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A Palavra do Frei Petrônio

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segunda-feira, 14 de março de 2016

A VOLTA DA DITADURA MILITAR: Frei Petrônio de Miranda.

ELIAS, AQUI É TEU LAR.

Ex-fieis revelam o 'mundo de delírios' das Testemunhas de Jeová

Mais de 600 pessoas juntaram-se para denunciar a sua antiga religião. Oito delas contam como, durante anos, as suas vidas foram dominadas pelo medo de pecar. E pecar podia ser, simplesmente, soprar uma vela.

Testemunhas de Jeová vivem sob a angústia de um iminente fim do mundo e a esperança de serem conduzidos ao céu.
“Lembro-me de ser ainda pequeno, olhar para um estádio de futebol cheio e pensar angustiado que aquelas pessoas seriam todas destruídas caso nenhuma delas fosse Testemunha de Jeová”, relata Vítor Máximo.
“As Testemunhas de Jeová acreditam que o mundo de Satanás vai acabar e que só elas sobreviverão ao Apocalipse, passando com vida para o Paraíso”, explica M. M., ex-ancião (um dos mais altos cargos na hierarquia da organização), que pede anonimato com receio de represálias para a família, que continua na religião.
Todos os crentes são habituados a esperar pelo fim do mundo desde crianças. A essa permanente angústia, as crianças também estão impedidas de fazer várias coisas na escola e têm pavor de ofender Jeová. Entre as proibições (como aos adultos), estão a celebração de aniversário, Carnaval, Páscoa, Natal, fim de ano e todas as outras datas de origem pagã que a religião despreza porque, conforme explica Pedro Candeias, um dos representantes da organização em Portugal, não são mencionadas nas Escrituras.
P.T. lembra-se que na escola primária precisava fingir que cantava os parabéns aos colegas, mexendo os lábios e esquivando-se e batendo palmas timidamente. Mesmo assim, só por estar presente, temia “ser destruída”. César Rodrigues fazia o mesmo e, para evitar perguntas sobre a sua festa e presentes, não dizia quando aniversariava.
Ambos contam como agora, respectivamente, celebram todos os aniversários com o maior entusiasmo: “Faço questão de ter sempre um grande bolo. São 30 anos? Sopro 30 velas!”, diz P.T. César festeja com igual euforia, mas ainda hoje não consegue cantar os parabéns. “É como se eu estivesse fazendo algo errado. Sei que não estou, mas não consigo evitar este sentimento de culpa. Nunca cantei os parabéns na vida.”
O maior terror das crianças Testemunhas de Jeová é o Natal, antecedido de atividades como pinturas, composições, festas ou teatros. Não podem participar em nada.
“Lembro-me como se fosse hoje dos meninos todos em grupos fazendo enfeites para colar nas janelas da sala de aula e eu sozinha de lado, fazendo outra coisa qualquer”, conta P.T.
Por se considerarem politicamente neutras, as Testemunhas de Jeová não votam em partidos políticos — nos países em que ir às urnas é obrigatório, são incentivados a votar nulo ou em branco. Também não saúdam a bandeira nem cantam o hino. “Lembro-me bem: no 3º ano, todos de pé aprendendo o hino nacional, e eu bastante nervosa, mexendo apenas a boca”, recorda P.T. A organização não vê motivos para o desconforto das crianças: “Sendo esses valores baseados na Bíblia, que razões teriam para sentir vergonha?”, questiona Pedro Candeias.
As artes marciais são evitadas por serem consideradas uma apologia à violência. E, com base numa passagem bíblica interpretada como Deus não gostando que os homens concorram entre si, a prática de esportes de competição também é desencorajada. É das coisas que César Rodrigues mais lamenta: “Era sempre escolhido para a seleção de futebol da escola, mas era impensável treinar num clube”, conta César, que é co-fundador do fórum Testemunhas de Jeová.
Já com mais de 600 usuários, o fórum surgiu para denunciar todas essas situações e apoiar antigos membros. Em Portugal, onde há 52 mil Testemunhas de Jeová, é o primeiro, mas em outros países da Europa, no Brasil e nos Estados Unidos, o fórum existe há vários anos.
Também há livros e documentários reveladores do funcionamento da religião. É o que este grupo que recentemente se organizou pretende em Portugal: “Queremos que as pessoas percebam que as Testemunhas de Jeová não são tão inofensivas como parecem as senhoras que distribuem revistas na rua”, explica um dos fundadores do fórum.
Todos os conteúdos místicos e esotéricos são considerados um perigo para a espiritualidade. Livros como “O Senhor dos Anéis” ou “Harry Potter” não são para abrir.
Quando a família de P.T. entrou para a religião, os anciões foram abençoar a casa contra a presença de Satanás. Entre o vestido da noiva que a mãe usara no casamento católico, todas as fotografias desse dia e qualquer outra em que aparecesse um crucifixo (para os fiéis a Jeová, Cristo morreu numa estaca), nada escapou: foi tudo queimado, até a sua coleção de livros da Anita. “Daí para a frente, só lia a Bíblia e as revistas da religião”.
As Testemunhas de Jeová acreditam que “A Sentinela”, “Despertai!” e todas as publicações da organização transmitem a palavra de Deus com a mesma validade que a Bíblia. “Quanto mais cedo começarem o estudo, melhor para já irem ensinadas e preparadas para a escola. Há grávidas que leem o “Meu Livro de Históricas Bíblicas” em voz alta para os bebês que têm na barriga”, revela R.M., outra desistente.
Vítor Máximo, crente durante mais de 35 anos, recorda-se das tardes de quarta-feira lendo as revistas; P.T. estudava-as com o pai aos sábados à tarde, depois da pregação.
Entrega
A pregação porta a porta é uma atividade fundamental e incontornável para qualquer Testemunha de Jeová, pois é a única maneira de levar a “Verdade” a mais pessoas, poupando-as no dia do Juízo Final.
Acreditando nisso, aos 12 anos G.C. desatou a estudar a Bíblia fervorosamente. A mãe convertera-se e ele também. Acatou os fortes incentivos da organização para se distanciar das pessoas do Mundo (as que não são Testemunhas) e afastou-se de todos os amigos. De um momento para o outro, recorda hoje, deixou de brincar na rua e passou a vestir paletó e gravata para ir às reuniões e a andar de pasta na mão para bater às portas.
Em menos de um ano estava entrando, de fato e de camiseta branca, na piscina de Algés, em Lisboa. Com uma mão em cima da outra e as duas tapando o nariz, submergiu totalmente, deitando-se para trás dentro da água. Quando emergiu estava batizado — acabara de se tornar ministro do reino de Jeová. “É uma dedicação incondicional para toda a vida: ser um escravo de Jeová e fazer de tudo em favor Dele”, lembra, mais de 30 anos depois daquele momento.
No verão seguinte, dedicou-se exclusivamente à pregação. “Eu levava as coisas muito a sério porque estávamos perto do fim do mundo. Pensava: ‘É preciso sacrifícios, vamos fazê-los”’, conta G.C., que foi ancião durante quase 20 anos.
Desde que a religião foi fundada, em 1879, as Testemunhas já esperaram que o mundo acabasse em vários anos. Sempre que as datas passaram sem que alguma coisa acontecesse, o Corpo Governante (entidade atualmente composta por oito homens, que é o núcleo administrativo da religião nos Estados Unidos) emitiu um novo “entendimento”, inquestionável. “Estão sempre repetindo que a dúvida é um dos laços do Diabo”, explica R.M. Invariavelmente, mas sempre a posteriori, a cúpula da organização nega ter feito qualquer previsão concreta e, apesar de os textos das revistas oficiais da religião terem sempre mencionado os sucessivos anos em que o mundo acabaria, diz-se que a expectativa decorreu da má interpretação dos fiéis. A última data mundialmente difundida para o Apocalipse, com muitas famílias vendendo tudo que tinham para se dedicarem exclusivamente à pregação e garantirem a passagem para o novo mundo, foi 1975. Depois nunca mais se referiu a um ano em específico.
Com o mundo podendo acabar a qualquer momento, as Testemunhas de Jeová vivem ao mesmo tempo na expectativa do recomeço de uma nova vida e apavoradas com esse momento. Porque, mesmo para o povo eleito, o acontecimento implicará grande sofrimento.
Uma revista “Despertai!”, de 2005, avisa: “O arsenal de Deus inclui neve, saraiva, terremotos, doenças infecciosas, aguaceiro inundante, chuva de fogo e enxofre, confusões mortíferas, relâmpagos e uma maldição que causará o apodrecimento de partes do corpo.”
Além disso, o Paraíso só está ao alcance de quem não tiver “culpa de sangue”, ou seja, quem não estiver falhando nos preceitos da religião.
“Eu perdi a minha vida! Não fazia nada com medo de ofender Jeová e ser destruída”, afirma P.T.
Vítor Máximo conta que, desde criança, e mesmo já adulto, acordou várias vezes no meio da noite “chorando, com pesadelos com o Armagedom” – a última batalha do Apocalipse.
Afronta
A grande prioridade das Testemunhas de Jeová é estudar e divulgar os mandamentos de Deus de maneira a salvar o maior número de pessoas possível. Por isso, são altamente desincentivadas a investir em atividades que, para a organização, apenas servem para roubar tempo ao testemunho porta a porta e de nada valem perante o fim de tudo. Quem vai para a faculdade mostra que está fraco na fé e passa a ser olhado com desconfiança.
Quando Vítor Jacinto decidiu licenciar-se em Engenharia Química, passou a receber visitas de anciãos e superintendentes de circuito (que supervisionam várias congregações) quase semanalmente. Condenaram todos os livros que eu precisava para a faculdade. “Diziam que aqueles livros continham ensinamentos não cristãos e queriam que me desfizesse deles. Foi aí que começou a minha grande guerra contra eles.” Os livros ficaram, concluiu o curso e deixou de ir à reuniões.
Investir na carreira é encarada como outra afronta a Jeová. “Das coisas que mais me impressionavam era ver pessoas subir à tribuna e contarem, cheias de orgulho, que tinham recusado uma promoção para não prejudicar a sua vida espiritual”. Revela R.M.
Outro exemplo de dedicação à religião incutido nas reuniões e nas revistas é o desincentivo que a organização faz para que casais tenham filhos: por um lado, são grandes consumidores de tempo, por outro, não é aconselhável pôr crianças num mundo que vai acabar. Para G.C., isso ficou claro no dia do casamento. Depois de uma adolescência em que não podia beijar nenhuma menina e de um namoro com alguém da mesma congregação, sempre na presença dos pais e sem um único beijo na boca, casou-se num Salão do Reino. “O ancião que fez o discurso disse que de forma nenhuma deveríamos ter filhos, porque estamos no tempo do fim e era uma atitude pouco sábia, pouco espiritual.”
Só contrariou a instrução mais de 10 anos depois, quando a mulher começou a ficar clinicamente deprimida com receio de já não conseguir engravidar por causa da idade. “Os casais que decidem ter filhos são criticados pelos outros que optam por não ter em virtude das orientações da organização”, revela M.M., outro ex-ancião. “Conheço casais que não têm filho e que agora já não podem e outros que continuam na expectativa de vir o fim para depois poderem ter um filho. É horrível”, afirma G.C.
Este antigo ancião deixou o cargo e as reuniões há cinco anos. Tecnicamente, está inativo, situação de que não entrega há seis meses relatórios com o número de publicações que distribuiu e de horas que pregou. O seu mal-estar com a religião começou quando, numa formação para cerca de 200 anciãos, lhes foi ordenado que escrevessem na página do manual sobre o abuso sexual de menores: “Sempre que surja um caso de pedofilia, contatem de imediato a filial [a sede, em Alcabideche, Cascais]. “Perguntou: “Mas a pedofilia é crime, não deveria ser denunciada à polícia?” Responderam-lhe peremptoriamente: “Nós não denunciamos os nossos irmãos. As ordens são estas, escreva isso aí.”
No manual dos anciãos a que esta reportagem teve acesso está impresso: “Se o acusador ou o acusado não estiverem dispostos a reunir-se com os anciãos, ou se o acusado continuar a negar a acusação de uma única testemunha e a transgressão não tiver sido comprovada, os anciãos devem deixar o caso nas mãos de Jeová”.
Desconforto
Esta política de não divulgação valeu recentemente às Testemunhas de Jeová a condenação à maior indenização alguma vez já paga nos Estados Unidos a uma vítima de pedofilia: 28 milhões de euros. O tribunal considerou que a estrutura da organização tinha sabido e abafado o caso.
Esta é das mais desconfortáveis questões no interior da Religião. Outra é a da desassociação, ou expulsão — o pior que pode acontecer a uma Testemunha e aos seus familiares, O contato com desassociados é simplesmente proibido, mesmo que seja da família.
De possuída pelo demônio, a prostituta, P.T., com cerca de 40 anos, ouviu os piores insultos da boca dos pais quando foi desassociada, em 2006. Proibiram-na de voltar para casa. “Fiquei desnorteada, pensava que seria destruída, perdi a minha família e todos os meus amigos, que nem sequer me cumprimentavam. Como todas as pessoas que são desassociadas, fiquei sem ninguém.”
“Jeová nos observará para ver se acatamos, ou não, seu mandamento de não ter contato com nenhum desassociado”, lê-se na revista “A Sentinela”, de abril de 2012.
“Um simples ‘oi’ dito a alguém pode ser o primeiro passo para uma conversa ou mesmo para amizade. Queremos dar esse primeiro passo com alguém desassociado?”, questionava a mesma publicação já em 1981 (as Testemunhas de Jeová guardam todas as revistas que consultam). “Tomem sua posição contra o Diabo (…). Não procure desculpas para se associar com um membro da família desassociada, como, por exemplo, trocando e-mails”, diz “A Sentinela” de janeiro de 2013 já disponível no site da organização.
O esquecimento e o ostracismo pelos quais passam os desassociados pode originar problemas extremos. Dos oito antigos fiéis que a reportagem entrevistou (dois dos quais ex-anciãos), quatro tiveram de procurar ajuda médica para depressões e estado de ansiedade grave — alguns fizeram terapia, todos foram medicados. Dois pensaram no suicídio.
Vítor Máximo julgou que os pais se reaproximariam quando comunicasse o seu segundo casamento. Afinal, deixaria de ser um “fornicador”, um dos maiores pecados para a religião. Mas, como a mulher era uma mundana e ele um apóstata (abandonou a religião há cinco anos), os pais nem foram à cerimônia.
“Nesse dia, quando cheguei em casa, em vez de relembrar os bons momentos da festa, sentei-me na beira da cama e comecei a chorar”, lembra.
Embora o expulsem, insiste em aparecer de vez em quando na casa deles, nos arredores do Porto, mas na última vez que falou com o pai ele chamou-lhe de adorador do Diabo e ameaçou ligar para a polícia caso voltasse. Durante muitos meses, a conversa ao jantar com a mulher terminava invariavelmente em lágrimas. Teve de ir ao psiquiatra e só superou a depressão com a ajuda de medicamentos.
Quem se relacionar com um desassociado arrisca-se a ser expulso. Por medo do que pode acontecer aos familiares, algumas pessoas falaram para este artigo sob anonimato; outras não revelaram a identidade porque estão afastadas, mas não se querem dissociar (voluntariamente) nem ser desassociadas, sabendo que nesse momento terão de cortar relações com os que lhes são mais próximos.
César Rodrigues, 38 anos, foi Testemunha de Jeová desde que nasceu e as suas dúvidas só surgiram há quatro anos, quando fez uma coisa que a organização desaconselha insistentemente: meteu-se num fórum de dissidentes brasileiros na internet. Para mim, aquilo era tudo mentira. Pensei: ‘Vou mostrar-lhes o que é uma verdadeira Testemunha de Jeová’”. Mas foi ele que acabou convencido. Uma das coisas que mais o chocaram foi perceber as contradições na proibição de transfusões de sangue, que já provocou a morte a um número incalculável de crentes.
“As Testemunhas acreditam que a transfusão de sangue lhes é proibida por passagens bíblicas como estas: “Somente a carne com a sua alma — seu sangue — não deveis comer”, explica o representante da organização, Pedro Candeias. Plasma, plaquetas, glóbulos brancos e vermelhos também são rejeitados. Mas o recurso a fracções desses componentes é permitido. “É extremamente incoerente condenar o uso de determinadas fracções e permitir o de outras e não existe base bíblica nem científica para tal distinção. Por exemplo, se se pode aceitar hemoglobina, que é 97% de um glóbulo vermelho, por que não se pode aceitar glóbulos vermelhos? “É como se eu dissesse que você pode comer uma uva sem pele, mas com pele não pode”, afirma M.M., que foi ancião durante mais de uma década.
Quando César começou a fazer perguntas aos amigos (“Sabias que era assim?”), foi denunciado. Fizeram-lhe quatro comissões judicativas (tribunais eclesiásticos). Já sem acreditar em nada do que tomara por certo durante anos, negou todas as acusações de falta de fé. Recusa-se a ter de deixar de falar com os pais. Quando conheceu uma antiga Testemunha de Jeová, perguntou: “É possível ter amigos do Mundo?” Descobriu que sim. Deixou de aparecer nas reuniões.
R.M. demorou a fazê-lo, mesmo depois de, no ano passado, ter lido o proibidíssimo livro “Crise de Consciência”, de um antigo membro do Corpo Governante, e de perceber que “toda a vida tinha sido enganada”. “Sinto que é mesmo uma lavagem cerebral, da qual é muito difícil nos libertar”, explica. Só conseguiu afastar-se quando descobriu o fórum Testemunha de Jeová. Diz que só passar à frente de um Salão do Reino a deixa “agoniada”. Mas não está preparada para deixar de falar com a família.
Para M.B., o momento está para breve. Aos 18 anos, aproveitou o fato de sair de casa e mudar de cidade para confessar aos anciãos que fumava, o que é proibido. Já sabia o que o esperava: uma semana depois lhe comunicaram a expulsão. De regresso a Lisboa, foi assaltado e ficou sem dinheiro nenhum. Ninguém da família lhe atendeu o telefone nem respondeu às mensagens — nem nessa altura nem em todo o ano que se seguiu. “Sentia-me perdido, culpado, abandonado. Passava noites inteiras sem dormir.”
Desenvolveu um transtorno de ansiedade incapacitante. A família continuava a não lhe atender o telefone. Pensou no suicídio. “Mas depois achei que ninguém iria ao meu funeral”.
Um dia em que insistiu mais uma vez, inesperadamente, a mãe atendeu. Como o motivo era doença, os anciãos, aos quais ela pediu autorização, permitiram que o recebesse em casa. Mas agora que está mais estável, M.B. sabe que vai ter de voltar a sair. E que vai ter de se despedir para sempre. 


CARMELITAS: Do CD- Levanta Elias.

ABERTURA DO ANO ELIANO MISSIONÁRIO DA PROVÍNCIA CARMELITANA DE SANTO ELIAS-2016.

O PROFETA ELIAS: PAI E GUIA DA FAMÍLIA CARMELITANA
Frei Carlos Mesters, O. Carm.
        
Primeira  Parte:
Uma breve informação a respeito do Profeta Elias

Segunda  Parte: 
*Oito perguntas a respeito da vida e missão de Elias

1ª Pergunta: Elias e o Profetismo:
            Como Elias aparece na Bíblia?

2ª Pergunta: Elias e o corvo:
            Qual o significado do corvo que alimenta Elias?

3ª Pergunta: Elias e a viúva de Sarepta:
            Qual a mensagem da conversa de Elias com a viúva de Sarepta?

4ª Pergunta: Elias e a Rainha Jezabel:
            Como entender a denúncia de Elias contra a rainha Jezabel?

5ª Pergunta: Elias e os profetas de Baal:
            Quem são hoje os falsos deuses e profetas que Elias enfrentou?

6ª Pergunta: Elias e o medo de perder a vida:
            Como entender o medo e a fragilidade do profeta Elias?

7ª Pergunta: Elias e a brisa leve:
            Como entender hoje a brisa leve?

8ª Pergunta: Elias e Eliseu:
            Quem são hoje os seguidores de Elias?



PRIMEIRA PARTE
UMA BREVE INFORMAÇÃO A RESPEITO DO PROFETA ELIAS

Quem foi Elias?  O que ele fez?  Onde viveu?  Quando viveu? Onde encontrar as informações?  O que faz ele ser tão atual?

1. As informação da Bíblia a respeito da vida e da atuação do profeta Elias encontram-se em 6 capítulos que estão inseridos no primeiro e no segundo livro dos Reis. Não existe na Bíblia um livro que é só do profeta Elias como existe, por exemplo, o livro do profeta Isaías ou do profeta Jeremias. A história de Elias está inserida na história dos Reis. Isto é significativo. É para ajudar-nos a ler a história política e econômica dos Reis (tanto dos Reis de ontem como dos “reis” de hoje) com um olhar profético; para aprender a ler a história e a realidade com um olhar crítico e não nos deixar iludir pela propaganda e grandeza das realizações faraônicas do sistema neoliberal.
2. Mas não é só isto, nem é isto em primeiro lugar. Naqueles seis capítulos, a Bíblia nos apresenta um homem concreto de carne e osso, fraco e forte, corajoso e medroso, que sabe e não sabe. E é este homem, tão igual a todos nós, que vive o seu momento histórico e é chamado por Deus a ser profeta. Na figura de Elias, não é só o social e o político que importam nem só o grande, o macro, mas também o pessoal e o subjetivo, as pequenas coisas o mundo pequeno das nossas vidas.
3. A história do profeta Elias está descrita nos capítulos 17, 18, 19 e 21 do primeiro livro dos Reis e nos capítulos 1 e 2 do segundo livro dos Reis. São capítulos conhecidos. Neles encontramos situações concretas que são como espelhos, em que vemos refletido nosso próprio caminho de busca e de experiência de Deus. Os seis capítulos parecem um álbum com seis grandes fotografias:

1Rs 17: A preparação do profeta:
            Sua ida para o outro lado do Jordão e para junto da viúva, da qual recebeu a confirmação como Homem de Deus que comunica ao povo a Palavra de Deus.
1Rs 18: A atuação como profeta no Monte Carmelo:
            Para defender a Aliança Elias enfrenta o Rei e os falsos profetas. No fim, recebe a confirmação do povo, e desfaz a seca trazendo a chuva de volta.
1Rs 19: A crise e a maneira de superá-la:
            Elias foge de Jezabel e quer morrer, mas o anjo o alimenta e o ajuda a caminhar. Na Brisa Leve Deus lhe fala. Ele se converte e se reencontra consigo, com Deus e com a missão.
1Rs 21: A luta pela justiça:
            A injustiça do sistema se manifesta no roubo das terras, na manipulação da religião pelo rei e no assassinato de Nabot. Elias enfrenta o Rei e denuncia a injustiça cometida.
2Rs 01: O homem de Deus e do fogo:
            Sentado no alto do Monte, Elias faz descer um raio do céu contra os que não reconhecem a Javé como o Deus da vida. Mas acolhe o pedido de quem quer preservar a vida.
2Rs 02: Arrebatado em Espírito:
            Caminhando com Eliseu, Elias deixa uma dupla porção do seu espírito para Eliseu. Eliseu invoca Javé como “o Deus de Elias”. Elias continua sua missão nos filhos dos profetas.
4. São seis histórias bem populares, onde o povo olhava como num espelho para descobrir sua missão. Elas eram transmitidas oralmente, de geração em geração, para despertar nas pessoas a consciência e provocar nelas a mesma ação em defesa da Aliança e da Vida. Por isso, Elias tornou-se o Santo mais popular do povo da Bíblia. Ele entrou na imaginação popular como o santo dos impossíveis. Símbolo da ação profética! Na Palestina, até hoje, ele é o santo mais venerado de Cristãos, Judeus e Muçulmanos. É um santo ecumênico!
5. Elias viveu na primeira metade do século IX aC. Ele foi o primeiro profeta que, a partir da sua experiência de Deus, teve a coragem de enfrentar o poder absoluto do rei. Ele chegou a denunciar a manipulação da religião pelo rei Acab e pela rainha Jezabel (1Reis 17,1; 21,1-24). A atividade profética de Elias ficou gravada na memória do povo. As suas histórias foram transmitidas oralmente durante séculos, de geração em geração. Contando e ouvindo o que Elias tinha feito, o povo se reanimava e se fortalecia na fé e na esperança.
6. Foi só na época da crise do cativeiro, século VI aC, que as histórias de Elias começaram a ser escritas. A crise de fé no cativeiro foi tão grande que o povo achava que Deus o tivesse abandonado (Isaías 40,27; 49,14). Foi a meditação das histórias do profeta Elias, sobretudo da sua crise de fé descrita no livro dos Reis (1Reis 19,1-10), que ajudou o povo do cativeiro a redescobrir a presença de Deus não nas coisas grandes e pomposas, mas sim na brisa suave das coisas pequenas e comuns da vida (1Reis 19,11-13). É como se recebessem um carinhoso puxão de orelha: “Acorda! Pare de buscar Deus nas coisas grandes. Nosso Deus é um Deus que se esconde (Isaías 45,15) e ele se esconde lá onde antes ninguém o procurava, isto é, no meio dos pobres e excluídos (Isaías 57,15). Foi a memória do profeta Elias que ajudou o povo a reencontrar o caminho em direção à prática da justiça.
7. Depois do cativeiro, no começo do século VI aC, desapareceu a profecia. O povo chegou a dizer: "Não há mais profetas!" (Sl 74,9) Profeta era coisa do passado. Mas a saudade de uma boa e verdadeira profecia era tão grande, que fez nascer a esperança do retorno da profecia e particularmente do retorno do profeta Elias. Era em torno do retorno de Elias que esta esperança se articulava e se transmitia.
8. É por tudo isso que existem na Bíblia tantos textos sobre o profeta Elias. A figura de Elias continuou viva no meio do povo. Os textos mostram a variedade com que ele era venerado e esperado pelo povo:
1. O livro do Eclesiástico valoriza nele o Homem obediente à Palavra (Eclo 48,1-11).
2. Malaquias espera a volta de Elias como o Homem da Aliança (Mal 2,23-24).
3. No evangelho Elias aparece como o homem que deve reorganizar o povo (Lc 1,17).
4. Na Transfiguração Elias aparece ao lado de Moisés como síntese da profecia (Lc 9,30).
5. Para São Paulo, Elias é o Homem que denuncia a infidelidade do povo (Rom 11,2-4).
6. A carta de Tiago resume a vida de Elias como Homem da Oração (Tiago 5,17-18)
7. No Apocalipse, Elias aparece como o homem do testemunho até à morte (Apoc 11,3.5).
9. São muitas fotografias da mesma pessoa. Fotografias variadas, tiradas de lugares diferentes e a partir de preocupações diferentes. Um novo lugar e uma nova preocupação aparece nos eremitas, nossos irmãos fundadores, que, no fim do século XI e começo do século XII, viviam no Monte Carmelo ao redor da Capela de Santa Maria. Eles viam em Elias o modelo para inspirar e orientar a sua busca de Deus numa vida de oração permanente. Era assim que eles procuravam “viver em obséquio de Jesus Cristo.”


10. As oito perguntas que o frei Petrônio formulou para a Ordem Terceira. O objetivo do encontro dos sodalícios da Ordem Terceira neste fim de semana de 11 a 13 de Março de 2016 é refletir sobre a Missão do Profeta Elias e, através desta reflexão descobrir e assumir melhor a nossa Missão como Terceiros Carmelitas hoje no Brasil.
Eis as oito perguntas a respeito da vida e da missão do profeta Elias:

1ª Pergunta: Elias e o Profetismo:
                        Como Elias aparece na Bíblia?
2ª Pergunta: Elias e o corvo:
                        Qual o significado do corvo que alimenta Elias?
3ª Pergunta: Elias e a viúva de Sarepta:
                        Qual a mensagem da conversa de Elias com a viúva de Sarepta?
4ª Pergunta: Elias e a Rainha Jezabel:
                        Como entender a denúncia de Elias contra a rainha Jezabel?
5ª Pergunta: Elias e os profetas de Baal:
                        Quem são hoje os falsos deuses e profetas que Elias enfrentou?
6ª Pergunta: Elias e o medo de perder a vida:
                        Como entender o medo e a fragilidade do profeta Elias?
7ª Pergunta: Elias e a brisa leve:
                        Como entender hoje a brisa leve?
8ª Pergunta: Elias e Eliseu:
                        Quem são hoje os seguidores de Elias?

Cada pergunta terá o seguinte esquema:
1. Os textos bíblicos que tratam do assunto
2. Uma resposta que ajuda na reflexão
3. Duas perguntas ou sugestões para nós Carmelitas hoje


SEGUNDA PARTE

AS SETE PERGUNTAS

Primeira Pergunta
Como Elias aparece na Bíblia?

1.  Os textos da Bíblia

1Reis 17,1: Elias se apresenta
1Elias, tesbita, de Tesbi em Galaad, disse a Acab: "Pela vida de yhwh, o Deus de Israel, a quem sirvo: não haverá nestes anos nem orvalho nem chuva, a não ser quando eu o ordenar". A tradução usada pelos primeiros carmelitas: "Vivo é o Senhor, em cuja presença estou!"

Eclesiástico 48,1-11:  Síntese da ação profética de Elias
1Então o profeta Elias surgiu como um fogo, sua palavra queimava como uma tocha. 2Fez vir sobre eles a fome e em seu zelo os dizimou. 3À palavra do Senhor ele fechou o céu, por três vezes fez descer fogo. 4Como tu eras glorioso, Elias, em teus prodígios! Quem pode em seu orgulho igualar-se a ti? 5Tu que arrancaste um homem à morte e ao Xeol pela palavra do Altíssimo. 6Tu que fizeste descer reis à ruína e homens ilustres de seus leitos, 7que ouviste no Sinai a sentença6 e no Horeb decretos de vingança, 8que ungiste reis como vingadores e profetas para suceder-te, 9que foste arrebatado num turbilhão de fogo, num carro puxado por cavalos de fogo, 10tu que foste designado nas ameaças do furor, para apaziguar a cólera antes do furor, para reconduzir o coração dos pais aos filhos e restabelecer as tribos de Jacó. 11Felizes os que te viram e os que adormeceram no amor, porque nós também possuiremos a vida.

Malaquias 3,23-24:  Objetivo da missão profética de Elias
23Eis que vos enviarei Elias, o profeta, antes que chegue o Dia de yhwh, grande e terrível. 24Ele fará voltar o coração dos pais para os filhos e o coração dos filhos para os pais, para que eu não venha ferir a terra com anátema.

Tiago 5,16-18: Característica da vida de Elias
16Confessai, pois, uns aos outros, os vossos pecados e orai uns pelos outros, para que sejais curados. A oração fervorosa do justo tem grande poder. 17Assim, Elias, que era um homem semelhante a nós, orou com insistência para que não chovesse, e não houve chuva na terra durante três anos e seis meses. 18Em seguida, tornou a orar e o céu deu a sua chuva e a terra voltou a produzir o seu fruto.

2. Uma Resposta
Elias se apresenta
O meu Deus é yhwh! E o seu, qual é? 
"Vivo é o Senhor, em cuja presença estou"
(1Rs 17,1)
Elias! O próprio nome já é uma escolha, e uma provocação. Eli significa Meu Deus. O sufixo -ias é uma abreviação do nome yhwh. Pelo seu nome, Elias nos diz: "O meu Deus é Javé!". E nos provoca: "E o seu Deus, qual é?"
O nome yhwh, o nome do Deus de Elias, aparece mais de seis mil vezes só no Antigo Testamento. Este nome é o centro da Bíblia, a raiz da nossa fé! Em hebraico ele se escreve com estas quatro letras yhwh que são também as letras do verbo HWH ou HYH que significa ser ou estar. Deus nos revelou este seu nome quando chamou Moisés para libertar o povo do Egito. Moisés resistiu ao chamado, teve medo. Mas Deus insistiu e disse: "Vai! Eu estou com você!" (Ex 3,12). Moisés duvidou, mas Deus repetiu com insistência: "Estou que estou!" (Ex 3,14). Ou seja, "Certissimamente estou com você". E disse ainda: "Diga ao povo: Estou me mandou! yhwh (=Está) me mandou até vocês. Este será o meu nome para sempre" (Ex 3,15).
O nome yhwh é a formulação definitiva do compromisso que Deus assumiu de estar sempre com seu povo, conosco. Ele quer ser Emanuel, Deus conosco. No passado, ainda na época do Antigo Testamento, para evitar que este nome sagrado fosse pronunciado levianamente sem o devido respeito, combinaram de pronunciar aquelas quatro letras yhwh como Adonai, que quer dizer Senhor. Era para reverenciar o mistério de Deus que nele se revela e se esconde. Por isso, algumas das nossas bíblias escrevem Senhor, em vez de yhwh, Iahweh ou Javé. Na Missa, até hoje, nós o confessamos e repetimos: O Senhor esteja convosco. Ele está no meio de nós! O significado deste nome divino é aprofundado ao longo das páginas da Bíblia, sobretudo em dois diálogos entre Deus e Moisés (Ex 3,7-15 e Ex 34,5-9). E Elias o confirma: "O meu Deus é yhwh". 
O profeta Elias é o testemunho vivo da sua fé: "Vivo é o Senhor, em cuja presença estou".  Esta frase vem da tradução latina da Bíblia, chamada Vulgata, que era a Bíblia usada pelos primeiros Carmelitas na Idade Média, nos século XII e XIII. A tradução direta do hebraico é: "Pela vida de yhwh a quem sirvo". É com esta frase que Elias aparece e se apresenta. É a atitude que o caracteriza. É a raiz da sua ação profética. Naqueles tempos, os "servos" (empregados, servidores, ministros) estavam sempre na presença do rei, junto ao trono, prontos para atenderem a qualquer pedido e realizarem qualquer serviço que o rei pedisse.
A Bíblia traz vários outros  retratos de Elias. Para Tiago, ele é o homem da oração que ensina a rezar (Tg 5,17-18). Para Malaquias, a missão de Elias é refazer a comunidade e reconduzir os coração dos filhos para os pais e dos pais para os filhos (Ml 3,23-24). No evangelho de Lucas Elias aparece como o representante da profecia na transfiguração de Jesus (Lc 9,30). O Eclesiástico traz um breve resumo  de toda a atividade de Elias (Eclo 48,1-11) 

3. Duas perguntas ou sugestões para nós Carmelitas
1. Como Elias aparece na Bíblia?
2. A profissão de fé de Elias "Vivo é o Senhor em cuja presença estou!" sempre inspirou os Carmelitas. Ela é a fonte da nossa vida no Carmelo. Que ela possa ser também a fonte da nossa disponibilidade para servir. 

Segunda Pergunta
Qual o significado do corvo que alimenta Elias?

1.  Os textos da Bíblia

1Reis 17, 2-6: A função do corvo na vida de Elias
2A palavra de yhwh foi-lhe dirigida nestes termos: 3"Vai-te daqui, retira-te para o oriente e esconde-te na torrente de Carit, que está a leste do Jordão. 4Beberás da torrente e ordenei aos corvos que te dêem lá alimento." 5Elias partiu, pois, e fez como yhwh ordenara, indo morar na torrente de Carit, a leste do Jordão. 6Os corvos lhe traziam pão de manhã e carne à tarde, e ele bebia da torrente.

Êxodo 16,9-18: A função das codornizes na vida do povo de Deus
9Disse Moisés a Aarão: "Dize a toda comunidade dos filhos de Israel: Aproximai-vos da presença de Iahweh, pois ouviu as vossas murmurações." 10Ora, quando Aarão falava a toda a comunidade dos filhos de Israel, olharam para o deserto, e eis que a glória de yhwh apareceu na nuvem, 11Iahweh falou a Moisés, dizendo: 12"Eu ouvi as murmurações dos filhos de Israel; dize-lhes: Ao crepúsculo comereis carne, e pela manhã vos fartareis de pão; e sabereis que eu sou yhwh vosso Deus." 13À tarde subiram codornizes e cobriram o acampamento; e pela manhã havia uma camada de orvalho ao redor do acampamento. 14Quando se evaporou a camada de orvalho que caíra, apareceu na superfície do deserto uma coisa miúda, granulosa,' fina como a geada sobre a terra. 15Tendo visto isso, os filhos de Israel disseram entre si: "Que é isto?" Pois não sabiam o que era. Disse-lhes Moisés: "Isto é o pão que yhwh vos deu para vosso alimento. 16Eis que yhwh vos ordena: Cada um colha dele quanto baste para comer, um gomor por pessoa. Cada um tomará segundo o número de pessoas que se acham na sua tenda." 17E os filhos de Israel assim fizeram; e apanharam, uns mais outros menos. 18Quando mediram um gomor, nem aquele que tinha juntado mais tinha maior quantidade, nem aquele que tinha colhido menos encontrou menos: cada um tinha apanhado o quanto podia comer.

2.  Uma Resposta
Elias e o Corvo
refazer a história, recuperar a memória, estar disponível para Deus
"Ordenei aos corvos que levem comida para você"
(1Rs 17,4)
Deus diz a Elias: "Saia daqui, dirija-se para o oriente e esconda-se junto ao córrego Carit, que fica a leste do Jordão. Você poderá beber água do córrego. Eu ordenei aos corvos que levem comida para você". Então Elias partiu e fez como Javé tinha mandado: foi morar junto ao córrego Carit, a leste do Jordão. Os corvos levavam pão de manhã e carne à tarde. E ele bebia água do córrego" (1Rs 17,3-6). Elias deve sair da terra prometida no mesmo lugar onde, séculos antes, depois dos quarenta anos no deserto, o povo tinha entrado para tomar posse da terra prometida. Agora, por ordem de Deus, Elias atravessa o Jordão e volta para o deserto. Ele se esconde no Carit. Como o povo naqueles quarenta anos, ele é alimentado pelo corvos (=codornizes) e bebe da água do córrego.
Isto significa que Elias, voltando para o deserto, deve recomeçar a viver como o povo vivia durante aqueles quarenta anos, sobrevivendo com a água da rocha, com o maná que Deus lhe fornecia e com a carne que os codornizes traziam (Ex 17,1-16). A política dos Reis, tanto de Judá como de Israel, tinha desviado o povo da sua origem e da sua missão. Elias deve refazer a história do seu povo. Deve voltar às origens, reencontrar o Deus que os tinha acompanhado durante aqueles quarenta anos no deserto e assim realizar o grande ideal do amor de Deus. Deus diz ao povo: "Agora, sou eu que vou seduzi-la, vou levá-la ao deserto e conquistar seu coração. ...  Eliminarei da terra o arco, a espada e a guerra; e, então, vou fazê-los dormir em segurança. Eu me casarei com você para sempre, me casarei com você na justiça e no direito, no amor e na ternura. Eu me casarei com você na fidelidade e você conhecerá Javé" (Os 2,16.19.20-22).
Elias era uma pessoa totalmente disponível para a ação do Espírito de Deus. Deus podia chamá-lo a qualquer momento, em qualquer lugar, para qualquer missão. Deus chamava e Elias obedecia e ia: para a torrente de Karit (1Rs 17,3), para Sarepta na Sidônia (1Rs 17,9), para encontrar o rei Acab(1Rs 18,1), para ir na frente do rei até Yisrael (1Rs 18,46), para o Monte Horeb (1Rs 19,8), para ir ungir Eliseu (1Rs 19,15-16), para denunciar o rei (1Rs 21,17-19), para Betel (2Rs 2,2), para Jericó (2Rs 2,4), para o Jordão (2Rs 2,6). Elias já não se pertence. Sua vida tornou-se uma despedida contínua, um peregrinar constante em busca do que Deus queria dele. Elias viveu em estado permanente de êxodo! No fim, ele é arrebatado(2Rs 2,11). Como tal, ele já era conhecido pelo povo: alguém totalmente disponível que, a cada momento, podia ser levado pelo Espírito para realizar a obra de Deus (1Rs 18,12).

3. Duas  perguntas ou sugestões para nós Carmelitas
1. Qual o significado do corvo que alimenta Elias?
2. É o que se pede de todos nós, Carmelitas: refazer a história, recuperar a memória, redescobrir nossa identidade, voltar a alimentar-nos daquela mesma experiência da nossa origem no Monte Carmelo. Devemos fazer isto não só com reflexões teóricas, mas também e sobretudo, como Elias, com iniciativas praticas e atitudes bem concretas: atravessar o rio, fazer um retiro, esconder-se no Carit. O livro "Institutio primorum monachorum" (Instituição dos Primeiros Monges) diz que Carit significa Caridade: esconder-se na caridade.


Terceira Pergunta
Qual a mensagem da conversa de Elias com a viúva de Sarepta?

1.  Os textos da Bíblia

1Reis 17,7-16:  A viúva partilha o seu pão com Elias
7Depois de certo tempo, a torrente secou, porque não chovia mais na terra. 8Então a palavra de Iahweh lhe foi dirigida nestes termos: 9"Levanta-te e vai a Sarepta, que pertence à Sidônia, e lá habitarás. Eis que ordenei lá, a uma viúva, que te dê o sustento." 10Ele se levantou e foi para Sarepta. Chegando à porta da cidade, eis que estava lá uma viúva apanhando lenha; chamou-a e disse: "Por favor, traze-me num vaso um pouco d'água para eu beber!" 11Quando ela já estava indo para buscar água, ele gritou-lhe: "Traze-me também um pedaço de pão na tua mão!" 12Respondeu ela: "Pela vida de yhwh , teu Deus, não tenho pão cozido; tenho apenas um punhado de farinha numa vasilha e um pouco de azeite na jarra. Estou ajuntando uns gravetos, vou preparar esse resto para mim e meu filho; nós o comeremos e depois esperaremos a morte." 13Mas Elias lhe respondeu: "Não temas; vai e faze como disseste. Mas, primeiro, prepara-me com o que tens um pãozinho e traze- mo; depois o prepararás para ti e para teu filho. 14Pois assim fala yhwh , Deus de Israel: A vasilha de farinha não se esvaziará e a jarra de azeite não acabará, até o dia em que yhwh enviar a chuva sobre a face da terra." 15Ela partiu e fez como Elias disse e fizeram uma refeição ele, ela e seu filho: 16A vasilha de farinha não se esvaziou e a jarra de azeite não acabou, conforme a predição que yhwh fizera por intermédio de Elias.

1Reis 17,17-24:  Elias devolve a vida ao filho da viúva
17Depois disso, aconteceu que o filho dessa mulher, dona da casa, adoeceu e seu mal foi tão grave que ele veio a falecer. 18Então ela disse a Elias: "Que há entre mim e ti, homem de Deus? Vieste à minha casa para reavivar a lembrança de minhas faltas e causar a morte do meu filho!" 19Ele respondeu: "Dá-me teu filho." Tomando-o dos braços dela, levou-o ao quarto de cima onde morava e colocou-o sobre seu leito. 20Depois clamou a yhwh , dizendo: "yhwh , meu Deus, até a viúva que me hospeda queres afligir, fazendo seu filho morrer?" 21Estendeu-se por três vezes sobre o menino e invocou yhwh : "yhwh , meu Deus, eu te peço, faze voltar a ele a alma deste menino!" 22Iahweh atendeu à súplica de Elias e a alma do menino voltou a ele e ele reviveu. 23Elias tomou o menino, desceu-o do quarto de cima para dentro da casa e entregou-o à sua mãe, dizendo: "Olha, teu filho está vivo." 24A mulher respondeu a Elias: "Agora sei que és um homem de Deus e que yhwh fala verdadeiramente por tua boca!"


2.  Uma Resposta

A viúva de Sarepta: insistir na partilha e estar com os pobres "Agora eu sei que você é um homem de Deus, e que de fato anuncia a palavra de Javé"
(1Rs 17,24)
Por causa da seca demorada de mais de três anos, só sobrava um pouco de farinha e de azeite. na casa daquela viúva. Nada mais! Era para ela fazer uns pãezinhos para si mesma e para o filho, e depois morrer. Ela disse a Elias: "Vamos comer e ficar esperando a morte". Mesmo sendo difícil, Elias exige que ela partilhe o pouco de pão de que dispunha para sobreviver. Ele diz com uma certa dureza: "Faça primeiro um pão para mim, e depois você fará o pão para você e seu filho!" A partilha é um dos fundamentos indispensáveis da vida em comunidade. É a falta de partilha que até hoje gera a fome e a injustiça no mundo. A partilha garantiu a sobrevivência para a viúva e o filho naquela época difícil de seca e de penúria. Se houvesse partilha no Brasil, não haveria fome nem faminto, e sobraria comida para muita gente de outros países. O povo diz até hoje: "Pobre não deixa pobre morrer de fome!"
Jesus elogiou a partilha daquela outra viúva que depositou duas pequenas moedas no cofre: Eu garanto a vocês: essa viúva pobre depositou mais do que todos os outros que depositaram moedas no Tesouro. Porque todos depositaram do que estava sobrando para eles. Mas a viúva na sua pobreza depositou tudo o que tinha, tudo o que possuía para viver (Mc 12,43-44). Hoje há muitas viúvas que se doam. A viúva de Sarepta está mais viva do que nunca nas comunidades tanto das roças como das periferias das grandes cidades. Como a viúva elogiada por Jesus, elas sabem partilhar o pouco que possuem para viver.
O filho da viúva ficou doente e morreu. Elias foi na casa dela, ressuscitou o menino e o devolveu à mãe. Vendo isto, a viúva exclama: "Agora sei que você é um homem de Deus e que a palavra de Deus habita em sua boca!" Elias é confirmado pelo povo pobre que reconhece nele o Homem de Deus. Não é um título a mais que ele recebe, mas é o resultado da experiência concreta que os pobres tiveram com ele. Qual a experiência concreta que os pobres têm hoje conosco, que somos membros da Família Carmelitana? Será que, como a viúva descobriu em Elias, eles descobrem em nós algo de Deus para as suas vidas? Outro dia, uma comunidade de religiosas carmelitas no meio de um bairro da periferia recebeu o seguinte título de uma viúva: "As irmãs são o rosto de Deus para nós". É a definição mais bonita que uma comunidade possa receber. A viúva disse a Elias: A palavra de Deus habita em sua boca.

3. Duas  perguntas ou sugestões para nós Carmelitas
1. Qual a mensagem da conversa de Elias com a viúva de Sarepta?
2. As palavras da viúva para Elias são retomadas quase literalmente na Regra do Carmo que diz: que a Palavra de Deus habite abundantemente em sua boca e em seus corações (Rc 19). De fato, se a Palavra de Deus habitar na boca e no coração, a comunidade carmelitana que daí nascer será uma revelação e uma irradiação de Deus.


Quarta Pergunta
Como entender a denúncia profética de Elias contra a rainha Jezabel?

1.  Os textos da Bíblia

1Rs 21,1-16:  A injustiça da rainha Jezabel contra Nabot
1Eis o que se passou depois desses fatos: Nabot de Jezrael tinha uma vinha em Jezrael, ao lado do palácio de Acab, rei de Samaria, 2e Acab assim falou a Nabot: "Cede- me tua vinha, para que eu a transforme numa horta, já que ela está situada junto ao meu palácio; em troca te darei uma vinha melhor, ou, se preferires, pagarei em dinheiro o seu valor." 3Mas Nabot respondeu a Acab: " yhwh me livre de ceder-te a herança dos meus pais!"
4Acab voltou para casa aborrecido e irritado por causa desta resposta que lhe dera Nabot de Jezrael: "Não te cederei a herança dos meus pais." Estendeu-se na cama, voltou o rosto para a parede e não quis comer nada. 5Sua mulher Jezabel aproximou-se dele e disse-lhe: "Por que estás aborrecido e não queres comer?" 6Respondeu ele: "Porque conversei com Nabot de Jezrael e lhe propus: 'Cede-me tua vinha pelo seu preço em dinheiro, ou, se preferires, dar-te-ei outra vinha em troca.' Mas ele respondeu: 'Não te cederei minha vinha.' " 7Então sua mulher Jezabel lhe disse: "És tu que agora governas Israel? Levanta-te e come e que teu coração se alegre, pois eu te darei a vinha de Nabot de Jezrael."
8Ela escreveu então umas cartas em nome de Acab, selou-as com o selo real, e enviou-as aos anciãos e aos notáveis, concidadãos de Nabot. 9Nessas cartas escrevera o seguinte: "Proclamai um jejum e fazei Nabot sentar-se entre os primeiros do povo." 10Fazei comparecer diante dele dois homens inescrupulosos que o acusem assim: 'Tu amaldiçoaste a Deus e ao rei!' Levai-o para fora, apedrejai-o para que morra!" 11Os homens da cidade de Nabot, os anciãos e os notáveis que moravam na mesma cidade, fizeram conforme Jezabel lhes havia ordenado, segundo estava escrito nas cartas que ela lhes enviara. 12Proclamaram um jejum e colocaram Nabot entre os primeiros do povo. 13Então chegaram os dois homens inescrupulosos, que se sentaram diante dele e testemunharam contra Nabot diante do povo, dizendo: "Nabot amaldiçoou a Deus e ao rei." Levaram-no para fora da cidade, apedrejaram-no e ele morreu. 14Depois mandaram a notícia a Jezabel: "Nabot foi apedrejado e está morto." 15Quando Jezabel ouviu que Nabot tinha sido apedrejado e que estava morto, disse a Acab: "Levanta-te e vai tomar posse da vinha de Nabot de Jezrael, que ele não quis te ceder por seu preço em dinheiro; pois Nabot já não vive: está morto." 16Quando Acab soube que Nabot estava morto, levantou-se para descer à vinha de Nabot de Jezrael e dela tomar posse.

1Rs 21,17-26:  Elias lança a condenação divina contra Jezabel e Acab
17Então a palavra de yhwh foi dirigida a Elias, o tesbita, nestes termos: 18"Levanta-te e desce ao encontro de Acab, rei de Israel, que está em Samaria. Ele se encontra na vinha de Nabot, aonde desceu para dela tomar posse. 19Isto lhe dirás: Assim fala Iahweh: Mataste e ainda por cima roubas! Por isso, assim fala yhwh : No mesmo lugar em que os cães lamberam o sangue de Nabot, os cães lamberão também o teu." 20Acab disse a Elias: "Então me apanhaste, meu inimigo!" Elias respondeu: "Sim, apanhei-te. Porque te deixaste subornar para fazer o que é mau aos olhos de yhwh , 21farei cair sobre ti a desgraça: varrerei a tua raça, exterminarei os varões da casa de Acab, ligados ou livres em Israel. 22Farei com tua casa como fiz com as de Jeroboão, filho de Nabat, e de Baasa, filho de Aías, porque provocaste a minha ira e fizeste Israel pecar. 23(Também contra Jezabel yhwh pronunciou uma sentença: 'Os cães devorarão Jezabel no campo de Jezrael.') 24A pessoa da família de Acab que morrer na cidade será devorada pelos cães; e quem morrer no campo será comido pelas aves do céu." 25De fato, não houve ninguém que, como Acab, se tenha vendido para fazer o que desagrada a yhwh , porque a isso o incitava sua mulher Jezabel. 26Agiu de um modo extremamente abominável, cultuando os ídolos, como fizeram os amorreus que yhwh expulsara de diante dos filhos de Israel.


2. Uma Resposta

Elias e a rainha Jezabel
Irradiar Deus e ter a coragem de denunciar as injustiças
"Você se deixou subornar para fazer o que yhwh reprova"
(1Rs 21,20)
Elias assume a defesa de Nabot, um agricultor, cujos direitos tinham sido pisados pela rainha Jezabel e pelo rei Acab. Acab queria que Nabot lhe vendesse um terreno que ficava perto da propriedade do rei. Mas Nabot não quis, pois aquele terreno era a herança da sua família, a fonte da sua identidade. O rei ficou muito triste com a recusa de Nabot. Então, Jezabel apoiando-se nos assim chamados "direitos do rei" (cf. 1Sam 8,11-17), mandou matar Nabot e roubou dele o terreno para entregá-lo ao rei (cf. 1Rs 21,1-16).
Quando Acab foi tomar posse do terreno de Nabot, Elias aparece e fulmina a sentença de Deus: "Você matou, e ainda por cima está roubando? Por isso, assim diz Javé: No mesmo lugar em que os cães lamberam o sangue de Nabot, lamberão também o seu". Elias não tem medo de denunciar o rei, como transparece neste diálogo. Acab disse a Elias: "Então, meu inimigo, você me surpreendeu?" Elias deu o troco na hora e respondeu: "Sim, eu surpreendi você. Pois você se deixou subornar para fazer o que Javé reprova. Por isso, farei cair sobre você a desgraça. Vou deixá-lo sem descendência, vou exterminar todo israelita da sua família. Javé também pronunciou uma sentença contra Jezabel: Os cães devorarão Jezabel no campo de Jezrael". Elias não é um profeta da corte do rei como Natã e outros antes dele. Elias age em plena liberdade a partir da experiência que ele mesmo tem de Deus.
Elias aparece em vários outros lugares na Bíblia. Para Tiago, ele o homem da oração que ensina a rezar (Tg 5,17-18). Para Malaquias, a missão de Elias é refazer a comunidade e conduzir os coração dos filhos para os pais, dos ais para os filhos (Ml 3,23-24). No evangelho de Lucas Elias aparece como testemunha da profecia para Jesus na transfiguração (Lc 9,30). Segue aqui o resumo da vida e da atividade profética de Elias que se encontra no livro do Eclesiástico: "Então o profeta Elias surgiu como um fogo, sua palavra queimava como uma tocha. Fez vir sobre eles a fome e em seu zelo os dizimou. À palavra do Senhor ele fechou o céu, por três vezes fez descer fogo. Como tu eras glorioso, Elias, em teus prodígios! Quem pode em seu orgulho igualar-se a ti? Tu que arrancaste um homem à morte e ao Xeol pela palavra do Altíssimo. Tu que fizeste descer reis à ruína e homens ilustres de seus leitos, que ouviste no Sinai a sentença e no Horeb decretos de vingança, que ungiste reis como vingadores e profetas para suceder-te, que foste arrebatado num turbilhão de fogo, num carro puxado por cavalos de fogo, tu que foste designado nas ameaças do furor, para apaziguar a cólera antes do furor, para reconduzir o coração dos pais aos filhos e restabelecer as tribos de Jacó. Felizes os que te viram e os que adormeceram no amor, porque nós também possuiremos a vida"  (Eclo 48,1-11)  (516)

3.  Duas perguntas ou sugestões para nós Carmelitas
1. Como entender a denúncia profética de Elias contra a rainha Jezabel?
2. Qual a raiz da liberdade que existe em nós Carmelitas? Será que é aquela mesma liberdade que nasce da experiência de Deus vivo? 


Quinta Pergunta
Quem são hoje os falsos deuses e os falsos profetas que o profeta Elias enfrentou?

1.  Os textos da Bíblia

1Reis 18,16-19:  Encontro de Elias com o rei Acab
16Abdias foi encontrar-se com Acab e contou-lhe o acontecido; e Acab saiu ao encontro de Elias. 17Logo que viu Elias, Acab lhe disse: "Estás aí, flagelo de Israel!" 18Elias respondeu: "Não sou eu o flagelo de Israel, mas és tu e tua família, porque abandonastes yhwh e seguiste os baals. 19Pois bem, manda que se reúna junto de mim, no monte Carmelo, todo o Israel com os quatrocentos e cinqüenta profetas de Baal, que comem à mesa de Jezabel."

1Reis 18,20-40: O grande confronto no Monte Carmelo
20Acab convocou todos os filhos de Israel e reuniu os profetas no monte Carmelo. 21Elias, aproximando-se de todo o povo, disse: "Até quando claudicareis das duas pernas?r Se yhwh é Deus, segui-o; se é Baal segui-o." E o povo não lhe pôde dar resposta. 22Então Elias disse ao povo: "Sou o único dos profetas de yhwh que fiquei, enquanto os profetas de Baal são quatrocentos e cinqüenta. 23Dêem-nos dois novilhos; que eles escolham um para si e depois de esquartejá-lo o coloquem sobre a lenha, sem lhe pôr fogo. Prepararei o outro novilho sem lhe pôr fogo. 24Invocareis depois o nome de vosso deus, e eu invocarei o nome de yhwh : o deus que responder enviando fogo, é ele o Deus." Todo o povo respondeu: "Está bem." 25Elias disse então aos profetas de Baal: "Escolhei para vós um novilho e preparai vós primeiro, pois sois mais numerosos. Invocai o nome de vosso deus, mas não acendais o fogo." 26Eles tomaram o novilho e o fizeram em pedaços e invocaram o nome de Baal desde a manhã até o meio-dia, dizendo: "Baal, responde-nos!" Mas não houve voz, ninguém respondeu; e eles dançavam dobrando o joelho diante do altar que tinham feito. 27Ao meio-dia, Elias zombou deles, dizendo: "Gritai mais alto; pois, sendo um deus, ele pode estar conversando ou fazendo negócios ou, então, viajando; talvez esteja dormindo e acordará!" 28Gritaram mais forte e, segundo seu costume, fizeram incisões no próprio corpo, com espadas e lanças, até escorrer sangue. 29Quando passou do meio-dia, entraram em transe até a hora da apresentação da oferenda, mas não houve voz, nem resposta, nem sinal de atenção. 30Então Elias disse a todo o povo: "Aproximai-vos de mim"; e todo o povo se aproximou dele. Ele restaurou o altar de yhwh que fora demolido. 31Tomou doze pedras, segundo o número das doze tribos dos filhos de Jacó, a quem Deus se dirigira, dizendo: "Teu nome será Israel", 32e edificou com as pedras um altar ao nome de yhwh . Fez em redor do altar um rego capaz de conter duas medidas de semente. 33Empilhou a lenha, esquartejou o novilho e colocou-o sobre a lenha. 34Depois disse: "Enchei quatro talhas de água e entornai-a sobre o holocausto e sobre a lenha"; assim o fizeram. E ele disse: "Fazei-o de novo", e eles o fizeram. E acrescentou: "Fazei-o pela terceira vez", e eles o fizeram. 35A água se espalhou em torno do altar e inclusive o rego ficou cheio d'água." 36Na hora em que se apresenta a oferenda, Elias, o profeta, aproximou-se e disse: "yhwh , Deus de Abraão, de Isaac e de Israel, saiba-se hoje que tu és Deus em Israel, que sou teu servo e que foi por ordem tua que fiz todas estas coisas. 37Responde-me, yhwh , responde-me, para que este povo reconheça que és tu, Iahweh, o Deus, e que convertes os corações deles!"38Então caiu o fogo de yhwh e consumiu o holocausto e a lenha, secando a água que estava no rego. 39Todo o povo o presenciou; prostrou-se com o rosto em terra, exclamando: "É yhwh que é Deus! É yhwh que é Deus!" 40Elias lhes disse: "Prendei os profetas de Baal; que nenhum deles escape!" e eles os prenderam. Elias fê-los descer para perto da torrente do Quison e lá os degolou.

2.  Uma Resposta

Elias e os profetas de Baal um confronto entre os dois no Monte Carmelo
"Para que este povo reconheça que tu, yhwh, és o Deus verdadeiro,
(1Rs 18,37)
Elias convocou o povo no Monte Carmelo e lançou o desafio: "Até quando vocês vão mancar com as duas pernas? Se yhwh é o Deus verdadeiro, sigam a yhwh. Se é Baal, sigam a Baal" (1Rs 18,21). Elias provocou o povo para descer do muro e tomar uma decisão. E disse: "Fiquei sozinho como profeta de yhwh, enquanto os profetas de Baal são quatrocentos e cinquenta. Tragam aqui dois bezerros: vocês vão escolher um. Depois de cortá-lo em pedaços, o coloquem sobre a lenha, mas não acendam o fogo. Eu também vou preparar o outro bezerro, o colocarei sobre a lenha e também não acenderei o fogo. O Deus que responder, enviando fogo, é o Deus verdadeiro" (1Rs 18,22-24). Todo o povo concordou. Os profetas de Baal prepararam o bezerro e começaram a invocar o deus deles, para que fizesse baixar o fogo do céu. Mas nada! Pelo meio-dia, Elias começou a zombar deles: "Gritem mais  alto; Baal é deus, mas pode ser que esteja ocupado. Quem sabe teve que se ausentar. Ou então, está viajando. Talvez esteja dormindo e seja preciso acordá-lo" (1Rs 18,27). Estas palavras de Elias são uma crítica fina e irônica para mostrar que o deus Baal não é deus, nem merece o mínimo de respeito: um deus que não pode atender porque está ocupado com outras coisas; um deus que está ausente e não atende; um deus que viaja e está longe de quem  o invoca; um deus que dorme e precisa ser acordado para atender ao povo. Um deus assim não é deus! Não merece atenção. Esta maneira de Elias falar e atuar revela a nulidade do sistema da religião de Baal e a nulidade de tantos ídolos do sistema neoliberal de hoje com seu consumismo.
Os profetas de Baal rezaram e gritaram, mas Baal não respondeu e nada aconteceu. Perto da hora do sacrifício da tarde, Elias preparou tudo para o sacrifício e cheio de fé, rezou: "Javé, Deus de Abraão, de Isaac e de Israel, saiba-se hoje que tu és Deus em Israel, que sou teu servo e que foi por ordem tua que fiz todas estas coisas. Responde-me, Javé, responde-me, para que este povo reconheça que és tu, Javé, o Deus, e que convertes os corações deles!" Então caiu o fogo de Javé e consumiu o holocausto e a lenha, secando a água que estava no rego. Todo o povo o presenciou; prostrou-se com o rosto em terra, exclamando: "É Javé que é Deus! É Javé que é Deus!" (1Rs 18,36-39) O povo desceu do muro e tomou posição. Optou por Javé e rejeitou a religião do deus Baal. Foi a oração da fé de Elias que expulsou Baal. Jesus disse que certo tipo de demônios só sai pela oração e pelo jejum (Mt 17,20-21).

3. Duas perguntas ou sugestões para nós Carmelitas
1. Quem são hoje os falsos deuses e os falsos profetas que o profeta Elias enfrentou?
2. A mensagem deste episódio é muito clara: como Elias, nós Carmelitas devemos irradiar a presença de Deus e fazer com que o povo de novo se enamore de Deus, jogue fora os muitos ídolos do consumismo neoliberal e aceite yhwh como o único Deus verdadeiro. Este é um dos aspectos mais difíceis, mais exigentes e mais bonitos da nossa missão como Carmelitas..


Sexta Pergunta
Como entender o medo e a fragilidade do profeta Elias?

1.  Os textos da Bíblia

1Reis 19,1-8: Elias fica com medo e foge
1Acab contou a Jezabel tudo o que fizera Elias e como passara a fio de espada todos os profetas. 2Então Jezabel mandou a Elias um mensageiro para lhe dizer: "Que os deuses me façam este mal e acrescentem este outro, se amanhã a esta hora eu não tiver feito de tua vida o que fizeste da vida deles!" 3EIias teve medo; levantou-se e partiu para salvar a vida. Chegou a Bersabéia, que pertence a Judá, e deixou lá seu servo. 4Quanto a ele, fez pelo deserto a caminhada de um dia e foi sentar-se debaixo de um junípero. Pediu a morte, dizendo: "Agora basta, yhwh! Retira-me a vida, pois não sou melhor que meus pais." 5Deitou-se e dormiu debaixo do junípero. Mas eis que um Anjo o tocou e disse-lhe: "Levanta-te e come." 6Abriu os olhos e eis que, à sua cabeceira, havia um pão cozido sobre pedras quentes e um jarro de água. Comeu, bebeu e depois tornou a deitar-se. 7Mas o Anjo de yhwh veio pela segunda vez, tocou-o e disse: "Levanta-te e come, pois do contrário o caminho te será longo demais." 8Levantou-se, comeu e bebeu e, depois, sustentado por aquela comida, caminhou quarenta dias e quarenta noites até à montanha de Deus, o Horeb.
1Reis 19,9-12: Preparação para o encontro com Deus no Monte Horeb
9Lá ele entrou numa gruta, onde passou a noite. E foi-lhe dirigida a palavra de yhwh nestes termos: "Que fazes aqui, Elias?" 10Ele respondeu: "Eu me consumo de ardente zelo por yhwh dos Exércitos, porque os filhos de Israel abandonaram tua aliança, derrubaram teus altares, e mataram teus profetas. Fiquei somente eu e procuram tirar-me a vida." 11E Deus disse: "Sai e fica na montanha diante de yhwh ." E eis que yhwh passou. Um grande e impetuoso furacão fendia as montanhas e quebrava os rochedos diante de yhwh , mas yhwh não estava no furacão; e depois do furacão houve um terremoto, mas yhwh não estava no terremoto; 12e depois do terremoto um fogo, mas yhwh não estava no fogo; e depois do fogo o murmúrio de uma brisa suave.

2.  Uma Resposta

Elias e o medo de perder a vida
humanidade e fragilidade na vida do Profeta
"Agora basta, yhwh! Retira-me a vida, pois não sou melhor que meus pais." 5
(1Rs 19,4)
A rainha Jezabel mandou dizer a Elias: "Que os deuses me castiguem se amanhã, a esta hora, eu não tiver feito com você o mesmo que você fez com os profetas de Baal" (1Rs 19,2). O medo tomou conta de Elias e ele foge. Deitado debaixo de uma árvore, ele desabafa: "Basta, Senhor! Tira-me a vida, porque eu não sou melhor que meus pais!" (1Rs 19,4). Ele nem percebe o anjo de Deus que lhe traz comida. Ele quer é morrer. Desânimo total! Elias perdeu o sentido da vida e da missão. É a imagem de todos nós. De vez em quando, desanimamos e nem percebemos a presença de tantos anjos e anjas de Deus que querem nos ajudar. Como recuperar a coragem e o sentido da vida? Como foi que Elias fez?
O anjo voltou, tocou nele e disse: "Levante-se e coma, porque o caminho é longo" (1Rs 19,7). Finalmente, Elias despertou. Levantou, comeu, bebeu e, sustentado pela comida, caminhou quarenta dias e quarenta noites até o Horeb, a Montanha de Deus" (1Rs 19,8). Horeb, a Montanha de Deus, é o lugar onde, no tempo do Êxodo, o povo tinha feito aliança com Deus (cf. Ex 19,1 a 24,11). Elias voltou às raízes da sua fé.
No alto da Montanha de Deus, Deus diz: "Elias, o que é que você está fazendo aqui?" Elias responde: "O zelo por Javé dos exércitos me consome, porque os israelitas abandonaram tua aliança, derrubaram teus altares e mataram teus profetas. Sobrei somente eu, e eles querem me matar também" (1Rs 19,9-10). alguma coisa estranha nesta resposta. Ele diz que está cheio de zelo, mas estava fugindo! Diz que ele é o único que sobrou, mas havia sete mil homens que não se dobraram diante de Baal (1Reis 19,18). Elias não enxergava bem as coisas. Até hoje, no escudo da Ordem, conservamos aquela frase de Elias: "O zelo por yhwh dos exércitos me consome". Ela expressa nossa esperança de que o zelo seja mais forte que o desânimo e nos ajude a recuperar o sentido da vida e da nossa missão.
Deus diz: "Elias, saia da gruta e fique no alto da montanha, diante de yhwh, pois yhwh vai passar". Como Deus passou? Na conclusão da aliança os sinais de Deus eram furacão, terremoto e fogo (Ex 19,18). Mas agora, "Deus não estava no furacão! Não estava no terremoto! Não estava no fogo!" (1Rs 19,11-12). Os sinais tradicionais já não são sinais da presença de Deus. Então, onde está Deus? Onde? A Bíblia responde: depois do fogo, ouviu-se a voz de uma brisa suave. Ouvindo-a, Elias cobriu o rosto com o manto (1Rs 19,12-13). Sinal de que intuiu a presença de Deus. Descobriu que não é ele, Elias, quem defende a Deus, mas é Deus quem defende a Elias. Esta experiência de total gratuidade da presença acolhedora de Deus em sua vida foi a sua libertação. Elias descobriu de novo o sentido da sua vida e da sua missão.

3.  Duas  perguntas ou sugestões para nós Carmelitas
1. Como entender o medo e a fragilidade do profeta Elias?
2.  Para nós, a Montanha de Deus é o Monte Carmelo. São João da Cruz descreve como devemos fazer a Subida do Monte Carmelo. Como Elias, sustentados pelo pão da Palavra e da Eucaristia, somos convidados a fazer a mesma caminhada até a Montanha de Deus e recuperar, cada vez de novo, nossa identidade e a consciência da nossa missão.



Sétima Pergunta
Como entender hoje a Brise Leve?

1.  Os textos da Bíblia

1Reis 19,7-12a: Preparação para o encontro com Deus no Monte Horeb
7O Anjo de yhwh veio pela segunda vez, tocou-o e disse: "Levanta-te e come, pois do contrário o caminho te será longo demais." 8Levantou-se, comeu e bebeu e, depois, sustentado por aquela comida, caminhou quarenta dias e quarenta noites até à montanha de Deus, o Horeb.9Lá ele entrou numa gruta, onde passou a noite. E foi-lhe dirigida a palavra de yhwh nestes termos: "Que fazes aqui, Elias?" 10Ele respondeu: "Eu me consumo de ardente zelo por yhwh dos Exércitos, porque os filhos de Israel abandonaram tua aliança, derrubaram teus altares, e mataram teus profetas. Fiquei somente eu e procuram tirar-me a vida." 11E Deus disse: "Sai e fica na montanha diante de yhwh." E eis que yhwh passou. Um grande e impetuoso furacão fendia as montanhas e quebrava os rochedos diante de yhwh, mas yhwh não estava no furacão; e depois do furacão houve um terremoto, mas yhwh não estava no terremoto; 12e depois do terremoto um fogo, mas yhwh não estava no fogo.

1Reis 19,12b-18: O encontro com Deus na montanha de Deus
Depois do fogo veio o murmúrio de uma brisa suave. 13Quando Elias o ouviu, cobriu o rosto com o manto, saiu e pôs-se à entrada da gruta. Então, veio-lhe uma voz, que disse: "Que fazes aqui, Elias?" 14Ele respondeu: "Eu me consumo de ardente zelo por yhwh dos Exércitos, porque os filhos de Israel abandonaram tua aliança, derrubaram teus altares e mataram teus profetas à espada. Fiquei somente eu e procuram tirar-me a vida." 15Iahweh lhe disse: "Vai, retoma teu caminho na direção do deserto de Damasco. Irás ungir Hazael como rei de Aram. 16Ungirás Jeú, filho de Namsi, como rei de Israel, e ungirás" Eliseu, filho de Safat, de Abel-Meula, como profeta em teu lugar. 17Quem escapar à espada de Hazael, Jeú o matará, e o que escapar da espada de Jeú, Eliseu o matará. 18Mas pouparei em Israel sete mil homens, todos os joelhos que não se dobraram diante de Baal e todas as bocas que não o beijaram."

2.  Uma Resposta

Elias e a Brisa suave que faz perceber Deus na vida
a nova forma da presença de Deus na vida
"Depois do fogo o murmúrio de uma brisa suave.
Quando Elias o ouviu, cobriu o rosto com o manto"
1Rs 19,12-13
A Bíblia afirma três vezes: "Deus não estava no furacão. Deus não estava no terremoto. Deus não estava no fogo!" Esta tríplice repetição tem um significado. Furacão, terremoto e fogo eram os sinais tradicionais com que Deus tinha manifestado a sua presença, séculos antes, quando concluiu a Aliança com seu povo no Monte Horeb. Naquela ocasião, "toda a montanha do Sinai fumegava, porque Javé tinha descido sobre ela no fogo; a fumaça subia, como fumaça de fornalha. E a montanha toda tremia" (Ex 19,18). E agora, solenemente, se afirma, por três vezes, que Deus não está mais no furacão, nem no terremoto, nem no fogo! Os sinais tradicionais da presença de Deus perderam o seu significado. Já não eram sinais da presença de Deus. Desintegrou-se o mundo religioso de Elias! Então, onde está Deus? Onde? A Bíblia responde: depois do fogo, ouviu-se a voz de uma brisa suave. Ouvindo-a, Elias cobriu o rosto com o manto. Sinal de que ele intuiu a presença de Deus.
Qual o significado exato da brisa leve. Os sinais tradicionais da presença de Deus eram lâmpadas apagadas. Bonitas para ver, mas sem luz! Deixaram Elias no escuro! Elias vivia no passado! Deus já não era como ele, Elias, e tantos outros o imaginavam e desejavam. A imagem que Elias tinha de Deus quebrou em mil pedaços. É o silêncio de Deus! Na Bíblia, este silêncio é expresso com as palavras “murmúrio de uma brisa suave”. A palavra hebraica, usada para indicar a brisa vem da raiz DMH, que significa parar, ficar imóvel, emudecer. O “murmúrio de uma brisa suave”, que veio depois do furacão, do terremoto e do fogo, indica uma experiência repentina, que, como um golpe suave e inesperado, faz a pessoa ficar calada, cria nela um vazio e, assim, a dispõe para escutar. É como um puxão de orelha, que desperta, quebra a ilusão irreal e faz a pessoa colocar o pé no chão. A brisa suave obrigava Elias a uma conversão radical. Elias cobre o rosto com o manto (1Rs 19,13). Sinal de que tinha descoberto a presença de Deus naquilo que parecia ser a sua ausência! Despertou! Caiu a ficha! Aprendeu a lição! A escuridão iluminou-se por dentro e a noite ficou mais clara que o dia (Sl 139,12). Deus se fez presente na ausência para além de todas as representações e imagens! “Escuridão luminosa!”, dirá São João da Cruz. A experiência de Deus na Brisa Leve deu olhos novos e produziu nele uma mudança radical. Ele descobriu a presença de Deus naquilo que antes parecia a sua ausência. Com Elias aconteceu o mesmo que tantas vezes acontece na vida da gente. Desatentos, não percebemos as mudanças que acontecem na vida e na história e, de repente, estamos perdidos: Onde está Deus? Deus está na história, na vida, nos fatos, na natureza. Nosso mal é a falta de atenção aos fatos da vida, às mudanças. Um salmo descreve esta experiência dizendo: "Meu mal é este: Deus mudou!" (Sl 77,11). Deus mudou, e Elias não tinha mudado. Desatento, não percebeu a passagem de Deus. No seu relacionamento com Deus, Elias não podia fixar-se naquelas três imagens do passado. Nós não podemos fixar-nos numa determinada imagem de Deus que nos agrada. Não podemos obrigar Deus a ser como nós o queremos. Devemos estar sempre atentos à brisa leve, às mudanças que ocorrem na história. Devemos deixar Deus ser Deus!

3.  Duas  perguntas ou sugestões para nós Carmelitas
1. Como entendo agora a Brisa leve??
2.  Para nós, a Montanha de Deus é o Monte Carmelo. São João da Cruz descreve como devemos fazer a Subida do Monte Carmelo. Como Elias, sustentados pelo pão da Palavra e da Eucaristia, somos convidados a fazer a mesma caminhada até a Montanha de Deus e recuperar, cada vez de novo, nossa identidade e a consciência da nossa missão.


Oitava Pergunta
Quem são hoje os seguidores de Elias?

1.  Os textos da Bíblia

1Reis 19,19-21: Elias chama Eliseu
19Partindo dali, Elias encontrou Eliseu filho de Safat trabalhando tom doze juntas de bois diante dele; ele próprio conduzia a décima segunda junta. Elias passou perto dele e lançou sobre ele seu manto. 20Eliseu abandonou seus bois, correu atrás de Elias e disse: "Deixa-me abraçar meu pai e minha mãe, depois te seguirei." Elias respondeu: "Vai e volta; pois que te fiz eu?" 21Eliseu afastou-se de Elias e, tomando a junta de bois, a imolou. Serviu-se da lenha do arado para cozinhar a carne e deu-a ao pessoal para comer. Depois levantou-se e seguiu Elias na qualidade de servo.

2Reis 2,1-15:  O duplo espírito de Elias passa para Eliseu
1Eis o que aconteceu quando yhwh arrebatou Elias ao céu no turbilhão: Elias e Eliseu partiram de Guilgal, 2e Elias disse a Eliseu: "Fica aqui, pois yhwh me enviou até Betel"; mas Eliseu respondeu: "Tão certo como yhwh vive e tu vives, não te deixarei!" e desceram a Betel. 3Os irmãos profetas que moravam em Betel foram ao encontro de Eliseu e disseram-lhe: "Sabes que hoje yhwh vai levar teu mestre por sobre tua cabeça?" Ele respondeu: "Sei; calai-vos." 4Elias lhe disse: "Eliseu, fica aqui, pois yhwh me envia só até Jericó"; mas ele respondeu: "Tão certo como yhwh vive e tu vives, não te deixarei!" E foram para Jericó. 5Os irmãos profetas que moravam em Jericó aproximaram-se de Eliseu e lhe disseram: "Sabes que hoje yhwh vai levar teu mestre por sobre tua cabeça?" Ele respondeu: "Sei; calai-vos." 6Elias lhe disse: "Fica aqui, pois yhwh me envia só até o Jordão"; mas ele respondeu: "Tão certo como yhwh vive e tu vives, não te deixarei!" E partiram os dois juntos. 7Cinqüenta irmãos profetas foram também e ficaram parados a distância, ao longe, enquanto eles dois se detinham à beira do Jordão. 8Então Elias tomou seu manto, enrolou-o e bateu com ele nas águas, que se dividiram de um lado e de outro, de modo que ambos passaram a pé enxuto. 9Depois que passaram, Elias disse a Eliseu: "Pede o que queres que eu faça por ti antes de ser arrebatado da tua presença." E Eliseu respondeu: "Que me seja dada uma dupla porção do teu espírito!" 10Elias respondeu: "Pedes uma coisa difícil: todavia, se me vires ao ser arrebatado da tua presença, isso te será concedido; caso contrário, isso não te será dado." 11E aconteceu que, enquanto andavam e conversavam, eis que um carro de fogo e cavalos de fogo os separaram um do outro, e Elias subiu ao céu no turbilhão. 12Eliseu olhava e gritava: "Meu pai! Meu pai! Carro e cavalaria de Israel!" Depois não mais o viu e, tomando suas vestes, rasgou-as em duas. 13Apanhou o manto de Elias, que havia caído, e voltou para a beira do Jordão, onde ficou. 14Tomou o manto de Elias e bateu com ele nas águas, dizendo: "Onde está yhwh, o Deus de Elias?" Bateu nas águas, que se dividiram de um lado e de outro, e Eliseu atravessou o rio. 15Os irmãos profetas viram- no a distância e disseram: "O espírito de Elias repousa sobre Eliseu!"; vieram ao seu encontro e se prostraram por terra, diante dele.


2.  Uma resposta

Elias e Eliseu
Os irmãos profetas, seguidores de Elias
"Deixe-me como herança uma dupla porção do seu espírito"
(2Rs 2,9)
Elias recebe a ordem: "Você deve ungir Eliseu, filho de Safat como profeta em seu lugar". Elias vai, encontra Eliseu, joga o manto sobre ele e lhe transmite o convite de Deus. Eliseu levantou-se e seguiu Elias (1Ra 19,19-21). Quando chegou o tempo de ser arrebatado, Elias e Eliseu caminham juntos para o Jordão. Os irmãos profetas os observam de longe. Elias diz a Eliseu: "Peça o que quiser antes que eu seja arrebatado da sua presença!" Eliseu pede: "Deixe-me como herança uma dupla porção do seu espírito". Naquele tempo, o filho mais velho recebia uma dupla porção da herança (Dt 21,17). Era para não diminuir ou pulverizar a propriedade da família para as gerações seguintes. Pelo pedido que fez, Eliseu mostra ter plena consciência da sua missão como filho mais velho que deve preservar a herança do profeta Elias. Hoje, nós somos Eliseu, o filho mais velho. Nossa herança é o duplo espírito de Elias a ser preservada integralmente. Esta herança não pode ser diminuída nem pulverizada.
No momento em que arrebatado, Elias deixou cair o manto. Eliseu pegou o manto de Elias, bateu com ele nas águas do Jordão e disse: "Onde está o Deus de Elias?" Na mesma hora, as águas se abriram e Eliseu atravessou o rio a pé enxuto. Os irmãos profetas reconheceram o sinal de Deus e concluíram: "O espírito de Elias repousa sobre Eliseu" (2Rs 2,15). Quem são estes irmãos profetas?
Havia várias comunidades de irmãos profetas: em Betel (2Rs 2,3), em Jericó (2Rs 3,5), em Guigal (2Rs 4,38), na região montanhosa de Efraim (2Rs 5,22). Alguns deles eram casados (cf. 2Rs 4,1). Eram numerosos, pois um grupo de cinquenta irmãos profetas junto com Eliseu acompanha Elias na sua última viagem até o rio Jordão (2Rs 2,7). E pelo que parece, o grupo crescia cada vez mais, pois o lugar onde alguns deles moravam perto do Jordão na época de Eliseu já não dava para abrigar a todos (2Rs 6,1). Quem são este irmãos profetas? A ação de Elias no Monte Carmelo,pelo seu testemunho, venceu os profetas de Baal. Em todo canto os profetas de Javé se reanimaram. Muita gente sentia a mesma vocação e cresceu o número dos profetas de Javé. Se os profetas de Baal eram em número de 430, os de Javé devem ter crescido do mesmo jeito. Eles se deixavam invadir pela experiência de Deus que marcava a vida e o testemunho do profeta Elias. Assim, em vários lugares, surgiram grupos de pessoas que recebiam do povo o nome de filhos dos profetas ou irmãos profetas. Pela sua maneira de viver e de conviver, eles irradiavam a fé libertadora em Javé. É o que, conforme o profeta Malaquias, se espera da ação de Elias: reconduzir o coração dos pais para os filhos e dos filhos para os pais (cf. Ml 3,23-24). Ou seja: refazer a vida comunitária, a vida do clã.

3.  Duas perguntas ou sugestões para nós Carmelitas
1. Quem são hoje os seguidores de Elias?
2. Foi este mesmo desejo que marcou a vida dos primeiros carmelitas que se reuniram no Monte Carmelo no começo do século XIII. Quando foram falar com o Patriarca Alberto para ele aprovar a sua maneira de viver, eles já viviam unidos em fraternidade, pois Alberto diz: "Aos amados filhos em Cristo B. e demais eremitas que, sob a sua obediência, vivem junto à Fonte no Monte Carmelo".(549)Hoje, nós somos Eliseu, o filho mais velho. Nossa herança é o duplo espírito de Elias a ser preservada integralmente. Esta herança não pode ser diminuída nem pulverizada.

*Perguntas feitas por Frei Petrônio de Miranda, Delegado Provincial para a Ordem Terceira do Carmo, para o biblista Frei Carlos Mesters, Carmelita,  no Encontro dos Priores e Formadores da Ordem Terceira do Carmo no Convento do Carmo, São Paulo. De 11-13 de março-20165.