Total de visualizações de página

Seguidores

A Palavra do Frei Petrônio

Loading...

sexta-feira, 23 de dezembro de 2016

“O clericalismo instrumentaliza a lei e tiraniza o povo”.

O mal do clericalismo, presente nos tempos de Jesus e ainda hoje na Igreja, é uma “prepotência e tirania” para com o povo fiel de Deus por parte dos sumos sacerdotes que, esquecendo-se de Abraão e de Moisés, instrumentalizaram a lei criando uma lei “intelectualista, sofisticada e casuística”. Disse-o o Papa Francisco na homilia que fez no dia 13 de dezembro, durante a missa matutina na Capela da Residência Santa Marta. Francisco destacou também que “o pobre Judas traidor e arrependido não foi acolhido pelos pastores”. A reportagem é de Iacopo Scaramuzzi e publicada por Vatican Insider, 13-12-2016. A tradução é de André Langer.
O povo humilde e pobre que tem fé no Senhor é a vítima dos “intelectuais da religião”, “os seduzidos pelo clericalismo”, que no Reino dos céus serão precedidos pelos pecadores arrependidos, disse o Pontífice argentino, segundo indicou a Rádio Vaticano.
Refletindo sobre o Evangelho do dia, no qual Jesus recordou qual era o papel destes últimos: “Eles tinham a autoridade jurídica, moral e religiosa”, “decidiam tudo”. Anás e Caifás, por exemplo, “julgaram Jesus”, eram os sacerdotes e os chefes que “decidiram matar Lázaro”, e Judas foi vê-los para “negociar” e assim “vendeu Jesus”. Um estado de “prepotência e tiraria para com o povo” ao qual chegaram, disse o Papa, instrumentalizando a lei: “Mas uma lei que eles refizeram inúmeras vezes: tantas vezes até chegar a 500 mandamentos. Tudo estava regulado, tudo! Uma lei cientificamente construída, porque essa gente era sábia, conhecia bem. Faziam todos estes matizes, não? Mas era uma lei sem memória: tinham se esquecido do primeiro mandamento, que Deus deu ao nosso pai Abraão: ‘Caminha na minha presença e seja irrepreensível’. Eles não caminhavam: sempre permaneceram nas próprias convicções. E não eram irrepreensíveis!” Eles, continuou o Papa, “tinham se esquecido dos Dez Mandamentos de Moisés”: “Com a lei feita por eles”, “intelectualista, sofisticada e casuística”, “anularam a lei feita pelo Senhor”; falta-lhes a memória “que conecta o hoje com a Revelação”.
Sua vítima, assim como foi Jesus, é o “povo humilde e pobre que confia no Senhor”, “aqueles que são descartados”, destacou o Papa, que conhece o arrependimento, embora não cumpra a lei, mas sofre estas injustiças. Sentem-se “condenados e abusados”, destacou Francisco, por quem é “vaidoso, orgulhoso, soberbo”.
E um “descarte dessas pessoas”, observou o Papa, também foi Judas: “Judas foi um traidor, pecou muito gravemente, eh? Pecou forte. Mas depois o Evangelho diz: “Arrependido, foi até eles para devolver as moedas”. E eles, o que fizeram? Mas você era o nosso sócio. Fica tranquilo… Nós temos o poder de perdoar tudo!’ Não! ‘Se vira. É um problema seu’. E o deixaram sozinho: descartado! O pobre Judas traidor e arrependido não foi acolhido pelos pastores. Porque eles haviam esquecido o que é ser um pastor. Eram os intelectuais da religião, aqueles que tinham o poder, que levavam adiante as catequeses do povo com uma moral feita pela sua inteligência e não a partir da revelação de Deus”.
“Um povo humilde, descartado e machucado por essas pessoas”. Também hoje, observou Francisco, na Igreja essas coisas acontecem. “Existe este espírito de clericalismo”, disse o Papa: “Os clérigos se sentem superiores, afastam-se das pessoas”, “não têm tempo para escutar os pobres, os sofredores, os encarcerados, os doentes”. “O mal do clericalismo é uma coisa muito triste! É uma nova edição desta gente. E a vítima é a mesma: o povo pobre e humilde, que tem esperança no Senhor. O Pai sempre procurou se aproximar de nós: enviou o seu Filho. Estamos esperando, uma espera alegre e exultante. Mas o Filho não entrou no jogo desta gente: o Filho foi com os doentes, os pobres, os descartados, os publicanos, os pecadores (e é escandaloso isso…), as prostitutas. Também hoje Jesus diz a todos nós e também a quem está seduzido pelo clericalismo: ‘Os pecadores e as prostitutas precederão vocês no Reino dos Céus’”.

Na missa dessa manhã na capela da Residência Santa Marta participaram os nove cardeais que auxiliam o Papa na reforma da cúria e no governo da Igreja universal, o chamado C9. Eles estão reunidos na 17ª reunião, que começou na segunda-feira e termina hoje, quarta-feira, com o Pontífice. Fonte: http://www.ihu.unisinos.br

Dom Fernando Arêas Rifan
Bispo da Administração Apostólica Pessoal São João Maria Vianney 

“Transcorridos muitos séculos desde que Deus criou o mundo e fez o homem  à sua imagem; - séculos depois de haver cessado o dilúvio, quando o Altíssimo fez resplandecer o arco-íris, sinal de aliança e de paz; - vinte e um séculos depois do nascimento de Abraão, nosso pai; - treze séculos depois da saída de Israel do Egito, sob a guia de Moisés; - cerca de mil anos depois da unção de Davi, como rei de Israel; - na septuagésima quinta semana da profecia de Daniel; - na nonagésima quarta Olimpíada de Atenas; - no ano 752 da fundação de Roma; - no ano 538 do edito de Ciro, autorizando a volta do exílio e a reconstrução de Jerusalém; - no quadragésimo segundo ano do império de César Otaviano Augusto, enquanto reinava a paz sobre a terra, na sexta idade do mundo: JESUS CRISTO DEUS ETERNO E FILHO DO ETERNO PAI, querendo santificar o mundo com a sua vinda, foi concebido por obra do Espírito Santo e se fez homem; transcorridos nove meses, nasceu da Virgem Maria, em Belém de Judá. Eis o Natal de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo a natureza humana. Venham, adoremos o Salvador! Ele é Emanuel, Deus Conosco”. Este é o solene anúncio oficial do Natal, feito pela Igreja na primeira Missa da noite de Natal!
O Natal é a primeira festa litúrgica, o recomeçar do ano religioso, como a nos ensinar que tudo recomeçou ali. O nascimento de Jesus foi o princípio da revelação do grande mistério da Redenção que começava a se realizar e já tinha começado na concepção virginal de Jesus, o novo Adão. Deus queria que o seu projeto para a humanidade fosse reformulado num novo Adão, já que o primeiro Adão havia falhado por não querer se submeter ao seu Senhor, desejando ser o senhor de si mesmo e juiz do bem e do mal. Assim, Deus enviou ao mundo o seu próprio Filho, o Verbo eterno, por quem e com quem havia criado todas as coisas. Esse Verbo se fez carne, incarnou-se no puríssimo seio da Virgem, por obra do Espírito Santo, e começou a ser um de nós, nosso irmão, Jesus. Veio ensinar ao homem como ser servo de Deus. Por isso, sendo Deus, fez-se em tudo semelhante a nós, para que tivéssemos um modelo bem próximo de nós e ao nosso alcance. Jesus é Deus entre nós, o “Emanuel – Deus conosco”, a face da misericórdia do Pai. 
São Francisco de Assis inventou o presépio, a representação iconográfica do nascimento de Jesus, para que refletíssemos nas grandes lições desse maior acontecimento da história da humanidade, seu marco divisor, fonte de inspiração para pintores e místicos.
Que tal se fizéssemos um Natal contínuo, pensando mais no divino Salvador, na sua doutrina, no seu amor, nas virtudes que nos ensinou, unindo-nos mais a ele pela oração e encontro pessoal com ele, imitando o seu exemplo, praticando as obras de misericórdia, convivendo melhor com nossa família...
Desse modo a mensagem do Natal vai continuar durante todo o Ano Novo, que assim será abençoado e feliz. FELIZ NATAL E ABENÇOADO ANO NOVO!

quinta-feira, 22 de dezembro de 2016

A Ilusão da Vida Conventual.

Frei Petrônio de Miranda, Padre Carmelita e Jornalista, Rio de Janeiro.
Comunidade Capim, Lagoa da Canoa-AL. 21 de dezembro-2016. 

            Intrigas, fofocas, brigas pelo poder, indiferença religiosa, falsidade... Se estou falando da operação Lava- Jato? Se estou falando da vida em favela? Se estou falando da vida de penitenciárias? Não, não! Refiro-me o “outro lado” da vida conventual e suas mazelas que, muitas vezes, arranca e mata a inocência de jovens que, após vivenciar uma fé pura em suas paróquias, Dioceses e Arquidioceses, caem em verdadeiros ninhos de cobras “sagradas” e são devorados transformando-os em funcionários do sagrado, mamulengos ou em verdadeiros cavaleiros das cruzadas em defesa de uma vida religiosa ultrapassada e conservadora baseada em rendas, fumaça e, o que mais grave, alienando-os contra uma Igreja inovadora, misericordiosa e humana do nosso querido pastor, o Papa Francisco. Para compreender o nosso olhar, vamos conhecer a vocação do jovem Pedro.
            Pedro era da PJ- Pastoral da Juventude. Em sua ação Missionária e Pastoral não tinha medo de gritar em alto e bom som que amava os discursos de Chico- O Papa. Via no seu sorriso, no abraço aos pobres e nas suas ações humanitárias e misericordiosa a presença amorosa do próprio de Jesus Cristo. Ele tinha orgulho de pertencer a uma Igreja que desce nos becos, vielas, favelas e na área rural em defesa dos menos favorecidos.
O jovem Pedro não se cansava de fazer campanhas em favor dos pobres, participava de ações contra a violência, animava o grupo Fé e Política além de ser um ardoroso defensor da sustentabilidade. Foi nesse fervor missionário que não teve dúvidas, tinha que optar por uma congregação ou Ordem Religiosa. Nas suas buscas no google e conversas pessoais com o seu pároco, encontrou várias propostas vocacionais que o fascinaram! Viu jovens alegres em vídeos, folhetos e folders vocacionais. Ah! Ah! É o céu na terra... Pensou o inocente vocacionado.
Depois de várias conversas com o animador vocacional e participar de vários encontros para decernir se de fato era mesmo a sua vocação, decidiu! Vou para o convento! Deixou para trás uma família que o amava e uma comunidade comprometida com o Evangelho, acolhedora, fraterna e humana.
Nos primeiros meses viu seu sonho se tornar realidade. Tudo parecia perfeito até aquele jovem, nos seus 23 anos, começar a se destacar enquanto liderança nata. Ele falava, questionava, pensava diferente e, muitas vezes, conseguia adeptos na sua empreitada por uma vida conventual mais comprometida seguindo as origens da própria ordem religiosa que o escolheram e da história da Igreja do Brasil.
O jovem inovador percebeu que os vídeos e folders não passavam de uma propaganda enganosa e, o que é mais grave, via claramente uma volta à idade média daquele grupo ultraconservador. Os ritos, as rendas, o incenso, o hábito e as orações repetidas e vazias substituíam a simplicidade e o sorriso alegre da Igreja que tinha conhecida, seguia e servia na sua comunidade.
Pedro se viu em um mundo religioso desconhecido. O olho por olho da lei do talião do antigo testamento (Levítico 24,10-23), parecia ter voltado; As mentiras da historia da família de José no Egito (Gn 37, 12-36), era uma realidade viva naquele convento; a traição de Judas naquela noite histórica da Paixão do Filho de Deus (Mt 26, 57-68), era algo natural nos corredores conventuais; A cena de Jesus pedindo para atirar a primeira pedra quem não tivesse pecado ( Jo 8, 1-11) repetia-se todos os dias.
Em sua angustia, a exemplo do Profeta Elias, ele caiu por terra e pediu a morte. (1º Reis 19, 4-8). Chega! Gritou o pobre e inocente Pedro! Em suas dúvidas e questionamentos daquele estilo religioso foi obrigado a protestar, gritar e, obvio, o apedrejaram. “Você não tem vocação”! Afirmava um. “Você pensa que vamos salvar o mundo”? Dizia outro.
O entusiasmado jovem da PJ se viu obrigado a seguir a hipocrisia conventual se quisesse sobreviver vocacionalmente. O seu objetivo era ser Frade e Padre no seguimento fiel a Jesus Cristo comprometido com os pobres mais pobres, mas para tanto, tinha que mentir, silenciar e, muitas vezes, aderir a uma caminhada descomprometida com o Concilio Vaticano Segundo e com as Conferências Episcopais Latino Americanas. (CELAM-Conselho Episcopal Latino-Americano. Rio de Janeiro (1955); II- Conferência de Medellín (1968); III- Conferência Episcopal de Puebla (1979); IV-Conferência de Domingo (1992); V- Conferência de Aparecida ( 2007).
Nessa via-crucis silenciou, obedeceu e foi elogiado pelo formador pela sua “Paciência” e “Obediência Evangélica”. Pobre formador! Não sabia ele que jamais, e sob-hipótese alguma, o jovem Pedro concordava com aquele estilo conventual hipócrita, farisaico, vazio e descomprometido com o autêntico Evangelho de Jesus Cristo e com as diretrizes da CNBB.

OLHAR CRÍTICO.
1º-Essa história “fictícia” dedico aos diversos pedros que, na busca vocacional autêntica, foram barrados em Conventos, Mosteiros, Seminários e Comunidades de vida simplesmente porque ousaram pensar e seguir os passos de Jesus Cristo. (Mt. 4, 18- 22).
2º-Também dedico este olhar para aqueles que foram mais além e conseguiram fingir, mentir e sorrir na cara de formadores e superiores sepulcros caiados. (Mt 23, 27-32). 
3º-Mais, sobretudo, dedico o meu olhar crítico para os Pedros que não negaram a sua história e hoje são Padres, Bispos e Cardeais, provando assim a verdadeira vocação e o verdadeiro seguimento a Jesus Cristo vivo e ressuscitado na caminha do povo de Deus. (Mt 28, 16-20). E tenho tido!   
(VEJA UM VÍDEO SOBRE O TEMA. CLIQUE AQUI: https://youtu.be/7XTjZ-Pt6dE)

           

Papa Francisco enfrenta ‘guerra civil’ na igreja católica

A decisão do Papa Francisco de retomar a opção preferencial pelos pobres e dar uma guinada na conduta da Igreja Católica transformou os cardeais ultraconservadores da instituição em combatentes aguerridos do argentino.

Herdeiro dos papados de João Paulo II (1978-2005) e Bento XVI (2005-2013), o jesuíta Francisco enfrenta a fúria da Cúria conservadora, contrária às suas reformas.
A reportagem é de Mauro Lopes e Sérgio Kraselis, publicada por Calle2, 17-12-2016.
Nos corredores do Vaticano, altos funcionários chamam Francisco à boca pequena de “esse argentinozinho”. Se, num primeiro momento, o novo Papa enfrentou uma oposição silenciosa, hoje ela está escancarada. A batalha explodiu em setembro de 2016 com a carta divulgada por quatro cardeais, definida como verdadeira “guerra civil” pelo jornalista italiano Marco Politi, do jornal Il Fatto e um dos mais respeitados vaticanistas.
Francisco quer reformas e as reformas tendem a mexer nas estruturas. É óbvio que quem é favorecido pela estrutura não quer mudança', analisa Cesar Kuzma, um dos mais expressivos teólogos católicos brasileiros da nova geração.
Para guerrear contra Francisco, os conservadores escolheram as questões de fundo moral, aproveitando-se da onda reacionária que varre o planeta. A escalada começou em 2014, tomou impulso no segundo semestre de 2015 e agora está em seu momento-auge.
Dois momentos deste combate foram um livro lançado por cinco cardeais afirmando que o segundo casamento equivaleria a adultério, para a doutrina cristã, e um abaixo-assinado endereçado ao Papa com quase 800 mil assinaturas de católicos, entre eles 100 bispos, em defesa da família.
Para termos uma ideia do que Francisco enfrenta é preciso retroceder na história. Ao ser apresentado ao mundo, o novo Papa surgiu no balcão do Vaticano vestido de branco, sem ouro algum. Num gesto inédito, curvou-se diante da multidão que ocupava a Praça São Pedro e pediu que as pessoas rezassem por ele. Com isso, rompeu uma tradição secular que se construiu em torno da figura do Papa desde a Idade Média, abalada com João XXIII no Concílio Vaticano II, há 50 anos, e que foi reconstruída por seus dois antecessores. Um Papa humilde, sem ornamentos e vestes pomposas.
Com a chegada de Francisco, voltaram à tona ideais concebidos no Concílio Vaticano II, cujo ápice foi a Teologia da Libertação na América Latina, combatida ferozmente pelos conservadores da Cúria.
O confronto atual chega a ponto de cardeais e teólogos conservadores armarem oposição cerrada a todas as ideias de atualização dos conceitos da Igreja em relação à família propostas por Francisco, chamando-as de “heréticas”. Numa entrevista, o cardeal norte-americano Raymond L. Burke, que tem buscado se apresentar como líder da oposição, afirmou que seu grupo poderá decretar “um ato formal de correção de um erro grave” contra o Papa, se ele não ceder às exigências. Francisco respondeu dizendo que as críticas “não são honestas” e foram feitas “com espírito mau para fomentar a divisão”.
A pressão dos conservadores não tem paralisado Francisco. No encerramento do Jubileu da Misericórdia (um Ano Santo proclamado por ele entre outubro de 2015 e novembro último), o Papa operou uma significativa mudança na posição da Igreja quanto ao aborto, extinguindo a pena de excomunhão às mulheres que o realizam e permitindo que os padres concedam o perdão a este pecado.
O foco dos conservadores nas questões de fundo “moral” permanece, apesar da enorme fragilidade do discurso da Cúria e de dezenas de bispos e cardeais que nos últimos anos acobertaram os milhares de casos de abusos sexuais cometidos por religiosos contra crianças e jovens ao redor do planeta.
Um dos líderes do bloco conservador, o cardeal George Pell, prefeito da Secretaria de Economia do Vaticano, é alvo de um processo no qual é pesadamente acusado de encobrir casos de pedofilia na Austrália durante os anos 1970 e 1980 e, mais recentemente, de ele próprio estar envolvido em casos de abusos.
Há outros dois temas em disputa neste momento: a liturgia, especialmente o rito da missa, e a relação da Igreja com o planeta, a sociedade, os seres humanos e muito particularmente com os pobres.
Os conservadores defendem a restauração do rito tridentino da missa – onde havia um único celebrante que rezava de costas para as pessoas, em latim, pois a missa era “do padre”. Pode parecer incrível, mas os conservadores querem mesmo que este “modelo” de ritual seja restaurado. O Papa tem reduzido o espaço do arquiconservador cardeal Robert Sarah, prefeito da Congregação para o Culto Divino.
A questão da relação da Igreja com o mundo, a humanidade e especialmente os pobres é o terceiro polo da disputa. Os pobres são o centro da Igreja, tem anunciado Franciscodesde os primeiros dias de seu Papado. Ele promoveu três edições do Encontro Mundial dos Movimentos Populares (no Vaticano, em 2014 e em 2016, e na Bolívia, em 2015) e tem criticado de maneira cada vez intensa o capitalismo.
No encerramento da terceira edição de encontro, em 5 de novembro, ele disse que o mundo está dividido entre “um projeto-ponte dos povos contra o projeto-muro do dinheiro” e defendeu “a destinação universal dos bens”, além de denunciar a “internacional do dinheiro”.
Em 27 de novembro, Francisco avançou no tema dos pobres para dentro da Igreja ao questionar 800 gestores financeiros participantes do Simpósio sobre Economia da Congregação, em Roma: “A hipocrisia dos consagrados que vivem como ricos fere a consciência dos fiéis e prejudica a Igreja”. Francisco alertou que a gestão destas organizações (e de toda a Igreja) deve “escutar o sussurro de Deus e o grito dos pobres, dos pobres de sempre e dos novos pobres”. Os conservadores têm urticária quando escutam ou leem essas palavras do Papa e acusam-no (por enquanto nos bastidores) de “ressuscitar a Teologia da Libertação”.
O equilíbrio de forças no interior da Igreja, fortemente impactado pela onda conservadora dos últimos 35 anos, parece manter Francisco em relativo isolamento na cúpula católica. Num discurso sem precedentes diante da Cúria romana em um tradicional encontro de Natal, em 22 de dezembro de 2014, ele investiu frontalmente contra o espírito da hierarquia diante de cardeais e bispos entre constrangidos e indignados. Nele, apontou o que chamou de “as 15 enfermidades” da Cúria, entre elas a de “perder a capacidade de chorar com os que choram e se alegrar com os que se alegram. É a enfermidade dos que perdem os ‘sentimentos de Jesus’, porque o seu coração, com o passar do tempo, endurece-se e torna-se incapaz de amar incondicionalmente o Pai e o próximo”.
De lá para cá, alguma água passou por debaixo da ponte e, segundo seus aliados e alguns vaticanistas, Francisco está, aos poucos, modificando o perfil da Igreja. É o que diz dom Cláudio Hummes, o cardeal brasileiro que se tornou conhecido mundialmente pelo fato de, estando ao lado do Papa no exato momento de sua eleição, cumprimentá-lo sussurrando em seu ouvido uma frase que inspirou Bergoglio a escolher o nome de Francisco: “Não se esqueça dos pobres”.
Hummes assegura que a imensa maioria dos cardeais está ao lado do Papa: “Sem querer relativizar este fato, são quatro cardeais. E na Igreja somos mais de 200. Sem querer relativizar demasiadamente, são quatro de um grupo enorme que está dando todo o seu apoio ao Papa”.
Francisco tem atacado com contundência o clericalismo (a doutrina que estrutura e organiza em boa medida o pensamento conservador na Igreja) e seguidamente compara os clérigos católicos (padres, bispos e cardeais) e leigos poderosos nas estruturas eclesiais aos chefes religiosos que perseguiram Jesus até sua morte.
O combate ao clericalismo está na origem do atual papado: foi o centro do discurso do então cardeal Bergoglio no colégio de cardeais reunidos para a sucessão de Bento XVI, em 7 de março de 2013, seis dias antes de ser escolhido, e é considerado decisivo para sua eleição. A contundência de Francisco é resultante de um mandato que recebeu de seus eleitores, o que tornam arriscadas quaisquer previsões sobre o equilíbrio de poder na Igreja.
Os movimentos no tabuleiro da Igreja estão sendo pensados de olho no próximo Papa, pois Francisco, aos 80 anos, não terá tempo para concluir suas reformas. Ele sabe disso e está redesenhando o colégio eleitoral do próximo Papa com frieza e tirocínio típicos dos jesuítas. Para o teólogo brasileiro César Kuzma, Francisco “não joga no escuro e nem mesmo faz apostas para ver onde vai dar, ao contrário, ele sabe o que quer e sabe o que deve buscar. Ele também sabe que não terá um Pontificado longo e que não terá como resolver e mudar tudo.”
Por isso, ao nomear 13 cardeais com direito a voto (menos de 80 anos de idade) em 19 de novembro, ele é responsável por 1/3 do total de indicações do colégio de cardeais com direito a voto neste momento (44 de um total de 121). Em três rodadas de nomeações desde 2013, o Papa já conseguiu um feito memorável na história da Igreja: acabou com a maioria europeia. São agora 54 cardeais do Velho Continente contra 67 do resto do mundo. Espera-se mais uma ou duas rodadas de nomeações à frente. Com isso, o cálculo e a esperança dos conservadores para o próximo Papa pode estar em risco, o que explica a radicalização da luta no interior da Igreja nas últimas semanas, com este caráter de “guerra civil”.

A batalha no Brasil

A nomeação em massa de bispos conservadores por João Paulo II e Bento XVImodificou profundamente o perfil da Igreja no país. Se, mesmo nos anos 1970-80, quando a Igreja era protagonista das causas populares no país, a hierarquia apresentava-se dividida, na virada do século os conservadores passaram à ofensiva.
Hoje, dois dos expoentes do conservadorismo são os arcebispos de São Paulo, dom Odilo Pedro Scherer, exatamente o candidato que procurou contrapor-se a Bergoglio, e o do Rio de Janeiro, dom Orani Tempesta.
Ambos lideraram a visita de uma comitiva de bispos a Michel Temer em 10 de novembro a pretexto de uma audiência sobre a Rede Vida (emissora de TV católica) mas que se tornou um ato de apoio à PEC do teto dos gastos e de bênção ao governo, exatamente no dia da primeira votação da proposta que congelou os gastos sociais no país.
O Rio tornou-se uma espécie de quartel-general do segmento mais radicalizado da direita eclesial, que se expressou com virulência durante o segundo turno da eleição municipal na capital do Estado. Padres e membros da Cúria chegaram a ameaçar de “excomunhão” os católicos que faziam campanha por Marcelo Freixo, do PSOL.
A Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), que se manteve calada desde 2013, evitando confrontos com os conservadores, começou a se mover na direção de Francisco nos últimos meses: divulgou notas duras contra a PEC que corta os gastos sociais e a reforma do ensino médio. Seu presidente, dom Sérgio da Rocha, arcebispo de Brasília, foi nomeado cardeal pelo Papa em 19 de novembro.
Segundo o bispo belga dom André De Witte, vice-presidente da Comissão Pastoral da Terra, a hierarquia no Brasil está “silenciosa, mas não afastada” em relação ao Papa, que apoia as pastorais sociais e movimentos de base. O bispo belga, no Brasil há 40 anos, afirma que há de fato um novo modelo na administração da Igreja, uma mudança de paradigma que apenas a Teologia da Libertação tinha ousado antes de Francisco, porque implica que os líderes eclesiásticos (dos padres aos bispos, cardeais e até o Papa) abram mão de seus poderes e assumam uma relação direta com os católicos e católicas. Os cristãos católicos no Brasil e no mundo finalmente são convidados pela Igreja, no Papado de Francisco, a ingressarem na idade adulta.

FREI MARCELO AQUINO: Ordenação.

FREI REINALDO PARAÍSO: Ordenação.

A PALAVRA... Nº 1047. A Ilusão da Vida Conventual e Seminarística.

segunda-feira, 12 de dezembro de 2016

PENSAR NÃO OFENDE: Mensagem de Natal.

14 DE DEZEMBRO: São João da Cruz.

3º DOMINGO DO ADVENTO: Sinais de Esperança e Alegria.

Padres em perigo, entre vulnerabilidade e fraternidade.

Para todos os cristãos, e particularmente para os padres, a fé é um eixo dessa existência que deve permitir manter unidas as múltiplas facetas do próprio destino, entre o "fazer", que muitas vezes os submerge nas missões institucionais, e o "estar com", que dá à própria aventura espiritual toda a sua cor e a sua densidade.
A análise é da terapeuta francesa Marie-Françoise Bonicet, professora-pesquisadora de psicologia social clínica e autora de Entre mémoire et avenir. Essai sul la transmission (Palio, 2010) e Dépendance, quand tu nous tiens (com D. Martz e M. Billé, Erès, 2014). O artigo foi publicado no jornal francês La Croix, 12-04-2014. A tradução é de Moisés Sbardelotto.
Eis o texto.
Um recente e dramático suicídio de um padre convida à reflexão. Felizmente, trata-se de um fato muito raro, e é legítimo que desperte uma emoção forte, mas que corre o risco de nos fazer esquecer outras formas de autoculpabilização dos padres, que precisam de igual vigilância e solicitude.
Naquele drama, são dois os aspectos que me abalaram particularmente: o colapso psíquico daquele homem, a poucos dias do Natal, festa da Esperança, duplamente violento, para si e para aqueles que estavam ao seu lado. O outro é um grito de ajuda de um padre de Bourges, no oceano de solidão do Facebook, que já seria o lugar distante do encontro com o nosso próximo.
A minha experiência profissional de professora-pesquisadora e de terapeuta me levou a dar cursos de formação de vários anos para seminaristas, a acompanhar padres em períodos de fragilidade e de assumir compromissos em estruturas eclesiais. Como pesquisadora e médica, analisei o problema da exaustão profissional, particularmente nas profissões "vocacionais", em que, à carga efetiva de trabalho, soma-se o sentimento de culpa de não poder corresponder à missão prescrita ou que se imaginava poder desenvolver.
Não é em primeiro lugar a sobrecarga profissional que põe em perigo, mesmo que a exaustão nos torne vulneráveis. Ao invés, é muito mais a diferença entre uma imagem de si desvalorizada e um ideal do eu opressor, ou entre a representação do ideal e a da realidade. Atribuir aquele ato desesperado apenas à sobrecarga de trabalho seria redutivo.
Como profissional no acompanhamento de pessoas, encontrei-me fazendo perguntas sobre a violência da passagem ao ato suicida, independentemente do resultado das tentativas. A decisão de se matar continua sendo um enigma e um mistério trágico. A maioria das pessoas afetadas pelo desemprego, por um luto, por uma separação, por fortes pressões na vida de trabalho, por dispersões em relação a compromissos assumidos, pela depressão, não ultrapassam aquela linha vermelha.
Felizmente. Esse drama ocorrido dentro da Santa Mãe Igreja e outro, aparentemente evitado, em Bourges nos convidam a uma responsabilidade criativa em vez de um sentimento de culpa estéril. Para aqueles que tomam decisões e para as equipes, deve ser uma oportunidade para rever o contexto da missão de uns e de outros, e para reencontrar o essencial. Algumas pistas: tentar descobrir as fragilidades desde o período de formação, ou para orientar para um apoio psicológico, ou para uma reorientação da vida, ou mesmo para pensar em um ministério pessoal que corresponda às atitudes, aos talentos e aos limites dos indivíduos, e não só às necessidades das estruturas.
Um apoio durante o curso da vida. Muitos padres estão ligados a grupos de reflexão, mas, em geral, de tipo mais espiritual que visam a compartilhar as dificuldades humanas. Um apoio também é necessário através da formação continuada, para enfrentar as situações novas e adquirir instrumentos para facilitar as tarefas de organização ou de gestão dos grupos.
Um apoio externo específico, se possível fora das pessoas de referência envolvidas demais no funcionamento da diocese, a pedido do padre, por sugestão amigável ou... decidido pelo seu bispo.
Sair da solidão ou do isolamento.
A sensação de solidão não deve ser confundida com o isolamento. E, acima de tudo, existencial, inerente à condição humana e muito subjetivo. Uma ativação da atenção "ordinária", entre solidariedade e fraternidade, na reciprocidade entre padres vizinhos ou amigos, continua sendo um precioso apoio para todos, seja para romper o isolamento, seja para dominar aquele sentimento de solidão com a ajuda de proximidades "normais", no cotidiano, na partilha com pares ou amigos, das dificuldades e das fragilidade diante das situações encontradas.
Não parece oportuno "profissionalizar" sistematicamente o apoio nas provações da vida, porque a maioria dos problemas da existência são tratados pela existência. Para todos os cristãos, e particularmente para os padres, a fé é um eixo dessa existência que deve permitir manter unidas as múltiplas facetas do próprio destino, entre o "fazer", que muitas vezes os submerge nas missões institucionais, e o "estar com", que dá à própria aventura espiritual toda a sua cor e a sua densidade.
Sempre haverá seres que permanecerão surdos à certeza de que há para eles uma alegria possível "por trás do muro da noite", como afirmava Jean Sulivan por experiência. Isso não nos exime, como responsáveis ou como pessoas da base, de ter uma atenção fraterna, para que aquele que é objeto disso possa exercer o ministério incomparável do presbiterado apesar das rachaduras da vida, na plenitude da própria humanidade. Fonte: http://www.ihu.unisinos.br

Padre irlandês adverte sobre depressão entre clérigos sobrecarregados de trabalho.

A carga de trabalho crescente dos padres irlandeses está ameaçando transformar este grupo envelhecido, desmoralizado e em declínio em “máquinas de distribuição de sacramentos”, que consideram o trabalho pastoral cada vez menos satisfatório, advertiu um dos fundadores de uma associação irlandesa de padres. A reportagem é de Sarah Mac Donald, publicada por National Catholic Reporter, 01-12-2016. A tradução é de Isaque Gomes Correa.
Em seu discurso à assembleia geral anual da associação em Athlone, no dia 16 de novembro, o Pe. Brendan Hoban destacou como a prática do suicídio está em ascensão entre os sacerdotes irlandeses – grupo que, segundo ele, está também cada vez mais propenso à depressão.
Com a grande maioria dos sacerdotes irlandeses com 70 anos de idade ou mais, os padres diocesanos idosos vivem vidas cada vez mais isoladas e solitárias e são constantemente lembrados de que “nós já não importamos, que hoje somos, na melhor das hipóteses, um pouco mais do que uma presença cerimonial nas margens da vida”, disse ele.
O pároco de 68 anos disse que, embora “nos sintamos tendo dado o nosso melhor para levar a boa nova”, uma “avalanche de críticas na imprensa” fez com que eles fossem “ritualmente apresentados como pessoas más, controladoras, opressoras, limitadoras, obsessivas”.
Mais de 150 dos 1.000 padres membros que a Associação dos Padres (Association of Catholic Priests – ACP) representa ouviram Hoban explicar como a “implosão da nossa Igreja”, na esteira dos escândalos de abuso, os fizeram perceber que são, nas palavras do padre autor Donald Cozzens, “os últimos padres na Irlanda”.
Estatísticas assustadoras foram citadas pelo palestrante, tais como a situação de duas “dioceses muito prestigiadas na Irlanda, a de Dublin e a de Killala”, em que em cada uma delas temos apenas um padre diocesano com menos de 40 anos de idade. Em 20 anos, ambas as dioceses terão um, ou talvez uns poucos, padres com menos de 60 anos para dar conta de 199 paróquias em Dublin e 22 paróquias rurais na região de Killala.
Reconhecendo que o sacerdócio diocesano na Irlanda é “uma tribo perdida”, Hoban disse que eles precisam encontrar uma voz e coragem para enunciar esta verdade.
“Na qualidade de os últimos sacerdotes na Irlanda, temos o direito à consideração, ao reconhecimento, ao apoio, incentivo e, sobretudo, respeito”, continou Hoban. “Os padres que têm servido à Igreja por tanto tempo merecem nada menos do que isso, e é chegada a hora de começar um diálogo sobre o assunto”.
Ao recordar os anos depois de sua ordenação em 1973, Hoban falou que as igrejas lotavam, havia muitos padres, paroquianos apoiadores, e a Igreja era uma “presença confidente, respeitada e influente na sociedade irlandesa”.
Hoje, entre essa coorte de clérigos envelhecidos existe uma “sensação crescente quase de desespero quando percebemos o quão pouco de cuidado, estima e afeto pode haver em nossas vidas”, observou.
Ele também destacou como muitos padres estão lutando, no nível pastoral, com questões que vão além de sua formação e competência, como ministrar a pais de casais homoafetivos, responder a um convite para um casamento gay e o que significa um acompanhamento pastoral nessas situações.
Autor de livros como “Where Do We Go From Here? The Crisis in Irish Catholicism”, Hoban alertou que o nível de desconfiança entre os padres e bispos na Irlanda é tal que um acúmulo de ressentimento e raiva está cada vez mais evidente em algumas dioceses onde uns bispos estão usando o cargo para “forçar sua autoridade pessoal sobre os sacerdotes”.
A Associação dos Padres está em seu sexto ano de existência e já propôs várias vezes se reunir com os bispos irlandeses. Em maio passado, realizou-se o primeiro encontro oficial entre os representantes dos bispos e a direção da associação. Embora recentemente Dom Ray Browne, do condado de Kerry, escreveu à associação sobre as questões levantadas durante a reunião, de acordo com o padre censurado Tony Flannery, a carta era “claramente uma crítica encoberta à Associação”, na medida em que os bispos indicaram que continuariam a dialogar com os presidentes dos conselhos sacerdotais, mas não com a associação.
Flannery também criticou a carta de Browne por reduzir “o acompanhamento dos sacerdotes” a uma questão de “salvaguarda”.
“Será que eles não conseguem ver que a situação dos padres irlandeses é dramática e urgente?”, perguntou. Essa sua opinião é corroborada por Hoban, que alega que o fardo dos padres no país fica complicado com os bispos que desejam manipular o clero idoso postergando a aposentadora deles para além dos 75 anos.
A desconfiança entre os padres que atuam na base e as lideranças da Igreja irlandesa fica “exacerbada”, segundo Hoban, pela escolha das normas almejadas pelo núncio apostólico atual, Dom Charles Brown, que vêm resultado em escolhas “infelizes” e, às vezes, “bizarras” de bispos.
A política dos bispos, de automaticamente relatar às autoridades policiais qualquer acusação anônima de abuso infantil contra padres, foi redondamente condenada pelo líder da Associação dos Padres, que disse que a prática seria “impensável” e contaria com grande resistência se aplicada a professores, advogados, policiais ou qualquer outro grupo profissional.
“A reputação e a paz de espírito dos padres, me parece agora, podem ficar prejudicadas para sempre por alguém com uma queixa, um documento e um carimbo”, advertiu Hoban.
Em entrevista a uma rede de televisão nacional da Irlanda logo depois da reunião com representantes da associação, Brown, o núncio apostólico para a Irlanda, falou sobre a extensão do distanciamento da fé entre o povo irlandês.
Ele admitiu a Gay Byrne, apresentador do programa The Meaning of Life, que a “queda no número de vocações – especialmente para o sacerdócio – é um desafio enorme”.
No entanto, segundo ele o número de padres trabalhando hoje no país é “quase suficiente para as nossas necessidades”, embora muitos destes sacerdotes, reconheceu o entrevistado, estão na casa dos 70 anos.
“Portanto, em dez anos estaremos olhando para uma situação completamente diferente aqui”, disse ele acrescentando que “[a escassez sacerdotal] é um problema prático grande”.
Mas ele igualmente sublinhou que, em termos globais, desde o ano 2000 o número de padres no mundo está aumentando. “A cada ano temos mais e mais. Na Irlanda ou na França, não. Mas no geral, sim. Portanto, penso que precisamos reconhecer que um elemento nessa questão vai ser padres não irlandeses vindo para trabalhar no país”.
Sobre o tema do celibato obrigatório, Brown, natural de Nova York, defendeu o entendimento católico de um sacerdócio celibatário.
Entretanto, um outro membro da associação, o padre redentorista Gerry O’Connor, contou ao National Catholic Reporter que acredita que uma estratégia como aquela proposta por Brown, de importar padres, vai provavelmente ser “contraproducente e levará a um afastamento maior dos membros da Igreja”.
Ao descrever a missão como parte integrante da vida eclesial, ele disse que a associação vê problemas com a nomeação de sacerdotes estrangeiros sem nenhuma preparação ou orientação quanto à sociedade, à Igreja e à cultura irlandesas.
“Padres vindos do exterior são uma solução parcial, mas sem uma formação, uma preparação, um aprendizado e uma reflexão adequados, essa ideia trará mais problemas do que soluções”, disse o O’Connor. Isso seria o mesmo que “pôr curativos nas feridas da Igreja em vez de curá-las”, e seria um “outro ato de uma Igreja que não ouve os seus membros e apoiadores”.
“O fato de os bispos e o núncio não quererem se envolver de um modo estruturado com a Associação dos Padres irlandeses é um símbolo de uma Igreja à deriva, de uma Igreja engessada, de uma Igreja em negação; é o símbolo de uma Igreja com 26 reinos, uma Igreja irlandesa em um caminho paralelo ao que o Papa Francisco tem falado a respeito. É um exemplo de uma Igreja apegada a uma visão eclesial que está em desacordo com o que o Papa Francisco está tentando construir”, prosseguiu.
Segundo ele, a associação propõe um sínodo nacional para a Igreja da Irlanda. O’Connor também explicou que, durante a assembleia geral do grupo, os membros se comprometeram em desenvolver um ministério leigo; acolher de volta ao ministério padres casados; abrir o sacerdócio a homens casados; e ter na Igreja um diaconato feminino.
“Todas essas ideias são soluções práticas e realizáveis diante da crise atual e da sobrecarga de trabalho”, disse.
Ainda de acordo com O’Connor, enquanto a sensação de isolamento não é tão aguda entre os padres das ordens religiosas assim como é entre os padres diocesanos, os “religiosos estão tão confusos e desmoralizados quanto estão os padres diocesanos sobre como ser um padre no mundo moderno, e sentem o desprezo e o ridículo de uma perspectiva secular que permeia a Irlanda nos dias de hoje”.

“A depressão faz parte da vida vivida nas comunidades religiosas”, completou o padre. “A ausência de uma próxima geração de religiosos na maioria das congregações significa que a esperança e a energia estão em falta, e existe uma lacuna na teologia e na eclesiologia entre muitos dos recrutas mais novos e as gerações mais velhas, com a geração mais avançada percebendo que a Igreja irá se mover para o passado ao invés de abraçar, com coragem, um futuro incerto”. Fonte: http://www.ihu.unisinos.br

sexta-feira, 9 de dezembro de 2016

ADVENTO: Canto do ofertório.

NÃO PERDER A ESPERANÇA: Frei Petrônio

O DOM DA VOCAÇÃO PRESBITERAL- Documento do Vaticano sobre a formação presbiteral.

CONGREGAÇÃO PARA O CLERO




O DOM
DA VOCAÇÃO PRESBITERAL

Ratio Fundamentalis Institutionis Sacerdotalis



L’OSSERVATORE ROMANO
CIDADE DO VATICANO 8 DE DEZEMBRO DE 2016


Introdução


 O DOM DA VOCAÇÃO ao presbiterado, conferido por Deus no coração de alguns homens, exige da Igreja propor-lhes um sério caminho de formação; como recordou o Papa Francisco por ocasião do seu discurso à Congregação para o Clero (03 de outubro de 2014) reunida em Plenária, «trata-se de conservar e desenvolver as vocações, para que produzam frutos maduros. Elas constituem um “diamante bruto”, que deve ser trabalhado com habilidade, respeito pela consciência das pessoas e paciência, para que resplandeçam no meio do povo de Deus»1.

Já se passaram trinta anos – daquele 19 de março de 1985 – desde que a Congregação para a Educação Católica, então competente na matéria, fez a revisão da Ratio Fundamentalis Sacerdotalis, promulgada a 06 de janeiro de 1970 2 , procedendo sobretudo a uma integração das notas à luz da promulgação do Código de Direito Canônico (25 de janeiro de 1983).

Desde então, foram muitas as contribuições feitas para o tema da formação dos futuros presbíteros, seja por parte da Igreja Universal, seja por parte das Conferências Episcopais e de cada Igreja Particular.

Primeiramente, é oportuno recordar o Magistério dos Pontífices que nestes últimos trinta anos guiaram a Igreja: São João Paulo II, ao qual se deve a fundamental Exortação apostólica pós-sinodal Pastores dabo vobis (25 de março de 1992), Bento XVI, autor da Carta apostólica em forma de “motu próprio” Ministrorum instituito  (16 de janeiro de 2013) e Francisco, pelo impulso e orientações que estiveram na origem do presente documento.

Assim, a Pastores dabo vobis apresenta de maneira explícita uma visão integral da formação dos futuros clérigos que leve em conta, e com a mesma importância, as quatro dimensões que compõem a pessoa do seminarista: humana, intelectual, espiritual e pastoral. A Carta apostólica Ministrorum institutio procura destacar como a formação dos seminaristas continua naturalmente na formação permanente dos sacerdotes, constituindo com essa uma única realidade; por isso, com tal documento, Bento XVI confiou à Congregação para o Clero, já competente para a formação permanente, a responsabilidade pela formação inicial no Seminário, reformulando os artigos da Constituição apostólica Pastor Bonus (28 de junho de 1988) que tratavam deste  tema,  e  transferindo  para  tal  Congregação  a  Secção  responsável        pelos

1 FRANCISCO, Discurso do Papa Francisco à Plenária da Congregação para o Clero, 03 de outubro de  2014: L’Osservatore Romano, 226 (04 de outubro de 2014), 8.
2 Cf. CONGREGAÇÃO PARA A EDUCAÇÃO CATÓLICA, Ratio fundamentalis institutionis sacerdotalis
(06 de janeiro de 1970): AAS 62 (1970), 321 - 384


Seminários. Durante o seu Pontificado, o Papa Francisco tem também oferecido um rico Magistério e um constante exemplo pessoal a propósito do ministério e da vida dos sacerdotes, além de ter encorajado e seguido de perto os trabalhos que levaram ao presente documento.

Durante estes últimos trinta anos, não faltaram documentos referentes a alguns aspectos particulares da formação dos futuros clérigos, elaborados por Dicastérios da Cúria Romana: Congregação para Educação Católica, Congregação para o Culto Divino e a Disciplina dos Sacramentos e a Congregação para o Clero, bem como várias Ratio nacionais, muitas das quais foram consultadas cuidadosamente no decorrer dos trabalhos preparatórios deste documento3.

2.  Os trabalhos preparatórios


O primeiro texto provisório da presente Ratio Fundamentalis foi elaborado pela Congregação para o Clero logo na primavera de 2014, tendo sido enviado, em seguida, para análise e parecer de alguns especialistas, e, principalmente, aos Membros do Dicastério, com vista à Assembléia Plenária, que se realizou nos dias   1
     3 de outubro de 2014. Aí, o texto foi comentado e discutido pelos Em.mos  e Ex.mos Membros da Congregação, e pelos especialistas convidados, que ofereceram à Congregação propostas e sugestões para os trabalhos sucessivos.

Todo este contributo serviu para redigir um texto mais amplo, enriquecido ainda  pelas sugestões recebidas de alguns Dicastérios da Cúria Romana com interesse no tema em razão da própria competência (a Congregação para Evangelização dos Povos, a Congregação para os Institutos de Vida Consagrada e as Sociedades de Vida Apostólica, e a Congregação para as Igrejas Orientais), ou em virtude da vasta experiência acumulada precedentemente (a Congregação para a Educação Católica).

Durante o ano de 2015, o texto foi enviado a numerosas Conferências Episcopais e Nunciaturas Apostólicas, para recolher o seu parecer, e com a finalidade de alargar o âmbito da consulta e da reflexão aos Países nos quais a Ratio Fundamentalis deverá ser aplicada, seguindo o espírito daquela sinodalidade tantas vezes recordada pelo Papa Francisco.

Nos dias 19 e 20 de novembro de 2015, a Congregação para o Clero promoveu um Congresso Internacional dedicado ao 50º aniversário dos documentos conciliares Optatam totius e Presbyterorum ordinis, durante o qual Cardeais, Bispos,  professores, formadores e especialistas puderam oferecer a sua preciosa contribuição à reflexão sobre o tema da formação dos candidatos às Sagradas Ordens.


 3 Tais documentos serão mencionados com detalhes e de modo específico no decorrer do texto.


A Congregação para o Clero, levando em consideração as contribuições recebidas sobre o tema, redigiu um texto final que foi examinado, em primeiro lugar, por alguns consultores, e que depois foi apresentado a alguns Dicastérios da Cúria Romana (Secretaria de Estado, Congregação para a Doutrina da Fé, a Congregação para o Culto Divino e a Disciplina dos Sacramentos, a Congregação para os Bispos, a Congregação para a Evangelização dos Povos, a Congregação para os Institutos de Vida Consagrada e as Sociedades de Vida Apostólica, a Congregação para a Educação Católica, a Congregação para as Causas dos Santos, a Congregação para as Igrejas Orientais, o Pontifício Conselho para os Textos Legislativos), segundo aquele espírito de co-responsabilidade e cooperação invocado no art. 17° da Pastor Bonus.

Terminada esta consulta e à luz das sugestões recebidas, foi elaborado o texto definitivo para submeter a apreciação e aprovação do Santo Padre, em conformidade ao art. 18° da Pastor Bonus.

3.  As características distintivas e conteúdos fundamentais


O caminho formativo dos sacerdotes desde os anos do Seminário é descrito na presente Ratio Fundamentalis partindo de quatro características distintivas da formação,  apresentada como única, integral, comunitária e missionária.

A formação dos sacerdotes é a continuação de um único “caminho de discipulado”, que se inicia com o batismo, se aperfeiçoa com os demais sacramentos da iniciação cristã, para ser depois acolhido como centro da própria vida no momento de entrada no Seminário, e continua por toda a vida; obviamente, a formação inicial no Seminário distingue-se daquela permanente quanto ao tempo, modo e finalidades específicas, mas constitui com essa uma única formação progressiva – aquela que se realiza na vida do discípulo sacerdote, o qual, permanecendo sempre na escola do Mestre, não cessa de buscar a configuração a Ele.

A formação – inicial e permanente – deve ser entendida sob um prisma integral, levando em consideração as quatro dimensões propostas na Pastores dabo vobis, que, juntas, compõem e estruturam a identidade do seminarista e do presbítero, tornando-o capaz de realizar o “dom de si para a Igreja”, que é o conteúdo da caridade pastoral. É importante que o percurso de formação não se identifique todo com um único aspecto formativo, destacando-se dos outros, mas seja sempre um caminho integral do discípulo chamado ao sacerdócio.

Tal formação tem uma característica eminentemente comunitária, logo a partir da sua origem; a vocação ao sacerdócio, de fato, é um dom que Deus concede à Igreja e ao mundo, uma via para santificar-se e santificar os outros que não se percorre de maneira individualista, mas sempre havendo como referência uma porção concreta do Povo de Deus. Tal vocação é revelada e acolhida no interior de uma comunidade eclesial  e forma-se  no  Seminário, no  contexto  de  uma  comunidade educadora que


compreende vários componentes do Povo de Deus, para conduzir o seminarista, mediante a ordenação, a fazer parte da “família” do presbitério, ao serviço de uma comunidade de fiéis. Também a respeito dos sacerdotes formadores, a presente Ratio Fundamentalis procura sublinhar que, com vista à eficácia do seu trabalho, eles devem considera-se e agir como uma verdadeira comunidade formativa, que compartilha uma única responsabilidade, no respeito das competências e tarefas confiadas a cada um.

Uma vez que o “discípulo sacerdote” sai da comunidade cristã e a essa retorna, para servi-la e guiá-la como pastor, a formação se caracteriza naturalmente como missionária, uma vez que tem como meta a participação na única missão confiada por Cristo à Sua Igreja, isto é, a evangelização, em todas as suas formas.

A ideia de fundo é que os Seminários possam formar discípulos missionários “enamorados” do Mestre, pastores “com o cheiro das ovelhas” que vivam no meio delas para servi-las e conduzi-las à misericórdia de Deus. Por isso, é necessário que cada sacerdote se sinta sempre um “discípulo a caminho”, carente constantemente de uma formação integral, compreendida como contínua configuração a Cristo.

Dentro desta única formação, integral e progressiva, distinguem-se duas fases: inicial e permanente. Por sua vez, nesta Ratio Fundamentalis, a formação inicial está articulada em quatro etapas: propedêutica, dos estudos filosóficos ou “do discipulado”, dos estudos teológicos ou “de configuração”, e pastoral ou de síntese vocacional.

Nos termos apresentados acima, o percurso formativo traz alguns desenvolvimentos em relação à Ratio Fundamentalis de 1970. Depois da fase de experimentação e verificação, iniciada com o Sínodo dos Bispos de 1990 (VIII Assembleia Geral), a “etapa propedêutica”, com uma identidade e uma proposta formativa específicas, apresenta-se como necessária e obrigatória.

A respeito da “etapa do discipulado” e daquela “de configuração”, tais denominações acompanham aquelas habitualmente identificadas como “fase dos estudos  filosóficos” e “fase dos estudos teológicos”, que, juntas, se estendem por seis anos4.  O objetivo disto é evidenciar que o âmbito intelectual, com os estudos previstos de Filosofia e de Teologia, não é o único a ser considerado no momento de avaliar, em cada etapa, o caminho já concluído pelo seminarista, e os progressos alcançados. Ao contrário,  um  discernimento  global,  realizado  pelos  formadores  sobre  todos    os
âmbitos da formação, consentirá a passagem para a etapa sucessiva somente daqueles seminaristas que, mesmo havendo superado os exames previstos, tenham alcançado o grau de maturidade humana e vocacional requerido em cada fase.



Cf. C.I.C., cân. 250.


Finalmente, a “etapa pastoral” ou “de síntese vocacional”, visa conferir uma peculiar importância ao tempo transcorrido entre a conclusão da formação no Seminário e a ordenação presbiteral, com a finalidade de favorecer nos candidatos uma adequada tomada de consciência em relação à mesma.

O discipulado e a configuração a Cristo, obviamente, acompanham toda a vida; por isso, o que se entende por etapa de discipulado e etapa de configuração é a especial atenção dedicada em dois momentos da formação inicial à compreensão de que se é discípulo e à necessidade de entender a chamada ao ministério e à vida sacerdotal como uma contínua configuração a Cristo.

Por sua vez, a formação permanente, pela sua própria natureza, não pode ser esquematizada em “etapas” pré-constituídas; sendo assim, foram indicados apenas alguns momentos, situações e instrumentos que podem oferecer aos sacerdotes e aos responsáveis pela formação permanente a possibilidade de vivenciar e propor iniciativas concretas.

No interior desta Ratio Fundamentalis, como naquela de 1970, encontra-se também o Ordo Studiorum, que compreende um elenco indicativo das matérias que devem constar no percurso de estudos dos seminaristas, nas suas diversas fases, dentro do domínio mais amplo da sua formação intelectual. Essa deverá ser integralmente aplicada nos Seminários e nas casas de formação que organizam internamente os cursos de estudos previstos para os seis anos de filosofia e teologia, além, naturalmente, dos cursos da fase propedêutica e aqueles relativos às matérias ministeriais.

No texto da presente Ratio Fundamentalis, são apresentadas orientações de vários gêneros – teológico, espiritual, pedagógico, canônico – e normas em sentido próprio, que repropõem aquelas do Código de Direito Canônico e determinam mais precisamente os modos a observar-se na sua aplicação5. No documento, orientações e normas não estão rigidamente separadas, embora tenha sido explicitado o valor de preceito ou de orientação de cada passo; estão antes integradas, a fim de se poder oferecer um texto enriquecido por diversas contribuições.


Cf. C.I.C., cân. 31, § 1.


I


Normas Gerais

a)   O âmbito de aplicação


1.        A presente Ratio Fundamentalis Institutionis Sacerdotalis 6 aplica-se integralmente aos Países sob a competência da Congregação para o Clero. Considerando, por outro lado, o Decreto conciliar Ad gentes, n. 16, e o art. 88°, § 2, da Const. Apost. Pastor Bonus, aplica-se também, ainda que parcialmente, nos territórios de competência da Congregação para a Evangelização dos Povos; de fato, tal Dicastério tem o compromisso de “formar o clero secular”, segundo as suas próprias orientações e normas, mas a presente Ratio é vinculativa em relação ao “Plano geral dos estudos”, também para os territórios sujeitos à competência da Congregação para a Evangelização dos Povos. Além disso, às normas da Ratio Fundamentalis  deverão  ser  conformadas,  com  as  devidas  adaptações,  também as
Ratio  dos  Institutos  de  vida  consagrada  e  das  Sociedades  de  vida     apostólica 7
dependentes da Congregação para os Institutos de Vida Consagrada e as Sociedades de Vida Apostólica e da Congregação para a Evangelização dos Povos, bem como da Pontifícia Comissão Ecclesia Dei, no que diga respeito aos «membros que se preparam para receber as ordens sacras»8, assim como as Ratio das Associações clericais às quais tenha sido concedido o direito de incardinar clérigos, aquelas das Prelaturas Pessoais, dos Ordinariados Militares e dos Ordinariados Pessoais9. Por isto, quando se faz uma referência às competências do Ordinário, essas dizem  respeito também aos Superiores Maiores dos Institutos de vida consagrada e das Sociedades de vida apostólica de direito pontifício, a menos que, considerando o contexto, não se conclua tratar-se somente do Bispo diocesano.

Atendendo aos artt. 56° e 58°, § 2, da Const. Apost. Pastor Bonus, a presente Ratio Fundamentalis não se aplica as Igrejas Orientais católicas que estão sujeitas a competência da Congregação para as Igrejas Orientais e que nesta matéria devem preparar as suas normas, a partir do próprio patrimônio litúrgico, teológico, espiritual e disciplinar.




6 O documento é um decreto geral executivo, ex cân. 31, § 1, C.I.C., em aplicação das normas canônicas relativas à formação, que substitui a Ratio fundamentalis institutionis sacerdotalis de 6 de janeiro de 1970, revisada com a nova edição de 19 de março de 1985; cf. CONCÍLIO ECUMENICO VATICANO II, Decreto sobre a formação sacerdotal Optatam totius (28 de outubro de 1965), n. 1: AAS 58 (1966), 713.
7 Cf. JOÃO PAULO II, Constituição Apostólica Pastor Bonus (28 de junho de 1988), artt. 88°, § 2, e 108°, § 2: AAS 80 (1988), 882 e 887.
C.I.C., cân. 659, § 3.
9 Cf. BENTO XVI, Constituição Apostólica Anglicanorum coetibus (04 de novembro de 2009): AAS 101 (2009), 985-990.


Ocorre, ainda, precisar que esta se aplica integralmente nas casas de formação dos movimentos e das novas comunidades eclesiais, conjuntamente à Ratio Nationalis elaborada pela Conferência Episcopal do País onde tal instituto se encontra, sob a autoridade do Bispo diocesano. Ao invés, em relação aos estudos acadêmicos de filosofia e teologia, definidos com base na legislação canônica, eclesiástica e/ou civil, e às faculdades eclesiásticas, é competente a Congregação para a Educação  Católica10, a quem cabe, além disso, a celebração de acordos com as autoridades civis competentes.

2.     A Congregação para o Clero, da qual faz parte a Pontifícia Obra para as Vocações Sacerdotais11, «exprime e põe em prática a solicitude da Sé Apostólica acerca da formação daqueles que são chamados às Ordens sagradas», e, entre as suas funções institucionais, conta com aquela de dar assistência aos «Bispos para que nas suas Igrejas sejam cultivadas com o máximo empenho as vocações para os ministérios sagrados e nos seminários» seja dispensada «uma sólida formação quer humana e espiritual, quer doutrinal e pastoral»12.

A Congregação para o Clero, portanto, promove a pastoral vocacional, especialmente as vocações às ordens sagradas, e oferece aos Bispos e às Conferências Episcopais princípios e normas para a formação inicial e permanente dos clérigos.

b)   A elaboração da Ratio Nationalis

3.      Sobre a base desta Ratio Fundamentalis Institutionis Sacerdotalis, cada Conferência Episcopal deverá preparar uma Ratio Nationalis própria que, a teor do n. 1 do Decreto conciliar Optatam totius, e do cân. 242, § 1, do Código de Direito Canônico, deve ser aprovada por esta mesma Congregação, após ouvir o oportuno parecer da Congregação para a Educação Católica quanto à matéria de sua competência; tudo, a fim de garantir a necessária harmonia e coordenação das Normas para regulação dos estudos e a respectiva congruência com a Normas para regulação dos estudos dos diversos Países.

Se posteriormente surgir a necessidade de se realizar algumas modificações à Ratio Nationalis precedentemente aprovada, por força do aparecimento de situações novas e inesperadas, poder-se-á emendar o texto, solicitando uma nova aprovação à Congregação para o Clero. Tendo em conta a ponderação de experiências   entretanto

10 As respectivas competências dos dois Dicastérios foram fixadas por BENTO XVI, com a Carta Apostólica Ministrorum institutio (16 de janeiro de 2013), art. 6°: AAS 105 (2013), 134: «A Congregação para a Educação Católica é competente para a normatização dos estudos acadêmicos de filosofia e teologia, buscando o parecer da Congregação para o Clero, para a matéria de sua respectiva competência».
11  Cf. PIO XII, Motu proprio Cum nobis (04 de novembro de 1941), n. 13: AAS 33 (1941), 479; Ministrorum
instituitio, art. 7; AAS 105 (2013), 134.
12 Ministrorum institutio, artt. 4° e 5°: AAS 105 (2013), 133-134, que modificou os artt. 93°, § 2, e 94° da Const. Apost. Pastor Bonus.


sobrevindas, ou em vista do termo de um prazo prefixado para o efeito, a Ratio Nationalis deverá ser reexaminada pelo organismo competente da Conferência Episcopal, para depois ser novamente submetida à aprovação deste Dicastério. Posteriores revisões e a respectiva aprovação obrigatória poderão e deverão ser periodicamente realizadas e solicitadas, caso pareça necessário à Conferência Episcopal, ou quando, por justa causa, a Congregação para o Clero o considerar oportuno13.

4.   O direito e o dever de redigir a Ratio Nationalis Institutionis Sacerdotalis, bem como, caso se considere oportuno e útil, aprovar particulares experiências no  território de uma Conferência Episcopal ou numa Região, competem às Conferências Episcopais e não individualmente aos Bispos14.

As normas da Ratio Nationalis deverão ser observadas em todos os Seminários diocesanos e interdiocesanos do País15 , e as suas aplicações particulares deverão constar no Estatuto, no Regulamento e no próprio Projeto formativo de cada instituição16.

5.    Com a finalidade de favorecer um diálogo constante entre a Santa Sé e as Igrejas particulares, em sinal de proximidade e para receber conselho e amparo, os Seminários interdiocesanos, segundo quanto estabeleça o seu Estatuto, enviarão periodicamente um relatório à Congregação para o Clero relativo à atividade formativa ali desenvolvida.

c)   A responsabilidade das Conferências Episcopais


6.    Salvaguardando a autoridade do Bispo diocesano, a Ratio Nationalis procura unificar a formação presbiteral no País, facilitando desta forma o diálogo entre os Bispos e os formadores, para o beneficio dos seminaristas e dos mesmos Seminários17.

7.     A Ratio Nationalis deverá referir-se às dimensões formativas previstas no presente documento para os candidatos ao sacerdócio, de tal modo que estes possam formar-se integralmente e ser devidamente preparados para enfrentar os desafios do nosso tempo. Cada Ratio Nationalis deverá também definir as etapas da formação e o plano dos estudos, os seus objetivos e a sua duração, respeitando-se as normas do direito universal. Na proposta educativa com vista ao sacerdócio, a Ratio Nationalis deverá assegurar a necessária unidade no interior do próprio País, levando em consideração, também, as eventuais diversidades culturais existentes.

13  Cf. C.I.C., cân. 242, § 1.
14  Cf. ibid.
15  Cf. ibid., cân. 242, § 2.
16  Cf. ibid., cân. 243.
17  Cf. ibid., cân. 242, § 2.


Cada Ratio Nationalis deverá trazer e atualizar no seu contexto o que está previsto pela Ratio Fundamentalis, contendo sempre os seguintes elementos:

a.  uma descrição, ao menos sumária, do contexto social, cultural e eclesial concreto onde os futuros presbíteros se encontrarão para exercer o seu ministério;
b.   uma síntese sobre os eventuais acordos firmados pela Conferência Episcopal acerca da organização dos Seminários do País;
c.   algumas indicações sobre a pastoral vocacional e os seus instrumentos;
d.  uma exposição das etapas da formação, contextualizada na realidade do País;
e.     uma descrição sobre os meios a serem adotados para o cuidado com as dimensões formativas (humana, espiritual, intelectual e pastoral);
f.     o plano dos estudos propedêuticos, filosóficos e teológicos, incluindo uma apresentação das matérias, com algumas indicações sobre os objetivos e os conteúdos a serem desenvolvidos em cada uma delas, bem como o número de créditos formativos necessários para cada disciplina.

8.      Na elaboração da Ratio Nationalis, é necessário que cada Conferência Episcopal tenha na devida consideração as características e as exigências específicas do próprio ambiente sócio-educativo. Além do mais, deverá promover a colaboração entre as diversas Circunscrições Eclesiásticas presentes no território, com uma particular atenção às realidades locais, a fim de garantir a melhor oferta formativa possível, tanto nos Seminários numericamente relevantes como naqueles com menor número de seminaristas.

Segundo o prudente juízo de cada Conferência Episcopal, no percurso para a elaboração e para as sucessivas atualizações da Ratio Nationalis, poder-se-ia prever os seguintes passos: antes de tudo, a Conferência Episcopal, por meio de representantes previamente definidos, poderia consultar diretamente os Seminários e, onde existir, a Organização nacional dos Seminários; a Conferência Episcopal poderia, por sua vez, transmitir à Comissão Episcopal para o Clero e para os Seminários a incumbência de elaboração de um texto base; finalmente, como sinal da colegialidade e com espírito de colaboração, a própria Conferência Episcopal deve proceder à elaboração final do texto.

d)   As organizações nacionais e continentais dos Seminários


9.    Onde as circunstâncias o possibilitem ou onde tais experiências já existem, encoraja-se a instituição de organizações supradiocesanas para os Seminários. De fato, organismos deste gênero podem representar uma válida ajuda enquanto instrumentos consultivos para a comunicação e a colaboração entre os  formadores que trabalham em diversos institutos, favorecendo a análise e um desenvolvimento mais homogêneo das experiências educativas e didáticas no plano regional, ou uma maior troca de experiências e seu confronto no plano internacional.


Como membros de tais organismos, serão convocados os formadores dos diversos institutos. Será importante que estas organizações trabalhem sob a coordenação da Comissão da Conferência Episcopal para o Clero e os Seminários. Em todo caso,  num espírito de comunhão eclesial, caberá à Congregação para o Clero erigir eventuais organizações de caráter universal, e cabe às Conferências Episcopais ou às várias organizações destas (por ex., o Conselho Episcopal Latino Americano [CELAM], o Consilium Conferentiarium Episcoporum Europae [CCEE], a  Federation of Asian Bishops’ Conferences [FABC], etc.), após consulta a este Dicastério, a ereção de uma organização continental e de quantas operem no interior do próprio território, aprovando os respectivos estatutos, no respeito pelas competências de cada Bispo diocesano e das Conferências Episcopais.

Como já ocorre em algumas regiões, poderá ser de grande utilidade que tais organizações, para o território de sua competência, promovam cursos para os formadores e atividades de estudo a respeito de temas ligados à vocação e à formação presbiteral, com o intuito de se transmitir os respectivos resultados às Conferências Episcopais interessadas18.

e)   O projeto formativo de cada Seminário


10.    O Bispo diocesano (ou os Bispos interessados, no caso de um Seminário interdiocesano), coadjuvado pela comunidade dos formadores do Seminário, tem o compromisso de elaborar um projeto de “formação integral”, também chamado itinerário formativo, e de promover a sua efetiva aplicação19, respeitando as diversas etapas e o percurso pedagógico aí propostos. No respeito pela Ratio Fundamentalis, tal projeto deve propor-se o objetivo de declinar a Ratio Nationalis e a visão pedagógica que a inspira, de acordo com a realidade e as exigências de cada Igreja particular, levando em consideração a proveniência cultural dos seminaristas, a pastoral da Diocese e a sua “tradição formativa”.
















18  Cf. Optatam totius, n. 5: AAS 58 (1966), 716-717.
19 Cf. CONGREGAÇÃO PARA OS BISPOS, Diretório para o ministério pastoral dos Bispos Apostolorum successores (22 de fevereiro de 2004), n. 90: Enchiridion Vaticanum 22 (2006), 1768-1769.


II


As Vocações Sacerdotais

a)   Os princípios gerais


11.    As vocações eclesiais são manifestações das incomensuráveis riquezas de Cristo (cf. Ef 3,8) e, portanto, devem ser tidas em grande consideração e cultivadas com prontidão e solicitude, de modo a que possam desabrochar e amadurecer. Entre as múltiplas vocações incessantemente suscitadas pelo Espírito Santo no Povo de Deus, aquela ao sacerdócio ministerial chama a «participar do sacerdócio hierárquico de Cristo»20, e a unir-se a Ele no seu «apascentar a Igreja com a palavra e a graça de Deus»21. Esta vocação se manifesta em várias circunstâncias, em relação às diversas fases da vida humana: nos adolescentes, nos adultos e, como o confirma a constante experiência da Igreja, também nas crianças.

12.     A vocação ao sacerdócio ministerial insere-se no âmbito mais amplo da vocação batismal cristã, mediante a qual o Povo de Deus, «estabelecido por Cristo como comunhão de vida, de caridade e de verdade, é também por Ele assumido como instrumento de redenção universal e enviado em toda parte como luz do mundo e sal da terra (cfr. Mt 5, 13-16)» 22.

13.     A missão da Igreja é aquela de «cuidar do nascimento, discernimento e acompanhamento das vocações, em particular, das vocações ao sacerdócio»23. A Igreja, acolhendo a voz de Cristo que convida todos a rezar ao Senhor da messe para que lhe mande operários (cf. Mt 9,38; Lc 10,2), reserva uma particular atenção às vocações à vida consagrada e às vocações sacerdotais. Portanto, é necessário que, em cada Diocese, região e país, sejam instituídos Centros para as Vocações24, os quais, em colaboração com a Pontifícia Obra para as Vocações Sacerdotais, são chamados a promover e a orientar toda a pastoral vocacional25, fornecendo os meios que lhe  sejam  necessários 26 .  Os  Bispos,  na  qualidade  de  primeiros  responsáveis     pelas

20  Cf. Optatam totius, n. 2: AAS 58 (1966), 714-715.
21 CONCILIO ECUMÊNICO VATICANO II, Constituição dogmática sobre a Igreja Lumen gentium (21 de novembro de 1964), n. 11: AAS 57 (1965), 15.
22  Ibid.., n. 9: AAS 57 (1965), 13.
23 JOÃO PAULO II, Exortação apostólica pós-sinodal Pastores dabo vobis, n. 34: AAS 84 (1992), 713.
24 Cf. CONGREGAÇÃO PARA A EDUCAÇÃO CATÓLICA – PONTIFÍCIA OBRA PARA AS VOCAÇÕES SACERDOTAIS, Orientações pastorais para a promoção das vocações ao ministério sacerdotal (25 de março de 2012), n. 13.
25 Cf. PONTIFÍCIA OBRA PARA AS VOCAÇÕES SACERDOTAIS, Desenvolvimento da pastoral vocacional nas Igrejas particulares (06 de janeiro de 1992); Orientações pastorais para a promoção das
vocações ao ministério sacerdotal.
26  Cf. Optatam totius, n. 2: AAS 58 (1966), 714-715; CONCÍLIO ECUMÊNICO  VATICANO  II,    Decreto
sobre o ministério e a vida dos presbíteros Presbyterorum ordinis (07 de dezembro de 1965), n. 11: AAS 58 (1966), 1008-1009; Decreto sobre a renovação da vida religiosa Perfectae caritatis (28 de outubro de  1965),


vocações ao sacerdócio, favoreçam uma eficaz cooperação entre sacerdotes, consagrados e leigos (sobretudo os pais e os educadores), bem como com grupos, movimentos e associações de fiéis leigos, no interior de um orgânico plano de pastoral de conjunto27.

14.  É necessário apoiar aquelas iniciativas que poderiam ajudar a obter de Deus o dom de novas vocações: antes de tudo, a oração pessoal e comunitária. Alguns momentos durante o ano litúrgico parecem especialmente adequados para tal finalidade, e cabe à Autoridade eclesiástica estabelecer a data para algumas celebrações particularmente significativas. Já há algum tempo que o Sumo Pontífice estabeleceu a celebração anual de uma Jornada Mundial de Oração pelas Vocações  no IV Domingo da Páscoa, conhecido como Domingo do Bom Pastor. É também conveniente que se estimule as atividades destinadas a suscitar um clima espiritual
que predisponha ao discernimento e ao acolhimento da vocação sacerdotal28.

Neste sentido, a pastoral vocacional tem como destinatários homens pertencentes  a várias faixas etárias, embora, hoje em dia, visto o crescente número de candidatos adultos, que têm atrás de si uma ou mais experiências profissionais29, se advirta a necessidade de dedicar uma particular atenção a esta precisa faixa etária.

15.    Com generosidade e espírito eclesial, procure-se promover não somente as vocações a serviço da própria Diocese ou do próprio País, mas também aquelas a favor de outras Igrejas particulares, de acordo com as necessidades da Igreja universal, acompanhando a ação de Deus, que livremente chama alguns ao sacerdócio ministerial numa Igreja particular, outros a exercer o ministério dentro de um  Instituto de vida consagrada ou numa Sociedade de vida apostólica, e outros ainda à missio ad gentes. Por isso, é vivamente recomendável que, em cada Diocese, haja um

n. 24: AAS 58 (1966), 711-712; Decreto sobre a missão pastoral dos Bispos na Igreja Christus Dominus (28 de outubro de 1965), n. 15: AAS 58 (1966), 679-680; Decreto sobre a atividade missionária da Igreja Ad gentes (07 de dezembro de 1965), nn. 16 e 39: AAS 58 (1966), 966-967 e 986-987.
27  Cf. C.I.C. cân. 233, § 1; Optatam totius, n. 2: AAS 58 (1966), 714-715; Presbyterorum ordinis, n. 11:  AAS
58 (1966), 1008-1009; Lumen gentium, n. 11: AAS 57 (1965), 15-16; Perfectae caritatis, n. 24: AAS 58 (1966), 711-712; Decreto sobre o apostolado dos leigos Apostolicam actuositatem (18 de novembro de  1965), n. 11: AAS 58 (1966), 847-849; Christus Dominus, n. 15: AAS 58 (1966), 679-680; Constituição pastoral sobre a Igreja no mundo contemporâneo Gaudium et spes (07 de dezembro de 1965), n. 52: AAS 58 (1966), 1073-1074; Ad gentes, n. 39: AAS 58 (1966), 986-987; PIO XII, Exortação ao clero do mundo católico sobre a santidade da vida sacerdotal Menti Nostrae (23 de setembro de 1950), cap. III: AAS 42 (1950), 683.
28  FRANCISCO,  Exortação apostólica  Evangelii  gaudium (24  de  novembro  de  2013),  n. 107:  AAS  105
(2013), 1064-1065: «Onde há vida, fervor, paixão de levar Cristo aos outros, surgem vocações genuínas. Mesmo em paróquias onde os sacerdotes não são muito disponíveis nem alegres, é a vida fraterna e fervorosa da comunidade que desperta o desejo de se consagrar inteiramente a Deus e à evangelização, especialmente se essa comunidade vivente reza insistentemente pelas vocações e tem a coragem de propor aos seus jovens um caminho de especial consagração».
29  Cf. C.I.C., cânn. 233, § 2; 385; cf. Menti nostrae, cap. III: AAS 42 (1950), 684; Apostolorum   successores,
n. 87: Enchiridion Vaticanum 22 (2006), 1773; S. CONGREGAÇÃO PARA A EDUCAÇÃO CATÓLICA, Carta circular Vocaciones adultorum, aos Presidentes das Conferências Episcopais sobre o cuidado e a formação das vocações adultas (14 de julho de 1976): Enchiridion Vaticanum 5 (2000), 2097-2108.


único Centro para a pastoral vocacional, expressão da cooperação e da unidade no meio do clero diocesano e daquele pertencente às outras realidades eclesiais canonicamente reconhecidas30.

b)   Os Seminários Menores e outras formas de acompanhamento dos adolescentes


16.    A pastoral vocacional visa reconhecer e acompanhar a resposta a chamada interior de Nosso Senhor. Este processo deve favorecer o crescimento das qualidades humanas e espirituais da pessoa, e verificar a autenticidade das suas motivações. Por estas razões, em cada Igreja particular, tendo em conta as circunstâncias, os meios à disposição e as experiências já adquiridas, é conveniente promover instituições que se mostrem adequadas para apoiar e discernir as vocações ao sacerdócio ministerial, levando em consideração a idade e as condições particulares daqueles que nelas se devem formar.

17.  O Seminário Menor31. O Código de Direito Canônico prescreve: «Conservem- se, onde existirem, e fomentem-se os seminários menores ou outras instituições semelhantes, nos quais, para fomentar as vocações, se providencie a que seja ministrada uma especial formação religiosa a par da cultura humanística e  científica; mais, o Bispo diocesano, onde o julgar conveniente, providencie à erecção do seminário menor ou instituição similar»32.

18.   A finalidade do Seminário Menor é ajudar a maturação humana e cristã dos adolescentes33 que mostrem trazer dentro de si o germe da vocação ao sacerdócio ministerial, a fim de desenvolver, de acordo com a própria idade, aquela liberdade interior que os capacite a corresponder ao desígnio de Deus sobre sua vida.

Nos lugares onde este serviço não se dá na forma institucional do Seminário Menor, cada Igreja local assuma esse importante compromisso de prover ao acompanhamento dos adolescentes, promovendo novas abordagens e experimentando formas pastorais criativas, a fim de ajudar e orientar o seu crescimento humano e espiritual. Podem citar-se, entre outras possibilidades, os grupos vocacionais para adolescentes, as comunidades de acolhimento vocacional, os colégios católicos e outros organismos juvenis34.

19.  Nos Seminários Menores, importa tomar em consideração algumas qualidades dos rapazes, bem como específicos “indícios de vocação”. Em concreto, podem ser  de   grande   utilidade   para   uma   tal   avaliação   algumas   experiências anteriores,

30  Cf. Optatam totius, n. 2: AAS 58 (1966), 714-715; Presbyterorum ordinis, nn. 10-11: AAS 58 (1966), 1007-
1010; Apostolorum successores, n. 91: Enchiridion Vaticanum 22 (2006), 1787-1789.
31  Cf. Optatam totius, n. 3: AAS 58 (1966), 715-716; Pastores dabos vobis, n. 63: AAS 84 (1992), 768-769.
32  C.I.C., cân. 234, § 1; cf. também Apostolorum successores, n. 86: Enchiridion Vaticanum 22 (2006), 1770-
1772.
33  Cf. Apostolorum successores, n. 86.
34  Cf. Pastores dabo vobis, n. 64: AAS 84 (1992), 769-770.


determinantes para a vida de fé dos rapazes, como por exemplo: a ligação espiritual a um sacerdote; o recurso frequente aos sacramentos; uma já inicial prática de oração, a experiência eclesial paroquial vivida em grupos, movimentos e associações; a participação em atividades vocacionais promovidas pela Diocese; o empenhamento em algum serviço no âmbito da realidade eclesial a que pertence. Importa ainda considerar algumas realidades humanas que, se devidamente desenvolvidas, podem ajudar os jovens no amadurecimento vocacional. Cabe aos formadores verificar a idoneidade global (espiritual, física, psíquica, moral e intelectual) dos eventuais candidatos.

20.     Durante o caminho vocacional do Seminário Menor, deverá levar-se em consideração a dinâmica do crescimento da pessoa, atendendo à sua idade e a alguns aspectos em particular: a sinceridade e a lealdade diante de si e dos outros, o progressivo desenvolvimento afetivo, a predisposição a viver em comunidade, a capacidade de cultivar amizades fraternas, o bom grau de responsabilidade relativamente aos deveres pessoais e aos compromissos confiados, a criatividade e o espírito de iniciativa, o justo uso da liberdade, a disponibilidade a percorrer um caminho de oração e de encontro com Cristo.

21.  Fazendo a experiência de amizade com Jesus, os rapazes aprendem a viver e a desenvolver a fidelidade ao Senhor, sustentados pela oração e pela força do Espírito Santo, para que amadureçam: o serviço humilde, compreendido como disponibilidade aos outros e como atenção ao bem comum; a obediência, vivida como escuta confiante; a castidade juvenil, como sinal da pureza nas relações e no dom de si; a pobreza, como educação para a sobriedade no uso dos bens e para uma vida simples.

Um elemento necessário nesta formação espiritual é, sobretudo, a vida litúrgica e sacramental – da qual os jovens deverão participar com uma tomada de consciência sempre mais viva, de acordo com o avançar da própria idade –, juntamente com a devoção mariana e os demais exercícios de piedade quotidiana ou periódica, a definir no regulamento de cada Seminário, a par de outros aspectos.

22.  Os jovens recebam a preparação escolar prevista no próprio País para poderem ter acesso aos estudos universitários35. Além disso, procurem obter o título civil de estudos, também para poder ter a liberdade e a possibilidade de escolher outro estado de vida, caso não se venha a reconhecer neles a chamada ao sacerdócio. Seria conveniente que o Seminário oferecesse também uma formação complementar, valorizando, por exemplo, aspectos culturais, artísticos, desportivos etc. Os estudos poderão ser realizados na própria escola do Seminário, em escolas católicas externas ou noutras escolas.




35  Cf. C.I.C., cân. 234, § 2.


23.    Dada a importância e a exigência dos desafios formativos no período da adolescência, durante o qual tem início o amadurecimento da identidade dos rapazes, é necessário que estes sejam acompanhados por formadores que compreendam as exigências daquela idade, e que sejam bons educadores e testemunhas do Evangelho. É recomendável que os formadores possam contar com a colaboração dos pais, os quais, sobretudo nesta fase, têm uma importância fundamental para o processo de crescimento dos próprios filhos, além do amparo e proximidade da comunidade paroquial de origem. Os formadores cuidem ainda para que os seminaristas mantenham a conveniente e até necessária relação com as respectivas famílias e os seus coetâneos, pois precisam dela para um sadio desenvolvimento psicológico, especialmente no que diz respeito à vida afetiva.

c)   A vocação em idade adulta


24.   Aqueles que descobrem a chamada ao sacerdócio ministerial em idade mais avançada, normalmente apresentam-se com uma personalidade mais estruturada e um percurso de vida caracterizado por experiências diversificadas. O acolhimento inicial destas pessoas no Seminário exige um prévio caminho espiritual e eclesial, durante o qual se possa desenvolver um sério discernimento das motivações vocacionais.

É necessário avaliar com atenção o período que vai do Batismo, ou da conversão cristã, a eventual entrada no Seminário36, tendo em vista que não são raros os casos  de confusão entre a sequela Christi e a chamada ao ministério sacerdotal.

Como para os demais seminaristas, cuide-se de acompanhar estes candidatos mediante um caminho sério e completo, que, no âmbito de uma vida comunitária, deverá incluir uma sólida formação espiritual e teológica 37 , de acordo com um oportuno método pedagógico e didático que leve em consideração o seu perfil pessoal. Será competência das Conferências Episcopais emanar normas específicas adaptadas à própria situação nacional, avaliando a conveniência de prever um limite para a idade de admissão das vocações supramencionadas e, eventualmente, contemplando a hipótese de erigir um Seminário especial para estes casos38.

d)   As vocações que germinam entre os indígenas


25.  «Particular atenção será reservada às vocações provindas entre os indígenas: ocorre proporcionar uma formação inculturada no seu ambiente. Estes candidatos para o sacerdócio, ao receberem uma adequada formação teológica e espiritual para




36  Cf. ibid., cân. 1042, § 3.
37  Cf. Pastores dabo vobis, n. 64: AAS 84 (1992), 769-770; Vocationes adultorum, n. 12: Enchiridion
Vaticanum 5 (2000), 2012.
38  Cf. Apostolorum successores, n. 87.


o seu futuro ministério, não devem perder as raízes da própria cultura»39; a simples presença destas vocações é um elemento importante para a inculturação do  Evangelho em tais regiões, e a riqueza da sua cultura deve ser valorizada adequadamente. Se necessário, pode oferecer-se um serviço vocacional usando a língua local própria e contextualizado nessa particular cultura local.

e)   As vocações e os migrantes


26.  Um fenômeno muito difundido diz respeito à crescente migração de povos por causa de múltiplas razões de natureza social, econômica, política e religiosa40. É importante que a comunidade cristã ofereça um constante cuidado pastoral às famílias imigradas, que há muito tempo vivem e trabalham num outro País, onde representam um recurso precioso; de entre estas, podem surgir vocações ao ministério sacerdotal,  a serem acompanhadas levando em consideração a sua progressiva integração cultural41.

27.  Outros, sentindo-se chamados pelo Senhor, deixam o próprio País para receber em outro lugar uma formação ao presbiterado. É importante considerar a sua história pessoal e a do contexto de proveniência, e verificar atentamente as motivações da sua escolha vocacional, fazendo o possível para entrar em diálogo com a Igreja local de origem. Em todo caso, durante o processo formativo, será necessário encontrar os métodos e os instrumentos aptos para uma adequada integração, sem subestimar os desafios da diversidade cultural, a qual torna por vezes complexo o discernimento vocacional.




















39 JOÃO PAULO II, Exortação apostólica pós-sinodal Ecclesia in America (22 de janeiro de 1999), n. 40:
AAS 91 (1999), 776.
40 Cf. FRANCISCO, Exortação apostólica pós-sinodal Amoris laetitia (19 de março de 2016), n. 46, Livraria Editora Vaticana 2016.
41  Cf.  PONTIFÍCIO  CONSELHO  PARA  A  PASTORAL  DOS  MIGRANTES  E  DOS ITINERANTES,
Instrução  Erga migrantes caritas Christi (03 de  maio  de  2004), n. 45: Enchiridion  Vaticanum 22   (2006),
2480-2481.


III


Os Fundamentos da Formação

a)   O sujeito da formação


28.  Durante o percurso formativo rumo ao sacerdócio ministerial, o seminarista se apresenta como um “mistério para si mesmo”, no qual se entrelaçam e coexistem dois aspectos da sua humanidade, a serem integrados reciprocamente: por um lado, ela é caracterizada por dons e riquezas, plasmada pela graça; por outro lado, é marcada por limites e fragilidades. O compromisso formativo consiste em procurar ajudar a pessoa a integrar estes aspectos, sob o influxo do Espírito Santo, num caminho de fé e de progressivo e harmonioso amadurecimento dos mesmos, evitando a fragmentação, as polarizações, os excessos, a superficialidade ou a parcialidade. O tempo de formação para o sacerdócio ministerial é um tempo de prova, de amadurecimento e de discernimento por parte do seminarista e da instituição formativa.

29.  O seminarista é chamado a “sair de si mesmo”42, para caminhar, em Cristo, em direção ao Pai e aos outros, abraçando a chamada ao sacerdócio, e empenhando-se  em colaborar com o Espírito Santo para realizar uma síntese interior, serena e  criativa, entre força e fraqueza. O projeto educativo ajuda os seminaristas a  reconduzir a Cristo todos os aspectos da sua personalidade, de modo a torná-los conscientemente livres para Deus e para os outros43. De fato, é somente em Cristo crucificado e ressuscitado que este percurso de integração ganha sentido e atinge o
seu cumprimento; n’Ele se recapitulam todas as coisas (Ef 1,10), a fim de que «Deus seja tudo em todos» (1Cor 15, 28).

b)   A base e o objetivo da formação: a identidade presbiteral


30.     Para a formação integral do candidato, cumpre que se reflita acerca da identidade do presbítero 44 . Uma primeira consideração deve ser de natureza teológica, uma vez que a vocação ao sacerdócio está radicada e encontra a sua razão de ser em Deus, no seu desígnio de amor. Jesus realiza a nova aliança por meio da oferta de si mesmo e do seu sangue, e assim gera o povo messiânico, que        é «para



42 Cf. FRANCISCO, Discurso aos seminaristas, aos noviços e as noviças provenientes das várias partes do mundo por ocasião do Ano da Fé (06 de julho de 2013): Ensinamentos I/2 (2013), 13.
43  Cf. CONGREGAÇÃO PARA A EDUCAÇÃO CATÓLICA, Orientações educativas para a formação  ao
celibato sacerdotal (11 de abril de 1974), n. 38: Enchiridion Vaticanum 5 (2000), 275-276; CONGREGAÇÃO PARA A EDUCAÇÃO CATÓLICA, Orientações para a utilização das competências psicológicas na admissão e na formação dos candidatos ao sacerdócio (29 de junho de 2008), n. 9: Enchiridion Vaticanum 25 (2011), 1268-1269.
44 Cf. CONGREGAÇÃO PARA O CLERO, Diretório para o ministério e a vida dos presbíteros (11 de fevereiro de 2013), cap. I.


todo o gênero humano o mais firme germe de unidade, de esperança e de salvação»45. Como recorda o Concílio Vaticano II, a natureza e a missão dos presbíteros há de ser entendida no seio da Igreja, Povo de Deus, Corpo de Cristo e Templo do Espírito Santo46, a cujo serviço eles consagram a sua vida.

31.  Toda a comunidade dos fiéis, através da unção do Espírito, é constituída como sacramento visível para a salvação do mundo; todo o povo de Deus participa, de fato, na obra redentora de Cristo47, oferecendo um «sacrifício vivo, santo e agradável a Deus» (Rm 12,1) como povo sacerdotal48 . A unidade e a dignidade da vocação batismal precedem cada uma das diferenças ministeriais. O Concílio Vaticano II afirma, de fato, que «o sacerdócio comum dos fiéis e o sacerdócio ministerial ou hierárquico, embora se diferenciem essencialmente e não apenas em grau, ordenam- se mutuamente um ao outro; pois um e outro participam, a seu modo, do único sacerdócio de Cristo» 49 . O ministério presbiteral, então, é interpretado, na sua natureza específica como também nos seus fundamentos bíblicos e teológicos, como serviço à glória de Deus e aos irmãos, no seu sacerdócio batismal50.

32.   Cada fiel é ungido pelo Espírito Santo e participa, ativamente e segundo os carismas que lhe sejam próprios, da missão da Igreja. Mas é também verdade que «o mesmo Senhor, porém, para que formassem um corpo, no qual “nem todos os membros têm a mesma função”(Rm 12,4), constituiu, dentre os fiéis, alguns como ministros que, na sociedade dos crentes, possuíssem o sagrado poder da Ordem para oferecer o Sacrifício, perdoar os pecados e exercer oficialmente o ofício sacerdotal»51. Isto significa que os presbíteros, em comunhão com a ordem episcopal,
são inseparavelmente parte da comunidade eclesial e, ao mesmo tempo, são constituídos para ser pastores e guias, por vontade de Cristo e em continuidade com a obra dos Apóstolos. Portanto, «o sacerdote coloca-se não apenas na Igreja, mas também perante a Igreja»52.

33.    O presbítero, membro do Povo santo de Deus, é chamado a cultivar o seu espírito missionário, exercendo com humildade a função pastoral de guia dotado de autoridade, mestre da Palavra e ministro dos sacramentos53, ao mesmo tempo que pratica uma fecunda paternidade espiritual.


45  Lumen gentium, n. 9: AAS 57 (1965), 13.
46  Cf. ibid., n. 17: AAS 57 (1965), 21.
47  Cf. Lumen gentium, n. 10: AAS 57 (1965), 14-15; cf. C.I.C., cân. 204 § 1.
48  Cf. 1Pd 2, 4-9.
49  Lumen gentium, n. 10: AAS 57 (1965), 14.
50 Cf. ibid., nn. 10 e 18: AAS 57 (1965), 14-15 e 21-22; cf. Presbyterorum ordinis, n. 2: AAS 58 (1966), 991- 993; cf. Catecismo da Igreja Católica, nn. 1547 e 1592.
51  Presbyterorum ordinis, n. 2: AAS 58 (1966), 992.
52  Pastores dabo vobis, n. 16: AAS 84 (1992), 681.
53  Cf. CONGREGAÇÃO PARA O CLERO, O presbítero mestre da Palavra, ministro    dos  sacramentos  e
guia da comunidade em vista ao terceiro milênio cristão (19 de março de 1999): Enchiridion Vaticanum 18 (2002), 289-376.


Os futuros presbíteros, portanto, sejam educados de maneira a não cair no “clericalismo”, nem a ceder à tentação de orientar a própria vida para a busca da aceitação popular, que inevitavelmente os tornaria inadequados para o exercício do seu ministério de guias da comunidade, levando-os a considerar a Igreja como uma simples instituição humana.

34.   Por outro lado, a ordenação presbiteral que o constituiu guia do povo, com a efusão do Espírito Santo através da imposição das mãos pelo Bispo, não deve levar o presbítero a «aproveitar-se do rebanho» (cf. 1Pd 5,3): «Toda autoridade deve ser exercida, efetivamente, em espírito de serviço, como “amoris officium” e dedicação desinteressada pelo bem do rebanho»54.

Em conclusão: o que está na origem da vocação sacerdotal é um dom da graça divina, que se concretiza também na ordenação sacramental. Tal dom se exprime no tempo pela mediação da Igreja, que chama e envia em nome de Deus. Correlativamente, a resposta pessoal se desenvolve num processo que se inicia com o conhecimento do dom recebido, e amadurece gradualmente com a ajuda da espiritualidade sacerdotal, até configurar-se através de uma forma estável de vida, com um conjunto de deveres e de direitos, e uma missão específica assumida pelo ordenando.

c)   O caminho da formação como configuração a Cristo


35.    Os presbíteros, configurados no seu ser a Cristo Cabeça, Pastor, Servo e Esposo 55 , participam do seu único sacerdócio, na missão salvífica, como colaboradores dos Bispos. Desta forma, eles são na Igreja e no mundo  um sinal visível do amor misericordioso do Pai. Estas características da pessoa de Cristo ajudam a compreender melhor o sacerdócio ministerial na Igreja, inspirando e orientando, sob a ação do Espírito, a formação dos seminaristas, para que, inseridos no mistério trinitário, alcancem a própria configuração a Cristo56.

36.  A Carta aos Hebreus apresenta o tema do sacerdócio de Cristo como expressão da sua missão entre os homens57 . O primeiro traço que caracteriza Cristo como verdadeiro Sumo Sacerdote é a sua proximidade singular, que o faz estar junto tanto de Deus como dos homens58. Cristo, cheio de misericórdia, é o Sacerdote «santo, inocente, sem mancha» (Hb 7,26) que, tendo-se oferecido a si mesmo «com forte

54 Ibid.., Diretório para o ministério e a vida dos presbíteros, n. 25; cf. também Mt 20, 25-28 e Mc 10, 42- 45; cf. FRANCISCO, Audiência geral (26 de março de 2014): L’Osservatore Romano 70 (27 de março de 2014), 8.
55 Cf. Presbyterorum ordinis, n. 2: AAS 58 (1966), 991-993; Pastores dabo vobis, n. 3: AAS 84 (1992), 660- 662; Diretório para o ministério e a vida dos presbíteros, n. 6.
56  Cf. Presbyterorum ordinis, n. 2: AAS 58 (1966), 991-993.
57  Cf. BENTO XVI, Encontro com os Párocos da Diocese de Roma (18 de fevereiro de 2010): Ensinamentos
VI/1 (2010), 243.
58  Cf. Pastores dabo vobis, n. 13: AAS 84 (1992), 667-678.


grito e lágrimas» (5,7), é «capaz de sentir justa compaixão» (5,2) por cada enfermidade nossa e torna-se «causa de salvação eterna para todos aqueles que lhe obedecem» (5, 9).

Verdadeiro Deus e verdadeiro homem, no amor, Cristo levou a cumprimento as realidades precedentes: do sacerdócio (cf. Hb 7, 1-28), da aliança (cf. 8, 19, 28), do sacrifício (cf. 10, 1-18). Em modo particular, o sacrifício oferecido por Cristo Sacerdote é novo: Ele não ofereceu sangue de cabritos e de bezerros, mas o seu próprio sangue, para fazer a vontade do Pai. As palavras de Jesus no Cenáculo, «Este é o meu Corpo oferecido por vós; fazei isto em minha memória [...] Este é o cálice da nova aliança no meu Sangue que será derramado por vós» (Lc 22,19-20), explicam a
«específica reciprocidade entre a Eucaristia e o Sacerdócio [...]: trata-se de dois Sacramentos que nasceram juntos e cujas sortes estão indissoluvelmente ligadas até ao fim do mundo»59 . Assim, o ministério e a vida do presbítero estão radicados essencialmente na Eucaristia.

37.  Aquele que dá a própria vida em sacrifício apresenta-se como o Bom Pastor60, vindo para reunir as ovelhas perdidas da casa de Israel e conduzi-las ao redil  do Reino de Deus (cf. Mt 9, 36 e 15,24; Jo 10, 14-16). Com esta imagem, amplamente presente na história da salvação, Cristo revela que Deus é aquele que reúne, acompanha, segue e cuida do próprio rebanho. Aparece aqui a imagem de um Deus- Pastor, que compartilha conosco a nossa vida até carregar sobre si o nosso sofrimento e a nossa morte61.

38.  Jesus, Filho de Deus, assumiu a condição de servo até à morte (cf. Fil 2, 6-8). Antes de morrer sobre a cruz, Ele lavou os pés dos discípulos, pedindo-lhes que fizessem a mesma coisa (cf. Jo 13, 1-17). Particularmente sugestiva é, com referência ao quarto canto do servo sofredor do profeta Isaías (cf. Is 52,13-53,12), a ligação entre o ministério presbiteral e a missão de Cristo. O servo sofredor é uma prefiguração daquilo que Ele realizará a favor da humanidade através do compassivo partilhar da dor e da morte, até ao dom da própria vida sobre a cruz (cf. Is 53, 4-8).

39.   A ordenação presbiteral exige de quem a recebe o dom total de si ao serviço  do Povo de Deus, à imagem de Cristo Esposo: «A entrega de Cristo à sua Igreja, fruto do seu amor, está conotada com aquela dedicação original que é própria do esposo no seu relacionamento com a esposa»62. O presbítero é chamado a assumir  em si os sentimentos e as atitudes de Cristo em relação à Igreja, amada ternamente através do exercício do ministério; portanto, dele se pede que seja «capaz de amar a gente com um coração novo, grande e puro, com um autêntico esquecimento de si

59  JOÃO PAULO II, Carta aos sacerdotes para a Quinta-Feira Santa (28 de março de 2004):  Ensinamentos
XXVII/I (2004), 390.
60  Cf. Pastores dabo vobis, n. 22: AAS 84 (1992), 690-691.
61 Cf. BENTO XVI, Carta encíclica Spe Salvi (30 de novembro de 2007), n. 6 : AAS 99 (2007), 990-991.
62  Pastores dabo vobis, n. 22: AAS 84 (1992), 691.


mesmo, com dedicação plena, contínua e fiel, juntamente com uma espécie de "ciúme" divino, com uma ternura que reveste inclusivamente os matizes do afeto materno»63.

40.  O presbítero é então chamado a formar-se para que o seu coração e a sua vida sejam conformados ao Senhor Jesus, de modo a tornar-se um sinal do amor de Deus por cada homem. Unido intimamente a Cristo, ele poderá: anunciar o Evangelho e tornar-se instrumento da misericórdia de Deus; guiar e corrigir; interceder e ter a seu cuidado a vida espiritual dos fiéis que lhe estão confiados; escutar e acolher, correspondendo também às exigências e às questões profundas do nosso tempo64.

d)   Para uma formação à interioridade e à comunhão


41.   O cuidado pastoral para com os fiéis exige que o sacerdote tenha uma sólida formação e maturidade interior, já que não se pode limitar a exibir um “simples revestimento de hábitos virtuosos”, uma mera obediência exterior e formalista aos princípios abstratos, mas é chamado a agir com uma grande liberdade interior. De fato, exige-se que ele interiorize, dia após dia, o espírito evangélico, graças a uma constante e pessoal relação de amizade com Cristo, até chegar a compartilhar os seus sentimentos e atitudes.

Assim, crescendo na caridade, o futuro presbítero procurará desenvolver uma equilibrada e madura capacidade de relacionar-se com o próximo. De fato, ele é chamado antes de mais àquela serenidade de fundo, humana e espiritual 65 , que, superada toda a forma de protagonismo ou dependência afetiva, lhe permite ser o homem da comunhão, da missão e do diálogo 66 , capaz de consumir-se com generosidade e sacrifício pelo Povo de Deus, contemplando o Senhor, que oferece a Sua vida pelos outros.

42.   Para se formar segundo o espírito do Evangelho, o homem interior precisa de dedicar um cuidado atento e fiel à vida espiritual, centrada prioritariamente sobre a comunhão com Cristo segundo os Mistérios celebrados durante o Ano Litúrgico, e alimentada pela oração pessoal e pela meditação sobre a Palavra inspirada. Na oração silenciosa, que o coloca numa relação autêntica com Cristo, o seminarista torna-se

63  Cf. ibid.
64 FRANCISCO, Discurso aos Reitores e aos alunos dos Pontifícios Colégios e Internatos de Roma (12 de maio  de  2014):  L’Osservatore  Romano  108  (14  de  maio  de  2014),  5:  «Algumas  vezes,  o  pastor deve
caminhar a frente, para indicar o caminho; outras vezes, no meio, para conhecer o que está acontecendo; muitas vezes, atrás, para ajudar aquelas últimas bem como seguir com o faro das ovelhas que sabem onde existe a boa grama»; cf. também Id., Audiência Geral, 26 de março de 2014: L’Osservatore Romano 70 (27 de março de 2014), 8; Discurso aos Padres da Diocese de Roma (06 de março de 2014): L’Osservatore Romano 54 (07 de março de 2014), 8.
65 Cf. Id., Discurso aos participantes do Convênio promovido pela Congregação para o Clero, em ocasião
do 50º aniversário dos Decretos conciliares “Optatam totius” e “Presbyterorum ordinis” (20 de novembro de 2015): L’Osservatore Romano 267 (21 de novembro de 2015), 8.
66  Cf. Pastores dabo vobis, n. 18: AAS 84 (1992), 684-686.


dócil à ação do Espírito Santo, que progressivamente o plasma à imagem do Mestre. Nesta relação íntima com o Senhor e na comunhão fraterna, os seminaristas serão acompanhados para que reconheçam e corrijam a “mundanidade espiritual”: a obsessão pela aparência, uma segurança doutrinal ou disciplinar presunçosa, o narcisismo e o autoritarismo, a pretensão de impor-se, o cuidado somente exterior e ostentado com a ação litúrgica, a vanglória, o individualismo, a incapacidade para escutar o outro, e todo o gênero de carreirismo67. Ao invés disto, sejam educados à
simplicidade, à sobriedade, ao diálogo sereno, à autenticidade e, como discípulos na escola do Mestre, aprendam a viver e a trabalhar naquela caridade pastoral que corresponde ao ser «ministros de Cristo e administradores dos mistérios de Deus» (1Cor 4,1).

43.  A formação sacerdotal é um caminho de transformação, que renova o coração e a mente da pessoa, a fim de que ela possa «discernir qual é a vontade de Deus, aquilo que é bom, aquilo que é agradável, aquilo que é perfeito» (Rm 12, 2). O progressivo crescimento interior no caminho formativo, de fato, deve favorecer especialmente que o futuro presbítero seja “um homem de discernimento”, capaz de interpretar a realidade da vida humana à luz do Espírito, e assim escolher, decidir e agir de acordo com a vontade divina.

O primeiro âmbito do discernimento é a vida pessoal e consiste no integrar a própria história e a própria realidade na vida espiritual, por forma a que a vocação ao sacerdócio não permaneça aprisionada numa abstração ideal, e tão pouco corra o  risco de reduzir-se a uma simples atividade prático-organizativa, externa à consciência da pessoa. Discernir evangelicamente a própria vida significa cultivar quotidianamente um estilo espiritual profundo, de modo a acolhê-la e interpretá-la com plena responsabilidade e crescente confiança em Deus, cada dia orientando o coração para Ele68.

Trata-se de um humilde e constante trabalho sobre si mesmo – que vai muito além das investigações introspectivas –, no qual o presbítero abre-se com honestidade à verdade da vida e às exigências reais do ministério, aprendendo a escutar a consciência que julga os movimentos e os estímulos interiores que motivam as ações. Assim, o presbítero aprende a governar-se a si próprio, nas suas forças espirituais e mentais, da alma e do corpo; aprende o sentido daquilo que se pode fazer e daquilo que não convém ou que não se deveria fazer; começa a administrar as próprias energias, os seus planos, os seus compromissos, com uma equilibrada disciplina de si mesmo e um conhecimento honesto dos próprios limites e das próprias possibilidades. Este trabalho não pode ser conduzido de modo satisfatório    contando

67  Cf. Evangelii gaudium, nn. 93-97: AAS 105 (2013), 1059-1061.
68 É esta «a pergunta fundamental da nossa vida sacerdotal: para onde é orientado o meu coração? Um questionamento que muitas vezes nós sacerdotes devemos fazer,   cada dia, a cada semana: para    onde está
orientado o meu coração?», FRANCISCO, Homilia para o Jubileu dos Sacerdotes e dos Seminaristas (03  de junho de 2016): L’Osservatore Romano 126 (04 de junho de 2016), 8.


apenas com as próprias forças humanas. Ao  contrário, esse consiste primariamente em acolher o dom da graça divina, que nos torna capazes de nos superarmos a nós mesmos, de ir além das próprias necessidades e dos condicionamentos externos, para se viver na liberdade dos filhos de Deus. É um “ver no interior” e uma  visão espiritual do todo, que preside ao conjunto da vida e do ministério, e através da qual se aprende a agir com prudência e a medir as consequências das próprias ações, independentemente de algumas circunstâncias que tornam difícil um juízo límpido sobre as coisas.

Este caminho de autenticidade consigo mesmo exige um cuidado especial com a própria interioridade, através da oração pessoal, da direção espiritual, do contato quotidiano com a Palavra de Deus, da “leitura de fé” da vida sacerdotal junto com outros sacerdotes e com o respectivo Bispo, além de todos os demais instrumentos úteis para se cultivar a virtude da prudência e o juízo. Neste permanente caminho de discernimento, o sacerdote saberá decifrar e compreender as próprias moções, seus dons, suas necessidades e suas fragilidades, sendo capaz de «livrar-se de todas as afeições  desordenadas  e,  depois  de  havê-las  eliminadas,  procurar  e  encontrar a
vontade de Deus na organização da própria vida em vista da salvação da alma»69.

e)     Os meios para a formação


e.1.  O acompanhamento pessoal70

44.     Os seminaristas, nas diversas etapas do seu caminho, precisam de ser acompanhados de modo personalizado por aqueles que são destinados a ter um papel na obra educativa, cada qual segundo a função e as competências que lhe são  próprias. O propósito do acompanhamento pessoal é aquele de levar a cabo o discernimento vocacional e formar o discípulo missionário.

45.    Durante o processo formativo, requer-se que o seminarista se conheça a si mesmo e se deixe conhecer, relacionando-se de modo sincero e transparente com os seus formadores71. Considerando que o fim em vista é a “docibilitas” ao Espírito Santo, o acompanhamento pessoal representa um instrumento indispensável de formação.

46.      É necessário que os colóquios com os formadores sejam regulares e frequentes; deste modo, na docilidade à ação do Espírito, o seminarista poderá progressivamente configurar-se a Cristo. Este acompanhamento deve integrar todos os aspectos da pessoa humana, educando-o à escuta, ao diálogo, ao verdadeiro significado  da obediência  e  à liberdade interior.  É  missão  de cada  formador, cada

69  INÁCIO DE LOYOLA, Exercícios Espirituais, 1.
70  Cf. Evangelii gaudium, nn. 169-173: AAS 105 (2013), 1091-1092.
71 Cf. FRANCISCO, Discurso aos seminaristas, aos noviços e as noviças provenientes das várias partes do mundo por ocasião do Ano da Fé (06 de julho de 2013): Ensinamentos I/2 (2013), 9.


qual agindo no nível que lhe compete, ajudar o seminarista a tomar conhecimento da sua condição, dos talentos recebidos, e também das próprias fragilidades, tornando-se cada vez mais disponível à ação da graça.

47.     Um elemento necessário no processo do acompanhamento é a confiança recíproca 72 . No plano formativo, devem-se procurar e delinear as modalidades concretas para promover e salvaguardar essa confiança. Cumpre, antes de tudo, procurar e predispor todas aquelas condições que podem, em qualquer  modo, criar um sereno clima de confiança e de recíproca confidência: proximidade fraterna, empatia, compreensão, capacidade de escuta e de partilha e, sobretudo, coerente testemunho de vida.

48.  O acompanhamento deve estar presente desde o início do caminho formativo e continuar por toda a vida, ainda que assumindo modalidades diversas depois da ordenação. Um sério discernimento da situação vocacional do candidato desde o início impedirá procrastinar inutilmente o juízo sobre a idoneidade para o ministério sacerdotal, evitando conduzir um seminarista aos limiares da ordenação sem se ter verificado as condições imprescindíveis exigidas73.

49.   O formador é chamado a guardar reserva da vida dos seminaristas. Um reto acompanhamento, equilibrado e respeitador da liberdade e da consciência dos  demais, que os ajude no seu crescimento humano e espiritual, exige que cada formador esteja dotado de certas capacidades e de certos recursos humanos 74 , espirituais75, pastorais e profissionais. Quem tem confiada a si a formação precisa também de ter uma formação específica76 e uma generosa dedicação a esta importante missão. São necessários formadores que saibam garantir uma presença a tempo integral, e que sejam, antes de tudo, testemunhas de como se ama e como se serve o Povo de Deus, consumindo-se pela Igreja sem reservas77.

e.2.  O acompanhamento comunitário


50.   Uma sadia pedagogia formativa não pode negligenciar a atenção a prestar à experiência e às dinâmicas de grupo no qual o seminarista está inserido. A vida

72 Cf. Orientação para a utilização das competências psicológicas na admissão e na formação dos candidatos ao sacerdócio, n. 12: Enchiridion Vaticanum 25 (2011), 1273-1277.
73  Cf. ibid., nn. 8 e 11: Enchiridion Vaticanum 25 (2011), 1262-1267.
74  Cf. ibid., nn. 3-4.
75 Cf. CONGREGAÇÃO PARA A EDUCAÇÃO CATÓLICA, Carta circular Sobre alguns aspectos mais urgentes da formação espiritual nos seminários (06 de janeiro de 1980), Enchiridion Vaticanum 7 (2001), 45-49.
76  Cf.  Id.Diretório  sobre  a  preparação  dos  educadores  nos  seminários  (04  de  novembro  de   1993):
Enchiridion Vaticanum 13 (1996), 3151-3284; cf. também Pastores dabo vobis, n. 66: AAS 84 (1992),   772-
774.
77  Cf.  Diretório sobre  a preparação  dos  educadores  nos  seminários,  nn.  4, 19,  29-32,  66:  Enchiridion
Vaticanum 13 (1996), 3155; 3184; 3200-3207; 3260-3262; cf. Apostolorum successores, n. 89:   Enchiridion
Vaticanum 22 (2006), 1777-1780.


comunitária durante os anos da formação inicial deve marcar cada indivíduo, purificando-lhe as intenções e transformando-lhe a conduta com vista a uma progressiva conformação a Cristo. Quotidianamente, a formação vai-se cumprindo através das relações interpessoais, dos momentos de partilha e de confronto, que concorrem para o crescimento “daquele húmus humano”, onde concretamente amadurece uma vocação.

51.   Tal âmbito comunitário favorecerá a relação com o Bispo, com os irmãos do presbitério e com os fiéis. A experiência da vida comunitária é um elemento precioso e iniludível na formação daqueles que serão chamados, no futuro, a exercer uma verdadeira paternidade espiritual78 nas comunidades a eles confiadas. Cada candidato que se prepara ao ministério deve sentir cada vez mais profundamente o desejo pela comunhão79.

O espírito de comunhão baseia-se sobre o fato de que a Igreja, enquanto povo convocado por Cristo, é chamada a viver, e vive desde suas origens, uma forte experiência de vida comunitária80. Deve, portanto, considerar-se que, ao receber a ordem do presbiterado, os sacerdotes «estão unidos entre si numa íntima fraternidade sacramental» e «na diocese a cujo serviço, sob o Bispo  respectivo  estão consagrados, formam um só presbitério» 81 . Em virtude da própria ordenação, o presbítero é parte de uma família, na qual o Bispo é o pai82.

52.  Na Igreja, que é «a casa e a escola de comunhão»83 e que «tira a sua unidade da unidade do Pai, do Filho e do Espírito Santo»84, o presbítero é chamado a ser «o homem da comunhão»85. Por isto, no Seminário, os elos que se estabelecem entre formadores e seminaristas, e entre os próprios seminaristas, devem ser marcados pela paternidade e pela fraternidade86. De fato, a fraternidade é construída através de um crescimento espiritual, que exige empenho constante para se superar as diversas formas de individualismo. Uma relação fraterna «não pode ser somente algo  deixado





78 Cf. FRANCISCO, Discurso aos seminaristas, aos noviços e às noviças provenientes de várias partes do mundo por ocasião do Ano da Fé (06 de julho 2013): Ensinamentos I/2 (2013), 8.
79  Cf. Pastores dabo vobis, nn. 17; 22-23; 43.59: AAS 84 (1992), 682-684; 690-694; 731-733; 761-762.
80  Cf. At. 2,42.
81  Presbyterorum ordinis, n. 8: AAS 58 (1966), 1003.
82  Cf. Christus Dominus, nn.16 e 28: AAS 58 (1966), 680-681 e 687; Apostolorum successores, nn. 76 e 107:
Enchiridion Vaticanum 22 (2006), 1740-1742 e 1827-1828.
83  JOÃO PAULO II, Carta apostólica Novo millennio ineunte (06 de janeiro de 2001), n. 43: AAS 93  (2001),
297.
84  CIPRIANO, De dominica Oratione 23: CSEL III A, p. 285.
85  Pastores dabo vobis, n. 18: AAS 84 (1992), 684.
86 Cf. ibid., n. 60: AAS 84 (1992), 764-762; cf. FRANCISCO, Discurso aos seminaristas, aos noviços e as noviças provenientes de várias partes do mundo por ocasião do Ano da Fé (06 de julho 2013): Ensinamentos
I/2 (2013), 11.


ao acaso, às consequências favoráveis»87, mas antes uma escolha consciente e um desafio permanente.

A comunidade do Seminário é, de fato, uma família, caracterizada por um clima que favorece a amizade e a fraternidade. Tal experiência ajudará o seminarista a melhor compreender, no futuro, as exigências, as dinâmicas e também os problemas das famílias que serão confiadas ao seu cuidado pastoral88. Nesta perspectiva, será de grande benefício para a comunidade do Seminário abrir-se ao acolhimento e à  partilha com diversas realidades, tais como, por exemplo, as famílias, as pessoas consagradas, os jovens, os estudantes e os mais pobres.

f)   A unidade da formação


53.    Em virtude de uma constante experiência de discipulado, a formação é um percurso unitário e integral, que inicia no Seminário e continua na vida sacerdotal, como formação permanente, e exige atenção e cuidado a cada passo. Se bem que uma
«grande parte da eficácia formativa depende da personalidade madura e forte dos formadores» 89 , tenha-se presente que é o seminarista em primeiro lugar – e o sacerdote depois – «o protagonista necessário e insubstituível da sua formação»90.




























87 FRANCISCO, Encontro com os sacerdotes diocesanos na Catedral, Cassano de Jonio (21 de junho de 2014): L’Osservatore Romano 140 (22 de junho de 2014), 7.
88 Cf. CONGREGAÇÃO PARA A EDUCAÇÃO CATÓLICA, Diretório sobre a formação dos seminaristas sobre os problemas relativos ao matrimônio e à família (19 de Marco de 1995), n. 33.
89  Pastores dabo vobis, n. 66: AAS 84 (1992), 772-774.
90  Cf. ibid., n. 69: AAS 84 (1992), 778.


IV

Formação Inicial e Permanente


54.     Depois do primeiro discernimento vocacional, a formação, compreendida como um único e ininterrupto caminho de discipulado e missão91, pode ser dividida em dois grandes momentos: a formação inicial no Seminário e a formação permanente na vida sacerdotal.

55.   A formação inicial diz respeito ao tempo que precede a ordenação sacerdotal, desde o início do período propedêutico, que é parte integrante da mesma. Por conseguinte, essa deve ser caracterizada por conteúdos formativos que preparam o seminarista para a vida sacerdotal. Isto exige um paciente e rigoroso trabalho sobre a pessoa, aberta à ação do Espírito Santo; a sua finalidade é a formação de um coração sacerdotal.

56.   A formação permanente representa uma necessidade imprescindível na vida e no exercício do ministério de cada sacerdote; de fato, a atitude interior do sacerdote deve ser caracterizada por uma disponibilidade permanente à vontade de Deus, seguindo o exemplo de Cristo. Essa implica uma contínua conversão do coração, a capacidade de ler a vida e os fatos à luz da fé e, particularmente, à luz da caridade pastoral, para um dom total de si à Igreja segundo o desígnio de Deus.

Nesse sentido, seria redutor e errôneo considerar a formação permanente como simplesmente uma “atualização”, de caráter cultural e pastoral, com respeito à formação inicial no Seminário; portanto, «já desde o Seminário Maior é preciso preparar a futura formação permanente, e abrir para ela o espírito e o desejo dos futuros presbíteros, demonstrando a sua necessidade, as suas vantagens e o seu objetivo, e assegurando as condições da sua realização»92.

a)   A formação inicial e as suas etapas


57.    A formação inicial pode ser subdividida em quatro grandes etapas: “etapa propedêutica”, “etapa dos estudos filosóficos” ou “do discipulado”, “etapa dos estudos  teológicos”  ou   “de  configuração”,  e  “etapa  pastoral”  ou   “de      síntese

91 FRANCISCO, Carta aos participantes da Assembléia Geral Extraordinária a Conferência Episcopal Italiana (10 a 13 de novembro de 2014): L’Osservatore Romano 258 (12 de novembro de 2014), 7: «A formação de que falamos é uma experiência de discipulado permanente, que aproxima de Cristo e permite conformar-se cada vez mais com Ele. Por isso, ela não tem um termo, uma vez que os sacerdotes nunca deixam de ser discípulos de Jesus e de o seguir. Por conseguinte, enquanto discipulado, a formação acompanha a vida inteira do ministro ordenado e diz respeito integralmente à sua pessoa e ao seu ministério. A formação inicial e a permanente são dois momentos de uma única realidade: o caminho do discípulo presbítero, apaixonado pelo seu Senhor e constantemente no seu seguimento».
92  Pastores dabo vobis, n. 71: AAS 84 (1992), 783.


vocacional”, cujas características serão expostas a seguir em pormenores. Ao longo de toda a vida, é-se sempre “discípulo”, com a aspiração constante de “configurar-se” a Cristo, a fim de exercer o ministério pastoral. Trata-se, de fato, de dimensões constantemente presentes na caminhada de cada seminarista, dedicando-se maior atenção ora a uma ora a outra em diferentes momentos ao longo percurso do caminho formativo, sem jamais descuidar as restantes.

58.     Ao final de cada etapa, é importante verificar se as finalidades próprias daquele particular período educativo foram alcançadas, atendendo às avaliações periódicas, preferivelmente semestrais ou no mínimo anuais, que os formadores redigirão por escrito. A atualização das metas formativas não deve estar necessariamente ligada ao tempo percorrido no Seminário e, sobretudo, aos estudos já concluídos. Isto é, não se deve chegar ao sacerdócio somente em razão de sucessão  de etapas dispostas segundo uma ordem cronológica e estabelecidas previamente, como que “automaticamente”, independentemente dos progressos efetivamente concluídos no âmbito de uma maturação integral. A ordenação deve representar a meta de um caminho espiritual realmente cumprido, que, gradualmente, ajudou o seminarista a tomar consciência da chamada recebido e das características próprias da identidade sacerdotal, consentindo-lhe alcançar a necessária maturidade humana, cristã e sacerdotal.

Da comunidade dos formadores espera-se coerência e objetividade na avaliação integral periódica dos seminaristas, levando em conta as quatro dimensões da formação, de que se tratará no Capítulo V; do seminarista espera-se docilidade, revisão constante da própria vida e disponibilidade à correção fraterna, para corresponder sempre melhor aos impulsos da graça.

a.1.  A etapa propedêutica


59.      À luz da experiência acumulada nas últimas décadas 93 , chegou-se ao reconhecimento da necessidade de dedicar inteiramente um período de tempo – ordinariamente não inferior a um ano e não superior a dois – a uma preparação de caráter introdutório, com vista à sucessiva formação sacerdotal, ou, ao invés, da decisão de trilhar outro caminho de vida.



93 A etapa propedêutica é sucessiva à intuição relativa à vocação e ao primeiro acompanhamento fora do Seminário, cf. Pastores dabo vobis, n. 62: AAS 84 (1992), 767-768. Foi a Congregação para a Educação Católica que defendeu desde 1980 a proposta desta etapa de iniciação: «aprofundou-se a necessidade de intensificar a preparação dos aspirantes ao Seminário Maior não só do ponto de vista intelectual, mas também e, sobretudo, humano e espiritual» – CONGREGAÇÃO PARA A EDUCAÇÃO CATÓLICA, Documento informativo O período propedêutico (10 de maio de 1998), III, n. 1. Já precedentemente, a Congregação para a Evangelização dos Povos, na sua Circular de 25 de abril de 1987, auspiciava que o período propedêutico fosse «um período prolongado de discernimento vocacional, de amadurecimento na vida espiritual e comunitária, e também de eventual recuperação da preparação cultural em vista da filosofia e da teologia», em Enchiridion Vaticanum 10 (1989), 1214.


O propedêutico é uma etapa formativa indispensável, com uma sua especificidade própria. O objetivo principal consiste em assentar sólidas bases para a vida espiritual e favorecer um maior conhecimento de si para o crescimento pessoal. Com vista à iniciação e ao amadurecimento da vida espiritual, será sobretudo necessário levar os seminaristas à oração através da vida sacramental, da Liturgia das Horas, da familiaridade com a Palavra de Deus – que há de ser considerada como a alma e o guia do caminho –, do silêncio, da oração mental e da leitura espiritual. Além disso, este é um tempo propício para um conhecimento inicial e sumário da doutrina cristã, através do estudo do Catecismo da Igreja Católica, e para o desenvolvimento da dinâmica do dom de si na experiência paroquial e caritativa. Por fim, a fase propedêutica poderá ainda ser útil para um eventual complemento da formação cultural.

Os estudos na etapa propedêutica permanecem nitidamente distintos daqueles filosóficos.

60.    A fase propedêutica pode ser diversificada, de acordo com a cultura e as experiências das Igrejas locais, mas deverá tratar-se, em todos os casos, de um verdadeiro tempo de discernimento vocacional, levado a cabo no seio de uma vida comunitária, e no âmbito de uma “preparação” para as etapas sucessivas da formação inicial.

É importante que se acentue na proposta formativa o aspecto de comunhão com o próprio Bispo, com o presbitério e com toda a Igreja particular, também em atenção ao fato de que não poucas vocações, sobretudo hoje, são provenientes de vários grupos e movimentos, e necessitam de desenvolver laços mais profundos com a realidade diocesana94.

Convém que a fase propedêutica seja vivida numa comunidade distinta daquela do Seminário Maior e, onde isso for possível, que tenha uma sede específica. Estabeleça- se, portanto, um propedêutico, com seus próprios formadores, que vise uma boa formação humana e cristã, e  uma séria seleção dos candidatos ao Seminário Maior95.

a.2.  A etapa dos estudos filosóficos (ou do discipulado)


61.  O conceito de discipulado. O discípulo é aquele que é chamado pelo Senhor a ficar com Ele (cf. Mc 3,14), segui-lo e tornar-se missionário do Evangelho. Ele aprende  quotidianamente  a  entrar  nos  segredos  do  Reino  de  Deus,  vivendo uma


94  Cf. O período propedêutico, III, n. 5.
95   FRANCISCO,  Discurso  na  Plenária  da  Congregação  para  o  Clero  (03  de  outubro  de  2014):
L’Osservatore Romano 226 (04 de outubro de 2014), 8: «precisa-se estudar bem o percurso de  uma vocação! Examinar bem se aquela é do Senhor, se aquele homem é sadio, se aquele homem é equilibrado, se aquele homem é capaz de doar a vida, de evangelizar, se aquele homem tem a capacidade para formar uma família, mas renuncia a esta para seguir a Jesus».


relação profunda com Jesus. O estar com Cristo torna-se um caminho pedagógico- espiritual, que transforma a existência e permite tornar-se testemunha do Seu amor no mundo.

62.  A experiência e a dinâmica do discipulado – que, como já foi observado, dura por toda a vida e abarca toda a formação presbiteral – exige pedagogicamente uma etapa específica, na qual se apliquem todas as energias possíveis para enraizar o seminarista na sequela Christi, ouvindo a Sua Palavra, guardando-a no coração e colocando-a em prática. Este tempo específico é caracterizado pela formação do discípulo de Jesus destinado a ser pastor, com uma especial atenção para com a dimensão humana, em harmonia com o crescimento espiritual, ajudando  o seminarista a amadurecer a decisão definitiva de seguir o Senhor no sacerdócio ministerial e no acolhimento dos conselhos evangélicos, de acordo com as modalidades próprias desta etapa.

63.    Ao mesmo tempo que prepara a etapa dos estudos teológicos, ou etapa de configuração, e orienta com vista à escolha presbiteral definitiva, esta fase permite, mediante a abertura ao Espírito Santo, um trabalho sistemático sobre a personalidade dos seminaristas. No âmbito do caminho da formação sacerdotal, jamais se pode insistir demais sobre a importância da formação humana. De fato, é nesta que se enxerta a santidade do presbítero, a qual depende, em grande parte, da genuinidade e da maturidade da sua humanidade. A falta de uma personalidade bem estruturada e equilibrada representa um impedimento sério e objetivo para a continuação da formação ao sacerdócio.

Por esse motivo, os seminaristas hão de habituar-se a disciplinar o seu caráter, crescer na fortaleza de ânimo e, em geral, aprender as virtudes humanas, como «a sinceridade, a preocupação constante da justiça, a fidelidade às promessas, a gentileza no trato, a modéstia e caridade no falar»96, que farão dele um reflexo vivo da humanidade de Jesus e uma ponte que une os homens a Deus. Com a finalidade de atingir uma sólida maturidade – física, psico-afetiva e social –, que se exige do  pastor, será um apoio útil a prática de exercício físico e desportivo, além da educação a  um  estilo  de  vida  equilibrado.  Além  do   essencial   acompanhamento       pelos
formadores e pelo Diretor espiritual, para integrar os aspectos fundamentais da personalidade, em certos casos poderia servir de ajuda um específico acompanhamento psicológico.

Este processo formativo visa educar a pessoa à verdade do próprio ser, à liberdade e ao domínio de si, com vista à superação das diversas formas de individualismo, e ao dom sincero de si que dá lugar a uma generosa dedicação aos outros.




96  Optatam totius, n. 11: AAS 58 (1966), 720.


64.   O amadurecimento humano é suscitado e favorecido pela ação da graça, que orienta o crescimento da vida espiritual. Esta última habilita o seminarista a viver na presença de Deus, numa atitude orante, e baseia-se na sua relação pessoal com Cristo, que consolida a identidade do discipulado.

65.  Trata-se de um caminho de transformação que envolve toda a comunidade. Aí, através da contribuição específica dos formadores e, especialmente, do Diretor Espiritual, é proposto um itinerário pedagógico que sustente o candidato no seu dinamismo de crescimento, ajudando-o a tomar consciência dos próprios limites e, simultaneamente, da necessidade da graça de Deus e da correção fraterna.

66.    A duração desta etapa, que não deve ser inferior a dois anos, abarcará um tempo suficiente para alcançar os objetivos que lhe são próprios e, ao mesmo tempo, para adquirir o necessário conhecimento da filosofia e das ciências humanas. É necessário que esta seja justamente valorizada e compreendida nas suas específicas finalidades, e não seja considerada simplesmente como a “passagem obrigatória” para aceder aos estudos teológicos.

67.   Ao final da etapa dos estudos filosóficos, ou do discipulado, o seminarista, alcançada uma liberdade e uma maturidade interiores adequadas, deveria dispor dos instrumentos necessários para iniciar, com serenidade e alegria, aquele caminho que o conduz a uma maior configuração a Cristo no âmbito da vocação ao ministério ordenado. De fato, logo após tal etapa, será possível a admissão do seminarista entre os candidatos às Ordens (petitio, ou candidatura, etc.), quando se demonstrar que o seu   propósito,   amparado   pelos   dotes   exigíveis,   alcançou   já   um      suficiente
amadurecimento97 . A Igreja, por seu lado, acolhendo a oferta de si por parte do seminarista, escolhe-o e chama-o, para preparar-se a receber no futuro a Sagrada Ordem. Pressupondo uma decisão responsável do seminarista, a admissão entre os candidatos às Ordens representa para ele um envio a prosseguir com a própria formação, configurando-se a Cristo Pastor, mediante um reconhecimento formal por parte da Igreja.

a.3.  A etapa dos estudos teológicos (ou de configuração)


68.   O conceito de configuração. Como já foi dito, a vida de um presbítero é toda ela uma formação contínua desde o momento da sua chamada: a formação do discípulo de Jesus, dócil à ação do Espírito Santo para o serviço à Igreja. A pedagogia da formação inicial, nos primeiros anos do Seminário, visa, antes de tudo, fazer o candidato inserir-se na sequela Christi; ao final desta etapa, dita do discipulado, a formação se concentra sobre o configurar do seminarista a Cristo, Pastor e Servo,  para que, unido a Ele, possa fazer da própria vida um dom de si aos outros.


97 Cf. PAULO VI, Carta apostólica Ad pascendum (15 de agosto de 1972), I, a) e c): AAS 64 (1972), 538- 539.


Esta configuração exige um mergulho profundo na contemplação da Pessoa de Jesus Cristo, Filho predileto do Pai, enviado como Pastor do Povo de Deus. Tal configuração torna a relação com Cristo mais íntima e pessoal, e, ao mesmo tempo, favorece o conhecimento e a assunção da identidade sacerdotal.

69.    A etapa dos estudos teológicos, ou da configuração, é orientada, de modo particular, para a formação espiritual própria do presbítero, em que a configuração progressiva a Cristo torna-se uma experiência que suscita na vida do discípulo os próprios sentimentos e comportamentos do Filho de Deus; ao mesmo tempo, ela introduz na aprendizagem da vida presbiteral, animada pelo desejo e amparada pela capacidade de oferecer-se a si mesmo no cuidado pastoral do Povo de Deus. Esta etapa possibilita o gradual enraizamento da fisionomia do Bom Pastor, que conhece  as suas ovelhas, a vida por elas98 e vai à procura das ovelhas que estão fora do
redil (cf. Jo 10, 14-17).

O conteúdo desta etapa é exigente e requer muito empenho. Exige-se, de fato, uma responsabilidade constante no viver as virtudes cardeais, bem como as teologais e os conselhos evangélicos99, e no ser-se dócil à ação de Deus através dos dons do Espírito Santo, segundo uma perspectiva claramente presbiteral e missionária; além de uma gradual releitura da própria história pessoal, segundo um coerente perfil de caridade pastoral, que anima, forma e motiva a vida do presbítero100.

70.  O especial esforço que caracteriza a configuração a Cristo Servo e Pastor pode corresponder à etapa da teologia, sem que esta última esgote inteiramente a dinâmica e o conteúdo de tal etapa. Em termos concretos, deverá assegurar-se uma fecunda e harmônica interação entre a maturidade humana e espiritual, e entre vida de oração e aprendizagem teológica.

71.   Na ótica e em vista do serviço a uma Igreja particular, os seminaristas são chamados a adquirir a espiritualidade do padre diocesano, caracterizada pela dedicação desinteressada à sua circunscrição eclesiástica ou àquela na qual concretamente exercerá o ministério, sendo ele pastor e servo para todos num contexto específico (cf. 1Cor 9,19). Enquanto ligado à Igreja local, esta pertença à diocese diz respeito especificamente ao clero secular, mas diz respeito também, indistintamente, a todos os presbíteros que exercem naquela o seu ministério, posto que valorizando o carisma próprio de cada um. Isso também significa configurar o

98 Diretório para o ministério e a vida dos presbíteros, n. 8 «Pode-se, portanto, dizer que a configuração a Cristo, mediante a consagração sacramental, define o sacerdote no seio do povo de Deus, fazendo-o participar a seu modo no poder santificador, de magistério e pastoral do próprio Jesus Cristo, Cabeça e Pastor da Igreja. O sacerdote, tornando-se mais parecido com Cristo, torna-se – graças a Ele, não a si mesmo – colaborador da salvação dos irmãos, não é mais ele que vive e existe, mas Cristo nele (cf. Gl 2,20)».
99  Cf. Pastores dabo vobis, n. 27: AAS 84 (1992), 710.
100  Cf. ibid., n. 23: AAS (1992), 691-694.


próprio modo de sentir e trabalhar, em comunhão com o Bispo e os irmãos sacerdotes, para o bem de uma porção do Povo de Deus101.

Tal imprescindível amor pela diocese pode ser utilmente enriquecido por outros carismas, suscitados pela ação do Espírito Santo. Da mesma maneira, o dom sacerdotal recebido com a Sagrada Ordem inclui a dedicação à Igreja universal e, portanto, abre à missão de salvação dirigida a todos os homens, até aos confins da terra (cf. At 1,8)102.

72.    No decorrer desta etapa, segundo o amadurecimento de cada candidato e atendendo à oportunidade formativa, serão conferidos aos seminaristas os ministérios de leitor e acólito, para que possam exercê-los por um conveniente período de tempo, e dispor-se melhor aos futuros serviços da Palavra e do Altar103. O ministério de leitor propõe ao seminarista o “desafio” de deixar-se transformar pela Palavra de Deus, objeto da sua oração e do seu estudo. A concessão do ministério de acólito implica uma participação mais profunda no mistério de Cristo que se doa e está presente na Eucaristia, na assembleia e no irmão.

Portanto, unidos a uma conveniente preparação espiritual, os dois ministérios permitem viver mais intensamente o que se exige nesta etapa de configuração, no interior da qual é oportuno, por isso, oferecer aos leitores e aos acólitos modalidades concretas para exercerem os ministérios recebidos, não somente no âmbito litúrgico, mas também na catequese, na evangelização e no serviço ao próximo.

Em todo o caso, um acompanhamento adequado pode revelar que a chamada que um jovem pensava ter recebido, mesmo se eventualmente reconhecido no decurso da primeira etapa, não é, na realidade, uma vocação ao sacerdócio ministerial, ou então, que esta não foi adequadamente cultivada. Nesse caso, por própria iniciativa ou  depois de uma competente intervenção por parte dos formadores, o seminarista deverá interromper o caminho formativo para a ordenação sacerdotal.

73.  A etapa dos estudos teológicos, ou da configuração, é, contudo, orientada para a recepção das Sagradas Ordens. No seu termo, ou no curso da etapa sucessiva, caso seja reconhecido idôneo no juízo do Bispo, uma vez ouvidos os formadores, o seminarista pedirá e receberá a ordenação diaconal, com a qual adquirirá o estado  de

101 FRANCISCO, Discurso aos sacerdotes da Diocese de Caserta (26 de julho de 2014): L’Osservatore Romano 171 (28-29 de julho de 2014), 5: «Mas onde está o centro da espiritualidade do padre diocesano? [...] É ter a capacidade de abrir-se à “diocesanidade”. [...] significa uma relação com o Bispo que se deve concretizar e a fazer crescer continuamente. [...] Em segundo lugar a “diocesanidade” implica uma relação com os outros sacerdotes, com todo o presbitério. Não há espiritualidade do padre diocesano sem estes dois relacionamentos: com o Bispo e com o presbitério. E são necessários».
102  Cf. Presbyterorum ordinis, n. 10: AAS 58 (1966), 1007-1008; Pastores dabo vobis, n. 17: AAS 84  (1992),
682-684.
103  Cf. PAULO VI, Carta apostólica Ministeria quaedam (15 de agosto de 1972), V-VI: AAS 64 (1972), 532-
533.


clérigo, com os relativos deveres e direitos, e ficará incardinado «ou numa Igreja particular, ou numa prelazia pessoal, ou num instituto de vida consagrada ou numa sociedade...» 104 , ou numa Associação ou num Ordinariado que gozem desta faculdade.

a.4.  A etapa pastoral (ou de síntese vocacional)


74.  A etapa pastoral (ou de síntese vocacional) corresponde ao período que medeia entre a estadia no Seminário e a sucessiva ordenação presbiteral, passando obviamente através da concessão do diaconato. São duas as finalidades desta etapa: por um lado, trata-se da inserção na vida pastoral, com uma gradual assunção de responsabilidades, em espírito de serviço; por outro, de um esforço no sentido de uma adequada preparação, recebendo um específico acompanhamento com vista ao presbiterado. Nesta etapa, o candidato é convidado a declarar de modo livre, consciente  e  definitivo  a  própria  vontade  de  ser  presbítero,  uma  vez  que  tenha
recebido a ordenação diaconal105.

75.     A este respeito, nas Igrejas particulares existe uma grande variedade de experiências, e compete às Conferências Episcopais determinar os percursos formativos que têm por finalidade a ordenação diaconal ou presbiteral. Geralmente, esta etapa realiza-se fora das instalações do Seminário, pelo menos por uma considerável parte de tempo. Este período, que por norma é vivido no serviço a uma comunidade, pode incidir significativamente sobre a personalidade do candidato. Recomenda-se, portanto, que o pároco, ou outro responsável pela realidade pastoral que acolhe o seminarista, sejam conscientes da tarefa formativa na qual são investidos, e acompanhem-no na sua gradual inserção.

76.  O Ordinário, de comum acordo com o Reitor do Seminário onde o seminarista se formou, considerando as exigências do presbitério e as oportunidades formativas oferecidas, assegure a cada seminarista uma comunidade onde possa prestar o próprio serviço pastoral106. A duração desta etapa formativa é variável e depende da efetiva maturidade e da idoneidade do candidato. Todavia, é necessário respeitar, pelo  menos, os tempos canônicos estabelecidos entre a recepção do diaconato e a do presbiterado107.
77.     A ordenação diaconal e presbiteral 108 . No termo do ciclo formativo do Seminário, os formadores devem ajudar o candidato a aceitar com docilidade a decisão que o Bispo pronunciar a seu respeito.


104  C.I.C., cân. 265.
105  Cf. Optatam totius, n. 12: AAS 58 (1966), 721.
106  Cf. ibid., n. 21: AAS 58 (1966), 726.
107  Cf. C.I.C., cânn. 1031, § 1 e 1032, § 2.
108 Cf. BENTO XVI, Exortação apostólica pós-sinodal Sacramentum caritatis (22 de fevereiro de 2007), n. 25: AAS 99 (2007), 125-126.


Aqueles que recebem a Sagrada Ordenação têm necessidade de uma conveniente preparação, especialmente de caráter espiritual109. O espírito orante, fundado sobre a relação com a pessoa de Jesus, e o encontro com figuras sacerdotais exemplares, acompanhem a meditação assídua dos ritos da ordenação, que, nas orações e nos gestos litúrgicos, compendiam e exprimem o profundo significado do sacramento da Ordem na Igreja.

78.   Um intenso período de preparação deveria ser vivido também pela família do ordenando e por toda a comunidade paroquial. Convém, porém, que se distinga claramente o percurso específico de preparação ao diaconato daquele com vista ao presbiterado, tratando-se de dois momentos bem diversos. Portanto, sempre que não haja graves razões que levem a proceder de outro modo, será oportuno não unir na mesma celebração ordenações diaconais (transeuntes ou permanentes) e presbiterais, a fim de poder assegurar a cada momento a devida e peculiar atenção, e facilitar a sua compreensão por parte dos fiéis.

79.  Ligação à formação permanente. A partir da ordenação presbiteral, o processo formativo prossegue no seio da família do presbitério. É da própria competência do Bispo, com a ajuda dos seus colaboradores, introduzir os presbíteros nas dinâmicas próprias da formação permanente110.

b)   A formação permanente


80.    A expressão “formação permanente”111 invoca a ideia de que a experiência unitária de discipulado daqueles chamados ao sacerdócio jamais se interrompe. O sacerdote, não somente “aprende a conhecer Cristo”, mas, sob a ação do Espírito Santo, ele encontra-se inserido no interior de um processo de gradual e contínua configuração a Jesus, no seu ser e no seu agir, que constitui um permanente desafio  ao crescimento interior da pessoa112.





109  Cf. C.I.C., cân. 1039.
110  Cf. Apostolorum successores, n. 83: Enchiridion Vaticanum 22 (2006), 1764-1766.
111 O conceito de formação permanente, com o passar do tempo, foi aprofundado tanto no âmbito da sociedade como na Igreja; um momento importante de tal aprofundamento é constituído pela “Carta aos
Sacerdotes”, enviada por JOÃO PAULO II, aos 11 de abril de 1979: Ensinamentos II (1979), 857-859:
«Todos devemos convertermo-nos a cada dia. Sabemos que esta é uma exigência fundamental do Evangelho, dirigida a todos os homens (cf. Mt 4,17; Mc 1,15), e devemos considerá-la muito mais dirigida a nós [...] A oração devemos uni-la a um contínuo trabalho sobre nós mesmos: é a “formatio permanens” [...] Uma formação que deve ser seja interior, com tendência ao aprofundamento da vida espiritual do sacerdote, seja pastoral e intelectual (filosófica e teológica)». Para uma visão de conjunto e uma síntese sobre este ponto, cf. Diretório para o ministério e a vida dos presbíteros, nn. 87-115.
112  Cf.  FRANCISCO,  Discurso  à  Plenária  da  Congregação  para  o  Clero  (03  de  outubro  de    2014):
L’Osservatore Romano 226 (04 de outubro de 2014), 8.


Importa alimentar de maneira constante a “chama” que dá luz e calor ao exercício do ministério, recordando que a «alma e forma da formação permanente do  sacerdote é a caridade pastoral»113.

81.     A formação permanente destina-se a assegurar a fidelidade ao ministério sacerdotal, num caminho de contínua conversão, para reavivar o dom recebido com a ordenação114. Tal percurso é a continuação natural daquele processo de construção da identidade presbiteral que teve início no Seminário e se cumpriu sacramentalmente na ordenação sacerdotal, com vista a um serviço pastoral que a faz amadurecer ao longo do tempo115.

82.      É importante que os fiéis possam encontrar sacerdotes adequadamente maduros e formados: de fato, a este dever «corresponde um preciso direito dos fiéis sobre os quais recaem positivamente os efeitos da boa formação e da santidade dos sacerdotes» 116 . A formação permanente deve ser concreta, isto é, encarnada na realidade presbiteral, de maneira a que todos os presbíteros possam efetivamente assumi-la, atendendo a que o primeiro e principal responsável pela formação permanente é o próprio sacerdote117.

O primeiro âmbito em que se desenvolve a formação permanente é a fraternidade presbiteral. É desejável que esta formação seja promovida em cada diocese por um presbítero ou por um grupo de presbíteros, formados de maneira específica e oficialmente encarregados de promover um serviço de formação permanente, tendo em conta as faixas etárias e as circunstâncias particulares de cada irmão118.

83.     A primeira fase desse caminho são os anos imediatamente sucessivos à ordenação presbiteral. Durante este período, o sacerdote adquire no exercício do ministério a fidelidade ao encontro pessoal com o Senhor e ao próprio acompanhamento espiritual, e a disponibilidade para consultar sacerdotes com mais experiência. É particularmente significativa a capacidade de estabelecer relações de colaboração e partilha com outros sacerdotes da mesma faixa etária. É desejável que se promova um acompanhamento feito por irmãos de vida exemplar e zelo pastoral, que ajudem aos jovens sacerdotes a viver uma pertença cordial e ativa à vida de todo o presbitério diocesano.

É responsabilidade do Bispo «evitar que os recém-ordenados sejam colocados em situações excessivamente duras ou delicadas, bem como deverão também evitar lugares onde eles se encontrem trabalhando longe dos colegas. Pelo contrário,   será


113  Pastores dabo vobis, n. 70: AAS 84 (1992), 781.
114  Cf. ibid.: AAS 84 (1992), 778-782.
115  Cf. ibid,, n. 71: AAS 84 (1992), 782-783.
116  Cf. Diretório para o ministério e a vida dos presbíteros, n. 87.
117  Cf. Pastores dabo vobis, n. 79: AAS 84 (1992), 796.
118  Cf. Diretório para o ministério e a vida dos presbíteros, n. 108.


bom, se for possível, propor alguma forma conveniente de vida comum»119. Tenha-se o cuidado de começar um acompanhamento pessoal dos padres jovens e de promover e sustentar as suas qualidades, para que possam abraçar com entusiasmo os primeiros desafios pastorais. O pároco ou outro sacerdote, para junto de quem o jovem presbítero tenha sido inicialmente enviado, devem ser os primeiros a sentir a responsabilidade por este acompanhamento.

84.  Em particular depois de alguns anos de experiência pastoral, podem facilmente emergir novos desafios que atinjam o ministério e à vida do presbítero:

a.   A experiência da própria fraqueza: o irromper de contradições ainda alojadas na sua personalidade e que ele deve necessariamente enfrentar. A experiência da própria fraqueza poderá conduzir o sacerdote a uma maior humildade e confiança na ação misericordiosa do Senhor – cuja “força se manifesta plenamente na fraqueza” (2Cor 12,9) –, e ainda a uma atitude de benévola compreensão nas suas relações com os demais. O presbítero não deverá isolar- se; ele terá, em vez disso, necessidade de amparo e acompanhamento  no âmbito espiritual e/ou psicológico. Em todo o caso, será útil intensificar a relação com o Diretor espiritual, para que das contrariedades se tirem ensinamentos positivos, aprendendo a fazer luz sobre a verdade da própria vida e a compreendê-la melhor à luz do Evangelho.

b.   O risco de sentir-se um funcionário do sagrado: o passar do tempo, que cria no sacerdote a sensação de ser como que um empregado da comunidade ou um funcionário do sagrado120, sem um coração de pastor. Aos primeiros sinais desta situação, será importante que o presbítero se possa dar conta de uma proximidade particular dos seus irmãos e se lhes torne acessível. De fato, como recordou o Papa Francisco, «não servem [...] sacerdotes funcionários que, enquanto desempenham um papel, procuram a sua própria consolação longe do Senhor. Somente quem mantiver fixo o olhar naquilo que é verdadeiramente essencial conseguirá renovar o seu “sim” ao dom recebido e, nas várias fases da vida, não deixará de se entregar a si mesmo; só aqueles que se deixam conformar com o Bom Pastor encontram a unidade, a paz e a força na obediência do serviço [...]»121.

c.      O desafio da cultura contemporânea: a inserção adequada do ministério sacerdotal na cultura hodierna, com todas as diversificadas problemáticas que esta comporta e que exigem abertura e atualização por parte dos   sacerdotes122,


119  Ibid.., n. 100.
120  Cf. Pastores dabo vobis, n. 72 : AAS 84 (1992), 783-787.
121 FRANCISCO, Carta aos participantes na assembleia geral extraordinária da Conferência Episcopal Italiana  (08  de  novembro  de  2014):  L’Osservatore  Romano  258  (12  de  novembro  de  2014),  7;     cf.
Presbyterorum ordinis, n. 14: AAS 58 (1966), 1013-1014.
122  Cf. Pastores dabo vobis, n. 78: AAS 84 (1992), 795-796.


e, sobretudo, uma sólida ancoragem nas quatro dimensões da formação: humana, espiritual, intelectual e pastoral.

d.   A atração do poder e da riqueza: o apego a uma posição, a obsessão por criar espaços exclusivos para si mesmo, a aspiração a uma carreira, o surgimento do desejo de poder ou de riqueza, com a consequente falta de disponibilidade à vontade de Deus, às necessidade do povo que lhe foi confiado e ao mandato do Bispo. Em tais situações, será oportuna a correção fraterna, ou a repreensão, ou um outro meio da solicitude pastoral, a menos que tais comportamentos não configurem um delito que comporte a aplicação de penas canônicas.

e.   O desafio do celibato: viver o celibato pelo Reino, quando os estímulos novos e as tensões da vida pastoral, ao invés de favorecer o crescimento e o amadurecimento da pessoa, provocam uma regressão afetiva, que, sob a influência de tendências socialmente difundidas, induz o presbítero a dar um espaço indevido às próprias necessidades e a procurar compensações, impedindo assim o exercício da paternidade sacerdotal e da caridade pastoral.

f.   A dedicação total ao próprio ministério: com o decorrer do tempo, o cansaço, o natural enfraquecimento físico e o surgimento das primeiras fragilidades da saúde, os conflitos, as desilusões relativas às expectativas pastorais, o peso da rotina, a fadiga da mudança e outros condicionamentos sócio-culturais podem vir a enfraquecer o zelo apostólico e a generosidade na própria dedicação ao ministério pastoral.

85.   Em qualquer idade, pode acontecer que um sacerdote necessite de assistência por causa de uma enfermidade. Os sacerdotes idosos e doentes oferecem à comunidade cristã e ao presbitério o próprio testemunho e são um sinal eficaz e eloquente de uma vida doada ao Senhor. É importante que eles continuem a sentir-se parte ativa no presbitério e na vida diocesana, também através de frequentes visitas dos irmãos e da sua proximidade solícita.

86.    São também válidas as iniciativas de apoio aos sacerdotes criadas para a assistência a sacerdotes que exercem o seu ministério numa mesma área geográfica, num mesmo ambiente pastoral, ou em torno de um mesmo projeto.

87.   A fraternidade sacramental constitui um precioso contributo para a formação permanente dos sacerdotes. De fato, o caminho do discipulado exige que se cresça sempre mais na caridade, meio para a «perfeição sacerdotal»123, mas isto não pode realizar-se isoladamente, porque os presbíteros formam um único presbitério, onde a unidade  é  constituída  por  um  «particular  vínculo  de  caridade  apostólica,       de



123  Presbyterorum ordinis, n. 14: AAS (1966), 1013.


ministério e de fraternidade»124. Por isso, a «íntima fraternidade sacramental»125 dos presbíteros é uma clara manifestação da caridade, além de ser um espaço privilegiado para o crescimento desta. Tudo isto se dará com a ajuda do Espírito Santo e não sem um combate espiritual pessoal, que deverá levar à purificação de todas as formas de individualismo.

88.    Entre as modalidades que dão forma concreta à fraternidade sacramental, algumas , em particular, merecem ser propostas desde a formação inicial:

a.  Encontro fraterno: alguns presbíteros organizam encontros fraternos para rezar, talvez lendo comunitariamente a Palavra de Deus segundo o modelo da Lectio Divina, aprofundar algum tema teológico ou pastoral, compartilhar o próprio empenhamento ministerial, ajudar-se mutuamente ou simplesmente passar tempo juntos. Nos seus diversos modos, estes encontros constituem a  expressão mais simples e mais disseminada da fraternidade sacerdotal. Em  todo caso, é muito recomendável promovê-los.

b.     Direção espiritual e confissão: a fraternidade sacramental torna-se uma preciosa ajuda quando assume as formas da direção espiritual e da confissão, que os sacerdotes procuram uns junto dos outros. A regularidade neste tipo de encontros permite manter viva «a tensão dos sacerdotes para a perfeição espiritual da qual, sobretudo, depende a eficácia do seu ministério» 126 . Particularmente em momentos de dificuldade, os presbíteros podem encontrar no Diretor espiritual um irmão que o ajude a fazer um discernimento sobre a
origem dos seus problemas, e a pôr em prática os meios adequados para afrontá-los.

c.   Exercícios espirituais: são de importância fundamental para a vida do sacerdote, enquanto, facilitando o encontro pessoal com o Senhor no silêncio e no recolhimento, constituem um tempo privilegiado de discernimento pessoal e apostólico, para uma revisão progressiva e profunda da própria vida; se propostos comunitariamente para os presbíteros, favorecem uma participação mais numerosa e o reforço da comunhão fraterna.

d.   Mesa comum: na partilha das refeições, os sacerdotes aprendem a conhecer-se,  a escutar-se uns aos outros e a estimar-se, tendo ainda a oportunidade para um intercâmbio amigável profícuo.

e.    Vida comum: alguns presbíteros fazem vida comum, por iniciativa pessoal, ou em virtude de necessidades  pastorais, do costume  ou  de uma  disposição    de

124  Cf. ibid., n. 8: AAS 58 (1966), 1004.
125  Cf. ibid., AAS 58 (1966), 1003.
126 BENTO XVI, Discurso aos participantes da assembléia plenária da Congregação para o Clero (16 de março de 2009): Ensinamentos V/1 (2009), 392.


caráter local127. O viver juntos torna-se uma verdadeira “vida comum” por meio da oração comunitária, da meditação da Palavra de Deus e de outras ocasiões de formação permanente; além do mais, isto permite um intercâmbio  e um confronto quanto aos respectivos compromissos pastorais. A vida comum visa também sustentar o equilíbrio afetivo e espiritual daqueles que nela  tomam parte, e promove a comunhão com o Bispo. Será necessário cuidar para que tais formas permaneçam abertas a todo o presbitério e às necessidades pastorais da diocese.

f.   Associações sacerdotais: estas tendem fundamentalmente a favorecer a unidade dos presbíteros entre si, com todo o presbitério e com o Bispo128. Os membros das diversas associações reconhecidas pela Igreja encontram nestas um amparo fraterno, de cuja necessidade os presbíteros se dão conta, para o seu caminho de santidade e para o seu empenho pastoral129. Alguns sacerdotes pertencem também aos novos movimentos eclesiais, nos quais encontram um clima de comunhão e recebem força para um renovado impulso missionário; outros vivem uma consagração pessoal nos Institutos Seculares «que apresentam como nota específica a diocesanidade» 130 , sem que neles estejam necessariamente incardinados.































127  Cf. C.I.C., cân. 280; Diretório para o ministério e a vida dos presbíteros, n. 38.
128  Cf. C.I.C., cân. 278, §§ 1-2.
129  Cf. Diretório para o ministério e a vida dos presbíteros, n. 106.
130  Pastores dabo vobis, n. 81: AAS 84 (1992), 799.


V


Dimensões da Formação


a)   A integração das dimensões formativas


89.    Segundo quanto foi indicado na Exortação apostólica pós-sinodal Pastores dabo vobis131, são quatro as dimensões que interagem simultaneamente no processo formativo e na vida dos ministros ordenados: a dimensão humana, que representa a “base necessária e dinâmica” de toda vida sacerdotal; a dimensão espiritual, que contribui para caracterizar a qualidade do ministério sacerdotal; a dimensão intelectual, que oferece os necessários instrumentos racionais para compreender os valores próprios do que é ser-se pastor, a fim de procurar encarná-los na própria vida, e  para transmitir  o  conteúdo  da  fé  de modo  adequado;  a dimensão  pastoral,  que
habilita a um serviço eclesial responsável e profícuo.

Cada uma destas dimensões formativas é dirigida à “transformação ou assimilação” do coração à imagem do próprio coração de Cristo132, d’Aquele que, enviado pelo Pai para cumprir o seu desígnio de amor, comoveu-se diante das necessidades humanas (cf. Mt 9,35-36) e foi à procura das ovelhas perdidas (cf. Mt 18,12-14), a ponto de oferecer por elas a sua própria vida (cf. Jo 10,11), não vindo para ser servido, mas para servir (cf. Mt 20,24-28). Como sugerido pelo Concílio Vaticano II133, todo o processo educativo na preparação ao sacerdócio ministerial, de fato, tem por escopo dispor os seminaristas «para comungar da caridade de Cristo, Bom Pastor»134.

90.  O seminarista será chamado, com o sacramento da ordem, a reunir na unidade e a presidir ao Povo de Deus, como guia que favorece e promove a colaboração de todos os fiéis. A formação ao sacerdócio, então, deve realizar-se dentro de um clima comunitário, capaz de favorecer aquelas atitudes que são próprias e funcionais à vida e ao ministério sacerdotal135.

A vida comunitária no Seminário é o contexto mais adequado para a formação de uma verdadeira fraternidade sacerdotal e representa aquele âmbito onde concorrem e interagem as dimensões acima mencionadas, harmonizando-se e integrando-se reciprocamente. A respeito da formação comunitária, e também com o intuito de   um


131  Cf. ibid., nn. 43-59: AAS 84 (1992), 731-762.
132  Cf. Optatam totius, n. 4: AAS 58 (1966), 716; Pastores dabo vobis, n. 57: AAS 84 (1992), 757-759.
133  Cf. Optatam totius, nn. 4 e 19: AAS 58 (1966), 716 e 725-726.
134  Pastores dabo vobis, n. 57: AAS 84 (1992), 757-758.
135 Cf. ibid., n. 65: AAS 84 (1992), 770: « [...] é a Igreja, enquanto tal, o sujeito comunitário que tem a graça e a responsabilidade de acompanhar todos aqueles que o Senhor chama a ser seus ministros no sacerdócio».


melhor conhecimento de cada seminarista, deve-se dar atenção a alguns instrumentos formativos, entre os quais: a comunicação sincera e aberta, a partilha, a revisão de vida, a correção fraterna e a programação comunitária.

O húmus da vocação ao ministério sacerdotal é a comunidade, porquanto é dela que o seminarista provém, para lhe ser de novo enviado a servi-la, depois da ordenação. Seja como seminarista seja como presbítero, existe a necessidade de uma ligação vital com a comunidade. Esta se configura como fio condutor que harmoniza e une as quatro dimensões formativas.

91.    A comunidade cristã é reunida pelo Espírito para ser enviada em missão; então, a aspiração missionária e a sua concreta passagem à prática são algo que pertence ao ser de todo Povo de Deus136, o qual deve colocar-se constantemente “em saída137, por que «a alegria do Evangelho, que preenche a vida da comunidade dos discípulos, é uma alegria missionária»138. Esse impulso missionário diz respeito, em modo ainda mais especial, àqueles que são chamados ao ministério sacerdotal, como fim e horizonte de toda a formação. A missão revela-se como um outro fio condutor (cf. Mc 3,13-14), que une também as dimensões já mencionadas, anima-as e fecunda- as, e permite que o sacerdote, uma vez formado humana, espiritual, intelectual e pastoralmente, possa viver plenamente o próprio ministério, na medida em que «é chamado a ter espírito missionário, isto é, um espírito verdadeiramente “católico” que, partindo de Cristo, se dirige a todos, a fim de que “todos os homens se salvem e cheguem ao conhecimento da verdade” (1Tm 2,4)»139.

92.   O conceito de formação integral reveste a máxima importância, enquanto é a mesma pessoa na sua totalidade, com tudo o que é e com tudo o que possui, a estar ao serviço do Senhor e da comunidade cristã. Aquele que é chamando é um “sujeito integral”, ou seja, um indivíduo previamente escolhido para alcançar uma sólida interioridade, sem cisões ou dicotomias. Para atingir tal objetivo, é necessário adotar um modelo pedagógico integrado: um caminho que consinta à comunidade educativa colaborar com a ação do Espírito Santo, garantindo o justo equilíbrio entre as  diversas dimensões da formação.

Cumpre, portanto, vigiar, a fim de que não se insinuem no processo formativo visões redutoras ou errôneas sobre o presbiterado. Os formadores estejam atentos ao discernir se, naqueles que lhes são confiados, há somente uma mera adesão, exterior e formal, às exigências educativas que lhe são dirigidas; uma atitude semelhante não contribuiria para o seu crescimento integral, mas os acostumaria, mais ou menos inconscientemente, a uma obediência puramente “servil e por interesse”.


136  Cf. Evangelii guadium, n. 119-121: AAS 105 (2013), 1069-1071.
137  Cf. ibid., n. 20: AAS 105 (2013), 1028.
138  Cf. ibid., n. 21: AAS 105 (2013), 1028.
139  Diretório para o ministério e a vida dos presbíteros, n. 16.


b)   A dimensão humana


93.   A chamada divina interpela e envolve o ser humano “concreto”. É necessário que a formação ao sacerdócio ofereça os meios adequados para facilitar o seu amadurecimento, com vista a um exercício autêntico do ministério presbiteral. Para este fim, o seminarista é chamado a desenvolver a própria personalidade, tendo por modelo e fonte Cristo, o Homem perfeito.

A ampla reflexão presente no Novo Testamento a respeito dos critérios de idoneidade dos ministros ordenados 140 , mostra com quanta atenção, já desde as origens, se prestava atenção aos aspectos próprios da dimensão humana. Os Padres  da Igreja elaboraram e praticaram uma assistência ou “terapia” do homem de fé chamado ao serviço apostólico, porque estavam convencidos da profunda  necessidade de amadurecimento que ainda existe em cada homem141. Uma reta e harmoniosa espiritualidade requer uma humanidade bem estruturada; de fato, como recorda São Tomás de Aquino, “a graça pressupõe a natureza142 e não se substitui a esta, mas a aperfeiçoa143 . É então necessário cultivar a humildade, a coragem, o sentido prático, a magnanimidade do coração, a retidão no juízo, a discrição, a tolerância, a transparência, o amor à verdade e à honestidade.

94.      A formação humana, fundamento de toda a formação sacerdotal 144 , promovendo o crescimento integral da pessoa, permite forjar a partir de tal crescimento a totalidade das dimensões. Do ponto de vista físico, essa se interessa por aspectos tais como a saúde, a alimentação, a atividade motora, o descanso; no campo psicológico, ocupa-se da constituição de uma personalidade estável, caracterizada pelo equilíbrio afetivo, o domínio de si e uma sexualidade bem integrada. No âmbito moral, coliga-se à exigência de que o indivíduo chegue progressivamente a ter uma consciência formada, ou seja, que se torne uma pessoa responsável, capaz de tomar decisões justas, dotado de reto juízo e de uma percepção objetiva das pessoas e dos acontecimentos. Tal percepção deverá levar o seminarista a uma equilibrada autoestima, que o conduz a ter noção dos próprios dons, para aprender a colocá-los a serviço do Povo de Deus. Na formação humana, deve-se cuidar também do âmbito estético, oferecendo uma instrução que permita conhecer as diversas manifestações artísticas, educando ao “sentido do belo”, e o âmbito social, ajudando o indivíduo a melhorar a própria capacidade relacional, de modo a poder contribuir para a edificação da comunidade onde vive.

Para que tal ação educativa possa ser fecunda, é importante que cada seminarista tenha  pleno   conhecimento   da  própria   história   de  vida   e   dela   participe-a aos

140  Por exemplo, cf. Mt. 28,20; 1Pd 5,1-4; Tt 1,5-9.
141 Por exemplo, pode-se recordar GREGÓRIO NAZIANZENO, Oratio II: PG 35, 27.
142  TOMÁS DE AQUINO, Summa Theologiae, Ia, q. 2, a. 2, ad 1.
143  Cf. ibid., Ia, q. 1, a. 8, ad 2.
144  Cf. Pastores dabo vobis, n. 43: AAS 84 (1992), 731-732.


formadores, o modo como viveu a infância e a adolescência, as influências exercidas pela família e pelas figuras parentais, a sua capacidade, ou falta dela, de criar relações interpessoais maduras e equilibradas, assim como de gerir de modo positivo os momentos de solidão. Tais informações são relevantes a fim de se poder escolher os instrumentos pedagógicos oportunos, seja para a avaliação do caminho percorrido  seja para a melhor compreensão de eventuais momentos de regressão ou de dificuldade.

95.  Um sinal de harmonioso desenvolvimento da personalidade dos seminaristas é uma madura capacidade relacional com homens e mulheres, de todas as idades e de qualquer condição social. É conveniente fazer referência às considerações sobre o modo como o seminarista se relaciona com as mulheres, tal como está tratado nos documentos do Magistério, onde se lê que isso «cabe ao seminarista não somente na esfera da sua vida pessoal, mas também na perspectiva da sua futura atividade pastoral»145.

O primeiro âmbito onde cada pessoa pode aprende a conhecer e apreciar o mundo feminino é naturalmente a família. Nela, a presença da mulher acompanha todo o percurso formativo e é decisiva, desde a infância, para o crescimento integral de cada pessoa. Além disso, muito contribuem também aquelas mulheres que, com o seu testemunho de vida, oferecem um exemplo de oração e de serviço pastoral,  de espírito de sacrifício e de abnegação, de cuidado e de terna proximidade as outras pessoas. E o mesmo se diga da presença e do testemunho da vida consagrada feminina.

Este conhecimento e aquisição de familiaridade no que diz respeito à realidade feminina, tão presente nas paróquias e em muitos contextos eclesiais, mostra-se conveniente e essencial à formação humana e espiritual do seminarista, e devem ser sempre entendidos em sentido positivo, como recordou João Paulo II: «Faço votos pois [...] que se reflita com particular atenção sobre o tema do “gênio da mulher”, não só para nele reconhecer os traços de um preciso desígnio de Deus, que há-de ser acolhido e honrado, mas também para lhe dar mais espaço no conjunto da vida social, bem como da vida eclesial [...]»146.

96.        O seminarista torna-se capaz de se autodeterminar e de viver a responsabilidade também através do conhecimento da própria fraqueza, sempre presente na sua personalidade. Os formadores, os confessores, os diretores espirituais e os próprios seminaristas devem estar conscientes de que os momentos de crise, se adequadamente compreendidos e tratados, com disponibilidade para aprender com a vida, podem e devem ser ocasião de conversão e de renovação, levando a pessoa a


145  Orientações educativas para a formação ao celibato sacerdotal, n. 60.
146 JOÃO PAULO II, Carta às mulheres (29 de junho de 1995), n. 10: Ensinamentos XVIII/1 (1995), 1879; cf. Orientações educativas para a formação ao celibato sacerdotal, n. 59.


perguntar-se criticamente sobre o caminho percorrido, sobre a própria condição atual, sobre as próprias escolhas e sobre o próprio futuro.

97.   A formação humana constitui um elemento necessário para a evangelização, na medida em que o anúncio do Evangelho passa pela pessoa e é mediado por sua humanidade. «Sereis minhas testemunhas [...] até os confins da terra» (At 1,8); a realidade hodierna obriga-nos a repensar estas palavras de Jesus em modo novo, porque «os confins da terra» ampliaram-se através dos mass-media e das social networks. Trata-se de «uma nova “ágora”, duma praça pública e aberta onde as pessoas partilham ideias, informações, opiniões e podem ainda ganhar vida novas relações e formas de comunidade»147, uma praça da qual os futuros pastores não
podem ficar excluídos, seja em vista do seu processo formativo, seja em vista do seu futuro ministério.

A este respeito, a utilização dos mass-media e a aproximação ao mundo digital são uma parte integrante do desenvolvimento da personalidade do seminarista, porque
«através dos meios modernos de comunicação, o sacerdote poderá dar a conhecer a vida da Igreja e ajudar os homens de hoje a descobrirem o rosto de Cristo, conjugando o uso oportuno e competente de tais meios – adquirido já no período de formação – com uma sólida preparação teológica e uma espiritualidade sacerdotal forte, alimentada pelo diálogo contínuo com o Senhor»148.

98.   A Igreja, em virtude do mandato recebido de Cristo, olha com confiança as possibilidades oferecidas pela realidade digital à evangelização149; trata-se de novos “lugares”, onde tantas pessoas movem-se quotidianamente, são “periferias digitais”, nas quais não pode faltar a proposta de uma autêntica cultura do encontro, no nome de Jesus, para constituir um só Povo de Deus: «os mass-media podem ajudar a sentir- nos mais próximo uns dos outros; a fazer-nos perceber um renovado sentido de unidade da família humana, que impele à solidariedade e a um compromisso sério para uma vida mais digna. Uma boa comunicação ajuda-nos a estar mais perto e a conhecer-nos melhor entre nós, a ser mais unidos»150.

99.    Na maior parte dos casos, aqueles que iniciam o caminho no Seminário já estão normalmente habituados e, de certa maneira, imersos na realidade digital e nos seus instrumentos. É necessário guardar a devida prudência relativamente aos inevitáveis riscos que a frequentação do mundo digital comporta, incluindo várias

147 BENTO XVI, Mensagem para o 47º Dia Mundial da Comunicação Social (12 de maio de 2013): AAS
105 (2013), 181.
148 Cf. Id., Mensagem para o 44º Dia Mundial da Comunicação Social (16 de maio de 2010): AAS 102 (2010), 115-116.
149 FRANCISCO, Mensagem para a 48º Jornada para a Comunicação Social (1º de junho de 2014): AAS
106 (2014), 115: «Abrir as portas das igrejas significa também abri-las no ambiente digital, seja para que  as pessoas entrem, independentemente da condição de vida em que se encontrem, seja para que o Evangelho possa cruzar o limiar do templo e sair ao encontro de todos».
150  Cf. ibid., AAS 106 (2014), 113.


formas de dependência, que poderão ser enfrentadas mediante um adequado auxílio espiritual e psicológico. É conveniente que os seminaristas cresçam neste contexto, considerando que o Seminário é uma escola de fé e de humanidade, para fazer amadurecer a configuração a Cristo, que se faz próximo a toda a humanidade,  também daquela mais distante: «[...] o ícone do bom samaritano, que liga as feridas do homem espancado, deitando nelas azeite e vinho. A nossa comunicação seja  azeite  perfumado  pela  dor  e  vinho  bom pela  alegria.  A  nossa  luminosidade não
derive de truques ou efeitos especiais, mas de nos fazermos próximo, com amor, com ternura»151.

100.     De modo particular, corresponde aos social networks serem inseridos (através de uma gestão vigilante, mas também serena e positiva) no interior da vida quotidiana da comunidade do Seminário. É conveniente que sejam experimentados como lugares de novas possibilidades do ponto de vista das relações interpessoais, do encontro com os outros, do confronto com o próximo, do testemunho de fé, tudo dentro de uma perspectiva de crescimento educativo, que não pode deixar de considerar todos os lugares de relação nos quais se vive.

c)   A dimensão espiritual


101.  A formação espiritual é orientada para alimentar e sustentar a comunhão com Deus e com os irmãos, na amizade com Jesus Bom Pastor e numa atitude de docilidade ao Espírito152. Esta íntima relação forma o coração do seminarista para aquele amor generoso e de oblação que representa o início da caridade pastoral.

102.   O centro da formação espiritual é a união pessoal com Cristo, que nasce e alimenta-se em modo particular na oração silenciosa e prolongada153 . Através da oração, da escuta da Palavra, da participação assídua nos sacramentos, na liturgia e na vida comunitária, o seminarista fortifica o próprio vínculo de união com Deus, à luz do exemplo de Cristo, o qual tinha como programa de vida fazer a vontade do Seu Pai (cf. Jo 4,34). No percurso formativo, o ano litúrgico oferece a mistagogia pedagógica da Igreja, permitindo aprender a espiritualidade que lhe é própria através a interiorização dos textos bíblicos e das orações da liturgia154.
103.     Deve recordar-se que «ignorar as Escrituras é ignorar Cristo» 155 . No processo de amadurecimento espiritual, um lugar eminente está reservado à relação


151  Cf. ibid., AAS 106 (2014), 116.
152  Cf. Presbyterorum ordinis, n. 12: AAS 58 (1966), 1009-1011.
153  Cf. C.I.C., nn. 2709-2719.
154  «Em todo o ano litúrgico pode-se, não somente pela celebração litúrgica, mas por causa da própria vida,
fazer um caminho espiritual para participar intimamente do mistério de Cristo»: SACRADA CONGREGAÇÃO PARA A EDUCAÇÃO CATÓLICA, Instrução sobre a formação litúrgica nos Seminários (03 de junho de 1979), n. 32: Enchiridion Vaticanum 6 (2001), 1590.
155  JERÔNIMO, Commentarii in Isaiam, Prologus: CCL 73, 1.


com a Palavra de Deus 156 , que antes de tornar-se pregação deve ser acolhida profundamente no coração157, «sobretudo no contexto da “nova evangelização”, a qual a Igreja hoje é chamada»158. Ela é uma referência contínua para a vida do discipulado e da configuração espiritual a Cristo Bom Pastor. Os seminaristas precisam ser introduzidos gradualmente no conhecimento da Palavra de Deus, através do método da Lectio Divina159. Uma meditação quotidiana e profunda160, praticada com fidelidade e diligência, na qual convirja também uma fecunda reciprocidade entre estudo e oração, poderá garantir-lhes uma abordagem integral161 seja ao Antigo como ao Novo Testamento.

104.  Em virtude da necessária conformação a Cristo, «os candidatos à ordenação devem, antes de mais, ser formados a uma fé muito viva na Eucaristia»162, em vista daquilo que viverão após a ordenação presbiteral. A participação quotidiana na celebração Eucarística, que encontra a sua natural continuidade na adoração eucarística163, permeia a vida do seminarista, de modo a que, ao longo dela, possa amadurecer uma constante união com o Senhor164.

105.  Na vida de oração de um presbítero não deve faltar a Liturgia das Horas, que representa uma verdadeira e própria “escola de oração” também para os seminaristas165, os quais, aproximando-se gradualmente à oração da Igreja, através do Ofício Divino, aprendem a apreciar a sua riqueza e beleza166.

106.    A celebração regular e frequente do sacramento da Penitência, preparado através  de  um  quotidiano  exame  de  consciência,  torna-se  ocasião  para  que      o

156 BENTO XVI, Exortação apostólica pós-sinodal Verbum Domini (30 de setembro de 2010), n. 82: AAS  102 (2010), 753: «Os aspirantes ao sacerdócio ministerial são chamados a uma profunda relação pessoal com a Palavra de Deus, particularmente na lectio divina, porque é de tal relação que se alimenta a sua vocação: é com a luz e a força da Palavra de Deus que pode ser descoberta, compreendida, amada e  seguida a respectiva vocação e levada a cabo a própria missão, alimentando no coração os pensamentos de Deus, de modo a que a fé, como resposta à Palavra, se torne o novo critério de juízo e avaliação dos homens e das coisas, dos acontecimentos e dos problemas».
157  Cf. ORÍGENES, Homilia in Lucam, XXXII, 2: PG 13, 1884.
158  Pastores dabo vobis, n. 47: AAS 84 (1992), 741.
159  Cf. ibid., n. 47: AAS 84 (1992), 740-742; Verbum Domini, nn. 86-87: AAS 102 (2010), 757-760.
160 Cf. CONCÍLIO ECUMÊNICO VATICANO II, Constituição dogmática sobre a Divina Revelação Dei Verbum (18 de novembro de 1965), n. 21: AAS 58 (1966), 828.
161  Cf. Verbum Domini, n. 82: AAS 102 (2010), 753-754.
162  JOÃO PAULO II, Angelus (1º de julho de 1990), n. 2: Ensinamentos XIII/2 (1990), 7; cf. C.I.C., cân.  246, §1.
163  Cf. Sacramentum caritatis, nn. 66-67: AAS 99 (2007), 155-156; AGOSTINHO, Enarrationes in Psalmos,
98, 9: CCL 39, 1385.
164 Pastores dabo vobis, n. 48: AAS 84 (1992), 743: «Eles deverão ser também educados no sentido de
considerar a celebração eucarística como o momento essencial do seu dia a dia, no qual participarão activamente, jamais se contentando com uma mera assistência rotineira».
165 Cf. Instrução sobre a formação litúrgica nos Seminários, nn. 28-31: Enchiridion Vaticanum 6 (2001), 1583-1588; C.I.C., cân. 276, §2, n. 3.
166 Cf. Pastores dabo vobis, n. 26: AAS 84 (1992), 697-700; cf. também Instrução sobre a formação litúrgica nos Seminários, n. 31: Enchiridion Vaticanum 6 (2001), 1587-1588.


seminarista possa reconhecer, com humildade, as próprias fragilidades e os próprios pecados, e, sobretudo, para que possa compreender e experimentar a alegria de sentir- se amado e perdoado pelo Senhor; ainda, «daqui surgem o sentido da ascese e da disciplina interior, o espírito de sacrifício e de renúncia, a aceitação do cansaço e da cruz»167.

107.     A direção espiritual é um instrumento privilegiado para o crescimento integral da pessoa. O Diretor espiritual seja escolhido livremente pelo seminarista entre os sacerdotes designados pelo Bispo168. Tal liberdade é realmente autêntica somente quando o seminarista abre-se com sinceridade, confiança e docilidade. O encontro com o Diretor espiritual não deve ser ocasional, mas sistemático e regular; a qualidade do acompanhamento espiritual é, de fato, importante para a  própria  eficácia de todo o processo formativo.

Os seminaristas tenham à disposição confessores ordinários e também outros confessores, que venham regularmente ao Seminário; todavia, tenham sempre a possibilidade de dirigir-se livremente a qualquer confessor, seja interno seja externo ao Seminário169. É desejável que, para uma formação integral, o Diretor espiritual possa ser também o confessor habitual.

108.   Os exercícios espirituais anuais170, tempo de profunda revisão no encontro prolongado e orante com o Senhor, vivido num clima de recolhimento e de silêncio, devem ser retomados depois e encontrar uma continuidade, ao longo de todo o ano, nos retiros periódicos e na oração quotidiana. Deste modo, no coração do seminarista plasmado pela ação do Espírito, gradualmente se manifestará e se consolidará o  desejo de oferecer, com generosidade, a própria vida no exercício da caridade pastoral.

109.   Colocando-se no seguimento do Mestre, com fé e liberdade de coração, o seminarista, à luz do exemplo de Cristo, aprende a fazer dom da «própria vontade por meio da obediência ao serviço de Deus e dos irmãos»171. A obediência une-nos a sabedoria de Deus, que edifica a Igreja e indica a cada um o próprio lugar e a missão; cabe, então, aos formadores educar os seminaristas para uma verdadeira e madura obediência, exercendo a autoridade com prudência e encorajando-os assim a dar o seu assentimento, também interior, em modo sereno e sincero.

110.    O conselho evangélico da castidade desenvolve a maturidade da pessoa, tornando-a capaz de viver a realidade do próprio corpo e da própria afetividade na lógica  do  dom.  Esta  virtude  «qualifica  todas  as  relações  humanas  e  leva      “a

167  Pastores dabo vobis, n. 48: AAS 84 (1992), 744.
168  Cf. C.I.C., cân. 239, § 2.
169  Cf. ibid., cân. 240, § 1.
170  Cf. ibid., cân. 246, § 5.
171  Presbyterorum Ordinis, n. 15: AAS 58 (1966), 1014.


experimentar  e a  manifestar  [...]  um amor  sincero, humano  e fraterno, pessoal   e
capaz de sacrifícios, a exemplo de Cristo, para com todos e cada um”»172.

Como sinal desta dedicação total a Deus e ao próximo, a Igreja Latina considera a continência perfeita no celibato pelo Reino dos Céus como especialmente  conveniente para o sacerdócio 173 . Enraizados em Cristo Esposo, e totalmente consagrados ao serviço do Povo de Deus no celibato, os presbíteros «aderem a Ele mais facilmente com um coração indiviso […] mais livremente se dedicam ao serviço de Deus e dos homens […] e tornam-se mais aptos para receberem, de forma mais ampla, a paternidade em Cristo […]»174. Portanto, aqueles que se preparam para o sacerdócio reconheçam e aceitem o celibato como um especial dom de Deus. No âmbito de uma correta educação à afetividade, compreendida como um caminho para a plenitude do amor, «a castidade celibatária não é tanto um tributo que se paga ao Senhor, é muito mais um dom que se recebe da sua misericórdia. A pessoa que entra neste estado de vida deve ser consciente que não se assume somente um peso, mas recebe, sobretudo, uma graça libertadora»175.

Para que a escolha do celibato seja realmente livre, é necessário que os seminaristas possam compreender, à luz da fé, a força evangélica de tal dom176 e, ao mesmo tempo, estimar retamente os valores do estado matrimonial: «Matrimônio e celibato são dois estados de vida autenticamente cristãos. Ambos são modos de realização específica da vocação cristã»177.

Seria gravemente imprudente admitir ao sacramento da Ordem um seminarista  que não tenha amadurecido uma afetividade serena e livre, fiel à castidade celibatária, através do exercício das virtudes humanas e sacerdotais, entendidas como abertura à ação da graça, e não como mera atitude voluntarística relativamente à continência.





172  Pastores dabo vobis, n. 50: AAS 84 (1992), 746.
173  Presbyterorum Ordinis, n. 16: AAS 58 (1966), 1015-1017; C.I.C., cân. 247, § 1.
174  Presbyterorum Ordinis, n. 16: AAS 58 (1966), 1015-1016.
175 Orientações educativas para a formação ao celibato sacerdotal, n. 16; n. 58: «Os seminaristas sejam conduzidos a descobrir a teologia da castidade, mostrando as relações que ocorrem entre a prática desta virtude e todas as grandes verdades do cristianismo. Mostre-se a fecundidade apostólica da virgindade
consagrada, fazendo notar que cada experiência do bem ou do mal leva a modificar o sentido positivo ou negativo do nosso ser, da nossa personalidade e, conseqüentemente, também da nossa ação apostólica».
176 Pastores dabo vobis, n. 29: AAS 84 (1992), 704: «É particularmente importante que o sacerdote compreenda a motivação teológica da lei eclesiástica do celibato. Enquanto lei, exprime a vontade da Igreja, antes mesmo que seja expressa a vontade do sujeito através da sua disponibilidade. Mas a vontade
da Igreja encontra a sua motivação última na conexão que o celibato tem com a Ordenação sagrada, a qual configura o sacerdote a Cristo Jesus, Cabeça e Esposo da Igreja. Esta como Esposa de Cristo quer ser amada pelo sacerdote do modo total e exclusivo com que Jesus Cristo Cabeça e Esposo a amou. O celibato sacerdotal, é então, o dom de si em e com Cristo à sua Igreja e exprime o serviço do presbítero à Igreja no e com o Senhor».
177  Orientações educativas para a formação ao celibato sacerdotal, n. 6.


Nos casos em que sejam admitidos nos Seminários latinos seminaristas das Igrejas orientais católicas, no que diz respeito à sua formação ao celibato ou ao matrimônio, sejam observadas as normas e os costumes das respectivas Igrejas orientais178.
111.  Os seminaristas cultivem de modo concreto o espírito de pobreza179. Sejam, pois, instruídos a imitar o coração de Cristo que, «de rico que era, tornou-se pobre» (2Cor 8,9), para nos enriquecer. Procurem adquirir a verdadeira liberdade e docilidade dos filhos de Deus, atingindo aquela maestria espiritual que é necessária para alcançar uma justa relação com o mundo e com os bens terrenos180; assumam, desse modo, o estilo dos Apóstolos, convidados por Cristo a confiar na Providência, “sem nada levar na viagem” (cf. Mc 6,8-9). Coloquem especialmente no coração os
mais pobres e os mais fracos, e, já habituados a uma generosa e voluntária renúncia a tudo que não seja necessário, sejam testemunhas de pobreza, através da simplicidade e da austeridade da vida181, para tornar-se promotores sinceros e credíveis de uma verdadeira justiça social182.

112.  Os seminaristas sejam convidados a cultivar uma autêntica e filial devoção à Virgem Maria183, seja através da memória que a liturgia lhe reserva seja por meio da piedade popular, particularmente com a recitação do Santo Rosário e do Angelus Domini. Isto tendo em consideração que «cada aspecto da formação sacerdotal pode ser referido a Maria como à pessoa humana que correspondeu, mais do  que  qualquer outra, à vocação de Deus, que se fez serva e discípula da Palavra até conceber no seu coração e na sua carne o Verbo feito homem para dá-Lo à humanidade»184.

Não se esqueça ainda a importância de uma sincera devoção aos Santos, e, entre estes, São José, esposo de Maria e patrono da Igreja Universal, «chamado por Deus para servir diretamente a Pessoa e a missão de Jesus, mediante o exercício da sua paternidade» 185 ; proponham-no e façam-no conhecer aos seminaristas, para que tenham «sempre diante dos olhos o seu modo humilde e amadurecido de servir e de “participar” na economia da salvação»186.




178  Cf. C.C.E.O., cânn. 343 e 373-375.
179 Presbyterorum Ordinis, n. 17: AAS 58 (1966), 1017-1018; cf. também Evangelii gaudium, n. 198: AAS
105 (2013), 1103; FRANCISCO, Discurso aos seminaristas, aos noviços e as noviças provenientes de várias partes do mundo por ocasião do Ano da Fé (06 de julho de 2013): Ensinamentos I/2 (2013), 9.
180  Pastores dabo vobis, n. 30: AAS 84 (1992), 706: «Só a pobreza assegura ao presbítero a  disponibilidade
para ser enviado onde o seu trabalho se torna mais útil e urgente, mesmo com sacrifício pessoal».
181  Cf. AMBRÓSIO, De officiis ministrorum, II, 28: PL 16, 139-142.
182  Cf. Pastores dabo vobis, n. 30: AAS 84 (1992), 705-707.
183  Cf. C.I.C., cân. 246, § 3.
184  Pastores dabo vobis, n. 82: AAS 84 (1992), 802.
185  JOÃO PAULO II, Exortação apostólica Redemptoris custos (15 de agosto de 1989), n. 8: AAS 82  (1990),
14.
186  Cf. ibid., n. 1: AAS 82 (1990), 6.


113.    Como componente da dimensão espiritual 187 , deverão estar presentes o conhecimento e a meditação dos Padres da Igreja, testemunhas da vida milenária do Povo de Deus. Nos Padres, «o sentido da novidade da vida cristã unia-se a certeza  da fé. Daí emanava nas comunidades cristãs do seu tempo uma “vitalidade explosiva”, um fervor missionário, um clima de amor que inspirava as almas ao heroísmo da vida quotidiana»188.

114.   Sejam ainda promovidas e encontrem espaço tanto as práticas devocionais, quanto algumas expressões ligadas à religiosidade ou à piedade popular, sobretudo aquelas formas aprovadas pelo Magistério189; mediantes estas, os futuros presbíteros adquirem familiaridade com a “espiritualidade popular”, que deverão discernir, orientar e acolher, em nome da necessária caridade e eficácia pastoral190.

115.   Para aqueles que são chamados ao sacerdócio e ao ministério pastoral, é importante cuidar do progressivo desenvolvimento de algumas virtudes  específicas191: «a fidelidade, a coerência, a sapiência, o acolhimento de todos, a afável bondade, a autorizada firmeza quanto às coisas essenciais, a libertação de pontos de vista demasiado subjetivos, o desprendimento pessoal, a paciência, o gosto pela tarefa diária, a confiança no trabalho escondido da graça que se manifesta nos simples e nos pobres»192; além disso, para se tornar realmente um pastor segundo o Coração de Jesus, o sacerdote, «consciente da misericórdia imerecida de Deus na própria vida e na vida dos seus irmãos, deve cultivar a virtude da humildade e da misericórdia para com todo o povo de Deus, especialmente em relação àquelas pessoas que se sentem alheias à Igreja»193.

d)   A dimensão intelectual


116.   A formação intelectual destina-se a levar os seminaristas a atingirem uma sólida competência no âmbito filosófico e teológico, mas também uma preparação cultural de caráter geral, de tal maneira que lhes permita anunciar, de modo credível e compreensível aos homens de hoje, a mensagem evangélica, estabelecer um diálogo profícuo com o mundo contemporâneo, e sustentar, com o lume da razão, a verdade da fé, mostrando a sua beleza.



187 Cf. Optatam totius, n. 16: AAS 58 (1996), 723-724; CONGREGAÇÃO PARA A EDUCAÇÃO CATÓLICA, Instrução sobre estudo dos Padres da Igreja na formação sacerdotal (10 de novembro de 1989), n. 45.
188 Instrução sobre estudo dos Padres da Igreja na formação sacerdotal, n. 44.
189  Cf. CONGREGAÇÃO PARA O CULTO DIVINO E A DISCIPLINA DOS SACRAMENTOS, Diretório
sobre a piedade popular e liturgia (17 de dezembro de 2001), nn. 61-64.
190 Cf. PAULO VI, Exortação apostólica Evangelii nuntiandi (08 de dezembro de 1975), n. 48: AAS 68 (1976), 37-38; Evangelii gaudium, nn. 122;126: AAS 105 (2013), 1071-1073.
191  Cf. C.I.C., cânn. 244-245, § 1.
192  Pastores dabo vobis, n. 26: AAS 84 (1992), 700.
193  Diretório para o ministério e a vida dos presbíteros, n. 46.


Com diligente cuidado, os candidatos ao presbiterado deverão preparar-se, através do aprofundamento das ciências filosóficas e teológicas, e com uma boa introdução ao direito canônico e às ciências sociais e históricas, a “dar razão da esperança” (cf. 1Pd 3,15), a fim de favorecer o conhecimento da Revelação de Deus e de levar todas as nações à obediência da fé (cf. Rm 16,26).

A razão aberta ao mistério de Deus e orientada para Ele permite um acolhimento sólido da Revelação, favorece o seu aprofundamento quanto ao respectivo conteúdo,  e oferece instrumentos e linguagens para anunciá-la ao mundo. Como afirmava o Concílio Vaticano II, o conhecimento filosófico e teológico serve para «ouvir, discernir e interpretar as várias linguagens do nosso tempo, e julgá-las à luz da palavra de Deus, de modo a que a verdade revelada possa ser cada vez mais intimamente percebida, melhor compreendida e apresentada de um modo conveniente»194.

117.  A formação intelectual é parte da formação integral do presbítero; aliás, está ao serviço do seu ministério pastoral e incide também sobre a formação humana e espiritual, que daquela retiram um profícuo alimento. Isto significa que o desenvolvimento de todas as faculdades e dimensões da pessoa, incluindo aquela racional, com o vasto campo dos conhecimentos adquiridos, contribui para o crescimento do presbítero, servo e testemunha da Palavra na Igreja e no mundo. Longe de ser relegada somente para o campo do conhecimento ou de ser entendida apenas como instrumento para receber mais informações sobre cada uma das disciplinas, a formação intelectual acompanha os presbíteros a fim de que os mesmos se disponham a escutar com profundidade a Palavra, mas também a própria comunidade eclesial, para assim aprenderem a perscrutar os sinais dos tempos.

118.   O estudo aprofundado e orgânico da filosofia e da teologia é o instrumento mais adequado para se fazer própria aquela forma mentis que permite fazer face às perguntas e aos desafios que se apresentam no exercício do ministério, interpretando- os numa ótica de fé. Por um lado, é necessário não descuidar a sólida e adequada qualidade da formação intelectual; por outro, deve-se recordar que o cumprimento  das obrigações relativas ao estudo não pode ser o único critério para determinar a duração do processo formativo do candidato ao sacerdócio, pelo fato de que o estudo, mesmo sendo importante, e não sendo sequer secundário, representa, ainda assim, um aspecto somente da formação integral com vista ao presbiterado. Cada Ratio nacional cuidará para que sejam ampliados os elementos essenciais previstos por esta Ratio Fundamentalis relativamente à formação intelectual, considerando as especificidades históricas e culturais de cada país.






194  Gaudium et spes, n. 44: AAS 58 (1966), 1065.


e)   A dimensão pastoral


119.  Uma vez que a finalidade do Seminário é preparar os seminaristas para serem pastores à imagem de Cristo, a formação sacerdotal deverá estar permeada por um espírito pastoral que os torne capazes de ter aquela mesma compaixão, generosidade, amor por todos, especialmente pelos mais pobres, e pronta solicitude pela causa do Reino, que caracterizaram o ministério público do Filho de Deus, e que se podem resumir na  caridade pastoral.

Naturalmente, porém, deve ser oferecida uma formação de caráter especificamente pastoral195, que ajude o seminarista na aquisição daquela liberdade interior necessária para viver o apostolado como serviço, capaz de enxergar a ação de Deus no coração e na vida dos homens. Vivida deste modo, a atividade pastoral configura-se para o mesmo ministro ordenado como uma permanente escola de evangelização. Neste tempo, o seminarista iniciará a colocar-se como guia de um grupo e a estar presente nele como homem de comunhão, através da escuta, do atento discernimento, da cooperação  com outros  e da promoção  da ministerialidade. De  modo  particular, os
seminaristas devem ser devidamente instruídos a colaborar com os diáconos permanentes e com o mundo laical, valorizando o papel específico destes. É necessário que os candidatos ao ministério presbiteral recebam uma conveniente formação sobre a natureza evangélica da vida consagrada nas suas múltiplas expressões, sobre o seu carisma próprio e sobre aspectos canônicos, tendo em vista uma profícua colaboração.

120.  A chamada a serem Pastores do Povo de Deus exige uma formação que faça dos futuros sacerdotes peritos na arte do discernimento pastoral, isto é, capazes de um entendimento profundo das situações reais do quotidiano e de realizar um bom juízo em suas escolhas e decisões. Para realizar o discernimento pastoral, deve colocar-se no centro o estilo evangélico da escuta, que liberta o Pastor das tentações da abstração, do protagonismo, da excessiva segurança de si e daquela frieza que o tornaria “um contabilista do espírito”, ao invés de “um bom samaritano”196. Quem se coloca à escuta de Deus e dos irmãos sabe que é o Espírito a guiar a Igreja para toda a
verdade (cf. Jo 16,13), e que esta, em coerência com o mistério da Encarnação, se desvela lentamente na vida real do homem e nos sinais da história.





195 Pastores dabo vobis, n. 58: AAS 84 (1992), 759-760: «A proposta educativa do seminário se encarrega de uma verdadeira e autêntica iniciação à sensibilidade de pastor, à assunção consciente e amadurecida das suas responsabilidades, ao hábito interior de avaliar os problemas e de estabelecer as prioridades e meios de solução, sempre na base de claras motivações de fé e segundo as exigências teológicas da própria pastoral»; cf. C.I.C., cân. 258.
196 Cf. FRANCISCO, Evangelii gaudium, n.33: AAS 105 (2013), 1034; Amoris laetitia,  n.  300; FRANCISCO,  Homilia  para  o  Jubileu  dos  Sacerdotes  e  dos  Seminaristas  (03  de  junho  de       2016):
L’Osservatore Romano 126 (04 de junho de 2016), 8.


Assim, o Pastor aprende a sair das próprias certezas preconcebidas e não pensará no próprio ministério como uma série de coisas a fazer ou de normas a aplicar, mas fará da própria vida o “lugar” da acolhedora escuta de Deus e dos irmãos197.
Na escuta atenta, respeitosa e sem juízos preconcebidos, o Pastor tornar-se-á capaz de fazer uma leitura da vida dos outros não sendo superficial nem julgando, entrando no coração das pessoas e nos seus distintos contextos de vida, e perscrutando sobretudo aqueles obstáculos internos e externos que, por vezes, tornam mais problemática a sua ação. Ele será capaz de interpretar com sabedoria e compreensão qualquer tipo de condicionamento em que as pessoas se movam, aprendendo a propor escolhas espirituais e pastorais viáveis, atendendo ao modo de vida dos fiéis e ao ambiente sociocultural circunstante.
O olhar do Bom Pastor que procura, acompanha e guia as suas ovelhas, introduzi- lo-á numa visão serena, prudente e compassiva; ele desenvolverá o seu  ministério num estilo de sereno acolhimento e de vigilante acompanhamento de todas as situações, também daquelas mais complexas, mostrando a beleza e as exigências da verdade evangélica, sem cair na obsessão legalista e rigorista. Em tal modo, saberá propor percursos de fé através de pequenos passos, que podem ser melhor apreciados e acolhidos. Ele se tornará assim sinal de misericórdia e compaixão, testemunhando a face materna da Igreja que, sem renunciar às exigências da verdade evangélica, evita transformá-las em pedregulhos, preferindo guiar com compaixão sem excluir ninguém.

121.  Pelo fato de os não praticantes, os não crentes e aqueles que professam uma outra religião serem também destinatários do cuidado pastoral, os seminaristas são chamados a aprender a colocar-se em diálogo e a anunciar o Evangelho de Cristo a todos os homens, compreendendo as suas expectativas mais profundas e respeitando  a liberdade de cada um. Os formadores ensinem, portanto, aos futuros pastores como criar novos “espaços” e novas oportunidades pastorais, para ir ao encontro daqueles que não compartilham plenamente a fé católica, mas procuram,  com boa vontade, uma resposta exaustiva e autêntica aos seus questionamentos mais profundos.

122.     Uma sólida formação pastoral exige não somente o exercício de uma atividade de caráter apostólico, mas também o estudo da teologia pastoral, a qual, sempre que necessário, se serve do profícuo contributo das ciências humanas, especialmente da psicologia, da pedagogia e da sociologia.

123.   Neste esforço para alcançar a “estatura” e a marca pastoral para a  missão, será de grande ajuda e estímulo o exemplo dos sacerdotes que precederam os candidatos no ministério – também aqueles agora idosos – e dos Pastores que   guiam

197 Id., Angelus (17 de julho de 2016): L’Osservatore Romano 163 (18-19 de julho de 2016), 1: «O hóspede não deve ser simplesmente servido, alimentado, cuidado de todos os modos. É necessário, sobretudo, que seja ouvido. […] Porque o hóspede deve ser acolhido como pessoa, com a sua história, com o seu coração rico de sentimentos e de pensamentos, de modo a que se possa sentir deveras em família».


as Dioceses, bem como dos Bispos eméritos; tratar-se-á, então, de fazer conhecer e apreciar a “tradição pastoral” da Igreja local onde serão incardinados ou exercerão o ministério, a fim de facilitar a sua sucessiva inserção na vida pastoral.

Os seminaristas sejam animados por um espírito autenticamente católico; amando sinceramente a própria Diocese, estejam dispostos, caso lhes venha a ser pedido ou se eles mesmos o desejarem, a colocar-se ao serviço específico da Igreja Universal ou  de outras Igrejas particulares com generosidade e dedicação198.

124.   Segundo o prudente juízo dos Bispos, sejam introduzidos, durante todo o período da formação, nos tempos e nos modos mais oportunos, e valorizando especialmente os dias e os períodos livres de lições acadêmicas, algumas experiências de apostolado, indispensáveis para a formação integral do candidato, devendo ser ajustadas de acordo com a idade e as circunstâncias dos seminaristas. Cada Seminário, trabalhando em sintonia e estreito contato com as demais instituições diocesanas, empenhe-se em definir a experiência do estágio pastoral, inserindo-a ao longo do ano, a fim de evitar que possa de qualquer modo prejudicar os restantes compromissos formativos. Uma grande atenção será dispensada aos ambientes nos quais os seminaristas desenvolverão os seus tirocínios pastorais; em modo  particular,
«na escolha dos lugares e serviços adaptados ao exercício pastoral, deve reservar-se uma especial atenção à paróquia célula vital das experiências pastorais setoriais e especializadas, na qual virão a encontrar-se de fronte aos problemas particulares do seu futuro ministério»199.

Uma especial atenção deve ser reservada também à preparação dos seminaristas relativamente às modalidades específicas de acompanhamento pastoral das crianças, dos jovens, dos doentes, dos idosos, das pessoas com deficiências, dos presos, e de quantos vivem em situações de solidão ou de pobreza200 – devido eventualmente à   sua condição de migrantes 201 –; dedique-se ainda especial atenção ao campo fundamental da pastoral familiar202.

Tais experiências devem ser conduzidas por sacerdotes, consagrados e leigos realmente experimentados e prudentes, que dêem a cada seminarista uma  determinada incumbência, instruindo-o sobre a concreta modalidade de ação, e, sempre que possível, estando eles próprios presentes durante o desenvolvimento dessas mesmas atividades, para oportunamente aconselhar e apoiar o seminarista, e ajudá-lo depois a avaliar o serviço prestado.


198  Cf. Evangelii gaudium, n. 273: AAS 105 (2013), 1130.
199  Pastores dabo vobis, n. 58: AAS 84 (1992), 760.
200  Cf. Evangelii guadium, n. 270: AAS 105 (2013), 1128.
201 Cf. CONGREGAÇÃO PARA A EDUCAÇÃO CATÓLICA, A pastoral da mobilidade humana na formação dos futuros sacerdotes (25 de janeiro de 1986).
202 Cf. Id., Diretrizes sobre a formação dos seminaristas acerca dos problemas relacionados ao matrimônio  e à família (19 de março de 1995).


VI


Os Agentes da Formação


125.    O principal agente da formação sacerdotal é a Santíssima Trindade, que plasma cada seminarista segundo o desígnio do Pai, seja através da presença de  Cristo na sua Palavra, nos sacramentos e nos irmãos da comunidade, seja através da multiforme ação do Espírito Santo203. Na formação daqueles que Cristo chama e no discernimento vocacional, o primado da ação do Espírito Santo exige  recíproca escuta e cooperação entre os membros da comunidade eclesial, sacerdotes, diáconos, consagrados e leigos.

126.   Nas Igrejas particulares existe a Igreja Católica, una e única204. Apesar de normalmente, a formação ao presbiterado se realizar no contexto eclesial próprio de uma Diocese ou das instituições a que pertença o candidato, o ministério presbiteral é aberto à universalidade da Igreja 205 , implicando, por isso, uma eventual disponibilidade às necessidades mais urgentes de outras Dioceses.

A referência à Igreja local do candidato constitui, ainda assim, o contexto imprescindível do processo formativo. A Igreja local é, ao mesmo tempo, lugar onde as regras do discernimento vocacional encontram aplicação e testemunha dos progressos alcançados por cada candidato, em direção àquela maturidade humana e cristã exigida com vista à ordenação presbiteral.

127.   Os membros da comunidade diocesana a que pertence o candidato são co- responsáveis pela formação presbiteral, segundo distintos níveis, modos e competências: o Bispo, como Pastor responsável pela comunidade diocesana; o presbitério, como âmbito de comunhão fraterna no exercício do ministério ordenado; a comunidade dos formadores do Seminário, como mediação espiritual e pedagógica; os professores, oferecendo o suporte intelectual que torna possível a formação integral; o pessoal administrativo, os profissionais e especialistas, com o testemunho de fé e de vida, e também da sua competência profissional; finalmente, os próprios seminaristas, como protagonistas do processo de amadurecimento integral, juntamente com a família de cada um, a paróquia de origem, e eventualmente as associações, movimentos ou outras instituições eclesiais.





203  Cf. Pastores dabo vobis, n. 65: AAS 84 (1992), 770-772.
204 C.I.C., cân. 368: «As Igrejas particulares, nas quais e das quais existe a una e única Igreja Católica, são primariamente as dioceses [...]».
205  Pastores dabo vobis, n. 18: AAS 84 (1992), 684-686.


a)   O Bispo diocesano


128.    O primeiro responsável pela admissão ao Seminário e pela formação ao sacerdócio é o Bispo206. Tal responsabilidade se exprime na escolha do Reitor e dos membros da comunidade dos formadores 207 , na elaboração e na aprovação dos estatutos, do projeto educativo e do regulamento do Seminário208.

É necessário que o Bispo saiba instaurar um diálogo confiante com  os seminaristas para facilitar neles uma sincera abertura; de fato, «o Bispo diocesano ou os bispos interessados, se se tratar de um seminário interdiocesano, visitem com freqüência o Seminário, vigiem o respeitante à formação dos alunos bem como ao ensino filosófico e teológico que nele é ministrado, informem-se sobre a vocação, índole, piedade e aproveitamento dos alunos, sobretudo tendo em vista conferir-lhes as ordens sagradas»209. O Bispo deve prestar diligente atenção para não exercer a própria autoridade de maneira a desautorizar o Reitor e os demais formadores no
discernimento da vocação dos candidatos e da sua oportuna preparação; espera-se que, «com os responsáveis do Seminário, mantenha o Bispo frequentes contatos pessoais,como sinal de confiança, para os animar em seu trabalho e fazer com que entre eles reine um espírito de total harmonia, de comunhão e de colaboração»210. Tenha-se presente, para o bem da Igreja, que a caridade pastoral, seja qual for o nível de responsabilidade do agente da formação, não se pratica admitindo ao Seminário qualquer pessoa que se apresente interessada, mas proporcionando uma ponderada orientação vocacional e um válido processo formativo.

No caso dos Seminários interdiocesanos, ou aqueles que acolhem seminaristas enviados de uma diocese a uma outra Igreja particular211, o diálogo entre os Bispos interessados, o mútuo acordo sobre a metodologia formativa a ser adotada, e a confiança depositada nos responsáveis do Seminário, constituem os pressupostos necessários para um bom resultado da atividade educativa.

As celebrações litúrgicas presididas pelo Bispo na catedral manifestam o mistério da Igreja e tornam visível a unidade do Povo de Deus212; tendo embora em conta os compromissos formativos no Seminário, será conveniente que também os seminaristas nelas tomem parte, nos momentos mais significativos do ano litúrgico e da vida diocesana.

206 Cf. ibid., n. 65: AAS 84 (1992), 770-772; cf. também Diretrizes sobres preparação dos educadores nos Seminários,  n.  1:  Enchiridion  Vaticanum  13  (1996),  3151-3152;  Apostolorum  successores,  n.  88:
Enchiridion Vaticanum 22 (2006), 1774-1776.
207  Cf. C.I.C., cân. 239.
208  Cf. ibid., cânn. 242-243.
209  Cf. ibid., cân. 259, § 2.
210  Apostolorum successores, n. 89: Enchiridion Vaticanum 22 (2006), 1780.
211  Cf. C.I.C., cân. 237.
212 CONGREGAÇÃO PARA O CULTO DIVINO, Caerimoniale Episcoporum, edição típica, 1984, nn. 11- 13, publicado com o decreto Recognitis ex decreto, de 14 de setembro de 1984: AAS 76 (1984), 1086-1087.


b)   O presbitério


129.  O Clero da Igreja particular esteja em comunhão e em sintonia profunda com o Bispo diocesano, partilhando da sua solicitude pela formação dos candidatos, através da oração, do afeto sincero, do amparo e das visitas ao Seminário. Cada presbítero deve ser consciente da própria responsabilidade formativa em relação aos seminaristas; em modo particular, os párocos e, em geral, todos os sacerdotes que acolhem seminaristas para o tirocínio pastoral, colaborem generosamente com a comunidade dos formadores do Seminário através de um diálogo franco e concreto. As modalidades práticas para levar a cabo a colaboração dos presbíteros com o Seminário poderão variar segundo as diversas etapas do processo formativo.

c)   Os seminaristas


130.     Cada seminarista, como já foi lembrado, é o protagonista da própria formação e é chamado a um caminho de constante crescimento no âmbito humano, espiritual, intelectual e pastoral, levando em consideração a própria história pessoal e familiar. Os seminaristas são outrossim responsáveis pela criação e manutenção de um clima formativo que seja coerente com os valores evangélicos.

131.  Os seminaristas são chamados, individualmente e como grupo, a  demonstrar
    não somente no comportamento exterior – haver interiorizado um estilo de vida autenticamente sacerdotal, na humildade e no serviço aos irmãos, sinal da escolha amadurecida de quem está a seguir Cristo de modo especial213.

d)   A comunidade dos formadores


132.  A comunidade dos formadores é constituída por presbíteros escolhidos e bem preparados214, responsáveis por colaborar na delicada missão da formação sacerdotal. É necessário que existam formadores destinados exclusivamente a tal função, a fim  de que se lhe possam dedicar inteiramente; por isso, é importante que vivam no Seminário. Regularmente, a comunidade dos formadores junto com o Reitor deve encontrar-se para rezar, programar a vida do Seminário e verificar periodicamente o crescimento dos seminaristas.

O grupo dos formadores não constitui somente uma necessidade institucional, mas é, antes de mais, uma verdadeira comunidade educadora, que oferece um testemunho coerente e eloquente dos valores próprios do ministério sacerdotal. Edificados e encorajados por este testemunho, os seminaristas acolherão com docilidade e convicção as propostas formativas que lhes serão dirigidas.

213 BENTO XVI, Homilia para a ordenação presbiteral de 15 diáconos da Diocese de Roma (07 de maio de 2006): Ensinamentos II/1 (2006), 550-555.
214 Cf. Diretrizes sobre a preparação dos educadores nos Seminários, n. 1: Enchiridion Vaticanum 13  (1996), 3151-3152.


133.     Segundo o Código de Direito Canônico 215 , a comunidade mínima dos formadores para a direção de um Seminário é constituída por um Reitor e um Diretor Espiritual. Todavia, a composição numérica do grupo dos formadores deve necessariamente ser adequada e proporcional ao número de seminaristas, chegando a abranger mais de um Diretor Espiritual, além de um Vice Reitor, um Ecônomo e outros formadores, como, por exemplo, coordenadores para as diferentes dimensões formativas, quando as circunstâncias assim o exigirem.

134.   O Reitor216 será um presbítero que se distingue pela prudência, sabedoria e equilíbrio, altamente competente217 e que coordena a ação educativa do governo do Seminário218. Com fraterna caridade, ele estabelecerá com os outros educadores uma profunda e leal colaboração. É representante legal do Seminário, em âmbito eclesiástico como naquele civil219. O Reitor, em comunhão com o formador colocado em cada etapa e com o Diretor Espiritual, esforce-se para oferecer os meios necessários para o discernimento e o amadurecimento vocacional.

135.  O Vice Reitor deve possuir a necessária idoneidade no campo formativo e é chamado a auxiliar, com a devida discrição, o Reitor no seu serviço educativo, e na ausência deste, a substituí-lo; em geral, o Vice Reitor «deve demonstrar notáveis dotes pedagógicos, amor entusiasta no seu serviço e espírito de colaboração»220.

136.  O Bispo terá o cuidado de escolher sacerdotes competentes e experientes para a direção espiritual, que é um dos meios privilegiados para acompanhar cada seminarista no seu discernimento vocacional. O Diretor, ou Padre Espiritual, deve ser um verdadeiro mestre de vida interior e de oração, que ajude o seminarista a acolher a chamada divino e a amadurecer uma resposta livre e generosa.

Sobre este «recai a responsabilidade pelo caminho espiritual dos seminaristas no foro interno e pela condução e a coordenação dos vários exercícios de piedade e da vida litúrgica do Seminário»221. Nos Seminários com mais de um Diretor Espiritual, um deles será o “coordenador da dimensão espiritual”. Caber-lhe-á moderar a vida litúrgica, coordenar as atividades dos outros Diretores Espirituais e dos eventuais confessores externos222, predispor o programa dos exercícios espirituais anuais e   dos



215  Cf. C.I.C., cân. 239.
216 Cf. Diretrizes sobre a preparação dos educadores nos Seminários, n. 43: Enchiridion Vaticanum 13 (1996), 3224-3226.
217  Cf. ibid., n. 60: Enchiridion Vaticanum 13 (1996), 3252-3253.
218  Cf. C.I.C., cân. 260.
219  Cf. ibid., cân. 238, § 2.
220 Diretrizes sobre a preparação dos educadores nos Seminários, n. 45: Enchiridion Vaticanum 13 (1996), 3228.
221  Cf. ibid, n. 44: Enchiridion Vaticanum 13 (1996), 3227.
222  Cf. C.I.C., cân. 240, § 1.


retiros mensais, assim como as celebrações do ano litúrgico, e, junto com o Reitor, favorecer a formação permanente dos Diretores Espirituais.

137.   Onde as circunstâncias o exijam, um dos formadores será responsável por “coordenar a dimensão humana”. Ele trabalhará de modo a instaurar um clima comunitário propício para o processo de amadurecimento humano dos seminaristas em colaboração com outras pessoas competentes (no âmbito psicológico, desportivo, médico etc.).

Estando a organização dos cursos de estudo a cargo do Seminário, um dos formadores será o “coordenador da dimensão intelectual”. Ser-lhe-á pedido que programe um plano de estudos a ser aprovado pela autoridade eclesiástica  competente, e que acompanhe e ampare os professores, com particular atenção pela preparação acadêmica, pela fidelidade ao Magistério e pela atualização periódica destes. Cabe a ele coordenar a secretaria de estudos e ser o responsável pela biblioteca.

Se os seminaristas frequentarem cursos acadêmicos numa Universidade ou Faculdade, o “coordenador da dimensão intelectual” deverá inteirar-se sobre sua vida acadêmica e segui-los, observando a integração intelectual das matérias estudadas e predispondo um plano formativo complementar, para integrar os aspectos e temas da formação não tratados na Universidade ou Faculdade.

O formador que assume a função de “coordenador da dimensão pastoral” deverá ocupar-se da formação pastoral, teórica e prática. Caberá a ele identificar os lugares idôneos para o tirocínio pastoral e organizar as experiências de apostolado, em diálogo com os sacerdotes, religiosos e/ou fiéis leigos.

138.     O Ecônomo 223 , no despacho dos aspectos administrativos, assume um verdadeiro papel educativo no interior da comunidade do Seminário. Ele deverá ter a noção da incidência que os diversos ambientes de vida podem ter sobre os seminaristas em formação, e do valor que um uso honesto e evangélico dos bens materiais assume, com vista a uma educação dos seminaristas no espírito de pobreza sacerdotal.

139.    A comunidade dos formadores trabalha no interior de uma “comunidade educativa” que é mais ampla, e, no cumprimento da sua missão, terá isso em conta. Por “comunidade educativa” entende-se o conjunto dos agentes envolvidos na formação sacerdotal: o Bispo, os formadores, os professores, o pessoal  administrativo, os trabalhadores, as famílias, as paróquias, os consagrados, os especialistas, e, obviamente, os próprios seminaristas, que não será possível um


223 Cf. Diretrizes sobres preparação dos educadores nos Seminários, n. 45: Enchiridion Vaticanum 13 (1996), 3228.


bom processo formativo sem a sua total cooperação 224 . Todos eles devem ser conscientes da função educativa que desempenham e da importância da sua coerência de vida.

e)   Os professores


140.   Os professores dos Seminários sejam nomeados pelo Bispo ou, no caso de Seminários interdiocesanos, pelos Bispos interessados, depois de haver consultado, caso se considere conveniente, o Reitor e o corpo docente. Tal função, em razão da responsabilidade formativa que comporta 225 , exige um verdadeiro mandado. Os docentes e os seminaristas são chamados a aderir com plena fidelidade à Palavra de Deus, contida na Escritura, transmitida na Tradição e interpretada autenticamente  pelo Magistério. Estes alcançam o sentido vivo da Tradição pelas obras dos Santos Padres e de outros Doutores que na Igreja são tidos em grande consideração.

141.  A formação intelectual dos candidatos é colocada sob a responsabilidade do Reitor e da comunidade dos formadores. Com a eventual presença do “coordenador da dimensão intelectual”, os formadores assegurarão a colaboração e encontros regulares com os professores e com outros especialistas para tratar de questões relativas ao ensino, com o objetivo de promover mais eficazmente a formação  integral dos seminaristas. Os professores ocupem-se do andamento dos estudos de cada seminarista. O empenho dos seminaristas no trabalho intelectual pessoal em todas as matérias, deve ser considerado um critério de discernimento vocacional e uma condição para o crescimento progressivo na fidelidade ao futuro comprometimento ministerial.

142.  No cumprimento das respectivas funções, os professores considerem-se parte de uma única comunidade docente 226 , e também verdadeiros educadores 227 ; procurem, por isso, guiar os seminaristas no sentido daquela unidade do saber que encontra o seu cumprimento em Cristo, Caminho, Verdade e Vida228.

A síntese do saber que se exige do seminarista abrace, além do o âmbito  científico, todos os mais âmbitos que dizem respeito à vida sacerdotal. Os  professores, compartilhando e tomando a seu cargo o projeto formativo do Seminário, no que lhes compete, estimulem e ajudem os seminaristas a progredir tanto no âmbito do conhecimento e da pesquisa científica quanto naquele da vida espiritual.




224  Cf. C.I.C., cân. 233, § 1.
225  Pastores dabo vobis, n. 67: AAS 84 (1992), 774-775.
226  Cf. ibid., 67: AAS 84 (1992), 774-775.
227 Cf. Diretrizes sobre a preparação dos educadores nos Seminários, n. 45: Enchiridion Vaticanum 13 (1996), 3228.
228  Cf. ibid., n. 46: Enchiridion Vaticanum 13 (1996), 3229-3231.


143.   O número dos professores deve ser proporcional e suficiente às exigências didáticas e ao número de seminaristas. É preferível que a maioria do corpo docente seja constituída por sacerdotes, que poderão assegurar uma abordagem também pastoral à sua matéria, recorrendo diretamente à sua experiência pessoal. Tal indicação encontra a seu motivo no fato de que os professores não transmitem somente noções, mas contribuem para “gerar” e formar novos sacerdotes229.

Em algumas situações, poderá tornar-se conveniente a contribuição educativa de membros de Institutos de Vida Consagrada, de Sociedade de Vida Apostólica ou de leigos. Na diversidade da vocação, cada docente apresente aos seminaristas uma noção acerca do próprio carisma, afirme o sentido da própria pertença à Igreja e ofereça um coerente testemunho de vida evangélica.

144.   Os professores devem estar munidos do título acadêmico adequado230: para  as ciências sagradas e a filosofia, exige-se pelo menos a licença canônica, o mestrado ou título equivalente; para as outras disciplinas, os graus  acadêmicos correspondentes. Estando dotados de experiência e capacidade no âmbito pedagógico, esperar-se-á também dos docentes que possuam um conhecimento adequado das disciplinas afins àquela por eles tratada231.

f)   Os especialistas


145.   Vários especialistas podem ser chamados para oferecer a sua contribuição, como, por exemplo, no âmbito médico, pedagógico, artístico, ecológico, administrativo, e no uso dos meios de comunicação.

146.   No processo formativo para o presbiterado, a presença e a assistência de especialistas em determinadas disciplinas revela-se útil pela respectiva qualidade profissional e pelo apoio que podem oferecer, sempre que certas situações particulares assim o exijam. Na seleção dos especialistas, além das suas qualidades humanas e da sua competência específica, deve levar-se em consideração o seu perfil de crente232. Os seminaristas devem ver a sua presença, não como uma imposição, mas como a oferta de uma ajuda preciosa e qualificada para as suas eventuais necessidades. Cada especialista deve limitar-se a intervir no campo que lhe é próprio, sem se pronunciar em mérito à idoneidade dos seminaristas ao sacerdócio.

147.   No âmbito psicológico, tal contribuição é preciosa, seja para os formadores seja  para  os  seminaristas,  principalmente  em  dois  momentos:  na  avaliação     da


229 Cf. Optatam totius, n. 5: AAS 58 (1966), 716-717; Cf. Diretrizes sobre a preparação dos educadores nos Seminários, n. 27: Enchiridion Vaticanum 13 (1996), 3196-3197.
230  Cf. C.I.C., cân. 253, § 1.


personalidade, exprimindo um parecer sobre a saúde psíquica do candidato, e no acompanhamento terapêutico, para trazer à luz eventuais problemáticas e ajudar no crescimento da maturidade humana233. Algumas normas a levar em conta no uso  desta ciência serão apresentadas no VIII capítulo.

g)   A família, a paróquia e outras realidades eclesiais


148.   Habitualmente a vocação surge no interior de um contexto comunitário, no qual o seminarista viveu uma experiência de fé. Por esta razão, a formação sacerdotal inicial deve ter em conta tal interlocutor. Tanto a família quanto a paróquia de origem ou de referência, ou ainda outras realidades comunitárias eclesiais234, contribuem para apoiar e alimentar em modo significativo a vocação de quantos são chamados ao sacerdócio, tanto durante o período da formação como ao longo da vida do presbítero235.

Na realidade, «os laços familiares são fundamentais para fortificar a auto-estima sadia dos seminaristas. Por isso, é importante que as famílias acompanhem todo o processo do Seminário e do sacerdócio, pois ajudam a revigorá-lo de forma realista»236.

Ao mesmo tempo, o percurso formativo deve também educar, desde o início, no sentido daquela liberdade interior que permite a justa autonomia no exercício do ministério e um sadio distanciamento em face de eventuais expectativas da respectiva família, na medida em que a chamada do Mestre exige “lançar mão do arado, sem olhar para trás” (cf. Lc. 9,62).

149.  O Seminário é chamado não só a desenvolver um trabalho educativo com os seminaristas, mas também a empreender uma verdadeira ação pastoral com as famílias. É necessário que, com realismo e maturidade humana e cristã, os seminaristas saibam reconhecer e aceitar a própria realidade familiar, enfrentar eventuais problemas, e, se possível, até mesmo compartilhar com a família o próprio projeto vocacional. O trabalho pastoral do Seminário em torno da família dos seminaristas contribui, seja para o amadurecimento cristão desta, seja para a aceitação da chamada ao sacerdócio de um de seus membros como uma bênção, valorizando-o e apoiando-o ao longo de toda a vida.





233 Cf. Orientações para a utilização das competências psicológicas na admissão e na formação dos candidatos ao sacerdócio: Enchiridion Vaticanum 25 (2011), 1239-1289.
234 Cf. CONGREGAÇÃO PARA A DOUTRINA DA  FÉ, Carta Iuvenescit  Ecclesia  aos  Bispos  da   Igreja
católica sobre a relação entre os dons hierárquicos e carismáticos para a vida e a missão da Igreja (15 de  maio de 2016): L’Osservatore Romano 135 (15 de junho de 2016), 1, 4-5; ibid. 136 (16 de junho de 2016), 7.
235  Cf. Pastores dabo vobis, n. 68: AAS 84 (1992), 775-778.


h)   A vida consagrada e os leigos na formação


150.   A presença no Seminário de leigos e de pessoas pertencentes ao âmbito da vida consagrada representa um importante ponto de referência no processo formativo dos candidatos. Os seminaristas sejam formados no sentido de uma justa valorização dos diversos carismas presentes na comunidade diocesana; o presbítero, de fato, é chamado a ser o animador da diversidade dos carismas no interior da Igreja. A vida consagrada representa um sinal, eloquente e atraente, da radicalidade evangélica e de disponibilidade para o serviço. Por sua vez, os fiéis leigos cooperem na missão evangelizadora  de  Cristo  e  ofereçam  edificantes  testemunhos  de  coerência  e  de
escolhas de vida segundo o Evangelho237.

151.     A presença da mulher no percurso formativo do Seminário, entre os especialistas ou no âmbito do ensino, do apostolado, das famílias ou do serviço à comunidade, tem um valor formativo próprio, também em ordem ao reconhecimento da complementaridade entre homem e mulher. As mulheres representam muitas vezes uma presença numericamente mairoitária entre os destinatários e os colaboradores da ação pastoral do sacerdote, oferecendo um edificante testemunho de serviço humilde, generoso e desinteressado238.

i) A formação permanente de todos os agentes


152.  O empenho próprio dos agentes da formação pode ser entendido como uma disposição interior que, enraizada numa intensa experiência espiritual e orientada por um constante discernimento, permite aprender a partir da vida e das diversas circunstâncias, e descobrir nelas a ação providencial de Deus no percurso cristão ou sacerdotal de cada um. Pela profundidade desta disposição mede-se a qualidade do serviço oferecido aos seminaristas, e, ao mesmo tempo tempo, depende também dela que exista um clima formativo sereno no Seminário.

Ao desenvolver tal missão, o formador vive uma oportunidade de crescimento e pode descobrir o carisma específico do acompanhamento vocacional e da vida sacerdotal como chamada que o caracteriza de maneira pessoal. Nesse sentido, o Seminário pode também tornar-se uma escola que prepara os encarregados pela formação permanente; isto é, quem foi formador no Seminário adquire uma particular sensibilidade e uma rica experiência para, posteriormente, poder acompanhar a formação permanente do Clero239.



237 Ibid.., n. 162: «Aqueles que foram chamados à virgindade podem encontrar, nalguns casais de esposos, um sinal claro da fidelidade generosa e indestrutível de Deus à sua Aliança, que pode estimular os seus corações a uma disponibilidade mais concreta e oblativa».
238 Cf. Pastores dabo vobis, n. 66: AAS 84 (1992), 772-774; JOÃO PAULO II, Exortação apostólica pós- sinodal Christifideles laici (30 de dezembro de 1988), nn. 49 e 51: AAS 81 (1989), 487-489 e 491-496.
239  Cf. Pastores dabo vobis, nn. 70-81: AAS 84 (1992), 778-800.


VII


Organização dos Estudos


153.     «A formação intelectual dos candidatos ao sacerdócio encontra a sua específica justificação na própria natureza do ministério ordenado e manifesta a sua urgência atual de fronte ao desafio da “nova evangelização”, à qual o Senhor chama a Igreja»240. Para garantir aos futuros sacerdotes uma adequada formação intelectual, todas as disciplinas sejam ensinadas de tal modo que claramente se perceba a sua íntima conexão, evitando-se a fragmentação. Trata-se de um percurso unitário, integral 241 , do qual todas as matérias são “peças” importantes para apresentar o mistério de Cristo e da Igreja, e para amadurecer uma visão autenticamente cristã do homem e do mundo.

«A situação atual, profundamente marcada pela indiferença religiosa e ao mesmo tempo por uma difusa desconfiança relativamente às reais capacidades da razão  para atingir a verdade objetiva e universal, e pelos problemas e questões inéditas provocadas pelas descobertas científicas e tecnológicas, exige prementemente um nível excelente de formação intelectual, que torne os sacerdotes capazes de anunciar, exatamente num tal contexto, o imutável Evangelho de Cristo, e torná-lo digno de credibilidade diante das legítimas exigências da razão humana. Acrescente-se ainda que o atual fenômeno do pluralismo, bem acentuado não só no âmbito da sociedade humana  mas  também  no  da  própria  comunidade  eclesial, requer  uma particular
atitude de discernimento crítico: é um ulterior motivo, que demonstra a necessidade de uma formação intelectual o mais séria possível»242.

154.   A seguir, serão propostas as diversas disciplinas que configuram o plano geral dos estudos. Na Ratio Nationalis deverá aparecer o plano das matérias que dizem respeito à formação intelectual em cada etapa formativa, indicando brevemente os objetivos de cada disciplina, a sua contextualização no percurso global, o programa, além do plano dos anos e dos semestres, e o número de créditos atribuídos a cada curso.

Leve-se em consideração que o estudo das matérias propedêuticas deverá ocupar pelo menos um ano; a duração dos estudos de filosofia deve corresponder a pelo menos um biênio, ou a um côngruo número de horas semestrais, segundo os sistemas escolásticos vigentes em alguns Países, enquanto aqueles de teologia se prolongarão durante pelo menos um quadriênio (ou um número de horas semestrais proporcional), em tal modo que globalmente os estudos teológicos e filosóficos abracem ao    menos

240  Cf. ibid., n. 51: AAS 84 (1992), 748.
241  Cf. C.I.C., cân. 254, § 1.
242  Cf. Pastores dabo vobis, n. 51: AAS 84 (1992), 749.


seis anos243 (ou, de acordo com outros planos de estudos, a mesma quantidade de matérias escolásticas que são tratadas comumente nos seis anos).

As matérias que a seguir serão indicadas para os estudos propedêuticos,  filosóficos e teológicos, juntamente àqueles “ministeriais”, constituem a estrutura essencial dos estudos nos Seminários e em todas as Casas de formação, e poderão ser integradas e adaptadas pelas Conferências Episcopais, considerando a sua tradição formativa e as específicas necessidades pastorais.

a)   O estudo das matérias propedêuticas


155.   Embora se trate de uma etapa prévia e preparatória ao estudo filosófico e teológico, o propedêutico coloca o acento não somente sobre o aspecto intelectual,
«mas também e, sobretudo, humano e espiritual» 244 ; «em particular, é urgente assegurar um justo equilíbrio entre a componente humano-espiritual e a cultural, para evitar uma multiplicação excessiva das matérias de estudo com prejuízo da formação propriamente religiosa e sacerdotal»245.

156.  Acerca das matérias a estudar no período propedêutico, deve ter-se presente a situação da sociedade e da Igreja particular onde se desenvolve o projeto educativo. Deverá ser assegurada a solidez dos elementos essenciais da formação intelectual,  que contribuirão para o sucessivo percurso formativo.

Tenha-se o cuidado de assegurar «uma conhecimento bastante amplo da doutrina da fé»246 e dos elementos de compreensão do ministério presbiteral, e corrigir as eventuais lacunas que se detectassem nos candidatos ao sacerdócio no final dos estudos secundários em âmbitos que lhes sejam necessários.

157.     A seguir, elencam-se, em modo exemplificativo, algumas matérias que podem caracterizar os estudos propedêuticos:

a.  iniciação à leitura da Sagrada Escritura, que permita um primeiro conhecimento da Bíblia em todas as suas partes;
b.    introdução ao mistério de Cristo247 e da Igreja, à teologia do sacerdócio e à liturgia, mediante o estudo do Catecismo da Igreja Católica e dos livros litúrgicos;

243  Cf. C.I.C., cân. 250.
244  O período propedêutico, III, n. 1.
245  Cf. ibid., III, n. 6.
246  Cf. Pastores dabo vobis, n. 62: AAS 84 (1992), 767.
247  Cf. O período propedêutico, III, n. 2. Em geral, o curso de introdução ao mistério de Cristo tende a   levar
o seminarista a compreender o significado dos estudos eclesiásticos, a sua estrutura e a sua finalidade pastoral; ao mesmo tempo, junto com a leitura atenta da Palavra de Deus, permite também ajudar os seminaristas para que possam dar sólido fundamento à sua fé, bem como compreender mais profundamente e abraçar com maior maturidade a vocação sacerdotal.


c.     introdução ao Magistério da Igreja, antes de tudo, aquele Pontifício, e aos documentos do Concílio Vaticano II;
d.    elementos de espiritualidade presbiteral, com particular atenção às principais “escolas” espirituais e aos Santos que ofereceram o testemunho de uma vida sacerdotal exemplar;
e.    elementos de história da Igreja universal e da Igreja local, especialmente nos aspectos missionários;
f.    hagiografia, com referência aos Santos e aos Beatos próprios da diocese ou da região;
g.   elementos de cultura humanística, através do conhecimento de obras de autores nacionais, e das religiões não cristãs do País e da região;
f. elementos de psicologia, que podem ajudar os seminaristas no conhecimento de si;

b)   Os estudos filosóficos


158.     O estudo da filosofia «leva a uma compreensão e interpretação mais profunda da pessoa, da sua liberdade, das suas relações com o mundo e com Deus. Aquela revela-se de grande importância, não apenas pelo nexo que existe entre os argumentos filosóficos e os mistérios da salvação estudados em teologia, à luz superior da fé, mas também face a uma situação cultural bastante generalizada que exalta o subjetivismo como critério e medida da verdade [...]. Nem é de subestimar a importância da filosofia no sentido de garantir aquela "certeza da verdade", a única que pode estar na base da entrega pessoal a Jesus Cristo e à Igreja»248.

159.     Quanto às matérias para estudar no âmbito filosófico, uma particular importância seja atribuída à filosofia sistemática, que conduz a um sólido e coerente conhecimento do homem, do mundo e de Deus, garantindo uma síntese ampla do pensamento e de diferentes perspectivas. Esta formação deve basear-se sobre o patrimônio filosófico perenemente válido, de que são testemunhas os grandes filósofos cristãos.

Deve considerar-se as pesquisas filosóficas do nosso tempo – sobretudo daquelas que exercem uma maior influência no próprio País –, e o progresso das ciências modernas, de tal modo que os seminaristas, justamente conscientes das características salientes da sociedade, sejam adequadamente preparados ao diálogo com os homens. Para facilitar o estudo das matérias filosóficas, os seminaristas deverão  ser preparados mediante a aprendizagem de uma específica “metodologia filosófica”.

160.      Neste momento da formação, um espaço adequado será reservado à metafísica, enquanto «o caráter sapiencial da filosofia implica o seu “alcance autenticamente metafísico, isto é, capaz de transcender os dados empíricos para




alcançar,   na   sua   pesquisa   da   verdade,   a   algo   de   absoluto,   de   último, de
fundamento”, embora conhecido progressivamente ao longo da história»249, segundo
«a “vocação originária” da filosofia: a pesquisa do verdadeiro e a sua dimensão sapiencial e metafísica»250. Será também necessário dedicar atenção à teodiceia e à cosmologia, que introduzem a uma visão cristã da realidade.

161.     Ensine-se ainda com diligência a “história da filosofia”, a fim de que resultem claros a gênese e o desenvolvimento dos temas mais importantes. A  “história da filosofia” tem o objetivo de recolher a continuidade da reflexão e do pensamento humano sobre o Absoluto, sobre a verdade e sobre a possibilidade de conhecê-la. Os estudos filosóficos constituem também um fértil terreno de diálogo e de confronto com os não crentes.

162.  Outras matérias às quais se deverá dedicar atenção no decurso desta fase dos estudos são a antropologia filosófica, a lógica, a estética, a epistemologia, a ética, a filosofia política e a filosofia da religião.

163.     Devida atenção será dada às ciências humanas, como a sociologia, a pedagogia e a psicologia, nos aspectos considerados mais adequados ao percurso formativo com vista ao ministério sacerdotal, a fim de fazer crescer nos seminaristas  a capacidade de conhecer o âmago humano, com as suas riquezas e fragilidades, e de facilitar a formulação de juízos serenos e equilibrados sobre pessoas e situações.

164.   Através deste percurso de estudos, será possível estimular nos    seminaristas
«o amor à investigação rigorosa da verdade, observação e demonstração, reconhecendo ao mesmo tempo honestamente os limites do conhecimento humano», também na ótica pastoral, destacando «com cuidado à relação entre a filosofia e os verdadeiros problemas e questões da vida»251.

c)   Os estudos teológicos


165.  A formação teológica «deve levar o candidato ao sacerdócio a possuir uma visão das verdades reveladas por Deus em Jesus Cristo e da experiência de fé da Igreja que seja completa e unitária: daqui a dúplice exigência de conhecer "todas"  as verdades cristãs, sem fazer opções arbitrárias e de as conhecer de modo orgânico»252. Trata-se, pois, de uma fase qualificadora e fundamental do percurso de formação  intelectual, porque «por  meio do  estudo, particularmente da teologia,    o

249 CONGREGAÇÃO PARA A EDUCAÇÃO CATÓLICA, Decreto de reforma dos estudos eclesiáticos de filosofia (28 de janeiro de 2011), n. 4: AAS 104 (2012), 219; cf. também SACRA CONGREGAÇÃO PARA A EDUCAÇÃO CATÓLICA, Carta circular O ensinamento da filosofia nos seminários (20 de janeiro de 1972): Enchiridion Vaticanum 4 (1971-1973), 1516-1556 .
250 CONGREGAÇÃO PARA A EDUCAÇÃO CATÓLICA, Decreto de reforma dos estudos eclesiásticos de filosofía, n. 3: AAS 104 (2012), 219.
251  Optatam totius, n. 15: AAS 58 (1966), 722.


futuro sacerdote adere à palavra de Deus, cresce na sua vida espiritual e dispõe-se a desempenhar o seu ministério pastoral»253.
166.   O estudo da Sagrada Escritura é a alma da teologia254; aquela deve inspirar todas as disciplinas teológicas. Seja atribuída, portanto, a devida importância à formação bíblica, em todos os níveis, da Lectio à exegese 255 . Partindo de uma conveniente introdução, os seminaristas sejam cuidadosamente iniciados aos métodos exegéticos, também com a ajuda de disciplinas auxiliares e de  cursos  especiais. Sejam idoneamente instruídos pelos professores a respeito da natureza e da solução para os principais problemas hermenêuticos, e ajudados eficazmente a adquirir uma visão de conjunto sobre toda a Sagrada Escritura, e a compreender com profundidade os pontos salientes da história da salvação e as características de cada um dos livros bíblicos. Os professores esforcem-se para oferecer aos seminaristas uma síntese teológica da divina Revelação, conforme ao Magistério, a fim de assegurar sólidos fundamentos à sua vida espiritual e à sua futura pregação.

Aos seminaristas seja oferecida a oportunidade de aprender algumas noções de língua hebraica e de grego bíblico, por meio das quais possam aproximar-se dos textos bíblicos originais; uma especial atenção seja dada também ao conhecimento da cultura e do contexto bíblicos, particularmente a história hebraica, a fim de melhorar  a compreensão da Sagrada Escritura e atingir uma correta relação interior com os irmãos da Antiga Aliança.

167.  A sagrada liturgia deve ser considerada uma disciplina fundamental; importa apresentá-la sob o aspecto teológico, espiritual, canônico e pastoral, em conexão com as outras disciplinas, a fim de que os seminaristas cheguem ao conhecimento de  como os mistérios da salvação estão presentes e operam nos atos litúrgicos. Além disso, uma vez ilustrados os textos e os ritos, do Oriente como do Ocidente, a sagrada liturgia deverá ainda ser considerada como expressão da fé e da vida espiritual da Igreja. Os seminaristas aprendam o núcleo substancial e imutável da liturgia, e o que pertence  a  particulares  sedimentações  históricas  –  sendo  por  isso  suscetível    de
atualização –, tratando-se, em todo o caso, de observar diligentemente a legislação litúrgica e canônica na matéria256.



253  Cf. ibid., n. 51: AAS 84 (1992), 749.
254  Cf. Dei Verbum, n. 24: AAS 58 (1966), 828-829.
255 BENTO XVI, Exortação apostólica pós-sinodal Verbum Domini, n. 35: AAS 102 (2010), 714-715: criou- se «um fosso profundo entre exegese científica e lectio divina. E precisamente daqui nasce às vezes uma forma de perplexidade na própria preparação das homilias. Além disso, que assinalar que tal dualismo
produz às vezes incerteza e pouca solidez no caminho de formação intelectual mesmo de alguns candidatos aos ministérios eclesiais. Enfim, “onde a exegese não é teologia, a Escritura não pode ser a alma da teologia e, vice-versa, onde a teologia não é essencialmente interpretação da Escritura na Igreja, esta teologia já não tem fundamento”. Portanto, é necessário voltar decididamente a considerar com mais atenção as indicações dadas pela Constituição dogmática Dei Verbum a este propósito».
256  Cf. C.I.C., cân. 838.


168.  A teologia dogmática, incluindo os sacramentos, seja ensinada sistemática e ordenadamente, de maneira a que, antes de tudo, sejam expostos os textos bíblicos; depois, a propósito da transmissão e do desenvolvimento da compreensão das verdades reveladas, dêem-se a conhecer os contributos dos Padres da Igreja do Oriente e do Ocidente; ilustre-se o progresso histórico da compreensão dos dogmas; finalmente, mediante o exame especulativo, os seminaristas aprendam a penetrar  mais plenamente nos mistérios da salvação e a colher as conexões existentes entre eles; aprendam ainda a interpretar e enfrentar as situações da vida à luz da Revelação, a perceber as verdades eternas nas condições mutáveis da realidade humana e a comunicá-las convenientemente ao Povo de Deus.

Desde o início da formação teológica, seja apresentada de modo idôneo a doutrina sobre as fontes teológicas e a teologia fundamental; não se omita, no espírito ecumênico e nas formas adaptadas às circunstâncias hodiernas, tudo o que diz respeito à introdução à fé, com os seus fundamentos racionais e existenciais, tendo também presentes os elementos de ordem histórico e sociológico que exercem particular influxo sobre a vida cristã.

169.   Também a teologia moral, em todos os seus ramos, deverá ser ancorada na Sagrada Escritura, para assim mostrar a sua intrínseca ligação ao único mistério da salvação. Ela há de ilustrar o agir cristão dos fiéis assente sobre a fé, sobre a esperança e sobre a caridade, como resposta à vocação divina, expondo em modo sistemático a sua chamada à santidade e à liberdade. Ocupar-se-á também de suscitar o valor da virtude e o sentido do pecado, sem negligenciar, para tal fim, as aquisições mais recentes da antropologia, e propondo-se como um caminho por vezes exigente, mas sempre orientado para a alegria da vida cristã.

Esta doutrina moral, compreendida como “lei de liberdade” e “vida segundo o Espírito”, tem o seu complemento na teologia espiritual, que deve abraçar também o estudo da teologia e da espiritualidade sacerdotal, da vida consagrada mediante a prática dos conselhos evangélicos, e daquela laical. A ética cristã é chamada a formar os discípulos, cada um segundo os sinais da própria vocação, rumo à via da santidade. Em tal contexto, será necessário prever no curriculum dos estudos um curso de teologia da vida consagrada, para que os futuros pastores possam adquirir os dados essenciais e os conteúdos teológicos identificadores da vida consagrada, que pertence à vida e à santidade da própria Igreja.

170.  A teologia pastoral «é uma reflexão científica sobre a Igreja no seu edificar- se quotidiano, com a força do Espírito, dentro da história [...] A pastoral não é apenas uma arte nem um complexo de exortações, de experiências ou de métodos; possui uma plena dignidade teológica, porque recebe da fé os princípios e critérios de ação pastoral da Igreja na história, de uma Igreja que se "gera" em cada dia a si mesma. [...] Entre estes princípios e critérios, se encontra aquele particularmente


importante do discernimento evangélico das situações socioculturais e eclesiais, no seio das quais se desenrola a ação pastoral»257.

171.  No contexto do aumento da mobilidade humana, em que o mundo inteiro se transformou numa “aldeia global”, não poderá faltar no plano de estudos a missiologia, como genuína formação à universalidade da Igreja e promoção do impulso evangelizador, não somente como missio ad gentes, mas também como nova evangelização.

172.     Será necessário que um suficiente número de lições seja reservado ao ensinamento da Doutrina Social da Igreja, considerando que o anúncio e o  testemunho do Evangelho, ao qual o presbítero está chamado, tem um importante raio de ação na sociedade humana, e visa, entre outras coisas, a construção do Reino de Deus. Isto implica um aprofundado conhecimento da realidade e uma leitura evangélica das relações humanas, sociais e políticas que determinam a existência dos indivíduos e dos povos. Neste horizonte, cabem importantes temas inerentes à vida  do Povo de Deus, amplamente tratados no Magistério da Igreja258, incluindo a   busca
do bem comum, o valor da solidariedade entre os povos e da subsidiariedade, a educação dos jovens, o trabalho com os direitos e os deveres relativos a tal tema, o significado da autoridade política, os valores da justiça e da paz, as estruturas sociais de assistência e acompanhamento dos mais necessitados.

Há algum tempo que a atenção de especialistas e estudiosos dedicados a diversas áreas de pesquisa se vem concentrando sobre uma emergente crise planetária, que encontra grande eco no atual Magistério e diz respeito ao “problema ecológico”. A salvaguarda da criação e o cuidado com a nossa casa comum – a Terra – inserem-se na visão cristã do homem e da realidade a pleno título, representando, de certo modo, o pano de fundo para uma sadia ecologia nas relações humanas, e, por isso, exigem, sobretudo hoje, uma «conversão ecológica, que comporta deixar emergir, nas relações com o mundo que os rodeia, todas as conseqüências do encontro com Jesus. Viver a vocação de guardiões da obra de Deus não é algo de opcional nem um aspecto secundário da experiência cristã»259. Por conseguinte, será necessário que os futuros presbíteros sejam fortemente sensibilizados a respeito deste tema, e, através das orientações magisteriais e teológicas necessárias, sejam ajudados a «reconhecer a grandeza, a urgência e a beleza do desafio que temos pela frente»260, e a traduzi-la


257  Pastores dabo vobis, n. 57: AAS 84 (1992), 758-759.
258 Por exemplo, cf. LEÃO XIII, Carta Encíclica Rerum novarum (15 de maio de 1891): AAS 23 (1890- 1891), 641-670; JOÃO XXIII, Carta Encíclica Mater et Magistra (15 de maio de 1961): AAS 53 (1961),
401-464; PAULO VI, Carta Encíclica Popolorum progressio (26 de março de 1967): AAS 59 (1967), 257
-299; JOAO PAULO II, Carta Encíclica Centesimus annus (1º de maio de 1991): AAS 83 (1991), 793-867; BENTO XVI, Carta Encíclica Caritas in veritate (29 de junho de 2009): AAS 101 (2009), 641-709.

259  FRANCISCO, Carta Encíclica Laudato si’ (24 de maio de 2015), n. 217: L’Osservatore Romano 137 (19
de junho de 2015), 6.
260  Cf. ibid., n. 15: L’Osservatore Romano 137 (19 de junho de 2015), 4.


futuramente no seu próprio ministério pastoral, fazendo-se promotores de um adequado cuidado relativamente a todos os temas ligados à tutela da criação.

173.   A história eclesiástica deve ilustrar a origem e o desenvolvimento da Igreja como Povo de Deus que se difunde no tempo e no espaço, examinando cientificamente as fontes históricas. Na sua exposição, é necessário que se leve em consideração o progresso das doutrinas teológicas e da concreta situação social, econômica e política, bem como das opiniões e formas de pensar que exerceram  maior influência, sem deixar de indagar a recíproca interdependência e o desenvolvimento de tais aspectos. Dever-se-á, por fim, colocar em destaque o maravilhoso encontro da ação divina e daquela humana, favorecendo nos  seminaristas o genuíno sentido da Igreja e da Tradição. É necessário também que seja atribuída a devida atenção à história da Igreja no próprio País.

174.  O Direito Canônico seja ensinado a partir de uma sólida visão do mistério da Igreja, à luz do Concílio Vaticano II261. Na exposição dos princípios e das normas, dever-se-á mostrar como todo o ordenamento canônico e a disciplina eclesiástica devem estar em correspondência com a vontade salvífica de Deus, havendo como suprema lex a salvação das almas. Portanto, retomando as palavras usadas para a promulgação do Código de 1983, pode afirmar-se que o Direito da Igreja no seu conjunto «pode, de certo modo, ser considerado como grande esforço de transferir, para a linguagem canonística [...] a eclesiologia conciliar. Se é impossível que a
imagem de Igreja descrita pela doutrina conciliar se traduza perfeitamente na linguagem canonística, o Código, não obstante, deve sempre referir-se a essa imagem como modelo primordial, cujos traços, enquanto possível, ele deve em si, por sua natureza, exprimir»262. O Direito Canônico coloca-se então ao serviço da ação do Espírito na Igreja e, dentro de um reto discernimento das situações eclesiais, favorece um exercício pastoral eficaz.

Neste sentido é oportuno que, durante o tempo da formação inicial, se promova a cultura e o estudo do Direito Canônico, para que os sacerdotes possam tomar consciência de que, especialmente no âmbito da pastoral familiar, muitos problemas ou “feridas” podem encontrar um remédio nos instrumentos do Direito da Igreja, favorecendo-se «continuamente, segundo os dons e a missão de cada um, o bem dos fiéis»263.

175.  Da mesma maneira, considerem-se como partes integrantes do percurso dos estudos teológicos outras disciplinas, como o ecumenismo e a história das religiões,  e,  em  especial  aquelas  mais  difundidas  em  cada  País.  Além  disso,  sabendo que

261  Cf. Optatam totius, n. 16: AAS 58 (1966), 723-724.
262 JOÃO PAULO II, Constituição apostólica Sacrae disciplinae leges (25 de janeiro de 1983): AAS 75 (1983), Pars II, p. XI.
263 FRANCISCO, Carta Apostolica em forma de “Motu Proprio” Mitis Iudex Dominus Iesus (15 de agosto de 2015): L’Osservatorio Romano 204 (9 de setembro de 2015), 3.


evangelizamos também procurando enfrentar os diferentes desafios que se nos  podem apresentar264, dever-se-á prestar muita atenção aos destinatários do anúncio  da fé e, por isso, aos questionamentos e às provocações emergentes da  cultura secular: a economia de exclusão, a idolatria do dinheiro, a iniquidade que gera violência, a primazia da aparência do ser, o individualismo pós-moderno e globalizado, e a realidade do relativismo ético e da indiferença religiosa265.

d)   As matérias “ministeriais”


176.   Estas disciplinas são matérias cujo conhecimento se exige, sobretudo por causa das exigências específicas do futuro ministério pastoral266, a ser exercido num contexto concreto e numa época precisa. Segundo os tempos e as modalidades que cada Ratio Nationalis estabelecerá, será da responsabilidade de cada Seminário assegurar que o ensinamento de tais disciplinas seja transmitido aos seminaristas durante o percurso da formação. A proposta e o aprofundamento de tais matérias constituirão uma base útil e imprescindível para a vida e o crescimento, humano e espiritual, dos futuros sacerdotes, e para o seu ministério.

177.  De modo particular, será oportuno aprofundar a ars celebrandi, para ensinar como participar frutuosamente dos santos mistérios, e o modo, na prática, de celebrar a liturgia, no respeito e na fidelidade aos livros litúrgicos.

Uma especial atenção será dedicada à homilia267, enquanto esta «é o ponto de comparação para avaliar a proximidade e a capacidade de encontro de um Pastor com o seu povo»268. Isto se revelará de especial utilidade nos outros âmbitos do ministério, como a pregação litúrgica e a catequese, que são compromissos permanentes para os presbíteros, na missão de favorecer o crescimento da comunidade a eles confiadas. A preparação do anúncio da mensagem cristã não é somente “técnica”, uma vez que «um pregador é um contemplativo da Palavra e também um contemplativo do povo. [...] Trata-se de relacionar a mensagem do texto bíblico com uma situação humana, com algo que as pessoas vivem, com uma experiência que precisa da luz da Palavra»269.

178.  Para bem dispor e preparar à administração do sacramento da Reconciliação, será de grande importância que exista um curso específico de iniciação ao ministério da  confissão, a  fim de  ajudar os  seminaristas  a traduzir os  princípios  da   teologia

264  Evangelii gaudium, n. 61: AAS 105 (2013), 1045.
265  Cf. ibid., nn. 52-75: AAS 105 (2013), 1041-1051.
266  Cf. C.I.C., cân. 256, § 1.
267  Cf. CONGREGAÇÃO PARA O CULTO DIVINO E A DISCIPLINA DOS SACRAMENTOS, Diretório
homilético (29 de junho de 2014); cf. Evangelii gaudium, nn. 135-144: AAS 105 (2013), 1076-1080; FRANCISCO, Carta apostólica Misericordia et misera (20 de novembro de 2016), n. 6: L’Osservatorio Romano, 268 (21-22 de novembro de 2016), 8-9.
268  Evangelii gaudium, n. 135: AAS 105 (2013), 1076.
269  Cf. ibid., n. 154: AAS 105 (2013), 1084-1085.


moral com vista aos casos concretos, e a confrontar-se com as problemáticas deste delicado ministério em espírito de misericórdia270. Neste âmbito, tendo em mente o cuidado pastoral dos fiéis, será também de ter presente a formação ao discernimento dos espíritos e à direção espiritual, como parte integrante do ministério presbiteral.

179.  Porque a fé do Povo de Deus exprime-se muitas vezes através das formas de piedade popular, que «traduz em si uma certa sede de Deus, que somente os pobres e os simples podem experimentar»271 e representa «um lugar teológico a que devemos prestar atenção particularmente na hora de pensar a nova evangelização»272, esta deve ser conhecida pelos futuros presbíteros e estimada nos seus valores e significados mais genuínos. Os seminaristas aprenderão, assim, a discernir aquilo que pertence à inculturação do Evangelho e constitui um verdadeiro tesouro da Igreja,  do
«apego a modos imperfeitos ou errados de devoção, que distanciam da genuína revelação bíblica»273. Como natural ampliação deste tema, dever-se-á apresentar aos seminaristas a hagiografia, fazendo referência à vida dos santos de maior relevância.

180.      Para melhor corresponder às exigências do ministério presbiteral, os seminaristas deverão receber uma formação cuidadosa relativamente à administração dos bens, a gerir segundo as normas canônicas, com sobriedade, desapego e transparência moral274, mas também com específica competência. Isto permitirá um claro testemunho evangélico – ao qual o povo cristão é particularmente sensível –, facilitando assim uma ação pastoral mais incisiva. Tal formação deverá compreender os elementos essenciais sobre as leis civis na matéria, com especial atenção às obrigações  que competem a  cada pároco  e  à necessidade de valer-se da  ajuda     de
leigos competentes.

181.  De acordo com as concretas circunstâncias do lugar onde os seminaristas se formam, também deverão ser sensibilizados aos temas da arte sacra. Uma específica atenção a este âmbito fornecerá aos futuros presbíteros ulteriores instrumentos de catequese, além de torná-los muito mais conscientes da história e dos “tesouros” a preservar, que são patrimônio das Igrejas particulares nas quais trabalham. Deve recordar-se que uma correta valorização da arte e da beleza é por si só um valor, que, para além do mais, tem também uma notável incidência pastoral. O conhecimento da música sagrada275  contribuirá outrossim para a formação global   dos seminaristas,   e
oferecerá a estes instrumentos ulteriores com vista à evangelização e à atividade pastoral.

270 Cf. Por exemplo, CONGREGAÇÃO PARA O CLERO, O sacerdote ministro da misericórdia divina –
Subsídio para confessores e diretores espirituais (09 de março de 2001).
271  Evangelii nuntiandi, n. 48: AAS 68 (1976), 37-38.
272  Evangelii gaudium, n. 126: AAS 105 (2013), 1073.
273  Diretório sobre piedade popular e liturgia, n. 1.
274 Cf. FRANCISCO, Discurso aos Reitores e aos alunos dos Pontifícios Colégios e Pensionatos de Roma
(12 de maio de 2014), l. c. 5; cf. C.I.C., cân. 282.
275 Cf. S. CONGREGAÇÃO DOS RITOS, Instrução Musican sacram, para a música na S. Liturgia (05 de março de 1967), AAS 59 (1967), 300-320.


182.  Levando em consideração a ampla atenção dedicada pelo magistério papal ao tema da comunicação social276 e do profícuo âmbito de evangelização oferecido pelos “novos lugares” da rede mediática, não poderá faltar nos Seminários uma específica sensibilização a este respeito. A este propósito, não será apenas necessário apreender instrumentos e noções técnicas, mas, sobretudo, habituar os seminaristas a um uso equilibrado e maduro, livre de apegos excessivos e dependências.

183.      Por fim, o tema da aprendizagem das línguas nos Seminários é de permanente atualidade. É vivamente aconselhado o conhecimento de ao menos uma língua moderna, tomando em consideração as que são faladas nos Países onde os seminaristas desenvolverão o ministério presbiteral. As temáticas ligadas  às migrações e ao turismo não podem ser ignoradas na formação dos seminários, e exigem que se consiga alcançar uma adequada competência linguística.

Além da língua hebraica e do grego bíblico, os seminaristas sejam levados, desde o início do percurso formativo, ao estudo da língua latina, que consente o acesso às fontes do Magistério e da história da Igreja.

184.     As “matérias ministeriais” mencionadas, e outras consideradas úteis ou necessárias ao ministério presbiteral, em atenção à relevância que cada uma delas possa ter no percurso formativo, deverão ser estudadas pelos seminaristas ao longo do período da formação, nos tempos e nos modos indicados pela Ratio Nationalis.

e)   Os estudos de especialização


185.  Além dos estudos institucionais, necessários à formação de cada sacerdote, o apostolado pode exigir para alguns uma preparação específica. Independentemente da possibilidade de se promover uma qualquer especialização em vista à atividade pastoral, é importante cuidar da formação daqueles sacerdotes que serão destinados a atividades e ofícios que exijam uma preparação mais aprofundada em cursos ou institutos especializados.

A este respeito, além do estudo das bem conhecidas ciências sagradas em cursos de especialização, é possível pensar em outras iniciativas, promovidas pela Igreja particular, para uma formação específica nos âmbitos considerados importantes para  a realidade pastoral e para a aquisição de instrumentos e noções que possam servir de apoio a determinadas atividades ministeriais. A título de exemplo, podem-se mencionar os cursos dirigidos à formação de agentes dos Tribunais Eclesiásticos, de formadores para os Seminários, ou de profissionais no campo dos mass-media, da administração dos bens eclesiásticos ou da catequese.

276 Cf. CONCÍLIO ECUMÊNICO VATICANO II, Decreto sobre instrumentos de comunicação social Inter mirifica (04 de dezembro de 1963), AAS 56 (1964), 97-138, e as mensagens dos Papas para o dia Mundial  das Comunicações Sociais.


Para tal fim, depois de haver recolhido as informações oportunas e uma vez avaliadas as necessidades da Igreja particular quanto às responsabilidades que lhe competem, os Bispos poderão escolher pessoas idôneas em virtude, índole e engenho, capazes de perseguir tais finalidades.

f)   Os objetivos e os métodos de ensino


186.  Embora considerando a diversidade dos métodos, o ensino deverá garantir o prosseguimento de certos objetivos:

a.   ajudar o seminarista, por entre a grande quantidade de informações que recebe, a fazer emergir as perguntas essenciais e a despertar aquela sadia inquietude do coração que abre o espírito do homem à procura de Deus;
b.    realizar a unidade e a síntese da formação intelectual, através da recíproca harmonia entre o estudo bíblico, teológico e filosófico; em particular, deve-se ajudar os seminaristas a ordenar e coordenar os conhecimentos, superando o risco de estes, se aprendidos em modo fragmentado, formarem um mosaico  não orgânico e, logo, confuso277;
c.    assegurar um ensino claro e sólido, dirigido a conhecer melhor o mistério de Deus e da sua Igreja, as verdades da fé e a sua hierarquia278, o homem e o mundo contemporâneo;
d.     promover o diálogo e a partilha entre os seminaristas, e entre estes e os docentes, através da apresentação de argumentações lógicas e racionais;
e.    oferecer aos seminaristas uma perspectiva histórica, para que estes colham a ligação entre a fé e o desenvolvimento histórico, aprendendo a exprimir com uma linguagem adequada o conteúdo da formação filosófica e teológica;

187.  Indicações práticas. Por aquilo que diz respeito à consideração dos métodos didáticos, deve ter-se em consideração o seguinte:

a.    nos cursos institucionais, os docentes exponham os conteúdos essenciais das matérias, indicando aos seminaristas orientações acerca do estudo pessoal e da bibliografia;
b.    os docentes tenham o cuidado de ensinar a doutrina católica, com especial referência à riqueza oferecida pelo Magistério da Igreja, privilegiando o dos Pontífices e dos Concílios ecumênicos, para responder aos desafios da nova evangelização e da realidade hodierna;
c.    promovam-se seminários interdisciplinares, para tornar mais profícuo o estudo em comum e para promover em modo criativo a colaboração entre docentes e seminaristas, no âmbito científico e intelectual;


277  Pastores dabo vobis, n. 54: AAS 84 (1992), 753-754.
278  Cf. C.I.C., cânn. 750, 752-754.


d.     favoreça-se o estudo pessoal guiado por “tutores”, de modo a que os seminaristas aprendam uma metodologia para o trabalho científico, e, devidamente apoiados e encorajados, assimilem adequadamente o ensino ministrado;
e.     os seminaristas sejam introduzidos num estudo com método científico dos vários problemas pastorais, a fim de que possam descobrir melhor o íntimo vínculo entre a vida, a piedade e a ciência apreendida nas lições279;
f.    quando a Conferência Episcopal o considere oportuno, poder-se-á prever um período de formação fora do Seminário, até mesmo, por vezes, em outros Países, para aprender línguas úteis e para conhecer a vida eclesial tal como se encontra enraizada numa cultura diversa.

A fim de que o estudo seja realmente frutuoso, não poderá faltar uma organização de base da qual faça parte um suficiente número de professores bem preparados280, uma biblioteca ordenada e cuidada por pessoal competente, e o acesso à internet como meio de pesquisa e de comunicação.

Os seminaristas dêem prova do resultado alcançado nos estudos por meio de exames, orais ou escritos, e de dissertações, segundo as normas das Conferências Episcopais.































279  Cf. ibid., cân. 254, § 2.
280  Cf. ibid., cân. 253, § 1-2.


VIII


Critérios e Normas


a)   As diversas tipologias de Seminário


188.    Não se esqueça, em primeiro lugar, que o Seminário, antes de ser um edifício, é uma comunidade formativa, onde quer que se encontre. Por isso, os Bispos que, após haver atentamente avaliado as circunstâncias ligadas ao respectivo contexto eclesial, achem ser possível erigir ou manter um Seminário diocesano281, levem em consideração a necessidade dum número de vocações e de formadores suficiente para garantir uma comunidade formativa282 , um corpo docente capaz de oferecer uma formação intelectual de qualidade, e, claro está, a sustentabilidade econômica da estrutura.

Onde as circunstâncias não o permitam, em diálogo com outros Bispos da Província Eclesiástica ou da Conferência Episcopal, deve procurar-se uma solução adequada, confiando os seminaristas ao Seminário de uma outra Igreja particular ou erigindo Seminários interdiocesanos uma vez obtida a aprovação da Congregação para o Clero, tanto para a ereção do Seminário como para os respectivos estatutos283.

Merece uma particular atenção o caso de seminaristas que são enviados a realizar os estudos numa instituição diversa do próprio Seminário; neste caso, é responsabilidade do Bispo diocesano garantir a sua inserção numa verdadeira comunidade formativa, evitando com cuidado que um seminarista, ou um exíguo grupo de candidatos, habite estavelmente num alojamento privado, onde lhe seria impossível cultivar devidamente tanto a própria vida espiritual como aquela comunitária.

Quem habita legitimamente fora do Seminário seja confiado pelo próprio Bispo diocesano a um sacerdote idôneo, o qual assuma diligentemente o cuidado da sua formação espiritual e disciplinar284.

b)   A admissão, a demissão e o abandono do Seminário


189.  «A Igreja tem o direito de verificar, também com o recurso à ciência médica e psicológica, a idoneidade dos futuros presbíteros»285. O Bispo é responsável pela


281  Cf. ibid., cân. 237, § 1.
282  Cf. ibid., cân. 239, § 1-2.
283  Cf. ibid., cân. 237, § 2.
284  Cf. ibid., cân. 235, § 2.


admissão ao Seminário; com a ajuda da comunidade dos formadores, avaliará nos candidatos as qualidades humanas e morais, espirituais e intelectuais, a saúde física e psíquica, e a reta intenção 286 . Neste sentido, importa ter em consideração as orientações relativas ao recurso a especialistas nas ciências psicológicas287, além do fato de provirem de outros Seminários ou institutos de formação288, e da eventual presença no candidato de tendências homossexuais289. Em geral, «a primeira seleção dos candidatos para a sua entrada no Seminário deve ser atenta, já que não é infrequente que os seminaristas, prossigam o processo ao sacerdócio considerando cada etapa como uma consequência e prolongamento deste primeiro passo»290.

b.1.  A saúde física


190.   No momento da entrada no Seminário, o seminarista deve gozar de uma condição de saúde compatível com o futuro exercício do ministério, segundo as adequadas normas emitidas pelas Conferências Episcopais, a serem inseridas nas Ratio nacionais. Em particular, deverá apresentar os resultados dos exames médicos gerais, como garantia duma “sadia e robusta constituição”, e também eventuais documentos referentes a prévias doenças, cirurgias ou específicas terapias. O conteúdo de tal documentação reserva-se apenas ao conhecimento do Bispo e do Reitor do Seminário diocesano, e a sua divulgação será regulada segundo as leis civis e eclesiásticas vigentes em cada País.

Neste âmbito, deve considerar-se de imediato quanto foi prescrito pela Congregação para a Doutrina da Fé a respeito de uma avaliação prudente e personalizada daqueles que são afetados por celíaca ou dos que sofrem de alcoolismo ou de doenças análogas291. Em relação ao que foi exposto por tal Dicastério quanto a outras condições de saúde que poderiam prejudicar o exercício do ministério, é confiada às Conferências Episcopais a elaboração das normas pertinentes.

285 Cf. Orientações para a utilização das competências psicológicas na admissão e na formação dos candidatos ao sacerdócio: Enchiridion Vaticanum 25 (2011), 1271-1272; cf. C.I.C., cân. 241, § 1.
286  Cf. C.I.C., cân. 241, § 1.
287 Cf. Orientações para a utilização das competências psicológicas na admissão e na formação dos candidatos ao sacerdócio: Enchiridion Vaticanum 25 (2011), 1239-1289.
288 Cf. CONGREGAÇÃO PARA A EDUCAÇÃO CATÓLICA, Instruções às  Conferências  Episcopais sobre a admissão no Seminário dos candidatos provenientes de outros Seminários ou famílias religiosas (09 de  outubro  de  1986  e  08  de  março  de  1996);  SAGRADA  CONGREGAÇÃO  PARA  A EDUCAÇÃO
CATÓLICA, Carta circular, Ci permettiamo, aos Representantes Pontifícios sobre a admissão de ex- seminaristas em outro seminário (09 de outubro de 1986): Enchiridion Vaticanum 10 (1989), 694-696.
289 Cf. Id., Instrução sobre os critérios de discernimento vocacional das pessoas com tendências homossexuais em vista da sua admissão ao Seminário e às ordens sagradas (04 de novembro de 2005), n. 2: AAS 97 (2005), 1009-1010.
290  CONGREGAÇÃO PARA O CULTO DIVINO E A DISCIPLINA DOS SACRAMENTOS, Carta circular
Entre las más delicadas, a los Exc.mos y Rev.mos Señores Obispos diocesanos y demás Ordinarios canónicamente facultados para llamar a las Sagradas Ordenes, sobre Los escrutinios acerca de la idoneidad del los candidados (10 de novembro de 1997), n. 7: Notitiae 33 (1997), p. 497.
291 CONGREGAÇÃO PARA A DOUTRINA DA FÉ, Cartas circulares de 19 de junho de 1995 e 24 de julho de 2003.


As adequadas condições de saúde deverão manter-se, e poderão ser verificadas durante todo o período da formação.

b.2.  A saúde psíquica


191.   Será, por norma, de evitar a admissão no Seminário de quantos sofram de qualquer patologia, manifesta ou latente (por ex., esquizofrenia, paranóia, distúrbio bipolar, parafilias, etc.), que seja capaz de minar a discrição de juízo da pessoa e, por consequência, a sua capacidade de assumir os compromissos e empenhos da vocação e do ministério.

192.  Neste âmbito, o tema do recurso a especialistas em ciências psicológicas no campo da formação para o ministério ordenado, já foi no passado objeto da atenção da Igreja e da Santa Sé292. A contribuição das ciências psicológicas revelou-se, em geral, como uma ajuda apreciável para os formadores, aos quais cabe, de resto, a missão do discernimento das vocações. Tal contribuição científica permite conhecer melhor a índole e a personalidade dos candidatos, e oferecer um serviço formativo mais adequado às particulares condições de cada um: «É útil que o Reitor e os outros formadores possam contar com a colaboração de especialistas nas ciências psicológicas, mesmo que estes não possam fazer parte da equipe de formadores»293. Dada a delicadeza deste serviço e a especificidade da formação ao ministério presbiteral, a escolha de tais especialistas deve ser atenta e prudente: «tenha-se presente que estes, além de se distinguirem pela sólida maturidade humana e espiritual, devem inspirar-se numa antropologia que abertamente partilhe da concepção cristã acerca da pessoa humana, da sexualidade, da vocação para o sacerdócio e para o celibato, de modo que a sua intervenção tome em conta o mistério do homem no seu diálogo pessoal com Deus, segundo a visão da Igreja»294.

193.    Num clima de recíproca confiança e de abertura de coração, que deve caracterizar o momento do pedido de admissão ao Seminário, o aspirante  a seminarista será convidado dar conhecimento ao Bispo e ao Reitor do Seminário de eventuais problemáticas psicológicas precedentes, e das terapias realizadas, enquanto elementos a serem considerados no conjunto das qualidades exigíveis. Em todo o caso, contudo, convém que se realize uma avaliação psicológica, seja no momento da admissão ao Seminário seja no período sucessivo, quando isso pareça útil aos formadores.




292 Cf. Monitum, da SAGRADA CONGREGAÇÃO DO S. OFÍCIO (15 de julho de 1961), AAS 53 (1961),
571.
293 Cf. Orientações para a utilização das competências psicológicas na admissão e na formação dos candidatos ao sacerdócio, n. 6: Enchiridion Vaticanum 25 (2011), 1258-1260.
294  Cf. ibid.


194.   Deve ter-se presente que, para poder recorrer a um especialista em ciências psicológicas, é necessária a manifestação, por parte da pessoa interessada295, de um consentimento prévio, bem informado, livre e dado por escrito296. Por outro lado, « [o] candidato ao presbiterado não pode impor as suas próprias condições pessoais, mas deve aceitar com humildade e gratidão as normas e as condições que a própria Igreja, pela sua parte de responsabilidade, estabelece»297 . Para tutela da própria intimidade «[o] candidato poderá dirigir-se livremente a um psicólogo, escolhido entre os indicados pelos formadores, ou a um outro escolhido por ele mesmo e aceite por aqueles. Sempre que possível, deveria ser garantida aos candidatos uma livre escolha entre vários especialistas que tenham os requisitos indicados»298.

195.   Depois de ter preparado o seu relatório, seguindo as leis civis vigentes, o perito deverá comunicar o resultado do seu trabalho diretamente ao interessado e exclusivamente às pessoas legitimamente autorizadas a conhecer tais dados em razão do próprio ofício: «Efetuada a averiguação, tendo em conta também as indicações oferecidas pelos formadores, e somente com o consentimento prévio e escrito do candidato, o especialista dará aos formadores o seu contributo para a compreensão do tipo de personalidade e de problemas que a pessoa está enfrentando ou deve enfrentar. Indicará também, segundo a sua avaliação e a sua competência, as possibilidades previsíveis de crescimento da personalidade do candidato.    Sugerirá,
além disso, se necessário, formas ou itinerários de apoio psicológico» 299 . Concretamente, e tendo em conta quanto se disse antes, as pessoas autorizadas a conhecer as informações fornecidas pelo perito são: o Bispo (aquele da Diocese do interessado e aquele responsável pelo Seminário, se não for o mesmo), o Reitor
(aquele do Seminário onde recebe a formação e também aquele diocesano, se não for o mesmo), e ainda o Diretor Espiritual.

196.  Será responsabilidade de cada Conferência Episcopal emanar normas a serem inseridas nas Ratio nacionais, que estabeleçam as modalidades para realizar perícias psicológicas, e também estabelecer por quanto tempo devem ser conservados os documentos relativos à saúde física e psíquica dos seminaristas, no respeito das leis civis vigentes nos diversos Países, e tendo em conta as possíveis implicações, inclusive penais, decorrentes da difusão, mesmo que involuntária, dos dados neles contidos.





295 Cf. ibid., n. 12: «No caso do candidato, ante um pedido justificado da parte dos formadores, se recusar a realizar uma consulta psicológica, de nenhum modo os formadores forçarão a sua vontade, mas procederão prudentemente na obra de discernimento com os conhecimentos de que dispõem»: Enchiridion Vaticanum 25 (2011), 1277.
296  Cf. ibid., nn. 12 e 15: Enchiridion Vaticanum 25 (2011), 1276-1277 e 1282-1283.
297  Ibid., n. 11: Enchiridion Vaticanum 25 (2011), 1272.
298  Cf. ibid., n.12: Enchiridion Vaticanum 25 (2011), 1276.
299  Cf. ibid., n. 15: Enchiridion Vaticanum 25 (2011),1283.


b.3.  A demissão


197.   Em qualquer momento do percurso de formação de um seminarista, se a comunidade formativa concluir ser necessário demiti-lo, uma vez consultado o Bispo, tal ato deve, em geral, ser feito mediante documento escrito a ser oportunamente conservado, contendo uma exposição prudente, mesmo que sumária, mas suficientemente indicativa300 das circunstâncias que lhe hajam servido de motivo, a título de síntese do discernimento realizado.

b.4.      Os   seminaristas   provenientes  de  outros  Seminários  ou  institutos  de formação


198.   Em geral, será necessário que, depois de uma demissão ou abandono quem pede para ser admitido num outro Seminário ou casa de formação, apresente o pedido por escrito ao Bispo, expondo o próprio percurso pessoal e as motivações que, precedentemente, levaram à demissão ou ao abandono de um anterior instituto de formação. De acordo com as disposições da Conferência Episcopal301, o Reitor do Seminário ao qual a pessoa deseja ser admitida, não pode eximir-se de obter a documentação, inclusive aquela de caráter psicológico, relativa ao tempo por ela passado junto de um outro instituto de formação302; em geral, trata-se de situações muito delicadas, que exigem dos formadores um discernimento atento suplementar e  a máxima prudência, antes de proceder a um eventual acolhimento.

c)   As pessoas com tendências homossexuais


199.  Em relação às pessoas com tendências homossexuais que se aproximam dos Seminários, ou que descobrem tal situação no decurso da formação, em coerência com o próprio Magistério 303 , «a Igreja, embora respeitando profundamente as pessoas em questão, não pode admitir ao Seminário e às Ordens Sagradas aqueles que praticam a homossexualidade, apresentam tendências homossexuais profundamente radicadas ou apóiam a chamada cultura gay. Estas pessoas encontram-se, de fato, numa situação que constitui um grave obstáculo a um correto relacionamento com homens e mulheres. De modo algum, se hão de descuidar as



300  Cf. C.I.C., cân. 51.
301 Cf. Instruções às Conferências Episcopais sobre a admissão nos Seminários de candidatos provenientes de outros Seminários ou famílias religiosas.
302  Cf.  Orientações  para  a  utilização  das  competências  psicológicas  na  admissão  e  na  formação  dos
candidatos ao sacerdócio, n. 16: «É contrário às normas da Igreja admitir ao Seminário ou à Casa de formação pessoas que já saíram, ou, com maior razão ainda, demitidas de outros Seminários ou Casas de formação, sem antes procurar as devidas informações junto dos seus respectivos Bispos ou Superiores Maiores, sobretudo acerca das causas da demissão ou saída. Constitui um dever rigoroso dos formadores precedentes fornecer informações exatas aos novos formadores»: Enchiridion Vaticanum <