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A Palavra do Frei Petrônio

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quinta-feira, 3 de março de 2016

Padre afastado por suspeita de assédio em Minas já enfrentou outras denúncias.


Investigado por suspeita de assediar adolescentes e afastado de centro comunitário por decisão da Justiça, padre de distrito de Diamantina enfrentou suspeitas por onde passou
Distrito de São João da Chapada, onde sacerdote é investigado: segundo documento, no fim dos anos 1990 religioso foi removido de entidade do Rio Grande do Sul depois de acusação (foto: Luiz Ribeiro/EM/D.A Press)
Diamantina – O padre investigado por suspeita de abuso em São João da Chapada, distrito de Diamantina, no Vale Jequitinhonha – proibido pela Justiça de frequentar o centro infantil que dirigia –, já foi denunciado por assédio a menores em uma cidade do Sul do país. Nos lugares por onde passou, há um histórico de acusações relativas ao seu comportamento, situação descrita em documento expedido pela coordenação da própria a instituição religiosa ao qual ele pertence, a Fraternidade, Palavra e Missão, ao qual o Estado de Minas teve acesso. O documento foi juntado ao material reunido durante as investigações, que correm sob sigilo.

Saiba mais
O documento da fraternidade diz que “no final dos anos 1990”, o padre agora investigado em São João da Chapada “foi flagrado por assistentes sociais fazendo (sic) assédio a menores em um banheiro de uma obra social em Santa Cruz do Sul”. Segundo o relatório, “a situação não foi tratada a fundo, porque o bispo (não identificado) exigiu que o padre fosse retirado da diocese”. Logo depois do episódio, o envolvido passou a “prestar serviços” em São Leopoldo e Santa Maria, no Rio Grande do Sul, estado onde permaneceu até 2007. A Fraternidade, Palavra e Missão também descreveu à época que “em todos os lugares por onde ele (o sacerdote investigado) passou, sempre houve denúncias e conversas quanto ao comportamento ‘não muito saudável’ do padre”.
Uma fonte de dentro da Igreja Católica, que conhece a trajetória do religioso, mas prefere não se identificar, confirmou ao EM a veracidade do documento e acrescentou que, na época, os assistentes sociais da unidade não levaram o caso à Justiça e optaram por “silenciar” o assunto. “Esses funcionários trabalhavam no Centro Comunitário Infantil de Santa Cruz do Sul, que foi desativado em 2010 e transformado em uma instituição de atendimento a idosos”, informou a fonte.
Além de confirmar a denúncia que foi acobertada, o integrante da Igreja revela haver conhecimento sobre uma “disfunção emocional” do sacerdote. “Ele tem um desvio, uma patologia para abuso de menores. Nunca tivemos casos concretos de abuso, mas sempre se falou em situações de assédio”, explica a fonte, referindo-se a situações de cerceamento de menores, oferta de presentes, abraços muito carinhosos e criação de vínculos emocionais com crianças e adolescentes.
A fonte revelou ainda que o investigado teria comportamento oscilante. “Ele tem reações de intolerância. Já agrediu fisicamente uma voluntária do centro comunitário infantil. Deu um murro nessa pessoa. Quem convive com ele relata que ele alterna o comportamento de coronel e com o de cordeirinho”, disse a fonte. “Já foi orientado a se tratar inúmeras vezes, mas nunca quis”, contou.

Medidas cautelares
Natural de São Leopoldo (RS), o religioso envolvido nas denúncias tem 51 anos e completou 23 de ordenação em 26 de fevereiro. Ele começou a trabalhar em São João da Chapada em 2013. As últimas denúncias vieram à tona em outubro do ano passado. Inicialmente, foram feitas ao Conselho Tutelar e depois encaminhadas ao Ministério Público e à Polícia Civil. As investigações são comandadas pela delegada Kiria Orlandi, que chegou a pedir a prisão preventiva do suspeito, após ouvir várias testemunhas e identificar duas vítimas, uma delas um rapaz de 18 anos, que relatou ter sofrido uma série de abusos sexuais durante os dois últimos anos, além de um adolescente de 13. Durante a apuração, de acordo com uma fonte, há relatos de que o suposto assédio teria sido cometido nas próprias instalações da Igreja Católica e na entidade onde o padre trabalhava.
Com base nas investigações, o juiz Fábio Henrique Vieira, da 2ª Vara da Comarca de Diamantina, determinou uma lista de medidas cautelares a serem cumpridas pelo padre, sendo uma delas a proibição de frequentar o Centro Comunitário Infantil que dirigia e onde morava havia três anos, em São João da Chapada. Também foi impedido de manter contato com as cerca de 100 crianças e adolescentes atendidas pela entidade e de se aproximar de testemunhas.
Há duas semanas, o padre se mudou para a casa paroquial de São João da Chapada, mas teria saído do povoado desde a noite de domingo, após celebrar a missa que comemorou os seus 23 anos de ordenação. Ouvido ontem pelo EM, o advogado Cássio Malta Scuccato, um dos defensores do padre, informou que seu cliente “nega veementemente as acusações”. “Até agora, só foram ouvidas testemunhas de acusação e nenhuma de defesa. A perícia em materiais apreendidos do padre (celular, HD externo e computador) também não foi feita. Estamos aguardando a decisão do inquérito, mas temos a convicção de que ele não será nem mesmo indiciado, pois faltam provas”, disse o advogado. Segundo ele, a denúncia é caluniosa.

O EM fez contato ontem com a Diocese de Diamantina para tratar do assunto, mas a informação é de que o arcebispo dom João Bosco Oliver de Faria estava viajando. Já o superior da Fraternidade, Palavra e Missão – à qual o religioso investigado pertence – padre Cyso Assis Lima, informou que aguarda um posicionamento das autoridades eclesiásticas de Diamantina, a quem primeiro cabe tomar qualquer atitude diante da situação. Fonte: http://www.em.com.br

Em Spotlight vence também jornalismo investigativo


"Sim, parecerá incrível, mas o salto de qualidade na investigação virá somente do estudo e análise de algo oficial e menos leak que se possa imaginar: anuários empoeirados mantidos em arquivo", escreve Maria Antonietta Calabrò, jornalista, em artigo publicado por Formiche, 29-02-2016. A tradução é de Ramiro Mincato.

Eis o artigo.
Sim, é a vingança do jornalismo, o Oscar de melhor filme para "Spotlight, segredos revelados". Diria que se trata do ”velho” jornalismo investigativo. Aquele que não se baseia nos Big Data, ou nos leaks, entregues em pacotes, caixas ou dossiês, por gargantas profundas, mais ou menos interessadas. Todos a respeito de jogos de poder, de cordatas internas à Instituição (neste caso, a Igreja de Boston) objeto da investigação.
Deste ponto de vista, “Spotlight, segredos revelados” é bastante diferente, inclusive do “Todos os homens do Presidente” (apesar de lembrá-lo e de alguma forma ser-lhe assoante), a famosa investigação de Bob Woodward e Carl Bernstein, no Washington Post, que acabou levando à renúncia o Presidente Richard Nixon.
Diria que é a vingança do jornalismo que conta o que está sob os olhos de todo mundo. Um jornalismo que parte da “decisão” de narrar, tomada pelo então diretor do Boston Globe, Martin Baron, um outsider em Boston, não só porque vinha de fora, de outra cidade e de outro jornal, mas também porque não era católico.
As ferramentas de investigação descritas tão bem no filme são verdadeiramente ordinárias. Em nada extraordinárias: entrevistas com os abusados, com os advogados, mas sobretudo, consultas às assim chamadas “fontes abertas” (open source), como o estudo dos Anuários da Igreja Católica.
Sim, parecerá incrível, mas o salto de qualidade na investigação virá somente do estudo e análise de algo oficial e menos leak que se possa imaginar: anuários empoeirados mantidos em arquivo, de cuja consulta emergiu, para os jornalistas, uma “regularidade” estatística, a presença de quase noventa padres, suspensos, retirados por doença ou transferidos de paróquia em paróquia.
Os padres pedófilos que o então Cardeal Bernard Law não expulsou. E por isto teve que “deixar” os Estados Unidos, transferido a Roma em 2002, enquanto seu sucessor, Cardeal Sean O’Malley, não só preside a nova Comissão Pontifícia contra o abuso de menores, mas vendeu muitos imóveis da Diocese para fazer frente ao ressarcimento das vítimas.
O espectador verá também os documentos judiciais que contribuíram para um primeiro avanço significativo da investigação do Boston Globe - obtidos de modo perfeitamente legal: preenchimento de formulário específico, fotocópias à luz do sol.
Eis que, deste ponto de vista, o Spotlight, segredos revelados, é verdadeiramente surpreendente. Mostra a necessidade de trabalho constante, indica a necessidade de investir tempo e recursos, e de corrigir erros. É o responsável do team do Spotlight, que se dá conta que já fizera publicar em crônica um pequeno artigo que continha claramente toda a história. E é ele, um insider, que consegue a confirmação última do “sistema” de cobertura do escândalo de um outro insider, um expoente católico de vulto da cidade, sem a qual o diretor não teria batido o enter para publicação. 
Acrescentaria ainda que o filme é a celebração do jornalismo num País, como os Estados Unidos, onde os jornais não são simplesmente uma instância de compensação do sistema.
Naturalmente, do ponto de vista do conteúdo, o filme é “datado”. A investigação do team do Spotlight, que em 2002 ganhou o prêmio Pulitzer, fotografa uma situação que não é mais a da Igreja americana, que exatamente em 2002 elaborou as linhas guias para combater o fenômeno dos abusos e proteger as crianças. Um bom trecho da estrada percorrida no combate à pedofilia no clero foi levada adiante por Bento XVI. E novos casos da Austrália (onde a Royal Commission está interrogando, desde o dia 29 de fevereiro o Cardeal George Pell) ao Chile, a Honduras, deverão ser enfrentados.

Martin Baron, no entanto, hoje diretor do Washington Post, escreveu nestes dias: “A verdadeira satisfação virá se o filme conseguir ter um grande impacto. Impacto sobre o jornalismo, sedutor e diretores recomeçarão a dedicar-se ao jornalismo investigativo. Impacto sobre os leitores céticos, porque os cidadãos serão estimulados a reconhecer a necessidade de uma séria cobertura local e de fortes instituições jornalísticas. E impacto sobre todos nós, graças a uma maior disponibilidade de escutar as pessoas humildes e muito frequentemente, sem voz”. Fonte: http://www.ihu.unisinos.br