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A Palavra do Frei Petrônio

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sábado, 28 de março de 2015

Papa Francisco: Carta no V Centenário de Santa Teresa.

Ao Revmº P. Saverio Cannistrá
Prepósito Geral da Ordem dos Irmãos Carmelitas Descalços
da Bem-aventurada Virgem Maria do Monte Carmelo
Querido Irmão:

Ao completar-se os 500 anos do nascimento do nascimento de Santa Teresa quero unir-me, juntamente com toda Igreja, à acção de graças da grande família do Carmelo Descalço – religiosos, religiosas e leigos – pelo carisma desta mulher excepcional.
Considero uma graça providencial que este aniversário coincida com o ano dedicado à vida consagrada, em que a santa de Ávila resplandece como guia seguro e modelo atraente da entrega total a Deus. É mais uma ocasião para olhar para o passado com gratidão e redescobrir “a centelha inspiradora” que deu impulso aos fundadores e às suas comunidades do início (cf. Carta aos consagrados, 21 de Novembro de 2014).
Que bem imenso nos continua a fazer a todos o testemunho da sua consagração, nascido directamente do encontro com Cristo, a sua experiência de oração, como diálogo contínuo com Deus e a sua vivência comunitária, enraizada na maternidade da Igreja!
1- Santa Teresa é antes de tudo mestra de oração. Na sua experiência, foi central a descoberta da humanidade de Cristo. Levada pelo desejo de partilhar essa experiência pessoal com os outros, escreve sobre ela dum modo vital e simples, ao alcance de todos, pois consiste simplesmente num “tratar de amizade com quem sabemos que nos ama” (V 8, 5). Muitas vezes a própria narrativa se converte em oração, como se quisesse introduzir o leitor no seu diálogo íntimo com Cristo. A de Teresa não foi uma oração restrita a um espaço ou momento do dia; surgia espontânea nas mais diversas ocasiões: “Triste coisa seria que só pelos cantos, se pudesse fazer oração” (F 5, 16).Estava convencida do valor da oração contínua, mesmo que nem sempre fosse perfeita. A Santa pede-nos que sejamos perseverantes, fiéis, mesmo nos momentos de aridez, das dificuldades pessoais ou das necessidades urgentes que nos reclamam.
Para renovar hoje a vida consagrada, Teresa legou-nos um grande tesouro. Cheio de propostas concretas, caminhos e métodos para rezar que, longe de nos fecharmos em nós mesmos ou de procurar um simples equilíbrio interior, nos fazem recomeçar sempre a partir de Jesus e constituem uma autêntica escola de crescimento no amor a Deus e ao próximo.
2- A partir do seu encontro com Jesus Cristo, Teresa viveu “uma nova vida”; tornou-se numa comunicadora incansável do Evangelho (cf. V 33, 1). Desejosa de servir a Igreja e perante os graves problemas do seu tempo, não se limitou a ser expectadora da realidade que a rodeava. Da sua condição de mulher e com as suas limitações de saúde, “determinei-me – diz ela - fazer este pouquito que está na minha mão: seguir os conselhos evangélicos com toda a perfeição que eu pudesse e procurar que estas poucas que aqui estão fizessem a mesmo” C 1, 2). Por isso iniciou a reforma teresiana, em que pedia às suas irmãs que não gastassem o tempo tratando “com Deus negócios de pouca importância” quando o “mundo está ardendo” (C 1, 5). Esta dimensão missionária e eclesial foi sempre apanágio do Carmelo Descalço.
Como então, também hoje a Santa nos abre novos horizontes, convoca a uma grande empresa, a ver o mundo com os olhos de Cristo, para procurar o que Ele procura e amar o que Ele ama.
3- Santa Teresa era consciente de que nem a oração nem a missão se podiam manter sem uma autêntica vida comunitária. Por isso, o alicerce dos seus mosteiros foi a vida fraterna: “nesta casa… todas tem que ser amigas, todas se hão-de querer, todas se hão-de ajudar” (C 4, 7). E teve o cuidado de avisar as suas religiosas sobre o perigo que corriam de puxar a atenção sobre si próprias na vida fraterna, que consiste “tudo, ou em grande parte, em perder o cuidado de nós mesmos e das nossas comodidades” (C 12, 2) e de por tudo o que somos ao serviço dos outros. Para não correr este risco. A Santa de Ávila, enaltece a suas irmãs, sobretudo, a virtude da humildade que não é retraimento exterior encolhimento interior da alma, mas conhecer o que cada um é capaz de fazer por si e Deus nele (Relações 28). O contrário é o que ela chama “honra negra” (V 31, 23), origem de murmurações, ciúmes e de críticas, que prejudicam seriamente a relação com os outros. A humildade teresiana é feita de autoaceitação, de consciência da própria dignidade, de audácia missionária, de agradecimento e de abandono em Deus.
Com estas nobres raízes, as comunidades teresianas estão chamadas a tornar-se casas de comunhão, que deem testemunho do amor fraterno e da maternidade da Igreja, apresentando ao Senhor as necessidades do nosso mundo, dilacerado pelas divisões e
pelas guerras.
Querido irmão, não quero terminar sem agradecer aos Carmelos teresianos que confiam o Papa com uma especial ternura à protecção da Virgem do Carmo e acompanham com a sua oração os grandes reptos e desafios lançados à Igreja. Peço ao Senhor que no seu testemunho de vida, como o de Santa Teresa, transpareça a alegria e a beleza de viver o Evangelho e atraia muitos jovens a seguir Cristo de perto.
Concedo a minha Bênção Apostólica a toda a família teresiana.
Vaticano, 28 de Março de 2015

Papa Francisco

500 ANOS DE STA. TERESA: Homilia.

SANTA TERESA: Morro Por Que Não Morro.

500 ANOS DE SANTA TERESA DE JESUS: Mensagem do Papa Francisco.

"Já é tempo de caminhar, andando pelos caminhos da alegria, da oração, da fraternidade, do tempo vivido como graça! Percorramos os caminhos da vida pela mão de santa Teresa. Seus passos conduzem-nos sempre a Jesus" 
(Papa Francisco).
O Papa Francisco dirige a seguinte carta ao bispo de Ávila, Monsenhor Jesús García Burillo, por ocasião do início do Ano Jubilar celebrativo do V Centenário do nascimento de Santa Teresa (1515-2015).

A Monsenhor Jesús García Burillo
Bispo de Ávila
Ávila
Querido Irmão:
A 28 de março de 1515 nasceu em Ávila uma menina que com o passar do tempo seria conhecida como santa Teresa de Jesus. Ao aproximar-se o quinto centenário do seu nascimento, volto o olhar para essa Cidade para agradecer a Deus pelo dom desta grande mulher e animar os fieis da querida diocese de Ávila e a todos os espanhóis para que conheçam a história dessa insígnia fundadora, para que leiam os seus livros, os quais, a par das suas filhas nos numerosos Carmelos espalhados pelo mundo, nos continuam a dizer quem e como foi a Madre Teresa e o que nos pode ensinar aos homens e mulheres de hoje.
Na escola da santa andarilha aprendemos a ser peregrinos. A imagem do caminho pode sintetizar muito bem a lição da sua vida e da sua obra. Ela entendeu a sua vida como caminho de perfeição pelo qual Deus conduz o homem, morada após morada, até Ele e, ao mesmo tempo, o põe em caminho para os homens. Por que caminhos quer levar-nos o Senhor seguindo as pegadas e pela mão de santa Teresa? Gostaria de recordar quatro que me fazem muito bem: o caminho da alegria, da oração, da fraternidade e do tempo próprio.
Teresa de Jesus convida as suas monjas a «andar alegres servindo» (Caminho 18,5). A verdadeira santidade é alegria, porque um santo triste é um triste santo. Os santos, mais do que esforçados heróis são fruto da graça de Deus aos homens. Cada santo manifesta-nos um traço do multiforme rosto de Deus. Em santa Teresa contemplamos o Deus que, sendo «soberana Majestade, eterna Sabedoria» (Poesia 2), revela-se próximo e companheiro, tem as suas delícias em conversar com os homens: Deus alegra-se connosco. E, por sentir o seu amor, experimentava uma alegria contagiosa que não podia dissimular e que transmitia à sua volta. Esta alegria é um caminho que temos de andar durante toda a vida. Não é instantânea, superficial, barulhenta. É preciso procurá-la já «nos princípios» (Vida 13,l). Expressa o gozo interior da alma, é humilde e «modesta» (cf. Fundações 12,l). Não se alcança pelo atalho fácil que evita a renúncia, o sofrimento ou a cruz, mas que se encontra padecendo trabalhos e dores (cf. Vida 6,2; 30,8), olhando para o Crucificado e procurando o Ressuscitado (cf. Caminho 26,4). Daí que a alegria de santa Teresa não seja egoísta nem auto-referencial. Como a do céu, consiste em «alegrar-se que se alegrem todos» (Caminho 30,5), pondo-se ao serviço dos demais com amor desinteressado. Da mesma forma que disse a um dos seus mosteiros em dificuldades, a Santa diz-nos também hoje a nós, especialmente aos jovens: «Não deixem de andar alegres!» (Carta 284,4). O Evangelho não é uma bolsa de chumbo que se arrasta pesadamente, mas sim uma fonte de gozo que enche de Deus o coração e o leva a servir os irmãos!
A Santa transitou também o caminho da oração, que definiu de forma bela como um «tratar de amizade estando muitas vezes a sós com quem sabemos que nos ama» (Vida 8,5). Quando os tempos são difíceis, são necessários «amigos fortes de Deus» para dar sustento aos fracos (Vida 15,5). Rezar não é uma forma de fugir, também não é evadir-se, nem isolar-se, mas sim avançar numa amizade que tanto mais cresce quanto mais se trata com o Senhor, «amigo verdadeiro» e «companheiro» fiel de viagem, com quem «tudo se pode sofrer», pois sempre «ajuda, dá esforço e nunca falta» (Vida 22,6). Para orar «não está a coisa em pensar muito mas sim em amar muito» (Moradas IV,1,7), em voltar os olhos para olhar aquele que não deixa de olhar-nos amorosamente e sofrer por nós pacientemente (cf. Caminho 26,3-4). Por muitos caminhos pode Deus conduzir as almas para si, mas a oração é o «caminho seguro» (Vida 213). Deixá-la é perder-se (cf. Vida 19,6). Estes conselhos da Santa têm uma atualidade perene. Sigam, pois, pelo caminho da oração, com determinação, sem deter-se, até ao fim! Isto vale particularmente para todos os membros da vida consagrada. Numa cultura do provisório, viva a fidelidade do «para sempre, sempre, sempre» (Vida 1,5); num mundo sem esperança, mostrem a fecundidade de um «coração enamorado» (Poesia 5); e numa sociedade com tantos ídolos, sejam testemunhas de que «só Deus basta» (Poesia 9).
Este caminho não podemos fazê-lo sozinhos, mas sim juntos. Para a santa reformadora o caminho da oração transcorre na via da fraternidade no seio da Igreja mãe. Esta foi a sua resposta providencial, nascida da inspiração divina e da sua intuição feminina, aos problemas da Igreja e da sociedade do seu tempo: fundar pequenas comunidades de mulheres que, à imitação do colégio apostólico, seguiram Cristo vivendo simplesmente o Evangelho e sustendo toda a Igreja com uma vida feita oração. «Para isto vos juntou Ele aqui, irmãs» (Caminho 2,5) e tal foi a promessa: «que Cristo andaria connosco» (Vida 32,11). Que linda definição da fraternidade na Igreja: andar juntos com Cristo como irmãos! Para isso não recomenda Teresa de Jesus muitas coisas, simplesmente três: amar-se muito unos aos outros, desprender-se de tudo e verdadeira humildade, que «ainda que a digo por último é a base principal e as abraça todas» (Caminho 4,4). Como desejaria, nestes tempos, umas comunidades cristãs mais fraternas onde se faça este caminho: andar na verdade da humildade que nos liberta de nós mesmos para amar mais e melhor aos demais, especialmente aos mais pobres! Nada há mais belo do que viver e morrer como filhos desta Igreja mãe!
Precisamente porque é mãe de portas abertas, a Igreja sempre está em caminho para os homens para levar-lhes aquela «água viva» (cf. Jo 4,10) que rega o horto do seu coração sedento. A santa escritora e mestra de oração foi ao mesmo tempo fundadora e missionária pelos caminhos de Espanha. A sua experiência mística não a separou do mundo nem das preocupações das pessoas. Pelo contrário, deu-lhe novo impulso e coragem para a ação e para os deveres de cada dia, porque também «entre as panelas anda o Senhor» (Fundações 5,8). Ela viveu as dificuldades do seu tempo tão complicado sem ceder à tentação do lamento amargo, mas antes aceitando-as na fé como uma oportunidade para dar um passo mais no caminho. E é que, «para fazer Deus grandes mercês a quem de verdade o serve, sempre há tempo» (Fundações 4,6). Hoje Teresa diz-nos: Reza mais para compreender bem o que acontece à tua volta e assim atuar melhor. A oração vence o pessimismo e gera boas iniciativas (cf. Moradas VII, 4,6). Este é o realismo teresiano, que exige obras em vez de emoções, e amor em vez de sonhos, o realismo do amor humilde ante um ascetismo trabalhoso! Algumas vezes a Santa abrevia as suas saborosas cartas dizendo: «Estamos de caminho» (Carta 469,7.9), como expressão da urgência em continuar até ao fim com a tarefa começada. Quando arde o mundo, não se pode perder o tempo em negócios de pouca importância. Oxalá contagie a todos esta santa pressa para sair e percorrer os caminhos do nosso próprio tempo, com o Evangelho na mão e o Espírito no coração!
«Já é tempo de caminhar!» (Ana de São Bartolomeu, Últimas ações da vida de santa Teresa). Estas palavras de santa Teresa de Ávila às portas da morte são a síntese da sua vida e convertem-se para nós, especialmente para a família carmelita, para os habitantes de Ávila e para todos os espanhóis, numa preciosa herança a conservar e enriquecer.
Querido Irmão, com a minha saudação cordial, a todos vos digo: Já é tempo de caminhar, andando pelos caminhos da alegria, da oração, da fraternidade, do tempo vivido como graça! Percorramos os caminhos da vida pela mão de santa Teresa. Seus passos conduzem-nos sempre a Jesus.
Peço-vos, por favor, que rezem por mim, pois necessito. Que Jesus vos abençoe e a Virgem Santa vos proteja.
Fraternalmente,
Francisco
fonte: http://www.carmelitas.pt/site/noticias


500 ANOS DE SANTA TERESA DE JESUS: Mensagem do Superior dos Carmelitas.

Frei Fernando Millán Romeral, O. Carm. Prior Geral.

 Uno-me a todos nesta ocasião especial na qual vos reunis para celebrar o V centenário do nascimento de Santa Teresa. É importante, como haveis bem programado, não somente celebrar liturgicamente esta memória, mas também refletir sobre a figura e o legado humano e espiritual deixado por santa Teresa para o Carmelo e para a Igreja.
            Neste ano, no qual a Igreja convoca a Vida Religiosa, em suas diversas formas e expressões, a refletir sobre a própria identidade e missão, o Santo Padre nos convida a assumir três atitudes fundamentais: “olhar com gratidão o passado” e recordar a própria história como elemento necessário para manter viva nossa identidade; “viver com paixão o presente”, deixando-nos interpelar pelo Evangelho e fazendo dele o referencial ultimo para o radicalismo de vida a ser testemunhado; “abraçar com esperança o futuro”, radicados naquela “esperança que não desilude”, com a consciência de que o Espírito continua a impelir esta porção do Povo de Deus, que é a vida religiosa, a fazer grandes coisas. Neste contexto, a mensagem e o testemunho de Santa Teresa podem servir como fonte de inspiração para acolhermos com responsabilidade e alegria os grandes desafios aos quais estamos submetidos e construir respostas corajosas em meio às vicissitudes do tempo e da história. Com sabedoria e maestria, ela soube conjugar o passado, o presente e o futuro para dar luz à sua grande obra de serviço à Igreja.        
Aproximamo-nos sempre de Teresa com santa reverência, aceitando o convite a entrar em diálogo profundo e sincero com sua experiência pessoal da qual emerge a autoridade do seu magistério espiritual. Tomados pela mão, na qualidade de aprendizes, devemos nos deixar conduzir por ela, fazendo nosso o seu itinerário humano e espiritual, descobrindo com ela as vias para a maturação de nossa vocação, radicados em nossa existência concreta, muitas vezes atormentada, mas escolhida por Deus como percurso necessário para a conquista daquela liberdade que se transforma em experiência de pertença a um único e inalienável amor.
Santa Teresa viveu intensamente sua vida em comunhão com os grandes dramas eclesiais do seu tempo. Sentiu o peso da mediocridade que muitas vezes invade a vida daqueles que assumiram a responsabilidade de viver com radicalidade a própria vocação. Como resposta pessoal, ela travou batalhas interiores para reencontrar forças para viver a audácia de uma fidelidade sem restrições. Deixou-se encontrar por aquele que sempre leva a sério o desejo genuíno de fidelidade do coração humano, descobriu-se amada apesar de suas fraquezas, reformou-se e compreendeu que não podia conter em si a novidade de sua descoberta. Encontrou-se com outros que compartilhavam o seu desejo e foi ousada em sua capacidade de romper com os esquemas de uma vida religiosa por demais estabelecida. Como fruto maduro do encontro entre natureza e graça, descobriu a alegria de ser discípula e, com corajosa simplicidade buscou as fontes de uma vida “sem mitigações” como caminho para a reforma e renovação do Carmelo.
Depois de cinco séculos, encontramo-nos, como Santa Teresa, diante de encruzilhadas que nos desafiam em todos os níveis: pessoal, comunitário e institucional. O mundanismo material e espiritual, invocado pelo Santo Padre como uma das doenças de nossa vida de discípulos, armou sua tenda e entre nós, roubando-nos a alegria, a paixão e a coragem da fidelidade, transformando nossa existência em um “empasto” de superficialidade e mediocridade. Como Santa Teresa, se quisermos recuperar a beleza de nossa vida, devemos assumir o esforço de “nadar contra a corrente”, reformando-nos para reformar, recuperando a beleza e a alegria de nossa condição de discípulos, ofuscada pela tentação de autossuficiência e pela ilusão de que, com nossas ideias e nossos talentos, podemos atingir a perfeição em nossa vida.
Santa Teresa nos ensina a via régia da humildade, virtude adquirida depois de muito penar e fruto maduro da consciência de que é Deus quem tem em mãos o timão de nossa existência e de nosso projetos. Resta-nos, finalmente, deixar brotar do nosso coração a pergunta-resposta com a qual Teresa exprime sua disponibilidade sem reservas aos caminhos de Deus: “Vossa sou, para vós nasci, que mandais fazer de mim”?  Sua vida, sua doutrina e seu carisma espiritual, marcados pela singular capacidade de “penetrar com profundidade o mistério de Cristo e o conhecimento da alma humana” (Paulo VI), possuem uma atualidade incontestável para os homens e mulheres de nosso tempo marcados por aquela inquietação interior que os impele a buscar um “algo a mais” como qualificativo para a própria experiência de fé.
Que, Santa Teresa, mestra de oração e de vida, com seu exemplo e sua doutrina, incite os vossos corações a percorrer a fascinante estrada da intimidade com Deus, que se transforma em serviço e missão para a Igreja e para o mundo.
Fraternalmente no Carmelo,

Frei Fernando Millán Romeral, O. Carm.

Prior Geral.

A PALAVRA DO FREI ADAILSON: Morro Por Que Não Morro.

A PALAVRA DO FREI ADAILSON: Morro Por Que Não Morro.

sexta-feira, 27 de março de 2015

ENCONTRO PROVINCIAL: A Palavra do Delegado Provincial-01.

Quando São Januário conquista até o papa

Mas "'o sant' guappone" encorajou ou não o Papa Francisco? Três dias depois da visita, ainda há debate em Nápoles: o sangue da ampola dissolvido pela metade significa que São Januário [San Gennaro] encoraja o papa a avançar no seu caminho ou lhe sugere mais cautela?  É um "meio fracasso" ou um "meio milagre", como interpretou o pontífice, servindo-se da dissolução incompleta para encorajar os fiéis a darem mais?
A reportagem é de Gian Antonio Stella, publicada no jornal Corriere della Sera, 25-03-2015. A tradução é de Moisés Sbardelotto.
O fato é que fiéis, não crentes e ateus, 17 séculos depois do martírio do bispo decapitado, ainda estão lá discutindo em torno do "milagre" e da fé popular que o rodeia. Tão arraigada a ponto de levar a própria Igreja, recalcitrante em relação a certas devoções que têm algo de pagão, a se deixar "conquistar".
Tudo se deve, escreveu Pietro Treccagnoli, ao perfil do santo: "São Januário é um santo interclassista e interconfessional, seguramente pop, com uma iconografia que atravessou os séculos, da grande arteao artesanato mais grosseiro, passando pelo barroco ao merchandising".
Um santo que "nunca diz não. Mas, até sábado passado, havia dito não justamente aos papas. Nada de milagre para Pio IX, João Paulo II e Bento XVI. Na presença de Francisco, homem do Sul, ele mudou de ideia".
Um santo capaz de apaixonar até mesmo Alexandre Dumas, que lhe dedicou páginas memoráveis: "São Januário não teria existido sem Nápoles, nem Nápoles poderia existir sem São Januário. É verdade que não existe nenhuma cidade no mundo que, mais vezes do que esta, foi conquistada e dominada pelo estrangeiro; mas, graças à intervenção ativa e vigilante do seu protetor, os conquistadores desapareceram, e Nápoles permaneceu. Os normandos reinaram sobre Nápoles, mas São Januário os expulsou. Os suábios reinaram sobre Nápoles, mas São Januário os expulsou. Os angevinos...".
Nada de sorrisinhos, explicou Luciano De Crescenzo, que é engenheiro, mas, antes ainda, napolitano: "Os napolitanos podem parecer um povo de crédulos, que confiam na lenda de São Januário e do seu sangue", mas, "se realmente os napolitanos são tolos, não vão além da média nacional. Então, o que dizer dos horóscopos, do zodíaco, que enlouquecem nos jornais até muito notáveis, nos telejornais, na web? Digam-me vocês se são mais tontos os napolitanos que acreditam no sangue que se dissolve, ao qual, ao menos, podem assistir ao vivo, ou se são mais imbecis aqueles que esperam se apaixonar porque Vênus entrou no seu signo".

Difícil dizer que ele esteja errado. Fonte: http://www.ihu.unisinos.br

quinta-feira, 26 de março de 2015

500 anos nascimento Santa Teresa de Jesus - oração pela paz.

Ocorre no dia 28 deste mês de Março, 500 anos do nascimento de Santa Teresa de Jesus, ou Santa Teresa de Ávila, como é também conhecida esta Virgem e Doutora da Igreja. A pedido do Superior Geral dos Carmelitas Descalços, o Papa Francisco aceitou que nos dias 27 e 28  todas as comunidades carmelitas do mundo, dediquem uma hora de oração pela paz na Terra. 
O mundo está em chamas, gritava Teresa perante os conflitos e divisões que devastavam a sociedade do seu tempo – disse o Superior Geral – frisando que também o nosso mundo está em chamas e, por vezes, não temos bastante sensibilidade ou então a fé necessário para acreditar que podemos apagar o fogo que nos circunda. Absortos, não raro, pelas nossas pequenas coisas quotidianas e pelos problemas mais imediatos, nos esquecemos de levantar o olhar para escrutar o horizonte e descobrir os sinais de sofrimento presentes na nossa sociedade: guerras, conflito, terrorismo, violência pública e doméstica, gritos de dor, silenciadas ainda antes de poderes ser lançadas – prosseguiu o P. Savério  Canistrá, remando que não podemos atribuir a responsabilidade de resolver os problemas apenas aos governos. A voz de Santa Teresa tem de ecoar nos nossos corações, levando a não perder-se em coisas banais, mas a abrir os nossos corações ao perdão e a rezar pela paz no mundo.
O Superior anunciou com grande alegria aos seus confrades, a adesão do Papa a esta iniciativa de oração pela paz. Aliás, esta manhã, no final da Missa em Santa Marta, o Papa referindo a esta iniciativa de oração – disse:
“Uno-me de coração a esta iniciativa, a fim de  que este amor de Deus vença os incêndios de guerra e de violência que afligem a humanidade e em todo o lado prevaleça o diálogo sobre o recontro armado. Santa Teresa de Jesus interceda por esta nossa suplica.”
Está em curso desde 15 de Outubro passado uma peregrinação por trinta países dos cinco continentes, das relíquias de Santa Teresa, peregrinação denominada “Caminho de Luz”. Os quatro principais peregrinos e artífices de “Caminho de Luz” encabeçado pelo P. António Gonçalves, foram recebidos no passado dia 11 pelo Papa Francisco, o qual beijou o bastão da Santa dizendo com um inconfundível acento argentino “A velha caminha com isto”.
Durante essa audiência o Papa recordou o 5º centenário de nascimento de Santa Teresa como exemplo de apostolado exprimindo o desejo de que o seu vigor espiritual estimule a dar testemunhar com alegria a fé.
O acolhimento da parte do Papa representou o momento mais alto dessa longa peregrinação mundial da relíquia de Santa Teresa que se conclui precisamente no 28 em Ávila. A partir de Abril  “Caminho de Luz iniciará um novo percurso que se prolongará até Julho, passando pela fundações teresianas e outros lugares emblemáticos dos Carmelitas Descalços em Espanha.
Os responsáveis do “Caminho da Luz” conferiram ao Papa Francisco o titulo de “Peregrino de Honra” do Percurso Teresiano “Do Berço ao Sepulcro”. Foi também oferecido ao Papa, em nome da Associação Turismo da Moranha que patrocinou a peregrinação a “Pluma Teresiana 2015” como peregrino modelo da Igreja e como aquele que convida ao caminho de oração de Santa Teresa.

BIBLIOGRAMA DO PROFETA ELIAS. 6ª Parte.

RIO DE JANEIRO: Protestos dos sem- teto e estudantes-02.

RIO DE JANEIRO: Protestos dos sem- teto e estudantes-01.

A PALAVRA... Nº 834. Ser Carmelita é Ser Contemplativo- 04.

SEMANA SANTA- 2015: Vinheta.

SEMANA SANTA- 2015: Vinheta.

HINO DO ANO ELIANO MISSIONÁRIO: Levanta Elias.

BIBLIOGRAMA DO PROFETA ELIAS. 5ª Parte.

Cartunista é pressionado por Igreja Universal a retirar charge do Facebook

Charge do cartunista Vitor Teixeira sobre os Gladiadores do Altar, da Igreja Universal do Reino de Deus.
A assessoria jurídica da Igreja Universal do Reino de Deus pressionou extrajudicialmente o cartunista Vitor Teixeira e retirar de sua página no Facebook uma charge que, segundo ela, incita a intolerância religiosa.
A charge, segundo seu autor, era uma crítica aos Gladiadores do Altar, grupo de fieis da igreja que apareceram recentemente em diversos vídeos divulgados nas redes sociais marchando, batendo continência e usando uniformes análogos aos do Exército Brasileiro.
O grupo virou alvo de críticas e de denúncias ao Ministério Público por ter sido visto como análogo a uma organização paramilitar. A Universal nega as acusações e diz que o grupo tem como objetivo "pregar o Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo".
Na notificação, a advogada frisa que o grupo promove atividades "culturais, sociais e esportivas para auxiliar no resgate e amparo de populações de rua, viciados, jovens carentes e em conflito com a lei".
No desenho feito por Teixeira, um homem com capacete de gladiador e uma camiseta com o símbolo da Universal enfia uma espada em uma mãe de santo.
"Minha intenção foi denunciar uma empresa que, a meu ver, está endossando a criação de uma suposta milícia. E não sou apenas eu que acho isso, tanto que o assunto foi levado ao Ministério Público. Estou debatendo a iniciativa de uma empresa, com sede internacional, com um poderoso grupo de mídia por trás de si e com uma assessoria jurídica que usou todo seu poder contra um cartunista independente. Eles dizem que não irão me processar porque retirei a charge 'voluntariamente', mas que opção eu tinha?"
Teixeira disse ainda que a imagem da mãe de santo foi usada devido ao tratamento que a igreja dá às religiões de matriz africana. Em 2007, o bispo Edir Macedo, fundador da Universal, sofreu processo do Ministério Público e teve seu livro "Orixás, Caboclos e Guias, deuses ou demônios?" retirado temporariamente de circulação. No entanto o TRF da 1ª região entendeu que a obra, apesar de conter expressões e mensagens preconceituosas, deveria voltar a circular no intuito de prevalecer a liberdade de expressão, garantida pelo artigo 5º da Constituição.
"Quando vi os vídeos daqueles gladiadores, pensei que se existia um grupo que seria alvo deles certamente seriam as religiões africanas, que já são atacadas em seus cultos", disse o cartunista. Na notificação, a Universal nega que incite ódio contra essas religiões. Diz apenas que "não concorda" com elas.
Liberdade de Expressão
Logo após o cartunista divulgar em seu perfil no Facebook a notificação que recebera, a assessoria jurídica da igreja enviou outra correspondência dizendo que a Universal "não trabalha nem nunca trabalhou baseada em ameaças" e que "a pretexto da liberdade de expressão, não é admissível a incitação ao ódio religioso".
Procurada pela reportagem do UOL sobre o caso, a assessoria de imprensa Igreja Universal do Reino de Deus respondeu:
"O autor produziu e publicou uma ilustração acusando a Universal assassinar, ou de pretender matar praticantes de religiões de matriz africana. Incitar o ódio é crime. Acusar falsamente de cometer um crime, também é crime. No estado de direito, a liberdade de expressão não autoriza ou legitima absurdos como tal imagem horrenda, veiculada de modo irresponsável. Voluntariamente, o chargista apagou a postagem, certamente por reconhecer o erro que cometeu. A Universal respeita e defende as liberdades constitucionais de crença, de culto e de opinião. Mas jamais aceitará calada ataques delinquentes de preconceito e rancor. Casos semelhantes terão tratamento igual perante a Justiça."

quarta-feira, 25 de março de 2015

Carmelitas e oração: Um olhar sobre a Espiritualidade Carmelitana.

Mt 6,6: “Quando você rezar, entre no seu quarto, feche a porta, e reze ao seu Pai ocultamente; e o seu Pai, que vê o escondido, recompensará você”.

O Beato Frei Titus Brandsma escreveu que “a oração é vida, não um oásis no deserto da vida’. A oração é uma parte essencial do carisma carmelitano. Espera-se que sejamos homens de oração e que formemos comunidades orantes. O Carmelo é certamente símbolo da oração para a maioria das pessoas em todo mundo.
A Ratio (art. 29) faz uma distinção entre oração e contemplação, embora afirme que na tradição carmelitana a oração foi muitas vezes identificada com a contemplação. A oração é a porta para a contemplação (Castelo Interior, 1,7). Na Regra, temos um equilíbrio entre oração em comum e tempo sozinhos com Deus na cela. A oração litúrgica certamente é a forma mais alta de oração já que é a oração de Cristo dirigida ao Pai no Espírito Santo. Quando celebramos a liturgia estamos partilhando dessa oração, dessa comunicação íntima entre o Pai e o Filho, que é o Espírito Santo.
Para o carmelita, a celebração diária da liturgia é muito importante. Somos incumbidos de celebrar o ofício divino para o mundo em nome da Igreja. Esse é um compromisso muito sério que aceitamos na profissão solene. Contudo, celebrar a liturgia em certos momentos do dia não é o suficiente. A liturgia deve influenciar cada momento de nossa vida. A idéia da Liturgia das Horas é santificar todo o dia e recordar a presença de Deus a cada momento. É muito importante viver a Eucaristia, aprender com o exemplo de Cristo a nos doarmos aos outros, a viver na presença de Deus. Logo, a Eucaristia e a Liturgia das Horas não são celebrações momentâneas, mas o coração de cada dia. Na liturgia ganhamos força para servir ao Povo de Deus e para viver em harmonia com nossos irmãos e irmãs.
Gostaria de enfocar a oração pessoal. Se vamos crescer em nosso relacionamento com Deus, é essencial termos um tempo sozinhos com Deus. Existem muitas maneiras de rezar, mas todas elas se voltam para estabelecer uma amizade íntima com Jesus Cristo. Santa Teresa d’Ávila nos advertiu que devemos fazer tudo para aumentar nosso amor pelo Senhor. O único modo de julgar a oração é se ela transforma nossas vidas. Isto é: estamos tratando as outras pessoas um pouco melhor? As Constituições nos lembram que: “Uma vida de oração também exige que examinemos nosso modo de vida à luz do Evangelho, para que a oração possa influenciar tanto nossas vidas pessoais quanto as vidas de nossas comunidades” (art. 81). O modo como rezamos depende muito de nossas personalidades e do tipo de relacionamento que temos e queremos ter com Deus.
Talvez a Lectio Divina seja o modo mais tradicional de crescer no relacionamento com Deus. Existem muitas formas de usar esse modo de oração. Ela pode ser usada tanto comunitária quanto individualmente. Podemos usá-la como a estrutura de todo nosso dia. Na Missa ou na Oração da Manhã lemos a Palavra de Deus. Durante o dia podemos recordar essa Palavra em determinados momentos, repetindo uma frase curta ou mesmo uma única palavra. Os eremitas no Monte Carmelo meditavam dessa forma. Ás vezes isso pode permitir que nossos corações falem diretamente com Deus respondendo aos acontecimentos de nosso dia. Quando chega o momento da oração pessoal, podemos simplesmente abandonar nossos pensamentos e palavras e repousar em Deus.

A Prática da Presença de Deus
Foi o carmelita descalço de Lourenço da Ressurreição quem primeiro viveu e tornou famosa a Prática da presença de Deus. Essa prática é muito simples e, ao mesmo tempo, muito difícil. A Regra nos lembra: “que tudo seja feito na Palavra do Senhor” (Regra 19). Isso é um eco da carta aos Colossenses: “E tudo o que vocês fizerem através de palavras ou ações, o façam em nome do Senhor Jesus” (Cl 3,17). A prática da presença de Deus é um método de oração simples porque não requer qualquer regra complicada. Significa simplesmente viver na verdade. Deus está presente em cada momento de nossas vidas, mantendo-nos vivos. Essa prática envolve partilhar com Deus tudo que acontece com você. Não é necessário conversar com Deus apenas sobre coisas sagradas. Podemos falar com Deus sobre o que nos interessa e partilhar com Deus o que acontece conosco. Lourenço da Ressurreição conversou com Deus sobre todos os detalhes práticos de seu trabalho como cozinheiro e tesoureiro comunitário. Santa Teresa d’Ávila nos lembra que Deus caminha entre os utensílios da cozinha. Deus está no meio da realidade que nos rodeia, seja ela qual for. Nós não trazemos Cristo para as circunstâncias em que vivemos. Ele está lá antes de nós.
A prática da presença de Deus é um modo de continuar o diálogo com Deus durante todo o dia. O Concílio Vaticano Segundo enfatizou o perigo da divisão entre fé e vida. Elas são e devem ser uma. Partilhar os eventos do dia é um modo de permitir que a Palavra de Deus influencie tudo que fazemos, pensamos ou dizemos. Se não temos vergonha de fazer ou dizer alguma coisa na presença de Deus, estamos vivendo uma ilusão ou nossas ações e palavras estão realmente de acordo com a vontade de Deus. Nosso falso eu levantará todos os tipos de razões para nos assegurar de que estamos certos e que não precisamos de mudança. Para vivermos na presença de Deus e trilharmos o caminho espiritual, a honestidade é uma virtude algumas vezes dolorosa, mas essencial.

A devoção a Maria, a Mãe de Jesus.
A devoção mariana está intimamente ligada à Ordem Carmelitana. Maria é a Padroeira, Mãe e Irmã dos Carmelitas e cada um de nós deve pôr em prática seu próprio relacionamento com ela. O rosário é uma devoção popular resistente. Existem inúmeras maneiras de usá-lo para a oração. Ele só se limita à criatividade de cada pessoa. O símbolo mais importante da devoção mariana entre os carmelitas é o escapulário. Foram feitas diversas tentativas de atualizar esse símbolo para nossos dias. Pela ocasião do 750º aniversário da devoção ao escapulário, o Papa escreveu uma carta na qual descreveu seus dois elementos fundamentais. O escapulário faz parte de todo conjunto da espiritualidade carmelitana e nos lembra especificamente a presença constante de Maria em nossas vidas. Ela é a mãe da vida divina dentro de nós e nos acompanha até que essa vida cresça e nos transformemos em Deus. Esse é o objetivo de nossa existência. O segundo elemento fundamental da devoção ao escapulário é nosso compromisso de assumir as virtudes de Maria.
No Evangelho que usamos para a Solenidade de Nossa Senhora do Monte Carmelo, ouvimos as palavras que Jesus disse na cruz ao dar Maria ao discípulo amado como mãe a um filho. Então o evangelista nos fala que o discípulo assumiu Maria “para si”. Geralmente essa frase é traduzida como “a recebeu em sua casa”, mas a língua Grega não queria dizer isso. Acredito que o texto diz que o discípulo amado, que representa todos nós, levou Maria para o local mais precioso para ele. O que caracteriza o discípulo amado acima de tudo é seu relacionamento com Jesus. Logo, ele colocou Maria no centro do seu relacionamento com Jesus e Maria colocou o discípulo no centro do seu relacionamento com seu Filho.

A Oração Silenciosa
A Ratio nos diz que a oração é essencialmente um relacionamento pessoal, um diálogo entre Deus e o ser humano. Somos convidados a cultivá-la e a encontrar tempo e espaço para estarmos com o Senhor. A amizade só pode crescer através “estando muitas vezes a sós com quem sabemos que nos ama” (Santa Teresa d’Ávila – Livro da Vida 8,5) (Ratio 31). A Ratio continua dizendo que além de todas as questões da forma da oração, o importante é cultivar um relacionamento profundo com Cristo. Ela cita Santa Teresa mais uma vez dizendo que a oração perfeita “não consiste em muito pensar, e sim em muito amar” (Fundações 5,2; Castelo Interior 4, 1, 7) (Ratio). As Constituições nos lembram que: “A oração em silêncio é de grande ajuda no desenvolvimento de um espírito de contemplação. Portanto, devemos praticá-la diariamente por um período de tempo apropriado” (Art. 80).
Então o que é a oração em silêncio e o que é um período de tempo apropriado? Nossas vidas são muito agitadas, mas precisamos estabelecer prioridades. A oração é absolutamente essencial. O período de tempo depende do relacionamento da pessoa com Deus e, até certo ponto, depende da criatividade em encontrar espaço e tempo.
Todo relacionamento tem seu próprio ritmo. Geralmente, após um período de tempo, um relacionamento tende a ser menos complicado quando as duas pessoas se acostumam com o jeito uma da outra. Quando você não conhece bem uma pessoa, é difícil sentar em silêncio com ela. Temos a tendência de conversar. Ao conhecermos melhor a pessoa, o relacionamento torna-se mais fácil e sentar-se no silêncio amistoso torna-se normal e agradável. Quando entramos em harmonia com o outro podemos começar a ler seu silêncio. Trata-se de um relacionamento íntimo. O silêncio pode ser mais eloqüente do que muitas palavras.
É muito normal que no decorrer do tempo nossa oração se torne mais e mais simples. Pode ser que já tenhamos uma palavra que resuma tudo que queremos dizer a Deus. Dizer essa palavra significa milhares de coisas. Jesus abriu seu coração a seus discípulos e partilhou conosco o nome especial que tinha para Deus. Esse nome é “Abba”. Essa palavra contém todo relacionamento de Jesus com o Pai. É muito útil ter nosso próprio modo de nos relacionarmos com Deus, para que possamos lembrar durante o dia da presença constante de Deus conosco ao repetirmos uma simples palavra ou frase.
Cada relacionamento com o Senhor é diferente. Se você aproveita o máximo em sentar-se e conversar com o Senhor, ou de meditar sobre um tema, ou de ler e pensar sobre uma passagem da Escritura, ou de refletir sobre um livro espiritual, isso é bom. Por favor, continue a fazer isso. No entanto, podem existir momentos numa jornada de oração quando a pessoa se torna um pouco confusa e procura para onde ir. Também é comum ser levado ao silêncio durante a oração e, a princípio, isso pode parecer estranho e assustador. Não sabemos o que fazer e temos a sensação de estarmos perdendo tempo. A grande tentação é deixar de lado a oração porque não podemos mais encontrar o consolo que tivemos e ceder à sensação de perda de tempo. Como Santa Teresa d’Ávila, insisto que você não ceda a essa tentação e tenha uma “determinação muito determinada” de agarrar-se à oração especialmente quando ela não está de acordo com os seus planos.
É uma experiência muito comum passar por períodos prolongados de aridez na oração. Mais uma vez sentimos como se estivéssemos desistindo ou chateados. Sentimos que Deus foi embora não deixando endereço. Se, de alguma forma, mesmo no meio da confusão e da aridez, estamos convencidos do valor da oração, devemos apenas nos sentar na poeira e esperar por Deus. Em ocasiões muito estranhas em que um pensamento santo flutua sobre o rio de nossa consciência, temos a tendência de nos precipitarmos sobre ele e sufocá-lo, exaurindo-o por estarmos ressecados. No entanto, existe outra forma de lidar com esses pensamentos santos ocasionais. Não importa o quanto possam parecer santos, eles são nossos pensamentos, por isso subtende-se que deixamos que eles venham ou não. Se esses pensamentos forem verdadeiramente de Deus, retornarão em outro momento.
Existem muitos métodos de esperar por Deus no silêncio. Gostaria de propor um método de oração que pode fazer com que o silêncio seja muito produtivo e que pode nos ajudar a esperar por Deus no silêncio. Trata-se de um método de oração cristão baseado na rica tradição contemplativa e, especialmente, num livro clássico dessa tradição, “A Nuvem do Não-Saber”, um escrito anônimo do século XIV. Não estou sugerindo que devemos deixar de lado outras formas pessoais de oração, mas esse método pode aprofundar esses outros métodos e torná-los mais produtivos. O mais importante para esse tipo de oração é estar convencido de que Deus não está longe, mas muito perto. Deus faz sua morada em nós (cf. Jo 14,23).
Esse método de oração pode ser chamado de oração do silêncio ou de oração do desejo porque, no silêncio, nos voltamos para Deus com nosso desejo. Ele também foi chamado de oração em segredo, seguindo o conselho de Jesus para entramos em nosso quarto e rezarmos ao Pai ocultamente (M 6,6). A primeira fase dessa oração é encontrar um local adequado onde as interrupções sejam reduzidas ao mínimo. Depois se coloque numa posição confortável que você possa manter durante todo tempo da oração. Recomenda-se um mínimo de 20 minutos. Pode-se começar essa oração com uma pequena leitura da Bíblia. Não é hora de pensar no significado das palavras. Esse tipo de meditação fica para outra hora. Agora é hora de simplesmente estar na presença de Deus e de consentir na ação divina com nossa intenção. Então, com os olhos fechados, introduza gentilmente uma palavra sagrada em seu coração. Uma palavra sagrada é aquela que tem um grande significado para você em seu relacionamento contínuo com Deus. A palavra sagrada deve ser sagrada para você. De acordo com o ensinamento de “A Nuvem do Não Saber”, é melhor que essa palavra seja breve, de uma sílaba se possível. Sugiro algumas palavras: “Deus, Senhor, Amor, Jesus, Espírito, Pai, Maria, Sim”. Escolha uma palavra significativa para você. Talvez você pense em uma, se pedir a ajuda de Deus.
Quando peço que você introduza uma palavra sagrada no seu coração, não estou sugerindo que você a pronuncie com seus lábios, ou mesmo mentalmente, mas acolha-a dentro de você sem pensar em seu significado. Não é necessário forçar a palavra sagrada. Ela deve ser muito gentil. A palavra sagrada não é um mantra a ser repetido constantemente. A palavra concentra nosso desejo e sempre a usamos do mesmo modo simplesmente voltando nosso coração para o Senhor assim que percebemos que estamos distraídos. Essa é uma oração de intenção e não de atenção. Nossa intenção é estar na presença de Deus e consentir na ação divina em nossas vidas. A palavra sagrada expressa essa intenção e, assim, quanto tomamos consciência de que estamos pensando em algo diferente, podemos decidir se continuamos com a distração por ser mais interessante, ou se voltamos nossa intenção para a presença de Deus e consentimos com aquilo que Deus quer realizar em nós. Voltamos nosso coração para Deus pelo uso da palavra sagrada. Ela é um símbolo de nossa intenção. Não é necessário repeti-la freqüentemente, apenas quando desejamos voltar nosso coração para Deus.
Durante essa oração, não é hora de conversar com Deus usando belas palavras ou mesmo de ter pensamentos santos, mesmo que pensemos que são inspirações de Deus. É melhor deixar essas coisas para outro momento. Nosso silêncio e nosso desejo valem mais do que palavras.
Através da palavra que escolhemos, expressamos nosso desejo e nossa intenção de permanecer na presença de Deus e de consentir com a ação divina purificante e transformadora. Voltamos para a palavra sagrada, que é o símbolo de nossa intenção e de nosso desejo, apenas quando tomamos consciência de estarmos envolvidos em algo diferente.
A oração consiste simplesmente em estar na presença de Deus sem pensar em nada em especial. Se você compreende como estar em silêncio com outra pessoa sem pensar ou fazer algo em especial, então você será capaz de compreender do que trata a oração. Nem todas as pessoas se adaptam a esse método de oração. Se você sentir um chamado interior para um silêncio maior, ele pode ajudá-lo.
No final do período que você decidiu dedicar à oração, talvez você possa dizer um Pai Nosso ou outra oração lentamente. É bom permanecer em silêncio por alguns momentos para se preparar para levar o fruto de sua oração para sua vida pessoal.

Pauta prática para a Oração em Segredo:
1- Escolha uma palavra sagrada como símbolo de sua intenção em consentir na presença e na ação de Deus dentro de você.
2- Sente-se confortavelmente e, com os olhos fechados, fixe brevemente e introduza a palavra sagrada silenciosamente como símbolo de seu consentimento da presença da ação de Deus dentro de você.
3- Quando estiver envolvido com seus pensamentos, volte sempre gentilmente à palavra sagrada.
4- No final do período de oração, permaneça em silêncio com os olhos fechados por alguns minutos.


A PALAVRA... Nº 833: E se Maria tivesse falado não?

ENCONTRO PROVINCIAL: A Palavra do Frei Alonso.

BIBLIOGRAMA DO PROFETA ELIAS. 4ª Parte.

terça-feira, 24 de março de 2015

Livro reúne poemas eróticos escritos por e para freiras nos séculos 17 e 185

Novo lançamento da L&PM, "Que Seja em Segredo" reúne poemas eróticos de autoria de freiras ou inspirados nelas e "escritos na devassidão dos conventos brasileiros e portugueses dos séculos 17 e 18", como descreve a própria editora. Trata-se de um relançamento da obra, que já saiu pela editora Dantes nos anos 1990 e havia esgotado.
Os escritos são de uma época em que a vocação religiosa não era o principal motivo para jovens serem enviadas aos conventos. Naquele tempo, qualquer mulher considerada "difícil" podia acabar enclausurada. Portanto, esse era muitas vezes o destino das moças excessivamente sexuais, rebeldes, homossexuais, bastardas, das amantes indesejadas e das que perdiam a virgindade antes de se casar ou até mesmo por estupro. Às vezes, até garotas que não eram consideradas problemáticas podiam acabar passando o resto da vida em um convento, graças ao status que as famílias conseguiam por ter uma filha freira.
Mas essa clausura não era tão hermética quanto se imagina. Alguns homens iam encontrar as freiras nas missas ou nos próprios conventos, atraídos justamente pela "proibição" representada por elas e pelas fantasias eróticas que isso despertava. Nascia assim a figura do "freirático", ou "aquele que frequenta freiras". Esse sujeito podia ter com as religiosas relações que iam desde platonismo inocente até encontros tórridos que não deviam nada a "Cinquenta Tons de Cinza", como no relato abaixo.
As religiosas do convento de Santa Ana de Vila de Viana tinham nas proximidades várias casinhas aonde iam, fora de clausura, com pretexto de estarem ocupadas a cozinhar, e recebiam ali homens que entravam e saíam de noite, denunciou em 1.700 o rei, em Lisboa. Nas celas os catres rangiam, os corpos alvos das freiras suavam sob o calor dos nobres, estudantes, desembargadores, provinciais, infantes. Os gemidos eram abafados com beijos
Ana Miranda, em trecho do texto de introdução de "Que Seja em Segredo"
"Poemas luxuriosos, românticos, por vezes sarcásticos, escritos para e por freiras, em plena Inquisição, documentam tal costume dessa época em que a interdição sexual teve a função de afrodisíaco. Como consequência, celas e conventos eram ambientes de grande licenciosidade", define a escritora Ana Miranda, vencedora do prêmio Jabuti em 1990 por "Boca do Inferno" e responsável pela pesquisa e o excelente texto de introdução da obra, que não apenas contextualiza o leitor, como também faz uma belíssima reflexão sobre desejo e sensualidade.
Entre os freirático notáveis citados em "Que Seja em Segredo" estão o rei de Portugal dom João 5º e o poeta Gregório de Matos. O primeiro era um entusiasta tão inveterado das religiosas que chegou a mandar construir uma passagem secreta entre sua casa na cidade de Odivelas e o convento local, para que pudesse "frequentar as freiras" com maior discrição e receber leituras de poemas com freiras sentadas em seu colo.
Já Gregório de Matos deixou depoimentos de suas aventuras com as "cortesãs enclausuradas" no Brasil. Incluindo o curioso relato de quando a cama de uma freira com quem estava literalmente pegou fogo. Decerto resultado de uma vela caída, mas o poeta, conhecido como um escritor "maldito", atribuiu as chamas ao "amor que queimava os corpos através dos espíritos".
As freiras, no começo, não respondiam às cartas, e apenas os mais persistentes prosseguiam até receber uma resposta, um bilhete recortado com tesoura, salpicado com água de córdova ou outro perfume caro, dizendo que não podia amar, que era muito feia, coisas assim. Mais uma carta de lá, outra de cá, uma cena de ciúmes, de rivalidade, e estava consumada a aproximação. 'Já que tem de ser, que seja em segredo', escrevia finalmente a freira ao pretendente.
Ana Miranda, em trecho do texto de introdução de "Que Seja em Segredo"

Trecho de Antonio Lobo de Carvalho

Puta dum corno, dos diabos freira,
Eu me ausento, por mais não aturar-te;
Tu cá ficas, cá podes esfregar-te
Com quem melhor te apague essa coceira;

Poeta anônimo
Quando eu estive em vossa cela
Deitado na vossa cama
Chupando nas vossas tetas
Então foi que me lembrei
Linhas brancas, linhas pretas.

Trecho de poema de Frei Antonio das Chagas
Vem a ser que a freirinha
Se enamorou de doutra freira
Mais que mancebo, cá fora

Quis, lá dentro, ter manceba.
Fonte: www.uol.com.br

ORDEM TERCEIRA DO CARMO: Irmandade ou Pastoral?

A PALAVRA... Nº 832: As Dores de Maria e das Marias.

segunda-feira, 23 de março de 2015

ANO ELIANO MISSIONÁRIO DA ORDEM TERCEIRA DO CARMO: Hino.

2016- ANO ELIANO MISSIONÁRIO DA ORDEM TERCEIRA DO CARMO.
Tema: Levantar e andar com o Profeta Elias. (1º Reis, 19, 1-18)
Subtema: Acolher as viúvas de Sarepta com um olhar de misericórdia. (1 º Reis, 7, 1-24).


Levanta Elias. (1º Reis, 19, 1-18)
Letra e Música:
Frei Petrônio de Miranda, Carmelita.

Levanta Elias, levanta, é hora de caminhar./ Levanta Elias levanta, é hora de Evangelizar. (bis)

1- No fogo e no furação, Javé aí não está./Na brisa suave Elias, Ele sempre, sempre vai passar. (bis)
2- Elias do fogo e da espada, contigo vamos caminhar./ Com os olhos de misericórdia, Javé vem abençoar. (bis)
3-Não basta falar do sagrado, é preciso sempre acreditar./ Nas noites escuras da vida, Javé vem iluminar. (bis)
4-No Monte Carmelo lutaste, Javé foste defender. /Agora Elias na dor, Ele vem, vem te Proteger. (bis)
5-Na pobre viúva chorando, com fome e seu filho a morrer./ O Deus do Profeta Elias, vai logo, logo socorrer. (bis)
6-Profetas e Profetisas, souberam Evangelizar./No Monte Carmelo Elias, contigo queremos chegar. (bis)


HINO DO ANO ELIANO MISSIONÁRIO: Levanta Elias.

domingo, 22 de março de 2015

ORDEM TERCEIRA: Vinheta do Encontro Provincial.

BIBLIOGRAMA DO PROFETA ELIAS. 1ª Parte.

500 Anos de Santa Teresa de Jesus. (3ª Parte)


ASSEMBLEIA DE ESPIRITUALIDADE DOS CARMELITAS
- Província Carmelitana de Santo Elias-
Belo Horizonte- MG. Casa de Retiro São José. De 26 -30 de janeiro-2015.
Tema: 500 Anos de Santa Teresa de Jesus.
Pregador: Professor Francisco Catão, São Paulo.


A pedagogia de Santa Teresa de Jesus vista por um teólogo nos dias de hoje
Por Professor Francisco Catão, São Paulo.


3ª Parte: O Caminho de Teresa.

Teresa completava 41 anos. Sua vida espiritual atingira a maturidade. Assistida por diversos “letrados”, principalmente dominicanos e jesuítas, sentira necessidade de harmonizar a vida conventual com as exigências da oração.
Sonhou, então com um pequeno mosteiro em que as religiosas não fossem tão numerosas, podendo se conhecer pessoalmente e se amar de fato, umas às outras, ao contrário do mosteiro onde  vivia, com quase 200 religiosas que praticamente se ignoravam como pessoas, dando prioridade às observâncias claustrais e ao culto, e em que as amizades pareciam sempre suspeitas.
O importante para Teresa era que, na comunidade, o amor tivesse sempre a primazia – “vede como se amam!” dizia-se dos primeiros cristãos – amor sobre cujas bases as religiosas pudessem edificar sua vida pessoal de intimidade com Deus, que vem a nós na pessoa do próximo.
É importante registrar essa percepção de Teresa, como que antecipando nossos tempos, em que a necessidade de centrar o Evangelho no amor do próximo é posta em evidência pelo papa Francisco, que vê, no segundo mandamento, o caminho que nos leva ao primeiro de acordo o Evangelho, que o qualifica de “semelhante ao primeiro”(cf. Mt 22,39).
Além de favorecer a perfeição da santidade, um convento assim constituído seria como que um reduto da fidelidade a Jesus, capaz de sustentar espiritualmente a Igreja no combate que travava contra o assédio dos reformadores. Cumprir-se-ia assim a missão de intercessão, que já os monges antigos se atribuíam, de sustentáculo do mundo -
No sonho de Teresa, despontavam a segurança teológica, carisma da futura Doutora da Igreja, a lucidez e a coragem, a habilidade e a perseverança da fundadora. O novo mosteiro nasceu na própria Ávila, São José, como primeiro de um rosário de 17 fundações até a de Alba de Torres, pouco antes de sua morte, em 1582.
Para realizar seu projeto, Teresa adota a “regra primitiva”, que justifica a volta ao monaquismo das origens carmelitas. Interpreta-a, porém a seu modo, pondo em prática seu gênio de priora e formadora, contando, principalmente, com sua própria experiência, mais do que com qualquer teoria ou ideal preconcebido.
Nada mais simples: visa diretamente às jovens monjas de São José, que convencem Teresa a colocar por escrito seus ensinamentos e conselhos sobre a oração, dando origem à sua primeira obra espiritual destinada a ser divulgada. Sanciona, de próprio punho, o título sob o qual passa a ser conhecida: O caminho de perfeição (1566/7).

A caminho da perfeição.
O caminho de perfeição, nas suas duas redações e em seus primeiros apógrafos, foi acompanhado de perto pela autora, como nenhum outro escrito teresiano, reconhecem-no os especialistas (cf. Tomás Álvarez, p. 165).
Ela mesma segue os ensinamentos que transmite no desempenho de suas funções de superiora e priora, conferindo-lhes uma autoridade única, como norma a ser observada nos carmelos reformados, primeiro femininos e depois, também masculinos. Daí se poder considerar o Caminho, como expressão fidedigna do ensinamento espiritual de Teresa. Nele nos baseamos.
Comecemos pelo título. Aparece pela primeira vez no autógrafo original, conhecido como Manuscrito de Valladolid, inserido no título que lhe havia dado Teresa, que o sancionou, porém, quando reviu a cópia manuscrita de Toledo, em 1579, nos últimos anos de sua vida (ib.). Temos o direito de nos perguntar que entendia Teresa por “caminho de perfeição”?
A ideia de caminho para designar o curso que segue nossa vida pessoal e da comunidade cristã é genuinamente bíblica. Prende-se, talvez à condição nômade do povo hebreu: Abrão se pôs a caminho a chamado de Deus (Gn 12,1-5). A metáfora ganhou toda sua importância com a narrativa fundadora do Êxodo e da marcha através do deserto até a terra prometida.
 Mais tarde, os salmos e toda a literatura sapiencial, falam do caminho a ser trilhado por todo verdadeiro israelita: o Ensinamento (Torá) de Deus, lembrando que qualquer outro caminho conduz à ruína e ao fracasso.
No Novo Testamento, no entanto, o Caminho é Jesus como o reconhece o quarto evangelista (cf. Jo 14,6). Teríamos o direito de nos perguntar até que ponto Teresa se refere a Jesus, quando escreve o caminho? Somos pela resposta afrmativa, pelo menos indiretamente, pois é Jesus que lhe inspira o caminho, na sua estrutura e até nas particularidades de suas observações sobre as exigências da perfeição, assim como a fidelidade a Jesus, no seio do judaísmo, levou as primeiras comunidades cristãs a se designarem simplesmente como o caminho (cf. At 9,2; 18,25; 24,22), velando de certo modo o mistério da Igreja, ainda no seio do judaísmo.
Para exprimir a novidade de seu projeto, sem romper com a tradição carmelita vigente no seu Mosteiro da Encarnação, Teresa adotou a designação de caminho para caracterizar seu escrito, velando o alcance fundador de seus ensinamentos.
São José de Ávila e todas as fundações que se seguiram, são comprovações práticas de  O Caminho: mosteiros organizados em vista da perfeita união com o Esposo. Concebiam-se como um caminho de perfeição, a ser livre e generosamente abraçado por todos os que se sentissem chamados a seguir Jesus até o fim, até o Horto e a Cruz, colocando a oração no centro de sua vida, em outros termos, a viver toda a vida centrada na intimidade com Deus,  buscando  verdadeiramente a Deus – si revera Deum quaerit – na expressão da Regra Monástica (Regra de são Bento, c. 58).
Mas o que entende Teresa por perfeição? Ela certamente se deixou impressionar pelo ensinamento de Jesus no sermão da montanha: “Sede perfeitos como vosso Pai celeste é perfeito” (Mt 5,48), que ocupa no Novo Testamento lugar equivalente ao “Sereis santos porque Eu sou santo” (Lv 11,45; 19,2) da Torá.
Teresa conhece a interpretação generalizada na tradição teológica, que vê a santidade a que somos chamados como participação na vida de Deus. Mas vai além. Não se detém na esfera do ser, ocupa-se da perfeição do agir. Mudança de perspectiva nem sempre levada em conta pelos intérpretes, que comanda, por outro lado, grande parte da renovação do pensamento teológico, bem assim como filosófico: não basta explicar o ser, é preciso descrever o agir, comoo procura fazer a fenomenologia.
Teresa segue Jesus não apenas no seu ser, na Encarnação, no natal, mas sobretudo no seu agir, na sua Paixão, na páscoa, que antecipa a ressurreição e manifesta de maneira espetacular, é seu lado barroco, a exigência de total e exclusiva fidelidade de cada um de nós à vontade divina. A perfeição, que coroa o agirm, é fruto de nosso livre e efetivo acolhimento à divina vontade do Pai.
É o que explica longamente no seu comentário ao “venha o teu Reino e faça-se a tua vontade” da petição do Pai nosso. Não basta pedir.
Fazendo o Pai aquilo que Lhe pedis, nos dá a possibilidade de cumprir aquilo que nos ensina a pedir, pois feita a terra céu, será possível fazer-se em nós a sua vontade. Sem esta transformação da terra em céu, não é possível compreender como se faria na minha, a tua vontade (cf. Caminho, 32,2)
O dom do Reino, a graça, comunicação da santidade divina, torna possível agir divinamente na terra, cumprir livremente a vontade divina e alcançar assim, psicológica e moralmente, a perfeição, nossa libertação.
Teresa passa então a descrever o que é a vontade de Deus:
Quero agora avisá-las  e recordar  em que consiste a vontade de Deus [...] Para ver como o Pai procede com os que Lhe pedem  que se cumpra a sua vontade, perguntem-no a seu glorioso Filho. Na oração do Horto, vendo a determinação do Filho, o Pai cumpriu sua vontade nEle: deu Lhe trabalhos, dores, injúrias e perseguições, até que se Lhe acabou a vida, com a morte da cruz (cf. Caminho, 32,6).
Não basta pedir que se cumpra a vontade do Pai, é preciso agir segundo a vontade do Pai, acolher com amor todos os trabalhos que nos oferece, a exemplo de Jesus que, no horto, acolheu a paixão e a morte na cruz.
Todos os avisos que lhes tenho dado neste livro, O Caminho, vão dirigidos a nos darmos de todo ao Criador, e pôr a nossa vontade na Sua; desapegarmo-nos das criaturas [...] a fim de nos dispormos para percorrer rápidos o caminho e beber da água viva. Sem nos darmos totalmente à sua vontade, jamais nos dará a beber dessa água, que  é a contemplação, sobre a qual vocês me pediram lhes escrevesse (ib. 32,9).
Observe-se aqui a nota de totalidade, e o sentido do termo contemplação que significa oração, o “trato de amizade com Deus”, a que está ordenada toda a vida conventual, que favorece o acolhimento do dom de colocar toda vontade própria na vontade do Senhor.
Ó irmãs minhas, que força tem este dom! Quando se vai com a determinação com que se deve ir, não pode menos do que trazer o Todo-Poderoso a ser um com a nossa baixeza e transformar-nos em Si, faz a união do Criador com a criatura (cf. Caminho, 32,11).
Dou-lhes, porém, este aviso: não pensem chegar aqui por sua força e diligência. É inútil. Mesmo que antes sentissem devoção, ficariam frias. É indispensável, para tudo vencer, dizer, com simplicidade e humildade: fiat voluntas tua! (ib. 32,14).
O caminho de Teresa são, pois, as experiências subjetivas pelas quais interiormente aceitamos de ser preparados por Deus para viver desde agora, nessa vida mortal, na intimidade, habitando na morada mais secreta de nossa alma, onde está a Trindade, como vai expor nas Moradas, seu segundo grande manual de espiritualidade.

A intercessão
Antes de analisarmos o caminho de Teresa em si mesmo, voltado para a contemplação, a intimidade com Deus, convém registrar o perfil de austeridade de que historicamente se revestiu a tradição carmelita, no seio da tradição monástica.
A austeridade carmelita, para Teresa, não é fruto de sua visão essencial da vida espiritual, culminando na perfeita intimidade com Deus, mas uma forma de se associar à vida da Igreja, que combatia em duas frentes, a externa, em face dos desafios das descobertas do novo mundo, e a interna, contra as pretensões dos reformadores.
Já mencionamos as raízes monásticas da ideia reformadora de Teresa: ela quer um mosteiro de verdade, que volte às origens da Ordem. Procuraremos mostrar em seguida o alcance desse princípio. Mencionamos também o reconhecimento, pelo monaquismo, de seu papel intercessor. Mas nos parece necessário sublinhar desde já a fisionomia própria que esse papel adquire no projeto teresiano.
Basta ler, na verdade, o primeiro capítulo do Caminho:
No princípio da fundação deste mosteiro (pelos motivos referidos no livro que escrevi e onde referi algumas grandezas do Senhor, em que Ele deu a entender o muito que seria servido nesta casa), não era minha intenção que houvesse tanto rigor no exterior, nem que fosse sem renda; antes quisera que houvesse possibilidades para que nada nos faltasse (Caminho, 1,1).
Teresa, embora reconheça que não procurava sua própria comodidade fundando seu mosteiro, também não pensava, ao que deixa transparecer, em dar maior ênfase ao aspecto de austeridade, que acabou se destacando:
Agia como fraca e ruim, embora animada por bons intentos e não visasse tanto à minha satisfação (ib.)
Mas as condições históricas da Igreja reclamavam, aos olhos de Teresa, um empenho maior:
Neste tempo, chegaram-me notícias dos danos e prejuízos causados em França por estes luteranos e quanto crescia esta desventurada seita. Deu-me grande pesar e, como se eu pudesse ou fosse alguma coisa, chorava com o Senhor e suplicava-Lhe pusesse remédio a tanto mal.
Parecia-me que mil vidas daria para remédio de uma alma, das muitas que ali se perdiam. E, como me vi mulher, ruim e impossibilitada de trabalhar como eu quisera, no serviço do Senhor, toda a minha ânsia era, e ainda é, pois Ele tem tantos inimigos e tão poucos amigos, que estes fossem bons. Determinei-me, pois, fazer o pouco que está em minha mão: seguir os conselhos evangélicos com toda a perfeição que eu pudesse e procurar que estas poucas irmãs que aqui estão fizessem o mesmo (Caminho, 1,2).
Na sua relação pessoal com Deus, de uma forma bem feminina, ela pensa agradar ao seu esposo, que tantas agressões recebe dos hereges e que tanto sofre por causa das almas que se perdem, ao se determinar a deixar tudo, seguindo, de maneira radical, os conselhos evangélicos de pobreza, virgindade e obediência.
No convento, ainda que poucas, todas as irmãs,
 ocupadas em oração pelos defensores da Igreja e pregadores e letrados, ajudam como podem ao Senhor que faz tanto bem e é atribulado por estes traidores que parecem querer de novo pregá-lo na cruz (ib.)
Ó Redentor meu! Meu coração não pode vê-lo sem muito se afligir! Que é isto  agora cristãos? Hão de ser sempre os que mais Vos devem os que Vos aflijam? Aqueles a quem melhores obras fazeis, aos que escolheis para Vossos amigos, entre quem andais e Vos comunicais pelos Sacramentos? Não estão ainda fartos dos tormentos que por eles passastes? (Caminho, 1,3)
Convencida de que a determinação de viver totalmente para Deus faz-nos participar do ato de amor total do Filho Jesus, entregando-se ao Pai “por nós homens e por nossa salvação” (cf. Credo) que nos salvou, tornando-nos a todos agradáveis a Deus, Teresa completa o perfil de sua intercessão, vivendo a mesma totalidade do amor na prática radical dos conselhos evangélicos:
Ó irmãs minhas em Cristo! Ajudem-me a suplicar isto ao Senhor, que para isto as juntou Ele aqui. Esta é a sua vocação; estes hão de ser os seus negócios; estes hão de ser os seus desejos; aqui as suas lágrimas; estas as suas petições [...] O mundo está ardendo, querem tornar a condenar Cristo, como dizem, pois Lhe levantam mil falsos testemunhos; querem deitar por terra a sua Igreja, e havemos de gastar tempo em coisas do mundo? Não, minhas irmãs, não é tempo de tratar com Deus negócios de pouca importância (Caminho, 1,5).

Concluindo
A distinção operada por Teresa no início do Caminho, entre o rigor no exterior (sem renda e clausura), desde que a forma adotada permitisse que nada lhes faltasse (Caminho, 1,1) e sua decisão final, dada a situação histórica em que se encontrava a Igreja, exprime, em germe, uma preocupação que vai atravessar a vida da Igreja na modernidade e que se tornou explícita no Vaticano II: pensar a vida consagrada, inclusive contemplativa, levando em conta as exigências da época em que vivemos.
Essa preocupação se prende à nossa condição histórica, como veio a ser colocada: é o cerne da questão da relação da Igreja com o mundo. Não se pode hoje falar em renovação da Igreja nem de vida consagrada ou de espiritualidade cristã, sem ter em vista as condições da humanidade no tempo em que vivemos.

Essa visão realista das condições históricas da humanidade é talvez o traço mais profundo da vinculação de Teresa à tradição monástica, mas das menos visíveis na leitura de sua obra, sobretudo pelos autores que buscam explicações de ordem puramente culturais, históricas, culturais, psicológicas ou mesmo psiquiátricas de suas experiências espirituais. O tema pode até parecer polêmico, mas não podemos deixar de abordá-lo, quando nos propomos fazer uma análise teológica de sua pedagogia espiritual. Dedicamos-lhe, em seguida, breve reflexão.