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A Palavra do Frei Petrônio

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sábado, 12 de agosto de 2017

19º- Domingo do Tempo Comum. (Mt 14, 22-33). “Coragem! Eu sou. Não tenham medo!”

Comentário de Frei Petrônio de Miranda, Padre Carmelita e Jornalista, Rio de Janeiro.

 

ELIAS, PEDRO E TODOS NÓS: O MEDO DE CADA DIA.

-Na primeira leitura (1Rs 19, 9ª. 11-13), nos deparamos com o Profeta Elias (c. 850 a.C.), Pai e guia da Ordem do Carmo. No Monte Carmelo ele tinha invocado o fogo do céu -sobre os sacerdotes de Baal. Com medo da rainha Jezabel- adoradora de baal, foge até o Horeb, a mesma montanha no deserto do Sinai onde Deus tinha mostrado a sua força e majestade a Moisés e ao povo de Israel durante o êxodo do Egito. É lá, na calmaria que Javé se manifesta não no fogo, não no terremoto ou no furacão, mas na brisa suave.
-O Deus que se manifesta no Evangelho desse domingo em Jesus Cristo- a exemplo do encontro de Elias- não é um Deus grandioso, mas sereno (Mt 14, 22-33). Ele nos ajuda a superar os nossos medos diários e nos incentiva a caminhar frente as perseguições- A exemplo do Profeta Elias- ou dos medos nossos de cada dia- A exemplo de Pedro.
-Quando falamos em Deus, em nossa mente vem as megaproduções de filme de Hollywood mostrando o poder total de um Deus barulhento e poderoso. Na liturgia desse domingo a imagem desse Deus não existe. Ele é o Deus da brisa de Elias e o Deus da calmaria de Jesus. Temos a capacidade e encontra-lo?  


UM OLHAR DE MEDO PARA O BRASIL...

-A cada 23 minutos, um jovem negro é assassinado no Brasil.

-Nós, cidadãos e cidadãs da cidade “maravilhosa”, convivemos com uma estatista assustadora. Nesse ano, apenas de janeiro a julho, 632 pessoas foram atingidas por balas perdidas, uma média de 3,4 casos por dia no estado. Dessas, pelo menos 67 morreram. Repito, 67 vítimas inocentes da violência bárbara em nossas ruas e comunidades carentes. NÓS TEMOS MEDO!
-Nove entre cada dez pessoas mortas pela polícia no Estado do Rio de Janeiro são negras e pardas.
-Mais de 900 Caminhoneiros foram vítimas de assalto em junho no estado do Rio de Janeiro. No estado, são 27 roubos desse tipo por dia. Repito, 27 roubos desse tipo por dia! A situação na cidade está insustentável!
-Até o dia de hoje, 95 Policiais foram assassinados. Vivemos uma crise na segurança pública, na saúde, na educação... Crise ética, política e social. NÓS TEMOS MEDO!
-Desde 2015 foram assassinadas 23 crianças por bala perdida em nossa cidade. NÓS TEMOS MEDO!

UM OLHAR DE MEDO PARA ALGUNS SETORES DA IGREJA
-Mesmo com olhar carinhoso, humano e solidário do Papa Francisco, nos deparamos com uma Igreja triunfalista, conservadora e descomprometida.
-Na última Greve Geral- Apesar do apoio declarado em vídeos e cartas nas mídias sociais de mais de 100 bispos e Arcebispos- o que vimos foi a grande maioria em silêncio diante do desmonte do país.
-Nos seminários e conventos-verdadeiras fábricas de padres- nos deparamos com jovens conservadores e ultraconservadores com estampas e mensagens em suas páginas nas mídias sociais de ornamentos da idade média. Francisco- o Papa dos pobres- perde para Bento XVI e, muitos padres jovens aderiram o rito antigo. Digo, a Missa de costa para o povo.
-Grito dos Excluídos, Movimentos Sociais? Sob hipótese alguma estão na agenda de tais sacerdotes consagrados para o anuncio da Boa Nova daquele que Morreu na Cruz para salvar os pobres e todo ser humano explorado na sua dignidade.  

UM OLHAR DE FÉ E ESPERANÇA.
-Na Igreja, apesar da barca em alta mar ameaçar afundar, nos alegramos com Evangelii Gaudium- Alegria do Evangelho- a primeira Exortação Apostólica pós-Sinodal escrita pelo Papa Francisco, nos motivando viver a alegria do anuncio e da vivência da fé e do compromisso assumido em nossa missão.
-Mesmo com o caos e a destruição da natureza no Brasil e no mundo, nos deparamos com um olhar de fé e esperança a partir da Carta Encíclica do Papa Francisco, Laudato Si- o cuidado da Casa Comum.
-Apesar dos profissionais da corrupção e de um governo que está destruindo os Movimentos Sociais, ainda encontramos homens e mulheres que, mesmo nas eternas noites escuras, continuam lutando por um novo dia com mais justiça social, ética e solidariedade.  
  
Comentário de Johan Konings, jesuíta.
- No seu zelo pelo único Senhor e sofrendo a perseguição da rainha Jezabel, adoradora das divindades pagãs, o profeta Elias (c. 850 a.C.) invocou o fogo do céu sobre os sacerdotes de Baal, no monte Carmelo. Mas Deus o fez experimentar que o zelo não é sempre vitorioso e que sua vocação não é a violência, mas o serviço paciente. Elias, perseguido, fica sem força e foge até o Horeb, a montanha no deserto do Sinai onde anteriormente Deus tinha mostrado a sua grandeza a Moisés e ao povo de Israel durante o êxodo do Egito. Elias quase que deseja provocar Deus a mostrar novamente sua força e a esmagar aqueles que passaram os seus profetas a fio de espada (cf. 1Rs 19,9-10). E aí Deus lhe fala, porém não nos elementos violentos. Deus o manda esperar no cume da montanha. Passa um vento violento, mas Deus não está no vento violento; há um terremoto, mas Deus não está no terremoto; flameja o fogo, mas Deus não está no fogo. Depois, ouve-se o murmúrio de uma brisa ligeira… Então, Elias cobre o rosto e escuta a voz de Deus.
- Deus é precedido pela tempestade, mas domina-a. É na calmaria que ele dirige a palavra a Elias. Jesus domina as ondas do lago e dissipa o pânico dos discípulos. Sua manifestação é um convite a ter fé nele.
- A Igreja como poderosa instituição está sendo atingida pelo desmantelamento da força política que durante muito tempo lhe serviu de sustentáculo: o Ocidente e suas extensões coloniais. “Morreu a cristandade”, o regime no qual Igreja e Sociedade se identificavam. Sociologicamente falando, a Igreja aparece sempre mais como o que era no início.
- As dificuldades que a Igreja enfrenta hoje devem nos fazer enxergar melhor a presença de Cristo em novos setores da Igreja, sobretudo na população empobrecida e excluída da sociedade do bem-estar globalizado. De repente, Jesus se manifesta como calmaria no ambiente tempestuoso das “periferias” do mundo, na simplicidade das comunidades nascidas da fé do povo.

Comentário do monge italiano Enzo Bianchi, fundador da Comunidade de Bose.
- De acordo com o quarto Evangelho, depois da multiplicação dos pães, aquelas pessoas à espera de um libertador político que faça reinar a justiça e enche todos os pobres de alimento, gostaria de proclamar Jesus como Rei Messias, e é por isso que Jesus se retira para o monte sozinho (cf. Jo 6, 14-15). 
- Eis, então, Jesus em solidão e em oração, na montanha, lugar não habitado, onde ele encontra silêncio e quietude, montanha que, para a Bíblia, é o lugar das grandes revelações de Deus.
Sabemos que Mateus apresenta a montanha como lugar da tentação de Jesus (cf. Mt 4, 8-19), da proclamação do discurso do Reino (cf. Mt 5-7), da transfiguração (Mt 17, 1-8), da missão entregue aos discípulos pelo Ressuscitado (cf. Mt 28, 16-20). Mas aqui é lugar de solidão e de oração.
- Jesus, na solidão, é um ícone que deveríamos ter mais presente, justamente porque, na sua humanidade plena e absoluta, assumida na encarnação, ele buscou na solidão a vontade do Pai. Na Solidão ele lutou na contra as tentações, vencendo Satanás, graças ao único sustento na Palavra de Deus, conservada, interpretada e rezada no coração. 
- Na solidão, Jesus se preparou para concordar com a lógica da cruz, com o perdão dos seus inimigos, com o amor aos seus discípulos até o fim (cf. Jo 13, 1). Ele viveu pelo menos 30 anos de solidão antes da sua missão pública. Portanto, a solidão não foi, para ele, lugar de ausência, mas sim de presença de Deus.
- Jesus se retirava- Na Solidão- à parte para rezar. Mas o que era a oração de Jesus? Acima de tudo, escuta de Deus, do Pai, do “Abba”(Mc 14, 36)
- Os Padres da Igreja sempre interpretaram assim essa barca longe da margem e jogada pelas ondas. Em todas as horas da história, a barca dos discípulos de Jesus se cruza com ventos contrários e tempestades: não pode ser de outra forma neste mundo, onde, contra os discípulos de Jesus, desencadeiam-se, muitas vezes, oposições, inimizades, perseguições.
- O caminho da Igreja, de cada comunidade cristã, de cada um de nós conhece e conhecerá contrariedade, horas de medo, sofrimentos e dificuldades. 

Comentário é de Ana Maria Casarotti, Missionária de Cristo Ressuscitado.
- Somente as pessoas que fazem essa travessia têm convicção suficiente para comunicar a outras a força e o ânimo indispensável para isso. Elas sabem das dificuldades que tiveram que atravessar. Os discípulos ajoelham-se diante de Jesus e adoram-no como o Senhor da sua vida.
- Unamo-nos a eles e a tantos desconhecidos que atravessam tormentas, tempestades, impulsionados pela procura de uma terra nova. Que a vida nas nossas comunidades seja um exemplo da coragem que nos conduz e fortalece sempre. Que saibamos comunicar a humildade de Pedro, que reconhece que afunda e por isso procura a mão estendida de Jesus para salvá-lo.
- Hoje há muitas situações de pessoas que escolhem navegar num mar desconhecido, à procura de uma terra diferente. Movidas pelo amor a sua família e pela coragem, sem nenhuma segurança, arriscam suas vidas à procura da terra, de alimento. Desafiam as tormentas que se apresentam numa pequena e quase insignificante barca. A exigência de sair de um mundo de contínua destruição, onde suas mulheres, meninos ou meninas podem ser capturados para ser vendidos como escravos sexuais ou de trabalho. 

Comentário de Adroaldo Palaoro, sacerdote jesuíta.
- As experiências obscuras, as tribulações, as tempestades... são inerentes à fé cristã; estão presentes em todas as pessoas. Mas isso deve nos permitir renovar constantemente uma confiança e uma união com o Senhor na realidade mais cotidiana.
- Chegamos à pós-modernidade com uma enorme carga de medo; somos atormentados o tempo todo pelo medo; um medo sem nome, um fantasma sem rosto, escuro como uma sombra e rápido como uma tempestade; medo cruel que afeta os corajosos e agride os ousados. Não existe depósito de munição mais potencialmente explosivo do que os estoques de medo guardados nas escuras profundezas do ser humano. Há um verdadeiro pânico permanente envolvendo grupos, pessoas e instituições.
- Seguir Jesus implica estar continuamente passando para a outra margem; passar para o outro diferente, não permanecer fechado em si mesmo. “Passar para o outro” como condição necessária para “passar para Deus”. Aquele que se instala, se perde, envolve-se na tormenta. É preciso buscar sempre novos espaços e novos horizontes. E toda travessia implica “correr riscos”.
- Percebemos que algumas pessoas fazem opção pelo porto seguro das falsas certezas e seguranças, mas outros preferem correr o risco do “mar agitado” e são capazes de construir o novo. As tempestades, o vento contrário, a escuridão da noite... “agitam a alma dentro de nós”.

Para meditar na oração. Para fazer a “travessia da vida” será necessário descobrir:
1- Quantos fantasmas há em sua vida que o paralisam, o impedem de avançar, o travam na hora de tomar decisões?
2- Quantos fantasmas o impedem crescer, assumir os desafios, ser criativo...
3- Numa dimensão mais ampla, quantos fantasmas há na igreja que não a deixam rejuvenescer-se, que a impedem viver um processo de contínua mudança, que a fazem suspeitar de tudo, que a fazem surda aos chamados de Deus no meio das tormentas da atualidade?







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