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A Palavra do Frei Petrônio

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sexta-feira, 28 de novembro de 2014

NOVENA A NOSSA SENHORA DA CONCEIÇÃO. (1º Dia)

Tema: O Olhar de Maria. 

1º Dia. 29 de novembro.
Subtema: Nos olhos de Maria está a nossa história.

1º - Olhar para os olhos de Maria
2º Um texto bíblico sobre a história de Maria confrontando com a nossa história. (Lc 1, 46-55)
3º- Preces pelas pessoas que não podem ou não querem viver a sua história.
4º- Rezar 3 Ave Marias
5º- Oração Final
"Lembrai-vos"- Oração de S. Bernardo a Nossa Senhora.

Lembrai-Vos, ó puríssima Virgem Maria, que nunca se ouviu dizer que algum daqueles que têm recorrido à vossa protecção, implorado a vossa assistência, e reclamado o vosso socorro, fosse por Vós desamparado.
 Animado eu, pois, de igual confiança, a Vós, Virgem entre todas singular, como a Mãe recorro, de Vós me valho e, gemendo sob o peso dos meus pecados, me prostro aos Vossos pés. 
Não desprezeis as minhas súplicas, ó Mãe do Filho de Deus humanado, mas dignai-Vos de as ouvir propícia e de me alcançar o que Vos rogo. Amém. 
6º - Benção Final

MÚSICA TEMA DO NOVENÁRIO: O Olhar de Maria.
Por Frei Petrônio de Miranda, Carmelita. Convento do Carmo, Lapa, Rio de Janeiro. 29 de novembro-2014.

VARRER A CONCEIÇÃO.
(Cantiga do Folclore Brasileiro)

1- Levantei de madrugada
Pra varrer a Conceição.
Encontrei Nossa Senhora
/Com seu raminho na mão (bis).

2- Eu pedi ela o raminho
Ela me disse que não.
Eu tornei a lhe pedir
/Ela me deu o seu cordão. (bis)

3- O cordão era tão grande
Que do céu arrastava o chão.
E ainda dava sete voltas
/Em redor do coração. (bis)

4- Numa corda tem São Pedro
Na outra senhor São João.
No meio tem um letreiro
/Da Virgem da Conceição. (bis)

5- Oferecei este bendito
Pelo zelo e com devoção.
A Senhora Aparecida
/Senhora da Conceição. (bis)

6- Outra vez oferecemos
Ao Senhor que tá está Cruz.
Pelos séculos eterna glória.

/Para sempre amém Jesus. (bis)

A PALAVRA DO FREI PETRÔNIO. Nº 720º. Dia de Finados.

quinta-feira, 27 de novembro de 2014

IMACULADA CONCEIÇÃO: Convite do Frei Petrônio.

A PALAVRA DO FREI PETRÔNIO Nº 737. Um olhar sobre nossa história.

CARMELITAS EM JOÃO MONLEVADE/MG: Um Olhar (6ª Parte).

CARMELITAS EM JOÃO MONLEVADE/MG: Um Olhar (7ª Parte).

A PALAVRA DO FREI PETRÔNIO. Nº 720º. Dia de Finados.

A PALAVRA DO FREI PETRÔNIO Nº 743. O Anjo Bom da Bahia.

*Papa em Santa Marta: Depressão e esperança

Papa Francis \ Homilias (Lc 21, 20-28).
27/11/2014 11:18

(Rádio Vaticano) A realidade pode ser feia, mas, apesar do sofrimento, corrupção e indiferença no mundo de hoje, como cristãos, devemos manter nossas cabeças altas na esperança, disse o Papa Francisco na missa ontem de manhã na Casa Santa Marta.
Baseando suas reflexões sobre as leituras do dia, o Papa Francisco falou sobre o destino das duas cidades da Babilônia e Jerusalém. O Papa destacou que tanto a primeira leitura do Apocalipse e no Evangelho de São Lucas, capítulo 21, chamam a atenção para o fim deste mundo.
Ele observou que eles falam da queda de duas cidades que recusou-se a acolher o Senhor e que se afastaram Dele. Estas duas cidades cair por razões diferentes, disse ele. Babilônia é o "símbolo do mal, do pecado" e "cai por causa de sua corrupção," a cidade acreditava ser "a dona do mundo e de si mesmo". Quando o "pecado acumula - alertou - você perde a capacidade de reagir e você começa a apodrecer". Isso também acontece com "pessoas corruptas, que não têm a força para reagir":
"Porque a corrupção dá-lhe um pouco de felicidade, que lhe dá o poder e também faz você se sentir satisfeito consigo mesmo. Mas não deixa espaço para o Senhor, para a conversão. A cidade é corrupto ... esta palavra" corrupção "diz muito para nós hoje:., não só a corrupção econômica, mas a corrupção com muitos pecados diferentes, a corrupção do que o espírito pagão, que espírito mundano O pior [forma de] corrupção é o espírito de mundanismo! ".
Essa "cultura de corrupção", acrescentou, "faz você se sentir como se estivesse no céu, aqui mesmo", mas "dentro, a cultura corrupta é uma cultura podre". Babilônia é um símbolo para a "toda sociedade, cada cultura, cada pessoa que se distanciaram de Deus, que se distanciaram de amor ao próximo, o que eventualmente leva a apodrecer".
Jerusalém, no entanto, o Papa Francis disse, "se apaixona por outra razão".Jerusalém é a noiva do Senhor, mas não tem conhecimento de sua visita do Noivo ", ela fez o senhor está chorando":
"Babilônia cai por causa de sua corrupção;.. Jerusalém por causa de sua distração, a sua falta de acolher o Senhor que vem em seu socorro Ela não se sentia na necessidade de salvação Ela tinha os escritos dos profetas, Moisés, e isso foi o suficiente. Mas escritos selado Ela não deixou espaço para a salvação: a porta estava fechada para o Senhor O Senhor estava a bater à sua porta, mas não havia nenhuma disposição para recebê-Lo, para ouvir, para ser resgatado por Ele!. E assim ela cai. .. "
Papa Francis observou que esses dois exemplos, "fazer-nos refletir sobre nossas próprias vidas": somos como "corrupto e auto-suficiente Babylon" ou Jerusalém "distraído"?
O Papa passou a enfatizar que "a mensagem da Igreja nestes dias não termina com a destruição: em ambos os textos, há uma promessa de esperança".Jesus nos exorta a levantar nossas cabeças, para não ser "assustado com os pagãos". Estes, "têm o seu tempo e temos que suportá-lo com paciência, como o Senhor sofreu sua Paixão":
"Quando pensamos no fim dos tempos, com todos os nossos pecados, com a nossa história, vamos pensar no banquete que será oferecido gratuitamente para nós e vamos levantar nossas cabeças Não dão lugar a depressão:.! Espero Reality é feio: há muitas, muitas pessoas, cidades e pessoas, muitas pessoas que estão sofrendo, muitas guerras, tanto ódio, tanta inveja, tanta mundanismo espiritual e tanta corrupção Sim, é verdade Tudo isto vontade.! cair! Peçamos ao Senhor a graça de estar preparado para o banquete que nos espera, sempre com a cabeça erguida ".
 (Emer McCarthy)

*Tradução: Google.

quarta-feira, 26 de novembro de 2014

A PALAVRA DO FREI PETRÔNIO Nº 741. Quando eu morrer...

O olhar sensível de um ateu.

Leonardo Carvalho, jornalista. São Paulo.

Uma história que aconteceu hoje e me deixou profundamente sensibilizado. Já passava das 8h30. Encontrava-se no ônibus a caminho do trabalho. Como de costume estava com meus fones de ouvido em baixo volume e lendo o Vade Mecum. Porém, em um dado momento que não sei precisar quando, entra um senhor no ônibus esbanjando alegria. Como o transporte era articulado, vi o senhor próximo ao cobrador. Na minha cabeça, mais um pedinte como rotineiramente vemos. Eis meu engano.
O senhor com mais de seus 70 anos, vestimentas humildes vinha vagarosamente andando no ônibus pedindo uma ajuda. Ele brincava com o tamanho até das moedas. As moedas de 10 centavos eram pequeninas, mas iriam ajudar. Já uma moeda de 25 eram um pouco maiores, mas ele ficava satisfeito. Pedia, de forma engraçada, para não jogar as moedas de 50 centavos pela janela. As de 1 real ele dizia que eram as que garantiriam um belo "filão" amanhã no feriado da Consciência Negra. Entre um passo e outro, uma brincadeira e outra, vinha alegre esse senhor. Ele também cantarolava músicas católicas ou evangélicas, não sei precisar. Mas, em comum, ele sempre falava que ele iria para o paraíso. Que o paraíso o aguardava.
Vi muitas pessoas, sensibilizadas como eu, ajudando com algumas moedas. Tinha que ver a alegria do senhor ao receber as moedinhas. Pessoal do ônibus até comemorava discretamente. O senhor veio chegando mais próximo a mim, lá no fundo do transporte coletivo. Porém, antes de ajudar o "pobre coitado", atentei-me a sua figura (como podem ver na foto abaixo). Esse senhor era cego e portava uma bengala já antiga. O que mais mexeu comigo foi à pele desse senhor. Ela parecia à transformação, no início, dos estaladores/corredores do The Last Of Us (jogo de videogame). Pareciam fungos, não sei o que era ao certo. Mas eram muito grandes. Uns, inclusive, lhe tiravam totalmente a visão. Inúmeros na cabeça e nos braços.
Curioso que sou, chamei-o. Disse que iria lhe ajudar, mas que gostaria de conversar um pouquinho com ele. Dei meu lugar para ele se sentar e comecei a perguntar algumas coisas. Eis o diálogo:
Eu: Senhor, desculpe a intromissão, mas sou formado em jornalismo e curioso por natureza. O que são essas marcas na sua pele?
Ele: O meu jovem, nem lembro mais. Elas já fazem tanto tempo parte da minha vida. Isso é antigo.
Eu: Você não tem família senhor?
Ele: Sim, tenho sim. Minha mulher morreu cedo garoto. Porém, antes disso, deixou a maior benção da minha vida, meu filho. Ele inclusive cuida de mim até hoje, mesmo já tendo mais de 50 anos nas costas.
Eu: Se ele cuida do senhor, porque o senhor está aqui no ônibus pedindo ajuda?
Ele: Meu filho nem desconfia que faço isso. Ele trabalha o dia todo para me ajudar. Para comprar a comida e manter as despesas da casa. Mas, sempre fui trabalhador. Mesmo depois que a vida me deu a cegueira e essas marcas que você me perguntou. Todo dia, assim que ele sai para trabalhar, dou um espaço de tempo e também vou à luta.
Eu: Mas o senhor não é aposentado?
Ele: Sim, eu sou. Mas, meu jovem, que aposentado consegue sobreviver com o pouco que recebemos? Sempre falta. Não quero deixar tudo por conta do meu filho. Ele viveu uma vida para me ajudar, não acho justo isso. Por isso venho quase todos os dias de ônibus em ônibus pedindo uma pequena ajuda do pessoal.
Eu: Senhor, perdoe a pergunta. Mas como você tira tanta força para suportar tudo o que o senhor claramente passa, já idoso, e ainda seguir cantarolando e brincando com as pessoas?
Ele: Qual o seu nome?
Eu: Leonardo.
Ele: Meu jovem Leonardo, se eu seguir reclamando da minha vida vou viver de forma triste. Não quero isso. Quero seguir meu trabalho. Posso ser cego e ter essas deformidades na minha pele, mas não desisto não. Sei que Deus está preparando algo melhor para mim. Por isso canto que eu chegarei ao paraíso. Por isso brinco com as pessoas nos ônibus. Eles me ajudam com o pouco que tem e, em troca, tento mostrar-lhes que se eu posso, eles também podem conseguir.
Fico em silêncio. Ajudo-o a levantar e se apoiar no ônibus. Nesse momento, abro minha carteira e vejo que tenho apenas R$ 23,25. Dou-lhe tudo. Não existia preço naquele momento pelo que esse senhor me causou. Vendo minha atitude, as pessoas que escutavam atentamente tudo o que o senhor me contava, resolveram dar tudo o que tinham na carteira também. O senhor começou a chorar. Ele sabia que eram notas e não as "pequeninas" moedas. Pede-me, encarecidamente, que conte o quanto tinha ali. No total, só naquele ônibus, ele conseguiu R$ 217,70. Ele começa a cantarolar, em meio às lágrimas, o que ele dizia que era a ajuda de anjos. Muitas mulheres, inclusive, ficaram sensibilizadas também com a atitude. Eu mesmo fiquei bastante e só não fui às lágrimas junto sabe-se lá o motivo.
Todos que me conhecem sabem que eu não acredito em Deus. Porém, apenas por hoje, eu resolvi acreditar. Só por hoje eu quero acreditar que esse Deus levará esse sofrido homem para o céu e, com toda certeza do mundo, já tem um lugarzinho cativo próximo a Ele. Só nessa noite, experimentarei fazer uma oração. Não por mim, mas por esse homem. O que ele causou em mim acredito que dificilmente outra pessoa causaria. Rezarei com força para que ele siga com essa alegria, cantarolando que chegará ao paraíso, pois são de pessoas assim que o mundo precisa. Não com a cegueira ou as deformidades na pele. Mas com o coração e alegria capazes de proporcionar ao próximo momentos de extrema união.

Obrigado, senhor.

O Papa Francisco, Gustavo Gutiérrez e seus críticos.

"A recepção que o Papa Francisco concedeu a Gustavo Gutiérrez aos 22 de novembro de 2014 não só encerra uma complicada e tensa relação entre um dos padres da teologia da libertação e a Santa Sé , senão que abre um tempo para avaliar (e superar) as críticas injustas e os elogios desmedidos sobre a contribuição do teólogo peruano, tanto da parte de seus críticos mais desafetos, como de seus apologetas mais apaixonados", escreve Jesús Martínez Gordo, em artigo publicado por Religión Digital, 23-11-2014. A tradução é de Benno Dischinger.
Eis o artigo.
A recepção que o Papa Francisco concedeu a Gustavo Gutiérrez aos 22 de novembro de 2014 não só encerra uma complicada e tensa relação entre um dos padres da teologia da libertação e a Santa Sé , senão que abre um tempo para avaliar (e superar) as críticas injustas e os elogios desmedidos sobre a contribuição do teólogo peruano, tanto da parte de seus críticos mais desafetos, como de seus apologetas mais apaixonados.
Por razões de espaço assinalo algumas das críticas (frequentemente convertidas em preconceitos) dos primeiros, remetendo ao meu livro “a força da debilidade” [La fuerza de la debilidad] (DDB- IDTP, Bilbao, 1994) a explicitação das segundas, bem como uma avaliação de todas elas.
Confesso que, ao repassar (depois de vinte anos) ditas críticas e preconceitos, não só me chamou a atenção sua persistência, senão, sobretudo, seu recente deslocamento à pessoa, ao magistério e ao governo do Papa Francisco: os setores eclesiais que não faz muito dirigiam ditos dardos contra o teólogo peruano parecem ter mudado de alvo. Não deixa de ser uma boa notícia que, diversamente do padecido por Gustavo Gutiérrez, estas pessoas possam expressar suas opiniões sem ter que comparecer ante a Congregação para a Doutrina da Fé, nem viver sob a espada de Dâmocles de uma possível condenação doutrinal.
Algo está mudando neste pontificado. E, afortunadamente, parece que para o bem. Também o dos críticos do teólogo peruano que, até não faz muito, não admitiam nem a mudança ou revisão de uma vírgula ou que vetavam qualquer publicação que citasse o Catecismo da Igreja Católica.
A debilidade ou inconsistência
Em determinados meios teológicos, particularmente sensíveis a uma apresentação especulativa e racional da Revelação, circula faz tempo a convicção de que Gustavo Gutiérrez viria a ser uma espécie de anão (quando não, um cretino), incomprensivelmente infiltrado neste seleto clube formado, entre outros, por Karl Rahner, H. Urs von Balthasar, W. Pannenberg, E. Schillebeeckx, J.M.Y. Congar e tantos outros. Sua contribuição não teria o devido timbre intelectual. Estaria impedindo isso o sociologismo, o pastoralismo, o pedagogismo e a forma assistemática que caracterizam, desde o princípio até o final, toda a sua teologia e, por extensão, uma boa parte da teologia da libertação.
Em primeiro lugar, a contribuição de Gustavo Gutiérrez não seria tanto uma teologia capaz de manter pulso com o pensamento moderno e ilustrado, quanto uma espécie de sociologia teológica necessitada de constantes retificações e atualizações. Tantas, pelo menos, como numerosas são as vicissitudes históricas. Em duas palavras: puro sociologismo.
O mesmo seria preciso dizer de sua irrenunciável inquietude pastoral. Quando esta se erige na preocupação primeira do trabalho teológico, se acaba abordando um tipo de problemática excessivamente pedestre, imprópria dos autênticos teólogos de raça; um excesso que, como parece, também estaria afetando o Papa Francisco. Por isso, os mistérios fundamentais da fé cristã já não se estariam repassando com o rigor requerido e a teologia estaria correndo o risco de converter-se numa precipitada e desassossegada reflexão sobre a atualidade; num piedoso (e, às vezes, até poético ou dramático, depende) comentário sobre o momento. Em definitivo, nada veritativamente consistente e duradouro.
Porém há mais. Uma teologia presidida por uma inquietude pastoral concederia uma importância aos aspectos pedagógicos, já que tão relevante como os conteúdos seria o modo como se dizem e se transmitem as verdades alcançadas. Quando a preocupação pela forma e o modo de comunicar acabam por relegar o conteúdo do que se há de expor, se incorre no pedagogismo. A debilidade, portanto, da teologia de Gustavo Gutiérrez descansaria também na desmesurada atenção que presta aos aspectos pedagógicos, algo que o impossibilitaria de atender como seria devido os conteúdos da Revelação e da fé. Seu mérito consistira em ser, no melhor dos casos, um original divulgador da reflexão realizada por outros teólogos de mais talhe e, obviamente, sempre veritativos.
A assistematicidade seria, finalmente, outra manifestação da debilidade que apresentaria a contribuição do teólogo peruano. Em sua obra tudo estaria embaralhado, formando uma espécie de “totum revolutum“ que pouco ou nada tem a ver com um pensamento organizado e sistematizado. Também algo disto poder-se-ia constatar no magistério deFrancisco e no que é seu santo e senha de magistério, até o presente: a “Evangelii Gaudium”.
O dogmatismo e autoritarismo
Mas a teologia de Gustavo Gutiérrez (e, por extensão, quase toda a chamada teologia da libertação) viria a ser, ademais, uma reflexão que, sob a aparência de modesta contribuição, estaria impregnada de dogmatismo e autoritarismo. O aforismo de “luva de seda e punho de aço” serviria para qualificar perfeitamente o modo de entender e exercer a teologia dele e daqueles que, como ele, formam parte desta corrente de pensamento.
O emprego excessivamente acrítico de um método tão proclive a dogmatizar seus próprios pressupostos como o é o marxista (embora seja como método sociológico para conhecer a realidade) explicaria, em primeiro lugar, a consistência desta crítica. O uso de uma metodologia analítica marxista seria inquestionável em suas primeiras publicações. Como consequência disso, ele se veria obrigado a realizar um montão de ‘alambicamentos’ teológicos para articular o preceito do amor cristão com a luta de classes.
Também seria um indubitável sinal de dogmatismo e autoritarismo a prepotência ética que ressumariam a grande maioria de seus escritos e intervenções. Isto é algo que se poderia constatar nas condenações sem paliativos (inclusive em nome do Evangelho) de alternativas sócio-políticas e econômicas que não foram revolucionárias, quer dizer, que não defenderam claramente a supressão da propriedade privada dos meios de produção. Obviamente esta prepotência ética passaria pela desqualificação, sem paliativos, de todo o sistema ocidental (o chamado capitalismo democrático) e a própria (democracia formal burguesa) como causa, tanto imediata como mediata, de uma boa parte dos males do terceiro mundo e, por extensão, de todo o mundo. Os cidadãos dos países ricos ficariam desautorizados para propor normas de conduta moral, pelo menos enquanto não reconhecessem (e ativassem operativamente) uma forte hipoteca social sobre seu nível de vida e sobre seu consumo. E, enquanto seguissem defendendo certas fronteiras nacionais que, apesar de todos os discursos formalmente bem intencionados, seguem impossibilitando a universalização da democracia e a constituição de um governo realmente mundial.
Tão pouco o magistério de Francisco estaria distante desta acusação. E, se não, que o perguntem aos ideólogos do neoliberalismo norte-americano. Embora não só a eles. Também na Europa se poderiam encontrar críticos papais.
Outro indicador deste preconceito poder-se-ia apreciar numa suposta patrimonialização da causa dos pobres. Quando uma pessoa ou um coletivo de pessoas fala em nome ou se “apropria” (entre eles, Francisco e Gustavo Gutiérrez) desta causa e constata, ademais, suas dimensões planetárias, frequentemente costuma ultrapassar – apontam estes críticos – o umbral da denúncia ética para adentrar-se na condenação dogmática de tudo aquilo que não coincida com sua concepção de como há de ser e como se há de conceber a solução alternativa. A demagogia seria, segundo o núcleo deste preconceito, a fiel companheira de uma teologia de verbo inflamado e autoritária condenação.
Dogmática e autoritária seria também a distinção estabelecida por Gustavo Gutiérrez entre os diferentes destinatários e interlocutores da teologia européia e da latino-americana. O ilustrado descrente europeu teria pouco ou nada a ver com o famélico e meio morto não-pessoa latino-americano; caso se excetue que quem questiona a existência de Deus é o mesmo que explora, oprime e reprime a não-pessoa que povoa o subcontinente latino-americano. Ou, em todo o caso,quem mantém a capa e espada seu nível de vida à custa dos párias e famintos deste mundo. Puro fundamentalismo econômico (vem a recordar os partidários de Gustavo Gutiérrez) que deveria eclipsar (mas não, por isso, justificar, obviamente) o religioso.
Não é de estranhar que uma soma nada depreciável de comportamentos que roçam ou incorrem em semelhante dogmatismo desemboque numa generalizada atitude de imunização e impermeabilidade a toda crítica. Esta atitude de fundo poder-se-ia constatar não só em sua prepotência ética, senão também em seu sistemático fechamento para aceitar qualquer crítica feita a partir de fora do subcontinente e em seu sistemático rechaço de qualquer observação efetuada por pessoas presentes na América Latina, mas que não se converteram devidamente ao mundo dos pobres tal e como eles (críticos discernidores e repartidores de patentes) entendem por “conversão”.
A pré-modernidade
Existe, em separado ou conjuntamente com os preconceitos de debilidade e dogmatismo, outro, não menos importante: o referido à suposta pré-modernidade dos teólogos da libertação e, em certa medida, também do Papa Francisco. O trabalho de Gustavo Gutiérrez mereceria tal qualificativo por partir da afirmação (tão espontânea como acrítica) da existência de Deus e por estabelecer uma clarificadora separação entre pobreza e ilustração. Sua teologia não passaria de ser senão um reflexo do atraso (tanto intelectual como sócio-econômico) no qual se vê imerso o subcontinente latino-americano.
Gustavo Gutiérrez não se tem cansado de repetir até a saciedade que o problema número um (e, portanto, o mais urgente) do subcontinente não é o da secularização, senão o da pobreza, da fome, da miséria, da repressão e da morte. Segundo seus críticos, somente uma pessoa, um país ou um ‘subcontinente’ que tivesse logrado cobrir as necessidades mais elementares poderiam propor-se os problemas derivados da ilustração. A Europa já teria passado por esta situação histórica e já teria conhecido, por isso, os rigores e as preocupações de subsistência que assaltam nestes momentos os latino-americanos. Entrar-se-ia na modernidade quando se tivesse alcançado um nível de vida que permitisse levantar, quando menos, a vista por cima dos peremptórios problemas derivados da subsistência pessoal ou familiar. Não seria esta, certamente, a situação da América do Sul. Normal e lógico que a teologia do peruano se faça eco e seja reflexo dela e que, portanto, não seja, para nada, moderna.
De todas as formas, não seria previsível (a não ser que se seguisse propugnando projetos revolucionários mais próprios de alucinados fundamentalistas) uma perpetuação nesta quase secular prostração. Cedo ou tarde iriam desaparecendo as causas mais deter-minantes de tal atraso, iria emergindo uma classe média tão empreendedora e trabalhadora como consumista e zelosa de suas liberdades. O ídolo do dinheiro e do consumo acabaria apropriando-se não só dos ricos, nem unicamente das classes médias, senão também dos pobres que inevitavelmente teriam que existir. A fé em Deus ver-se-ia questionada, segundo este preconceito, não só porque graças ao progresso se abriria passagem à pergunta por sua existência, senão também porque se assistiria a um inexorável processo de erradicação deste arcádico ou idílico binômio (pelo menos para reflexão teológica) entre pobreza e fé em Deus, no que tão bem se desenvolve o peruano. E, com ele, os teólogos da libertação. Então ver-se-ia (com maior clareza, se cabe) a pré-modernidade da teologia de Gustavo Gutiérrez ao minimizar a importância da secularização.
Mas, a raiz sócio-econômica do preconceito sobre a pré-modernidade da teologia da libertação vem acompanhada do questionamento da qualidade intelectual e significatividade de dita teologia. A partir de tal questionamento se acabaria por sustentar que o qualificativo de pré-moderna lhe adviria por limitar-se a ser uma expressão orgânica e acrítica de uma fé tão inquestionada como incapacitada para manter um diálogo medianamente crível com a ilustração e com a suspeita traída pela modernidade. Com efeito, só poderia receber o qualificativo de moderna aquela reflexão que não se limitasse a ser (como assim o aparenta sua concepção da teologia como ato segundo) uma ampliação do comportamento existente, senão que submetesse tal comportamento às exigências críticas traídas pela ilustração ou, em todo o caso, a uma revelação recebida na modernidade. A teologia de Gustavo Gutiérrez seria, segundo este preconceito, pré-moderna porque acolheria acriticamente o binômio formado pela fé cristã e os pobres, poupando-se de passar dito binômio pelo crisol ou pelo crivo ilustrado. 
Ao sujeito moderno e ilustrado não valem as críticas voltadas à práxis que ensaia o teólogo peruano quando se questiona como é possível falar de Deus a partir do sofrimento do inocente, já que não parece ser muito consistente sustentar (como assim o defende) que é possível porque o inocente o faz. Respostas deste estilo são e serão (em sua autoritária aplicação à práxis) pré-modernas e, precisamente, por isso, inaceitáveis.
O pelagianismo
Finalmente, outro dos preconceitos que funciona com relativa frequência é o que considera, tanto a teologia da libertação como a contribuição de Gustavo Gutiérrez, expressões claras de pelagianismo, ou seja, de uma desmedida confiança nas possibilidades salvíficas e saneadoras que resultam do esforço e do compromisso. Em sua versão mais radical é uma clara e rotunda afirmação das possibilidades auto-salvificas do ser humano.
A contribuição teológica de Gustavo Gutiérrez seria, segundo este preconceito, o resultado mais claro e, ao mesmo tempo, mais imaturo de um pensador que não teria sido capaz de manter o devido equilíbrio entre a indubitável presença da graça de Deus na história e na vida cristã e a iniludível importância do compromisso ou das obras. Sua teologia correria o grave perigo de olvidar algo tão elementar como o fato de que, se a fé sem as obras está morta, a fé cimentada – ou pronta a sustentar-se – na prepotência das obras corre o risco de olvidar que a salvação é um presente, fruto do amor de Deus, e não o resultado maduro de um caminhar comprometido, embora seja de entrega total e por toda a vida com os mais pobres e oprimidos deste mundo.
O final predizível de uma teologia marcadamente pelagiana, algo já perceptível entre alguns dos seguidores mais insignes da teologia da libertação, seria a afirmação prática de que a salvação, ou acontece na história ou é irrelevante. Este final estaria acompanhado de uma progressiva perda religiosa de sangue, de uma constante dificuldade para celebrar, na limitação e fragilidade da história diária, a entrega de Deus na Cruz. A ânsia de alcançar a justiça acabaria por afogar o fundamento cristão da mesma, que é o amor e a gratuidade. Tudo isso finalizaria na exaltação prometeica do compromisso humano e no ocultamento prático da gratuidade da salvação.
Desta maneira, a libertação não seria salvação de Deus na história e (se Ele quisesse) também além da história, senão lisa e simples auto-salvação. Segue daí que o pelagianismo da teologia de Gustavo Gutiérrez se apresente sob as formas, umas vezes, de urgência ética: outras, de obsessiva escuta das análises sociológicas e, quase sempre, mediante permanentes e injustificadas aterrissagens (por se efetuarem em nome da fé) em pontos operativos mais que opináveis.

terça-feira, 25 de novembro de 2014

Discurso do Papa Francisco ao Parlamento Europeu em Estrasburgo- 25 novembro 2014.


Senhor Presidente, Senhoras e Senhores Vice-Presidentes,
Ilustres Eurodeputados,
Pessoas que a vário título trabalhais neste hemiciclo,
Queridos amigos!

Agradeço-vos o convite para falar perante esta instituição fundamental da vida da União Europeia e a oportunidade que me proporcionais de me dirigir, por vosso intermédio, a mais de quinhentos milhões de cidadãos por vós representados nos vinte e oito Estados membros. Desejo exprimir a minha gratidão de modo particular a Vossa Excelência, Senhor Presidente do Parlamento, pelas cordiais palavras de boas-vindas que me dirigiu em nome de todos os componentes da Assembleia.
A minha visita tem lugar passado mais de um quarto de século da realizada pelo Papa João Paulo II. Desde aqueles dias, muita coisa mudou na Europa e no mundo inteiro. Já não existem os blocos contrapostos que, então, dividiam em dois o Continente e, lentamente, está a realizar-se o desejo de que «a Europa, ao dotar-se soberanamente de instituições livres, possa um dia desenvolver-se em dimensões que lhe foram dadas pela geografia e, mais ainda, pela história» .
A par duma União Europeia mais ampla, há também um mundo mais complexo e em intensa movimentação: um mundo cada vez mais interligado e global e, consequentemente, sempre menos «eurocêntrico». A uma União mais alargada, mais influente, parece contrapor-se a imagem duma Europa um pouco envelhecida e empachada, que tende a sentir-se menos protagonista num contexto que frequentemente a olha com indiferença, desconfiança e, por vezes, com suspeita.
Hoje, falando-vos a partir da minha vocação de pastor, desejo dirigir a todos os cidadãos europeus uma mensagem de esperança e encorajamento.
Uma mensagem de esperança assente na confiança de que as dificuldades podem revelar-se, fortemente, promotoras de unidade, para vencer todos os medos que a Europa – juntamente com o mundo inteiro – está a atravessar. Esperança no Senhor que transforma o mal em bem e a morte em vida.
Encorajamento a voltar à firme convicção dos Pais fundadores da União Europeia, que desejavam um futuro assente na capacidade de trabalhar juntos para superar as divisões e promover a paz e a comunhão entre todos os povos do Continente. No centro deste ambicioso projecto político, estava a confiança no homem, não tanto como cidadão ou como sujeito económico, mas no homem como pessoa dotada de uma dignidade transcendente.
Sinto obrigação, antes de mais nada, de sublinhar a ligação estreita que existe entre estas duas palavras: «dignidade» e «transcendente».
«Dignidade» é a palavra-chave que caracterizou a recuperação após a Segunda Guerra Mundial. A nossa história recente caracteriza-se pela inegável centralidade da promoção da dignidade humana contra as múltiplas violências e discriminações que não faltaram, ao longo dos séculos, nem mesmo na Europa. A percepção da importância dos direitos humanos nasce precisamente como resultado de um longo caminho, feito também de muitos sofrimentos e sacrifícios, que contribuiu para formar a consciência da preciosidade, unicidade e irrepetibilidade de cada pessoa humana. Esta tomada de consciência cultural tem o seu fundamento não só nos acontecimentos da história, mas sobretudo no pensamento europeu, caracterizado por um rico encontro cujas numerosas e distantes fontes provêm «da Grécia e de Roma, de substratos celtas, germânicos e eslavos, e do cristianismo que os plasmou profundamente» , dando origem precisamente ao conceito de «pessoa».
Hoje, a promoção dos direitos humanos ocupa um papel central no empenho da União Europeia que visa promover a dignidade da pessoa, tanto no âmbito interno como nas relações com os outros países. Trata-se de um compromisso importante e admirável, porque persistem ainda muitas situações onde os seres humanos são tratados como objectos, dos quais se pode programar a concepção, a configuração e a utilidade, podendo depois ser jogados fora quando já não servem porque se tornaram frágeis, doentes ou velhos.
Realmente que dignidade existe quando falta a possibilidade de exprimir livremente o pensamento próprio ou professar sem coerção a própria fé religiosa? Que dignidade é possível sem um quadro jurídico claro, que limite o domínio da força e faça prevalecer a lei sobre a tirania do poder? Que dignidade poderá ter um homem ou uma mulher tornados objecto de todo o género de discriminação? Que dignidade poderá encontrar uma pessoa que não tem o alimento ou o mínimo essencial para viver e, pior ainda, o trabalho que o unge de dignidade?
Promover a dignidade da pessoa significa reconhecer que ela possui direitos inalienáveis, de que não pode ser privada por arbítrio de ninguém e, muito menos, para benefício de interesses económicos.
É preciso, porém, ter cuidado para não cair em alguns equívocos que podem surgir de um errado conceito de direitos humanos e de um abuso paradoxal dos mesmos. De facto, há hoje a tendência para uma reivindicação crescente de direitos individuais, que esconde uma concepção de pessoa humana separada de todo o contexto social e antropológico, quase como uma «mónada» (μονάς) cada vez mais insensível às outras «mónadas» ao seu redor. Ao conceito de direito já não se associa o conceito igualmente essencial e complementar de dever, acabando por afirmar-se os direitos do indivíduo sem ter em conta que cada ser humano está unido a um contexto social, onde os seus direitos e deveres estão ligados aos dos outros e ao bem comum da própria sociedade.
Por isso, considero que seja mais vital hoje do que nunca aprofundar uma cultura dos direitos humanos que possa sapientemente ligar a dimensão individual, ou melhor pessoal, à do bem comum, àquele «nós-todos» formado por indivíduos, famílias e grupos intermédios que se unem em comunidade social . Na realidade, se o direito de cada um não está harmoniosamente ordenado para o bem maior, acaba por conceber-se sem limitações e, por conseguinte, tornar-se fonte de conflitos e violências.
Assim, falar da dignidade transcendente do homem significa apelar para a sua natureza, a sua capacidade inata de distinguir o bem do mal, para aquela «bússola» inscrita nos nossos corações e que Deus imprimiu no universo criado ; sobretudo significa olhar para o homem, não como um absoluto, mas como um ser relacional. Uma das doenças que, hoje, vejo mais difusa na Europa é a solidão, típica de quem está privado de vínculos. Vemo-la particularmente nos idosos, muitas vezes abandonados à sua sorte, bem como nos jovens privados de pontos de referência e de oportunidades para o futuro; vemo-la nos numerosos pobres que povoam as nossas cidades; vemo-la no olhar perdido dos imigrantes que vieram para cá à procura de um futuro melhor.
Uma tal solidão foi, depois, agravada pela crise económica, cujos efeitos persistem ainda com consequências dramáticas do ponto de vista social. Pode-se também constatar que, no decurso dos últimos anos, a par do processo de alargamento da União Europeia, tem vindo a crescer a desconfiança dos cidadãos relativamente às instituições consideradas distantes, ocupadas a estabelecer regras vistas como distantes da sensibilidade dos diversos povos, se não mesmo prejudiciais. De vários lados se colhe uma impressão geral de cansaço e envelhecimento, de uma Europa avó que já não é fecunda nem vivaz. Daí que os grandes ideais que inspiraram a Europa pareçam ter perdido a sua força de atracção, em favor do tecnicismo burocrático das suas instituições.
A isto vêm juntar-se alguns estilos de vida um pouco egoístas, caracterizados por uma opulência actualmente insustentável e muitas vezes indiferente ao mundo circundante, sobretudo dos mais pobres. No centro do debate político, constata-se lamentavelmente a preponderância das questões técnicas e económicas em detrimento de uma autêntica orientação antropológica . O ser humano corre o risco de ser reduzido a mera engrenagem dum mecanismo que o trata como se fosse um bem de consumo a ser utilizado, de modo que a vida – como vemos, infelizmente, com muita frequência –, quando deixa de ser funcional para esse mecanismo, é descartada sem muitas delongas, como no caso dos doentes terminais, dos idosos abandonados e sem cuidados, ou das crianças mortas antes de nascer.
É o grande equívoco que se verifica «quando prevalece a absolutização da técnica» , acabando por gerar «uma confusão entre fins e meios» , que é o resultado inevitável da «cultura do descarte» e do «consumismo exacerbado». Pelo contrário, afirmar a dignidade da pessoa significa reconhecer a preciosidade da vida humana, que nos é dada gratuitamente não podendo, por conseguinte, ser objecto de troca ou de comércio. Na vossa vocação de parlamentares, sois chamados também a uma grande missão, ainda que possa parecer não lucrativa: cuidar da fragilidade dos povos e das pessoas. Cuidar da fragilidade quer dizer força e ternura, luta e fecundidade no meio dum modelo funcionalista e individualista que conduz inexoravelmente à «cultura do descarte». Cuidar da fragilidade das pessoas e dos povos significa guardar a memória e a esperança; significa assumir o presente na sua situação mais marginal e angustiante e ser capaz de ungi-lo de dignidade .
Mas, então, como fazer para se devolver esperança ao futuro, de modo que, a partir das jovens gerações, se reencontre a confiança para perseguir o grande ideal de uma Europa unida e em paz, criativa e empreendedora, respeitadora dos direitos e consciente dos próprios deveres?
Para responder a esta pergunta, permiti-me lançar mão de uma imagem. Um dos mais famosos afrescos de Rafael que se encontram no Vaticano representa a chamada Escola de Atenas. No centro, estão Platão e Aristóteles. O primeiro com o dedo apontando para o alto, para o mundo das ideias, poderíamos dizer para o céu; o segundo estende a mão para a frente, para o espectador, para a terra, a realidade concreta. Parece-me uma imagem que descreve bem a Europa e a sua história, feita de encontro permanente entre céu e terra, onde o céu indica a abertura ao transcendente, a Deus, que desde sempre caracterizou o homem europeu, e a terra representa a sua capacidade prática e concreta de enfrentar as situações e os problemas.
O futuro da Europa depende da redescoberta do nexo vital e inseparável entre estes dois elementos. Uma Europa que já não seja capaz de se abrir à dimensão transcendente da vida é uma Europa que lentamente corre o risco de perder a sua própria alma e também aquele «espírito humanista» que naturalmente ama e defende.
É precisamente a partir da necessidade de uma abertura ao transcendente que pretendo afirmar a centralidade da pessoa humana; caso contrário, fica à mercê das modas e dos poderes do momento. Neste sentido, considero fundamental não apenas o património que o cristianismo deixou no passado para a formação sociocultural do Continente, mas também e sobretudo a contribuição que pretende dar hoje e no futuro para o seu crescimento. Esta contribuição não constitui um perigo para a laicidade dos Estados e para a independência das instituições da União, mas um enriquecimento. Assim no-lo indicam os ideais que a formaram desde o início, tais como a paz, a subsidiariedade e a solidariedade mútua, um humanismo centrado no respeito pela dignidade da pessoa.
Por isso, desejo renovar a disponibilidade da Santa Sé e da Igreja Católica, através da Comissão das Conferências Episcopais da Europa (COMECE), a manter um diálogo profícuo, aberto e transparente com as instituições da União Europeia. De igual modo, estou convencido de que uma Europa que seja capaz de conservar as suas raízes religiosas, sabendo apreender a sua riqueza e potencialidades, pode mais facilmente também permanecer imune a tantos extremismos que campeiam no mundo actual – o que se fica a dever também ao grande vazio de ideais a que assistimos no chamado Ocidente –, pois «o que gera a violência não é a glorificação de Deus, mas o seu esquecimento» .
Não podemos deixar de recordar aqui as numerosas injustiças e perseguições que se abatem diariamente sobre as minorias religiosas, especialmente cristãs, em várias partes do mundo. Comunidades e pessoas estão a ser objecto de bárbaras violências: expulsas de suas casas e pátrias; vendidas como escravas; mortas, decapitadas, crucificadas e queimadas vivas, sob o silêncio vergonhoso e cúmplice de muitos.
O lema da União Europeia é Unidade na diversidade, mas a unidade não significa uniformidade política, económica, cultural ou de pensamento. Na realidade, toda a unidade autêntica vive da riqueza das diversidades que a compõem: como uma família, que é tanto mais unida quanto mais cada um dos seus componentes pode ser ele próprio profundamente e sem medo. Neste sentido, considero que a Europa seja uma família de povos, os quais poderão sentir próximas as instituições da União se estas souberem conjugar sapientemente o ideal da unidade, por que se anseia, com a diversidade própria de cada um, valorizando as tradições individuais; tomando consciência da sua história e das suas raízes; libertando-se de tantas manipulações e fobias. Colocar no centro a pessoa humana significa, antes de mais nada, deixar que a mesma exprima livremente o próprio rosto e a própria criatividade tanto de indivíduo como de povo.
Por outro lado, as peculiaridades de cada um constituem uma autêntica riqueza na medida em que são colocadas ao serviço de todos. É preciso ter sempre em mente a arquitectura própria da União Europeia, assente sobre os princípios de solidariedade e subsidiariedade, de tal modo que prevaleça a ajuda recíproca e seja possível caminhar animados por mútua confiança.
Nesta dinâmica de unidade-particularidade, coloca-se também diante de vós, Senhores e Senhoras Eurodeputados, a exigência de cuidardes de manter viva a democracia dos povos da Europa. Não escapa a ninguém que uma concepção homologante da globalidade afecta a vitalidade do sistema democrático, depauperando do que tem de fecundo e construtivo o rico contraste das organizações e dos partidos políticos entre si. Deste modo, corre-se o risco de viver no reino da ideia, da mera palavra, da imagem, do sofisma... acabando por confundir a realidade da democracia com um novo nominalismo político. Manter viva a democracia na Europa exige que se evitem muitas «maneiras globalizantes» de diluir a realidade: os purismos angélicos, os totalitarismos do relativo, os fundamentalismos a-históricos, os eticismos sem bondade, os intelectualismos sem sabedoria .
Manter viva a realidade das democracias é um desafio deste momento histórico, evitando que a sua força real – força política expressiva dos povos – seja removida face à pressão de interesses multinacionais não universais, que as enfraquecem e transformam em sistemas uniformizadores de poder financeiro ao serviço de impérios desconhecidos. Este é um desafio que hoje vos coloca a história.
Dar esperança à Europa não significa apenas reconhecer a centralidade da pessoa humana, mas implica também promover os seus dotes. Trata-se, portanto, de investir nela e nos âmbitos onde os seus talentos são formados e dão fruto. O primeiro âmbito é seguramente o da educação, a começar pela família, célula fundamental e elemento precioso de toda a sociedade. A família unida, fecunda e indissolúvel traz consigo os elementos fundamentais para dar esperança ao futuro. Sem uma tal solidez, acaba-se por construir sobre a areia, com graves consequências sociais. Aliás, sublinhar a importância da família não só ajuda a dar perspectivas e esperança às novas gerações, mas também a muitos idosos, frequentemente constrangidos a viver em condições de solidão e abandono, porque já não há o calor dum lar doméstico capaz de os acompanhar e apoiar.
Ao lado da família, temos as instituições educativas: escolas e universidades. A educação não se pode limitar a fornecer um conjunto de conhecimentos técnicos, mas deve favorecer o processo mais complexo do crescimento da pessoa humana na sua totalidade. Os jovens de hoje pedem para ter uma formação adequada e completa, a fim de olharem o futuro com esperança e não com desilusão. Aliás são numerosas as potencialidades criativas da Europa em vários campos da pesquisa científica, alguns dos quais ainda não totalmente explorados. Basta pensar, por exemplo, nas fontes alternativas de energia, cujo desenvolvimento muito beneficiaria a defesa do meio ambiente.
A Europa sempre esteve na vanguarda dum louvável empenho a favor da ecologia. De facto, esta nossa terra tem necessidade de cuidados e atenções contínuos e é responsabilidade de cada um preservar a criação, dom precioso que Deus colocou nas mãos dos homens. Isto significa, por um lado, que a natureza está à nossa disposição, podemos gozar e fazer bom uso dela; mas, por outro, significa que não somos os seus senhores. Guardiões, mas não senhores. Por isso, devemos amá-la e respeitá-la; mas, «ao contrário, somos frequentemente levados pela soberba do domínio, da posse, da manipulação, da exploração; não a “guardamos”, não a respeitamos, não a consideramos como um dom gratuito do qual cuidar» . Mas, respeitar o ambiente não significa apenas limitar-se a evitar deturpá-lo, mas também utilizá-lo para o bem. Penso sobretudo no sector agrícola, chamado a dar apoio e alimento ao homem. Não se pode tolerar que milhões de pessoas no mundo morram de fome, enquanto toneladas de produtos alimentares são descartadas diariamente das nossas mesas. Além disso, respeitar a natureza lembra-nos que o próprio homem é parte fundamental dela. Por isso, a par duma ecologia ambiental, é preciso a ecologia humana, feita daquele respeito pela pessoa que hoje vos pretendi recordar com as minhas palavras.
O segundo âmbito em que florescem os talentos da pessoa humana é o trabalho. É tempo de promover as políticas de emprego, mas acima de tudo é necessário devolver dignidade ao trabalho, garantindo também condições adequadas para a sua realização. Isto implica, por um lado, encontrar novas maneiras para combinar a flexibilidade do mercado com as necessidades de estabilidade e certeza das perspectivas de emprego, indispensáveis para o desenvolvimento humano dos trabalhadores; por outro, significa fomentar um contexto social adequado, que não vise explorar as pessoas, mas garantir, através do trabalho, a possibilidade de construir uma família e educar os filhos.
De igual forma, é necessário enfrentar juntos a questão migratória. Não se pode tolerar que o Mar Mediterrâneo se torne um grande cemitério! Nos barcos que chegam diariamente às costas europeias, há homens e mulheres que precisam de acolhimento e ajuda. A falta de um apoio mútuo no seio da União Europeia arrisca-se a incentivar soluções particularistas para o problema, que não têm em conta a dignidade humana dos migrantes, promovendo o trabalho servil e contínuas tensões sociais. A Europa será capaz de enfrentar as problemáticas relacionadas com a imigração, se souber propor com clareza a sua identidade cultural e implementar legislações adequadas capazes de tutelar os direitos dos cidadãos europeus e, ao mesmo tempo, garantir o acolhimento dos imigrantes; se souber adoptar políticas justas, corajosas e concretas que ajudem os seus países de origem no desenvolvimento sociopolítico e na superação dos conflitos internos – a principal causa deste fenómeno – em vez das políticas interesseiras que aumentam e nutrem tais conflitos. É necessário agir sobre as causas e não apenas sobre os efeitos.

Senhor Presidente, Excelências, Senhoras e Senhores Deputados!
A consciência da própria identidade é necessária também para dialogar de forma propositiva com os Estados que se candidataram à adesão à União Europeia no futuro. Penso sobretudo nos Estados da área balcânica, para os quais a entrada na União Europeia poderá dar resposta ao ideal da paz numa região que tem sofrido enormemente por causa dos conflitos do passado. Por fim, a consciência da própria identidade é indispensável nas relações com os outros países vizinhos, particularmente os que assomam ao Mediterrâneo, muitos dos quais sofrem por causa de conflitos internos e pela pressão do fundamentalismo religioso e do terrorismo internacional.
A vós, legisladores, compete a tarefa de preservar e fazer crescer a identidade europeia, para que os cidadãos reencontrem confiança nas instituições da União e no projecto de paz e amizade que é o seu fundamento. Sabendo que, «quanto mais aumenta o poder dos homens, tanto mais cresce a sua responsabilidade, pessoal e comunitária» , exorto-vos a trabalhar para que a Europa redescubra a sua alma boa.
Um autor anónimo do século II escreveu que «os cristãos são no mundo o que a alma é para o corpo» . A tarefa da alma é sustentar o corpo, ser a sua consciência e memória histórica. E uma história bimilenária liga a Europa e o cristianismo. Uma história não livre de conflitos e erros, mas sempre animada pelo desejo de construir o bem. Vemo-lo na beleza das nossas cidades e, mais ainda, na beleza das múltiplas obras de caridade e de construção comum que constelam o Continente. Esta história ainda está, em grande parte, por escrever. Ela é o nosso presente e também o nosso futuro. É a nossa identidade. E a Europa tem uma necessidade imensa de redescobrir o seu rosto para crescer, segundo o espírito dos seus Pais fundadores, na paz e na concórdia, já que ela mesma não está ainda isenta dos conflitos.
Queridos Eurodeputados, chegou a hora de construir juntos a Europa que gira, não em torno da economia, mas da sacralidade da pessoa humana, dos valores inalienáveis; a Europa que abraça com coragem o seu passado e olha com confiança o seu futuro, para viver plenamente e com esperança o seu presente. Chegou o momento de abandonar a ideia de uma Europa temerosa e fechada sobre si mesma para suscitar e promover a Europa protagonista, portadora de ciência, de arte, de música, de valores humanos e também de fé. A Europa que contempla o céu e persegue ideais; a Europa que assiste, defende e tutela o homem; a Europa que caminha na terra segura e firme, precioso ponto de referência para toda a humanidade!

Obrigado!

segunda-feira, 24 de novembro de 2014

Como dizer ao pobre que Deus o ama. Entrevista com Gustavo Gutiérrez.


"A pergunta de fundo da teologia da libertação é: como dizer ao pobre que Deus o ama? Enquanto isso, algo foi feito, mas resta muito mais a ser feito." A afirmação é de Gustavo Gutiérrez, peruano de 86 anos, membro da Ordem dos Frades Pregadores, considerado o fundador dateologia da libertação. A reportagem é de Patrizia Caiffa, publicada pela agência SIR, 21-11-2014. A tradução é de Moisés Sbardelotto.
Nestes dias ele está na Itália para falar para os 800 participantes do IV Congresso Missionário Nacional, que ocorreu até este domingo em Sacrofano, Roma, por iniciativa do Escritório Nacional para a Cooperação entre as Igrejas, da Fundação Missio e do Centro Unitário para a Cooperação Missionária entre as Igrejas (Cum). Nesse domingo de manhã, junto com outros participantes do congresso, ele se encontrou com o Papa Francisco no Vaticano.

Eis a entrevista.
Com que emoção o senhor se prepara para o encontro com o Papa Francisco?
Para mim, é uma alegria enorme encontrá-lo. O papa criou uma situação tão interessante, tão rica! Ela eleva muito os ânimos. Ao mesmo tempo, estamos conscientes dos problemas que ele pode ter no seu desejo de uma Igreja pobre e solidária.

O senhor esperava uma mudança tão grande na Igreja?
Na América Latina, já conhecíamos há muito tempo o cardeal Bergoglio, por isso não foi uma surpresa total. Mas ele leva adiante a sua tarefa com tantas e impressionantes atividades... Isso, sim, nos surpreende. Para nós, foi muito importante a Conferência do Episcopado Latino-Americano em Aparecida. Foi ali que a mudança aconteceu.

A Igreja será cada vez mais caracterizada pela sua pertença latino-americana?
A sua abordagem é muito universal, e a sua fonte é evangélica. Além disso, a mensagem de Jesus é tão essencial! Certamente, há uma marca latino-americana que o caracteriza, porque Bergoglio nasceu e viveu muitos anos entre os pobres. Ele pode abrir muitas portas na Igreja e já começou.

Mas parece que há inúmeras resistências internas...
Isso é o que dizem os jornais. Infelizmente, é inevitável que, com um cargo tão importante, com tanta responsabilidade, haja resistências.
O papa reiterou que essa nova atitude da Igreja não é comunismo, mas é Evangelho.
Certamente é evangelho. O Papa Francisco tem uma enorme capacidade de ir à fonte e de falar com grande simplicidade, mas também com muita criatividade. Recordamos que o tema do pobre é um assunto bíblico central.

Depois de quase 50 anos, a teologia da libertação na América Latina ainda está viva ou alguma coisa mudou?
Uma teologia tem uma tarefa modesta, mas é claramente importante como compreensão de uma realidade e de uma proposta para a evangelização. Isso ainda existo, mas não deve ser a única maneira de dar uma contribuição para a vida da Igreja latino-americana. É normal que haja outras perspectivas, e que cada um traga a sua. Eu acho que é muito interessante que, depois de tantas publicações e encontros, mais uma vez, o que essa teologia tentou fazer é ir à fonte e levar em conta a impressionante realidade de uma pobreza enorme, em um continente de maioria cristã. A pergunta de fundo da teologia da libertação é: como dizer ao pobre que Deus o ama? Enquanto isso, algo foi feito, mas resta muito mais a ser feito.

A teologia da libertação ainda é atual e também pode ser proposta aos pobres da América do Norte e dos outros continentes?
Sim, em relação ao essencial; não em relação à concretude e ao que preciso fazer, porque em cada contexto há diferenças. Muitas teologias semelhantes nasceram na África, na Ásia e minoritariamente na Europa e na América do Norte, demonstrando que esse modo de apresentar a mensagem é importante. Não há uma teologia da libertação, mas teologias "irmãs", próximas, mas, ao mesmo tempo, diferentes.

Depois das incompreensões do passado, chegou a hora da redenção?
Houve um diálogo que permitiu esclarecer algumas coisas com a Congregação para a Doutrina da Fé. Agora, o diálogo terminou com satisfação. É importante saber aceitar que há diferenças fortes com uma pessoa ou um ambiente, mesmo que se esteja em desacordo.

Nesse domingo, o que o senhor vai dizer ao papa?
Vou lhe dizer que gosto muito do que ele está fazendo e vou lhe agradecer por isso.

▶ EREMITÉRIO FONTE DE ELIAS Missa com Frei Petrônio - Vídeo Dailymotion

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A PALAVRA DO FREI PETRÔNIO Nº 740. A Lei Seca e a Torá.

EREMITÉRIO FONTE DE ELIAS: Missa com Frei Petrônio.

A PALAVRA DO FREI REINALDO, Nº 01: A Espiritualidade de novembro.

UM OLHAR SOBRE SÃO PAULO: Levanta Elias. (1º Reis, 19, 1-18)