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A Palavra do Frei Petrônio

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quinta-feira, 24 de dezembro de 2015

NATAL DO SENHOR: Homilia do Frei Petrônio.

Edith Stein e o segredo do Natal: Uma reflexão natalina da filósofa judia que se converteu ao cristianismo e morreu mártir

No recolhimento da abadia beneditina de Beuron, em 1932, três anos antes de entrar no carmelo, Edith Stein escreveu uma riquíssima meditação teológica sobre o Natal. O texto, pronunciado numa conferência da Associação de Acadêmicos Católicos de Ludwigshafen, na Renânia-Palatinado, Alemanha, foi publicado pela primeira vez em 1950, em Colônia.
Filósofa, judia, ateia, convertida, religiosa e mártir, essa mulher especial começa a meditação não com uma citação erudita, como quem se esforçasse por captar as atenções, e sim com uma reflexão que surpreende pela simplicidade; pela simplicidade de quem tem o olhar inclusivo da fenomenologia. Edith Stein destaca que o fascínio do Natal atinge a todos, mesmo os que pertencem a outras religiões e os não crentes, para quem a antiga história do Menino de Belém não diz nada.
Nas semanas anteriores ao dia de Natal, "uma cálida corrente de amor inunda toda a terra", porque "todos preparam a festa e tentam irradiar um raio de alegria". É sempre apreciável o gesto de procurar e dar alegria, de preparar e de preparar-se para uma festa: são gestos estruturalmente humanos. Para o cristão, porém, especialmente para os cristãos católicos, a estrela que leva até a manjedoura é diferente. O coração de quem vive com a Igreja, desde o repicar do Rorate Coeli até os cantos do Advento, começa a bater em uníssono com a sagrada liturgia que emoldura um momento único: o tempo de uma espera que é também ardente nostalgia. Uma espera-nostalgia que cresce durante o Advento e encontra satisfação somente quando os sinos da Missa do Galo anunciam que "o Verbo se fez carne". Com este anúncio, vemo-nos sempre diante do fascínio do Menino na manjedoura, que estende as mãos e parece já dizer, sorrindo, o que mais tarde os seus lábios de Mestre repetirão até o último suspiro na cruz: "Segue-me".
Atenção: a Luz da estrela e o encanto do Menino na manjedoura duram um piscar de olhos. "À luz descida do céu, opõe-se, ainda mais escura, a noite do pecado". Diante do Menino, ao mesmo tempo, os espíritos se dividem em "contra" e "a favor". Diante do "segue-me", quem não é por Ele é contra Ele. Não por acaso, no dia depois do Natal, enquanto ainda ecoam os sons festivos dos sinos da noite e das festivas liturgias natalinas, a Igreja se desveste do branco de festa e se reveste do vermelho do sangue, e, no quarto dia, já usa o roxo do luto para recordar o primeiro mártir, Estêvão, e as crianças inocentes que foram mortas por Herodes. O que isto significa? Onde foi parar o encanto do Menino na manjedoura? Onde está o bem-aventurado silêncio da noite santa?
O mistério da noite de Natal, escreve Edith Stein, carrega uma verdade grave e séria que o encanto da manjedoura não deve encobrir aos nossos olhos: "O mistério da encarnação e o mistério do mal estão intimamente unidos". A alegria do Menino e das figuras luminosas que se ajoelham em torno da manjedoura, das crianças inocentes, dos pastores esperançosos, dos reis humildes, dos mártires, dos discípulos, dos homens de boa vontade que seguem o chamado do Senhor, essa alegria, enfim, caminha de mãos dadas com a constatação de que nem todos os homens são de boa vontade; de que a paz não alcança "os filhos das trevas"; de que, para esses, o Príncipe da Paz "traz a espada"; de que, para esses, Ele é a "pedra de tropeço" que os derruba. Aquele Menino divide e separa, porque, enquanto o contemplamos, Ele nos impõe uma escolha: "Segue- me". Ele a impõe a nós também, hoje, e nos coloca diante da decisão entre a luz e a escuridão. As mãos do Menino "dão e exigem ao mesmo tempo".
Se colocarmos as nossas mãos nas do Menino Deus e respondermos "sim" ao seu "Segue-me", o que recebemos?
"Oh, maravilhoso intercâmbio! O Criador da humanidade nos dá, assumindo um corpo, a sua divindade!". Aqui reside a grandeza do mistério da Encarnação: quem escolhe a luz, quem fica do lado do Menino, "abre caminho para que a sua vida divina se derrame sobre nós" e traz "de forma invisível o Reino de Deus dentro de si". O Natal é o começo da aventura de deixar a graça "permear de vida divina toda a vida humana". Por que Deus se fez homem? Deus se tornou um filho do homem para que os homens se tornem filhos de Deus. Escreve Edith Stein: "Um de nós tinha rasgado o vínculo da filiação divina; um de nós tinha que reatá-lo e pagar pelo pecado. Mas nenhum descendente da antiga progênie, doente e bastarda, tinha condições de fazê-lo. Era preciso enxertar-lhe um ramo novo, saudável e nobre". Estas palavras de Edith Stein evocam, por analogia óbvia, uma passagem do "Cur Deus Homo", de Santo Anselmo, que contém a mesma lógica da redenção: "a restauração da natureza humana não teria acontecido se o homem não tivesse pagado a Deus o que lhe devia pelo pecado. Mas a dívida era tão grande que a satisfação, de obrigação apenas do homem, mas possível somente a Deus, precisava ser dada por um homem-Deus" (CDH 2,6).

Edith Stein tinha aprendido, na escola dos professores do Carmelo, Teresa de Ávila e João da Cruz em particular, que a graça se desenvolve em nós como uma semente que nos transforma, deixando-nos participar da própria vida de Deus. Por esta razão, a meditação seguinte insiste nos sinais fundamentais de uma vida humana unida a Deus.
Fonte: Por Claudia Mancini, em Libertà e Persona

VÍDEO SELF-25: Evangelho do Dia. (24 de dezembro-2015).

A PALAVRA DO FREI PETRÔNIO. Nº 1067. Seu Tião e o Menino Deus.

Eu não acredito no Natal



Eu não acredito no Natal midiático e consumista.
Enquanto os pobres não podem falar na imprensa.
Eu não acredito no Natal dos templos televisivos.
Enquanto o Menino Deus é valorizado pelo ibope.
Eu não acredito no Natal doutrinal e conservador.
Enquanto os filhos de homossexuais são discriminados.
Eu não acredito no Natal da Disneylândia e de Hollywood.
Enquanto os pobres são vistos pelos parabrisas fechados.

Acredito, sim.
No Natal do Deus Pai e Mãe
No Natal da imprensa livre e comunitária
No Natal que ultrapassa templos e credos
No Natal silencioso das cracolândias e prisões
No Natal contemplativo dos anciãos
No Natal das comunidades indígenas e quilambolas
No Natal dos morros e das favelas.

Eu não acredito no Natal do Marketing
Onde as palavras são comidas e repartidas.
Enquanto a presença na família não acontece.
Enquanto os irmãos se odeiam.
Enquanto o divórcio divide.
Enquanto o ódio cresce nos corações.
Enquanto o amor não é amado.
Enquanto o Menino Deus é abandonado.

Eu acredito, sim.
No Natal da solidariedade e do compromisso.
No Natal do perdão e do companheirismo.
No Natal do abraço sincero e amigo.
No Natal do sorriso e da alegria.
No Natal da simplicidade e da cumplicidade.
No Natal do diálogo e das verdades.
No Natal do olhar e do caminhar.

Eu não acredito no Natal dos pisca-piscas.
Enquanto os mendigos continuam na escuridão dos viadutos.
Enquanto os jovens vivem a noite escura das drogas.
Enquanto as crianças não têm o pão na mesa.
Enquanto trabalhadores rurais estão à procura da terra prometida.
Enquanto a natureza é destruída, vendida e exportada.
Enquanto as águas dos nossos rios são poluídas.
Enquanto vidas são podadas e massacradas.

Eu acredito, sim.
No Natal que nos faz renascer e crescer.
No Natal que destrói o ódio e a violência.
No Natal que nos valoriza e nos faz crescer.
No Natal que destrói a inveja e a falsidade.
No Natal da democracia e da ética.
No Natal que liberta e nos ajuda a lutar.
No Natal sem meias verdades e sincero.

Eu não acredito no Natal da mesa farta.
Enquanto acumulamos bens e somos corruptos.
Enquanto maltratamos o nosso próximo com palavras.
Enquanto fechamos os olhos para a destruição da natureza.
Enquanto apoiamos políticos e projetos faraônicos.
Enquanto fechamos criticamos os refugiados.
Enquanto insistimos em votar e defender corruptos.
Enquanto temos medo de olhar para os crucificados.
    
Eu acredito, sim.
No Natal ecumênico sem fronteiras.
No Natal sem preconceito e sem cor.
No Natal sem raça e sem brilho.
No Natal sem neve e sem trenó.
No Natal que nos renova e nos faz renascer.
No Natal que reúne a família e nos faz irmãos.
No Natal sem embrulhos e sem disfarces.


Eu não acredito no Natal do Panetone e do WhatsApp
Acredito sim, no Natal da partilha e da compaixão.
Eu não acredito no Natal do peru e das bebidas.
Acredito sim, no Natal da solidariedade e dos pobres.
Eu não acredito no Natal da neve ou da roupa fina.
Acredito sim, no Natal dos Pastores e da manjedoura.
Eu não acredito no Natal do Papai Noel.
Acredito sim, no Natal de Maria e de José.
Que este seja de fato e de direito o nosso Natal!


* Frei Petrônio de Miranda, Padre Carmelita da Ordem do Carmo e Jornalista. Convento do Carmo da Lapa, Rio de Janeiro. 24 de dezembro-2015.

domingo, 20 de dezembro de 2015

VÍDEO SELF-21: Evangelho do Dia. (20 de dezembro-2015).

HOMILIAS DO FREI PETRÔNIO: 4º Domingo do Advento.

4º DOMINGO DO ADVENTO: A Festa das Grávidas.

O Papa Francisco reconcilia o Padre Cícero com a Igreja católica

Durante o último fim de semana aconteceram mundo afora as celebrações de abertura da Porta Santa nas diferentes dioceses e prelazias católicas, nas quais se poderão ganhar as indulgências do Ano Jubilar da Misericórdia. Momentos de emoção se repetiram em diferentes lugares, mas poucos devem ter sido iguais aos da catedral de Nossa Senhora da Penha de Crato, onde, coincidindo com esta celebração, o bispo diocesano, dom Fernando Panico, anunciou que o Papa Francisco reconciliou com a Igreja católica o Padre Cícero Romão Batista, falecido em 1934 estando suspenso das ordens. A reportagem é de Luis Miguel Mondino e publicada por Religión Digital, 14-12-2015. A tradução é de André Langer.
O anúncio do bispo se deu após a entrada no templo da catedral da imagem do Padre Cícero, o que provocou o alvoroço de todos os presentes, reação que se viu repetida posteriormente, como mostram numerosas notícias em diferentes meios de comunicação e nas redes sociais.
Em uma mensagem assinada pelo cardeal Parolin, secretário de Estado do Vaticano, e que recolhe o expresso desejo do Papa Francisco, enviada a dom Panico, reconhece-se que “a memória do Padre Cícero Romão Batista mantém, no conjunto de boa parte do catolicismo deste país, e, dessa forma, valoriza-a desde um ponto de vista eminentemente pastoral e religioso, como um possível instrumento de evangelização popular”.
Após tantos anos de distanciamento entre a Igreja católica e o santo do povo nordestino, o texto mostra que “sempre é possível, com a distância do tempo e a evolução das diferentes circunstâncias, reavaliar e apreciar as várias dimensões que marcaram a ação do Padre Cícero como padre, e, deixando de lado os pontos mais controversos, evidenciar aspectos positivos de sua vida e figura, tal como é percebida atualmente pelos fiéis”.
A carta assinala que “é inegável que o Padre Cícero Romão Batista, ao longo de sua existência, viveu uma fé simples, em sintonia com o seu povo e, por isso mesmo, desde o início, foi compreendido e amado por este mesmo povo”, chegando a afirmar que “é necessário, neste contexto, dirigir a nossa atenção ao Senhor e agradecer-lhe por todo o bem que Ele suscitou por meio do Padre Cícero”.
O Papa Francisco, como reconhece o bispo de Crato, apresenta o Padre Cícero como “exemplo de padre em uma Igreja em saída”. Para os tempos atuais e a nova Evangelização a data de 13 de dezembro ficará marcada na história de Juazeiro do Norte, a cidade que cresceu sob o influxo do Padre Cícero e que agora, como assinalava o vigário de pastoral da Diocese de Crato, Pe. Vileci Vidal, “é terra de romaria reconhecida pelo Papa Francisco”.
O que aconteceu com o Padre Cícero coloca de manifesto a importância da Igreja Povo, de tantos devotos que continuamente pediam em suas orações a reconciliação do Padre Cícero por parte da Igreja. Foi mais de um século de confrontos entre os defensores e os acusadores do padre mais famoso do Nordeste brasileiro. Este momento constitui um novo passo em um caminho que muitos em Juazeiro do Norte esperam que desemboque na canonização doPadre Cícero, que a Igreja católica reconheça oficialmente o que para muitos nordestinos é um fato, a santidade do Padim Ciço.
Vale como exemplo o que me dizia a mulher que me acolheu em sua casa em Juazeiro do Norte no últimoIntereclesial das Comunidades Eclesiais de Base, realizado no ano passado: “sonho em ver um dia a Igreja doPadre Cícero construída”. Hoje, dona Vanda, assim como muitos brasileiros nordestinos, deve estar feliz, pois vê que seu sonho está um pouco mais próximo. Fonte: http://www.ihu.unisinos.br

sábado, 19 de dezembro de 2015

4º DOMINGO DO ADVENTO: Luzia, Maria e Isabel.

“Nunca fui condenado pela Congregação para a Doutrina da Fé”. Entrevista com Gustavo Gutiérrez

Muitas coisas foram escritas sobre Gustavo Gutiérrez, nem sempre verdadeiras, como ele mesmo constata nesta entrevista, fruto de uma conversa em que ele mostra o significado da Teologia da Libertação, da qual sempre foi considerado o fundador, em sua vida.
Ele não pretende cair no absolutismo e reconhece como esta teologia foi se refazendo, abrindo-se a novas temáticas e realidades e como deve enfrentar desafios. Em suas palavras deixa entrever sua liberdade de pensamento, fruto de seu profundo conhecimento e trabalho teológico, estando consciente de que nem todo mundo vai estar de acordo com sua proposta, o que, por outro lado, não representa para ele nenhuma dor de cabeça. A entrevista é de Luis Miguel Modino e publicada por Religión Digital, 14-12-2015. A tradução é de André Langer.

Eis a entrevista.

Como a Teologia da Libertação marcou a sua vida?
Ela nasceu da minha vida, naturalmente, e eu mesmo quis ser fiel e também crítico, pois a teologia sempre precisa ser refeita e não se trata de aplicá-la como Palavra de Deus. Creio que me proporcionou argumentos, pistas, me deu horizontes, mas nunca a considerei como a última palavra, e me deu também contato com pessoas de uma base enriquecedora.

Você pensa que os pobres continuam a ser uma categoria teológica na reflexão atual?
Não os pobres, e sim a situação de marginalização que vivem, que é contrária à vontade de Deus, e isso o faz teológico. Alguns se empenham em dizer que a Teologia da Libertação é coisa do passado. Sabe, a primeira vez que disseram isso foi um mês após a publicação do livro. E no ano seguinte diziam, já morreu. Ou seja, isso não me atinge.

No recente Congresso Continental de Teologia realizado em Belo Horizonte, o contato e o interesse dos jovens para conversar com Gustavo Gutiérrez foi uma coisa muito comentada entre os presentes. É esse um sinal de esperança em relação a essa vigência da Teologia da Libertação?
Claro. No entanto, eu penso que as teologias não nasceram para serem eternas. Se é isso o que querem dizer, eu concordo, mas morrer quer dizer que já contribuiu e que a religião mudou e que veremos outras coisas. Eu, até os 40 anos, não falei de Teologia da Libertação, mas isso não quer dizer que não fosse um cristão que buscava ser cristão e um padre que buscava ser padre. Pude ser cristão antes da Teologia da Libertação e posso sê-lo depois dela, minha vida não está aí.
A Teologia da Libertação me fez mudar, me diz muito. Eu penso que se mantém por tudo o que disse antes, e não apenas isso, mas que avança, não é mais a mesma, pois vai entrando em outros temas, já que nem todos os temas que atualmente são trabalhados na Teologia da Libertação estiveram presentes no começo. É um processo, pois a teologia sempre deve ser tomada com muita flexibilidade. São coisas importantes, mas a teologia não é sinônimo de doutrina cristã, simplesmente é uma maneira de tratar sobre ela.


Nessa Teologia da Libertação, qual é a autoridade teológica dos pobres?
Digamos que é um desafio. Eu não falaria de autoridade, pois é uma palavra estranha, como se alguém manda algo. O importante é descobrir a importância de que estejam presentes, que nos fazem ver que não podemos nos contentar com o que existe e que temos que sentir que continuamos sendo desafiados, e digo isso como pessoa de Igreja, não como algo relativo à minha individualidade.

Por onde deve caminhar e quais são os desafios que a Teologia da Libertação precisa enfrentar hoje?
Esta é uma questão mais ampla e em que neste momento estou trabalhando. Tudo o que faz referência ao mundo da modernidade e da pós-modernidade, embora não leve tão a sério a pós-modernidade, continua mantendo um desafio, o da ciência, o da liberdade... como coisas que estão aí.
Um segundo desafio é o da própria pobreza, pois a forma como vemos a pobreza hoje em dia, inclusive na Teologia da Libertação, não é exatamente a mesma que há 40 anos. As ciências sociais e outras ciências foram esclarecendo coisas e fazendo ver outras, que mostram que o processo continua.
Outro desafio é o da teologia da religião, que também é chamado de diálogo inter-religioso. Mas o diálogo é fácil, basta ser educado. O problema teológico é a teologia, o que significa esta pluralidade de religiões que existe há muito tempo, mas que é um tema, teologicamente, novo.

Até que ponto se pode dizer que o Papa Francisco simpatiza com a Teologia da Libertação?
Sou incapaz de colocar o Papa, um pastor como ele, entre as grades de uma teologia. O que digo quando me fazem essa pergunta é que ele é o frescor do Evangelho. Se ele gosta de uma teologia ou de outra, não tenho problema com isso.

Você teve problemas com a Congregação para a Doutrina da Fé e agora o prefeito dessa Congregação é alguém que se diz seu amigo, o cardeal Müller.
Vou esclarecer isto. Tive problemas, mas eram problemas que vinham do Peru, e que quando a coisa chegou lá não encontraram matéria. A prova é que não tive processo, o que tive foi um diálogo. A diferença, que eu não conhecia, mas que então aprendi, está em que o processo se dá quando há suspeitas de que há coisa que vão contra a ortodoxia, e o diálogo, que foi o que eu tive, que há afirmações que não se compreendem bem, o que é muito subjetivo, pois sempre haverá alguém que não entende bem alguma afirmação.
Quando me dizem que fui condenado, rio um pouco, pois nunca fui condenado pela Congregação para a Doutrina da Fé. Todos os livros que escrevi seguem sendo publicados. Foi apenas um diálogo no qual não encontraram nada. Há uma carta da Congregação para a Doutrina da Fé na qual se diz que o diálogo com o Pe. Gustavo Gutiérrez terminou de maneira satisfatória.

E com o cardeal Müller?
Geraldo Müller é um amigo, muito bom amigo. Esteve no Peru e, junto com outros professores alemães, trabalhamos sobre a Teologia da Libertação. Depois ele decidiu fazer algo prático de ajuda aos pobres no Peru e foi ensinar teologia no seminário de Cuzco, onde a população é indígena. Foi durante 15 anos seguidos e conhece muito bem aTeologia da Libertação, como provam os dois livros que escrevemos juntos, o segundo com o prólogo do Papa Francisco. Repito que é muito bom amigo e bom conhecedor da Teologia da Libertação, com a qual simpatizou quando era muito discutida entre os setores da mídia, pois na Congregação a Doutrina da Fé nunca houve problemas.
Certa vez, fez uma conferência na Universidade Católica de Lima, muito aplaudida e cujo texto está publicado, na qual explicava como ele mudou com relação à Teologia da Libertação. Além de amigo, foi defensor, sobretudo quando havia reticências que não tinham nenhuma consistência, mas quando se fala mal, todos repetem. Na mídia, nem todos, complicam muito, porque falam de condenação constantemente, e ela nunca existiu.
Se tivesse sido condenado, me teriam proibido de continuar escrevendo e nunca houve um livro, de todos os livros que escrevi, de que se tenha dito que não pode ser vendido, que não está autorizado. Não estar de acordo não é uma condenação, e se alguém não está de acordo, bom, o que vamos fazer! Sempre houve isso dentro da mensagem cristã. Eu também não concordo com muitas teologias muito boas, das quais não gosto, e mesmo que eu não seja ninguém, isso acontece com qualquer um.

terça-feira, 15 de dezembro de 2015

Irmão, quem és tu? Novo documento vaticano ilumina a vida dos irmãos religiosos

No final da década de 1980, eu brevemente flertei com a ideia de uma vocação religiosa. Em certa etapa de minha vida, pensei que poderia querer me tornar um irmão religioso, em grande parte porque eu não tinha certeza quanto ao sacerdócio.
Conforme qualquer diretor de formação que se preza diria a você, essa foi uma maneira terrivelmente imatura de pensar uma vocação. Não se deve comprometer-se com uma forma de vida simplesmente por causa daquilo que ela não é; é preciso haver algum atrativo positivo, pois, caso contrário, a vocação não irá se sustentar. A reportagem é de John L. Allen Jr., publicada por Crux, 14-12-2015 . A tradução é de Isaque Gomes Correa.
Conforme ficou constatado mais tarde, encontrar a minha esposa tirou de vez essa tal ideia de minha cabeça, de forma que jamais tive de ponderar qual poderia ser o elemento atrativo para uma vida de irmão religioso. Que pena, porque isso significa que eu nunca realmente ultrapassei o muro do silêncio que, geralmente, circunda aquela que é possivelmente a vocação menos conhecida, e menos apreciada, na Igreja Católica.
Tudo isso me ocorre agora porque, nesta segunda-feira (14 de dezembro), a Congregação para os Institutos de Vida Consagrada e Sociedades de Vida Apostólica – mais conhecida como “Congregação para os Religiosos” – apresentou um novo documento intitulado “Identidade e Missão do Irmão Religioso na Igreja”.
Como a maioria dos textos vaticanos, este documento vinha há anos sendo produzido e, honestamente, ele não trouxe grandes novidades em termos de notícia. É mais uma meditação espiritual, entre outras coisas refletindo sobre a comunhão da Trindade como o modelo e inspiração para a fraternidade vivida pelos irmãos uns com os outros e com o mundo.
Negligenciar o documento seria vergonhoso, no entanto, porque se há algum grupo dentro do catolicismo que merece o seu lugar ao sol, este com razão é o dos irmãos religiosos.
No mundo todo, existem cerca de 55 mil irmãos na Igreja Católica, um número muito menor do que o de padres (415 mil) e freiras (705 mil), ainda que seja um número comparável ao de diáconos permanentes (42 mil). Nos EUA, há cerca de 4.300 mil irmãos religiosos, bem abaixo dos mais de 12 mil em 1965 (2 mil dos atuais irmão já estão aposentados).
O Ir. Paul Bednarczyk, da Congregação de Santa Cruz, presidente da National Religious Vocation Conference, chama os irmãos de “um dos segredos mais bem guardados da Igreja”. O abade beneditino Jerome Kodell chamou os irmãos de “o grupo mais invisível na Igreja”, alertando que o modo de vida deles está em perigo de desaparecer da consciência pública”.
Em verdade, a maioria dos católicos comuns nos bancos das igrejas só tem um vago conhecimento de que os irmãos religiosos existem. Quando os católicos falam sobre vocações, eles em geral o fazem em termos de “padres e freiras”, deixando de fora os irmãos (e diáconos, a propósito) fora de cogitação.
O discurso oficial católico restringe, às vezes, aos irmãos as oportunidades abertas de liderança, com certeza contribuindo para um clima de negligência.
Por exemplo, em 2002, o Vaticano disse aos capuchinhos nos EUA que eles não poderiam eleger um irmão como o seu Superior Provincial; em 2009, Roma vetou um esforço da congregação Maryknoll em eleger um irmão como o seu Superior americano. Isso aconteceu porque, tecnicamente, os irmãos são leigos, muito embora a maioria dos católicos não os considere como tais, e as regras católicas impedem os leigos de serem superiores.
(O novo documento do Vaticano reconhece este problema, mas não o resolve. O arcebispo espanhol José Rodríguez Carballo, secretário da Congregação para os Religiosos, disse na segunda-feira em coletiva de imprensa que será pedido ao Papa Francisco que crie uma comissão ad hoc de estudos para ponderar a participação dos irmãos no comando local, regional e geral da Igreja.)
Mas, então, o que mesmo é um irmão?
Eis o que você irá mais ou menos encontrar caso procurar pelo termo “irmão” na enciclopédia católica: “Leigos que assumem votos de pobreza, castidade e obediência. Pertencem a comunidades formadas de irmãos apenas, ou de irmãos e padres. Os irmãos religiosos se dedicam ao carisma particular de sua comunidade, expressa em serviço e oração”.
Essa definição é válida, porém não chega até o cerne do tema. O novo documento emitido esta semana aborda-o extensivamente. Porém três breves aspectos apenas são válidos de nota aqui em termos dos motivos por que uma Igreja sem irmãos religiosos seria uma Igreja significativamente empobrecida.
Em primeiro lugar, conforme lhe dirão muitos dos sacerdotes que pertencem às ordens religiosas, o sacerdócio é um aspecto fundamentalmente importante mas, até certo ponto, secundário em suas vidas. Eles consideram como sendo a coisa mais básica o ser um irmão em suas comunidades, por exemplo, as comunidades beneditinas ou franciscanas. Eles dirão que o cerne da identidade deles se dá na qualidade de beneditinos ou franciscanos, e que o sacerdócio é a maneira específica pela qual manifestam tais identidades.
Seja um irmão, um diácono, ou um sacerdote, o que é fundamental para todos os religiosos é que eles vivam a sua vocação como parte de uma família dedicada aos votos que assumem e à missão específica de suas comunidades. Os irmãos fazem isso de uma maneira única, porque não existe sobreposição clerical alguma acima dos seus compromissos nucleares.
Em outras palavras, se os irmãos se forem, um elemento-chave do entendimento católico da vida religiosa se vai com eles.
Em segundo lugar, os irmãos são únicos entre os religiosos, posto que eles não fazem parte da hierarquia da Igreja. Pelo menos em teoria, isso lhes dá mais liberdade para falar e agir, especialmente no compromisso com os ministérios aos mais necessitados.
Ao longo dos séculos, os irmãos religiosos estiveram nas linhas de frente das formas de serviço mais exigentes da Igreja – alimentando os famintos, confortando os doentes, educando os jovens, cuidando dos pobres, e assim por diante. Ainda iremos encontrar irmãos fazendo estas coisas hoje, geralmente com um espírito de total compromisso que os sacerdotes, em parte por causa das outras exigências que possuem, não têm condições de fazer.
Relacionado com o que estamos falando, os irmãos muitas vezes são capazes de ministrar a pessoas de uma maneira diferente: como sendo uma delas, sem quaisquer desvios de autoridade ou poder. Muitos irmãos relatam que as pessoas com quem eles trabalham lhes dizem: “Eu nunca diria isso a um padre, mas me sinto à vontade em dizer para você...”.
(Carballo indiretamente se referiu a este tema ao apresentar o documento na segunda-feira, dizendo que os irmãos testemunham o caráter essencialmente leigo da vida religiosa na Igreja.)
Em terceiro lugar, os irmãos são uma prova do valor da comunidade numa era hiperindividualista. Sem a pompa do sacerdócio, eles dão mostras de que doar a própria vida a uma comunidade religiosa, por si só, é parte fundamental da espiritualidade católica autêntica.
O Rev. John Pavlik, padre capuchinho e diretor executivo da Conferência dos Superiores Maiores, diz que os irmãos são um lembrete de que os católicos não devem ser “operadores independentes”, mas que fazem parte de uma família.
Conforme disse nesta segunda-feira o Cardeal João Braz de Aviz, prefeito da Congregação para os Religiosos, em seu cerne a vocação de um irmão é simplesmente a vocação cristã.
Nos EUA, os irmãos católicos vêm se reunindo em um “think tank” (grupo de reflexão) há três anos para fomentar ideias destinadas ajudar em suas vocações. Até o momento eles tiveram oito sessões; com razão, estes religiosos desejam que a publicação do novo documento gere um novo impulso. Há planos para um simpósio nacional na Universidade de Notre Dame, onde irmãos seriam convidados a interagir com as lideranças da Igreja, clérigos e leigos, e a debater o documento.
O Irmão Robert Berger, professor de Estudos Religiosos da Manhattan College, diz que, certa vez, os irmãos foram vistos como homens extraordinários fazendo coisas ordinárias, comuns, posto que havia muitos irmãos por aí e os católicos normalmente colocavam as suas formas de viver sobre um pedestal.
Hoje, segundo ele, a situação está ao contrário; os irmãos são vistos como “homens comuns fazendo um ministério extraordinário”.
Esperamos que o documento desta segunda-feira ajude a garantir que estes “homens comuns” finalmente recebam o reconhecimento que merecem.

Padre Cícero: o santo dos nordestinos pobres. Entrevista especial com Antônio Mendes da Costa Braga

Antônio Braga é autor do livro Padre Cícero. Sociologia de um padre, antropologia de um santo (Bauru: Edusc, 2008). A obra é fruto da pesquisa que ele realizou para a elaboração de sua tese de doutorado em Antropologia Social, defendida em 2007 na Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS).
Na entrevista que segue, concedida por e-mail para a IHU On-Line, ele fala sobre o Padre Cícero que “descobriu” em seu trabalho. Para ele, “uma boa questão é procurarmos entender por que alguém como Padre Cícero foi capaz de atrair tantas pessoas pertencentes aos segmentos mais pobres e marginalizados da sociedade em torno de si, ou de que forma ele se converteu num santo para essas pessoas”.
Antônio Braga atribui parte da força de liderança de Padre Cícero à atuação de seus devotos, ou romeiros, como são chamados. E explica: “Eram os próprios romeiros que legitimavam a autoridade religiosa e moral do Padre Cícero. Eram eles os sustentáculos da autoridade política, social e econômica do sacerdote. Se estabeleceu entre Padre Cícero e seus romeiros um vínculo, uma relação de dom e contra-dom que nem a morte do Padrinho Cícero foi capaz de romper”.
Antônio Mendes da Costa Braga possui graduação em Ciências Sociais e mestrado em Sociologia, pela Universidade de São Paulo (USP), e doutorado em Antropologia Social, pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS).
Confira a entrevista.

IHU On-Line - Em sua tese de doutorado, que virou o livro Padre Cícero: sociologia de um Padre, antropologia de um santo, qual é o padre Cícero que você descreve?
Antônio Braga - Podemos considerar que o livro aborda o Padre Cícero Romão Batista sob duas perspectivas, relacionadas com o título que dei à obra. Na primeira, que corresponde ao primeiro momento do livro, eu procuro compreender quem foi o padre Cícero Romão Batista no contexto cultural, histórico, social e religioso em que se tornou um padre e, depois, uma grande liderança, principalmente religiosa. Procuro fazer ali o que pode ser denominado de análise de trajetória. Procurei demonstrar que Padre Cícero foi, em grande medida, um típico sacerdote formado no século XIX. Diria até que ele foi um caso bem-sucedido de sacerdócio no contexto eclesiástico católico daquele século, e mais ainda no Ceará da segunda metade do século XIX. Era um Ceará que vinha sofrendo uma profunda reforma eclesiástica, a chamada romanização do catolicismo brasileiro. E Padre Cícero foi, no meu entender, e em certa medida, um sacerdote romanizado, um padre que tinha muitas das qualidades que os lÍderes do processo de romanização – membros do episcopado – esperavam de um sacerdote que estava posicionado nas linhas de frente desse empreendimento eclesiástico.

Um sacerdote romanizado em litígio com o poder eclesiástico
É paradoxal que esse Padre Cícero, que aponto como um caso bem-sucedido de sacerdote romanizado, tenha morrido com suas ordens sacerdotais suspensas e em litígio com o poder eclesiástico local. De sacerdote virtuoso ele passou a ser um problema para esse poder, especificamente no Nordeste brasileiro. Então fica a pergunta: como isso é possível?
Defendo, como Ralph Della Cava e alguns outros autores, que a vida de Padre Cícero mudou a partir de um milagre ocorrido em Juazeiro do Norte, no Ceará, em 1889. Foi o chamado Milagre da Hóstia, protagonizado por uma jovem beata, negra e pobre, chamada Maria de Araujo. Padre Cícero fora o coprotagonista desse milagre, que teve profundas consequências para sua vida, a da beata e do próprio Juazeiro. E é a partir deste evento – porque eu o vejo como paradigmático para sua vida - que procuro apresentar, ou melhor, compreender Padre Cícero, analisando o processo que o tornou um dos maiores santos de devoção popular no Brasil. Daí por que falo numa antropologia de um santo. E o caso de Padre Cícero traz muitos privilégios enquanto objeto de estudo. O principal é que ele se tornou um santo para seus devotos não necessariamente através ou a partir dos altares. O processo através do qual ele vai se convertendo em santo para muitos de seus devotos ocorreu principalmente durante sua vida, logo após o milagre. Temos aí a oportunidade de compreender como vai se dando o processo através do qual um indivíduo vai se tornando uma importante liderança, notadamente religiosa, a ponto de, já em vida, ganhar status de santo para muitos. No entanto, é também importante frisar que para os devotos do Padre Cícero – denominados romeiros – ele é, antes de tudo, o “Padrinho Cícero”. Eles não costumam falar em Santo Cícero.

IHU On-Line - Como entender tamanha devoção popular no Brasil por Padre Cícero?
Antônio Braga – Posso apontar alguns aspectos que dão ao caso do Padre Cícero tamanha força e – em certa medida – especificidade. Um deles é o fato de que os seus devotos são como que coprotagonistas de sua história de santidade. São sujeitos e agentes. Sem seus romeiros, Padre Cícero não teria se tornado santo. E sem eles a devoção não teria se mantido nem se desenvolvido após sua morte, em 1934. E essa é uma devoção que passa de mãe para filho, de pai para filho, de avó e avô para netos. E nessa história tem sempre um avô, bisavó, e assim por diante, que conheceu o Padre Cícero em vida, que era romeiro do Padrinho Cícero enquanto ele ainda era vivo. Então, os devotos estão falando e vivenciando uma devoção que também tem relação com suas próprias histórias, com a história de todo um vasto grupo de indivíduos que se encontram em torno da força identitária de serem afilhados do Padrinho Cícero. Agora, como todo o santo que se preze, ele é santo porque – para seus devotos – também faz milagres e intervém junto a Deus. Em suma, como todo santo de devoção popular, ele é uma força atuante, presente na vida daquele que crê e que – em sua perspectiva – se faz presente quando chamado a ajudar.

IHU On-Line - Quais são os principais debates provocados pela figura dele dentro da Igreja Católica e no meio acadêmico brasileiro?
Antônio Braga - No meio acadêmico, Padre Cícero e o fenômeno religioso do Juazeiro já foram objeto de um número respeitável de estudos, muitos de grande qualidade. Agora, dentro da Igreja Católica, em um catolicismo mais oficial e eclesiástico, ele suscita muitas polêmicas. Se bem que é possível perceber que estamos diante de um claro processo de superação de muitas delas. E afirmo isto porque percebo que cada vez mais a devoção ao Padre Cícero é aceita por agentes de um catolicismo mais oficial, por um número cada vez maior de padres e bispos. Talvez de um santo popular outsider, cuja devoção se dava de forma um tanto quanto marginal em relação a um catolicismo mais oficial, o santo Padre Cícero esteja pouco a pouco se aproximando dos cânones através do qual a Igreja Católica reconhece oficialmente seus santos. Pensar num processo de canonização do Padre Cícero tornou-se algo possível.

A questão da obediência
De certa forma, todos os debates em torno do Padre Cícero, dentro da Igreja, tem alguma relação com o problema da obediência. Todos os debates internos e que dizem respeito ao Padre Cícero – Ele era ou não um sacerdote virtuoso? Era ou não um homem santo? Era ou não demasiadamente um homem da política? – tendem e tenderão a serem relativizados quando esta questão da obediência for mais bem compreendida e equacionada. Agora, se tudo isto está acontecendo, é mérito, em uma grande medida, dos devotos do Padre Cícero, de seus romeiros. Foram eles e ainda são, mesmo com todas as objeções e desconfianças em relação a esta sua fé, que mantiveram e mantêm a devoção ao Padre Cícero como um dos maiores e mais relevante casos de devoção popular no Brasil.

IHU On-Line - Quais as características dos romeiros de Padrinho Cícero?
Antônio Braga - Se fôssemos definir a maioria dos romeiros do Padre Cícero em três palavras seria: nordestinos, pobres, perseverantes. Padre Cícero é, dentre outras coisas, um santo dos nordestinos pobres. É impressionante como são muitos, até milhares, o número de nordestinos pertencentes às camadas sociais mais pobres do Nordeste que se identificam com o Padrinho Cícero. Uma boa questão é procurarmos entender por que alguém como Padre Cícero foi capaz de atrair tantas pessoas pertencentes aos segmentos mais pobres e marginalizados da sociedade em torno de si, ou de que forma ele se converteu num santo para essas pessoas.

IHU On-Line - Que elementos fizeram de Pe. Cícero um fenômeno social, político e religioso?
Antônio Braga - Boa parte desses elementos estão dispersos nas várias décadas através das quais Padre Cícero, ainda em vida, foi construindo um determinado tipo de relacionamento com os romeiros. Um relacionamento sustentado numa perspectiva religiosa, mas que abrangia também relações do tipo social, econômica e política. Padre Cícero, por exemplo, exercia uma autoridade religiosa sobre os romeiros. Mas também era um provedor nos casos de necessidades materiais e políticas. Em contrapartida, eram os próprios romeiros que legitimavam a autoridade religiosa e moral do Padre Cícero. Eram eles os sustentáculos da autoridade política, social e econômica do sacerdote. Se estabeleceu entre Padre Cícero e seus romeiros um vínculo, uma relação de dom e contra-dom que nem a morte doPadrinho Cícero foi capaz de romper.