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A Palavra do Frei Petrônio

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sexta-feira, 8 de maio de 2015

Carmelo: Crescer na Fraternidade: Dia de Espiritualidade em Vicente de Carvalho/RJ, com Frei Petrônio de Miranda.

ORDEM TERCEIRA DE VICENTE DE CARVALHO/RJ.
Dia de Espiritualidade Carmelitana. 09 de maio -2015.
Com Frei Petrônio de Miranda, O.Carm
(E-mail do Frei: missaodomgabriel@bol.com.br)
Carmelo: Crescer na Fraternidade.


No âmbito do Carmelo salientemos a ênfase sempre mais crescente sobre o valor teológico da fraternidade. A fraternidade vem sendo entendida, cada vez mais, como o leito e o núcleo do carisma carmelita.
             Chamados a viver vida de fraternidade, precisamos lutar para que a Ordem Terceira do Carmo seja prova concreta de que a fraternidade é possível. Fraternidade, que nasça da escuta e da meditação da Boa Nova e que leve a tornar mais humana à vida, a unir as pessoas, apesar de certas divergências, conseguindo ser assim uma presença do Evangelho. E é desta maneira que a nossa Ordem Terceira do Carmo se transforma em sinal de esperança, que fazem os pobres dizer a nosso respeito o que a viúva de Sarepta dizia ao Profeta Elias: “Agora sei que és um homem de Deus e que a Palavra de Deus está realmente sobre a tua boca” (1Rs 17,24).
Na Igreja fomos gerados como Família Carmelitana pelo Espírito Santo, mediante a experiência de um grupo de penitentes, peregrinos, eremitas, no contexto do grande movimento europeu, medieval, para recuperação da Terra do Senhor.
            O Espírito de Vida nos tornou fecundos quanto aos valores fundamentais da fraternidade evangélica: escuta e anúncio da Palavra, oração assídua, comunhão de bens, reconciliação fraternal, serviço recíproco e aos pobres, luta espiritual e empenho de libertação dos oprimidos, discernimento, solidariedade com todos os homens, esperança operante.
A atitude contemplativa para com o mundo em volta de nós, que nos faz descobrir Deus presente nas nossas experiências cotidianas, leva‑nos a encontrá‑Lo especialmente nos nossos irmãos. Desta maneira somos guiados a valorizar o mistério das pessoas que estão próximas de nós e com as quais compartilhamos a nossa vida.
A nossa Regra nos quer irmãos fundamentalmente e nos recorda como a qualidade dos relacionamentos e relações interpessoais, que caracterizam a vida da comunidade do Carmelo, deve desenvolver‑se segundo o exemplo inspirador da primitiva comunidade de Jerusalém. Ser irmãos significa para nós crescer na comunhão e na unidade, na superação das distinções e privilégios, na participação e na corresponsabilidade, na partilha dos bens, do projeto comum de vida e dos carismas pessoais; significa, também, atenção ao bem‑estar espiritual e psicológico das pessoas, percorrendo os caminhos do diálogo e da reconciliação. Estes valores da fraternidade se exprimem e encontram a sua força na Palavra, na Eucaristia e na Oração.
Na Palavra ouvida, rezada e vivida no silêncio, na solidão e em comunidade), especialmente na forma da "lectio divina", cada dia os Carmelitas são levados ao conhecimento e experiência do mistério de Jesus Cristo. Animados pelo Espírito e radicados em Cristo Jesus, nEle permanecendo dia e noite, eles inspiram na Palavra de Jesus todas as suas opções e o seu agir.
Os irmãos, inspirados pela Palavra e em comunhão com toda a Igreja, celebram juntos os louvores do Senhor e convidam outros a compartilhar da sua experiência de oração.
Para Frei Tito Brandsma, Carmelita, Jornalista e Mártir da Segunda Guerra Mundial (*1881 + 1942), era muito forte a vivência da fraternidade, quer no âmbito interno da Comunidade, quer no âmbito externo de suas relações apostólico-profissionais. Afirmava que, para ele, a vida comunitária era indispensável a fim de restaurar as forças para os diversos compromissos. Na comunidade revelava-se cheio de ânimo, acolhimento bondade, solidariedade. Era bastante leal e pronto a reconhecer os próprios limites e também os valores da tradição, tanto junto aos co-irmãos, como junto às demais categorias de sua convivência (judeus, protestantes, ateus, imigrantes).
Era um homem sem fronteiras e sem defesas, porém audaz, perseguindo sempre as vias da reconciliação com todos. Pelo fato de viver pacificado por Deus interiormente, não tinha medo de abrir a porta do próprio coração e da própria casa que se tornou um lugar comum de encontros fraternos. “O amor ganhará o coração dos pagãos”, afirmava, acrescentando que como assim se dizia dos primeiros cristãos, também se deveria dizer novamente dos cristãos de seu tempo. Seu amor fraterno o faz superar toda barreira de religião, de partido, de nação. Todos para ele eram considerados companheiros e irmãos.

Vida Comunitária e Oração.
Na primitiva comunidade cristã, a oração em comum era um distintivo específico. O livro dos Atos é um testemunho eloquente do espírito dessas comunidades. "Eram constantes em escutar o ensinamento dos apóstolos e na comunidade de vida, no partir do pão e nas orações”... (Atos, 2, 42-47).
É claro supor que ao costume judaico de escutar a palavra de Deus e de cantar salmos, acrescentavam a nova modalidade cristã de celebrar juntos a eucaristia. Com certeza os primeiros cristãos, doutrinados pelos apóstolos, tiveram em conta a insistência de Jesus no sentido de que vivessem unidos em um só coração e uma só alma. Recordariam também a forma de orar que o Mestre ensinara aos seus discípulos. O Pai Nosso é uma prece claramente comunitária. Não podiam referir-se a Deus no singular, mas tão só em grupo, no plural.
 Aparece evidente que os primeiros cristãos tiveram o costume de orar e de juntar-se para falar de Deus e para falar com Deus, na referência que Paulo faz aos Romanos, quando, escrevendo de Corinto, lhes anuncia o desejo de visitá-los: "Desejo ver-vos para comunicar-vos algum dom espiritual, para confirmar-vos, ou melhor, para consolar-me convosco e pela mútua comunicação de nossa fé comum" (Rom. 1, 11-12). Este renascer da oração comunitária surge paralelamente ao movimento de revalorização das comunidades em si mesmas e em todos os níveis. O Concílio Vaticano II é consciente disso e assim testemunha: A vida pessoal é incompleta sem a relação interpessoal: "O homem é, com efeito, um ser social e não pode viver nem realizar suas atividades sem relacionar-se com os demais" (G.S. 12). Isto mesmo deve afirmar-se a respeito da oração.
            Os bispos da América Latina, por sua vez, o asseveram explicitamente: "Além de buscar a oração íntima tende-se de modo especial para a oração comunitária, com comunicação da experiência de fé, com discernimento sobre a realidade, orando juntamente com o Povo (Puebla, 727).
Para meditação individual.
Texto Bíblico. (Atos dos Apóstolos. 4, 32-37).
1º- Somos da Ordem Terceira do Carmo ou um grupo de amigos?
2º- A nossa fraternidade carmelitana tem um olhar para o sofrimento do próximo ou para nós mesmos?

O catolicismo deprecia as mulheres

The New York Times
Frank Bruni

Como um vendedor de batatas Pringles soando alarme a respeito da obesidade, o papa Francisco assumiu o manto de feminista na semana passada.
Foi uma má combinação épica de mensageiro e mensagem, e digo isso como alguém que é grato por este papa, o admira enormemente e acredita que uma mudança de tom, mesmo sem uma mudança dos ensinamentos, tem significado e é digna de celebração.
Mas uma mudança de tom em desafio ao fato deve ser apontada (e criticada). Nem Francisco nem qualquer autoridade do baluarte do direito masculino conhecido como Vaticano pode afirmar de modo crível uma preocupação com a paridade dos sexos. A cozinha deles é suja demais para que possam criticar as manchas de ketchup na dos outros.
Na verdade, Francisco foi além da preocupação. Ele expressou ultraje, chamando de "puro escândalo" o fato de as mulheres não receberem remuneração igual por trabalho igual.
Ele deixou de fora a parte sobre as mulheres na Igreja Católica Romana nem mesmo terem uma chance de trabalho igual. Remuneração não é a questão principal quando você é impedido de exercer certas funções e é profundamente sub-representado em outras.
Remuneração não é a questão principal quando o simbolismo, rituais e o vocabulário de uma instituição exaltam os homens acima das mulheres e quando contestações a esse desequilíbrio são recebidas com a insistência de era assim e sempre será –-que o hábito está acima do esclarecimento e do bom senso.
Vamos ser claros. Apesar do serviço notável que a Igreja Católica realiza, ela é um dos patriarcados mais inabaláveis e dominantes do mundo, com princípios que não favorecem a igualdade.
Para as mulheres terem um tratamento justo na força de trabalho, elas precisam ao menos de algum grau de liberdade reprodutiva. Mas os bispos católicos nos Estados Unidos fazem enorme lobby contra a exigência da nova lei de saúde de que empregadores como escolas e hospitais religiosos incluam contracepção no plano de saúde de seus funcionários.
Não importa que apenas uma pequena minoria de católicos americanos siga a proibição formal da igreja ao controle da natalidade artificial. Alguns líderes católicos não apenas se agarram a essa restrição caduca; eles a promovem, apesar de seu efeito desproporcional sobre a autonomia das mulheres.
E como sua vilificação da Conferência da Liderança das Mulheres Religiosas, uma organização que representa 80% das freiras americanas, combina com igualdade das mulheres? Em 2012, o grupo foi condenado pelo Vaticano e colocado sob o controle de três bispos encarregados de limpá-lo de suas inclinações "feministas radicais", incluindo mais atenção aos pobres do que a costumes sexuais.
Para seu crédito, Francisco declarou uma trégua com as freiras no mês passado. Também para seu crédito, ele sinalizou solidariedade para com as mulheres que tentam limitar o tamanho de suas famílias e pediu aos líderes da igreja para não se envolverem demais em assuntos como aborto e casamento de mesmo sexo.

E a tendência no Vaticano e na Cidade do Vaticano aparentemente é de ter um maior número de funcionários do sexo feminino, apesar de em 2014, segundo a agência de notícias "The Associated Press", elas ocuparem menos de 20% das vagas de trabalho. Não precisava ser assim, mesmo considerando a exclusão das mulheres do sacerdócio.
Mas a recusa da igreja em seguir algumas das outras denominações cristãs e ordenar mulheres mina qualquer progresso na direção da igualdade que ela anuncia ou tenta. O sexismo está incorporado em sua estrutura, em seu fluxograma.
Homens, mas não mulheres, rezam a missa. Homens, mas nunca as mulheres, chegam a cardeais ou a papa. O clero masculino geralmente é tratado como "padre", que conota autoridade, enquanto as mulheres nas ordens religiosas costumam ser tratadas como "irmãs", que não.
E as coisas poderiam ser diferentes. Tradições mudam. História e mitologia cedem a novas interpretações.
Sim, a Bíblia diz que todos os 12 apóstolos de Jesus Cristo eram homens. Mas além dos 12 há Maria Madalena, a quem Jesus supostamente apareceu primeiro após a Ressurreição. O papel dela não é fundamental para o nascimento da igreja?
Não é mais importante que haja sacerdotes suficientes para ministrar a Eucaristia aos católicos do que todos os padres serem homens?
Será que a igreja pode se dar ao luxo de alienar uma geração inteira de mulheres jovens, perplexas diante de sua intransigência?
"Elas cresceram em um mundo onde todas as portas foram abertas para elas", disse Kathleen Sprows Cummings, diretora do Centro Cushwa para o Estudo do Catolicismo Americano, na Universidade de Notre Dame. "E há uma desconexão quando veem a igreja sem nenhuma liderança feminina –-no mínimo, não são elas que estão no altar."
Francisco não sancionou nenhuma discussão sobre colocá-las lá. Quando pressionado sobre isso por uma repórter italiana no ano passado, ele a lembrou que "as mulheres vieram da costela".
Era uma provocação? Ele riu e disse que sim. Mas a metáfora permanece e coloca as mulheres como ramificações, até mesmo como uma reflexão tardia.

Tradução: George El Khouri Andolfato. Fonte: http://noticias.uol.com.br

Frei Tito Brandsma, Perfil humano-Espiritual-Carmelitano

*Frei Emanuele Boaga, O. Carm. In Memoriam, e Irmã Augusta de Castro Cotta, Cdp

Perfil humano-Espiritual-Carmelitano

a) Características psicológicas
O ambiente familiar, aliado aos dons naturais - notável bagagem de qualidades humanas -  foi propício ao desabrocha­mento da rica personalidade de nosso Tito. Um seu biógrafo afirma: ‘Tito possui um físico gracioso e frágil, uma saúde não muito boa, mas um caráter vigoroso, feito de aço nobre e resistente’. Ele mesmo se define como um ‘otimista nato’. Era dotado de grande autocontrole, sempre se apresentando de bom humor, mesmo nos momentos de sofrimentos físicos (sofreu pelo menos quatro hemorragias intestinais). Mantém sempre a calma e a serenidade, revelando grande equilíbrio em todos os seus momentos. Sem sentimentalismos é cordial no trato, paciente para com todos, capaz de respeitar sempre as opiniões contrárias à sua, embora não abrisse mão de suas convicções profundas. É interessante o testemunho do policial que o interrogou; ‘Não se pode esperar que o Pe. Tito mude de opinião, por isso o consi­dero um homem perigoso’. E outro testemunha de vida afirmou: ‘Pe. Tito é um homem bom, mas quando necessário sabe ser enérgico’.
Tem uma elevada cultura que alia a um jeito humilde e simples de ser. Jamais usa sua sabedoria para vangloriar-se ou sobressair-se sobre os demais. Nas constantes viagens de trem, feitas em razão de seu serviço, escolhe sempre, de forma natu­ral, a terceira classe.
É dotado de enorme sentido de humor. Tudo nele é simples, sóbrio, sem nenhuma ostentação. Sua aparência é sem­pre a de uma pessoa comum, ainda que alguém tenha testemunhado sobre ele: ‘Era uma pessoa extraordinariamente fora do comum”. Isto é confirmado por outras afirmações, como:  ‘O contato com Frei Tito tinha um efeito calmante’. ‘Era um homem ‘sui generis’, com um grande coração’, atesta outra pessoa que com ele conviveu.
Esta rica personalidade humana é animada por uma fé inabalável, intensa, profunda, encarnada em seu dia-a-dia, herdada da família e aprofundada na formação. Tal experiência é alimentada pela oração e gera nele um filial abandono ao Senhor e à Sua Vontade. Gostava de repetir: ‘Devemos deixar que o Senhor faça sempre em nós o que lhe apraz’ e ‘Deus terá sempre a última palavra, já que em suas mãos podemos ter a certeza de que estamos seguros’.
Pode-se dizer que Frei Tito teve as seguintes e fortes características  que o tornam uma personalidade marcante:
- Vida social: pertencia às minorias sociais de seu país. Sua família encontra-se entre os 10% de católicos da sua região. Ao aprofundar seus conceitos filosóficos descobre o valor da pessoa humana e seus direitos. Sob esta luz vai encarar a relação com as diversas minorias de seu país:  não lutando contra qualquer delas, porém, tudo empreendendo para elevar todas à sua própria dignidade humano-espiritual.
- Vida eclesial: era católico com prática séria da vida eclesial: sensibilidade para com os problemas de seu tempo, participação ativa e criativa na vida da igreja. Sabia unir o amor e o serviço à Igreja ao amor e serviço ao ser humano. Sente-se, como Santa Teresa, ‘filho da Igreja’. Para servi-la, funda escolas, de­dica-se ao magistério, torna-se jornalista atuante, procurando por estes meios difundir a fé. Esta dedicação o levou ao martírio.
- Vocação carmelita: revelou grande empenho na ob­servância regular, vivendo com entusiasmo a espiri­tualidade e a mística carmelitanas, cuidando com verdadeiro carinho de tudo o que dizia respeito ao Carmelo, destacando-se no amor à Eucaristia e a Nossa Mãe. Dedicou-se a entusiasmar os co-irmãos para o estudo e a promoção da presença carmelitana na Igreja e na sociedade de seu tempo. Viveu intensamente os valores carmelitanos.

b) Vivência carmelitana
Frei Tito foi verdadeiro profeta em seu tempo. Revelou-se um notável ‘filho do Profeta Elias’, cultivando os valores inerentes ao profetismo carmelitano e vividos sob o olhar e doce presença de Maria. A busca da face de Deus, característica marcante da vida profética carmelitana, levou-o a uma intensa e contínua comunhão com os irmãos e ao serviço apostólico eficaz, culminando com o próprio martírio. Na prisão, já impotente para realizar seu trabalho e privado das estruturas da vida conventual e do apoio da comunidade, demonstrou a quali­dade de sua entrega ao Senhor: profunda, total e comprometida no verdadeiro seguimento do Senhor Jesus. Realizou sua vocação de Carmelita de forma admirável. Assumiu a vida religiosa tal como esta se apresentava no seu tempo. Nada fez para renovar suas estruturas internas, porém, passa todo o seu tempo servindo, através da Ordem, à Igreja e à comunidade humana de seu tempo. Deixou-se orientar pelos valores propostos na Regra do Carmo e vivenciados ao longo da caminhada do Carmelo.
Seu testemunho se transforma em verdadeira mensa­gem, nascida especialmente  da vivência do  ideal contemplativo e de sua experiência de vida como Carmelita, como Jornalista, como estudioso e como Mártir. Dentre os valores da vida carme­litana que tiveram primazia em sua vida: destacam-se: a busca do Deus verdadeiro, o amor à Eucaristia, a presença de Nossa Senhora em seus caminhos, a oração, a vivência da fraternidade e o apostolado.

1 - Dimensão contemplativa: busca, entrega, anúncio do Deus verdadeiro
Em todas as vivências de Tito pode-se verificar que a experiência de Deus foi constante e profunda, sobretudo desta­cada nos ambientes onde havia negação de Deus. Esta experiência foi a base vital de unificação de sua vida e suporte em todos os momentos, especialmente naqueles da prisão e do martírio. Encarnou a contemplação nos gestos quotidianos da vida antes e durante o cárcere.

Além da vida, diversos escritos de Tito nos revelam explicitamente esta sua experiência. Neles encontramos os ecos de seu coração contemplativo e uma visão bastante completa do conceito de Deus que nutriam sua contemplação. Tais conceitos foram por ele desenvolvidos, buscando criar e consolidar uma filosofia de base cristã que debatia com pessoas de destaque como Jacques Maritain, Etienne Gilson e Maurice Blondel. Sobretudo podemos destacar três textos que têm especial relevo, sobretudo pelas circunstâncias em que foram escritos. São eles:
- o discurso para a inauguração do ano acadêmico da Universidade Católica de Nijmegen, quando era rei­tor da mesma, em 1932:
- as anotações, em caderno particular de notas, diante do maravilhoso espetáculo da cascata de Niágara, em 1935;
- o discurso no Congresso Mariano de Tongerloo, em 1936.
Alguns pensamentos essenciais podem ser colhidos nestes documentos, como se verá adiante. Tito não apenas falava de Deus, como também desenvolvia em si um coração contemplativo, encarnando a contemplação no esforço contínuo de viver sinceramente conforme a ‘Palavra’ contemplada e acolhida em seu próprio ser, na realidade do irmão e na natureza. A contemplação da Palavra em Tito vem expressada através da alegria, da bondade, nos gestos quotidianos da vida, antes e durante o cárcere e nos campos de extermínio.
O estudo atento da vida de Tereza Neumann, de S. Lidvina de Schiedam e João Brugman e da mística carmelitana da paixão em Teresa de Jesus, João da Cruz e Maria Madalena de Pazzi, unidos à sua própria vivência, o levou a compreender como a descoberta de Deus na realidade, não isenta do sofri­mento como acham alguns. Escreveu: “Tantos sonham com uma mística cheia de doçura e de beatitude, sem pensar que Deus busca a nossa união na estrada do sofrimento, dos escárnios e da morte. A verdadeira mística leva ao Calvário para se repousar moribundo no abraço ao coração ensangüentado de Jesus na Cruz”.
Na prisão e nos campos de concentração, Tito continua desenvolvendo uma intensa vida contemplativa, revelando que Deus em seus desígnios é o único sentido de sua vida. Pratica tudo o que antes havia estudado e refletido. A sua experiência se torna união com os mistérios da morte e da ressurreição de Cristo. Torna-se para seus carcereiros um símbolo vivo de perdão e de redenção, como provam os inúmeros depoimentos sobre este seu tempo de vida. Atesta com suas atitudes que a morte é o definitivo doar-se pela causa dos irmãos. Aceita com Cristo o martírio, desejando reparar com o próprio sofrimento o pecado presente naquele meio de seu suplício.
É concreta sua união aos mistérios da morte reden­tora e da ressurreição do Senhor. Ele é testemunho do Deus vivo e do homem criado à sua imagem e semelhança, em lugares de abandono e de morte. Seu profetismo assume a forma da busca da conciliação como forma de anunciar o Deus vivo e verda­deiro e, portanto, de denunciar o mal, a violência, a injustiça. Torna-se também um símbolo de resgate e redenção: aceitando com Cristo o martírio, repara com o seu sofrimento o pecado dos seus carcereiros e torna-se para eles um irmão redentor.
De uma oração escrita como poema diante da imagem de Cristo, entre 11 e 12 de fevereiro de 1942 em Scheveningen, emergem duas profundas convicções contemplativas:
-a solidão compreendida como presença de Deus, como plenitude e recapitulação de tudo em Deus, em sua vontade amorosa e em sua doação de tudo;

- a aceitação alegre do sofrimento como meio de par­ticipação absoluta na morte sacrifical de Cristo na Cruz.
Realizou a dimensão carmelitana da contemplação, tes­temunhando que a presença de Deus deve não somente ser objeto de reflexão, mas precisa ser vivida, experimentando a sua Palavra, irradiando em todo o seu ser e seu agir tudo o que foi re­zado e interiorizado. Só assim acontece a transformação da vida. É ne­cessário viver contemplativamente (unir contemplação e realidade). Isto evita o dualismo, produz integração pessoal, leva a ver e a amar o mundo com os olhos e o coração de Deus.
A contemplação foi encarnada por Frei Tito nos gestos cotidianos de sua vida antes e durante a cadeia e nos campos de con­centração. Realiza a conformação à Palavra através da alegria, bondade com gestos concretos, confiança e esperança em Deus.

2 - Dimensão eucarística
A Eucaristia é o centro e o fundamento de sua vida cristã-carmelitana. Desde adolescente, percorria a pé grande distância, junto com seus irmãos, para participar da Missa. Permaneceu radicado nesta fé, em todos os anos de seu mi­nistério sacerdotal. É na Eucaristia que busca força e entusiasmo para suas múltiplas e exigentes atividades apostólicas, nas missões que lhe eram confiadas e na prisão.
Num profundo artigo sobre a vida carmelitana, tomando o Profeta Elias como modelo, lembra a necessidade que se tem de alimento, como ocorreu com o Profeta (1Rs 19,8), e indica onde encontrá-lo: na Eucaristia. Afirma que no Carmelo a vida mística e contemplativa é fruto da vivência eucarística. Relembra o que vivia intensamente: a Regra do Carmo prescreve que todos os membros da Comunidade Carmelitana participem quotidiana­mente do sacrifício eucarístico e que as Horas Canônicas sejam rezadas diante do Santíssimo Sacramento. Explica que nada impede que o altar seja bem ornamentado, pois não há nenhuma prescrição de pobreza limitando isto, como ocorre entre outras ordens.
Caminhando com Elias na força daquele pão divino, fiel à celebração da Eucaristia, Tito encontrava sempre na mesma a ajuda e o fortalecimento necessários a todas as suas lutas. Afirmou: “Depois da comunhão devemos contemplar sob as espécies eucarísticas e na profundidade de nossa alma o Deus que está passando.”

3 - Dimensão mariana
Um pequeno depoimento de Tito na prisão nos deixa entrever seu amor ardente a Maria: “Não possuo nenhum san­tinho de Nossa Senhora em meu Breviário, mas, naturalmente, na cela de um Carmelita deve haver uma figura sua. Então faço assim: no início do Breviário que estou usando, e que felizmente não me foi retirado, está uma bela imagem da Senhora do Carmo. Deixo o Breviário aberto sobre a mesa, no ângulo à esquerda do leito... Estando na mesinha basta levantar um pouco o olhar e tenho diante de mim tal imagem. Quando estou no leito, os meus olhos procuram a Senhora coroada de estrelas, Esperança de todos os Carmelitas”.
Se no momento de intensa dor encontra refúgio em Nossa Senhora é porque cultivou esta devoção, em forma teológica e madura, durante toda a sua vida. Nas vozes Carmelitanas que escreveu para o Dictionnaire de Spiritualité (II, 156-171), uma das qualidades que mais forte e freqüentemente sublinha da espiritualidade do Carmelo é a mariana, sob cuja luz explica as características místicas, afetivas e contemplativas da vida do Carmelita. Nutre sua devoção mariana com textos antigos e clássicos e com forte nota científica, o que nos indica as raízes de sua vivência mariana. Seu amor se traduzia no testemunho humilde, constante e caloroso.

Algumas de suas afirmações são essenciais à com­preensão do papel e do lugar de Maria na vida do Carmelo:
- a vocação carmelitana é ligada intimamente à imitação de Maria. Tito desenvolve em várias conferências o núcleo deste pensamento. Para ele, imitar é tomar Maria como exemplo, deixando que ela viva em nós. Ela é a mais alta perfeição possível a uma pessoa humana. Esta é a finalidade de nossa devoção mariana: “ser com Maria, theotocos”(aquela que gera Deus):.
- os Carmelitas devem prolongar na Igreja o que Deus operou admiravelmente em Maria: oferecer a Cristo uma nova oportunidade de se encarnar no mundo. Para Tito nada é mais importante para o Carmelita do que ser como Maria, ‘portadores de Deus’. Esta é uma boa síntese que faz da mística do Carmelo em sua ligação com Maria:
- a contemplação de Deus passa por Maria: é preciso olhar Maria para ver e admirar como age o mistério de Deus que a transformou na mais perfeita das criaturas e como Maria se deixou impregnar por Deus, abrindo-se inteiramente ao que Deus nela desejava realizar;
- dentre as reflexões sobre a ‘nuvenzinha de Elias’, afirma que na Ordem tal visão, foi sempre entendida como um protótipo do mistério da Encarnação e como antecipação da veneração da Mãe de Deus. Em razão desta fé, foi que os primeiros eremitas construíram, em meio às celas, o oratório de Nossa Senhora;
- a necessidade do empenho de todo Carmelita para promover o duplo espírito da Ordem com a cooperação e ajuda de Maria, sob cuja proteção se deve colocar cada ação, fazendo em sua honra tudo o que se deve fazer;
- em suas pregações sempre afirmava a união sublime en­tre a maternidade divina de Maria e nosso compro­misso cristão de levar Cristo ao mundo. Isto porque jamais via Maria dissociada do Mistério de Cristo;
- a contemplação e a meditação da vida apostólica do Redentor e da Co-Redentora, Maria, devem acender nos corações o zelo pela salvação das pessoas;
- uma das formas que encontrava para anunciar a beleza da vida mariana eram os retiros espirituais em perspectiva mariana. Apresentava-a como o modelo mais perfeito de união e de intimidade com o Senhor, como o ‘Espelho da justiça’... e assim o era porque trazia Jesus em si.
- ensinava a rezar o Magnificat com as mesmas disposições profundas de Maria, assimilando os valores nele contidos.
Do discurso em Tongerloo no ano de 1936 podemos colher a base de seu pensamento mariano, como segue:
- a vida mística nasce de uma mulher - Maria, a “Theotokos”, a mãe da qual Deus nasceu;
- a importância da imitação de Maria, devendo o cristão ser também “theotokos’ como Maria;
- portanto a mística da vida cristã deve consistir num “estar em gestação de Deus”,  como Maria, no con­texto do desenvolvimento do criado e da realidade.
Um belo gesto seu na prisão, revelando sua devoção mariana simples e profunda, foi a recitação do rosário, feito rus­ticamente de corda por um seu companheiro, irmão carmelita leigo, também prisioneiro. E muito significativo é o fato de oferecê-lo à enfermeira que lhe aplicaria a injeção letal, num gesto de gentileza e de compaixão por ela. Com amabilidade lhe diz que, se não pode rezar a primeira parte da Ave Maria, ao menos poderia rezar a segunda: “Rogai por nós pecadores”. Esta enfermeira mais tarde se converteu e foi a excepcional e única testemunha de sua morte.

4 - Dimensão fraterna
Era muito forte em Tito a vivência da fraternidade quer no âmbito interno da Comunidade, quer no âmbito externo de suas relações apostólico-profissionais. Afirmava que, para ele, a vida comunitária era indispensável a fim de restaurar as forças para os diversos compromissos. Na comunidade revelava-se cheio de ânimo, acolhimento bondade, solidariedade. Era bastante leal e pronto a reconhecer os próprios limites e também os valores da tradição, tanto junto aos co-irmãos, como junto às demais categorias de sua convivência (judeus, protestantes, ateus, imigrantes).
Era um homem sem fronteiras e sem defesas, porém audaz, perseguindo sempre as vias da reconciliação com todos. Pelo fato de viver pacificado por Deus interiormente, não tinha medo de abrir a porta do próprio coração e da própria casa que se tornou um lugar comum de encontros fraternos. “O amor ganhará o coração dos pagãos”, afirmava, acrescentando que como assim se dizia dos primeiros cristãos, também se deveria dizer novamente dos cristãos de seu tempo. Seu amor fraterno o faz superar toda barreira de religião, de partido, de nação. Todos para ele eram considerados companheiros e irmãos.

5 - Dimensão diaconal
Sua abertura eclesial e social levou-o a vários compro­missos: ao magistério que exercia apostolicamente desejando tes­temunhar e fortalecer a fé dos alunos; em conferências nos Movimentos Católicos pela paz, nos movimentos ecumênicos que então se chamavam de “Movimentos pela Reunificação” (Igreja Oriental e Protestantes); colaboração em iniciativas cultu­rais como na Enciclopédia Católica, na imprensa, especialmente nos jornais.
O jornalismo foi a sua segunda vocação, uma forma especial de apostolado para ele. Seus biógrafos destacam sobre esta sua atividade:
- as correspondências numerosas e os artigos para jornais holandeses nos anos em que estudou em Roma;
- a vasta e pluriforme colaboração  em periódicos e jornais diários;
- a fundação de um jornal diário (De Staad Oss) e de uma revista (Carmelrozen).
Os mesmos biógrafos sublinham que a sua paixão e inte­resse pelo jornalismo o levavam também a cuidar das necessida­des dos colegas jornalistas, ajudando-os com sua intervenção a encontrarem trabalho e oferecendo-lhes orientação quando preci­savam. Foi assistente eclesiástico da União dos Jornalistas Católicos (1935), oportunidade em que oferece fundamental con­tribuição para que fossem enfrentados os desafios técnicos, éticos e econômicos do jornalismo, próprios dos anos 1936-1937 (cf. seu Nieuwe Vormen in de Journalistiek, Utrecht, 24 maart 1937).
Para Tito o jornalismo era uma vocação e não um mero trabalho. Vocação que, a seu ver, realizada por um cristão e católico se tornava uma presença apostólica de elevado valor eclesial, no campo dos mass-media. Então como jornalista católico, procurava impregnar o técnico com o ético.  Destaca entre os diversos meios de comunicação (rádio, filmes, TV, etc, iniciados em seu tempo) a peculiaridade da imprensa, uma vez  que sendo o jornal impresso diariamente, sua natureza deve torná-lo portador de novidade. O jornal tinha a vantagem (na época do Tito) de uma mais vasta difusão, sendo de mais fácil leitura em qualquer momento e com plena liberdade, como considerava Tito. Para ele, o jornal, através das crônicas, tem a possibilidade de oferecer atualidades quoti­dianas, com informações, comentários e interpretações que de­vem, contudo, ser coerentes. O jornal católico tinha a função de ajudar o leitor a vivenciar os valores evangélicos, além de levar-lhe informações. Considera-o um meio formativo, útil para educar no amor e na verdade. Por isso o jornalista católico precisa ajudar a ver a realidade e ler o mo­mento histórico com olhar crítico.
Lendo suas contribuições (especialmente artigos para o De Gelderlander) pode-se verificar como o jornal se torna para ele um veículo de inteligente inculturação e de divulgação dos valores presentes nas raízes e no patrimônio do povo católico holandês e nos novos caminhos da evangelização, seu grande objetivo.
Nos duros momentos da ocupação nazista da Holanda, como assistente eclesiástico dos jornalistas católicos e em obediência à hierarquia, organiza a resistência católica no campo do jornalismo. Tinha consciência de que fazendo isto corria o risco de morrer. Entretanto, não se acovardou. Ardorosamente de­fendia os judeus da injustiça nazista e reivindicava a liberdade para a escola e o jornalismo católicos. De fato a objetividade, a coerência, a solidariedade e a fidelidade ao testemunho evangélico levaram o carmelita-jornalista ao martírio (prisão, humilhações, dores e morte).

*Curso de Formação Carmelitana em módulos. Módulo- VI. Testemunhas da Vivência Carmelitana. São João del Rei – MG. 2003.

Frei Tito Brandsma, um grito desta esperança.

*Frei Emanuele Boaga, O. Carm. In Memoriam, e Irmã Augusta de Castro Cotta, Cdp

Frei Tito foi escritor por vocação. Somando-se os livros, artigos em jornais e contribuição em enciclopédias, seus escritos chegam a 796 trabalhos. A sua primeira publicação foi aos 20 anos de idade. O tema: “Antologia de textos extraídos das obras de Santa Teresa de Jesus” (editada em 1901). O último escrito foi uma nota ou apontamento para a reflexão da Sexta-feira Santa de 1942 no campo de concentração de Amersfoord, sobre a Mística da Paixão. Como se vê, para Frei Tito, em qualquer lugar se pode anunciar o Deus vivo e verdadeiro!
Quase todos os seus escritos são em holandês; alguns fo­ram editados em inglês e francês (o texto das conferências nos EUA e um artigo sobre a espiritualidade carmelitana) e em alemão (entre os quais um livrinho sobre o profeta Elias). Para a indicação dos seus principais escritos espirituais ver no Dictionnaire de Spiritualité, XV, 1008-1009. Presentemente está disponível uma “Antologia” ou coleção de seus textos sobre a mística, editada em holandês (Titus Brandsma, Mistick Leven - Een Bloemlezing, elaborado por B. Borchet, Nijmegen, 1985, 224 pp.).

Diante de Jesus Crucificado[1]

Quando te vejo, ó Jesus
Compreendo que tu me amas;
como o mais querido dos amigos,
e sinto que te amo
como o meu bem supremo.

O teu amor, eu o sei,
exige sofrimento e coragem;
mas o sofrimento é o único caminho
para a tua glória.

Se novos sofrimentos se adjuntam ao
meu coração
eu os considero como um doce dom;
porque me fazem mais semelhante a Ti,
porque me unem a Ti!

Deixa-me sozinho neste frio;
não preciso mais de ninguém.
A solidão não me mete medo,
porque Tu estás perto de mim.

Fica Jesus, não me deixas!
A tua divina presença
torna fáceis e belas
todas as coisas!

De algumas obras estão sendo feitas traduções em várias línguas. Em Português temos atualmente apenas:
- A Beleza do Carmo, em “O Escapulário do Carmo” 9, (Fátima, 1964) e 10 (Fátima 1965). Trata-se de tradução do inglês do texto das conferências feitas nos EUA (Original: “Carmelite mysticism”, Chicago, 1936).
- Minha cela. Escritos de um mártir na prisão. Tradução: Frei Bento Caspers e Dom Vital Wilderink, São Paulo-Paranavaí 1990. 
- A Jesus com Maria. Retiro Espiritual em 10 dias, em “Stella Carmeli” 1 (São Paulo, 1955) 52-62; 2 (1956) 3-20; e também foi editado no livrinho seguinte (p. 21-66) e reeditado como apêndice no livro “Minha cela”
- O discurso sobre o conceito de Deus, em. 1932 (trad. Frei Gabriel Haamberg).
Este último escrito é fundamental para a compreensão do pensamento de Tito sobre Deus e seu empenho para levá-lo ao ambiente universitário.
*Curso de Formação Carmelitana em módulos. Módulo- VI. Testemunhas da Vivência Carmelitana. São João del Rei – MG. 2003




[1] Texto escrito no cárcere de Scheveningen, nos primeiros dias de sua prisão, na noite entre 12 e 13 de fevereiro de 1942.