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sábado, 13 de maio de 2017

“Nossa Senhora não apareceu aos pastorinhos em Fátima”. Entrevista com Anselmo Borges

 

Filósofo e teólogo, professor da Universidade de Coimbra, o padre português Anselmo Borges (Paus, 1944) publica Francisco: desafios à Igreja e ao Mundo (Gradiva), em cuja apresentação esteve o Presidente da República. Profundamente ‘franciscano’, crítico e livre, o escritor denuncia o “adormecimento” da Igreja portuguesa, critica “o clericalismo e o carreirismo” como “peste da instituição” e espera que a visita do Papa Francisco a Fátima sirva para sacudi-la de sua letargia. Embora Nossa Senhora não tivesse aparecido ali aos pastorinhos. A entrevista é de José Manuel Vidal, publicada por Religión Digital, 11-05-2017. A tradução é de André Langer

Eis a entrevista.

Qual é a tese de fundo do seu livro Francisco: desafios à Igreja e ao Mundo? Ela se resume ao título da obra?
Em certo sentido, a tese está no título. Creio que o professor jesuíta Juan Masiá, que leu o livro, diz o essencial, embora se tenha que descontar o que exagera em função da nossa amizade: ‘No contexto de um mundo globalizado, Anselmo Borges apresenta uma excelente síntese para entender o desafio franciscano e jesuíta do Papa. O autor utiliza, de forma brilhante, duas chaves do pensamento e da ação do Papa Francisco: o discernimento, para diagnosticar os desafios, e a misericórdia, para curar as feridas. Anselmo Borges, que acompanha o caminho de Francisco pelas periferias do cuidado da vida na Igreja e na política, demonstra que é capaz de articular de forma correta a implicação que transforma os desafios da Igreja em desafios de Francisco para o mundo do século XXI’.

Quais são os objetivos que o senhor persegue com esta nova publicação?
Eu estou convencido de que Jesus Cristo é e anunciou a maior revolução da História da Humanidade. Ele é o Evangelho vivo de Deus para todos: a boa notícia de que Deus é Amor e Misericórdia. Infelizmente, muitas vezes o que a Igreja comunicou, com palavras e obras, foi e é, na expressão de Nietzsche, um ‘Anti-evangelho’, isto é, uma notícia triste e que não encaminha para a felicidade.
Agora, o Papa Francisco traz novamente o Evangelho, e as pessoas percebem nele, em suas palavras, em seus gestos e em suas atitudes, quem é, o que fez e o que quer Jesus. Na minha opinião, o Papa Francisco é um líder político-moral global decisivo para o futuro da Igreja e da Humanidade.

O senhor compartilha a tese de que Francisco é o Papa da primavera?
Não há dúvida alguma. O Concílio Vaticano II foi uma primavera, à qual se seguiu um longo inverno. Um dos sinais mais dramáticos disso constata-se na condenação de tantos teólogos, assim como na nomeação de bispos conservadores. Francisco quer que se caminhe na linha do Vaticano II.
A primavera reflete-se no próprio nome que Bergoglio escolheu: Francisco. O Papa é franciscano por opção e, por isso, é cristão. Esta é a revolução de Francisco: ele é cristão, não porque foi batizado, mas porque segue Jesus em sua vida. Basta ver como ele se comporta. É simples, humilde, abraça, beija, está com todos e, sobretudo, com quem ninguém ou pouquíssimos estão: os mais pobres, os marginalizados, os injuriados, os humilhados, as pessoas das periferias.
Mas, ao mesmo tempo, o Papa é jesuíta, formado para a eficácia, no contexto do mundo atual globalizado. Por isso, luta para fazer uma revolução dentro da Igreja: tolerância zero para o flagelo da pederastia, transparência plena no Banco Vaticano, reforma profunda e constitucional da cúria romana (será a cúria passível de reforma?), primado da pastoral sobre o dogma no cuidado das pessoas concretas, do Evangelho sobre o Direito Canônico, governo sinodal da Igreja em todos os níveis, inculturação do Evangelho nas diferentes culturas, participação ativa dos leigos, não discriminação das mulheres, o próximo Sínodo é para e com todos os jovens (também com os afastados da Igreja, os agnósticos e os ateus), abertura de portas para o fim do celibato obrigatório com a ordenação de homens casados, diálogo com e entre as diferentes Igrejas cristãs (nunca se apresenta a si mesmo como Papa, mas como Bispo de Roma e elogia Lutero, foi ao Egito,  encontrou-se com o papa dos coptas e com o imã da mesquita-universidade de Al-Azhar) e diálogo inter-religioso, concretamente com o Islã moderado.

Anúncio e denúncia
Ele anuncia o Evangelho e denuncia os infortúnios da Igreja no mundo. A Encíclica Laudato Si’ sobre a ecologia integral fará história e repete que este capitalismo desregulado e selvagem ‘mata’, que no centro da economia tem que estar a pessoa (todas as pessoas) e não o deus-dinheiro. Luta pela paz, com intervenções eficazes, como se viu nas relações entre os Estados Unidos e Cuba ou na Colômbia. Foi a Israel e ao Egito e vai ao Sudão do Sul.  E gostaria de ir ao Iraque, Moscou e, sobretudo, a Pequim, especialmente porque está convencido de que o futuro do cristianismo se joga em grande medida na Ásia.

Como fazer para que a sua revolução da ternura se solidifique nos diferentes países e nas diferentes dioceses?
O Papa é cristão e sua principal missão é tentar fazer com que os católicos, a começar pelos cardeais, bispos e sacerdotes, se convertam em autênticos cristãos e em verdadeiros discípulos de Jesus. Isso é essencial. Sem esta conversão não se conseguirá avançar. Cada pessoa tem que se perguntar a si mesma: o que significam para mim Jesus e seu Evangelho? De fato, o Evangelho só pode ser anunciado aos outros se realmente é uma boa notícia que dá sentido à nossa vida. A partir daí, dessa experiência fundante e radical, é necessário agir em conformidade.

As velhas inércias dos bispos-príncipes e o clericalismo são os principais inimigos de Francisco?
Eu parto da convicção de que o clericalismo, o carreirismo eclesiástico e a atitude dos bispos-príncipes são a peste da Igreja. O carreirismo impede a liberdade de pensamento e de ação. A atitude dos bispos-príncipes atenta contra a revolução essencial do Evangelho de Jesus, que sobre o poder disse: ‘Não vim para ser servido, mas para servir’. De fato, o grande problema de Francisco são os que deviam ser seus ‘mediadores’: cardeais, bispos e padres. Com as gloriosas exceções que todos nós conhecemos.

Como se situa na prática o episcopado e o clero português diante de Francisco?
Eu diria que ignorando e silenciando. Não consigo ver o novo dinamismo que Francisco está imprimindo à Igreja.

Sua visita a Fátima pode sacudir o adormecido catolicismo de seu país?
Creio que ‘adormecido’ é o termo exato. A visita do Papa Francisco pode fomentar somente um entusiasmo passageiro, que pode contribuir inclusive para um maior adormecimento. Temo que, depois da sua visita, se continue com uma pastoral de devoção, muito centrada nas liturgias fossilizadas, com homilias que, na maioria dos casos, não estão preparadas, mas distanciadas da vida, com um afastamento crescente por parte da juventude e com um clero pouco culto e bastante instalado. Meus receios aumentam, quando tenho que me perguntar até que ponto a Doutrina Social da Igreja está presente nas faculdades de Direito e de Economia e Gestão da Universidade Católica Portuguesa, cujo Grão-Chanceler é o cardeal-patriarca de Lisboa. Por outro lado, pergunto-me se o feriado (os funcionários públicos podem deixam de ir ao trabalho para ver o Papa) concedido não é um ‘bom negócio’ para o Governo, dado que a Igreja vai ficar devendo esse ‘favor’. Mas, quem sabe? Talvez possa dar-se essa sacudida de que você fala.

Nossa Senhora apareceu em Fátima? O senhor acredita nas aparições de Fátima?
Em primeiro lugar, Fátima não é um dogma de fé. Portanto, pode-se ser um bom católico, sem crer em Fátima. Fátima não faz parte do Credo. Mais ainda, Fátima não ocupa, nem pode ocupar, o centro do cristianismo. O centro da fé é Jesus de Nazaré, confessado como Cristo. Portanto, o centro do Evangelho é Jesus Cristo e o Deus de Jesus e todas as pessoas que Ele ama.
Dito isso, confesso que não me custa admitir que as três criaturas, os pastorinhos, tenham tido uma verdadeira experiência religiosa em Fátima. De fato, não consta que tenham sido pagos para dizer que viram Nossa Senhora. Pelo contrário, sofreram muito por isso. A própria Igreja, em um primeiro momento, mostrou muitas reticências. Mas é evidente que se tratou de uma experiência religiosa de crianças e ao estilo das crianças e em um contexto histórico especial, no qual a Igreja era perseguida pela Primeira República em Portugal, o mundo estava em guerra (os pastorzinhos certamente ouviram falar da Primeira Guerra Mundial e de como os soldados partiam para a guerra) e vivia-se em um contexto religioso, que implicava as chamadas missões populares, com pregadores ‘missionários’ que vinham de fora e que, do alto dos púlpitos, aterrorizavam os fiéis com sermões sobre o temor de Deus e o terror do inferno. As crianças ouviam todas estas coisas na igreja e em casa.
Tratou-se, pois, de uma experiência religiosa infantil e segundo os esquemas e um imaginário hermenêutico-interpretativo situado nesse contexto. Não se pode esquecer que a experiência religiosa sempre se dá dentro de uma interpretação, de tal modo que há experiências religiosas melhores e outras nem tão boas. A experiência daquelas crianças não foi das melhores. Para ver isso, basta perguntar-se: que mãe mostraria o inferno a crianças de 10, 9 e 7 anos? Os pastorinhos ficaram marcados negativamente e, de alguma maneira, com a vida quebrada. Ao mesmo tempo, é admirável a imensa generosidade que tiveram diante da situação que estavam vivendo, dando a pouca comida que tinham às ovelhas, para pedir pela conversão dos pecadores. Além disso, aquele núcleo de experiência foi submetido a mil arranjos ao longo do tempo, de acordo com os novos esquemas interpretativos. No contexto das novas situações e dos novos progressos, aparecem, por exemplo, o combate contra o comunismo. Ao contrário, não se falou absolutamente nada sobre a necessária condenação do nazismo...

Maria, a mãe de Jesus, apareceu em Fátima?
Aqui, o decisivo é fazer uma distinção fundamental entre aparições e visões. Uma aparição é objetiva, quando, por exemplo, estamos falando com uma pessoa e chega outra, ambos vemos a terceira pessoa que chega. Se estivéssemos em quatro ou cinco pessoas, seríamos quatro ou cinco vendo e constatando a chegada objetiva desta outra pessoa. Evidentemente, não foi isso que aconteceu em Fátima e, neste sentido, está claro que Nossa Senhora não apareceu em Fátima aos pastorinhos. Se fosse uma aparição, todos os presentes veriam e constatariam a sua presença, algo que não aconteceu, nem podia acontecer, pois Maria não tem corpo físico, que possa mostrar-se empiricamente.

Fátima é um milagre da religiosidade popular ou um puro negócio de marketing religioso?
Sim, Fátima é um milagre da religiosidade popular. O grande milagre de Fátima são os seis milhões de pessoas que anualmente visitam o santuário e ali encontraram e encontram paz, serenidade e recolhimento, consolo e alívio para suas aflições e seus sofrimentos, conversão ao Deus de Jesus e àqueles que Ele ama. O dominicano Frei Bento Domingues deu uma definição insuperável de todo esse fenômeno: ‘Fátima é a fonte de todas as lágrimas dos portugueses’.
Infelizmente, Fátima também é um negócio perigoso. Por isso, digo com frequência que Fátima precisa ser evangelizada. Diante do Deus do medo e do terror, anunciar o Deus do Evangelho, o Deus da alegria, da misericórdia, do perdão, o Deus que é Pai e Mãe, o Deus cujo único interesse é a felicidade e a plena realização de todos os homens e mulheres. O Deus que diz: ‘Não quero sacrifícios, mas misericórdia’. O Deus que rejeita a religião das promessas, porque Ele é graça.
Por outro lado, é necessário acabar com a queima de milhões de velas, inclusive por uma razão ecológica. E a Igreja terá que prestar contas, para que não haja dúvidas sobre a transparência em questões de dinheiro.

Por que o Papa vai a Fátima?
Francisco é muito devoto de Maria, sobre a qual disse: ‘Ela é minha mãe’. Por isso, ele vem como peregrino e não em visita oficial de Estado.
Em Fátima, o papa vai canonizar os dois pastorinhos menores: Jacinta e Francisco. No meu livro, também chamo a atenção para os perigos das canonizações e a questão da necessidade de milagres para comprovar a santidade. Na minha opinião, os únicos milagres são os milagres do amor. Pensar que Deus interrompe ou suspende as leis da natureza supõe pensar que Deus está fora do mundo e que, de vez em quando, entra no mundo e ajuda, arbitrariamente, a uns e não a outros. Pois bem, Deus não está fora, mas dentro, como fundamento do milagre da existência de tudo. Precisamente, porque tudo é milagre – o milagre de existir, de ser e de entender-se como ser – não há ‘milagres’, porque implicariam o ateísmo.
Todas as crianças são santas, porque são puras e inocentes. Por isso, espero que esta canonização sirva para se mobilizar pela salvação de todas as crianças do mundo, para acabar com a violência, os abusos, o tráfico de pessoas, o trabalho infantil e a exploração de todas as crianças do mundo. Que se acabe de uma vez por todas com a tragédia da morte por fome de 10 mil crianças por dia no mundo... Caso se concretizasse este salvamento das crianças, esse, sim, seria o autêntico milagre de Fátima.

Qual acredita ser a mensagem que o Papa vai lançar de Fátima para o mundo? Que mensagem o senhor lhe pediria que lançasse?
Eu estou convencido de que nos proporcionará uma homilia histórica, de dimensão mundial, com um apelo dramático pela paz e pela justiça social, contra o deus-dinheiro, a favor do diálogo entre as nações, as culturas e as religiões. Certamente, pedirá aos católicos para que se tornem cristãos, discípulos vivos e ativos de Jesus no mundo. Uma homilia que será recordada, como a de Paulo VI, quando, em plena Guerra Fria, gritou dramaticamente e com os punhos cerrados em Fátima: ‘Homens, sede homens’.
Também espero que Francisco faça referência ao verdadeiro lugar de Maria no cristianismo – não é, nem pode ser, o centro do cristianismo –, como fez no Vaticano, diante da imagem de Nossa Senhora de Fátima: ‘Em que medida a fé de Maria foi um caminho? No sentido de que toda a sua vida consistiu em seguir o seu filho. Progredir na fé, progredir nesta peregrinação espiritual que é a fé consiste em seguir Jesus e ter seus sentimentos e atitudes. E quais são os sentimentos e as atitudes de Jesus? Humildade, misericórdia, solidariedade, mas também firme repulsa da hipocrisia, do fingimento e da idolatria’.
Maria é grande, porque é a primeira cristã. A primeira que acreditou no seu Filho e no seu Evangelho. Como se lê no Magnificat, o belo hino que São Lucas coloca em sua boca: ‘O Todo-poderoso fez em mim maravilhas. Sua misericórdia se estende de geração em geração. Ele dispersou os soberbos, derrubou os poderosos de seus tronos e exaltou os humildes. Aos famintos encheu de bens e aos ricos despediu de mãos vazias’. Fonte: http://www.ihu.unisinos.br

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