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A Palavra do Frei Petrônio

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quarta-feira, 2 de setembro de 2015

OLHAR CARMELITANO: Em memória de Frei Caneca, Carmelita.

Pedro Pomar - 1974

A 13 de janeiro de 1825 - faz exatamente 150 anos - morria fuzilado em Recife, por ordem terminante de Pedro I, Frei Joaquim do Amor Divino Caneca, grande herói da luta do povo brasileiro pela independência do jugo colonial português, eminente figura de nossa intelectualidade revolucionária, nacionalista.As classes dominantes relegaram-no ao esquecimento. Chegaram mesmo a escarnecê-lo como fez o ditador Médici, em 1972, ao mandar passear pelas ruas das capitais dos Estados os ossos de Pedro I. Nossos pseudo-liberais temem falar sobre ele. Em contraste, o proletariado revolucionário exalta a sua memória como um dos mais admiráveis exemplos de combatente da causa da libertação nacional e da soberania popular. São raras as pessoas que, como ele, revelaram tal grau de rebeldia militante contra os opressores do país e do povo, tanta intransigência em face dos inimigos, tamanho destemor perante a morte. As lições de sua vida e de sua luta são fontes perenes de inspiração para todos os patriotas e democratas, conservam bastante atualidade.
Frei Caneca nasceu na capital pernambucana, em 1774, quando no mundo feudal surgiam e se desenvolviam as ideias burguesas de emancipação política, os conceitos de pátria e de nação e, quando em terras brasileiras, sob o domínio de Portugal, brotavam os fermentos da autonomia. Era de origem humilde. O apelido que o honrava adveio do fato de, na infância, ter ajudado o pai, um tanoeiro, vendendo canecas. Certamente, por vocação religiosa e pelo desejo de estudar, ingressou na Ordem dos Carmelitas. Naquele tempo, e durante dezenas de anos depois, a Igreja Católica monopolizava a cultura na Colônia. Para instruir-se e ascender socialmente, os moços das camadas mais pobres da oprimida e acanhada sociedade colonial deviam ordenar-se frades ou padres. Outro recurso era ir estudar em Coimbra, o que só os filhos dos grandes proprietários e senhores de escravos podiam fazer. No entanto, não foi a confissão religiosa que converteu, desde os albores do século XIX, o jovem Frei Caneca num ardoroso partidário da independência do Brasil e dos direitos do povo. Ao contrário, a Igreja, como instituição reacionária, além de possuir muitas propriedades e riquezas, sempre esteve umbilicalmente ligada às classes dominantes, sustentou-as por todos os meios. A verdade histórica é que, nas jornadas de 1817 e 1824 - as primeiras gloriosas tentativas de nossa revolução nacional e democrática - Frei Caneca e a brilhante falange de seus companheiros, a maioria de procedência igualmente humilde, não representavam na revolução, de maneira alguma, o clero, e sim as forças radicais da sociedade brasileira. Pertenciam à intelectualidade revolucionária, camada mais avançada da luta libertadora. Eles sentiram, como ninguém, o quanto era intolerável o domínio da metrópole portuguesa, o quanto pioravam as condições de vida do povo. Simultaneamente, recebiam a influência das novas idéias revolucionárias e tomavam conhecimento da vitória da Revolução Francesa de 1789, dos movimentos emancipadores dos Estados Unidos, da América espanhola, do Haiti. Daí a decisão de empunhar com valentia a bandeira da autonomia nacional e das reivindicações liberais burguesas. De modo coerente, passaram a integrar a ala radical do "Partido Brasileiro", da união das correntes patrióticas favoráveis à independência, ala que pregava a liquidação da dinastia dos Bragança, sem regateios nem conciliações prejudiciais à nação.
Em 1822, depois do famoso grito do Ipiranga e do acordo que permitiu a Pedro I aparecer à frente do novo Estado Nacional, a linha da intelectualidade nacionalista, oriunda do clero pobre, chocava-se com a da Igreja oficial. Enquanto esta, já aderida à situação criada, acusava Frei Caneca de indisciplina e sustentava que a autoridade de Pedro I tinha origem divina, ele respondia, denunciando as manobras traidoras do régulo, seu absolutismo e proclamando que a única e verdadeira fonte do poder é o povo.Não apenas como pensador, mas também por suas qualidades políticas e organizativas, Frei Caneca destacou-se dentre todos os seus companheiros e contemporâneos. Junto com os padres João Ribeiro, Roma, Miguelinho, Mororó e dezenas de outros, foi um dos dirigentes da Revolução de 1817, quando pela primeira vez esteve em mãos de patriotas brasileiros o poder no país. Ao sobrevir a derrota, se bem que não tivesse sido enforcado ou arcabuzado, como alguns daqueles dirigentes, padeceu inomináveis torturas e ficou encarcerado na Bahia até 1821, sob a acusação de ter conclamado o povo à guerra revolucionária e organizado guerrilhas. Efetivamente, assim procedeu, expressando opiniões como as que seguem: "Quando a pátria está em perigo, todo cidadão é soldado, todos devem se adestrar nas armas para rebater o agressor. Não é bastante, que na ocasião do aperto maior, saiam de suas casas com algumas pistolas ou facas, ou outras quaisquer armas, sem disciplina, sem ordem, sem chefe hábil nos negócios da guerra; tal estado de coisas só pode causar a confusão e a desordem. O tempo é de atropelo, devem vosmecês atropelar também a economia de suas ações?" Não sem motivo, tornou-se conhecido, desde então, como o "frade guerrilheiro".As posições combativas, revolucionárias, nortearam toda a sua vida. Libertado, voltou logo a Pernambuco para participar da deposição das autoridades coloniais e da instauração de um governo provisório provincial até que, no plano nacional, a Assembléia Constituinte, já convocada, indicasse os verdadeiros rumos do novo Estado e da nação. Ao saber que Pedro de Bragança se entronizava como Imperador do Brasil, condicionou seu apoio a esse governante à exigência de que prevalecesse, na Constituição que se elaborava, a vontade soberana do povo. Com tal objetivo, fundou, em fins de 1823, o jornal Tifnis Pernambucano. Defendia a instituição de um regime constitucional, representativo, capaz, segundo ele, de assegurar a independência recém-conquistada. Afirmava que a unidade nacional devia ser baseada na autonomia das províncias, de acordo com as tradições brasileiras e como demonstrava a experiência positiva dos Estados Unidos da América do Norte. Considerava indispensável que o Brasil se constituísse numa federação, unida pelos interesses e pelos sentimentos do povo de todo o país. Percebia que a nação, apesar de jovem, já possuía fortes laços de solidariedade e condições para sobreviver e progredir, percepção que, ainda hoje, certos elementos ditos progressistas não alcançaram. Embora jamais tivesse acreditado no liberalismo de Pedro I, mostrou-se disposto a aceitar o regime monárquico, contanto que a autonomia das províncias fosse preservada, assim como respeitada a soberania popular. Por isso, a dissolução pela força da Assembléia Constituinte encontrou de sua parte firme repulsa. E ao ser informado da imposição da Carta Constitucional, elaborada nos corrilhos palacianos, conferindo todos os poderes a Pedro I, escreveu, indignado, a um amigo: "Não admitimos mais imposturas, conhecemos o despotismo, vamos decepá-lo".
A Confederação do Equador, de 2 de julho de 1824, teve em Frei Caneca seu principal cérebro, seu autêntico fundador. A República sonhada englobaria as províncias do Norte, as quais ficariam unidas por uma Constituição, cujas bases ele publicara em seu jornal, na véspera da Revolução. Nesse projeto de Lei Magna, propôs enfaticamente a liberdade política, a igualdade civil, todos os direitos inalienáveis do homem. Estabeleceu itens relativos à liberdade de imprensa e de opinião. Destacou, especialmente, a abolição da escravatura nos seguintes termos: "Todo homem pode entrar a serviço de outro pelo tempo que quiser, porém não pode vender-se, nem ser vendido". O conteúdo de seu ideário era nitidamente burguês, democrático. Não obstante, pareceu muito radical, bastante avançado para aquele período.Mas a Confederação do Equador só conseguiu o apoio das províncias da Paraíba e do Rio Grande do Norte. Sem a adesão das demais, sobretudo da Bahia, cujo movimento popular revelara pujança e combatividade na luta contra as tropas do general português Madeira, a nova República duraria pouquíssimos meses. De seu lado, o governo imperial tomara incontinenti medidas para debelar a revolução a ferro e fogo. Cercado por terra e por mar, o governo confederado não pôde manter-se. A derrota deveu-se, fundamentalmente, a certas condições internas adversas da época, ao profundo atraso do país. Diferentemente dos Estados Unidos, onde vencera a Revolução da Independência com sentido democrático, no Brasil existia ainda um forte sistema feudal-escravista, que não deixou surgir nem florescer um núcleo numeroso de colonos livres. Os centros urbanos brasileiros eram então bastante débeis, distantes e dispersos. Além disso, a revolução não interessou direta e profundamente ao grosso da massa de escravos. Posto que condenasse formalmente a escravidão, não pretendia aboli-la imediata e radicalmente, mas sim de modo gradual. Em suma, por não terem compreendido a importância da participação da grande maioria da população escrava na luta pela independência, os líderes do movimento emancipador de 1817 e 1824 fatalmente seriam esmagados pela reação feudal e escravocrata.Frei Caneca não cedeu facilmente. Julgou encontrar no interior de Pernambuco condições políticas e topográficas propícias à continuação da luta. Como não podia deixar de ser, enveredou pelo caminho da resistência armada, recorrendo ao método da guerra de guerrilhas. Mas quase tudo lhe foi hostil. Até uma tremenda seca contribuiu para obstar-lhe os planos. Suas colunas rarearam cada vez mais diante das dificuldades. Havia defecções dos que não tinham igual confiança na vitória. Mesmo sem recursos, passando fome, rompeu diversos cercos, travou alguns combates com vantagens e penetrou no sertão do Ceará, em busca de apoio. Só a 29 de novembro, em decorrência da situação insustentável em que se achava, aceitou a proposta de rendição formulada pelo comandante das tropas imperiais, em troca do respeito pela vida dos guerrilheiros e do compromisso de que o governo não faria vinditas.Dessa forma, veio a cair nas mãos de Pedro I o mais intrépido defensor da causa emancipadora e democrática, o patriota que a reação mais temia e odiava. A Justiça Militar, nomeada a propósito pelo Imperador, empreendeu de imediato seu julgamento sumário. Frei Caneca não procurou justificar-se, pessoalmente; sustentou com bravura suas idéias, seu direito à promover a revolução; não claudicou nem se prestou a qualquer compromisso com os inimigos da pátria e do povo. Compreendia que Pedro I queria vê-lo rápida e severamente castigado para exemplo dos que se atrevessem a levantar-se contra a tirania. Seu comportamento altivo e digno, contribuiu para desmascarar o não cumprimento da promessa de que os prisioneiros teriam suas vidas poupadas. O desassombrado lutador deveria morrer na forca - tal a decisão dos juízes militares, antecipadamente tomada.Longe de ficar abatido, Frei Caneca, em virtude de sua fibra moral e de suas profundas convicções, revelou-se mais animoso do que nunca. O desprezo pela morte, a consciência de cumprir em qualquer circunstância seu dever de patriota, de sacrificar a vida pelo bem comum, forjaram nele um dos mais belos e íntegros caracteres de homens públicos populares que registra a história brasileira. Cantou tais sentimentos em versos como estes:
"O Patriota não morre:Vive além da eternidade;Sua glória, sem renome.São troféus da humanidade."
Pouco antes de ser fuzilado, ainda compôs outro poema que diz:
"Tem fim a vida daqueleQue a pátria não soube amar;A vida do patriotaNão pode o tempo acabar"
O episódio final do seu suplício mostra até que ponto ia a sanha da repressão. A agonia arrastou-se praticamente por três dias, nos quais sua figura se agigantou pela coragem, ao passo que a dos seus verdugos se amesquinhou pela crueldade. Desde o dia 10 de janeiro se haviam iniciado os preparativos para o enforcamento. Mas, nesse instante, a Igreja resolveu interceder junto a Pedro I em favor da vida do condenado, solicitando que a pena capital fosse comutada em prisão. O Imperador, além de recusar, ameaçou. A Igreja desistiu. Dia 13, pela manhã, já no patíbulo, ele foi submetido à degradação canônica, isto é, despido de seus hábitos religiosos e da condição de frade. Entretanto, o preso comum destinado a colocar-lhe o laço no pescoço, negou-se a fazê-lo. Ali mesmo foi pisoteado, surrado. Outros dois presos comuns convocados para a mesma bárbara função, também não a aceitaram. Diante disso, o representante de Pedro I, brigadeiro (como então se chamava ao general) Lima e Silva, optou pelo fuzilamento. Entrementes, Frei Caneca, que fora despertado do sono em que estava mergulhado para subir ao patíbulo, continuava sereno, procurando falar ao povo e auxiliar os carrascos a terminarem com a execução. Até que o ato infame se consumou.
Há 150 anos do holocausto do grande herói popular, cumpre às forças revolucionárias não apenas homenageá-lo como compreender o sentido de suas idéias e de sua luta, assim como continuá-la nas novas condições históricas. Nesse período, ocorreram enormes transformações no mundo e em nosso país. O socialismo venceu em alguns países e avança vitorioso, enquanto o capitalismo está apodrecendo. As contradições sociais e políticas se aguçaram. No Brasil, as forças que se opõem ao progresso, à democracia e à independência nacional já não são senhores de terras e escravistas junto com o colonialismo português, mas sim os latifundiários e a grande burguesia associada ao imperialismo, sobretudo ao norte-americano. Por outro lado, as forças interessadas na revolução são outras, muito mais poderosas. O papel que representam é também diverso do daquele tempo. Agora, apenas uma parte da burguesia, a não-ligada aos interesses estrangeiros e à reação, pode participar da revolução, mas não encabeçá-la. Tampouco a intelectualidade progressista, inclusive a provinda do clero, tem condições de ser a vanguarda revolucionária. A direção da revolução cabe ao proletariado, através de seu Partido marxista-leninista. Nessas circunstâncias, o caráter nacional e democrático da revolução, embora permaneça formalmente o mesmo, ganhou um novo conteúdo. Sob a liderança da classe operária e na base da aliança operário-camponesa, ela será inevitavelmente vitoriosa e abrirá caminho para o socialismo.Todavia, muitas das idéias e das medidas expostas e propugnadas por Frei Caneca têm atualidade, estão na ordem-do-dia. Igualmente, o caminho revolucionário, a luta armada, e a intransigência que preconizou e revelou são fundamentalmente os mesmos que hoje devemos trilhar e praticar no combate para pôr abaixo a ditadura militar e varrer com a dominação do imperialismo estadunidense. Honra e glória eternas ao grande precursor da luta do povo brasileiro pela independência e pela democracia!

 *Artigo de Pedro Pomar, publicado no jornal A Classe Operária, 1974.

domingo, 30 de agosto de 2015

OLHAR CARMELITANO: O chamado de Eliseu (1Reis 19,19-21)

Frei Emanuele Boaga, O.Carm. - Augusta de Castro Cotta, CDP

A história no seu contexto
A história do chamado de Eliseu se liga bem com a precedente a ela. Nesta vemos Elias seguir uma das ordens de Deus (19,16b) e assim agir para desenvolver o processo que levaria a vitória sobre o baalismo como Deus prometera (19,17). Será Eliseu que realizará as outras duas ordens: instigou a Hazael para que usurpasse o trono de Damasco (2 Reis 8,7-15) e a Jeu, o trono de Israel (2 Reis 9,1-13). Foi durante uma guerra de Hazael contra Jorão, rei de Israel, que Jeu mata Jorão e se proclama rei no seu lugar (2 Reis 9,14-26). Jeu mata também Jesabel (2 Reis 9,30-37) e os outros membros da família de Acab (2 Reis 10,1-11). Enfim, reúne os fiéis de Baal no seu templo, mata-os, destrói o templo (2 Reis 18-27). Assim Jeu exterminou Baal de Israel (2 Reis 10,28) e realiza-se a promessa que Deus fizera a Elias (1 Reis 19,17).

Interpretação
A ordem de Deus era a de ungir Eliseu como profeta. Mas os profetas não eram ungidos. O uso deste termo impróprio no v.19,16 pode-se explicar com o paralelismo, uma vez que ao nome de Eliseu segue-se o de Hazael e de Jeu, que como reis recebiam a unção.
Na nossa história o elemento principal para a eleição de Eliseu não é a unção, mas o manto de Elias. Talvez que um certo tipo de manto fosse a veste distintiva de um pro­feta (2 Reis 2,13-14). Neste caso o manto simboliza sempre a missão da pessoa e contém os poderes daquele que o usa (2 Reis 2,13-14). Também, jogar o manto sobre alguém indicava ainda o direito do proprietário do manto sobre a pessoa que o recebia (ver Ruth 3,9). Então, Elias com aquele seu gesto adquire um direito sobre Eliseu que começa a servir a Elias (v.21) e ao mesmo tempo o reveste da sua missão e dos seus po­deres como Profeta. Neste sentido pode-se considerar esta história como paralela a 2 Reis 2,1-18.
Eliseu aceita o chamado, pede apenas para ir despedir-se dos seus familiares antes de partir. A resposta de Elias tem provocado muitas discussões porque é assaz ambígua. Literalmente o texto hebraico diz: "Vai, mas volta porque sabes que coisa te fiz. (ou: ?)". Isto pode significar que Elias deixa Eliseu livre para escolher de segui-lo ou não. Mas, provavelmente significa: "Vai e volta porque tu sabes bem o que te fiz: eu te investi dos meus poderes".
 Eliseu oferece um sacrifício para o qual convida as pessoas de sua terra. Mas aqui o que é mais significativo é o fato de que para oferecer o sacrifício ele destrói o arado e mata seus bois, o que indica uma definitiva ruptura com o passado. É o mesmo que faz ao deixar as próprias vestes para vestir o manto de Elias (2 Reis 2,13). Agora possui uma nova identidade: é o servidor de Elias. Realmente o texto não nos diz que se tornou sucessor de Elias mas seu servidor. É necessário também ler este detalhe, como tantos outros da história de Elias, fazendo-se referência a história de Moisés. Josué, filho de Num, era servidor de Moisés na sua juventude, tornando-se depois seu sucessor. Assim também Eliseu inicia a sua carreira como servidor de Elias para tornar-se depois o seu sucessor.

*Institutum Carmelitanum- Comissão Internacional- Carisma e Espiritualidade.

FREI PETRÔNIO: Pensamento do Dia. (Domingo, 30).

22º Domingo do Tempo Comum: Homilia do Papa Francisco. Ano-B.

Neste domingo, 30 de agosto, antes de rezar o Angelus com os fiéis e peregrinos presentes na Praça de São Pedro, o Papa Francisco meditou sobre o Evangelho do dia e rezou pelos migrantes. Apresentamos as palavras do Papa:

Queridos irmãos e irmãs, bom dia!
O Evangelho deste domingo apresenta uma disputa entre Jesus e alguns fariseus e os escribas. A discussão é referente ao valor da "tradição dos antigos" (Mc 7,3) que Jesus, referindo-se ao profeta Isaías, define "preceitos dos homens" (v. 7), e que nunca deve ficar no lugar do "mandamento de Deus" (v. 8). As prescrições antigas compreendiam não apenas os preceitos que Deus revelou a Moisés, mas uma série de regras que especificavam as indicações da lei mosaica. Os interlocutores aplicavam tais normas de uma forma muito escrupulosa e as apresentavam como uma expressão de religiosidade autêntica. Portanto, repreendem Jesus e os seus discípulos pela transgressão delas, em particular, daquelas relacionadas com a purificação exterior do corpo (cf. v. 5). A resposta de Jesus tem a força de um pronunciamento profético: "Ignorando o mandamento de Deus - diz - observam a tradição dos homens" (v. 8). São palavras que nos enchem de admiração por nosso Mestre: sentimos que nEle há verdade e que a sua sabedoria nos liberta de preconceitos.
Mas atenção! Com essas palavras, Jesus quer alertar também a nós, hoje, que ao manter a observância exterior da lei seja suficiente para ser bons cristãos. Como à época para os fariseus, há também para nós o perigo de nos consideramos adequados ou, pior, melhor do que os outros pelo simples fato de observar as regras, as tradições, mesmo se não amamos o próximo, somos duros de coração, soberbos, orgulhosos. A observância literal dos preceitos é algo estéril se não muda o coração e não se traduz em atitudes concretas: abrir-se ao encontro com Deus e à Sua Palavra, a oração, buscar a justiça e a paz, ajudar os pobres, os fracos, os oprimidos. Todos sabemos que, nas nossas comunidades, nas nossas paróquias, nos nossos bairros, quanto mal fazem à Igreja e são motivo de escândalo as pessoas que se dizem muito católicas e vão muitas vezes na igreja, mas, depois, na sua vida quotidiana, descuidam da família, falam mal de outros e assim por diante. Isso é o que Jesus condena, porque é um contra- testemunho cristão.
Continuando a exortação, Jesus se concentra em um aspecto mais profundo e afirma: "Não existe nada fora do homem que, entrando nele, possa torná-lo impuro. Mas são as coisas que saem do homem que o tornam impuro"(v. 15). Desta forma, sublinha a primazia da interioridade, ou seja, a primazia do "coração": não são coisas exteriores que nos fazem santos ou não santos, mas é o coração que expressa as nossas intenções, as nossas escolhas e o desejo de fazer tudo por amor a Deus. As atitudes exteriores são a consequência do que decidimos no coração, mas não o contrário: com as atitudes exteriores, se o coração não muda, não somos verdadeiros cristãos. A fronteira entre o bem e o mal não passa fora de nós, mas sim, dentro de nós. Podemos nos perguntar: Onde está meu coração? Jesus diz: "O teu tesouro é onde está o seu coração". Qual é o meu tesouro? É Jesus, a sua doutrina?  É o coração bom ou o tesouro é outra coisa? Portanto, é o coração que deve ser purificado e convertido. Sem um coração purificado, não se pode ter mãos verdadeiramente limpas e lábios que pronunciem palavras sinceras de amor - tudo é duplo, uma vida dupla - lábios que pronunciam palavras de misericórdia, perdão. Somente isso só pode fazer o coração sincero e purificado.
Peçamos ao Senhor, por intercessão da Virgem Santa, para nos dar um coração puro, livre de toda hipocrisia. Esse é o adjetivo que Jesus disse aos fariseus: "hipócritas", porque dizem uma coisa e fazem outra. Um coração livre de toda hipocrisia, para que sejamos capazes de viver de acordo com o espírito da lei e alcançar o seu fim, que é o amor. Fonte: http://www.zenit.org
*Papa no Angelus. Cidade do Vaticano, 30 de Agosto de 2015.

Seminários e Conventos: Um olhar a partir da sexualidade.

Muitos formadores de seminários e conventos não conhecem as feridas que os candidatos trazem.
Entrevista à irmã Lacambra, especialista em temas de sexualidade humana
Por José Antonio Varela Vidal


ROMA, terça-feira, 05 de junho de 2012 (ZENIT.org). - É sempre bom saber a origem das coisas. Isto ajuda a identificar as causas dos problemas, que quando crescem com várias ramificações impedem uma solução adequada. Alguns deles são os temas relacionados à sexualidade humana ou ao mundo demoníaco.
Para conhecer mais de perto estas realidades, ZENIT conversou com a irmã Maria Blanca Lacambra, da congregação das Servas da Verdade, que reside em Bayamón, Puerto Rico. Ela trabalha há muitos anos com diversos grupos da arquidiocese de San Juan, no que diz respeito à disfunções sexuais, assim como casos de possessões diabólicas e exorcismos. Oferecemos a primeira parte da entrevista hoje.

ZENIT: Por que o tema da sexualidade, com suas perversões, tornou-se uma notícia de todos os dias?

IR. LACAMBRA: Em primeiro lugar considero a sexualidade sagrada, criada por Deus e, portanto um presente seu. As perversões são ocasionadas por vários fatores inerentes a traumas, estupros e abusos de todo tipo. Sendo Puerto Rico uma sociedade matriarcal, onde a mãe faz quase tudo com relação aos filhos, e o pai se dedica a trazer o sustento para o lar, - hoje muitas mães trabalham e não têm tempo para os filhos -, são os filhos que ficam afetados por isso e em muitos casos se debilitam. Tudo isso faz com que muitas feridas fiquem impressas no cérebro e os acompanhem por toda a vida. Se estas feridas não são tratadas com cuidado por diversos profissionais qualificados na matéria, juntos com a consciência séria da participação de Deus nas nossas vidas, teremos diante de nós adultos com muitos distúrbios de comportamento e de personalidade; problemas que mais adiante se manifestarão tanto na vida matrimonial como na vida religiosa.

E isso pode ser mudado?
IR. LACAMBRA: Existem sacerdotes, psiquiatras, psicólogos e sexólogos que trabalham com isso, e pelo que a experiência está me ensinando, é necessário trabalhar rapidamente para eliminar, na medida do possível, as feridas que impedem os homens de adquirir a libertação; lembremos de que somos imagem e semelhança de Deus e são as feridas que nos impedem de sentir no nosso ser esse “menino” ou “menina” criada por Deus e que constantemente está gritando dentro de nós porque quer ser o que Deus, Nosso Senhor quis que fosse: seu filho ou filha querida.

ZENIT: E como prevenir isso com aqueles que entram nos seminários e conventos?
IR. LACAMBRA: Vejo que está sendo feito algo ultimamente, mas pouco. Que se faça um teste psicológico não é suficiente, porque se a pessoa é inteligente poderá manipular todos aqueles que a queiram mudar e não se poderá saber como é na realidade o candidato. Os candidatos não dizem muitas coisas que se deveria saber antes de entrar no convento, para serem ajudados. Vêm com muitas feridas da infância e da adolescência. E ainda mais, considero que exista medo pelo tema da sexualidade; não se aprofundiza como se deveria fazer. Lembremos que a sexualidade abarca o corpo, alma e espírito e portanto, nos acompanha ao longo de toda a vida e se não nos é familiar, amiga, diria, como é possível amá-la e deixar que ela cumpra com o fim para o qual Deus, Nosso Senhor a criou?

ZENIT: Vêm-se alguns casos disso, não?
IR. LACAMBRA: Se entramos nas comunidades nos encontramos com tantas coisas que estão acontecendo a nível mundial, seja com sacerdotes, religiosas, pastores e nos escandalizamos mas..., quem acompanhou estes candidatos à vida religiosa e sacerdotal no aspecto da sexualidade? Por acaso os seus pais? É triste constatar que muitos pais não sabem nada do que se refere a este tema tão importante. Eu diria que nem sequer alguns formadores e superiores de comunidades religiosas têm muito conhecimento desse tema. Muitos jovens entram no seminário ou na vida religiosa com a intenção de ficar, seja porque têm vocação ou por outras causas que já conhecemos; algumas delas não muito positivas. O fato de que hão haja formadores devidamente preparados para acompanhar estes candidatos, supõe que ante o voto de castidade tenham problemas. Além do mais, o mero fato de saber que existe fortes tentações, não supõe necessariamente que não existe a vocação. Justamente os meios utilizados contra o maligno nestes momentos são importantíssimos: a oração, a recepção dos sacramentos, o santo terço, e acima de tudo, o acompanhamento de uma pessoa - geralmente o superior e o diretor espiritual - tanto no terreno espiritual como humano.

ZENIT: Na época da formação para o sacerdócio ou para a vida consagrada, quais são os sinais de alerta que se pode ter sobre isso?

IR. LACAMBRA: Eu diria que um apego excessivo ao superior, pois estão à procura de um pai; no caso das jovens, na superiora uma mãe. E isso se manifesta ao longo de toda a vida. Acredito que um candidato a religioso ou religiosa, que não tenha recebido o amor dos pais, terá muito mais dificuldade de seguir adiante sem ajuda. A necessidade de masturbar-se, de ver pornografia; a necessidade de estar horas diante da tela; o viver uma vida totalmente secularizada e superficial, são indícios da falta de compromisso diante de um assunto tão importante.

ZENIT: Não há como superar isso durante a formação?

IR.LACAMBRA: Na formação é necessário orientar os candidatos para terem uma vida de intensa oração, porque esse amor esmaga e apaga todo o resto. Mas não é o único. A nossa natureza é humana e, portanto, deve ser tida em conta. Se o amor radica na sexualidade, é impossível amar sem ser afetivo. Deus é amor! E quão bem o Papa Bento XVI nos dá a entender isso na sua Encíclica Deus Caritas Est. Os formadores deveriam ter conhecimentos da pessoa humana; devem ter conhecimentos da pessoa humana; devem preparar-se em sexologia e ser maduros afetivamente. Estudaram filosofia, teologia mas sabem pouco de afetividade se não provêm de uma família onde mamaram e foram testemunhas do amor que o pai tinha pela mãe e vice-versa; devem ter tido experiências de um amor filial que é o eixo da maturidade afetiva e do espírito. O sentido da castidade bem compreendida e vivida, leva a um amor tão grande que não se precisa de ninguém no caso do cônjuge; e de ninguém mais que o Esposo, no caso do célibe.



ZENIT: Outro tema do nosso tempo é a infidelidade entre os casais ... Onde se origina isso?

IR. LACAMBRA: Nas oficinas que temos, percebemos que o grande problema que nos apresentam quando chegam não é o esposo ou a esposa, mas a falta de amor na infância; falta de amor pelas feridas que têm, sobretudo dos 0 aos 6 anos. Ali não houve um papai ou uma mamãe que lhes dera amor que necessitavam, para depois usar esse mesmo amor ao longo de toda a vida. Ao longo da terapia eles mesmos se dão conta de que existem coisas no fundo que lhes impossibilita o amor gratuito e maduro que devem ter um pelo outro; a felicidade é um presente que Deus lhes deu; presente que tem que ir desenvolvendo ao longo da vida. O cônjuge não é o culpável pela falta de felicidade no outro, na maioria dos casos.

ZENIT: A infidelidade é uma doença?

IR. LACAMBRA: não me atreveria a dizer que é uma patologia. Mas sim diria que é uma atitude, um estado produzido por uma insatisfação, uma busca do prazer; do sentido sem ter aprofundado bem na afetividade, que é o que se aprende no lar. Como, então, falar de espiritualidade se o relacionado com a natureza humana está "manco"?

ZENIT: E sobre a questão da homossexualidade? Alguns dizem que é adquirida, outros que se nasce assim, o que se sabe hoje sobre isso?

IR. LACAMBRA: Há um monte de idéias e teorias sobre isso. O que estudei - embora não seja sexóloga - é que existem dois tipos de sexualidade, a primária e a secundária. A primária refere-se a aquelas pessoas que desde pequenas já têm essa inclinação. Existem muitos fatores que devem ser tidos em conta, mas eu diria que entre 100 homossexuais, somente alguns seriam primários (os verdadeiros homossexuais). O resto, o maior número seriam os secundários; para nós, pseudo-homossexuais.

ZENIT: Então, tudo isso pode ser canalizado?

IR. LACAMBRA: A sexualidade é uma ciência moderna do século XX, portanto ainda está na sua infância. Encontram-se muitas coisas, e trabalhando com as pessoas nos damos conta de que o homossexual secundário não o é realmente, é um falso ou pseudo-homossexual. O que faz que com a ajuda de pessoas idôneas possam voltar a ser heterossexuais, que é o que Deus quis para eles. No entanto, também encontramos casos de homossexuais primários que nos foi possível orientar por meio da vida espiritual e lhes ajudamos a amar a Deus, que constitui o fundamento do seu amor. Conseguiram: colocando a Deus, Nosso Senhor no topo, o resto fica em segundo plano. Na nossa arquidiocese existe um grupo chamado “Courage” que ajuda os homossexuais e ali consegue-se muitos frutos. É claro que ao aproximar-se de Deus, e aprender a amá-Lo faz com que a pessoa se apaixone por Ele e leva a ir apagando as paixões que nos separam Dele a nível terreno: o prazer, a comodidade, etc. Além do mais, o saber canalizar bem a energia sexual faz que a sexualidade não transborde e cause inundações que vemos em todos os lugares. Fonte: http://www.zenit.org

(Tradução Thácio Siqueira)