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A Palavra do Frei Petrônio

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quarta-feira, 12 de agosto de 2015

A PALAVRA DO FREI PETRÔNIO. Nº 956. Santo Alberto de Sicília.

A PALAVRA DO FREI PETRÔNIO. Nº 962. Que venham as tempestades.

UM MÁRTIR DA NOSSA FAMÍLIA: ISIDORO BAKANJA

UM MÁRTIR DA NOSSA FAMÍLIA: ISIDORO BAKANJA

Por Irmã Carbonnelle - Filha da Caridade. Editions Saint Paul   Kinshasa (África)  1979.
(Tradução de Frei Pedro Caxito O.Carm. In Memoriam)

            Carta do Sr.Arcebispo de Mbandaka-Bikoro

Caros leitores amigos
            Ao chegar a Mbandaka, em setembro de 1976, como a maior parte de vós, eu ignorava não somente o martírio de um leigo do nosso meio, mas até mesmo o nome dele, cuja causa de Beatificação hoje foi aceita em Roma: BAKANJA Isidoro.
            Mas logo depois fui interpelado a respeito e interessei-me.
            Primeiro foi em Mbandaka, no dia seguinte após a minha chegada, por ocasião de um encontro de catequistas, que manifestavam ao Sr. Arcebispo, Dom P. Wijnants, meu predecessor, o seu vivo desejo de ver reexaminada a causa de Bakanja.
            Depois foi por ocasião da minha primeira visita pastoral na região de Bokote. Os cristãos freqüentam sempre piedosamente os diversos lugares onde o mártir sofreu e passou os últimos momentos da sua vida. Acabavam de reencontrar e desobstruir o sítio da sua sepultura e tinham organizado uma romaria - a primeira - ao túmulo do mártir. Com enorme emoção dela eu participei. Igualmente inclinei-me sobre o dossiê que o Arcebispado possui.
            Em 1913, a pedido da 3ª Assembléia dos Superiores Eclesiásticos do Congo Belga , Dom Camilo VAN RONSLE tinha ordenado uma investigação profunda sobre as circunstâncias do martírio deste jovem cristão, trabalhador simples de uma plantação SAB de Ikili. Uma investigação minuciosa foi levada avante pelo Padre Missionário itinerante da região que interrogou europeus e congoleses, as mais pequenas testemunhas, ativas e passivas, do drama que provocou a morte trágica de Bakanja.
            A guerra de 1914-1918 que interrompeu toda comunicação com Roma, a situação política do após-guerra deixaram em vigília o Processo de Beatificação deste herói cristão. Nestes últimos anos o Rdo.Pe.Herman VAN DIJCK M.S.C. dedicou-se a completar o dossiê.
            Sinto-me feliz por juntar a esta biografia a tradução da resposta favorável do Cardeal BAFILE, Prefeito da Congregação para a Causa dos Santos.
            Possa o exemplo da Bakanja Isidoro incitar todos os cristãos do Zaire a conservar intacta a sua Fé em Jesus Cristo, que sofreu o martírio da Cruz para dar aos homens de todas as raças e de todas as línguas a salvação e a vida eterna.
                            + Etsou Nzabi Bamungwabi - Arcebispo
CAPÍTULO I
"E aí entregar-vos-ão aos suplícios e vos matarão" (Mt 24,9).
            No dia 2 de fevereiro de 1909, numa plantação do Congo, à altura da linha do equador, um diálogo curioso aconteceu entre um branco chamado Longange e o seu empregado negro, Iseboya:
            - Iseboya, grita Longange, pegue o seu fuzil e vá matar Makando , este animal de "mon père"  (oyo nyama na monpère). (...)
            - Bakanja, - é Iseboya quem chama - venha comigo até onde está o branco (Longange); ele está chamando você; ele me deu ordem para matar você, mas isto não vou fazer; é melhor
            você mesmo ir até a casa do branco.  (...)
            - Branco, diz Bakanja a Longange, por que você me chamou ?
            - Cale a boca ! - responde Longange enraivecido. Já estou cheio das manhas de você ! Se continua assim, todos os meus homens vão escutar as invencionices de você, vão querer o batismo e aí ninguém mais vai querer trabalhar !  É só mentira o que você ensina a eles como todas essas orações que você vai buscar na casa de "Mon Père" !... Vamos, deite-se para levar umas chicotadas !
            Antes de continuarmos a narração, será útil analisarmos um pouco o contexto social e religioso desta época colonial de antes da guerra de 1914-1918.

            * * *
            No dia 23 de fevereiro de 1885, a Conferência Internacional de Berlim reconheceu juridicamente a Associação Internacional do Congo (AIC) como um Estado Independente e Soberano.
            A título pessoal o rei da Bélgica, Leopoldo II, tornava-se o soberano do novo EIC (Estado Independente do Congo).
            Para fazer render este território imenso, oitenta vezes maior do que a Bélgica, Leopoldo II favoreceu em primeiro lugar a liberdade de comércio assim como foi estipulada pela Ata Final de Berlim. Mas muito depressa os recursos fiscais do jovem Estado independente verificaram-se insuficientes. A luta contra o tráfico negreiro, a defesa das fronteiras, a guerra contra os Madistas , as expedições até o Nilo e a repressão, aqui e ali, de revoltas locais acarretaram pesadas despesas.
            Em 1891, Leopoldo II instaurou o regime do "faire valoir direct" , um regime de autofinanciamento. A exploração de todos os recursos naturais, especialmente a da borracha e do marfim, foi confiada a agentes do Estado ou a Companhias concessionárias, e era um monopólio do Estado, que se tornava assim o principal acionista de todas as atividades comerciais do país.
            Esta decisão que violentava a liberdade de comércio exigida pela Ata Final de Berlim prejudicava e impossibilitava qualquer sociedade particular. Além disto, este novo sistema já não respeitava mais a legislação social de 1888, que havia fixado as cláusulas e modalidades de trabalho dos naturais do país. Para enfrentar uma economia deficiente e aumentar as rendas, o Estado apropriou-se de todos os benefícios e demonstrou uma exploração excessiva, para não dizer desumana, dos trabalhadores.
             Esta situação injusta faz com que se levante uma onda de protestos internacionais, mas somente em 1906 serão tomadas as primeiras medidas para opor uma barreira aos abusos cometidos, um pouco por toda parte, no país. Quando em 1908, no dia 18 de outubro, Leopoldo II realizou a anexação do Congo à Bélgica, um dos primeiros atos do poder colonial foi deter esta exploração abusiva contra os filhos do país. Publicou-se então um certo número de decretos que restabeleciam a liberdade de comércio e condenavam os excessos das companhias concessionárias.

            * * *
            A SAB (Sociedade Anônima Belga para o Comércio do Alto Congo) era uma destas companhias. Tinha conseguido em concessão, na região do Busira, terras devolutas, quer dizer, não ocupadas pela população local, assim como toda a região compreendida entre os rios Lomela e Salonga, denominada Bush-Bloc. Possuía também feitorias na zona de comércio livre próxima de Coquilhatville  (Mbandaka), capital da Província do Equador.
            Como as outras companhias, a SAB explorava e exportava borracha e marfim, e muitos dos seus agentes muitas vezes se entregaram a brutalidades quase indescritíveis, a fim de se apoderarem dos produtos e fazer crescer a produção com os maiores lucros possíveis e a menor despesa.         É neste quadro que está situado o martírio de Bakanja.

            * * *
            Com a preocupação de evangelizar e civilizar, Leopoldo II  havia chamado missionários belgas. Em 1888, a Congregação dos Padres de Scheut (CICM) tomava sob seu encargo o Vicariato Apostólico do Estado Independente do Congo (EIC). O Soberano convidou igualmente muitas outras ordens e congregações a virem fundar missões no seu Estado e realizarem assim um trabalho de evangelização.
            Por várias vezes os Padres Trapistas (Cistercienses Reformados) de Westmalle, na Bélgica, foram procurados pelo Rei Leopoldo II, mas somente a um pedido explícito do Papa Leão XIII em 1893 aceitaram; e foi assim que os primeiros Padres Trapistas se instalaram, em 1895, em Bamanya, a uns dez quilômetros de Mbandaka.
            Os inícios foram difíceis. Muitos missionários morreram ou durante a viagem ou pouco depois da chegada. A missão, contudo, desenvolveu-se: foi, sobretudo, graças aos cuidados constantes prodigalizados às vítimas da doença do sono, numerosas na região, e à educação dada às crianças a eles confiadas que rapidamente os missionários conquistaram a confiança e estima da população local.
            Em 1898 batizaram os 25 primeiros cristãos da região, escolhidos entre os jovens que há dois anos eles mesmos vinham educando no seu orfanato. Em 1905 já se podia contar mais de dois mil e duzentos cristãos e destacar quatrocentas famílias cristãs.
            Em 1899 foi fundada a missão de Mpaku (Bokuma) e, em 1902, a de Bolokua Nsimba (Mbandaka). A partir desta data a Missão conheceu o seu impulso total. Começaram os Padres a empreender  longas viagens apostólicas pelos rios navegáveis: o Momboyo, o Busira e o Ikelemba. Instalaram-se catequistas nas aldeias que solicitavam o ensino da religião. Foi assim que, no princípio de 1909, o catequista Loleka Antônio se estabeleceu em Busira, junto ao posto central da SAB.
            Por ocasião destas viagens ao interior, os missionários entraram em contato com os agentes das Companhias e puderam constatar o mau comportamento e freqüentes abusos de poder de alguns dentre eles. Não hesitaram então em denunciá-los mesmo violentamente, atraindo o seu ódio e desprezo, e é o que explica, mas não justifica, a fúria destes agentes contra tudo o que era "monpère". Na região, "monpère" tornava-se desta maneira um termo pejorativo, empregado por certos agentes das Companhias para designar tudo o que se referisse aos missionários, à Religião e à Igreja .

 CAPÍTULO II
"Se permanecerdes fiéis à minha Palavra, sereis realmente meus discípulos; ficareis conhecendo a verdade e a verdade tornar-vos-á livres" (Jo 8,31-32).
           
Aqui vão os dados que se encontram no Registro de Batismos da Missão de Bolokwa Nsimba sob o nº 1953: Nº 1953  Paróquia de Santo Eugênio - Bolokwa-Nsimba Isidoro MAKANDA   Origem:      Boangi
                  Batismo:    6 de maio de 1906
                  Padrinho:   Bonifácio Bakutu
                  Confirmação: 25 de novembro de 1906
                  Comunhão:  8 de agosto de 1907

            Quem é então este Isidoro Makanda batizado em Mbandaka no dia 6 de maio de 1906 ?
            Foi em Bokendela, na tribo dos Boangi, que Isidoro viu a luz do dia. Ninguém sabe a data exata, que está situada nos anos de 1880 a 1890. O seu pai Iyonzwa e a sua mãe Inyuka que já têm um filho, Bokungu, dão ao seu caçula o nome de BAKANJA. Devido a más transcrições do seu nome transmitido oralmente, nos arquivos encontram-se grafias diferentes: Bokando, Makando ou Makanda, que é a que vem assentada no registro de batismos de Bolokwa-Nsimba sob o nº de ordem 1953.
            Sobre a infância de Bakanja não sabemos quase nada. Jovem ainda, desce rio abaixo e chega a Mbandaka (Coquilhatville). No Estado, no Departamento de Serviço em Trabalhos Públicos, a inscrição é fácil: há uma necessidade constante de construir novas casas para os técnicos estrangeiros, que não param de chegar, assim como para os trabalhadores nascidos na região. E por conta do Estado agora, Bakanja torna-se servente de pedreiro.
            Foi lá que pela primeira vez ouviu falar do Deus de Jesus Cristo. Sem dúvida, como todos os seus compatriotas, ele conhecia Njakòmba  ou Mbombiànda , mas o Deus dos cristãos o atrai. E para conhecê-lo melhor, Bakanja inscreve-se no catecumenato junto aos padres Gregório Van Dun e Roberto Brepoels, que residem em Bolokwa-Nsimba. É um catecúmeno assíduo e vai recebendo os sacramentos da iniciação cristã aos interstícios e segundo os costumes da época: batismo a 6 de maio de 1906, confirmação a 25 de novembro do mesmo ano e a comunhão a 8 de agosto de 1907.
            O seu padrinho, Bonifácio Bakutu, foi um dos seus primeiros catequistas que, pela fé simples e sólida como a dos Apóstolos e pela integridade da sua vida, é ao seu redor uma testemunha da Palavra Libertadora, que vai transmitindo aos seus catecúmenos.
            Depois do batismo, Isidoro não se separa mais do seu escapulário "Bonkotó Malia", para ele sinal visível do seu novo nascimento, da sua inegável qualidade de filho de Deus. A seguir veremos quanto Isidoro estava agarrado a este sinal, que a todos o apontava como cristão, quer dizer, discípulo de Jesus Cristo.
            Todos os que o conheceram por esta época são unânimes em dizer que Isidoro se distinguia pela sua devoção e doçura que lhe mereciam a estima de todos os que o rodeavam. Ousamos dizer que o dom da fé por Deus concedido a Isidoro não foi em vão. A sua fé não será uma fé morta, mas uma fé viva, pois encontra no coração deste recém-batizado o chão favorável para crescer e desenvolver-se: vai conceder-lhe aquela liberdade dos filhos de Deus capaz de fazê-lo seguir a Cristo, seu mestre e modelo, até nas dores da sua paixão e morte injusta e cruel.

CAPÍTULO III
"Olhai que vos estou enviando como ovelhas para o meio de lobos" (Mt 10,16).
            Bakanja retorna à sua terra natal. Gostaria de trabalhar junto a um branco, mas o seu amigo Boyoto - trabalhador da SAB em Bomputu e depois catequista em Isongu - coloca-o de sobreaviso:
            - Bakanja, não vá com este branco a Ikili, pois o pior vai acontecer com você... Estes brancos lá de cima, das matas, não gostam das pessoas que vêm lá de baixo... Além disto, para você, que é cristão, vai ser pior ainda: estes brancos não gostam dos cristãos !
            - Como é que você sabe disto? - replicou Bakanja – Que estes brancos não gostam dos cristãos?
            - Quando eu antigamente trabalhava em Bongila – responde Boyoto - havia um cristão chamado Pedro Yanza, que nos ensinava a rezar. Todos ainda éramos pagãos e o branco de lá, de nome Mondele Nganga, encheu-se de uma raiva enorme contra Pedro, porque nos reunia daquele jeito para rezarmos juntos, e proibiu-lhe terminantemente continuar os nossos encontros de oração.
            Tendo terminado o seu contrato, Bakanja decidiu deixar Mbandaka e tornar a subir pelo Ruki acima. Está todo alegre por ir ver de novo a sua aldeia natal. Em Bokendela, infelizmente, a Palavra de Deus não foi ainda proclamada, e Bakanja, sentindo-se desolado, vai para Busira: lá vai ter oportunidade de tornar a encontrar, de tempos em tempos, missionários em giro pastoral.
            Camilo Boya, seu primo, dá-lhe hospedagem de boa vontade. Bakanja não é uma pessoa preguiçosa e vai procurar trabalho, empregando-se como criado na casa de um branco da plantação, M. Reynders, que tinha o sobrenome de Lomame. Apenas Bakanja se pôs a seu serviço e já o seu patrão recebeu transferência: a SAB enviou-o para uma feitoria do Bush-Bloc, em Ikili, onde se torna adjunto do Sr. Van Cauter, que tinha o nome de Longange. Boyoto Antônio, que ainda não era cristão, tenta em vão dissuadir Bakanja de acompanhar o patrão para o interior:
- O meu branco não é mau, responde Bakanja com muita convicção. Não tenho nenhuma razão para desistir.
- Bakanja, o problema é seu. Mas acredite em mim: os brancos, que estão nas feitorias do interior, não são recomendáveis de modo nenhum e só querem empregados e trabalhadores ingênuos e ignorantes. Você que trabalhou em Mbandaka (Coquilhatville), no Estado, já viu demais e deve ter aprendido muita coisa; você para eles já é sabido demais e não lhes será bem vindo! Torno a lhe dizer: eles    só querem trabalhadores sem experiência. De mais a mais, o que torna ainda mais grave o caso de você é que você é cristão. Como é que poderá viver no meio desta gente que não consegue suportar os cristãos?
       Os conselhos repetidos de Boyoto não abalaram a confiança de Bakanja no seu patrão Lomame, e com ele Bakanja partiu para Yele. Que tem Bakanja para temer ou perder? Tem dentro de si o Espírito da Fortaleza e da Sabedoria, que lhe relembra as palavras de Jesus: "Não tenhais medo daqueles que matam o corpo, mas não podem matar a alma" (Mt 10,28).

CAPÍTULO IV
"Vão odiar-vos por causa do meu nome, mas quem perseverar até o fim será salvo" (Mt 10,22)
            Com efeito, bem cedo enfraqueceu-se o relacionamento entre o patrão branco e o novo empregado. E mesmo assim nunca ninguém conseguiu lançar acusações graves contra Bakanja.
            Eis alguns trechos do interrogatório de pessoas que o conheceram de bem perto. A sua inocência é evidente.
            - Quantos empregados tinha Lomame?
            - Dois: Bakanja e eu mesmo. Lomame tinha chegado de Busira      com Bakanja e me recebeu como empregado ao passar porvBompembe.v(...)
            - Você nunca ouviu dizer que Bakanja tivesse roubado vinhovde Longange?
            - Não. Nunca ouvi dizer isso. Tal roubo eu desconheçovtotalmente!
            - No entanto, não foi por causa de um roubo que Longange
            bateu em Bakanja?!
            - É impossível! Se Bakanja tivesse roubado, todo mundovteria ficado sabendo!   (...)
            - Ter-se-ia Bakanja aproximado de uma das concubinas deve Longange?
            - De maneira nenhuma! Nunca ouvi dizer que Isidoro tenha tocado em alguma mulher!
            (...)
            - Será que Bakanja foi impertinente com Longange?
            - Menos ainda!... Isidoro era bom trabalhador!... Falava pouco e nunca teria tido a coragem de protestar contra as ordens do branco!
            Em Ikili, Bakanja continuou servindo respeitosamente a seu branco. Condivide com Bomanjoli o trabalho. Quando se apresenta uma boa ocasião, aos que o desejam ele ensina a fazer oração ao Deus-Pai dos cristãos. O seu patrão Lomame disse-lhe um dia: "Se você quer rezar, faça dentro do seu coração, mas sem ninguém daqui ver você!"  Esta observação ficou por aí e Bakanja pôde entregar-se à oração e de modo especial à recitação do seu terço, que sempre carregava no bolso.
            Mas com Longange aconteceu diferente: desde que chegou a casa dele, Bakanja tornou-se objeto dos seus sarcasmos e troças, dele, o gerente-responsável. Bakanja se queixa disto com Yongo, empregado de Van Cauter (Longange):
             - Longange tem ódio de mim, porque sou cristão. Uma vez, quando tirei o meu terço na estrada sossegada da plantação de laranjas, o seu branco me viu e me disse: " Não quero  ver aqui esta coisa aí; guarda isto na sua «sanduku»            (sacola). Estamos aqui para trabalhar e não para rosnar
rezas. Detesto os homens de «monpère». Não são gente; são  bichos!"
             Com paciência Bakanja vai agüentando os caprichos e cóleras de Longange. A paciência, contudo, tem limites. Um dia Bakanja sente uma vontade enorme de ir procurar a paz da sua aldeia, junto aos seus. Sonha como seria bom ficar remando sobre as águas do rio, jogar a tarrafa ou o anzol, levantar das águas redes de mão cheias de peixes e ouvir as risadas alegres dos meninos, que na beira do rio aguardam a chegada do pescador. Como seria gostoso desfiar as suas ave-marias ao ritmo das palmeiras que ciciam ao sopro da brisa da estação da seca, ao ritmo da chuva a martelar sobre as palhas das choupanas, onde grandes e pequenos se acotovelam em roda do fogo...
            Pensando assim, Bakanja se dirige para a casa do seu patrão e lhe diz:
            - Branco, me dê a dispensa do meu trabalho!...
            - Não darei a você nenhuma "monkanda" (documento de dispensa). Você é gentinha do Bom-Deus, vá procurar com Ele a sua dispensa! Por mim não vou dar nada a você.
            Mas a Lomame Longange dizia: «Faça desaparecer este "boy"!»
            As semanas vão passando. No fim de janeiro de 1909, Bakanja e Yongo acompanham os patrões a Bonjoli, onde Longange intervém para ajudar o chefe ordinário de Ikili a vingar-se do assassínio de Loanga, uma das suas mulheres.
            Será em Bonjoli, junto aos Nkengo, que os acontecimentos  irão precipitar-se e, para Bakanja, tomar um rumo trágico.
            Ao cair da noite, Iyongo, Bakanja e o cozinheiro Mputu se entregam às suas tarefas habituais: arrumar as camas dos brancos e os mosquiteiros, fechar as janelas, tirar a água e esquentá-la para o banho, cozinhar e servir o jantar. Enquanto estão servindo à mesa, Longange nota o escapulário no pescoço de Isidoro e lhe diz: «Bakanja, tira este negócio do pescoço... Que coisa repugnante! Não quero mais ver aqui esta joça de "monpère"!»
            Bakanja volta em silêncio para a cozinha e conta aos amigos o incidente, que neste dia não teve prosseguimento. Rezando e com o seu escapulário no pescoço, Bakanja adormece.

CAPÍTULO V
"Se o deixarmos continuar assim, todos vão acreditar nele" (Jo 11,48)
            A cólera de Longange vinha do fato que Bakanja se recusava a tirar o escapulário. Trazê-lo era um direito dele: ninguém, nem mesmo o seu branco, poderia proibi-lo de obedecer à voz da sua consciência. O que diz o patrão enraivecido demonstra a coragem e a dignidade de Bakanja:
            "Que quer dizer isso? - grita Longange - Como? Eu já não tinha falado para arrancar este troço? Por que não me       obedeceu? Já que não quer arrancá-lo, espere! Vai ver com quantos paus se faz uma canoa!"
            Era o dia 1º de fevereiro pela manhã, sempre na feitoria de Ikili, lá onde Longange imperava como dono, despótico e violento. Na hora da refeição da manhã, Longange nota mais uma vez o cordão do escapulário saindo por fora da camisa entreaberta de Bakanja. Longange se agasta e manda dar 25 chicotadas no pobre do Bakanja. Com humilde submissão Bakanja agüenta o castigo injusto: pensa que as chicotadas pouco importam, mas arrancar o seu escapulário seria diferente. Está cada vez mais resolvido a não separar-se dele de maneira nenhuma. Tanto pior se batem nele.
            O silêncio de Bakanja exaspera Longange, que fala alto consigo mesmo: «Não resta nada a fazer com estes cachorros de cristãos: solapam a autoridade dos brancos. Fique este fulano aqui mais tempo e todo o mundo, "boys" e trabalhadores, quem sabe mesmo os moradores da aldeia, todos vão começar a rezar!»  Por  esta reflexão cheia de ódio adivinha-se como era sectário o gerente da feitoria de Ikili. Não era por nada que deixavam os missionários de cooperar com boa vontade com certos compatriotas seus. Boyoto estava perfeitamente com toda a razão ao prevenir Bakanja contra a mentalidade de certos brancos das matas. Parece que se tornam agora realidade os seus vaticínios pessimistas.

            * * *
            Vamos parar um pouco, antes de continuarmos com a nossa narrativa. As testemunhas ouvidas por ocasião dos numerosos interrogatórios conduzidos judiciosamente pelo Pe. Luís de Witte ainda eram todas não-cristãs, quando se deram os acontecimentos. Ainda não tinham tido oportunidade de se encontrarem com um missionário, visto que a Missão mais próxima se encontrava em Bamanya, a cerca de 400 km de Ikili. Todas elas, ao ouvirem ou contarem as palavras cheias de ódio de Longange, constantemente se perguntavam: "Que quer ele dizer com este «monpère» ?

            * * *
            Na plantação corre o boato que Longange mandou dar as chicotadas em Bakanja porque na véspera, à tarde, Bakanja teria derramado vinho na toalha. Mas Nyongo nega esta versão:
            "Deste vinho derramado não sei nada! Ora estou em boa situação para saber o que Bakanja fazia, pois trabalhamos    juntos na cozinha!".
            No julgamento M. Van Cauter pretende ter, só uma vez, dado 17 chicotadas em Bakanja, porque teria cometido dois roubos: um contra a sua pessoa e outro contra o seu branco. As testemunhas desta primeira flagelação afirmam, todavia, que Longange nunca tinha dito abertamente que castigava Bakanja por causa de alguma falta de cuidado ou de algum furto. "Além disto", - acrescentam - "nem galo nem galinha cacarejaram: «Ladrão!», enquanto Bakanja era espancado!".
            Como o confirma Iyongo na sua sabedoria de camponês Mongo, se Bakanja não fosse cristão, não teria acontecido nada do que se passou. Foi então o simples fato de ver um cristão como criado de um agente da SAB que atiçou a fúria de Longange e o levou a martirizar Bakanja.
            Ouçamos a reflexão cheia de simplicidade de Iyongo, que o Pe. Luís consignou no dossiê de 3 de outubro de 1913:
            "Muitas vezes ouvi Longange vociferando: «Não quero aqui ninguém de Mon Père! Se enxergar aqui um homem de Mon Père, eu o mato!»  E a mim mesmo ele disse: «Se você for um dia até Mon Père, eu matarei você, cortarei a sua cabeça!»           Naquele tempo eu não sabia o que era religião e ignorava tudo a respeito de oração e de Mon Père. E por isso perguntei a Longange: «Longange, que é Mon Père? Será que vocês não têm Mon Père na Europa?»  E ele respondeu: «Não. Lá onde moramos, nós não o conhecemos! É alguma coisa dos tempos antigos! Na Europa conseguimos fazê-lo sumir!»  Mas dizia eu a mim mesmo: «Se Mon Père é qualquer coisa dos tempos antigos e alguém que não presta, porque então BULAMATARI  não o mata e não o deixa vir para cá?...» Eu não acreditava no que Longange dizia, não aceitava que Mon Père fosse um «zero» (o mpampa), como pretendia Longange".
            Assim também, quanto às outras testemunhas.
            O cozinheiro Mputu, interrogado por sua vez, faz salientar a ignorância das testemunhas não-cristãs (sobre religião): (...)
            "Só Isidoro era cristão em Ikili, mas nós naquela ocasião ainda não sabíamos o que era um cristão. Longange xingava sempre Isidoro de «animal de Mon Père». Nós não sabíamos        que coisa era «Mon Père» nem nunca tínhamos ouvido falar a seu respeito.
            Quando Isidoro foi espancado, a gente pensava que a raiva de Longange tinha sido provocada por aquele toquinho         de pano , que Isidoro carregava sempre em volta do
            pescoço. Mas «rezar», «ser cristão», «Mon Père» eram para nós coisas desconhecidas naquelas horas".
            Aos olhos de todos esses não-cristãos Bakanja aparece como um homem digno, correto, de caráter suave, mas forte nas suas convicções. A sua fidelidade indestrutível às promessas do seu Batismo e à sua Profissão de Fé alimenta-se com a oração e a recitação do terço. Concretiza-se também no fato de trazer o Escapulário. Não! Na verdade, a preço nenhum, nem mesmo ao preço do sofrimento ou da morte, Bakanja se separaria dele!...

CAPÍTULO VI
"Vão prender-vos, perseguir-vos, jogar-vos na prisão (...). Para vós será a oportunidade para dardes  testemunho a meu respeito" (Lc 21, 12-13).
            Mais do que a vida vale a liberdade de um homem. A narração do martírio de Bakanja bem demonstra que ele foi açoitado por causa da sua fé e que preferiu morrer a renunciar à sua profunda convicção.
            Extrato do interrogatório de Iseboya, guarda costas armado de Longange
            - Vamos! Deite-se para receber as chicotadas, manda Longange a Bakanja.
            - Quê! branco? Não roubei nada na sua casa, nunca me aproximei de sua mulher. Por que você me quer bater?
            - Cale a boca, animal de Mon Père, responde Longange. Estou açoitando você, porque você anda ensinando as orações de Mon Père com todas as suas bobagens aos meus trabalhadores, aos meus "boys" e até mesmo aos aldeães; se isto não terminar, ninguém mais ainda vai querer trabalhar para mim,  por causa das histórias de Mon Père!
Longange então me deu a ordem:
            - Iseboya, dê-lhe umas chicotadas!
            Mas eu respondi:
            - Não posso: tenho problemas no braço! Ele então me disse:
            - Vá procurar Bongele!
            Na varanda, bem protegidos contra o sol do meio-dia, Van Cauter (Longange), Reynders (Lomame) e Giret  (Mabelu ou Mobilo) estão terminando de trocar entre si as últimas notícias, beberi-cando o seu copo de uísque. Na cozinha os criados trabalham ati-vamente. Bakanja já serviu à mesa e os seus companheiros lavam a louça. Para eles também o calor é pesado e têm pressa de folgar.
             Bakanja ama estes momentos de tranqüilidade, para estar a sós com o seu Deus e com Maria, sua Mãe. Vai, segundo o seu costume, caminhando pela estrada pouco freqüentada da plantação de laranjas. E reza: "Pai Nosso... seja feita a vossa vontade... perdoai-me, assim como eu perdôo os que me têm ofendido... Meu Deus, ajudai-me a entender os brancos daqui! Porque eles me impedem de rezar? Será que têm medo do Senhor?  Santa Maria, rogai por nós agora e na hora da nossa morte..."  As ave-marias vão desfilando bem devagarzinho.
            A esta hora, pesados por causa da sesta, os olhos de Longange divisam Bakanja e se reaviva a cena da véspera. Este negro seria mais forte do que ele, Longange, o chefe da plantação? Que é que está fazendo sozinho na estrada? Será para lhe fazer pirraça?  A não ser que esteja indo para o porto a fim de denunciá-lo ao Sr. Grillet, o Inspetor comercial da SAB, esperado de um momento para o outro. Não há dúvida de que o Inspetor ficará sabendo do que aconteceu ontem!
            Longange chama o seu guarda-costas Iseboya, que sai para procurar Bakanja, que retorna e respeitosamente se apresenta:
            - O Sr. me chamou, branco. Estou aqui!
            Na presença dos outros brancos, Longange escarra mais uma vez o seu ódio contra os cristãos e tudo o que diz respeito à religião. Impassíveis, os seus companheiros escutam. Conhecem Van Cauter (Longange) e, como os Negros, têm medo dele. Bakanja, porém, se cala. É grande e nobre, homem fiel às próprias convicções. Pela Fé está pronto para todos os sacrifícios, sem preocupar-se com a própria pessoa.
            Debaixo do telhado da varanda está secando um chicote novo. É uma correia tirada da pele de um elefante. Como, ao cortá-la, ela se rasgasse, Longange emendou-a enfiando na extremidade dois pregos, cujas pontas apareciam de fora. É a hora de usá-la, pensa ele. Vai tirar deste cachorro de cristão toda a vontade de ficar rezando!
            E entregou o terrível chicote a Bongele, seu guarda-costas:
            - Avance contra este sujeito!
            Bongele se nega:
            - Bater com um chicote destes e por quê?
            - O problema é meu, esbraveja Longange. Não quero em minha
            casa ninguém de Mon Père!
            E grita para Isidoro se deitar. Isidoro sente-se forte na sua inocência e fica impassível. Longange, então, aproxima-se como um demônio, sem preocupar-se com os curiosos que acorrem para perto do palco do drama. Lança-se contra Bakanja e, indican-do o escapulário, lhe diz:
            - Que quer dizer isto aí? Que é que eu tinha falado com você? Arranque isto do seu pescoço já!
            Isidoro continua sempre impassível. Longange então arranca o escapulário com violência e o joga para o seu cachorro, que sai pelo campo ali perto, estraçalhando o escapulário. Agarrando depois Bakanja pela nuca, joga-o no chão e manda os seus dois guarda costas, Iseboya e Bongele, segurá-lo pelos braços e pelas pernas. Repete a Bongele a ordem de açoitar o pobre Bakanja, mas Bongele se nega:
            - Eu me recuso a bater com este chicote armado de pregos.
            A hesitação do seu guarda costas deixa Longange exasperado:
            - Não invente histórias; quem manda aqui sou eu. É um assunto totalmente meu. Agora! Já!
            Começa então para Bakanja um calvário prolongado que o levará até à morte e até à glória.
            Com o desejo de ajudar Bakanja, Bongele segura o chicote pela parte que tem os pregos e começa a bater com a outra ponta. Longange percebe logo o subterfúgio e exige que Bongele vire o chicote e bata nas costas da sua vítima com a ponta que tem os pregos. O guarda costas, realmente, tem dó do seu irmão de raça e bate com moderação.
            - Não é assim, urra Longange; bata com mais força! E vai para casa buscar o fuzil.
            - Se você não bater com mais força, eu mato os dois!
            Pura ameaça? De modo nenhum! Longange era capaz de matar mesmo. Amedrontado, Bongele desdobra as suas forças e bate. De início, os pregos não rasgam a pele senão de leve, mas bem depressa vão arrancando lanhos. As carnes das coxas e nádegas do mártir aparecem ao vivo, o sangue esguicha e corre pelo chão, por toda parte. Quando Bakanja se contorce de dor, Longange aperta o pé contra as costas do coitado para que permaneça quieto. Quando Bongele, cansado, diminui o ritmo, Longange chuta a sua vítima com as botas e vocifera: "Não acabou ainda. Bata com mais força!"
            A gente diria que a vista do sangue excita Longange mais e mais. Bakanja geme: "Branco, estou morrendo. Tenha dó. Minha mãe, ai! estou morrendo... Ai! meu Deus! Estou morrendo..." Mas o carrasco sangüinário permanece insensível. Bongele vai batendo: 200, 250 golpes. Não é capaz de dizer quantos exatamente, mas o seu braço está sem forças e acaba não querendo continuar.
            Desta vez Longange desiste e se cala. O mártir, ajuntando todas as suas forças, tenta levantar-se, mas torna a cair no chão, que está vermelho pelo sangue dele. Bakanja é uma chaga viva. Homens e mulheres, que o rodeiam, choram por ele e o lamentam.
            E Bakanja geme: "O branco me matou com um chicote!... Não queria que eu rezasse a Deus... Ele me matou porque eu dizia as minhas orações... Eu não tinha roubado nada na casa dele... Mas é porque eu rezava a Deus..."
            Longange dá ordens para prender a sua vítima. A prisão da feitoria não é nada mais que a construção, onde se defuma a borracha. Longange prende depois as pernas de Bakanja com algemas de ferro presas a um peso. Tendo a consciência pouco tranqüila, o carrasco tem medo de que o mártir fuja e vá denunciá-lo a um dos seus chefes.

CAPÍTULO VII
"Tive fome e me destes de comer; tive sede e me destes de beber;  estava nu e me vestistes; estava no cárcere e fostes ver-me" (Mt 25,35-36).

            No cárcere, onde muitos outros estão acorrentados, Bakanja, com os tornozelos apertados dentro das algemas de ferro, continua a subir o caminho do Calvário. Ficará aí de dois a quatro dias. Neste meio tempo Mputu e Iyongo, respetivamente cozinheiro e criado de Longange, levam comida para ele, no cárcere, com risco de serem surpreendidos e castigados pelo patrão e, quando é preciso, ajudam Bakanja a se deslocar, pois não está em condições de caminhar sozinho.
            O suplício de Bakanja torna-se assunto de todas as conversas. Todos estão abalados com a maneira como o branco bateu no empregado do seu auxiliar. E por que o auxiliar não interveio? Bakanja mesmo dirá mais tarde que o seu patrão não estava em condições de resistir a Longange nem tinha coragem de lhe censurar qualquer coisa. Longange era o terror da feitoria. As pessoas o apelidavam muitas vezes de "Esomb'a nkoli", isto é, "o espancador", pois trazia sempre consigo cipós para vergastar as costas dos trabalhadores; tinha também o apelido de "lopoi" , pois eram terríveis os seus acessos de raiva.
            Numa esteira estragada, toda suja de sangue e fezes, Bakanja luta contra a febre, que o assalta e esgota. Junto dele, uma cabaça e uma tigela de arroz, mas Bakanja não toca nem um pouco na comida que, cheios de dó, os seus amigos Mputu e Iyongo acabam de trazer-lhe, sem os brancos ficarem sabendo. Bakanja não tem força nem para levar até a boca em fogo a cabaça de água fresca. Violentos acessos de tosse devidos ao cheiro acre de fumaça, que impregna a prisão, abrem cada vez mais as suas chagas dolorosas.
            Na meia escuridão uma ratazana salta sobre a coberta esfiapada. Nas paredes aranhas enormes, as tarântulas, perseguem as baratas. Mosquitos aferroam, e as mãos cansadas do mártir mal se defendem contra as suas picadas. Com dificuldade encontra no bolso a cruz do seu terço, que segura firme enquanto os lábios murmuram: "Meu Deus, que é que o Senhor quer de mim? Que mal eu fiz?"  Um suor frio escorre por todos os seus poros: "Meu Deus, não me abandone! Não roubei nada. O branco não estava querendo eram as minhas orações!..."
            Neste meio tempo corre o rumor de que a qualquer momento vai chegar o Inspetor da SAB. E Longange sente-se em má situação. Está preocupado. Não gostaria que esta história de Bakanja chegasse aos ouvidos do Sr. Grillet! Com efeito existe uma lei trabalhista na colônia. Foi por isso que os brancos combinaram e decidiram mandar Lomame de viagem a Isoko: Bakanja o acompanhará e não terá assim oportunidade de fazer queixas a Grillet.  Longange, então, corre precipitado até a prisão, solta as algemas da sua vítima aturdida e lhe ordena de ir até Isoko com o seu patrão Lomame.

            - Branco, objeta Bakanja, o Sr. está vendo bem que não tenho mais condições de caminhar.
            - Nada de histórias! responde Longange. Parta junto com o            seu branco!
            Bakanja tem medo de novo espetáculo de violência e se levanta no meio de muito sofrimento; sai dobrado em dois por causa da dor. O seu carrasco dizia a si mesmo que Bakanja nunca chegaria a Isoko, que haveria de morrer no meio da mata e assim todo este assunto ficaria abafado.
            Bakanja sofre muito e vai seguindo a seu patrão rumo a Isoko, mas logo que está longe da vista dos outros, entra no meio do mato e se esconde nas proximidades do brejo perto da estrada, que leva ao porto de Yele. Na friagem da noite, que vem caindo, Bakanja treme de frio e febre e diz a si mesmo: "Oh! quem me dera passasse alguém por aqui para avisar os meus amigos!..." E eis que, justamente, alguém se aproxima. É o guarda das cabras de Longange, Lokwa, que está voltando para o campo.

            - Lokwa, Lokwa! - chama Bakanja.
            - Você aqui? pergunta Lokwa.
            - Pede a Mputu para me trazer a minha roupa, fogo e um pouco de comida.
            Lokwa vai avisar Mputu em segredo e Mputu sai correndo para junto de Bakanja para livrá-lo do frio, da fome e das feras. Em Isoko, Reynders (Lomame) espera em vão pelo empregado e manda um mensageiro prevenir Longange, que fica agitado, vai dando ordens, suspeitando de que Iyongo e Mputu estão escondendo Bakanja.
            - Vão procurar Bakanja! Quando descobrirem onde está
            escondido voltem para me avisar! Entenderam?
            - Entendemos bem!
            - Mas, por outro lado... Não foram vocês mesmos que o esconderam? - grita Longange -  Se o encontrar, vou matá-lo!  Hei de encontrá-lo, nem que seja para pôr toda a aldeia à procura dele!
            Mas chegou um barco. Longange é obrigado a parar com as suas investigações.

CAPÍTULO VIII
"Tudo o que está escondido será descoberto; tudo o que está em segredo será revelado" (Mt 10,26)
            Na beira do rio, Longange pensa estar acolhendo o seu amigo Grillet, mas se encontra diante de outro Inspetor, Dörpinghaus, por outro nome: Potama, e convida o viajante a participar do seu almoço do meio dia.
            Como todo o mundo, Iyongo, criado de Longange, está à beira do rio e assiste à atracação do barco. A chegada de um barco é sempre uma festa. Os meninos correm daqui e dali e admiram os mais velhos que viajam assim semanas e semanas. As mulheres aparecem de todos os lados com balaios cheios de raízes de mandioca e de batata doce, de "chikwángues"  e bananas. Com a presença delas instala-se um mercado... Os homens se movimentam junto às pilhas de lenha. De repente um olhar imperioso de Longange arranca Iyongo para longe deste espetáculo fascinante e ele sai correndo até Ikili, a fim de preparar o almoço para o branco e seu convidado.
            À altura do brejo, Bakanja o surpreende. Como os outros, Isidoro tinha ouvido o apito do barco e pede informação:
            - Foi Bongende (Grillet) quem chegou?
            - Não. Não foi Bongende, mas Potama (Dörpinghaus), responde
            Iyongo. Mas como é que você não está em Isoko?
            - Como poderia chegar a Isoko se não posso caminhar?
            Longange mandou-me para lá para eu morrer na estrada e isto eu não quero. Vim para cá. O mato me protege. Só Deus sabe se vou morrer das minhas feridas ou viver.
            Mas ouvindo o pessoal que vinha pela estrada, Iyongo suplica a Bakanja para se esconder:
            "Cuidado, Bakanja! Olhe Longange e Potama. Quando Potama daqui a pouco voltar para o barco, você se apresente, mas            agora não !"
            Depois do almoço, Potama despede-se de Longange, pois não pode demorar-se: precisa prosseguir viagem. Lwanga, o guarda de cabras, vem atrás dele, carregando nos ombros dois quartos de uma cabra, uma oferta do patrão ao seu hóspede.
            Percebendo que vêm vindo, Bakanja os interpela...  Eis como Dörpinghaus conta o incidente:
            "Vi sair da mata um homem com as costas rasgadas de chagas profundas, que supuravam e tinham mau cheiro; o homem         estava coberto de imundície, maltratado pelas moscas,        apoiando-se em dois pedaços de pau para chegar perto de        mim, arrastando-se mais do que andando. Interrogo o infeliz e lhe pergunto: «Que foi que você fez para merecer um castigo destes?»  Ele me respondeu que, por ser cristão da Missão Católica dos Trapistas de Bamanya, tinha querido converter os trabalhadores da feitoria: era esta a razão porque o branco mandou açoitá-lo com um chicote duro, que tinha pregos pontudos".
            Potama dá ordens a Lokwa para ir chamar Longange. Furioso, Longange chama o seu guarda costas Iseboya, que justamente está voltando da caça com o seu "Albini"  e lhe diz:
            - Iseboya, traga Bakanja aqui o mais depressa possível. Se não quiser vir, mate-o!
            Vendo Iseboya com o fuzil, Potama compreende as intenções de Longange e barra a passagem do guarda costas, dizendo-lhe:
            - Onde você vai com este «Albini»?  Acha que aquele homem ali é um bicho?
            - Estou indo caçar um javali! responde Iseboya.
            - É mesmo?!... exclama Potama. Então é um javali? Não é
            mais um homem?
            - Não vou matá-lo! responde Iseboya. Meu branco mandou-me levá-lo!
            Neste entretempo chega Longange. Quer dar um tapa no rosto de Bakanja, mas Potama agarra o seu braço. Longange vomita então acusações contra a sua vítima: "Você está contando assim a um outro branco as coisas que eu faço?... Aqui em Ikili o único patrão sou eu!"
            Uma longa discussão estoura entre os dois brancos. Que é que eles dizem um ao outro? Ninguém nunca o saberá, pois nenhuma das testemunhas compreende o francês.
            Por fim Potama manda os dois homens carregar Bakanja até o barco, que está de viagem para Isongu, onde Grillet o aguardava. É evidente que o comportamento desumano de Longange não é de modo nenhum apreciado pela Direção Geral da SAB. No decorrer do mês Longange arruma as malas e tem de abandonar não já a feitoria de Ikili, mas o seu posto na Sociedade. Uma carta do Sr. Stronck dá testemunho disto:
             "No princípio de fevereiro de 1909, eu estava na plantação de Botako e fui chamado a Ngomb'Isongu, no rio Lomela, para ir substituir o Sr. Van Cauter (Longange) em Ikili. Por intermédio do Sr. Grillet, Inspetor Comercial, e do Sr. Dörpinghaus, Inspetor das Plantações, fiquei sabendo que o Sr. Van Cauter devia abandonar o serviço da nossa Sociedade para se pôr à disposição da justiça: tinha infligido um castigo brutal a um trabalhador da sua feitoria sem motivos    sérios, mas sobretudo, como o Sr. Dörpinghaus o confirmou para mim, para dar vazão ao seu ódio infernal contra a religião católica, da qual o mencionado Bakanja era fervoroso propagador no meio dos trabalhadores, desejoso de     colocá-los a par das primeiras noções necessárias para receberem o batismo".

CAPÍTULO IX
"Em verdade, em verdade vos digo: se o grão de trigo não cair por terra e não morrer, há de ficar sozinho" (Jo 12,24)
            Bakanja não guarda ódio no coração. Ao Pe. Jorge, que esteve à sua cabeceira, promete rezar pelo branco, que tão cruelmente o maltratara. "Não estou aborrecido com o branco. Ele me bateu: é problema dele e não meu!" (...)   "Sim! Se eu morrer, rezarei muito por ele no Céu!..."
            No barco do seu salvador Bakanja está longe de estar abandonado. Potama limpa as suas chagas e procura curá-las o melhor possível, mas é grave o estado de Isidoro. As suas carnes todas estão a descoberto e se infeccionam; vêem-se os seus ossos.
            No dia 9 de março o barco aporta a Ngomb'Isongu. O inspetor Potama põe debaixo dos olhos de Grillet a vítima de Longange. Grillet deve agir: não pode deixar passar em silêncio o incidente sangrento de Ikili.
            Bakanja é entregue aos cuidados do chefe Isengakoi. Cada dia Ntangeji, o criadinho do chefe, vai buscar na casa do Sr. Bertrix a porção de peixe, mandioca e arroz, que Bakanja precisa. Outro adolescente, Ngolumbu, cozinha para ele os alimentos, dá-lhe banho e fica com ele durante a noite. Outro branco, o Sr. Dufourd, chefe dos agrimensores do Bush-Bloc, prodigaliza-lhe os seus cuidados, procurando drenar a infecção, que parece ganhar terreno cada dia mais.
            Todas as pessoas, que se encontram com Bakanja na casa do chefe, ficam conhecendo a triste história, todos ficam sabendo que ele é cristão e o vêem rezar incansavelmente. Aqui também a religião católica é a grande desconhecida. E o povo então se interroga: "Que é, então, que dá a Bakanja força para suportar o seu mal?  Quem é este Deus que ele invoca com tanto fervor e perseverança?"  E os seus corações já se apresentam como um campo fértil, onde os sofrimentos de Bakanja lançam a semente...  Com efeito, um ano mais tarde, o catequista aqui nesta região, Bakombo José, que foi testemunha do martírio de Bakanja, encontrará um povo disposto para receber a Boa-Nova de Jesus Cristo.
            No início de junho, o Sr. Dufourd, vendo que o estado do ferido só piorava, embarca Bakanja no "Brughman", que a 4 de junho chega a Busira, onde mora Boya, primo de Bakanja e que era  marceneiro da SAB. Este lhe dá hospedagem em casa. Mas por que depois o primo o envia para casa de um aldeão chamado Bontamba?  Está amedrontado com os cuidados que deve prestar a Isidoro?  Não tem ele uma pessoa para cuidar de Bakanja, enquanto ele vai para o trabalho? 
      O catequista Antônio Loleka não concorda com esta decisão. Quem está sofrendo vê multiplicados por dez os seus sofrimentos, ao sentir-se rejeitado pelos seus. Loleka então faz Boya perceber que está faltando à tradição, ao distanciar Bakanja desta maneira, e que não pode, a preço nenhum, deixá-lo morrer em casa de estranhos. Juntos, Boya e Loleka vão buscar Bakanja e desta vez o entregam aos cuidados de uma senhora de nome Bolangi, que mora numa casa em frente à de Loleka.
            É aí que nos dias 24 e 25 de julho Bakanja tem a alegria de ser visitado por dois missionários, os padres Gregório Kaptein e Jorge Bubrulle, em giro pastoral pela parte mais distante da sua circunscrição. Bakanja pode, enfim, fazer a confissão, receber a Unção dos Enfermos e, sobretudo, acolher no seu coração Aquele que, como ele, foi flagelado na própria carne.
            Ao conversar com os padres, Bakanja mais uma vez afirma a causa do seu martírio. O Pe. Jorge, que esteve à cabeceira do doente, pergunta-lhe:
            - Isidoro, por que o branco bateu em você?
            - O branco não gostava dos cristãos!... Não queria que eu   trouxesse o hábito de Maria !... Gritava comigo quando eu rezava as minhas orações!...
            E quando o Pe. Jorge fala com ele sobre os seus sofrimentos e tenta reconfortá-lo, Bakanja renova o seu "fiat", isto é, a sua plena adesão à vontade de Deus:
            " Se eu morrer não é nada! Se Deus quiser que eu viva, viverei. Se Deus quiser que eu morra, morrerei. Para mim é igual !"
            O Pe. Jorge ainda deseja aconselhar Bakanja a não alimentar ódio no seu coração, a perdoar o branco que o maltratou com tanta crueldade, até mesmo a rezar por ele, a pagar o mal com o bem; e Isidoro lhe responde:
            "Não estou com raiva do branco... Ele bateu em mim: é problema dele, não é mais o meu!"
       Isidoro, portanto, não exige nenhum recurso à justiça, nenhuma reparação, nenhuma indenização. E quando lhe diz o Pe. Jorge que, ao chegar ao Céu, deverá rezar pelo seu carrasco, Bakanja responde: "Sim! Se eu morrer, rezarei por ele no Céu".

CAPÍTULO X
Quem quiser vir após mim renuncie a si mesmo, carregue a sua cruz e siga-me. Porque quem quer salvar a sua vida vai perdê-la; quem perder, porém, a sua vida por causa de mim há de reencontrá-la" (Mt 16,24-25).
          Não foi lançando pétalas de rosas que se falou assim! Renunciar a si mesmo, carregar a sua cruz, perder a sua vida não são palavras ocas para Jesus, a quem os inimigos conduziram ao suplício da cruz como cordeiro ao matadouro.
            Não foram palavras ocas para os primeiros mártires cristãos, que entregaram o próprio corpo às torturas dos seus algozes.
            Não foram palavras ocas para Bakanja, que está sofrendo sempre mais na sua carne putrefeita e nos seus ossos postos a
nu! Esta pobre vida da terra ele está perdendo cada dia um pouco mais...  Perde-a nesta manhã de 15 de agosto de 1909 devido a todo este sangue, que acaba de vomitar mais uma vez.
            Apesar disto conseguiu unir a sua oração à dos cristãos e catecúmenos, que vieram especialmente para rezar a Maria na varanda do catequista Loleka, que há algumas semanas o hospeda. Bakanja sente-se feliz ao ver a Palavra de Deus brotar e crescer dentro do coração dos seus irmãos de cor.
            Diante da admiração de todos os que já o consideram moribundo, Bakanja levanta-se, desce a varanda e, com o terço nos dedos, por um momento caminha em silêncio no meio do bananeiral; em seguida - ele que a gente sempre via como que distanciado - torna a subir os degraus e volta para a cama, para, enfim, aí encontrar o repouso eterno.
            Assim, sem ruído, na simplicidade com que sempre viveu, Bakanja Isidoro acaba de partir ao encontro d'Aquele que o havia chamado há três anos apenas. Aquele que o havia enviado como ovelha para o meio dos lobos. Aquele a quem ele havia seguido e servido com incansável fidelidade.
            Entregue a si mesmo o homem é incapaz de perder a vida serenamente, incapaz de ver na morte uma libertação, um novo nascimento. Na oração e na fidelidade Bakanja descobriu o sentido da vida e o sentido da morte. Que pode acontecer diferente do que aconteceu com o seu Mestre, Cristo Jesus, que depois da sua Paixão e Morte ressuscitou e hoje tem parte na glória do Pai?
            Bakanja não está mais aqui. O dia inteiro, a noite inteira, o tantã africano ressoa. Cristãos, catecúmenos e até mesmo
não-cristãos se lamentam, choram, cantam, rezam, fazem vigília. No meio deles Bakanja está descansando, com o terço entrelaçado nas mãos postas e o escapulário no pescoço. E foi assim que os seus amigos o sepultaram no cemitério de Wenga, à beira da plantação.
            Quando os padres estabeleceram mais tarde o posto de Bokote, não deixaram de levar consigo o corpo de Bakanja, cujo local de sepultamento os cristãos sabiam exatamente, e cheios de veneração o enterraram no cemitério da Missão. É ali que ele repousa até os dias de hoje, aguardando a Ressurreição.
            BAKANJA NOSSO MÁRTIR. Estas três palavras resumem a vida meritória e exemplar deste empregado simples, que Deus escolheu para si, para que se tornasse "semente" de cristãos na terra nossa do Zaire. Possa a Igreja reconhecer a excepcional influência, que Bakanja Isidoro exerceu na sua terra, martirizado unicamente porque se dizia e se mostrava cristão.

ANEXOS
1º -  Decreto da Sagrada Congregação para as Causas dos  Santos.           
Prot. nº 1310-4/977
MBANDAKA-BIKORO

Beatificação ou declaração de martírio do Servo de Deus  BAKANJA  ISIDORO
           
            Visto que se difundiu a fama do martírio do Servo de Deus, Bakanja Isidoro, nascido entre 1880 e 1890 e morto pela metade de agosto de 1909, e diante do pedido de muitos fiéis, Sua Excia. Dom Pedro Wijnants, Arcebispo de Mbandaka-Bikoro, julgou justo e conforme com a religião pedir à Sé Apostólica a graça de abrir ou introduzir a Causa de Beatificação do supracitado Servo de Deus e proceder ao processo histórico na Cúria da Mbandaka-Bikoro.
            A Sagrada Congregação para as Causas dos Santos julgou os argumentos apresentados, segundo os quais esta causa parece repousar sobre uma legítima e sólida base. E, na sua reunião ordinária de 4 de junho de 1977, julgou poder responder que nada impede o Ordinário de Mbandaka-Bikoro de publicar o decreto de introdução canônica da Causa de Beatificação deste Servo de Deus, e que pode levar avante o processo histórico sobre a vida e fama de martírio segundo as normas editadas pelo Papa Pio XI no dia 4 de janeiro de 1939 a respeito das causas históricas.
            Assinando o relatório do Cardeal-Prefeito, no dia 11 de junho de 1977, o Papa Paulo VI confirmou e validou esta resposta da Sagrada Congregação para as Causas dos Santos.
                        Dado em Roma, aos 11 de junho de 1977
(ass.) C. Card. Bafile                                 
Prefeito
+ José Casoria
Secretário

2º - Carta escrita ao R.P. Aloísio de Witte O.C.R.
 (trapista), a 12 de fevereiro de 1914, pelo Sr. Jacobs, antigo agente da SAB de Bomputu.
Monieka, 12 de fevereiro de 1914
Muito Reverendo Padre
            Por ocasião da minha última passagem pela vossa Missão de Bokuma, o Sr. me havia perguntado se eu poderia dizer-vos o nome da segunda testemunha branca que na feitoria da SAB em Yele, em 1909, tinha assistido com o Sr. Reynders ao suplício que o Gerente, Sr. Van Cauter, fez sofrer o citado Bakando. O europeu, chamado "Mobilo", era o Sr. Giret, gerente de Watsi-Kengos.
            De acordo com as minhas recordações, o único e verdadeiro motivo pelo qual o coitado do Bokando sofreu o seu terrível castigo foi ser ele cristão e rezar no acampamento dos trabalha-dores, já que a proibição disto lhe tinha sido feita por Van C... Foi-me isto contado pelos Srs. Grillet e Dörpinghaus, que tinham, um e outro, residência em Bomputu, onde nesta época eu era geren-te; eles, como o Sr. sabe, estavam por dentro deste triste caso.

Queira, Muito Reverendo Padre, aceitar a expressão dos meus respeitosos e devotados sentimentos.
(ass.) Jacobs
3º - Extrato do julgamento de VAN CAUTER a 31 de janeiro de 1910

JULGAMENTO À REVELIA
Tribunal de 1ª.Instância de Coquilhatville
Audiência Pública de 31 de janeiro de 1910
Em causa: Ministério Público contra VAN CAUTER (...)
            Considerando que ficou estabelecido, na instrução preparatória e na audiência, que o réu, no mês de fevereiro de 1909, na feitoria de Yele, onde era gerente, infligiu chicotadas em um dos trabalhadores do seu pessoal, chamado Bakanda, e isto por duas vezes diferentes; considerando que ficou provado pelas testemunhas, Yongo e Bongere, que este último, autor material do fato acima citado, tinha, na execução das ordens recebidas de seu patrão, aplicado primeiro 25 golpes com um chicote comum, depois, em seguida, 100 golpes com um chicote, que lhe foi entregue pelo réu e que estava armado na ponta com dois pregos de caixote salientes por um centímetro mais ou menos; considerando que o castigo foi aplicado a Bakanda porque ele vestia um escapulário e se recusava a tirar este distintivo; considerando que, depois da segunda sessão de castigo, estando sem capacidade de caminhar, a vítima foi pelos trabalha-dores, que a haviam segurado no chão, carregada até o corpo de guarda, onde foi acorrentada e permaneceu vários dias sem ser objeto de cuidado nenhum, para ser mais tarde levada pelo Sr. Dörpinghaus até Gombe-Songo; considerando que, depois desta segunda correção, Bakanda, que tinha ficado com a sua tanga, estava com o tecido da tanga todo rasgado, por ter sofrido a tortura, com as nádegas e coxas recobertas de chagas profundas, causadas pelas chicotadas; considerando que da constatação, a que procedeu no dia dezesseis de abril de 1909 o Sr. Oficial de Polícia Judiciária, no exercício desta função, resulta que Bakanda ainda nesta data se encontrava na impossibilidade da andar sem ajuda, por causa das chagas que tinha após estes maus tratos;            considerando que estas conseqüências graves das chicotadas dadas em Bakanda foram igualmente afirmadas na Instrução Prepara-tória e na Audiência, e que, além disto, elas podem ser deduzidas legitimamente da natureza do instrumento empregado para dar as chicotadas, assim como do número destas; considerando que a impossibilidade de se movimentar constitui, evidentemente, incapacidade de trabalho prevista pela lei; considerando que, de resto, neste sentido, o Sr. Reynders declarou ao Magistrado Instrutor que o estado da vítima o havia impedido de levá-la de viagem para o seu serviço;            considerando que desde agora está estabelecida na sua totalidade a culpabilidade do réu;  quanto à apreciação da pena.
            Considerando que as circunstâncias materiais do fato denunciam verdadeiro requinte de crueldade, a saber: o número de golpes mandados dar, o instrumento fornecido pelo réu para esta finalidade, o consecutivo abandono e detenção da vítima na prisão;
            Considerando que o móbil ao qual o réu obedecia constituía um atentado à personalidade moral de Bakanda e à liberdade de culto; vê-se ainda agravado o odioso do seu ato; que há lugar para se mostrar severidade; (...)
4º - Extrato do julgamento de VAN CAUTER aos 22 de agosto de 1912

JULGAMENTO
Tribunal de 1ª Instância de Coquilhatville
Audiência pública de  22 de agosto de 1912
Em causa: Ministério Público contra VAN CAUTER

(...) Considerando, por outro lado, que estas alegações do réu são logo, no inquérito preparatório, formalmente contraditas pelo Sr. Reynders, que foi testemunha ocular dos feitos incriminados, quando nesta época se encontrava na feitoria de Yele; considerando que esta testemunha declara com efeito, que o chicote que serviu na ocorrência, estava armado com dois pregos cravados juntinho do couro, a um centímetro e meio um do outro e muito próximo da ponta, ultrapassando mais ou menos um milímetro; considerando que a testemunha acrescenta ainda que o "boy" Bakanda estava muito ferido pelos pregos abaixo da cintura, e que três dias depois da punição que lhe foi aplicada, tendo a teste-munha de se pôr em viagem para o interior com ele, teve de mandar Bakanda de volta para o posto, visto que este último (Bakanda) não era capaz de seguir a comitiva; considerando que esta testemunha, igualmente, não faz alusão nenhuma a algum roubo que tivesse sido cometido pelo "boy"  Bakanda com prejuízo para ela, testemunha;    considerando que, por outra parte, no dia 6 de abril de 1909, dois meses, portanto, após os fatos incriminados, o Oficial de Polícia Judiciária, Relecom, de Besengote, declara ter exami-nado a vítima e ter constatado que este homem estava ferido, notadamente nas coxas; considerando que estas feridas, que são muito profundas, põem este negro na impossibilidade de caminhar sem ajuda e que, apesar dos cuidados que lhe foram dados, ele permanecerá ainda muitas semanas sofrendo muito; considerando que, igualmente, o Sr. Grillet, Inspetor Comercial da SAB, declara ao Magistrado Instrutor que no dia 9 de fevereiro de 1909, seis dias, portanto, mais ou menos, depois que Bakanda recebeu os açoites em questão, tendo ele chegado a N'Gombe com o barco a vapor "Presidente Brugmann" e aí tendo visto a vítima, não teve coragem de assumir a responsabilidade  grave de receber a bordo o pobre "boy" - disse ele ao Magistrado - " (diante) do estado do homem maltratado, para quem a viagem teria sido fatal"; considerando que, em conseqüência destes acontecimentos,  ele dispensou Van Cauter das suas funções e o despachou, pondo-o à disposição da Direção da Companhia; considerando que depois na audiência, a testemunha Bongere, ouvida sob fé de juramento e autor material da tortura infligida, declara que um dia foi chamado por Van Cauter para dar duzentas chicotadas no "boy" Bakanda, de uma vez só; considerando que ele ignorava o verdadeiro motivo do castigo, mas o réu tinha falado "que não gostava dos católicos"; considerando que tendo notado, somente desta vez, que o chicote estava armado de dois pregos que saíam fora um meio centímetro, mais ou menos, quis segurar na mão a ponta que estava deste jeito, mas o réu deu-lhe ordem de virar o chicote e bater com força do lado onde estavam os pregos; considerando que a testemunha notou que o "boy" sangrava e estava profundamente ferido, mas como o branco estava ao seu lado e era muito perverso - diz ele -, continuou batendo, enquanto o infeliz "boy" chorava e gritava, dizendo que ia morrer;considerando que, depois de ter sido flagelado desta maneira, Bakanda quis levantar-se, mas foi-lhe impossível caminhar e teve de ser carregado por uma sentinela até a prisão do posto, para onde o réu tinha mandado levá-lo depois da sessão de tortura;
considerando que a testemunha acrescenta também ter visto o réu arrancar o escapulário do pescoço do "boy" e jogá-lo para o seu cachorro, dizendo  « que não gostava da gente do "père" »; (...)

            5º - Decreto da Sagrada Congregação da Causa dos Santos  sobre a Beatificação de ISIDORO BAKANJA, leigo, comprovadamente morto por ódio à fé.

"Após ter mandado flagelar Jesus,(Pilatos) entregou-o aos soldados para que fosse crucificado" (Mt 27,26).
            Nosso Redentor, que na sua paixão padeceu acerba e indigna flagelação, tinha no decurso da sua vida pública anunciado com antecedência aos seus discípulos que haveriam de sofrer muitas adversidades e até mesmo a flagelação: "Hão de flagelar-vos" (Mt 10,17).
            Verificou-se isto também na vida do leigo cristão Isidoro Bakanja que, por amor de Deus e pelo firme e constante testemunho de fé, foi atormentado por cruel e sangrenta flagelação, que se tornou a causa da sua gloriosa morte.
            Este discípulo intrépido de Cristo nasceu em Yonzwa-Inyuka entre 1885 e 1890, na aldeia de Bokendela-Bakalaka, situada na região de Mbandaka ao noroeste do Zaire. Porque eram pagãos, durante a sua infância, os pais não o educaram no cristianismo, embora ele, por natureza, fosse manso, afável, dócil e dedicado ao trabalho. Muito jovem ainda, emigrou para Coquilhatville, hoje Mbandaka, onde trabalhou como diarista e auxiliar de pedreiro, e ouviu falar sobre a religião católica, para a qual sentiu-se atraído de tal maneira que se inscreveu ansiosamente como catecúmeno, estudando o catecismo na vizinha missão de Boloko-Nsimba dirigida pelos Padres Trapistas. No dia 6 de maio de 1906 recebeu o batismo e foi-lhe dado o Escapulário de Nossa Senhora do Carmo, que ele, desde aquele dia, carregou como sinal de testemunho cristão e de piedade para com a Mãe de Deus. No dia 25 de novembro seguinte foi-lhe conferido o Sacramento da Crisma e no dia 8 de agosto de 1907 foi pela primeira vez revigorado com o Pão Eucarístico. Transformado em nova criatura em Cristo, com diligência e constância cultivou a fé, que alimentou com a oração assídua e testemunhou corajosamente.
            Terminado o contrato de trabalho, retornou à sua terra natal; daqui dirigiu-se para Busira, onde foi assalariado pelo gerente de uma Sociedade Anônima Belga; em seguida acompanhou-o como empregado até as plantações da aldeia de Ikili. No meio dos funcionários desta Sociedade encontrou aversão à religião cristã, mas com a sua costumeira liberdade continuou a demonstrar abertamente a sua fé. Foi mandado açoitar pelo gerente daquela feitoria, porque não tinha obedecido à proibição de trazer ao pescoço o Escapulário de Nossa Senhora do Carmo. Este castigo injusto não atemorizou, todavia, aquele cristão corajoso; mas, sabendo que devia obedecer mais a Deus do que aos homens (cf. At 5,29), continuou pelo seu caminho, cheio de mansidão, humildade e confiança, como os Padres Trapistas lhe haviam ensinado, não se preocupando com os graves perigos, que estava para enfrentar.
            No dia 2 de fevereiro de 1909, visto que ainda então continuava trazendo o escapulário, o mesmo gerente da feitoria, cego pelo ódio e pela ira contra a religião de Cristo, ordenou que o Servo de Deus, inofensivo, fosse torturado com uma crudelíssima e prolongada flagelação. Os ferimentos que recebeu foram tão graves que, além de torná-lo incapaz para o trabalho, causaram-lhe a morte. Nos poucos meses que seguiram foi atormentado por contínuos sofrimentos, que lhe foram mais dolorosos do que a própria flagelação. Carregou a sua cruz com admirável paciência, forte pela oração. Embora amigos e vizinhos lhe dedicassem cuidados e carinho, o seu estado, porém, ia piorando, sem se poder fazer nada, e o seu corpo cobriu-se de chagas. Na aldeia de Wenga, perto de Busira, foi visitado por dois Padres Trapistas. Fez a sua confissão sacramental, recebeu o Santo Viático, de coração perdoou o seu perseguidor e prometeu rezar pela conversão dele, quando chegasse ao céu. Trazendo o escapulário ao pescoço e o rosário nas mãos, partiu para a vida eterna num domingo (8 ou 15)  de agosto de 1909, reconhecido pela fama de verdadeiro mártir da fé. O seu valoroso testemunho e sacrifício foram a semente, que produziu abundantes frutos espirituais; de fato, nos anos seguintes, numerosas foram naqueles lugares as conversões à fé católica.
            (Até aqui tradução baseada na tradução feita pelo Pe. Stefano Possanzini e publicada na Revista La Madonna del Carmine de jan-fev de 1994; o que segue foi traduzido do texto publicado em Carmel in the World vol.33;  n.3   1993)
            Como a partir desta data perseverasse a fama do seu martírio, o Vigário Apostólico de Coquilhatville decretou que se fizesse um exame sobre a morte do Servo de Deus (durante os anos de 1913 e 1914), tendo em vista a Causa da Canonização. Demorou a introdução da Causa por motivos a ela alheios. O Ordinário de Mbandaka nomeou em 1977 uma Comissão encarregada do Processo Histórico, e neste mesmo ano teve início o processo canônico, cuja autoridade e força comprobatória foram aprovadas pelo Decreto promulgado no dia 21 de junho de 1991. Após ter sido preparada a Comprovação do Martírio, a Sessão Especial de teólogos consultores, ajudada pelo Promotor Geral da Fé, o Reverendíssimo Antônio Peti, aprovou a Causa no dia 4 de dezembro de 1992; o resultado foi positivo. Depois, os Cardiais e Bispos, durante a Assembléia Ordinária de 16 de fevereiro de 1993, intervindo Sua Eminência, o Cardeal Francisco Arinze, como defensor da Causa, declararam que o Servo de Deus Isidoro Bakanja poderia ser reconhecido como verdadeiro mártir da fé.
            O Supremo Pontífice João Paulo II foi cientificado sobre todo este assunto pelo abaixo assinado Cardeal Prefeito, aceitou e manteve como válidas as decisões da Congregação para a Causa dos Santos, ordenando que fosse adequadamente redigido um decreto sobre o martírio do Servo de Deus.
            Quando isto se fez, o Cardeal Prefeito, o Cardeal Defensor da Causa e eu, Arcebispo Secretário, com outros participantes de costume fomos convocados e estivemos presentes no dia de hoje. O Santo Padre então declarou: "o Martírio do Servo de Deus Isidoro Bakanja, um leigo que em 1909 sofreu a morte provocada pelo ódio contra a fé e por sua causa, é evidente tanto no que se refere ao acontecimento em si mesmo como nos efeitos de que nós tratamos".
            Sua Santidade desejou que fosse publicado este decreto e registrado nas Atas da Congregação para a Causa dos Santos.
                        Dado em Roma no dia 2 de abril de 1993
                                        Ângelo Cardeal Felici
                                                Prefeito
                                             Eduardo Nowak
                                       Arcebispo Titular de Luni
                                               Secretário

HOMILIA DO PAPA JOÃO PAULO II DURANTE A SANTA MISSA E RITO DE BEATIFICAÇÃO CELEBRADOS       NA PRAÇA DE SÃO PEDRO
(Edição semanal em português de L'OSSERVATORE ROMANO de 30 de abril de 1994, nº 1.273 (18)  p.1 (233) e 2 (234)
1. «Eu sou o Bom Pastor; o bom pastor dá a vida pelas suas ovelhas (...)» (Jo 10,11).
            Ouvimos estas palavras todos os anos no quarto domingo de Páscoa. Nelas Cristo fala de Si, da sua morte e da sua ressur-reição: «Dou a Minha vida, para tornar a tomá-la. Ninguém Ma tira; sou Eu que a dou por Mim mesmo. Tenho poder para a dar e para tornar a tomá-la» (Jo 10,17-18). O mistério pascal de Cristo é obra de imenso amor. Cristo, na cruz, oferece a vida por amor do homem e, embora morrendo, permanece o senhor da própria vida e da própria morte. Ao ressuscitar ao terceiro dia, manifesta a vida que nasceu da morte e, depois da ressurreição, entra no Cenáculo para transmitir aos apóstolos o poder de derrotar a morte e restituir a vida. Tornamos-nos assim também nós partíci-pes do seu Mistério pascal.
            2. Hoje, desejamos venerar de modo particular aqueles que tomaram parte na morte de Cristo e na sua ressurreição. Eles ofereceram a própria vida, aquela mesma vida que lhes foi restituída por Cristo, mediante a sua ressurreição. A celebração hodierna realiza-se enquanto está em pleno desenvolvimento a Assembléia Especial do Sínodo dos Bispos para a África. Portanto, também o solene rito de Beatificação de Isidoro Bakanja, Giovanna Beretta Molla e Elisabetta Canori Mora reveste uma particular eloqüência: é a eloqüência de uma fé heróica e de uma solicitude heróica. A fé heróica dá testemunho da verdade que é Cristo. A solicitude heróica dá testemunho do amor que não recua diante de sacrifício algum. É este o amor com que Cristo nos amou.
            3. Foste um homem de fé heróica, Isidoro Bakanja, jovem leigo do Zaire. Como baptizado, chamado a difundir a Boa Nova, compartilhaste a tua fé e testemunhaste Cristo com tanta convicção que, aos teus companheiros, te mostraste como um daqueles valorosos fiéis leigos que são os catequistas. Sim, Beato Isidoro, plenamente fiel às promessas do teu batismo, foste realmente um catequista, trabalhaste generosamente pela «Igreja na África e pela sua missão evangelizadora».

No decurso da Assembleia Especial do Sínodo dos Bispos,
No dia em que proclamamos os teus méritos, queremos prestar homenagem a todos os catequistas, estes colaboradores indispensáveis para a edificação da Igreja no continente africano. Os catequistas precedem, acompanham e completam a obra   dos sacerdotes no meio do seu povo. Em numerosas épocas históricas, eles consentiram à fé sobreviver às perseguições. Eles sabem ser Pastores verdadeiros, que conhecem as suas ovelhas e por elas são conhecidos; e, se necessário, defendem o rebanho à custa da própria vida. Os catequistas estão bem conscientes de que um grande número dos seus irmãos e irmãs ainda não pertence ao rebanho e espera, da sua solicitude fraterna, o anúncio da Boa Nova. Mediante a sua obra, os catequistas dão verdadeiro testemunho de Cristo, o único Pastor.
            Isidoro, a tua participação no mistério pascal de Cristo, na obra suprema do seu amor, foi total. Porque querias permanecer fiel, custasse o que custasse, à fé do teu baptismo, sofreste a flagelação como o teu Mestre. Perdoaste aos teus perseguidores, como o teu Mestre na Cruz, e demonstraste ser artífice de paz e de reconciliação.
            Numa África dolorosamente provada pelas lutas entre etnias, o teu exemplo luminoso é um convite à concórdia e à aproximação  entre os filhos do mesmo Pai celeste. Tu praticaste a caridade fraterna para com todos, sem distinção de raça ou de condição social; ganhaste a estima e o respeito dos teus companheiros, muitos dos quais não eram cristãos. Mostras-nos assim o caminho do diálogo necessário entre os homens.
            Neste Advento preparatório para o terceiro milênio, tu nos convidas a acolher, segundo o teu exemplo, o dom que, na Cruz, Jesus nos fez da própria Mãe (cf. Jo 19,27). Revestido com o «escapulário de Maria» continuaste, como Maria e com Ela, a tua peregrinação de fé; como Jesus, o Bom Pastor, chegaste a dar a tua vida pelas ovelhas. Ajuda-nos, a nós que devemos percorrer o mesmo caminho, a dirigir os nossos olhos para Maria e a tomá-la como guia". (Segue o panegírico das Bem-Aventuradas Gianna e Elisabetta).