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A Palavra do Frei Petrônio

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sábado, 29 de outubro de 2016

EVANGELHO DO DIA: Quem se eleva será humilhado.

FINADOS: Poemas do Frei Petrônio de Miranda, O. Carm.


EU QUERO MORRER...
Frei Petrônio de Miranda, Padre Carmelita e Jornalista/RJ.
Convento do Carmo da Lapa/RJ.
29 de outubro-2016.


Morrer para o ódio 
Senhor, eu quero morrer.
Morrer para a arrogância
Senhor, eu quero morrer.
Morrer para a mentira
Senhor, eu quero morrer.
Morrer para a falsidade
Senhor, eu quero morrer.
Porque sem Ti, eu não quero viver!


Morrer para o individualismo
Senhor, eu quero morrer.
Morrer para a corrupção
Senhor, eu quero morrer.
Morrer para o capitalismo
Senhor, eu quero morrer.
Morrer para a fome
Senhor, eu quero morrer.
Porque sem Ti, eu não quero viver!


Morrer para a indiferença
Senhor, eu quero morrer.
Morrer para a discriminação.
Senhor, eu quero morrer.
Morrer para a tristeza
Senhor, eu quero morrer.
Morrer para a politicagem
Senhor, eu quero morrer.
Porque sem Ti, eu não quero viver.


Morrer para a poluição
Senhor, eu quero morrer.
Morrer para as drogas
Senhor, eu quero morrer.
Morrer para a prostituição
Senhor, eu quero morrer.
Morrer para as noites escuras
Senhor, eu quero morrer.
Porque sem Ti, eu não quero viver.


Morrer para a violência
Senhor, eu quero morrer.
Morrer para o trabalho escravo
Senhor, eu quero morrer.
Morrer para infidelidade
Senhor, eu quero morrer.
Morrer para discriminação
Senhor, eu quero morrer.
Porque sem Ti eu não quero viver.


SENHOR, TIRA-ME A VIDA.
Frei Petrônio de Miranda, Padre Carmelita e Jornalista/RJ.
Convento do Carmo da Lapa/RJ.
29 de outubro-2016.


Senhor, quando eu fingir que o meu próximo não passa fome.
Tira-me a vida, meu Deus!
Senhor, quando eu não estender a mão para o órfão e a viúva.
Tira-me a vida, meu Deus!
Senhor, quando eu não souber dialogar com a minha família.
Tira-me a vida, meu Deus!
Porque assim, eu não quero viver!


Senhor, quando eu for homofóbico.  
Tira-me a vida, meu Deus!
Senhor, quando eu não tiver mais esperança.
Tira-me a vida, meu Deus!
Senhor, quando eu não for ético e solidário.
Tira-me a vida, meu Deus!
Porque assim, eu não quero viver!


Senhor, quando eu levantar falso testemunho.
Tira-me a vida, meu Deus!
Senhor, quando eu tiver vergonha de anunciar a Boa Nova.
Tira-me a vida, meu Deus!
Senhor, quando eu desonesto e corrupto.
Tira-me a vida, meu Deus!
Porque assim, eu não quero viver!


Senhor, quando eu não respeitar os idosos e as crianças.
Tira-me a vida, meu Deus!
Senhor, quando eu me deixar levar pelo consumismo.
Tira-me a vida, meu Deus!
Senhor, quando eu for egoísta e desumano.
Tira-me a vida, meu Deus!
Porque assim, eu não quero viver!


Senhor, quando eu for motivo de divisão e ódio.
Tira-me a vida, meu Deus!
Senhor, quando eu silenciar diante das injustiças.
Tira-me a vida, meu Deus!
Senhor, quando eu destruir a natureza em nome do progresso.
Tira-me a vida, meu Deus!
Porque assim, eu não quero viver!



QUE VENHA A IRMÃ MORTE!
Frei Petrônio de Miranda, Padre Carmelita e Jornalista/RJ.
Convento do Carmo da Lapa/RJ.
29 de outubro-2016.


Quando eu tiver anunciando a esperança
Que venha a irmã morte me levar!
Quando eu não tiver ódio no coração
Que venha a irmã morte me levar!
Quando eu socorrer os aflitos e oprimidos
Que venha a irmã morte me levar!
Porque com o meu Deus, eternamente, eu quero ficar.


Quando eu tiver levantado o irmão caído
Que venha a irmã morte me levar!
Quando eu tiver defendido os jovens drogados 
Que venha a irmã morte me levar!
Quando eu tiver gritado contra a discriminação racial   
Que venha a irmã morte me levar!
Porque com o meu Deus, eternamente, eu quero ficar.


Quando eu for motivo de unidade na comunidade
Que venha a irmã morte me levar!
Quando eu não tiver medo de falar a verdade
Que venha a irmã morte me levar!
Quando eu tiver contemplado o pôr do sol
Que venha a irmã morte me levar!
Porque com o meu Deus, eternamente, eu quero ficar.


Quando eu tiver reconhecido a importância da minha família
Que venha a irmã morte me levar!
Quando eu souber amar às 24 horas os meus pais
Que venha a irmã morte me levar!
Quando eu valorizar as pequenas coisas do dia-a-dia
Que venha a irmã morte me levar!
Porque com o meu Deus, eternamente, eu quero ficar.


Quando eu estender a mão para o sem terra e sem casa.
Que venha a irmã morte me levar!
Quando eu não tiver medo de denunciar os políticos corruptos.
Que venha a irmã morte me levar!
Quando a minha oração for vida e não palavras ou ritos.
Que venha a irmã morte me levar!
 Porque com o meu Deus, eternamente, eu quero ficar.


Quando eu não me deixar levar pela riqueza e pelo poder
Que venha a irmã morte me levar!
Quando eu defender a democracia e a participação popular
Que venha a irmã morte me levar!
Quando eu não tiver medo de ser condenado e excluído
Que venha a irmã morte me levar!
Porque com o meu Deus, eternamente, eu quero ficar.


POR QUE TER MEDO DA MORTE?
Frei Petrônio de Miranda, Padre Carmelita e Jornalista/RJ.
Convento do Carmo da Lapa/RJ.
29 de outubro-2016.

Se sou justo e humano
Por que ter medo da morte?
Se vivo sem medo de ser feliz
Por que ter medo da morte?
Se sou alegre e fraterno
Por que ter medo da morte?
Se abro as portas para os pobres
Por que ter medo da morte?
Se com Cristo eu irei me encontrar?


Se não firo o próximo com palavras ou atos
Por que ter medo da morte?
Se procuro sempre fazer o bem 
Por que ter medo da morte?
Se mostro a todos os valores cristãos
Por que ter medo da morte?
Se estende a mão para os pobres
Por que ter medo da morte?
Se com Cristo eu irei me encontrar?


Se luto para que todos sejam valorizados
Por que ter medo da morte?
Se sujo as mãos para a construção de um novo dia
Por que ter medo da morte?
Se defende a Boa Nova e os valores cristãos
Por que ter medo da morte?
Se encontro paz e harmonia no meu lar
Por que ter medo da morte
Se com Cristo eu irei me encontrar?
   


Se gosto de caminhar e trilhar novos caminhos
Por que ter medo da morte?
Se uso a minha inteligência para gerar vida
Por que ter medo da morte?
Se conscientizo a todos dos seus direitos e deveres
Por que ter medo da morte?
Se valoriza a família como dom de Deus
Por que ter medo da morte?
Se com Cristo eu irei me encontrar?


Se encontro forças para sair das noites escuras da vida
Por que ter medo da morte?
Se acredito que após uma tempestade vem o brilho do sol 
Por que ter medo da morte?
Se sei contemplar o brilho das estrelas mesmo na escuridão
Por que ter medo da morte?
Se sei perdoar e ser companheiro
Por que ter medo da morte?
Se gosto de remar mesmo contra a maré
Por que ter medo da morte?
Se com Cristo eu irei me encontrar?

FINADOS: Por que será?

AQUI TINHA UM ANJO: Frei Petrônio.

quarta-feira, 26 de outubro de 2016

EVANGELHO DO DIA: Quem pode se salvar?

CARMELITAS: A aventura da Oração.

Emanuele Boaga, O. Carm. e Augusta de Castro Cotta, CDP

A. A dimensão contemplativa da vida
1. Em nossos dias, mais do que no passado, presta-se atenção à dimensão contemplativa do ser humano, individuando-se os seus elementos ontológicos, situados no intelecto e na vontade, ou seja, na capacidade que o homem tem de conhecer e de amar. Na vida cristã tal dimensão contemplativa é resposta teologal de fé, de esperança e de caridade. Através dela, o crente se abre à revelação e à comunhão com o Deus vivo por Cristo, no Espírito Santo. A dimensão contemplativa encontra sua fonte na comunicação de Deus e é fortemente caracterizada pelo aspecto dialógico da relação Deus-homem. Realiza-se através de um conjunto de elementos: a graça divina, as virtudes teologais, os sacramentos, a oração, a ascese. A oração, como expressão da experiência teologal, constitui algo essencial e fundamental para a vida humana e cristã, tal como a respiração para o corpo.
2. A oração, como expressão da dimensão contemplativa do ser humano, é portanto o ponto de partida da maior parte dos outros aspectos do complexo fenômeno religioso. Neste sentido, considerando a fenomenologia da religião, a oração é uma realidade complexa. Apresenta muitos elementos que devem ser avaliados singularmente e no seu conjunto para que se compreenda a inter-relação profunda e a interação harmônica entre eles. Tudo isto deve ser levado em consideração para se fazer uma exposição acertada sobre a oração.
3. No âmbito cristão, o desejo de conhecer a Deus e ver o seu “rosto”, de fruir tal conhecimento e visão, fazendo portanto uma experiência do divino, concretiza-se na contemplação do mistério, porque “a luz [de Deus] refulge em nossos corações para irradiar o conhecimento da glória de Deus que brilha no rosto de Cristo” (2 Cor 4,6). A busca de Deus torna-se o centro fundamental da vida: a contemplação.
4. A contemplação é descrita por Paulo VI nestes termos: “O esforço de fixar em Deus o olhar e o coração, que nós chamamos de contemplação, torna-se o ato mais elevado e mais pleno do espírito, o ato que também hoje pode e deve organizar a imensa pirâmide da atividade humana” (homilia na IX sessão do Concílio Vaticano II - 09/12/ 1965). Contemplar vem a ser a capacidade de fixar o olhar em Deus para ver a realidade com os seus olhos e amá-la com o seu coração. A contemplação é a penetração na verdade da existência que leva a compreender e aceitar até às últimas conseqüências o desígnio salvífico. Portanto, uma realidade (unitária de todo o ser humano-cristão) de fé, de esperança e de amor, que pela ação do Espírito Santo, chega ao dom da sabedoria que permite a entrada em comunhão com Deus e seu mistério da Salvação. Neste contexto, a oração e a contemplação se identificam, tornando-se relação vital Deus-Homem e caminho unificante de toda a vida na conformidade com a vontade de Deus.

B. Descrição da Oração
5 - A oração no seu aspecto dialógico (palavra-ação de Deus e resposta do homem) apresenta uma estrutura própria ou dimensões nas quais precisamos de colocar atenção. Estas dimensões são:
- a estrutura cristológica
- a estrutura trinitária
- a estrutura eclesial
- a estrutura pessoal
- a inserção na realidade
6. Estrutura cristológica: Na oração existe uma relação pessoal e intersubjetiva entre Cristo e o nosso ser. Cristo é o sujeito da nossa oração (cf. 2Cor 1,19ss). O amor de Deus nos é comunicado através dele, pois, somente nele podemos encontrar o amor divino. Só em Cristo é possível viver a vida cristã, entendida como a escuta e a obediência a Cristo na oração. Oração cristológica significa estar plenamente em Cristo: manifestação clara e vital de nossa vida escondida em Cristo. Isto se faz na aceitação, na adoração, na ação de graças e na súplica.
7. Estrutura trinitária: a oração em Cristo é também oração por meio de Cristo. Mergulhados Nele, colocamo-nos em comunicação com o Pai que assim fala diretamente a nós, através do Espírito Santo. Entramos desta forma, em comunhão com a Trindade. A estrutura trinitária da oração leva o Cristo a tornar-se a realização de nossa existência cristã, de modo que por sua comunicação o Espírito nos permite dizer “Abba, Pai”. O espírito nos ajuda a proclamar Cristo “o Senhor”, etc. Em Cristo e por Cristo nós ficamos mergulhados na Trindade.
8. Estrutura eclesial: como “em Cristo e por Cristo” nós estamos na Trindade (comunhão interpessoal com o Pai, o Filho e o Espírito Santo) assim “em Cristo e por Cristo” nós estamos também inseridos na Igreja e exprimimos esta existência como oração eclesial (Ef 3,20-21). A estrutura trinitária torna-se eclesial: uma e outra, se realiza em Cristo e por Cristo (Mt 18,19-20). Este encontrar-se juntos na fé é expressão do Mistério da Igreja (que é ao mesmo tempo, para nós, chamado e ponto de encontro com Deus). Em vista disto, quando um grupo se reúne para a oração, descobre que não está só diante de Deus, mas que Cristo está em seu meio, e isto se exprime no acolhimento e no amor mútuo. Desfruta então a consciência individual e comunitária de pertencer a Cristo.
9. Estrutura pessoal: a estrutura eclesial não destrói, porém potencializa a relação pessoal com Deus na oração. O mesmo está na base da estrutura cristológica e trinitária. A oração individual e a oração comunitária são dois momentos inseparáveis e insubstituíveis de um único evento: a pertença a Cristo e a Deus uno e trino.
10. Inserção na realidade: a salvação é oferecida a todos os homens. S. Paulo estende a intercessão e o gemido do Espírito a toda a criação (cf. Rom 8, 19ss). Nasce o significado do pedido na oração: pedido singular, individual, coletivo, material, o “dá-nos hoje o nosso pão”. Não só isto. A oração não é somente um ato da existência cristã, ou um ato de culto, mas ao contrário é o ato e a expressão da existência cristã e do seu culto. Não há solução de continuidade entre a oração e a vida-trabalho, porque tudo está sob a Palavra e a Ação de Deus. Na oração, a existência humana se torna consciente. Encontra a revelação do sentido da vida, coisa impossível de se obter e expressar apenas na atividade, tantas vezes mesclada de ambigüidades. Exclui-se assim uma oração como finalidade em si mesma, cheia de ilusões; excluem-se também as formas exageradas de atividade (ativismo), desligadas do discernimento do projeto de Deus.
11. Oração autêntica é aquela que nos torna compenetrados da experiência viva de Deus, elevando-nos a irresistível testemunho da fé e do amor salvador pelo fato de experimentar a própria salvação.

C. A Oração diálogo-caminho com Deus
12. A oração é uma grande aventura de amor realizada com Deus, é como um diálogo e uma ascensão feita com ELE, rumo ao cume. È diálogo e caminho ou seja: realidade relacional, progressiva e dinâmica.
13. São protagonistas neste caminho: Deus (que toma a iniciativa) e o ser humano (que lhe responde).
14. O papel do Espírito: a oração não conhece limites, porque o ser humano deve deixar-se trabalhar (purificar, guiar) pelo Espírito que conduz para os caminhos por Ele escolhidos. Os dons do Espírito atuam nesta linha, especialmente:
a piedade: conduz o afeto filial a Deus
a ciência: eleva a realidade a Deus
a inteligência: ajuda a penetrar na riqueza do mistério de Deus, revelado ao longo do caminho, e a colocar o ser em sintonia com o projeto divino;
a sabedoria: permite provar a realidade divina.

15. A oração como caminho propõe atitudes que são interligadas entre si:
a) dar espaço a Deus:
• exige o silêncio e a solidão como base para a escuta e o acolhimento de Deus.
- exemplo se pode encontrar no Profeta Elias que vai ao Monte Horeb, o monte de seu encontro com Deus. Não é ele um alpinista espetacular, mas segue passo-a-passo até chegar ao cume do Horeb;
- Deus buscado, não de forma romântica, nas árvores, nem nas pedras, nos relâmpagos e no tremor de terra, mas, ouvido e experimentado na brisa leve;
- a solidão silenciosa e o silêncio solitário: portanto o sentir a palavra de Deus com os ouvidos do coração;
- o deserto: cf. Es 13,17; 3, 17; 5,1.
• a ascese individual e comunitária é o laboratório do Espírito, no qual ocorre a purificação, a elevação e união com Deus, na medida em que nos esquecemos de nós mesmos e colaboramos com a ação “crucificante” do mesmo Espírito.
b) consciência da presença de Deus:
• buscar a morada de Deus que está no centro do próprio ser;
• abrir-se conscientemente à presença de Deus em si mesmo e na criação: em, com e através de Jesus.

c) Deus companheiro no caminho: entrega e aceitação
• entrega: a consciência de Deus, presença-amiga no caminho, deve levar a entregar-se a Ele, acolhendo-O porque é o “Senhor”.
• aceitação: da sua presença orientadora, do seu projeto, deixando-se conduzir-se por suas mãos, através das circunstâncias concretas da vida quotidiana. Isto implica em esforço autêntico, empenho dinâmico (não é um deixar-se arrastar, mas um caminhar junto).
d) expressão contemplativa espontânea:
• adoração, louvor, ação de graças, súplica;
• desenvolvimento mediante formas concretas de oração correspondentes às exigências do caminho próprio da oração;

16. As dificuldades do caminho: nesta caminhada podem encontrar-se e encontram-se de fato, dificuldades que são de duas fontes:
• externas: a ambigüidade das coisas, a securalização, etc.
• internas: os pecados, ocupações e preocupações excessivos; preguiça: apegos; formalismo, medo ou temor de “deixar-se conduzir por Deus”.

17. As dificuldades podem ser superadas com:
• orientação personalizada e ajuda para a interiorização da oração e das suas formas concretas;
• renovação dos métodos, em resposta às exigências do momento e necessidades pessoais;
• esforço sincero de conversão;
• testemunho autêntico, porém nos limites da oração-vida, vida-oração.
18. O caminho que nos conduz à meta é longo e por isso temos sempre necessidade de sermos socorridos e educados por Deus para que, com fidelidade, possamos caminhar. Por isso, devemos dizer junto com os Apóstolos: “Senhor, ensina-nos a rezar” (Lc 11,1).

APROFUNDAMENTO E INTERIORIZAÇÃO
1. Para pesquisar e partilhar, ou fazer em grupos, como forma de aprofundamento:

• Argumentar as seguintes afirmações:
1 - Na vida cristã a dimensão contemplativa é resposta teologal da fé, da esperança e da caridade.
2 - A dimensão contemplativa se caracteriza pelo aspecto dialógico da relação entre Deus e o ser humano.
3 - Contemplar é fixar o próprio olhar em Deus para ver a realidade com seus olhos e amá-la com o seu coração.
• Dê sua impressão sobre as dimensões da estrutura da oração. Elas lhe parecem independentes ou complementares? Por quê?
• Refletir sobre a oração como necessidade da mesma natureza humana, à luz das seguintes considerações bíblicas: Rom 1,18-20 e At 17, 27-28: “A procura de Deus faz parte da própria natureza humana que não se realiza fora dela”. Ilustrar a afirmação destes textos bíblicos com fatos da atual realidade (as buscas da verdade e do transcendente pelo homem de nossos dias, nas diversas situações humanos e categorias sociais).
• O surto da “Nova Era”, oferece suas crenças, seus ritos e símbolos, como resultado do vazio de Deus, criado pela pós-modernidade, pela era do consumismo, do secularismo e do tecnicismo. Discutir as interpelações que esta postura do homem moderno pode fazer à nossa vida cristã e religiosa (ou consagrada). Como pensa que agiriam os Profetas neste contexto?
• Acompanhar, nos Evangelhos a Cristo modelo, mestre e mediador da oração cristã. Tomar algumas passagens para interiorização:
- Jo 1,18; 10,30. 38.14,11: Cristo, o revelador do Pai
- Mt 6,5-15: aprofundar o conteúdo ensinado por Jesus a respeito da vida de oração
- Rom 12,4-5; Gal 3,26-28; Jo 1,12: nos revelam nossa ligação com Cristo. Refletir sobre as repercussões desta verdade sobre a nossa vida de relação com o Pai (a divindade)
- Em Col 1,29; Gal 2,20; Jo 14,13; 15,16: o que podemos aprender de prático para nossa oração.
 • O diálogo com Deus pode ser realizado com todos os meios expressivos: mente, coração, sentimento voz, gesto, comportamento, lugar, tempo. Discutir sobre a utilização dos mesmos, em sua:
- relação entre a vida interior e o comportamento externo das pessoas;
- ligação dos diversos recursos com o ensinamento de Jesus em Mt 6,5-9; 26,39.42.44; 27, 46; Lc 23,46;
- busca de compreensão dos gestos orantes de Jesus e seus discípulos: Mt 14,19; Jo 11,41 (levantou os olhos ao céu); 1Tim 2,8 (elevou as mãos); Lc 22,41; At 20,36; Ef 3,14 (inclinação, pôr-se de joelhos, em sinal de adoração); Lc 18,11.13 (estar em pé, corpo ereto, olhos baixos, em sinal de sacrifício).
 • Analisar os ritmos e os lugares onde Jesus rezava:
- escolha de tempos reservados à oração: Lc 4,16; 18,1-8; Jo 7,10;
- o acompanhamento das festas litúrgicas: Lc 2, 41-49;
- busca da solidão: Mt 6,6; 14,23; Mc 1,35; 6,31; Lc 4,42; 5,16; 6,12; 11,1;
- presença nos lugares de encontro da comunidade orante: Mt 12,13; Mc 11,15; Lc 2, 22ss; 19,45-47.
2. As questões que seguem são para reflexão individual, anotação no próprio diário espiritual e partilha com o Mestre ou diretor espiritual. Esta parte deve ser feita com serenidade, em momentos de solidão previstos para o cuidado da vida espiritual do formando.
• Tomar como oração preparatória os textos bíblicos:
* Sab 9 - Pedir a Deus a sabedoria da vida
* I Reis 17, 1- 24 - O Senhor alimenta o seu Profeta
* Selecionar algum dos textos citados e fazer oração a partir dele.
• Selecionar os textos bíblicos citados no exercício acima que:
- lhe causaram maior impressão
- constituíram uma nova descoberta
- confirmam o que já pensava sobre a oração na vida humano-cristã
- lhe trazem dificuldade de compreensão ou para a prática.
• Com que fatos da vida de Nossa Senhora você mais aprende a viver com Deus e para Deus? Por que pensa assim?
• Como pode assumir na sua vida orante as diversas dimensões da oração?
• Das atitudes orantes de Cristo com qual delas você mais se identificou?
• Se não fosse chamado à vida carmelitana acha que mesmo assim precisaria de desenvolver uma vida de profunda oração? Por quê?
Feitos os exercícios não deixe de procurar ajuda com seu orientador espiritual. Ela é indispensável para o seu crescimento humano-espiritual-carmelitano.

Procure tirar as dúvidas, partilhar suas descobertas, desafios, dificuldades, expectativas, compromissos.

CARMELITAS: O Silêncio. (Formação para postulantes carmelitas)

Emanuele Boaga, O. Carm. e Augusta de Castro Cotta, CDP

Atitude dialogal e o silêncio «sonoro»
«Eu mesmo a seduzirei, conduzirei ao deserto, e lhe falarei ao coração.
Lá lhe restituirei suas vinhas.... e ela responderá como nos dias da juventude»
(Os 2,16-17)

A) Observações e conteúdos
1 - Os assuntos que compõem este tema oferecem elementos básicos para a dinâmica da vida espiritual carmelitana: levando a compreender o tipo do silêncio necessário ao Carmelita e a purificação-união com Deus.
2 - Para introduzir o tema, pode-se ajudar o Postulante a notar algumas situações viven­ciais (como se sente quem perde a paz interior, quem vive cheio de paixões, etc) e também próprias do ambiente (como se sente quem vive no barulho constante, quem fala muito e as consequências disto na vida). Exame de como tem sido a própria ex­periência na casa religiosa (horários e ambientes de silêncio). Oferecer como  leitura inicial o nº 21 da Regra do Carmo, comentando-o.
3 - Oferecer em seguida, os seguintes conteúdos:
• O silêncio na vida humana: noções sobre o silêncio como fator indi­spensável para o crescimento do ser na maturidade humana, utilizando algum texto adequado ou desenvolvendo os seguintes tópicos:
- o ser humano é feito para comunicar-se. E se realiza na comunicação que tem a forma de diálogo ou partilha da palavra, o que supõe dois interlocutores: o eu que fala e o tu que ouve e vice-versa. A primeira necessidade para que o diálogo seja produtivo é o conhecimento mútuo destes interlocutores. O silêncio está a serviço da palavra. Ele é «metade» da comunicação, sem a qual a própria palavra pode ser sem conteúdo (vazia, sem sentido, sem qualidade humana) ou sem compreensão, gerando mal en­tendimento;
- o silêncio será pois muito importante para esta comunicação. Ele  vai permitir  o recíproco conhecimento dos interlocutores. É necessário fazer silêncio para escutar o outro e a si mesmo (parar, pensar, examinar os próprios pensamentos, comporta­mentos, «pesar» as palavras que diz ou ouve). Deus é também o Outro, portanto, para conhecer a Deus é preciso silêncio. Enfim toda a criação (a finalidade de todas as coisas), só podemos conhecer quando fazemos silêncio para ouvi-las.
- É impossível crescer no amor sem a prática do silêncio que cria o espaço para a com­preensão e a aceitação de si mesmo e do outro na sua alteridade. Somente a pessoa que chega a aprender o silêncio chega à própria solidão (= a compreensão de que é um ser único, irrepetível, com características próprias) e, portanto, adquire também capacidade para compreender o outro, realizando assim,  a verdadeira comunicação.
- SOLIDÃO e SILÊNCIO ocupam um lugar de destaque na vida humana. Notar que jamais se pode confundir solidão com fossa, pois a solidão é estado do ser ( cada pessoa é só; existe sozinha; ninguém pode tomar o seu lugar na responsabilidade de assumir a vida) e se não procuramos a nossa «solidão» poderemos viver eternamente na periferia de nós mesmos, dependentes da propaganda, da manipulação, etc. Cada um é ser único diante de Deus.

- O silêncio é imprescindível à realização da vocação humana, das boas relações com todos. O silêncio não consiste exclusivamente no controle do falar. Este é apenas o primeiro passo para aprender o verdadeiro silêncio. É difícil definir o silêncio, so­bretudo porque são múltiplas as suas dimensões. Costuma-se apenas, comumente, considerar como silêncio a ausência de certos ruídos desagradáveis, preenchendo, contudo o espaço livre com outro tipo de ruídos mais aceitáveis, mas nem por isso, silêncio verdadeiro (música, comandos condicionantes, vídeos, etc.).  Existem pois, vários tipos de silêncio que se pode classificar da seguinte forma:
> silêncio negação da palavra que fecha o ser em si mesmo e pode ser ex­pressão de desprezo; de indiferença; de orgulho; de raiva, de fraqueza; de cumplicidade; de traição... (analisar cada tipo, aproveitando para formar também nas corretas e sadias (relações humanas);
> silêncio atitude de escuta e de abertura, expressão do coração em paz, puri­ficado, libertado das amarras interiores do egoísmo; da capacidade de olhar e de amar, como Deus vê e ama; expressão de alegria, «sinal de que o coração está em casa e está aberto ao outro; sinal de desprendimento de si para acolher as expressões do outro.
• O SILÊNCIO NA BÍBLIA: A Escritura - relato e dinâmica da revelação do AMOR DE DEUS a cada ser humano - é por este mesmo fato o lugar do encontro, do caminhar para a comunhão com o MISTÉRIO DE DEUS. Para ouvir e acolher a Deus é necessário conhecer o seu jeito de se comunicar a nós. Numerosos são os textos bíblicos sobre a necessidade e o valor espiritual do silêncio que po­dem ser utilizados para formar no silêncio como clima vital indispensável para a escuta da Palavra.
Julgando conveniente, pode-se desenvolver mais a aprendizagem do silêncio tomando-se os grandes personagens da Bíblia (Abraão, Samuel, Moisés, Profetas o nosso Elias) mas sobretudo Jesus e Maria. Algumas passagens da Bíblia nos revelam o silêncio de Maria. Pode-se analisá-las: Lc 1,34-38 (diálogo da Anunciação); Lc 1,46-55 (a palavra de Maria reveladora de Deus); Lc 2,48 (o silêncio de Maria ante a resposta de Jesus), etc. Quanto ao silêncio de Jesus basta percorrer algumas passagens dos evangelhos para explicá-lo facilmente.
• Silêncio carmelitano:  Informar o seu valor para o Carmelo. Na vida carmeli­tana o silêncio tem um lugar muito importante, uma vez que ela nos propõe como substância da vida a comunhão com DEUS, a vida em sua PRESENÇA, o «Vacare Deo» — atenção amorosa e continua a Deus — como um caminho para a realização integral da vida humana.
Tal atenção a Deus supõe COMUNICAÇÃO com seu amor, ESCUTA E RESPOSTA. Precisamos captar o que Deus nos revela. Para este diálogo, que introduz e mantém a comunicação, a partilha e compartilha da vida, o meio es­sencial é o SILÊNCIO e a SOLIDÃO: ciência que se aprende, sabedoria que se adquire, experiência que se vive, AMOR que se dá. A verdadeira motivação do silêncio reside em nossa própria opção de buscar a Deus, ou melhor, de acolhê-lo em nossa vida e de viver NELE.
• Verificar a visão carmelitana do silêncio em diálogo com os (as) Postulantes e aproveitar das perguntas e esclarecimentos para oferecer mais algumas noções, como:
- Todos os nossos  irmãos do Carmelo desenvolveram em suas vidas as atitudes nasci­das do silêncio e que o Nº  21 da Regra do Carmo tão bem nos ensina e propõe.
O silêncio assim ensinado pela espiritualidade carmelitana é o mesmo silêncio ne­cessário à vida humana em qualquer situação, somente que mais aperfeiçoado, pois a ele a pessoa que tem esta vocação vai se dedicar de forma mais consciente. É o «clima» especial» no qual desabrocha e cresce a interioridade do ser humano. Ele contribui para seu crescimento e amadurecimento, tornando-o sensível ao diálogo não só com os irmãos, mas sobretudo, com o INTERLOCUTOR DIVINO. Ele pre­dispõe para a Revelação, a Comunhão, a Aliança: «O Senhor fará com que gozes de um repouso perpétuo, inundará tua alma com seus resplendores; fortificar-te-á os os­sos. Serás como um jardim bem irrigado, como uma fonte cujas águas nunca se­cam...» (Is 58,10-12). É pois o silêncio carmelitano o comportamento indispensável para:
> escutar e conhecer a Deus: «O’ Verbo Eterno, Palavra de meu Deus, quero passar minha vida a escutar-vos» (Elizabete da Trindade).
> viver um sua intimidade: «Eu a levarei ao deserto e lhe falarei ao coração» (Os 2,16-17).
- O silêncio é o fator que reúne então todas as nossas forças interiores, orientando-as para Deus, permitindo-nos viver na INTERIORIZAÇÃO sempre maior do seu AMOR, revelado em Jesus Cristo, que é:
> Verdade que não passa - Mt 24,35;
> Profundidade inesgotável - Jo 6,64;
> Substância que sacia - Ex 3,1;
> Fortaleza e Conforto - Rom 15,4;
> Mistério que se comunica - 1Tim 3,16-17.
- O Carmelita educa o seu ser para o silêncio dos pensamentos, das palavras, dos com­portamentos para viver pacificado e atento a Deus e aos irmãos. Isto o ajudará a ser feliz e a adquirir uma «sensibilidade contemplativa» libertadora da dicotomia entre FÉ-VIDA, AÇÃO-CONTEMPLAÇÃO. Os efeitos desta educação serão percebidos pela pessoa que terá seu ser e agir plenificados e felizes, pois sempre mais alcançará:
> a libertação das amarras que impedem de amar e do silêncio vicioso da indiferença, do desprezo, da preguiça, da irresponsabilidade, da covardia, etc;
> o cultivo de situações de autenticidade, numa atitude constante de alegria, de reflexão, de respeito, de verdade, de caridade, de adoração a Deus e de atenção aos irmãos;
> a capacidade de ver e amar os irmãos e o mundo como Deus «vê» e «ama» a cada um com sua realidade;
> o desapego de tudo o que não é Deus e o enraizamento NELE, com a educação e orientação das paixões para o amor;
> a discrição que o torna ouvinte confiável e lhe dá a palavra exata quando precisa;
> a sabedoria e a  paz que lhe conferem a força interior, nascida da comunhão com Deus;
> a alegria que expressa a plenitude alcançada: «É no silêncio que   estará a vossa força» (Is 30,15).

B) Sugestões para atividades  formativas
a) Organizar as próprias anotações, verificando as dúvidas para perguntar no próximo encontro Os trabalhos preparados devem ser apresentados sempre antes de se passar para outro tema ou valorizados de outra forma, quando for o caso. (Isto será sempre bom, pois constitui uma forma de verificar a com­preensão,  de tirar dúvidas e de promover a atenção e fixação dos conteúdos mais importantes).

b) Analisar estas afirmações do Carmelita Miguel de S. Agostinho

«... Por isso os Carmelitas são sempre modestos no andar, nunca falam em voz alta,
procuram não fazer barulho e assim guardam sempre o silêncio. [...] mas existe outro silêncio que é o silêncio interior... Tal é o silêncio que deve praticar o carmelita, a fim de que, fazendo neste silêncio todas as obras, adquira a disposição próxima para a união com Deus, com o celestial esposo, e para a vida na intimidade contínua com Ele.
[...] Todo o verdadeiro carmelita esteja persuadido de que o segundo sinal do espírito carmelitano é a solicitude em observar o silêncio, sendo o primeiro o amor à solidão».

c) Fazer o mesmo com os seguintes textos de dois leigos poetas: 
«Agora deixemos agir o silêncio. É um grande mestre da Verdade. A esses espaços de silêncio que atravessam a minha alma, devo eu afinal,  tudo o que em mim possa haver de bom. pobres daqueles que não conhecem o silêncio [...] Então eu parava cheio de amor e de respeito, porque o silêncio é também o mestre do amor» ( Psichari)

«Hei de escrever-vos um hino sobre o silêncio, vigilância de Deus sobre nossa febre, manto de Deus sobre a agitação dos homens. É bom que encontres Deus que é Silêncio eterno, Silêncio porto do navio, Silêncio em Deus em Deus, porto de todos os navios.
O amor começa onde não há dádiva a esperar. O amor primeiramente é exercício da oração e oração, é exercício do silêncio. Eles e eu não éramos mais que a oração, no silêncio de Deus» (Saint-Exupery)

d) Reler o texto oferecido no início (nº 21 da Regra do Carmo) e fazer um elenco dos textos bíblicos citados no mesmo. Tomar a Bíblia e ler nela os referidos textos dentro de seu contexto.
e) Discutir: que tipos de silêncio são recomendados na Regra do Carmo? Explicar os tipos a partir dos conteúdos estudados sobre o silêncio na vida humana e o silêncio na Bíblia. Qualquer forma de silêncio é válida? Por que?
f) Procure alguns pensamentos, nos escritos de nossos santos sobre o silêncio.
g) Conceituar - silêncio, solidão e deserto, estabelecendo a relação entre estes três elementos e sua importância na vida espiritual.

C)Sugestões para a oração e aprofundamento individual

• Fazer a oração a partir dos seguintes textos:
- Sl 15: Deus é minha herança.
- 1Reis 17,1-7 e 19,10-18: Elias no Carit e no Horeb.
- Mt 27,11-14: O silêncio de Jesus.
• Fazer a experiência de um tempo de silêncio. Procurar um lugar e um momento favorável. Levar consigo somente o desejo de passá-lo a sós, na presença de Deus. Em outro momento avalie a experiência:
a) - por onde andou seu coração?
b) - o que percebeu que foi constante na sua atenção?
c) - que qualidade notou naquele momento de silêncio: foi alegre ou triste? espontâneo ou forçado? enriquecedor ou empobrecedor? tranquilo ou tenso? O que aprendeu?

• Repetir a experiência.
• Tomar a «Elevação à SSma Trindade» de Elizabete da Trindade e rezar com ela. Desfrutar os pensamentos de nossa Irmã. Tentar perceber o sentido do silêncio encontrado nesta oração. Aprofundar o seu significado.

D) Auto-avaliação
• Anotar no próprio diário as principais impressões que lhe ficaram do conheci­mento sobre o valor do silêncio para nossa vida carmelitana, as aspirações e pensamentos que julga que possam alimentar a própria vivência neste mo­mento vocacional.

• Já percebeu em alguém de suas relações as características próprias da vida si­lenciosa que o Carmelo propõe?  Descrever de que forma as percebe .  O que você aprende com esta observação?
• Você está convencido de que o silêncio é importante para sua própria vida seja ou não carmelita?
• Individuar as principais dificuldades para viver o silêncio (momentos, atitudes, pessoas, preocupações, etc.).
• «Maria conservava todas estas coisas  meditando-as em seu coração» (Lc 2 ,19) Que comunicações você percebe de Deus para a sua vida? Como as recebe, Como as conserva?

• Converse sobre esta  autoavaliação com seu orientador espiritual.

CARMELITAS: Contemplação e ação.

Emanuele Boaga, O. Carm. e Augusta de Castro Cotta, CDP

A compreensão que os Carmelitas têm da vida contemplativa, no seu caminho histórico, apresenta elementos próprios, além dos influxos provenientes do conflito entre a ação e a contemplação, presentes por muito tempo na espiritualidade cristã em geral. É fácil compreender como, também entre os carmelitas, existiram modos distintos de compreensão da vida contemplativa e da mesma contemplação.
Na primeira fase da experiência carismática carmelitana a vida contemplativa se nutre de elementos típicos do eremitismo (porém no “estilo” daquele tempo que é bem diverso das épocas seguintes); dos movimentos penitenciais e das peregrinações à Terra Santa, sem exclusão da atividade apostólica. A Norma de Vida de S. Alberto apresenta uma profunda unidade entre a contemplação e a ação.
Através da aprovação da Regra por parte de Inocêncio IV, em 1247, os Carmelitas de eremita-penitentes se transformam em mendicantes. Caem portanto as estruturas estritamente eremíticas. A vida contemplativa vem assim entendida no contexto da “vida mista” dos mendicantes, ainda que permaneça no interno da Ordem um apelo às origens (apelo também “romântico”!) Em seguida alguns carmelitas vêem no eremitismo um retorno ao verdadeiro espírito do Carmelo, mas não percebem que tal eremitismo é uma “nova” realidade, diversa do tipo daquela que se encontrava na experiência originária da Ordem. Este tipo de compreensão (ou melhor de incompreensão) determina ambigüidades e conflitos, por longo tempo, chegando a nossos dias.
Nos séculos XV-XVI o termo “vida contemplativa” era assumido pelos carmelitas quase como sinônimo de vida interior e de identificação com as estruturas que a promoviam. Nisto foi notório o influxo da “Devotio moderna”. Entre as formas de oração, que favoreciam a vida contemplativa, emergem, sobretudo a oração litúrgica (missa quotidiana e ofício cantando em coro) e a meditação pessoal favorecida pela prática do silêncio.
Ao mesmo tempo, a exclusão das monjas do apostolado externo (por imposição da clausura), produz nesta forma de vida uma intensificação da solidão e da oração. Nela os elementos “ contemplativos” da Regra (em particular: a meditação contínua da Lei do Senhor, o vigiar e orar sempre, o silêncio e as armas espirituais) se tornaram intensos desembocando na vida litúrgica, na meditação, no exercício da presença de Deus, no espírito de penitência. Nesta linha foram situadas as novas fundações das monjas (depois de 1452): as da Congregação de Mântua (como ex. os Mosteiros de Scopelli e Girlani) espalhando-se pouco a pouco até chegar a S. Maria Madalena de Pazzi.
S. Teresa dá a seus irmãos descalços as constituições e a espiritualidade das monjas, com acentuação de apenas alguns valores da Regra. Isto no contexto da “descalcez”, considerada então como única forma válida de vida religiosa. Tal impostação conduziu à seguinte passagem: contemplativo = eremítico= monja descalça = frei descalço. Esta passagem levou à seguinte consequência, na época, durando o equívoco até nossos dias:
verdadeiro carmelita = carmelita descalço.
A confusão e o equívoco, baseados na equação: contemplativo= eremítico, já estavam presentes mesmo antes de S. Teresa, porém não de forma difusa, como aconteceu no caso da Congregação de Albi e, depois desta, na Congregação de Mântua. (Ver “Releituras do carisma” em Como Pedras Vivas, p. 101, para recordar o assunto).
Depois de S. Teresa o termo “contemplativo” na nossa Ordem adquiriu um sentido muito restrito, chegando até mesmo a não poder ser aplicado nem à vida religiosa, nem mesmo à meditação, à oração vocal, ao ofício litúrgico.
Outra tendência surgida na Ordem, foi a de reduzir a “contemplação” ao grau mais elevado da oração e da vida interior, quase desprezando ou considerando a oração vocal somente como uma passagem, incluindo-se nesta a oração litúrgica. Surgiu dai a ênfase do papel da meditação considerada como a forma mais adequada de contemplação e portanto, mais própria para o desenvolvimento da vida interior.
Deve-se notar que em todo o caminho histórico da Ordem, do séc. XIV até à época recente, particularmente nas Reformas, a releitura do carisma e a revisão da vida da própria Ordem partiram sempre da contemplação e nunca do apostolado. Em matéria de oração encontram-se novos caminhos, mas ao mesmo tempo coloca-se o grave problema da relação ou dissídio “contemplação-ação”, que assinala profundamente a vida e o estilo da própria contemplação. A atividade apostólica é considerada geralmente como prolongamento da contemplação e ao mesmo tempo seu fruto. Deve-se também recordar que, mesmo neste contexto das reformas, não faltaram figuras eminentes que, através das formas de assistência aos pobres e aos humildes, típicas de sua época, têm enfrentado o desafio da encarnação da vida contemplativa. Entre esses, recordamos o Ven. Angelo Paoli, “pai dos pobres” na Roma do séc XVII e a terciária carmelita Mariangela Virgili, em Ronciglione (ver: Como Pedras Vivas, p. 119 e 150).
Os mesmos autores carmelitanos no decorrer dos séculos XVII-XIX, têm exortado àqueles que se dedicam a atividades apostólicas por chamado da Igreja para atender a suas necessidades, a adotarem uma atitude contemplativa. Nasce assim a insistência sobre as duas formas de oração consideradas adequadas a esta finalidade: o exercício da presença de Deus e da aspiração.
Dado que os nossos irmãos têm admirado e exaltado nas irmãs monjas a sua vida de oração como “a melhor forma” de realização do ideal contemplativo com o qual nasceu a Ordem”, deve-se ajuntar também algumas notas sobre sua relação com o apostolado por parte das próprias monjas, para que se tenha um quadro completo, evitando-se as mitizações ambíguas. Particularmente:
• é notório o desejo expresso nos primeiros núcleos de monjas carmelitas de serem úteis ao próximo através da oração de intercessão e da penitência;
• é também conhecida a motivação apostólica colocada na base da fundação das Descalças por S. Tereza de Jesus;
• para S. Maria Madalena de Pazzi, as monjas são chamadas “ad maiorem vitam” (isto é, aquelas dos primeiros carmelitas) em quem porém não se separa “Marta de Maria” (Marta sem Maria é “confusão” e Maria sem Marta é ociosidade”, diz a Santa). O genuíno influxo mariano na Carmelita tem como sinal o nascimento no coração, do desejo da saúde das almas. Portanto a vida interior, a vida apostólica e a vida mariana se fundamentam em uma síntese superior. Da união com Deus e Maria nasce a “salus animarum”, obtida e sustentada com a oração e com a ação para reconduzir as almas a Deus e a Maria. O apostolado é, então, “restituição” que se obtém também com uma vida pura, feita de fé, de simplicidade, de fidelidade.
• S. Teresa do Menino Jesus desejava ter todas as vocações para servir à Igreja. escolhendo então, se o “seu coração” através da oração e interesse missionário.

Atualmente a conflitualidade “contemplação-ação” parece superada teoricamente, como demonstram claramente os acenos que às questões são feitos nos documentos oficiais da Ordem, nestes últimos anos. A conflitualidade permanece porém, na prática, e sua solução postula uma profunda revisão e “conversão” de vida e obras.