida interior vê no tempo de silêncio  uma  preparação  para  a  entrada  consciente  nas  proximidades  de Deus.  Também  não  poderá  renunciar  à  solidão  desta  ou  daquela  forma quando quiser ouvir a Deus que lhe fala ao coração.” 40
No jardim do Carmelo, muitas almas silentes cresceram no campo espiritual e se santificaram. Homens e mulheres que observaram o silêncio na solidão e se tornaram gigantes espirituais, espelhos de virtude e de intimidade mais profunda possível com Deus. Seus exemplos de vida são hoje o tesouro, a herança do Carmelo.   Aos carmelitas de hoje cabe contemplar seus feitos e desejar suas virtudes, possíveis a partir de uma vida no silêncio e em obséquio a Jesus Cristo.
Por um caminho consistente de oração autêntica, Teresa de Jesus (1515-1582) se tornou amiga de Deus, e Ele protagonista de sua existência. Ao longo de sua vida chegou à convicção  de  que  orar  não  é  questão  de  palavras-pensamento,  interessa,  pois,  manter  o coração à escuta e em solidão, pois a “Sua Majestade ensina que a oração seja feita na solidão”.41 Aqui parece que Deus e a alma se entendem, bastando Ele querer. No silêncio da sétima morada, diz Teresa: “Passa com tanta quietude e tão sem ruído que parece a construção do templo de Salomão, onde não podia haver ruído nenhum: assim, neste templo de Deus, nesta morada sua só Ele e a alma se gozam em grandíssimo silêncio”. 42
Um  dos  mais  célebres  graus  da  oração  é  a quietude,  na  qual  a  alma  atinge  o sobrenatural. Nesta fase, a alma encontra o perfeito equilíbrio entre ação e contemplação, pois, embora tenda ao silêncio e ao repouso, por não encontrar obstáculos no entendimento, pode  perfeitamente  praticar  obras  ativas.  Teresa  entrou  na  experiência  do  alto  silêncio

39 Institutio Primorum Monachorum, p. 21.
40 Constituições, 1971.
41 OBRAS COMPLETAS DE SANTA TERESA, 372.
42 SÉTIMA MORADA 3, 11.
contemplativo, no mais profundo do castelo interior, onde não é preciso artifícios para dar a entender o amor que existe entre esses dois amigos.
João da Cruz (1542-1591), também foi um grande místico do silêncio que buscava alcançar a perfeição da caridade e elevar-se à dignidade de filho de Deus pelo amor. “Ele experimentou o silêncio dos altos cimos da contemplação, como os alpinistas desfrutam o puro silêncio das altas cordilheiras.” 43A contemplação para ele não é um fim em si mesma, mas deve conduzir ao amor e à união com Deus pelo amor e, por último, deve levar à experiência dessa união à qual tudo se ordena. A contemplação passa por uma espaçosa zona
de silêncio. Esse silêncio é porta para o encontro e está ligado à solidão.
Em seu poema Cântico Espiritual, celebra em duas estrofes a passagem do ruído de palavras ao silêncio interior: “No Amado acho as montanhas, os vales solitários, nemorosos, as ilhas mais estranhas, os rios numorosos, e o sussurro dos ares amorosos; A noite sossegada, quase aos levantes do raiar da aurora; a música calada, a solidão sonora, a ceia que recreia e enamora”. 44

Vejamos ainda a explicação de João da Cruz para estas duas estrofes:
“Naquele sossego e silêncio da noite, naquela notícia da luz divina, a alma chega a ver uma admirável conveniência e disposição da Sabedoria, nas diferenças de todas as suas criaturas e obras, todas e cada uma delas dotadas de certa correspondência a Deus, de modo que lhe parece uma harmonia de música elevadíssima que sobrepuja todos os concertos e melodias do mundo. E chama a essa música de „calada‟, por que é inteligência sossegada e quieta, sem ruídos de vozes; e assim se saboreia nela a suavidade da música e a quietude do silêncio”.45
De fato, estas duas estrofes são certamente preciosas narrativas místicas que contagia e  convoca  à  admiração  e  ao  silêncio  profundo.  O  doutor  místico  insiste  na  pobreza  e
insuficiência de nossas palavras, quando nos dirigimos a Deus, pois “a maior necessidade que


43 O Silêncio, p. 139.
44 CANTICO ESPIRITUAL, João da Cruz.
45 Cântico espiritual João da Cruz.
  
temos para aproveitar é calar diante deste grande Deus com o apetite e com a língua, pois a linguagem que Ele ouve é a do amor silencioso.” 46 Um silêncio de amor, pressupõe a nudez das potências, para poder escutar a voz de Deus, que atua de forma silenciosa na alma contemplativa.
Além de Teresa de Jesus e João da Cruz, existem outros santos carmelitas amantes do silêncio e da solidão. Para concluir citaremos dois textos47 de duas santas da época recente: Santa Elisabeth da Trindade (1880-1906) e Edith Stein (1891-1942). Vamos aos textos:
Diz Elizabete da Trindade:“Sobre o Monte Carmelo, no silêncio e na solidão, numa oração que nunca se interrompe porque é continuada através de todas as ocupações, a Carmelita vive como viverá no céu [...]. Por isso a alma anela pelo silêncio para penetrar sempre mais no ser infinito. Ame o silêncio e a oração, esta é a essência da nossa vida. Parece que a atitude da Virgem, durante os meses que se passaram entre a Anunciação e o Natal é o modelo das almas interiores, das pessoas por Deus escolhidas para viver no interior, no fundo do abismo sem fundo [...]. Isso não a impedia de doar-se externamente quando a caridade o exigia”.
Diz Edith Stein: “No diálogo silencioso de pessoas consagradas a Deus antecipam-se os acontecimentos que renovam a Face da Terra [...]. Jesus dedicou-se à oração solitária na tranquilidade   da   noite,   no   alto   da   montanha,   no   deserto,   distante   dos   homens.”
46 Avisos, 10.
47 Textos presentes no livro O silêncio no Carmelo de Ir. Augusta de Castro, CDP p 65 e 66.

CONSIDERAÇÕES FINAIS

Na escola do Carmelo aprende-se que há uma dignidade no silêncio. Ele fomenta a justiça,  o  que  é  primordial.    Na  Regra  do  Carmo  o  encontramos  como  um  caminho introdutório da alma ao mistério de Deus e do próprio ser. Ele dispensa o excesso de palavreados a fim de que a alma calada escute a voz silenciosa d‟Aquele que se manifesta na brisa suave e principalmente no mais profundo da alma humana, em seu castelo interior.
Desde os eremitas do Monte Carmelo -mendicantes da Idade Média- aos carmelitas de hoje o silêncio e a solidão são tidos como armas que iluminam no caminho da íntima relação com Deus. O silêncio e a solidão tornaram-se verdadeiros baluartes onde a alma permanece e se eleva para a realização de sua dupla missão: ativa e contemplativa.
Testemunhas disto são os santos carmelitas que deixaram sua marca na vida terrena e hoje a celebram na celestial. Cada um deles, dentro das suas aptidões, conservou algo que é fonte de sabedoria e porta segura para o autoconhecimento e para o encontro com Deus: o silêncio, intrinsecamente ligado à solidão. Destes, os homens modernos parecem temer.
Estes homens são do barulho e da superficialidade não suportam o silêncio e a solidão, e por isso lançam-se na distração e na diversão. Buscam sentido para suas vidas, mas desconhecem o silêncio  como força unificadora dos sentidos e das vontades. Tornam-se vítimas de si próprios, homens velhos, de roupas velhas. Serão sempre homens do externo.
Uma vida recolhida e silente o ajudará a enxergar suas fraquezas e limitações. Possibilitará enfrentar as mudanças que são necessárias à sua evolução e a perceber que uma vida voltada unicamente para o exterior o fará criar uma falsa imagem de si e assim criar múltiplas personalidades. Por conseguinte nenhuma delas lhes será suficiente para o autoconhecimento e para o encontro com Deus, ao contrário, levará o homem a construir castelos de sonhos que desmoronam a qualquer ventania, justificará seus erros apontando para os dos outros sem a menor humildade para reconhecê-los em si mesmo. Acabará se perdendo no muito falar, sendo levados a grandes prejuízos.
A vida dos carmelitas na terra assemelha-se a uma longa caminhada: do berço ao túmulo despontam obstáculos que buscam lhes entravar os passos. A fortaleza vem de dentro, é certo, mas se firma de modo silencioso na alma possibilitando o autoconhecimento e a intimidade profunda com Deus. Quando a alma em silêncio sossega, o silencioso Deus fala, e assim, a alma em repouso recolhido poderá ouvi-Lo, percebê-Lo e experimentá-Lo. Na receptividade silenciosa desse encontro a alma se enamora e encontra a paz. Não há nada a fazer a não ser entrar em sintonia com Ele e, em silêncio, desfrutar da sua companhia. Precisamos celebrar o silêncio!

ANEXO

Silêncio no Antigo Testamento

Dt 27,9-10: “E Moisés, com os sacerdotes levitas, disse a todo Israel: “Silêncio! Ouve, Israel! Hoje, o Senhor, teu Deus, fez que te tornasses povo para ele. Escutarás a voz do Senhor, teu Deus; porás em prática seus mandamentos e suas leis, que hoje te dou”.
2Rs 18,36: “O povo permaneceu em silêncio e não respondeu uma só palavra, pois tal fora a ordem do rei: “nada lhe respondereis! ”.
Is 41,1: “Fazei silêncio diante de mim, vós, as ilhas, e que os povos retemperem sua energia, que se aproximem e então falem! Vamos juntos enfrentar-nos em juízo”.
Jr 6,2: “Tu, bela Sião, charmosa e delicada, és reduzida ao silêncio”.
Ez 24,15-18: “Veio-me uma palavra do Senhor: “Filho de homem, vou arrancar brutalmente & alegria de teus olhos. Não celebrarás o luto; não farás lamentação e não chorarás. Suspira em silêncio; não realizarás os ritos fúnebres; amarra teu turbante, calça tuas sandálias; não cubras o bigode e não aceites o pão dos vizinhos‟. Falei ao povo de manhã, e minha mulher morreu de tarde; na manhã seguinte, executei as ordens recebidas”.
Os 4,5-6: “Tropeçarás de dia, e o profeta tropeçará contigo de noite; reduzirei tua mãe ao silêncio. Meu povo será reduzido ao silêncio por falta de conhecimento. Já que rejeitaste o conhecimento, eu te rejeitarei, não serás mais meu sacerdote”.
Am 6.10: “... „Silencio? Ninguém mais invoca o nome do Senhor!”.
Hab 2.20: “Ao contrário, Senhor está em seu santo templo: Silêncio diante de sua face. ó terra inteira!"
Zc 2,17: “Silencio, toda criatura, perante o Senhor! Pois ele desperta e sai de sua morada santa“.
Ze 3.2: “O anjo do Senhor disse ao Satan: “Que o Senhor te reduza ao silêncio, Satan; sim, que o Senhor te reduza ao silêncio, ele que escolheu Jerusalém. Quanto àquele homem, acaso não é ele um tição arrancado ao fogo?”
Sl 8.3: “Pela boca dos pequeninos e das criancinhas de peito, fundaste uma fortaleza contra teus adversários, para reduzir ao silêncio inimigo vingativo”.
Sl 39.3: “Enclausurei-me no silêncio, e calei-me, mais do que convinha. Minha dor tornou-se insuportável”.
Sl 83,2: “Ó Deus, sai do teu silêncio; o Deus, não fiques inerte e mudo”. morada”
Sl  94,17:  “Se  o  Senhor  não  me  tivesse  socorrido,  logo  o  silêncio  seria  minha
Sl 101,5: “Aquele que difama os outros em segredo, reduzi-lo-ei ao silêncio. O olhar orgulhoso, o coração ambicioso, não consigo tolerá-los”.
Sl 107,29: “Bradaram ao Senhor em sua aflição, e ele os tirou de suas angústias: reduziu a tempestade ao silêncio, e as ondas calaram-se.
Sl 115,17: “Não são os mortos que louvam ao Senhor, eles que descem todos ao silencio. Quanto a nós, bendiremos o Senhor, desde agora e para sempre. Aleluia”.
Jó 4,16: “Ele se mantinha de pé, não o reconheci. O espectro permanecia diante de meus olhos. Um silencio... e então ouvi uma voz: Será o mortal mais justo que Deus? O homem, mais puro que seu autor?”
Jó  29,21:  “Escutavam-me  com  atenção,  em  silêncio,  acatavam  minha  opinião. Depois de eu ter falado, ninguém replicava, gota a gota caíam neles minhas palavras”.

O Silêncio no Novo Testamento

Mt 26,62-63: "O Sumo Sacerdote levantou-se e lhe disse: 'Nada tens a responder? De que é que esta gente testemunha contra ti?" Mas Jesus guardava silêncio. O Sumo Sacerdote lhe disse: 'Eu te conjuro pelo Deus vivo que nos digas se tu és o Messias, o Filho de Deus?
Mc 4,39: "Despertado, Jesus ameaçou o vento e disse ao mar: 'Silêncio! Cala-te'. O vento cessou, e houve grande bonança"
Mc 14,61: “Mas Jesus guardava silêncio; nada respondeu".
Lc 1,20: “Pois bem, vais ficar reduzido ao silêncio e não poderás mais falar' até o dia em que isto se realizar, porque não creste em minhas palavras, que se realizarão a seu tempo”.
Lc 9,36: “No momento em que a voz ressoou, Jesus ficou só. Os discípulos silêncio e, naquele tempo, não contaram a ninguém nada do que haviam visto”.
Lc 14,3-4: "Jesus tomou a palavra e disse aos legistas e aos fariseus: 'É permitido ou não curar um doente no dia de Sábado? ' Mas eles ficaram em silêncio. Então Jesus, tomando o doente, curou-o e despediu-o".
At 15, 12: "Houve então um silêncio em toda a assembleia, a seguir escutaram Barnabé e Paulo contar todos os sinais e prodígios que Deus, por intermédio deles, realizara entre os pagãos".
At 21,40-22,2: “Concedida a autorização, Paulo, de pé nos degraus, fez um sinal com a mão ao povo. Fez-se um grande silêncio, e ele lhes dirigiu a palavra em língua hebraica: “Irmãos e pais, escutai a defesa que eu tenho para vos apresentar agoraª. O silêncio fez-se maior ainda quando ouviram Paulo dirigir-lhes a palavra em língua hebraica”.
Rm 16,25-27: “Aquele que tem o poder de vos confirmar, segundo o Evangelho que eu anuncio, pregando jesus Cristo, segundo a revelação de um mistério guardado no silêncio durante tempos eternos, mas agora manifestado e levado ao conhecimento de todos os povos pagãos  por  escritos  proféticos,  segundo  a  ordem  do  Deus  eterno,  para  os  conduzir  à obediência da fé, a Deus, único sábio, glória, por Jesus Cristo, pelos séculos dos séculos!
Amém”.
1Tm 2,11-12: “Durante instrução, a mulher deve guardar silêncio, com toda submissão. Não permito à mulher que ensine, nem que domine o homem. Mantenha-se, portanto, em silêncio”.
Ap 8,1-2: “Quando ele abriu o Sétimo selo, fez-se no céu um silêncio de meia hora... E vi os sete anjos que estão diante de Deus-...”

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