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A Palavra do Frei Petrônio

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segunda-feira, 16 de outubro de 2017

Moradas de Santa Teresa de Jesus: um itinerário de Amor

Teresa aparece como uma mulher ousada, dinâmica, que se atreveu a discutir com as autoridades do seu contexto (teólogos, intelectuais), sobre o processo do que é verdadeiramente se encontrar com o Deus. O seu modo de atuar, bem como a leveza de encarar a vida e a espiritualidade são uma rica contribuição para os nossos dias", escreve Assunta Romio, doutoranda de teologia na Escola Superior de Teologia - EST, São Leopoldo, RS.
Segundo ela, "encontramos muitas pessoas que dão sinais evidentes de terem feito a experiência do itinerário teresiano até a sétima Morada. São os orantes, comprometidos com a causa de Jesus Cristo, especialmente com os mais necessitados e sofridos da sociedade; não se cansam de trabalhar pelo Reino de Deus, na construção de uma humanidade nova".


Eis o artigo. 

Introdução

Teresa de Jesus escreve o livro das Moradas, com a preocupação de narrar a sua experiência de vida espiritual. [1] Ela o faz de forma pedagógica, conduzindo o leitor a entrar na dinâmica do encontro com o Sagrado. Desde o início dessa magnífica narração, deixa claro que, quando alguém deseja fazer a experiência de encontro com Jesus Cristo, a porta da entrada é a oração. Para isso deve deixar-se conduzir por esse Deus que se revela apaixonado pela pessoa humana.
Na narrativa das MoradasTeresa apresenta um caminho que conduz a pessoa ao centro do Castelo, [2] onde mora Deus. Ela se coloca como alguém que percorreu este caminho. Deixa clara a necessidade de se colocar em atitude de caminhante, errando e acertando, mas com clareza de horizonte, sabendo onde quer chegar. Ela insiste que é preciso aprofundar o autoconhecimento, a autoaceitação, a acolhida da própria realidade e a interiorização.
O livro das Moradas ou Castelo Interior é repleto de simbologias, que ajudam a compreender a beleza da pessoa humana. A partir da concepção antropológica unitária, criada no amor e para o amor, Teresa apresenta um caminho, um itinerário de amor, a ser percorrido rumo ao centro do Castelo. Este processo gradativo, leva a pessoa a um encontro consigo, com os outros, com a criação, com Deus.

 

Decidir entrar no castelo: primeiras Moradas

Ao iniciar a descrição das primeiras MoradasTeresa afirma que é preciso tomar uma decisão firme: entrar no Castelo. Desta forma inicia uma relação de amizade com Quem sabemos que tanto nos ama. [3] Esta experiência exige da pessoa um autoconhecimento em perceber a dinâmica interna do encontro com a Transcendência, o sagrado. O encontro com Jesus Cristo e sua humanidade a transforma interiormente: da fraqueza e debilidade à fortaleza de saber-se amada e agraciada. A experiência se dá numa relação de amizade e de diálogo, com Jesus Cristo e assim, experimenta o amor apaixonado de Deus pela sua criatura. [4]
Teresa expressa a plenitude da experiência de encontro com Deus, com o símbolo da antropologia Teresiana: a pessoa é como o Castelo habitado com muitas moradas. [5] No delinear da narração utiliza-se do símbolo de morador e morada, expressando o encontro entre Deus e a pessoa, de entrar e tornar a entrar no Castelo. A porta é a oração como relação de amizade. [6]
Nas primeiras MoradasTeresa enfatiza que a história do ser humano, é uma biografia de amizade, de reencontro, solidariedade radical, onde descobre a sua dignidade, percebe o sentido de ser para o outro. Se não existir diálogo, não acontece o encontro com Ele. Dialogar é prazeroso, uma relação deliciosa. [7]
Nestas Moradas, a Santa descreve que Deus que se comunica com a pessoa, não com palavras internas ou externas, mas uma compreensão mais profunda, na qual ela verbaliza como uma voz interior. Um sinal evidente de um encontro profundo relacional são os efeitos nas palavras e obras. A pessoa vai identificando esta voz interior que a chama, e aos poucos se torna cada vez mais familiar e não perde uma silaba do que se ouve, pois fica na memória e jamais se pode esquecer. [8]
Impressiona perceber que Teresa, em seu caminho de oração constantemente pede luz para o momento que está vivendo. Insiste que o importante é descobrir a motivação de continuar o processo de amar e dialogar com este Alguém que nos transcende, que dá sentido ao nosso viver. Diz que escutou claramente – “Não tenhas medo, filha, Sou Eu e não te desampararei, não temas”. [9] Assim, ela se sente segura e amparada ao começar uma nova caminhada, acreditando estar no caminho certo. Os sinais são evidentes como: a quietude, paz, certeza, segurança, alegria interior. Ela faz um convite ao seu leitor, colocar os olhos somente n’Ele. A relação com Ele é uma aventura de amor. A linguagem é única, a do Amor. Pedimos a Teresa que nos acompanhe nesta caminhada de entrar no Castelo Interior e encontrar ali, a verdadeira felicidade.

 

Encontro com Deus: segundas e terceiras Moradas

Nas segundas MoradasTeresa dá ênfase à necessidade de ter coragem para reconhecer os dinamismos interiores, principalmente àqueles com os quais, temos dificuldade de lidar e aceitar. Ela orienta ao leitor a fazer um exercício de entrar em si, acolher o mistério da própria vida, escutar a Palavra animadora de acolhida, que Deus faz a cada momento. Incentiva o leitor, a partir da experiência de encontro com Deus, a organizar um programa de vida: de oração, de seguimento e de encontro consigo. É evidente, na sua narrativa, a forma como anima as pessoas a continuarem o processo iniciado, e se for necessário buscarem algum grupo ou amigos onde possam partilhar as experiências de oração.
Na reflexão destas MoradasTeresa resgata o significado da prova do amor. O amor é capaz de gerar no ser humano a necessidade de ir ao encontro do outro e lançar-se à missão. Ela descreve em detalhes a experiência como superou os momentos de aridez e impotência. Através da descoberta de sentir-se amada e acolhida, foi percebendo como Deus é misericordioso, revelando-lhe as verdades mais profundas do significado do amor. Usa muita criatividade em vislumbrar estas duas Moradas.
Destaca que, neste estágio o ser humano se percebe num desconforto físico e espiritual, mas, ao mesmo tempo, vive um espaço de liberdade. O orante experimenta uma mescla de sentimentos de alegrias, desconforto, certezas, dúvidas, verdades, mentiras. Por outro lado, são experiências que provocam profunda tensão interior, porque entra em contato com a sua própria realidade como criatura humana, pois nem sempre consegue lidar com o medo da crise, ou o vazio existencial.
Santa tem um modo peculiar e simples de escrever suas experiências espirituais. Tem como objetivo animar e orientar as pessoas. Percebe-se, nas entre linhas destas duas Moradas uma descrição objetiva e direta, ao mesmo tempo um especial cuidado de orientar com leveza e suavidade. Ela é clara, quando escreve que, para caminhar, se faz necessário ter uma firme decisão. Sugere que seja com dignidade, maturidade, respeitando o seu ritmo e acolhendo a própria realidade interior. Porém, é importante tomar consciência, de que não se está sozinho. É necessário ter a coragem de permitir que Deus entre na sua vida. [10]
Teresa é por natureza uma mulher pedagógica no seu modo de ser, agir e atuar. Evidencia-se que, sua preocupação com o leitor é que ele possa entender a própria dinâmica de superação de si mesmo. Pelo acima dito, sabemos que a história humana está cheia de paixões, desejos infantis, às vezes gratificantes, frustrações, compensações. Teresa define este momento como único, andar na verdade. [11] Esta é uma atitude de clarividência interior, de uma mirada real de si mesmo. A presença d’Ele irradia transformando a pessoa a focar o princípio do amor. Por isso, deixa de lado tudo, ao descobrir a presença amorosa de Deus na vida, pois esta a conduz ao verdadeiro amor.
No entanto, nas segundas Moradas, ela se lembra do processo de sentir-se ferida, mas precisa ter cuidado para não desanimar, alimentando o desejo de voltar. [12] Nesta confusão se sente chamada por Deus, apesar de suas quedas, rupturas, temores. Ao mesmo tempo recomeça o caminho com novas possibilidades. Na sua pedagogia, Teresa fala, por experiência, que é necessário fazer o esforço para compreender a realidade existencial e acreditar que é possível mudar. Ela descreve como chegou à maturidade humana e à libertação das suas amarras. Nas terceiras MoradasTeresa dedica um bom espaço para falar da mistagogia, ou seja, de como orientar a outros no caminho espiritual de encontro com o Senhor. Aqui, o exercitante é acompanhado no processo de entrar e perceber as contradições, as verdades, os enganos e discernir por qual trilha seguirá.
Ao ler estas duas Moradas percebe-se que Teresa aponta os passos para percorrer e avançar no caminho, rumo ao centro do Castelo Interior. É próprio destas Moradas, em alguns momentos, o caminhante perceber que avança e, ao mesmo tempo, faz a experiência de um retrocesso. Isso faz parte da dinâmica do itinerário humano-espiritual. O que chama atenção, na descrição destas Moradas, é que a oscilação faz parte da própria estrutura humana no seu processo de amadurecimento espiritual.

 

Compreender o mistério de amor: quartas Moradas

Nas quartas MoradasTeresa utiliza a simbologia de uma fonte, para explicar o que acontece no interior da pessoa. A experiência relatada expressa o quanto foi sofrido superar a autosuficiência. Com esta conquista compreendeu que Deus a amava acima de tudo e que podia deixar-se conduzir por Ele.
Teresa narra nestas Moradas, como percorrer um caminho pedagógico de estar com Jesus, pois Ele é a fonte da água viva! Este é um passo rumo à experiência mística. A pessoa vive, por alguns momentos, no recolhimento da mente, no amor místico e na quietude da vontade, até chegar a unificação interior. Relata que Deus começa, nesta Morada, a dar algumas alegrias interiores. [13]
narrativa teresiana destas Moradas enfoca a transcendência como mistério, não por este estar além da realidade que se vive, mas pela capacidade que a pessoa adquire em relação a transcender as dimensões do humano. O mistério da presença de Deus potencializa a pessoa a viver e atuar. A transcendência vivida como presença misteriosa é capaz de desinstalar e romper barreiras e provoca a compreensão do mistério da vida e as transformações que ocorrem na pessoa. Aqui acontece a oração como encontro no Amor, para o Amor. Por isso, a súplica, a oração e preces fazem parte do ritual da experiência que acontece lentamente, provocando assim, verdadeiros milagres. [14]
É essencial tomar contato com a própria condição humana e da riqueza que o encontro oracional pode provocar. Esta oração pode ser pessoal, individual ou comunitária. Como consequência desta experiência, a pessoa irradia luz, verdade, confiança. Sente-se perdoada e amada pelo Senhor, que a faz entrar nesta Morada para estar com Ele, a sós. [15]
Conhecedora da fragilidade do ser humano, Teresa apresenta, nestas quatro primeiras Moradas, o movimento de iniciar o processo de travessia da fronteira. É necessário experimentar-se, deixar-se moldar pela Transcendência. Estrategicamente Teresacomeça a mudar a linguagem. Introduz a imagem do “silvo do Pastor”, o assobio que chama para o redil, para estar com Ele. Relata o empenho, o trabalho que teve para entender este processo de aproximar-se de Deus, entrar em si e chegar ao centro do Castelo, ter intimidade com o Amigo de todas as horas. A pessoa experimenta um amor muito grande de Deus que a transforma, impulsionando-a à missão. Teresa lembra que o Senhor dá a graça, quando quer, como o quer e a quem o quer, como dom e tesouro no coração. [16] Interessante é a advertência da Santa que, para aproveitar muito deste caminho e avançar nas Moradas, não está em pensar muito, senão em amar muito. [17] Não resta dúvida, que a pessoa humana precisa passar pela prova do crisol, para se autoafirmar e desejar, com veemência, seguir rumo ao interior do Castelo, e ali se encontrar com Deus. [18] Ele nos dá a conhecer a sua luz, diz ela, que nos faz ficar absortos. Ela convida para a entrega, deixar-se nos braços do Amor.
Podemos observar que os efeitos citados por Teresa, ocorrem tanto na vida pessoal, comunitária e social. Na verdade são efeitos significativos, pois a pessoa acaba tendo um novo olhar sobre si. Aqui nasce uma nova pessoa, a qual não se apoia sobre obras boas, mas sustentada por uma Presença suave que lhe dá leveza no seu modo de ser e agir. E então contagia outras pessoas na busca deste caminho. Hoje, mais do que nunca, o mundo precisa de pessoas enamoradas, confiantes e esperançosas, que amem e valorizem a vida, sendo presença do amor de Deus.

 

Certeza de estar na presença de Deus: quintas Moradas

Nas quintas MoradasTeresa se utiliza de recursos da natureza, para dar a entender as transformações que a pessoa passa quando se deixa moldar por dentro, isto é, quando decide deixar que Deus atue nela. É uma narrativa rica de símbolos, iniciando com transformação metamorfósica de uma borboleta, comparada com as etapas da vida mística e uma profunda união com Deus, refletindo no amor ao próximo. Um convite a entrar na dinâmica da vida mística, com a oração de união com Deus. Os sinais desta união são evidentes, ou seja, sentir-se plenificada interiormente e a certeza de estar na presença de Deus. Porém, é necessário fidelidade e perseverança.
O interessante desta Morada é a forma como Teresa descreve a pessoa, quando esta decide buscar a vida além dela mesma, apesar de todas as dificuldades enfrentadas. A afetividade vai se configurando na medida em que conhece Jesus Cristo, e, quando se desvia deste processo, fica sem referência, tudo se torna ilusão e acaba. Neste caso é possível acreditar que a ação do Espírito provoca mudanças no ser humano. Neste movimento, a pessoa percebe um novo chamado, porque o Espírito do Senhor sussurra aos ouvidos e grita constantemente: podes sair, coloca-te a caminho, não importa onde estás, segue em frente. Teresa deixa claro que, no processo espiritual, Deus sempre toma a iniciativa. Na experiência da oração de união, Deus vai atuando como presença amorosa e permanente na pessoa. [20]
Aqui Teresa continua usando diversas simbologias para se fazer entender sobre o que passa entre Deus e o ser humano. Por exemplo, ela faz menção do bicho da seda, que, embora aparentemente esteja dentro do casulo sem vida, ele se transfigura numa linda borboleta. [21] Com este exemplo, Teresa mostra o resultado da transformação que ocorre na pessoa, que faz a experiência de se encontrar e estar com Deus; não se reconhece mais como a mesma de antes. [22] Outro sinal da experiência é que provoca profundos desejos de se dedicar a uma causa, isto é, fazer algo pelos outros mais necessitados. [23] Ela se utiliza também de outro recurso para explicar a união. Compara a experiência mística como se fosse um profundo olhar de comunicação entre duas pessoas enamoradas, antes de seu compromisso definitivo do casamento. [24] Utiliza também o símbolo do selo com a cera para verbalizar a experiência de união. É o que deixa a alma selada com seu selo de filhos e filhas de Deus, a tem tal certeza que de nenhuma maneira pode duvidar, que esteve com Deus e Deus nela. [25]
É interessante perceber como Teresa emocionada narra o processo de crescimento e conhecimento de Jesus Cristo e sua humanidade. Fala da união do humano com o divino em sua pessoa: esta é sua expressão suprema - Jesus Cristo. Porém, esta união entre Deus e a pessoa passa pela morte. Neste processo surge o novo horizonte, com nova abertura ao transcendente, com desejo de estar mais perto de Deus vivendo a união: união, morte, mística e vida nova.[26]
O sinal da presença de Deus na alma, nesta Morada, é evidente, pois deixa na pessoa a experiência impressa do encontro com Ele. Este encontro com o Sagrado é tão forte que a pessoa se esquece de si mesma, vive uma profunda paz interior e a certeza de ser possuidora de um grande tesouro, que deseja partilhar com outros. A imagem de Deus fica gravada tão profundamente no interior da pessoa que, ainda que passem anos, mantém a certeza total desta presença divina. [27]

 

O encontro com o Sagrado transforma: sextas Moradas

Nas sextas MoradasTeresa prioriza os efeitos que acontecem no corpo e no interior da pessoa, quando faz a experiência de encontro com o sagrado. Ajuda o leitor a perceber e detectar quando a experiência é verdadeira e quando o fruto é da imaginação. Lembra das tensões interiores que a pessoa experimenta quando percebe a grandiosidade de Deus em sua vida, conduzindo-a a uma missão.
O estudo desta Morada mostra, como Teresa convida o leitor a acompanhar e compreender o processo de uma pessoa que experimenta profundamente a Deus. É normal passar por situações, que muitas vezes, não se conseguem entender: dificuldades de não aceitação da própria realidade de vida; necessidade de olhar um horizonte maior e buscar novas luzes; desejo de ter um encontro com Jesus Cristo no centro do Castelo.
Nas sextas Moradas, a pessoa já entrou num estágio oracional, em que nada vê, nem experimenta com os sentidos ou a imaginação, porém, tem certeza que está cada vez mais a sós com Deus. No entanto, percebe que o sofrimento faz parte da própria experiência de vida. Fica claro nesta Morada, a presença constante de Deus Trindade. O interessante é que a pessoa não consegue ficar sozinha com tantas graças, sentindo necessidade de partilhar as experiências com alguém muito espiritualizado. Neste sentido, Teresa faz um alerta importante: procurar alguém que já tenha trilhado por caminho semelhante e que compreenda o processo. [28]
Ela narra com detalhes o significado da experiência profunda de encontro com o sagrado e como consequência natural, o grande desejo de estar com Ele, a sós, por longos tempos. Ela simplifica dizendo, que a imagem do Amado fica esculpida com aquela visão, que todo o seu ser deseja tornar a reviver para gozar. E diz que a alma já está bem determinada a não tomar outro esposo. No entanto, a pessoa se sente segura porque está junto d’Ele, e, é donde lhe vem a fortaleza, tudo por Ele. Como consequência, vive um processo de plenificação, se esquece de si mesma e empenha-se em estar fazendo sempre o bem. [29]
Na narrativa, Teresa insiste que o Senhor se utiliza de várias maneiras para despertar a pessoa para o encontro: pela oração vocal e com a repetição parece que, lhe vem um deleitoso abrasamento; uma comunicação que parece vir do exterior, outras do mais íntimo da alma. [30] O critério é claro para Teresa. Se a comunicação é de Deus, a pessoa experimenta uma profunda paz interior, um desejo de fazer algo específico de boa ação e fica uma marca profunda que jamais esquece. [31] Com esta experiência ela se torna atenta aos movimentos interiores, para as coisas de Deus. O entendimento e sentidos se acalmam de tal forma que entendem os segredos mais profundos, pois ficam registrados na memória para sempre. [32] Tenta, também explicar o que acontece com a pessoa, utilizando uma série de analogias, como o surgir do sol, raios fortes que podem queimar, o sol da justiça, o voo do espírito que passa rapidamente. Porém, ficam as sequelas, como conhecimento da grandeza de Deus, autoconhecimento, não quer mais ofender com as transgressões no pecado, perceber a grandeza do Criador. [33]
No entanto, Teresa lembra, que ao estar nesta Morada a pessoa vislumbra o caminho para a sétima Morada, onde naturalmente deseja estar completamente com o Amado para louvar e agradecer constantemente, em atitude de encontro com Ele. [34] É uma alegria tão excessiva que a pessoa quer estar sozinha com Jesus Cristo e sua humanidade. [35] No entanto, a Santa adverte insistentemente que esse tipo de oração não deve ser considerado definitivamente superado, porque será necessária a ajuda do entendimento para inflamar a vontade. [36] Esta é uma preparação imediata para chegar ao cume da vida da Graça, possível de ser alcançada na terra. A profunda experiência interior de encontro leva à transformação, que repercute no modo de ser e de agir da pessoa, no dia a dia.

 

Deixar-se tocar pelo amor leva a amar: sétimas Moradas

Ao descrever as sétimas MoradasTeresa afirma que este é o momento ápice da experiência mística. Relata as graças recebidas do conhecimento profundo de Jesus Cristo e sua humanidade e a percepção clara da Trindade. Ela verbaliza, nesta Morada, a plena configuração com Cristo, que a conduz à vivência, em plenitude, do mistério na missão, onde Marta e Maria sempre andam juntas. [37]
Na leitura do texto percebe-se como Teresa, desde o epílogo, alerta sobre a importância de uma atitude de decidir entrar no Castelo. [38] Mas, ao mesmo tempo, afirma sobre a certeza de que Deus faz morada no interior do ser humano. E desde este lugar estabelece a relação da união transformante de sua vida em ação permanente. Teresa convida a abrir um espaço para entender que o processo de purificação interior de uma alma, bem como as graças sobrenaturais, estão ligadas aos êxtases. É necessária a contemplação da humanidade de Cristo, para chegar aos últimos graus da vida mística. [39]
A contemplação, para Teresa, não é subjetiva, mas transcende a pessoa, levando-a a esquecer-se de si e a entregar-se a Cristo e à missão eclesial. Impressiona quando Teresa fala da grande companhia e como entende as coisas, porém, ela nem sempre a vê com a mesma claridade como da primeira vez, que se colocou nas mãos de Deus, que a conduz a uma contemplação plenificada. [40] Apresenta também os efeitos do matrimônio espiritual, como sendo um esquecimento de si e não esquece o que escutou dentro de si. [41] Ali, afirma ela, nasce o desejo de fazer unicamente a vontade de Deus. [42] Com esta experiência Teresa deseja viver muitos anos para servi-Lo e amá-Lo. [43] Deseja dedicar tempo para estar a sós com Ele em oração. [44] Tudo isso se passa na alma com muita quietude e silêncio. [45]
Teresa de Ávila retoma um texto bíblico significativo para a síntese de sua vida: Mariaa contemplativa e Marta, a trabalhadora. Porém, diz TeresaMarta e Maria hão de andar juntas para bem hospedar o Senhor, e tê-lo sempre consigo. Marta e Maria são facetas de uma mesma pessoa. O verdadeiro místico não se limita a contemplar, mas se empenha em tornar o mundo melhor. Contemplação e trabalho se unem na personalidade do místico. Da mesma forma como a  sem obras é morta, a contemplação sem a ação perde o seu valor. Santa Teresa tem a preocupação de fazer entender que Marta e Maria sempre andam juntas. O Senhor quer hospedagem, mas é necessário que o acolhamos, lhe demos de comer e em seus pés nos coloquemos à escuta. Assim seremos verdadeiros discípulos, fiéis na contemplação e na ação. Nesta dinâmica, Teresa diz se lembrar de São Paulo, que depois da conversão, não deixou de trabalhar, enfrentando perigos e tormentas para pregar a boa nova, além de prover o próprio sustento, como tecelão. É o encontro com Deus que gera um grande desejo de amá-Lo e servi-Lo. Por fim, a necessidade de uma dedicação total à obra de Deus, transformar a humanidade semelhante a Jesus Cristo. [46] O segredo é colocar os olhos fixos no Senhor. [47] Ali, olhando a Jesus Cristo que deu a vida por amor, descobrir a grandiosidade da nossa opção por uma causa maior, a entrega total a Jesus Cristo, sendo continuadores da Sua missão.

 

Conclusão

No caminho das MoradasTeresa partilha um itinerário de amor. Um caminho de muitas oscilações, superações e possibilidades de autoconhecimento, do outro, de Jesus Cristo e sua Humanidade. A dinâmica apresentada por Teresa ajuda a acolher e compreender a realidade que nos envolve, isto é, o contexto social, político, religioso e espiritual. Anima para não desanimar na caminhada, mas confiar em Deus, pois Ele é uma presença constante na nossa vida e nos ama com infinito amor.
Teresa aparece como uma mulher ousada, dinâmica, que se atreveu a discutir com as autoridades do seu contexto (teólogos, intelectuais), sobre o processo do que é verdadeiramente se encontrar com o Deus. O seu modo de atuar, bem como a leveza de encarar a vida e a espiritualidade são uma rica contribuição para os nossos dias.
Com criatividade, a Santa de Ávila utiliza alegorias para explicar as Moradas, uma forma pedagógica e agradável de apresentar um itinerário espiritual tão complexo. Ela o faz com serenidade, alegria, transmitindo paz e confiança. Mostra que é possível, sim, seguir este itinerário das sete moradas. Para isso, é necessário colocar-se em atitude de caminhante, errando e acertando, mas com clareza de horizonte: pelo caminho do autoconhecimento, autoaceitação, acolhida da própria realidade, interiorização rumo ao centro do Castelo Interior, lá onde está “o Rei”.
Por que Teresa enfatiza a importância de entrar no Castelo Interior? Ela parte da sua experiência, pois é ali que ela encontrou o profundo sentido existencial, que lhe deu coragem e força para se integrar, ser missionária do Reino de Deus, ajudando as pessoas a também se encontrarem com o Deus da vida. Assim, ela escreve narrando com detalhes, a sua caminhada de encontro com o Senhor, com o objetivo de que outros possam também seguir este caminho.
Portanto, as Moradas teresianas apontam que Deus se comunica com a pessoa e a transforma. Esta dimensão mística de Teresa é acessível. Encontramos muitas pessoas que dão sinais evidentes de terem feito a experiência do itinerário teresiano até a sétima Morada. São os orantes, comprometidos com a causa de Jesus Cristo, especialmente com os mais necessitados e sofridos da sociedade; não se cansam de trabalhar pelo Reino de Deus, na construção de uma humanidade nova. O que alimenta a jornada destas pessoas? Com certeza, é o encontro com o Deus amigo, no mais profundo do Castelo Interior, que impulsiona à ação, à missão de serem testemunhas do Seu AMOR.
Notas:
[1] Teresa de Jesus: trata-se de Teresa de Cepeda y Ahumada, Teresa de Ávila, Teresa de Jesus, nascida em Ávila, Espanha (1515-1582). Os espanhóis, carinhosamente a chamam de Teresa, a Santa, ou ainda, a Santa de Ávila. Teresa de Jesus escreveu o livro das Moradas ou Castelo Interior em 1577 aos 62 anos de idade. O livro das Moradas relata a experiência mística, fazendo uma síntese de sua vida espiritual e de monja. A estrutura da obra está dividida em VII Moradas.
[2] SANTA TERESA DE JESUS. Obras Completas: Tomás Alvarez (Ed.). Introduções e notas. Tradução de Vasco Dias Ribeiro. Arcos, Portugal: Carmelo, 2005. p. 642. Livro das Moradas, cuja abreviatura será usado M (1M1). Teresa utiliza a simbologia do Castelo, que representa a pessoa humana e faz alusão ao Evangelho de João 14,2.
[3] SANTA TERESA DE JESUS, 2005, p. 56. Livro da Vida, cuja abreviatura será usado V (V8,5).
[4] SANTA TERESA DE JESUS, 2005, p. 85. (V 12, 2).
[5] TERESA DE JESUS. Obras completas. (Coord.) Frei Patrício Sciadini. Tradução do texto estabelecido por Tomás Alvarez, 5. ed. São Paulo: Carmelitas/Loyola, 2013. p. 442. (1M1,3).
[6] SANTA TERESA DE JESUS, 2005, p. 646. (1M1,7).
[7] TERESA DE JESUS, 2013, p. 501. (5M3,8).
[8] TERESIANAS STJ. Teresa de Jesús exploradora, itinerante y guía: taller de lectura Teresiana Las Moradas. In Proyetonudo: Curso formativo on-line de espiritualidad teresiana. Disponível aqui; e aqui. Acesso em: 15 maio 2013.
[9] SANTA TERESA DE JESÚS, 2005, p. 208. (V25,18)
[10] SANTA TERESA DE JESUS, 2005, p. 88. (V13).
[11] SANTA TERESA DE JESUS, 2005, p. 210. (V25,21).
[12] SANTA TERESA DE JESUS, 2005, p. 649. (2M2,4).
[13] SANTA TERESA DE JESUS, 2005, p. 690. (4M1,4).
[14] TERESIANAS STJ. En el camino del amor: un tiempo para dejarse atraer por Jesús y su reino. In Teresa de Jesús exploradora, itinerante y guía: taller de lectura Teresiana Las Moradas. In Proyetonudo: Curso formativo on-line de espiritualidad teresiana. Disponível aqui. Acesso em: 15 maio 2013. Ficha de trabajo tema 4.
[15] SANTA TERESA DE JESUS, 2005, p. 718. (4M3,8).
[16] SANTA TERESA DE JESUS, 2005, p. 643. (4M1,2).
[17] SANTA TERESA DE JESUS, 2005, p. 686. (4M1,7 conferido com V11,1 e no livro das Fundações 5,2).
[18] TERESA DE JESUS, 2013, p. 479. (4M2,8).
[19] TERESA DE JESUS, 2013, p. 484. (4M3,8).
[20] TERESIANAS STJ. En el camino del amor: un tiempo para ‘ordenar el amor. In Teresa de Jesús exploradora, itinerante y guía: taller de lectura Teresiana Las Moradas. In Proyetonudo:Curso formativo on-line de espiritualidad teresiana. Disponível aqui. Acesso em: 15 maio 2013. Ficha de trabajo tema 5.
[21] TERESA DE JESUS, 2013, p. 477. (5M2,2).
[22] SANTA TERESA DE JESUS, 2005, p. 7163. (5M2,7).
[23] SANTA TERESA DE JESUS, 2005, p. 719. (5M2,11).
[24] SANTA TERESA DE JESUS, 2005, p. 729. (5M4,4).
[25] SANTA TERESA DE JESUS, 2005, p. 719. (5M2,12).
[26] TERESIANAS STJ. Disponível aqui. Acesso em: 15 maio 2013. Ficha de trabajo tema 5.
[27] SANTA TERESA DE JESÚS, 2005, p. 711. (5M1,9)
[28] TERESIANAS STJ. En el camino del amor: un tiempo de prueba para el amor. In Teresa de Jesús exploradora, itinerante y guía: taller de lectura Teresiana Las Moradas. In Proyetonudo: Curso formativo on-line de espiritualidad teresiana. Disponível aqui. Acesso em: 15 maio 2013. Ficha de trabajo tema 6.
[29] SANTA TERESA DE JESUS, 2005, p. 735. (6M1,1-2).
[30] SANTA TERESA DE JESUS, 2005, p. 749-750. (6M3,1-4).
[31] SANTA TERESA DE JESUS, 2005, p. 743. (6M3,5.7).
[32] SANTA TERESA DE JESUS, 2005, p. 759-760. (6M4,3-5).
[33] SANTA TERESA DE JESUS, 2005, p. 772. (6M5,9-10).
[34] SANTA TERESA DE JESUS, 2005, p.775. (6M6,3).
[35] SANTA TERESA DE JESUS, 2005, p. 779. (6M6,10).
[36] SANTA TERESA DE JESUS, 2005, p. 778. (6M7.7).
[37] TERESIANAS STJ. El ‘tesoro escondido’del camino del amor: la unión que transforma. In Teresa de Jesús exploradora, itinerante y guía: taller de lectura Teresiana Las Moradas. In Proyetonudo: Curso formativo on-line de espiritualidad teresiana. Disponível aqui. Acesso em: 15 maio 2013. Ficha de trabajo tema 7.
[38] SANTA TERESA DE JESUS, 2005, p. 848. (7M4,21).
[39] TERESIANAS STJ. Disponível aqui. Acesso em: 15 maio 2013. Ficha de trabajo tema 7.
[40] SANTA TERESA DE JESUS, 2005, p. 823. (7M1.9).
[41] SANTA TERESA DE JESUS, 2005, p. 643. (7M7.9).
[42] SANTA TERESA DE JESUS, 2005, p. 833. (7M3,4).
[43] SANTA TERESA DE JESUS, 2005, p. 834. (7M3,6).
[44] SANTA TERESA DE JESUS, 2005, p. 643. (7M3,8).
[45] SANTA TERESA DE JESUS, 2005, p. 836. (7M3,11).
[46] SANTA TERESA DE JESUS, 2005, p. 845. (7M4,14).
[47] SANTA TERESA DE JESUS, 2005, p. 842. (7M4,7).
Referências:
SANTA TERESA DE JESUS. Obras Completas: Tomás Alvarez (Ed.). Introduções e notas. Tradução de Vasco Dias Ribeiro. Arcos, Portugal: Carmelo, 2005.
TERESA DE JESUS. Obras completas. (Coord.) Frei Patrício Sciadini. Tradução do texto estabelecido por Tomás Alvarez, 5. ed. São Paulo: Carmelitas/Loyola, 2013.
TERESIANAS STJ. Teresa de Jesús exploradora, itinerante y guía: taller de lectura Teresiana Las Moradas. In Proyetonudo: Curso formativo on-line de espiritualidad teresiana. Disponível aqui. Acesso em: 15 maio 2013.
TERESIANAS STJ. En el camino del amor: un tiempo para dejarse atraer por Jesús y su reino. In Teresa de Jesús exploradora, itinerante y guía: taller de lectura Teresiana Las Moradas. In Proyetonudo: Curso formativo on-line de espiritualidad teresiana. Disponível aqui. Acesso em: 15 maio 2013. Ficha de trabajo tema 4.
TERESIANAS STJ. En el camino del amor:un tiempo para ‘ordenar el amor. In Teresa de Jesús exploradora, itinerante y guía: taller de lectura Teresiana Las Moradas. In Proyetonudo: Curso formativo on-line de espiritualidad teresiana. Disponível aqui. Acesso em: 15 maio 2013. Ficha de trabajo tema 5.
TERESIANAS STJ. En el camino del amor: un tiempo de prueba para el amor. In Teresa de Jesús exploradora, itinerante y guía: taller de lectura Teresiana Las Moradas. In Proyetonudo: Curso formativo on-line de espiritualidad teresiana. Disponível aqui. Acesso em: 15 maio 2013. Ficha de trabajo tema 6.
TERESIANAS STJ. El ‘tesoro escondido’del camino del amor: la unión que transforma. In Teresa de Jesús exploradora, itinerante y guía: taller de lectura Teresiana Las Moradas. In Proyetonudo: Curso formativo on-line de espiritualidad teresiana. Disponível aqui. Acesso em: 15 maio 2013. Ficha de trabajo tema 7.


sexta-feira, 29 de setembro de 2017

COMUNIDADE CAPIM: Convite-2017.

Meu canto de hoje.
Santa Teresinha do Menino Jesus, Carmelita

Minha vida é um instante, uma hora passageira
Minha vida é um só dia, que escapa e que foge
Tu o sabes, o meu Deus, pra te amar na terra
Eu só tenho só hoje!

Oh! Eu te amo, Jesus, minh'alma suspira por ti
Sê, por um dia apenas, meu doce apoio
Vem reinar no meu coração, dá-me teu sorriso
Só por hoje!

Que m'importa, Senhor, se o futuro é sombrio
Rezar pelo amanhã? Oh! Não, eu não posso!
Conserva puro meu coração, cobre-me com tua sombra
Só por hoje!

Se penso no amanhã, temo minha inconstância
Sinto nascer no coração a tristeza e o enjoo
Mesmo assim, meu Deus, quero a prova e o sofrimento
Só por hoje.

Devo te ver em breve nas praias eternas
O’ Piloto Divino! Cuja mão me conduz
Sobre as ondas encapeladas guia em paz meu barquinho
Só por hoje.

Ah! Deixa-me, Senhor, me esconder na tua Face
Lá não ouvirei mais do mundo o vão barulho
Dá-me teu amor, conserva-me tua graça
Só por hoje.

Perto do teu Divino Coração, esqueço tudo que passa
Não temo mais os receios da noite
Ah! Dá-me, Jesus, nesse Coração um lugar
Só por hoje.

Pão vivo, Pão do Céu, divina Eucaristia
O’ Mistério sagrado, que o Amor produziu!...
Vem habitar no meu coração, Jesus, minha Hóstia branca
Só por hoje.

Digna-te unir-me a ti, Vinha Santa e sagrada
E meu fraco ramo te dará seu fruto
E poderei te oferecer um cacho dourado
Senhor, desde o dia de hoje.

Esse cacho de amor, cujos grãos são as almas
Pra formá-lo eu só tenho esse dia, que foge
Ah! Dá-me, Jesus, de um Apóstolo as chamas
Só por hoje.

O’ Virgem Imaculada! És tu minha Doce Estrela
Que me dá Jesus e que a Ele me une
O’ Mãe! Deixa-me descansar sob teu manto
Só por hoje.

Meu Anjo guardião, cobre-me com tua asa
Ilumina com tua luz a estrada que sigo
Vem dirigir meus passos... ajuda-me, te peço
Só por hoje.

Senhor, quero te ver sem véu e sem nuvens
Mas ainda exilada, longe de ti desfaleço
Que não me seja ocultado teu amável rosto
Só por hoje.

Voarei bem longe para teus louvores cantar
Quando descer na minh'alma o dia sem ocaso
Então, eu cantarei com a lira dos Anjos

O eternal dia de hoje!...

quinta-feira, 28 de setembro de 2017

SANTA TERESINHA: A Festa dos seus quinze anos.

*Dom Frei Vital Wilderink, O. Carm. In Memoriam


Com 15 anos de idade, Teresa Martin queria entrar no Carmelo. Acompanhada de seu pai, foi falar com o Bispo diocesano para conseguir a autorização. Levantou os cabelos para parecer mais velha. Não adiantou. Aproveitou de uma viagem à Itália para pedir licença ao Papa Leão XIII. Também a audiência com o Papa não parecia ter dado resultado. Mas o interesse dele pelo caso de Teresinha levou o Bispo a conceder a tão esperada licença.
Dia 30 de setembro de 1897, Teresa morre no mosteiro das carmelitas de Lisieux. Seus dois pulmões estavam gravemente atingidos pela tuberculose. Sufocada, ela pronuncia suas últimas palavras: “Meu Deus...eu... vos amo”!
            Celebramos o primeiro centenário da morte dessa jovem carmelita. Inúmeros livros foram escritos sobre o breve percurso da sua vida. Pode ser que nem todos sejamos entusiastas de sua “História de uma alma”. A sua linguagem, marcada por um universo religioso que não é nosso, pode provocar em leitores do nosso tempo uma certa alergia. Como não é a todos que agrada a tradicional imagem da santa desfolhando pétalas das rosas que ela segura nos braços. No entanto, se por baixo desses enfeites não houvesse um segredo mais profundo, não se explicaria a atração que, durante o último século, Teresa de Lisieux tem exercido sobre inúmeros católicos. Mesmo no Brasil existem cerca de 111 paróquias dedicadas a ela, sem contar as capelas.
            O que, sem dúvida, chamou a atenção do mundo cristão foi a espiritualidade de Teresinha. Ela mesma falava do seu Pequeno Caminho.  Não foi a partir de uma teoria bem elaborada mas  a partir de sua experiência de cada dia que ela reconheceu e aceitou progressivamente a sua pequenez e fragilidade. Mesmo com seus imensos desejos, ela descobriu que só tinha pequenas coisas para oferecer a Deus. Tanto assim que pessoas próximas a ela questionavam a santidade da jovem carmelita. É que a pequenez e a confiança em Deus constituíam o fundamento da sua doutrina. Ela descobre no seu amor próprio a causa de suas inquietações, de suas tristezas e das humilhações que a deixam aborrecida. Não se revolta contra essa descoberta mas encara de frente a sua realidade. Nem por isto renuncia aos seus desejos audaciosos  para entregar-se a uma mediocridade. Sabe fazer de sua fragilidade o material para servir ao seu projeto de santidade. Entendeu que sua fraqueza não a afastava de Deus que veio ao nosso mundo, para partilhar na precariedade humana a pobreza radical do homem a fim de transformá-la na sua força divina. Esta consciência leva Teresinha a sentar-se à mesa dos pobres e dos pecadores. Sua fé e esperança a fazem oferecer-se como vítima ao amor misericordioso de Deus. É o segredo do seu elã  missionário no qual ela quer atingir a todos, sem exclusão, mesmo os ateus, para que encontrem o caminho para o amor de Deus que salva e liberta.
            Mas o seu Pequeno Caminho precisava ser testado. Se a fé e a esperança faziam crescer a sua entrega de amor, esta continuaria mesma numa aparente ausência de fé e esperança?
            Nos últimos dezoito meses da sua vida, a fé de Teresinha foi duramente provada. Ela já estava atingida pela tuberculose quando, na noite de 2 ao 3 de abril de 1896, a doença se manifestou por uma primeira expectoração de sangue. Alguns dias depois a sua alma começou a ser torturada por dúvidas sobre a fé. Se os seus sofrimentos físicos, sempre mais fortes, já provocavam uma sensação de impotência, a noite das dúvidas tirava o último apoio para suportá-los. O olhar da fé dá uma visão nova da vida. É dentro dessa visão que o cristão encontra o sentido da existência, a razão de ser, de viver, de agir, de servir e de sofrer. Uma prova de fé questiona tudo o que a pessoa suporta. Provoca nela uma vertigem, a vertigem do nada. Todo o equilíbrio de seu ser é ameaçado. “Acreditas sair um dia do nevoeiro que te envolve, avança, avança,  alegra-te com a morte que te dará, não aquilo que tu esperas, mas uma noite ainda mais profunda, a noite do nada”. Quem poderia ter escrito essas palavras, seria Nietzsche, filósofo contemporâneo de Teresa, que proclamou a morte de Deus. Mas foi a própria Teresinha que as escreveu  na sua cama, três meses antes de morrer. Ela acrescentava: “Não quero escrever mais, receio blasfemar... receio até ter falado demais...”.
            Teresa vivia na França do fim do século XIX. Época em que o racionalismo e o cientíssimo espalhavam uma descrença agressiva e um anticlericalismo sarcástico. Teresa, mergulhada na noite da dúvidas, compreende  que  certos  ateus  podem de boa fé e sem ir contra seu pensamento negar a existência do Céu. Mesma tendo guardado a sua inocência batismal, Teresa chega até o fundo da sua pequenez e, desta maneira, ao núcleo daquilo que constituía toda a sua razão de viver: sua relação com Deus. É uma tomada de consciência, uma aceitação.  Jamais poderia suportar com lucidez essa desapropriação de si mesma, se não fosse habitada por um grande Amor, mistério que vai além de suas próprias iniciativas e possibilidades. A descoberta desse mistério maior de Deus, se faz a partir da experiência das nossas mãos vazias. É disto que brota em Teresa a atitude de confiança e de abandono. É o caminho que ela indica para todos, sentando-se à mesa dos incrédulos e pecadores.
            A nossa época não conhece o ateísmo virulento do tempo de Teresinha. O que sempre mais se impõe em nossos dias é uma espécie de vazio que nenhuma ideologia consegue preencher. A ciência e a tecnologia fazem o homem viver no ritmo de “projetos”. São valores relativos mas que não geram uma sabedoria, um sentido último de todos esses significados particulares. Há uma sensação de banalidade que escurecem o sentido da própria vida e história humana.
Teresa de Lisieux, figura simples e afável, aparentemente sem problemas, mas mergulhada nas torturas da dúvida, provoca uma brecha na crosta das verdades convencionais do homem moderno. Sentemo-nos com ela à mesa para que nos fale da sua vida tão cheia de humanidade e de sabor de Deus.
*Dom Frei Vital Wilderink, O Carm- Eremita Carmelita- foi vítima de um acidente de automóvel quando retornava para o Eremitério, “Fonte de Elias”, no alto do Rio das Pedras, nas montanhas de Lídice, distrito do município de Rio Claro, no estado do Rio de Janeiro. O acidente ocorreu no dia 11 de junho de 2014. O sepultamento foi na cidade de Itaguaí/RJ, no dia 12, na Catedral de São Francisco Xavier, Diocese esta onde ele foi o primeiro Bispo.


Santa Teresinha: uma “Teóloga” da esperança.

*Dom Frei Vital Wilderink, O. Carm. In Memoriam

             O ser humano tem uma tendência natural à sua melhor realização.  Neste sentido ele se define pelo desejo, pela esperança. A experiência nos mostra que essa busca de felicidade descamba frequentemente para um egoísmo. Numa sociedade de consumo comandada pelo sistema econômico neoliberal, o individualismo encontra um terreno particularmente propício, cuidadosamente regado pela mídia. Não faltaram outras pessoas ou correntes que procuraram abranger sociedades inteiras num vasto movimento de esperança inspirado por determinadas ideologias, como o comunismo ou vários modelos de nacionalismo. Mas também nestes casos os quadros da felicidade prometida acabaram despencando.
       A França, na época em que Teresa viveu, era caracterizada por um ateísmo e virulento anticlericalismo., especialmente entre as elites intelectuais. Como podia seu ingresso num convento de clausura ser um gesto de esperança? Não era antes uma fuga, uma evasão egoísta mascarada por pensamentos piedosos sobre a salvação dos pecadores?  Afinal, em que consistia a esperança de Teresa de Lisieux? Que a justiça de Deus acertasse as contas com os que não acreditavam nele?  Sim, a justiça de Deus estava na mira da Carmelita porque contempla e adora as suas perfeições  divinas através de sua infinita misericórdia: “a própria justiça (talvez mais do que qualquer outra) se me afigura revestida de amor”. Não é na situação deplorável do mundo que ela fixa seu olhar: “meus desejos, minhas esperanças, vão às raias do infinito”.  A esperança da Teresa é realmente teologal. vai ao seu verdadeiro ponto de apoio. Ela não parte de uma espécie de pressuposição de que um número de criaturas humanas sofrerá a condenação eterna, como determinadas interpretações teológicas do mistério da predestinação apregoavam. Este fatalismo não aparece no vocabulário de Teresa, permeado pela certeza da gratuidade da infinita misericórdia divina. Para a sua ousadia temerária não há como  não apostar nesta última.
            Aqui aparece, talvez, um traço característico da visão feminina do mistério de Deus à qual, durante séculos, foi vedado o acesso ao pensamento teológico elaborado pelos homens. Não é isto que ela deixa entrever quando constata que Deus é pouco amado na terra ...mesmo pelos padres e religiosos?   Teresa desejou ser identificada ao Amor. O amor não seria amor se não fosse uma sede de expansão, de doação.  Por isto a esperança alarga seus horizontes à medida que nos animam os sentimentos de Cristo (cf. Fl 2,5): “Cristo que morreu por nós quando éramos ainda pecadores”(Rm 5,8). Já na sua adolescência Teresa, apelando à misericórdia de Deus revelada na Paixão e Cruz de Jesus, se empenhara na conversão de Pranzini, cujo processo de condenação pela justiça francesa havia acompanhado através da imprensa. Foi “meu primeiro filho”,  como ela comentaria  mais tarde. Sempre serviço da misericórdia divina, ela adotará outros pecadores. E quando, na Festa da Santíssima Trindade, em 1896, se oferece a Deus como vítima do seu amor misericordioso, ela faz um ato de esperança cega. Ela a justifica  dirigindo-se a Deus: “Ó luminoso farol  do amor, sei como achegar-me até a ti, descobri o segredo de apossar-me de tua chama”.   Familiarizada com as cartas de Paulo apóstolo, Teresa escreve: “Não deixava de esperar contra toda esperança”.  Certamente, ao citar estas palavras, não previa o alcance delas quando sua esperança, durante a prolongada provação da fé, vai estender-se a todos os pecadores. Nesta longa noite Teresa mergulha na experiência da escuridão daqueles que não acreditam no Céu.  Privada  da alegria que lhe era proporcionada pela esperança da proximidade do Céu, ela compartilhava a condição dos pecadores, unia-se a eles. Mesmo assim recebe esta provação como um dom pelo qual Cristo a associa à obra da redenção e à esperança da sua fecundidade: “Senhor, vossa filha  compreendeu vossa luz divina. Pede-vos perdão em lugar de seus irmãos. Pelo tempo que quiserdes, aceita comer o pão da dor, e da mesa coberta de amargura, onde comem os pobres pecadores, não quer levantar-se antes do dia que determinardes”. 
Teresa se compara aqui a uma criança na estação ferroviária, esperando seus pais que devem acomodá-la dentro de trem. Mas eles não chegam, e o trem parte! E ela acrescenta: “mas haverá outros trens, não perderei todos...”.  Teresa não perdeu a esperança. Contudo, esta esperança ficou como que desativada. Ela doou a sua força para outros, para os inúmeros outros. Ela se lançou no insondável mistério do Amor de Deus para amar com esse Amor o mundo.

*Dom Frei Vital Wilderink, O Carm- Eremita Carmelita- foi vítima de um acidente de automóvel quando retornava para o Eremitério, “Fonte de Elias”, no alto do Rio das Pedras, nas montanhas de Lídice, distrito do município de Rio Claro, no estado do Rio de Janeiro. O acidente ocorreu no dia 11 de junho de 2014. O sepultamento foi na cidade de Itaguaí/RJ, no dia 12, na Catedral de São Francisco Xavier, Diocese esta onde ele foi o primeiro Bispo.

segunda-feira, 25 de setembro de 2017

Crise do padre. O que fazer?

O padre Francesco Cosentino, da Diocese de Catanzaro-Squillace, professor e diretor de retiros e encontros espirituais, atualmente é membro na Congregação para o Clero e Professor da Pontifícia Universidade Gregoriana, reflete sobre a 'crise do padre', em artigo publicado por Settimana News, 02-07-2017. A tradução é de Ramiro Mincato.

Eis o artigo.
O ministério sacerdotal perde valor e significado. Atrai cada vez menos. Parece mover-se com dificuldades, como se estivesse "fora do tempo", isto é, em um tempo que não é mais o seu. Assim, Padre Armando Matteo fotografou, em seu site, a "crise do padre", sem muitos rodeios.
Penso que se deva dar prosseguimento àquelas observações, e tentarei fazê-lo, embora sob uma ótica um pouco mais otimista do que meu amigo Matteo, enfrentando algumas questões e abrindo algumas pistas de reflexão.

Qual identidade?
Para abordar seriamente a "crise do presbítero", é necessário fazer referência a questão - tanto debatida, mas sem solução fácil - de sua identidade. Não se trata apenas de um teórico argumento teológico, mas, pelo contrário, quando se fala de identidade presbiteral é preciso não se fixar logo sobre um modelo abstrato, mas sobre a figura do padre, assim como se configurou na história concreta da comunidade de fé. Ainda mais, deve-se fazer referência à Palavra de Deus, que representa o horizonte subjacente dentro do qual devem surgir os critérios do ministério presbiteral.
Se é verdade que, como afirma o conhecido teólogo Greshake em Essere preti in questo tempo (Queriniana, 2008), "nos últimos anos o tema do “padre" tornou-se uma espécie de muro das lamentações, onde tantos sacerdotes batem com a cabeça, assim como bispos desesperados e também leigos desorientados", é igualmente verdade que, antes de questionar-se sobre a crise numérica, o modelo de vida e as atribuições pastorais, é preciso voltar-se à questão de fundo: o que Jesus realmente queria quando reuniu em torno a si os apóstolos e os enviou em missão?
Somente se esta questão for tomada a sério poder-se-á enfrentar a crise, talvez até descobrindo que ela não é pois tão dramática, não porque não seja real, mas pelo fato de afetar aspectos provavelmente não tão essenciais ao ministério.
Assim, como primeira provocação – deixando para depois escavar mais a fundo sobre o tema, - gostaria de debruçar-me sobre a questão da identidade.

Um olhar sobre a história
Podemos recordar suas origens, quando o cristianismo organizou-se em pequenas comunidades, errantes e nômades, centradas principalmente na evangelização; mais tarde, como sabemos, as coisas mudaram consideravelmente.
Durante anos, de fato, talvez séculos, o ministério presbiteral foi se configurando no interior da nascente cristandade, isto é, daquele processo de simbiose entre religião, sociedade e cultura, que, se por um lado, favoreceu a integração e expansão de fé, por outro lado, de alguma maneira, obscureceu a potência profética do Evangelho, a força da sua fraqueza, a riqueza da sua pobreza e, em geral, a sua voz "obstinadamente outra" em relação ao mundo.
O modelo de Igreja, a simbologia litúrgica, as formas de fé e, não por último, a própria figura do padre passaram, lentamente, a parecer-se mais ao modelo do Império Romano do que ao da identidade evangélica. É verdade que a Igreja tornou-se estrutura fundamental da sociedade, e que o cristianismo alastrava-se como incêndio, desenvolvendo sua capacidade de presença e incidência na vida pública; no entanto, é igualmente verdade que o cristianismo deixou de ser uma resposta pessoal a um chamado evangélico, para tornar-se um fator natural e cultural; a Igreja mudou sua forma externa e suas estruturas, e, consequentemente, o ministério presbiteral também teve que se adequar.
O padre sobre um “pedestal”, autoridade indiscutível capaz de exercer certo poder espiritual, mas não só, era um modelo bem integrado com uma sociedade marcada pela fé religiosa, em que acreditar era algo "normal".
Este é, para mim, o primeiro motivo sério para a crise atual. Hoje, com o desenvolvimento moderno da liberdade da pessoa, o crescimento do valor da democracia, o mundo fortemente marcado pelo secularismo e pelo abandono da fé, ainda pode reger aquela ideia e aquele modelo de padre que, mesmo diante das inovadoras indicações do papa Francisco, parece ser o sonho latente de muitos e a imagem escondida por trás de algumas estratégias pastorais? Pode-se ainda continuar falando de "serviço", mas com uma convicção secreta de monarcas absolutos?

Uma crise provisória?
Talvez, a crise atual do cristianismo, que força a Igreja a tornar-se novamente minoritária, poderia ser uma ocasião profícua: Deus quer seu povo de volta ao deserto e à diáspora, para aliviá-lo de um sistema imperial e mundano, para destruir um cristianismo que se tornou um subsistema da sociedade, e permitir-lhe recuperar um espírito evangélico. Este caminho, profético e corajosamente traçado pelo atual pontificado, deixa ainda perplexas muitas figuras do clero.
O medo de abandonar um modelo "seguro", no qual fomos formados e habituados, por ora vence sobre a coragem de se tentar novas vias. Na paralisia, esquece-se que a identidade do presbítero está em caminho, está aberta, em constante evolução.

Não existe o presbítero "válido de uma vez por todas", mas um ministro chamado, no concreto da história, feita de rostos, de alegrias e de lágrimas, em um mundo real que possui coordenadas precisas e dentro das quais, se realmente se quer incidir, é preciso habitar. Não como um chefe, um supervisor ou um estranho, mas como um companheiro de estrada. Se tudo muda, me pergunto também sobre a identidade e o modelo de presbítero: pode-se continuar parado? Fonte: http://www.ihu.unisinos.br

CARMELITAS RIO: Confraternização.

quinta-feira, 21 de setembro de 2017

PADRE ZEZINHO: Entrevista.

PADRE ZEZINHO: 51 Anos de ordenação.

Cerca de 11 mil pessoas tiram a própria vida todos os anos no Brasil

Cerca de 11 mil pessoas morrem por suicídio todos os anos no Brasil. De acordo com o primeiro boletim epidemiológico sobre suicídio, divulgado nesta quinta-feira (21) pelo Ministério da Saúde, entre 2011 e 2016, 62.804 pessoas tiraram suas próprias vidas no país, 79% delas são homens e 21% são mulheres. A divulgação faz parte das ações do Setembro Amarelo, mês dedicado à prevenção ao suicídio.
A taxa de mortalidade por suicídio entre os homens foi quatro vezes maior que a das mulheres, entre 2011 e 2015. São 8,7 suicídios de homens e 2,4 de mulheres por 100 mil habitantes.
Para a diretora do Departamento de Vigilância de Doenças e Agravos Não-Transmissíveis e Promoção da Saúde, Fátima Marinho, esse número é maior pois há uma perda de diagnóstico dos casos de suicídio. Segundo ela, nas classes sociais mais altas há um tabu sobre o tema, questões relacionadas a seguros de vida e diagnósticos feitos por médicos da família. “As pessoas mais pobres, em geral, captamos a morte porque ele vai pro IML [Instituto Médico Legal]”, explicou.
Das 1,2 milhão de mortes, em 2015, 17% tiveram causa externa. Dessas 40% são registradas por causas não determinadas, segundo Fátima. “Ainda tem 6% de mortes que ainda não conseguimos chegar na causa. São cerca de 10 mil mortes que foram por causa externa, violenta, mas não sabe porquê. Por isso temos esse subdiagnostico do suicídio”, disse.
No Brasil, os idosos, de 70 anos ou mais, apresentaram as maiores taxas, com 8,9 suicídios para cada 100 mil habitantes, mas, segundo Fátima, em números absolutos, a população idosa vem aumentando. Além disso, eles sofrem mais com doenças crônicas, depressão e abandono familiar. Ela explica que esse índice alto de suicídio entre idosos é observado no mundo todo.
Os dados apontam que 62% dos suicídios foram causados por enforcamento. Entre os outros meios utilizados estão intoxicação e arma de fogo. Fátima conta que nos Estados Unidos são registrados mais suicídios por armas de fogo porque o acesso é mais facilitado.
A proporção de óbitos por suicídio também foi maior entre as pessoas que não têm um relacionamento conjugal, 60,4% são solteiras, viúvas ou divorciadas e 31,5% estão casadas ou em união estável. “E os homens casados se suicidam menos. O casamento é um fator de proteção para os homens e de risco para as mulheres”, disse Fátima, explicando que existe uma associação das tentativas de suicídio das mulheres com a violência intradomiciliar. Ela compara que as mulheres tentam mais e, por outro lado, os homens anunciam menos, mas são os que mais morrem por suicídio.
Entre 2011 e 2015, a taxa de mortalidade por suicídio no Brasil foi maior entre a população indígena, sendo que 44,8% dos suicídios indígenas ocorreram na faixa etária de 10 a 19 anos. A cada 100 mil habitantes são registrados 15,2 mortes entre indígenas; 5,9 entre brancos; 4,7 entre negros; e 2,4 morte entre os amarelos.
Para Fátima, o alto risco de suicídio entre jovens indígenas compromete o futuro dessas populações, já que elas também há um alto risco de mortalidade infantil.
Segundo a secretaria especial de Saúde Indígena, Lívia Vitenti, existe um número alto de indígenas em sofrimento por uso álcool, disputas territoriais e conflitos com a família e com a população não indígena. Entre os jovenes, então, há falta de perspectivas de vida. Entretanto, o problema do suicídio indígenas não está distribuído por todo o território, sendo mais frequente entre os Guarani Kaiowá, Carajás e Ticunas.

Tentativas de suicídio
As notificações de lesões autoprovocadas tornaram-se obrigatórias a partir de 2011 e elas seguem aumentando. Entre 2011 e 2016, foram notificadas 176.226 lesões autoprovocadas; 27,4% delas, ou seja, 48.204, foram tentativas de suicídio.

As tentativas de suicídios são mais frequentes em mulheres. Das 48.204 pessoas que tentaram tirar a própria vida entre 2011 e 2016, 69% era mulheres e 31% homens. A proporção de tentativas de suicídio, de caráter repetitivo também é maior entre as mulheres. Entre 2011 e 2016, daqueles que tentaram suicídio mais de uma vez, 31,3% são mulheres e 26,4 são homens.
O meio mais utilizado nas tentativas de suicídio foi por envenenamento, 58%. Seguido de objeto pérfuro-cortante, 6,5%; enforcamento, 5,8%.

Fatores de risco e proteção
Entre os fatores de risco para o suicídio estão transtornos mentais, como depressão, alcoolismo, esquizofrenia; questões sociodemográficas, como isolamento social; psicológicas, como perdas recentes; e condições incapacitantes, como lesões desfigurantes, dor crônica e neoplasias malignas. No entanto, o Ministério da Saúde ressalta que tais aspectos não podem ser considerados de forma isolada e cada caso deve ser tratado de forma individual.
Segundo o Ministério da Saúde, a existência de um Centro de Atenção Psicossocial (Caps) no município reduz em 14% o risco de suicídio. Na análise feita, é o único fator de proteção ao suicídio. Fátima ressalta, entretanto, que é preciso uma melhor distribuição desses centros, principalmente nas áreas com mais concentração de suicídios. Existem hoje no Brasil 2.463 Caps em funcionamento.
Como a ocorrência de suicídio é grande entre os indígenas, ser indígena por si só já é um fator de risco, explicou Fátima. Pessoas que trabalham na agropecuária, que tem acesso a pesticidas, também são vulneráveis a cometerem suicídio por intoxicação.
Os casos acontecem em quase todo país, mas Região Sul concentrou 23% dos suicídios, entre 2010 e 2015. Segundo Fátima, alto nível de renda, pouca desigualdade social e baixo índices de pobreza são características de municípios que concentram mais suicídios.
Ela explica, entretanto que, no caso da Região Sul, existe a associação dos casos de suicídio com a agricultura, especificamente a cultura da folha do tabaco. Segundo Fátima, a folha verde do fumo pode causar uma intoxicação neurológica em quem mantém um contato muito próximo, “o efeito dessa intoxicação é chamada bebedeira da folha verde do fumo”.
Além disso, o pesticida usado nessa cultura contém manganês, que é absorvido e depositado no sistema nervoso central. Fátima ressalta, entretanto, que esta é uma associação e que ainda não existe o nexo causal entre esse tipo de pesticida e os casos de suicídio.
“Então temos o risco ocupacional e a pressão social e econômica em cima de agricultores familiares. É uma exposição conjunta”, disse a diretora. Ela explicou que as políticas de incentivo para a diversificação das culturas no sul do país não tiveram um impacto importante pois o tabaco ainda é muito lucrativo.
Além da Região Sul e de áreas indígenas, esse levantamento trouxe novas áreas com altas taxas de suicídio, que são a região da divisa de São Paulo e Minas Gerais e o estado do Piauí. Segundo Fátima, esses locais ainda precisam ser mais estudos, mas também há uma associação ao uso de pesticidas e a agricultura.

Agenda global
Mais de 800 mil pessoas tiram a própria vida por ano no mundo. Por isso, em 2013, a Organização Mundial da Saúde desenvolveu um plano de ações em saúde mental que pretende reduzir em 10% da taxa de suicídio até 2020.

O coordenador de Saúde Mental, Álcool e Outras Drogas, Quirino Cordeiro, disse que o governo promovia ações na área de prevenção ao suicídio, mas agora que está começando a fazer uma política focada no tema. Uma das ações estratégicas é a construção do Plano Nacional de Prevenção ao Suicídio, para ampliar as ações para as populações vulneráveis.
Segundo ele, o Ministério da Saúde quer expandir a rede de CAPS, inclusive entre a população indígena, além de outras estratégias de cuidados na saúde mental. É importante ainda cruzar os mapas para identificar possíveis associações de causas de suicídios, como a associação com pesticidas. Outros órgãos e ministérios serão convidados para apoiar futuras ações.
Quirino explica que as políticas de prevenção ao suicídio devem focar em dois fatores, nos transtornos metais e nos meios de suicídio. “Sabemos que entre os vários fatores para o suicídio existe a presença do transtorno mental não tratado de maneira apropriado, então ter políticas públicas focadas nesses transtornos é importante”, disse.
Outra frente de ações é o controle de meios para o suicídio, segundo Quirino, que tem um impacto importante na redução dessas mortes. “Muitas vezes quem comete suicídio está passando por problemas graves e acaba fazendo uma tentativa por desespero. Mas se não tem à mão um método, muitas vezes aquele momento passa e a pessoa não efetiva”, disse, explicando que o controle de armas é importante no Brasil, por exemplo, pois onde se restringe o acesso a armas, se reduz os casos de suicídio.

Acordo com o CVV
O Ministério da Saúde, desde 2015, tem uma parceria com o Centro de Valorização da Vida (CVV), que começou com um projeto-piloto no Rio Grande do Sul. O CVV realiza apoio emocional e prevenção do suicídio, atendendo voluntária e gratuitamente todas as pessoas que querem e precisam conversar, sob total sigilo por telefone, e-mail, chat e voip 24 horas todos os dias.
O objetivo da parceria é ampliar gradualmente a gratuidade de ligações para o CVV, mesmo que por celular, por meio do número 188. Além do Rio Grande do Sul, a partir de 1º de outubro, pessoas de mais oito estados poderão ligar gratuitamente para o serviço: Acre, Amapá, Mato Grosso do Sul, Piauí, Santa Catarina, Rio de Janeiro, Rondônia e Roraima.
De acordo com o Ministério da Saúde, 21% da população brasileira reside nos nove estados a serem atendidos gratuitamente pelo CVV, o que garante uma ampla cobertura. O acordo já ampliou o número de atendimentos, de 4,5 mil em setembro de 2015, para 58,8 mil em agosto de 2017. Até 2020 todo o território nacional poderá contar com o atendimento pelo 188.
No restante dos estados, o CVV ainda atende pelo número 141 ou diretamente no posto regional. Em cidades sem posto de atendimento do CVV, as pessoas podem utilizar o atendimento por chat, skype e e-mail disponíveis na página do CVV.
O boletim epidemiológico sobre suicídio está disponível na página do Ministério da Saúde. A pasta também disponibiliza materiais de orientação para jornalistas, profissionais de saúde e população geral. Fonte: www.metrojornal.com.br