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A Palavra do Frei Petrônio

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sábado, 20 de junho de 2015

A PALAVRA... Nº 910. Um olhar sobre João Batista- 05.

Por que somos tão covardes? (12º Domingo do Tempo Comum).

A leitura que a Igreja propõe neste domingo é o Evangelho de Jesus Cristo segundo Marcos 4, 35-41 que corresponde ao 12° Domingo do Tempo Comum, ciclo B do Ano Litúrgico. O teólogo espanhol José Antonio Pagola comenta o texto.

Eis o texto
 “Por que sois tão covardes? Ainda não tendes fé?”. Estas duas perguntas que Jesus dirige aos Seus discípulos não são, para o evangelista Marcos, um episódio do passado. São as perguntas que hão de escutar os seguidores de Jesus no meio das suas crises. As perguntas que temos de fazer também hoje: Onde está a raiz da nossa covardia? Por que temos medo ante o futuro? É por que nos falta fé em Jesus Cristo?
O relato é breve. Tudo começa com uma ordem de Jesus: “Vamos à outra margem”. Os discípulos sabem que na outra margem do lago Tiberíades está o território pagão da Decápolis. Um país diferente e estranho. Uma cultura hostil à sua religião e crenças.
De repente levanta-se uma forte tempestade, metáfora gráfica do que ocorre no grupo de discípulos. O vento de furação, as ondas que batem contra a barca, a água que começa a invadir tudo expressam bem a situação: Que poderão os seguidores de Jesus ante a hostilidade do mundo pagão? Não só está em perigo a sua missão, mas inclusive a sobrevivência do grupo.
Despertado pelos Seus discípulos, Jesus intervém, o vento cessa e sobre o lago vem uma grande calma. O surpreendente é que os discípulos “ficam espantados”. Antes tinham medo da tempestade. Agora parecem temer a Jesus. No entanto, algo decisivo se produziu neles: recorreram a Jesus; puderam experimentar Nele uma força salvadora que não conheciam; começam a perguntar-se pela Sua identidade. Começam a intuir que com Ele tudo é possível.
O cristianismo encontra-se hoje no meio de uma “forte tempestade” e o medo começa a apoderar-se de nós. Não nos atrevemos a passar à “outra margem”.
A cultura moderna resulta-nos um país estranho e hostil. O futuro dá-nos medo. A criatividade parece proibida. Alguns acham mais seguro olhar para trás para melhor ir adiante.
Jesus pode-nos surpreender a todos. O Ressuscitado tem força para iniciar uma fase nova na história do cristianismo. Apenas se nos pede fé. Uma fé que nos liberta de tanto medo e covardia, e nos compromete a caminhar nas marcas de Jesus.

Parábola da tempestade (12º Domingo do Tempo Comum).

Marcos, ao descrever em seu evangelho o pavor dos discípulos diante da tempestade, estaria com os olhos voltados para o medo dos primeiros cristãos. Conclamava, assim, os destinatários do seu evangelho à confiança.
A reflexão é de Marcel Domergue, sacerdote jesuíta francês, publicada no sítio Croire, comentando as leituras do 12º Domingo do Tempo Comum B (21 de junho de 2015). A tradução é de Francisco O. Lara, João Bosco Lara, e José J. Lara.

Eis o texto.
Referências bíblicas:
1ª leitura: «Cessa aqui a arrogância de tuas ondas!» (Jó 38,1.8-11)
Salmo: 106 (107) - R/ Dai graças ao Senhor porque ele é bom, porque eterna é a sua misericórdia!
2ª leitura: «O mundo velho desapareceu. Tudo agora é novo.» (2 Coríntios 5,14-17)
Evangelho: «Quem é este, a quem até o vento e o mar obedecem?» (Marcos 4,35-41)

Em confronto com as águas da morte
A 1ª leitura, o Salmo e o Evangelho relatam o conflito imemorial entre o homem e as águas profundas, o mar. Nas primeiras linhas da Bíblia, o abismo é a imagem do nada. Em seguida, temos as águas do dilúvio, imagem da morte. Daí em diante não haverá mais dilúvio: como diz a primeira leitura, Deus impõe um limite às águas mortais. No decurso do Êxodo, a travessia do Mar Vermelho será a travessia da morte. Já o Salmo de hoje está construído no mesmo esquema do evangelho, mesmo havendo somente o elemento líquido. Em Gênesis 1, o sopro de Deus sobrevoa por cima do abismo: é o vento que encontramos em todos os relatos que acabamos de evocar. Há um vento que é bom, que domina o mar, e um vento que é mau, que o agita. Este vento, do mau espírito, parece escapar ao domínio de Deus. Saibamos ler estes símbolos: trata-se de todas as tempestades que vêm sacudir as nossas existências. Os lutos, as doenças, as separações, as traições… Morremos um pouco, a cada vez, porque tudo isso se encaminha no sentido da morte. O evangelho é, pois, uma espécie de parábola sobre a nossa vida. Nós também estamos prestes a atravessar para «a outra margem», para uma terra nova, livre de todas as tempestades. Jesus entra na barca assim como está, sem roupa adequada para o mar e sem provisões. Desprovido de tudo, está reduzido à sua simples humanidade. Não é necessário dizer que temos aqui uma imagem da Páscoa.

O sono de Deus
Deus fixou, portanto, um limite às inundações (1ª leitura), ou seja, a tudo o que temos de sofrer. O difícil é manter a fé enquanto estamos sendo sacudidos pelas tempestades. Nestas ocasiões, Deus parece estar ausente. «Onde está o teu Deus?» é a pergunta que se põe ao crente (Salmo 42, 4 e 11). Nas parábolas evangélicas vemos muitas vezes o dono se ausentar, confiando a seus empregados a gestão dos seus bens. O capítulo 25 de Mateus nos fala da ausência de Deus e da espera. Ora, a espera é justamente o que é difícil: funda-se integralmente na fé, que não se vê, enquanto que a ausência é constatável imediatamente. Em Mateus 28,20, no entanto, Jesus diz que está conosco “até a consumação dos séculos”. São as últimas palavras deste evangelho. No relato da tempestade acalmada, Jesus não está ausente: ele dorme. Dorme, enquanto os discípulos são sacudidos violentamente no pequeno barco. Quantas vezes os Salmos pedem a Deus para acordar! Esta é a nossa condição. Exige uma fé total na presença de Deus, na provação que atravessamos. Deus a compartilha conosco, de qualquer forma; Ele mesmo a vive através de nós. Nada afeta ao homem, nem de bem e nem de mal, que não afete ao mesmo tempo a Deus, a fonte de que brotamos. Nisto se crê, mas não se vê, sobretudo quando a tempestade parece ir até ao naufrágio. Por isso Jesus diz aos discípulos: «Por que tendes medo? Ainda não tendes fé?»

Uma parábola pascal
No evangelho, a tempestade se acalma e a fé renasce. Olhando de perto, é exatamente o que vai acontecer na Páscoa. Os discípulos estão abalados e perturbados; Jesus, desprovido de qualquer poder, é um joguete nas mãos dos poderosos, entregue de um tribunal para o outro. Não tem reação, na maior parte do tempo, nem tem palavras: está «mudo como um cordeiro conduzido ao matadouro.» E Deus, enquanto isso: dorme? É o que parece, pois Jesus, citando o Salmo 22, diz: «Meu Deus, meu Deus, por que me abandonaste?» E, no entanto, «entregou a própria vida em suas mãos». A tempestade irá se acalmar. Deus e Jesus irão acordar juntos na hora da ressurreição. Em Cristo e por Cristo, o próprio Deus, de fato, é que foi rejeitado, ridicularizado, reduzido ao silêncio e eliminado da cidade dos homens. Só que, assim como um riacho não pode eliminar a sua fonte, Deus também não pode morrer. Apesar de tudo o que havia deixado acontecer e da aparência de ter estado dormindo durante a tempestade pascal. Ele nos mostrou por meio disso que «o inimigo último», a morte, não tem o poder de reduzir a nada nem a Deus e nem ao homem. Em Jesus, um homem, precisamente, entra na vida de Deus: a promessa do nosso próprio futuro. Ouçamos então Jesus nos dizer: «Por que tendes medo?» Havia dito acima que, assim como na Ressurreição, com o fim da tempestade renasceu a fé. Isto é verdade para a Ressurreição. Mas há uma particularidade para o caso do relato da tempestade acalmada: é apenas uma figura inacabada do gesto pascal. Os discípulos não dizem «Tu és o Filho de Deus», mas «Quem é este…?» Esta pergunta sobre a identidade de Jesus, o primeiro passo na fé, vai estar sempre presente nos evangelhos. A Ressurreição é que irá permitir uma resposta definitiva.

quarta-feira, 17 de junho de 2015

ORDEM DO CARMO: Um olhar sobre os Carmelitas.

ORDEM DOS CARMELITAS (sigla: O.Carm.)
Única nascida na Terra Santa, tem o nome oficial de ORDEM DOS IRMÃOS DA SANTÍSSIMA VIRGEM MARIA DO MONTE CARMELO

Frei Pedro Caxito O. Carm. In Memoriam. (São Romão-MG. *31/12/1926. São Paulo. + 02 / 09/ 2009).

CARISMA - "Viver no seguimento e serviço de Jesus, empenhando-se na busca do rosto do Deus Vivo (dimensão contemplativa), na fraternidade e no serviço em favor dos irmãos (diaconia) no meio do povo", a exemplo de Maria, Mãe de Jesus, e do Profeta Elias.

ORIGEM - Era tempo de heroísmos e luta pela reconquista da Terra Santa, a serviço do Senhor e da Senhora do lugar, Jesus e Maria. Era o tempo da 1ª Cruzada e do Reino Cristão de Jerusalém (1096-1187): para lá sentiram-se atraídos "eremitas, penitentes, peregrinos, pessoas a Deus consagradas e, naturalmente... soldados"; também bispos, abades, cônegos, clérigos, monges, comerciantes, pobres e ricos, nobres e mendigos, e até mesmo adolescentes e crianças. E então muitos foram viver como eremitas no desprendimento, junto aos lugares mais santos: ansiavam por um deserto cheio de Deus.
            Infelizmente, veio a Batalha de Hattin (em 1187) e perdeu-se o Reino de Jerusalém. Em 1191, porém, Ricardo, Coração de Leão, firmou um armistício com Saladino, o vencedor de Hattin, e a região do Carmelo ficou liberada para os Cristãos: por aqui e por ali estabeleceram-se os eremitas. Não já da violência esperavam a vitória, mas da oração no silêncio, na serenidade, e - à imitação de Paulo - no trabalho, revestidos com a "armadura de Deus" e, de pé, na luta contra os espíritos do mal.
            De onde vieram? Quantos eram? Quem eram? Bertoldo? Bernardo? Boemundo? Balduíno? Brocardo? O que é certo é que o Carmelo foi bom demais para eles com tantas grutas naturais e a possibilidade de cavar outras no calcário como favos de alguma colmeia. Ali, junto à fonte de Elias, gozavam das proximidades de Nazaré, onde Jesus cresceu, e de Séforis, onde moravam Ana e Joaquim e nasceu Maria: viviam na lembrança e no espírito de Elias, profeta de Deus, felizes por acolher a Mãe de Jesus e o Profeta como seu modelo e causa exemplar. "Destilavam a doçura do mel da contemplação", "vivendo dia e noite em oração a meditar na Lei do Senhor", buscando "oferecer a Deus um coração santo, purificado com o auxílio da divina graça" e, "sendo Deus servido, não só depois da morte, mas já nesta vida mortal saborear de algum modo no coração e experimentar no espírito os efeitos da presença divina e as doçuras da glória celeste".

QUEM OS REUNIU ? - Alberto, Patriarca de Jerusalém, os reuniu num grupo harmonioso e, entre 1206 e 1214, deu-lhes uma "forma de vida" respigada nas Escrituras. Na palavra clarividente de Santa Teresa: "Desta casta vimos nós, daqueles nossos santos Padres do Monte Carmelo, que em tão grande soledade e com tanto desprezo do mundo buscavam este tesouro, esta pérola preciosa": a contempla-ção. De tronco tão vigoroso brotaram ramos florescentes.
MIGRAÇÃO - Devido às perseguições muçulmanas, buscaram o seu Ocidente, e ali cresceram e se propagaram: então, como Elias, sem deixar o Carmelo interior, decidiram estar no meio do povo e, como mendicantes, "pobres de Javé", imitar Elias e Maria, filha do Povo, a Filha de Sião, que os gerou e protegia com muito amor! Nesta espiritualidade tão robusta beberam Simão Stock, Alberto da Sicília, Pedro Tomás, André Corsini, Joana de Tolosa, Nuno Álva-res, Batista Mantuano, João Soreth, Teresa de Ávila, João da Cruz, Maria Madalena de Pazzi e muitíssimos outros. Por isso nós, ramos do Carmelo Primitivo, estamos, desde o 4º centenário da santa morte de João da Cruz (1591-1991), vivendo e convivendo mais o que nos une do que tudo o que nos separou. Segundo Tito Brandsma, somos para Maria outros Jesus, e por Maria geramos Cristo na História do mundo: somos Jesus para os outros. O nosso Geral, José Chalmers, aconselha-nos: "Não só trabalhar para Deus, mas fazer também os trabalhos de Deus, aqueles que Deus espera!".

NO BRASIL - Em 1250, os Cavaleiros da Ordem do Santo Sepulcro trouxeram-nos do Carmelo para Moura, em Portugal, e de Moura o Santo Condestável Nuno Álvares Pereira levou-nos para Lisboa. Portugal tornou-se uma Província fervorosa, elogiada pelos Padres Gerais Reformadores, Audet (1531) e Rossi (1566), aquele que dizia a Teresa fundasse tantos Carmelos Reformados quantos fossem os cabelos da sua cabeça. Desta Província, "no ano de 1581, vieram em companhia de Frutuoso Barbosa, que vinha povoar o Rio da Paraíba, três Frades do Carmo", conta-nos o Bem-Aventurado José de Anchieta. E até o final deste século da Descoberta do Brasil, estávamos estabelecidos em Olinda, Bahia, Rio de Janeiro, Santos e São Paulo, e depois continuamos pelo Brasil, em cidades, vilas e missões, no sul, norte e nordeste, onde propagamos a fé e evangelizamos os povos, alargando mesmo as fronteiras nas regiões setentrional e ocidental dos rios Amazonas, Negro e Branco, onde lançamos os fundamentos de muitas futuras cidades.

HOJE - Hoje, no Brasil, somos 2 Províncias e 1 Comissariado (província em preparação) com 31 conventos ou casas em Brasília (DF) e nos Estados da Bahia, Mato Grosso do Sul, Minas Gerais, Paraíba, Paraná, Pernambuco, Rio de Janeiro, Rondônia e São Paulo, 3 Mosteiros de Monjas de vida contemplativa, quatro Congregações de Irmãs de vida ativa: Irmãs do Instituto de Nossa Senhora do Carmo (1854), Irmãs Carmelitas da Divina Providência (1899 - fundação brasileira), Irmãs Carmelitas Missionárias de Santa Teresinha do Menino Jesus (1925), Irmãs Missionárias Carmelitas de Jesus (1938 - fundação brasileira) e ainda as Trabalhadoras Missionárias "Donum Dei", da Ordem Terceira do Carmo, fundadas pelo santo e piedoso Pe. Marcelo Roussel em 1950.

NO MUNDO - No final do século XIII, no ano de 1300, eram uns 180 os conventos, onde vivíamos: na Alemanha, Bélgica, Chipre, Escócia, Espanha, França, Holanda, Inglaterra, Irlanda, Itália, País de Gales e Portugal.  Hoje estamos nos cinco continentes: na Alemanha, Argentina, Austrália, Bolívia, Brasil, Burquina Fasso, Colômbia, Escócia, Espanha, Estados Unidos, Filipinas, França, Holanda, Índia, Indonésia, Inglaterra, Irlanda, Itália, Malta, México, Moçambique, Peru, Polônia, Porto Rico, Portugal, Quênia, Repúblicas Checa, do Congo, de São Domingos, Romênia, Trindade e Tobago, Ucrânia, Venezuela, Vietnã e Zimbábue. Em 31 de dezembro de 1998 éramos 2.059 frades.
            Somos a Família Carmelitana: Ordem 1ª (frades), Ordem 2ª (monjas), Ordem 3ª regular (freiras) ou secular (solteiros e casados, jovens e adultos), Devotos do Escapulário e Amigos do Carmo e seu carisma. Diz nosso Geral: "Estamos com 72 mosteiros de Monjas Carmelitas, ao redor do mundo, e 15 Congregações afi-liadas, e também, mais ou menos, 30.000 irmãos e irmãs do laica-to, que assumiram algum tipo de compromisso público de viver os valores da nossa espiritualidade. Há vários grupos que, no momen-to, estão pedindo sua afiliação à Ordem".


QUE FAZEMOS ? - Fiéis ao espírito da Ordem e ao carisma pessoal, humildemente, como lhes inspira o Espírito do Senhor, alguns, por meio de retiros, encontros espirituais e missões... e o exemplo, transmitem a alegria de procurar o Deus Vivo até encontrá-lo e deixá-lo ser Deus em nós, para viver com Ele uma união cada vez mais íntima e frutuosa, orando pelo bem do Povo; todos anunciam Maria, que pelo seu escapulário se consagra a todos com amor de Mãe e, feliz, recebe de todos a consagração de filhos; outros vivem a vida paroquial com as suas pastorais; outros dedicam-se ao ensino, principalmente da Bíblia; outros, à opção preferencial pelos pobres, inserindo-se entre os moradores de favelas ou de cortiços, ou zelando pelos meninos de rua, mas também levando a Palavra de Deus, o sentido da vida, a fortaleza na luta e a confiança no Senhor; outros, ainda, vão para outros continentes ou regiões mais necessitadas de fé ou, talvez, de esperança e amor, para levar-lhes o Evangelho da alegria e do amor de Deus e do irmão, "com Justiça e Paz". Somos assim! Gostou?! Venha!

terça-feira, 16 de junho de 2015

Laudato Sí em América Latina. (Seja louvado), Sobre os Cuidados da Casa Comum".

"O espírito consumista e o sistema capitalista crescem a uma velocidade exponencial; outros modelos de vida que com dificuldade resistem à agressão deles observam-nos com angústia e incompreensão, definindo-os, lucidamente, 'sistemas suicidas'. Desse ponto de vista, a leitura de Laudato Sí poderia ter profundas implicações político-econômicas", afirma Dário Bossi, padre comboniano, membro da rede Justiça nos Trilhos e da Rede Brasileira de Justiça Ambiental.

Eis o artigo.
Os Ka’apor do Maranhão levantaram a voz. Por isso querem amordaçá-los.
Cansados de esperar que o Estado os defenda e garanta proteção para eles e a floresta, organizaram por sua conta “missões” de controle da reserva em que vivem.
Vigiam sobre os acessos à sua terra e surpreendem os madeireiros que a invadem e saqueiam, protegidos e aliados a políticos e empresários locais. Quando os índios os descobrem, apoderam-se de suas motosserras, incendeiam seus caminhões e os expulsam de suas terras, declaradas Kaar Husak Há, isto é Áreas Protegidas.
Eusébio Ka’apor era um dos defensores da terra indígena. Mataram-no com dois tiros nas costas, no final de abril, pouco distante de sua aldeia. No Brasil as vítimas da violência em terra indígena nesses últimos anos aumentaram com a mesma proporção da arrogante bancada ruralista.
O que esperariam os Ka’apor da encíclica Laudato Sí de Papa Francisco? Será preciso lê-la do ponto de vista deles e de muitas outras vítimas da violência ambiental.
Nós missionários combonianos faremos dela instrumento de estudo popular da realidade, com as comunidades cristãs junto às quais vivemos.
Muitos estão esperando por essa encíclica. Sobretudo as comunidades e igrejas perseguidas por seu empenho em defesa da Criação e em conflito com os grandes projetos nas regiões amazônicas: mineração, monoculturas, hidrelétricas e barragens, infraestruturas para a exportação de commodities... Chamados “projetos de desenvolvimento”, revelam rapidamente o interesse quase exclusivo de desenvolver os capitais de quem investe nisso, provocando graves violações dos direitos socioambientais às populações locais e criminalização dos líderes populares que a eles se opõem.
Um dos motivos da criação da rede latinoamericana Iglesias y Minería, por exemplo, foi exatamente evitar o isolamento das comunidades mais empenhadas nessas frentes e demonstrar apoio moral, político e institucional da Igreja a seu lado. Esse talvez será o efeito prático mais imediato e importante de Laudato Sí.
Esperamos que essa encíclica confirme uma posição clara da Igreja ao lado das vítimas do assim chamado “racismo ambiental”. Desejamos que, ao denunciar os riscos da sobrevivência do Planeta, o documento seja solidário às comunidades mais pobres. Essas são de um lado as vítimas maiormente atingidas por essa violência e, do outro, em muitos casos, indicam-nos caminhos de preservação da vida e de organização de economias a baixo impacto ambiental nos territórios.
Em muitos países está sendo implicitamente declarada uma guerra de baixa intensidade, disputando territórios e bens naturais. A história se repete no estilo das antigas colônias, como bem demonstra o saudoso Eduardo Galeano em “As veias abertas da América Latina”, mas com ritmos e tecnologias bem mais impactantes, chegando assim a violar também os direitos das futuras gerações.

O espírito consumista e o sistema capitalista crescem a uma velocidade exponencial; outros modelos de vida que com dificuldade resistem à agressão deles observam-nos com angústia e incompreensão, definindo-os, lucidamente, “sistemas suicidas”. Desse ponto de vista, a leitura de Laudato Sí poderia ter profundas implicações político-econômicas.
As comunidades que a Convenção 169 da Organização Internacional do Trabalho define “indígenas e tribais” representam ao nosso ver um “baluarte” (Kaar Husak Há). Assim como ao longo da história as fortalezas protegeram inteiros territórios das invasões e frearam o controle inimigo dos territórios, da mesma forma o direito à autodeterminação das populações locais pode ser uma estratégia, hoje, para evitar a entrega indiscriminada dos bens comuns às corporações mineiras ou às multinacionais da comunicação, da água ou das grandes cadeias de produtos alimentares.
A Igreja deveria apoiar com força o direito à “consulta prévia, livre e informada” das comunidades locais, assim que seja garantido o autocontrole de seus territórios.
A Red Eclesial Panamazónica comprometeu-se nesse sentido em diversos Países da América Latina. Articula comunidades cristãs de base, grupos e instituições religiosas e as conferências episcopais da grande Amazônia, com especial atenção aos direitos dos povos indígenas e com uma interessante proposta de colaboração permanente com a Comissão Interamericana dos Direitos Humanos.
A visita de Papa Francisco a Washington em setembro, poucos meses depois da publicação da Encíclica, poderá tocar também esses temas delicados e urgentes.
Em chave de política internacional, a encíclica poderia ser oportunidade para relançar a proposta de criação de uma Corte Penal de Justiça Ambiental. Hoje, de fato, não existem adequados mecanismos de responsabilização em nível internacional por crimes ambientais. Assim, mesmo em caso de graves violações desses direitos, as multinacionais e os governos locais, vinculados entre si por acordos e interesses econômicos, acabam praticamente impunes.
Sobretudo, esperamos que o documento vaticano sobre ecologia ofereça uma releitura teológica das referências bíblicas que ao longo da história, por interpretações patriarcais e colonizadoras, separaram a Criação do homem, considerando esse último o dominador e controlador da vida.
Sabemos quanto o sistema capitalista, ecocida e suicida, herdou da cultura religiosa cristã. Por outro lado, temos a inspiração radicalmente evangélica de São Francisco e o testemunho vivo de muitos e muitas mártires que nos relançam em defesa da vida.
Precisamos igualmente de um profundo e humilde processo de conversão e purificação. Uma nova escuta da Revelação, a partir do encontro fecundo entre a Palavra bíblica, o livro da criação e a sabedoria dos povos e das religiões.

A PALAVRA... Nº 907. Um olhar sobre João Batista-01.

segunda-feira, 15 de junho de 2015

A PALAVRA DO FREI PETRÔNIO. Nº 906. Andar devagar...

24 DE JUNHO - Nascimento de João Batista - Lucas 1, 57-66.80

Por Tintoretto, atualmente no Museu Hermitage, em São Petersburgo.

Terminou para Isabel o tempo de gravidez, e ela deu à luz um filho. Os vizinhos e parentes ouviram dizer como o Senhor tinha sido bom para Isabel, e se alegraram com ela. No oitavo dia, foram circuncidar o menino, e queriam dar-lhe o nome de seu pai, Zacarias. A mãe, porém, disse: “Não! Ele vai se chamar João.” Os outros disseram: “Você não tem nenhum parente com esse nome!”
Então fizeram sinais ao pai, perguntando como ele queria que o menino se chamasse. Zacarias pediu uma tabuinha, e escreveu: “O nome dele é João.”
E todos ficaram admirados. No mesmo instante, a boca de Zacarias se abriu, sua língua se soltou, e ele começou a louvar a Deus. Todos os vizinhos ficaram com medo, e a notícia se espalhou por toda a região montanhosa da Judéia. E todos os que ouviam a notícia, ficavam pensando: “O que será que esse menino vai ser?” De fato, a mão do Senhor estava com ele.
O menino ia crescendo, e ficando forte de espírito. João viveu no deserto, até o dia em que se manifestou a Israel.

(Correspondente a Segunda 24 de Junho  - Festa do Nascimento de São João Batista do Ano Litúrgico).

O nome dele é João
Neste domingo celebramos uma festa muito conhecida: o Nascimento de São João Batista. Se procurarmos nos evangelhos dados sobre João Batista, encontraremos alguns poucos. A Igreja nos oferece hoje um trecho do Evangelho de Lucas para meditar.
Façamos um breve percurso pelos primeiros capítulos deste evangelho. Nos primeiros versículos do capítulo primeiro, o evangelista apresenta seu texto dirigido a seu amigo Teófilo “a fim de que possas verificar a solidez dos ensinamentos que recebeste” (Lc 1,4). Dois anúncios, a Zacarias e a Maria, dois nascimentos, duas circuncisões e as primeiras palavras de Jesus no templo constituem a grandes pincelas o conteúdo geral dos dois primeiros capítulos. Eles manifestam um espírito lucano no sentido da alegria e da festa.
O texto que a liturgia nos oferece hoje é o fim da época da gravidez para Isabel e o momento de dar a luz. Os vizinhos ficam alegres porque o Senhor foi bom com ela. Lembremos que ela era estéril e que Zacarias tinha idade avançada. Por isso não podiam ter filhos. Mas o Senhor falou para Zacarias no templo e anunciou-lhe o nascimento de seu filho.
A partir desse momento ele permaneceu mudo por não ter acreditado nas palavras do anjo do Senhor. No texto que a liturgia nos apresenta hoje ele recupera sua capacidade de fala na hora da circuncisão do menino. O nome que a mãe e o pai colocam para ele é João. Os que estão ao lado deles não podem entender por que esse nome, visto que em sua família não há ninguém que o tenha.
Escutemos brevemente este trecho: A mãe, porém, disse: “Não! Ele vai se chamar João”. Os outros disseram: “Você não tem nenhum parente com esse nome!” Então fizeram sinais ao pai, perguntando como ele queria que o menino se chamasse. Zacarias pediu uma tabuinha, e escreveu: “O nome dele é João”. E todos ficaram admirados.
Zacarias consegue soltar sua língua com essa primeira frase ao momento de circuncidar o menino. João significa: “Deus se mostrou misericordioso”. O menino é um dom gratuito de Deus que não está condicionado por parâmetros humanos. João pertence desde o início a Deus, e anunciara sua vinda como caminho a seguir, como convite para todos e todas para acolher o Messias.
Hoje ao nosso redor há pessoas silenciadas que ficam mudas porque ninguém tem interesse em escutar suas palavras, os/as outros/as não querem saber que Deus é misericordioso, que preferem acreditar em milagres passageiros, mas não num Deus que compromete sua vida toda como aconteceu com Zacarias.
João é o último dos profetas e quem prepara o caminho para Jesus. Suas palavras fazem tremer as seguranças de uma religião que fazia dormir o povo. Ele é o resumo do Antigo Testamento, ele fez que o povo expressasse seus desejos de salvação. Aquilo que estava no coração de sua história se abra para o futuro e a religião não fique adormecida por trás de uma fé falsa. Sua palavra é cortante, “afilada com espada” e incômoda para quem não quer saber de Deus na sua vida.
Assim acontece hoje com tantos profetas que são silenciados ao nosso redor porque eles falam com verdade, porque eles denunciam aquilo que está oprimindo as pessoas. Conhecemos a história da Irmã Dorothy Mae Stang assassinada sete anos atrás e as pessoas que hoje sofrem de persecução porque denunciam os que tentam roubar a vida dos pobres e aflitos.
Dom Erwin Kräutler é uma dessas pessoas que são perseguidas. Na homilia da Irmã Dorothy o ano passado, falava sobre a necessidade de “ser uma Igreja engajada na construção do Reino de Deus, uma Igreja samaritana que abre seu coração aos que sofrem, mas também uma Igreja profética que denuncia com vigor as agressões e o desrespeito à dignidade e aos direitos humanos e se opõe a projetos e programas que destroem o lar que Deus criou para todos os povos” [1].
Cada um/a de nós pode se perguntar de que forma pode ser profeta no lugar onde mora, na sua cidade, no seu pequeno lar. O amor gratuito de Deus nos da a força necessária em qualquer momento e circunstância para que isso seja levado adiante.

As sem-razões do amor
Carlos Drumond de Andrade

Eu te amo porque te amo,
Não precisas ser amante,
E nem sempre sabes sê-lo.
Eu te amo porque te amo.
Amor é estado de graça
E com amor não se paga.

Amor é dado de graça,
É semeado no vento,
Na cachoeira, no eclipse.
Amor foge a dicionários
E a regulamentos vários.

Eu te amo porque não amo
Bastante ou demais a mim.
Porque amor não se troca,
Não se conjuga nem se ama.
Porque amor é amor a nada,
Feliz e forte em si mesmo.

Amor é primo da morte,
E da morte vencedor,
Por mais que o matem (e matam)
A cada instante de amor.