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A Palavra do Frei Petrônio

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segunda-feira, 9 de novembro de 2015

*René Girard, uma leitura não sacrificial do texto bíblico?

O relato dos Evangelhos, inclinando-se ao lado da vítima inocente, mostra-nos a violência estrutural do mecanismo sacrificial sobre o qual, segundo René Girard, está fundada a nossa sociedade. A opinião é do pastor valdense italiano Davide Rostan, em artigo publicado no sítio Riforma.it, 06-11-2015. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Eis o texto.
O falecimento de Girard nos dá a oportunidade de voltar a alguns dos seus temas, ainda hoje de extrema atualidade: a violência, a questão das vítimas, o conceito de revelação e a ação de Deus por nós.
O que realmente preocupa Girard são as vítimas do mecanismo sacrificial. O seu percurso, que começou como análise literária, tornou-se lentamente uma espécie de conversão pessoal à causa das vítimas e ao anúncio daquela que era, segundo ele, a verdadeira boa nova para toda a humanidade: Jesus morreu para que nós pudéssemos reconhecer o mecanismo sacrificial.
A morte de Cristo, portanto, tem uma função reveladora de um conhecimento. O processo de revelação, já iniciado no Antigo Testamento, chega ao seu cumprimento na cruz, com a morte da única vítima que, ao contrário do que é mostrado nas narrativas mitológicas, nos é claramente indicada como inocente.
O relato dos Evangelhos, inclinando-se ao lado da vítima inocente, mostra-nos, assim, a violência estrutural do mecanismo sacrificial sobre o qual, segundo Girard, está fundada a nossa sociedade: os sistemas religiosos, os ritos, as proibições, o sistema judiciário e, por fim, o poder que pôde canalizar a violência, através de mecanismos de não reconhecimento, contra vítimas substitutivas.
A violência, inerente à humanidade, para Girard, é o resultado do desejo mimético: o sujeito se constitui com base em um desejo indicado pelo Outro, desencadeando assim uma rivalidade mimética e um processo de negação do outro. O pecado, identificado por Girard na potência diabólica do mimetismo, é explicitado na história de Caim e Abel.
A violência, assim, será gerida através do mecanismo sacrificial do bode expiatório e a identificação de uma vítima que, depois, será sacralizada através de um processo antes ritual e, por fim, de narrativa mítica.
Continua sendo exemplar nesse sentido a leitura que Girard nos deixa do relato da cura do endemoninhado de Gerasa. Os habitantes do vilarejo amarram a vítima com correntes, mas ela consegue fugir todas as vezes, para depois ser capturada de novo. Quando o vínculo vítima-vilarejo é interrompido pelo curador que expulsa o espírito de modo definitivo, e a vítima se cura, os habitantes do vilarejo, em vez de mostrar gratidão, assustados pela ruptura desse vínculo estrutural, expulsam o curandeiro da aldeia.
Talvez não por acaso, Girard teve um grande sucesso no mundo católico italiano e estadunidense, que elogiaram nessa leitura um forte compromisso ético em favor das vítimas e a possibilidade de reler o "por nós" de Cristo em termos não sacrificiais.
Permanece em aberto, no entanto, a meu ver, a questão central que o próprio Girard põe: a crise do homem moderno descrita por Dostoiévski em Memórias do subterrâneo, como uma humanidade esmagada por um grande ódio contra si mesma e contra a sua condição de finitude.
No início da sua obra, de fato, em Mentira romântica e verdade romanesca, o próprio Girard identifica nos personagens de Dostoiévski o modelo daquela humanidade em crise que se encontra sozinha, na ausência de um Deus que desapareceu do horizonte, lidando com a absolutez dos próprios desejos frustrados pelo real e que renova perenemente a crise mimética.
Jesus é descrito em um dos seus textos fundamentais, Coisas ocultas desde a fundação do mundo, como o único homem capaz de alcançar o fim atribuído por Deus para a humanidade e, como tal. é proposto como modelo para evitar a propagação de uma violência destrutiva.
A função reveladora dos Evangelhos e da cruz, porém, parece-me levar, na proposta ética da imitação de Cristo, da forma como Girard formula, a uma espécie de beco sem saída. Que espaço, de fato, é concedido à alteridade na sua proposta para sair da dinâmica violenta provocada pelo desejo mimético?
A ausência de uma alteridade divina – não por acaso, talvez Girard evita se confrontar na elaboração dos seus textos com o tema da ressurreição e a proposta da imitação de um modelo, por definição, não imitável – parece-me retornar a humanidade à mesma situação que ele mesmo entrevê nos romances de Dostoiévski.
O fascínio da sua leitura universal, a revelação do mecanismo da vítima sacrificial, a atenção para as vítimas inocentes e as perguntas que Girard nos deixa, parecem-me encontrar apenas em parte uma solução na sua proposta ética.
Tal leitura do texto bíblico, que não se confronta com o tema da liberdade de Deus e com o seu agir na história, correm o risco de nos entregar um modelo, mesmo que o do Jesus terreno, incapaz de realizar aquela reconciliação consigo mesma que a impeça de ter como única perspectiva a tentativa de se conformar com um modelo, aliás, que nunca poderemos alcançar. Fonte: http://www.ihu.unisinos.br
*NOTA: O acadêmico francês René Girard, eminente teórico conhecido como "o novo Darwin das ciências humanas", morreu no dia 04 de novembro de 2015 aos 91 anos, nos Estados Unidos, anunciou a universidade de Stanford, onde lecionou durante muitos anos. "O professor francês de Stanford, um dos 40 'imortais' da prestigiosa Academia francesa, faleceu em sua residência de Stanford nesta quarta-feira, após uma longa doença", informou a universidade californiana em um comunicado. Seus livros traduzidos em todo o mundo "ofereceram uma visão audaz e vasta da natureza, da história e do destino humano", acrescentou a universidade. René Girard iniciou sua carreira como teórico de literatura, fascinado por todas as ciências sociais: história, antropologia, sociologia, filosofia, religião, psicologia e teologia.
Ele influenciou escritores como o prêmio Nobel J.M. Coetzee e o tcheco Milan Kundera. Nascido no Natal de 1923 em Avignon, Girard escreveu muito sobre a diversidade e a unidade das religiões. Fonte: http://g1.globo.com

A PALAVRA... Nº 1030. Qual é a música da sua vida?

32º Domingo do Tempo Comum: As duas viúvas.

O bom samaritano é ateu

Se alguma vez – Deus queira que não – apanhar de assaltantes enquanto vai de Jerusalém a Jericó, é melhor que depois passe por ali um samaritano pouco religioso. Porque ser religioso ou ateu não deixa as pessoas melhores, mas parece condicionar a forma de entender a generosidade e o altruísmo com desconhecidos. E as pessoas menos religiosas têm uma tendência mais espontânea a ajudar o próximo, segundo os últimos estudos.
O último trabalho surpreendeu ao mostrar que as crianças criadas em ambientes religiosos são menos propensas a ser generosas, que existe uma correlação inversa entre o altruísmo e a educação em valores identificados com a fé. Por meio de um experimento realizado com menores de 5 a 12 anos em seis países culturalmente muito diferentes (Canadá, EUA, Jordânia, Turquia, África do Sul e China), os pesquisadores descobriram que os estudantes que não recebem valores religiosos em suas famílias são notavelmente mais generosos quando se trata de compartilhar seus tesouros com outras crianças anônimas. “É importante destacar que as crianças mais altruístas vêm de famílias ateias e não religiosas”, destaca o chefe do estudo, Jean Decety, neurocientista e psicólogo da Universidade de Chicago. “Espero que as pessoas comecem a entender que a religião não é uma garantia para a moralidade, e que religião e moralidade são duas coisas diferentes”, acrescenta ao ser questionado da importância desse estudo.
Além disso, na pesquisa perguntava-se aos pais se seus filhos eram mais ou menos generosos e, curiosamente, os pais e mães mais religiosos acreditam que estão criando uma prole mais solidária: os religiosos dão como certo que seus filhos são mais altruístas, mesmo que na hora da verdade compartilhem menos. Outra descoberta importante é que a religiosidade faz com que as crianças sejam mais severas na hora de condenar danos interpessoais, como por exemplo os empurrões. “Essa última descoberta encaixa bem com pesquisas anteriores com adultos: a religiosidade está diretamente relacionada com o aumento da intolerância e das atitudes punitivas contra delitos interpessoais, incluindo a probabilidade de apoiar penas mais duras”. Em resumo, os menores criados em ambientes religiosos seriam um pouco menos generosos, mas mais propensos a castigar quem se comporta mal.
As crianças mais altruístas eram de famílias ateias e não religiosas. A religião não é uma garantia para a moralidade", afirma o autor
Dois anos atrás, o sociólogo de Stanford Robb Willer publicou um estudo no qual, através de experimentos, mostrou que a compaixão levava as pessoas não religiosas a serem mais generosas enquanto nas mais apegadas à fé a compaixão não influenciava em seu nível de generosidade. “Para os menos religiosos, a força de sua conexão emocional com outra pessoa é fundamental para decidir se irão ajudá-la ou não”, afirmou Willer na época. “Os mais religiosos, pelo contrário, fundamentam menos sua generosidade nas emoções e mais em outros fatores, como o dogma, a identidade de grupo e a reputação”.
Há séculos diferentes autores abordam o debate sobre se a religião, acreditar e temer a Deus, provoca nos humanos uma atitude mais bondosa, mais solidária, mais empática com o sofrimento dos demais. Nos últimos anos, entretanto, a pesquisa psicológica revelou várias tendências consistentes, como o fato dos religiosos motivarem seu altruísmo em valores diferentes e usarem critérios distintos para determinar quais ações são imorais.
Os mais religiosos fundamentam menos sua generosidade na empatia e mais em outros fatores como o dogma, a identidade de grupo e a reputação"
A ideia de que a religião consolida o altruísmo, entretanto, aparece em diversos estudos, como os que vêm sendo publicados por autores como Azim Shariff, ao demonstrar na revista Science a importância da fé na hora de se mostrar mais generoso com os demais. Em seus trabalhos testou o altruísmo das pessoas depois de fazê-las pensar (consciente e inconscientemente) em Deus e suas manifestações: aqueles que liam sobre Ele e assistiam vídeos relacionados antes do teste se mostravam notavelmente mais generosos do que os que não o faziam. As motivações não eram a compaixão e a empatia, mas ajudavam mais ao próximo ao ter presente a figura divina.
Por isso, Shariff considera que os resultados do estudo em crianças publicados na sexta-feira “parecem superficialmente contraditórios” com seu trabalho. Mas de grande importância: “Acho que são conclusões fascinantes a partir de um esforço impressionante. Esse estudo nos obriga a repensar seriamente as coisas a fim de conciliar o que sabemos”, resume Shariff, da Universidade do Oregon.
Os pais e mães mais religiosos acreditam que sua prole é a mais solidária; os experimentos mostraram que era exatamente o contrário
O difícil seria explicar por que ateus e religiosos (ou pouco religiosos frente a muito religiosos) agem de forma diferente quando se trata de pensar nos demais. Mesmo que não existam respostas conclusivas, tanto Shariff como Decety mencionam uma certa licença moral outorgada por aqueles que já rezam pelos demais: se já cubro a quota de generosidade em minha paróquia, isso me exime de precisar ser altruísta com desconhecidos. “É uma falha mental particularmente interessante: realizando algo bom, que ajuda a fortalecer nossa própria imagem positiva, se desinibe o comportamento egoísta e, portanto, somos mais propensos a tomar decisões imorais”, explica Decety, um dos maiores especialistas em empatia. Isso explicaria o fato de crianças criadas em lares religiosos, que se percebem como mais sensíveis e justas, serem na verdade as menos altruístas entre seus colegas de classe.
Shariff, mais crítico, considera que isso tem uma leitura inversa. “Eles se limitam a um tipo específico de generosidade espontânea. É possível que alguém seja enormemente altruísta doando 20% de seus ganhos à caridade. E como estruturou seu altruísmo dessa forma, não se sente obrigado a doar a um mendigo na rua que lhe pede dinheiro de forma espontânea, ou a um psicólogo que lhe dá a oportunidade de compartilhar com alguém em um experimento”.

Na parábola de Jesus descrita por Lucas nos Evangelhos, era o sacerdote a não se aproximar do necessitado, e somente o samaritano parou para ajudá-lo. Mas não sabemos quem era o mais religioso dos dois, e se isso teve alguma relação com a atitude tomada. Fonte: http://brasil.elpais.com

ALACAR-2015: As conversões de Santa Teresa de Jesus-05.