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A Palavra do Frei Petrônio

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sexta-feira, 21 de novembro de 2014

FESTA DE CRISTO REI: Um juízo estranho.

A leitura que a Igreja propõe neste domingo é o Evangelho de Jesus Cristo segundo Mateus 25, 31-46 que corresponde a Solenidade de Cristo Rei, Ciclo A do Ano Litúrgico. O teólogo espanhol José Antonio Pagola comenta o texto.

Eis o texto
As fontes não admitem dúvidas. Jesus vive voltado para aqueles que vê necessitados de ajuda. É incapaz de passar ao largo. Nenhum sofrimento lhe é alheio. Identifica-se com os mais pequenos e desvalidos e faz por eles tudo o que pode. Para Ele a compaixão é o primeiro. O único modo de parecer-nos com Deus: “Sejam compassivos como o vosso Pai é compassivo”.
Como nos poderá estranhar que, ao falar do Juízo final, Jesus apresente a compaixão como o critério último e decisivo que julgará as nossas vidas e a nossa identificação com Ele? Como nos poderá estranhar que se apresente identificado com todos os pobres e desgraçados da história?
Segundo o relato de Mateus, comparecem ante o Filho do Homem, ou seja, ante Jesus, o compassivo, “todas as nações”. Não se faz diferenças entre “povo eleito” e “povo pagão”. Nada se diz das diferentes religiões e cultos. Fala-se de algo muito humano e que todos entendem: Que fizemos com todos os que viveram sofrendo?
O evangelista não se detém propriamente a descrever os detalhes de um juízo. O que destaca é um duplo diálogo que lança uma luz imensa sobre o nosso presente e nos abre os olhos para ver que, em definitivo, há duas formas de reagir ante os que sofrem: compadecemo-nos e os ajudamos, ou desinteressamo-nos e os abandonamos.
O que fala é um Juiz que está identificado com todos os pobres e necessitados: “Cada vez que ajudares a um destes meus pequenos irmãos, fizeste-o a Mim”. Quem se aproxima para ajudar a um necessitado, aproxima-se de Dele. Por isso estarão junto Dele no reino: “Vinde, benditos do Meu Pai”.
Logo dirige-se a quem viveu sem compaixão: “Cada vez que não ajudastes a um destes pequenos, deixastes de o fazer comigo”. Quem se afastou dos que sofrem, afastou-se de Jesus. É lógico que agora lhes diga: “Afastai-vos de Mim”. Segui o vosso caminho…
A nossa vida está-se a julgar agora mesmo. Não há que esperar nenhum juízo. Agora estamos aproximando-nos ou afastando-nos dos que sofrem. Agora estamos aproximando-nos ou afastando-nos de Cristo. Agora estamos decidindo a nossa vida.

Ameaças do Isis: aumenta a proteção para o papa

Em agosto de 2014, ao voltar da sua viagem à Coreia do Sul, o Papa Francisco queria parar no Curdistão, uma área incrustada entre a Síria, a Turquia, o Iraque e o Irã. Ele tinha a intenção de lançar também de lá o seu apelo em favor dos cristãos do Oriente Médio, massacrados pelos fundamentalistas islâmicos. Mas os serviços secretos o pararam, listando para ele os perigos que a mudança de programa representaria. O episódio volta à tona nestes dias, enquanto os temores sobre a sua segurança aumentaram imperceptivelmente. A reportagem é de Massimo Franco, publicada no jornal Corriere della Sera, 20-11-2014. A tradução é de Moisés Sbardelotto.
Talvez seja só um reflexo da desorientação psicológica, além de geopolítica, do Ocidente. São os vídeos dos reféns decapitados pelos carrascos do Isis, o Estado Islâmico que já está superando em crueldade a Al-Qaeda; e que, além de fazer seguidores na Europa, alimenta os temores de um ataque contra o pontífice que uniu em oração católicos, judeus, muçulmanos e ortodoxos.
Assim, aos fantasmas do atentado do turco Ali Agca contra João Paulo II em maio de 1981, justamente na Praça de São Pedro, no meio da multidão, soma-se o fantasma de uma ação subversiva do fundamentalismo islâmico. A dúvida de que algo pode acontecer paira desde que ele se tornou papa.
A escolha de viver na Casa Santa Marta, altamente simbólica, é uma incógnita. É um hotel, embora único, e, portanto, recebe de fora os fornecimentos de massas, pães, carnes. É um pequeno porto de mar, embora supercontrolado, separado da Itália apenas pelos muros que levam à Via di Porta Cavalleggeri. Portanto, teoricamente, o perigo aumenta. Somam-se as audiências nas quais o papa busca encontrar e entreter-se com o máximo de pessoas possível.

Carro blindado e agentes secretos
Em suma, alguns motivos de apreensão se justificam, porque, além disso, Francisco vive com um toque de impaciência as medidas de segurança. A Gendarmeria vaticana sabe algo disso, pois, no início, custou para convencer o primeiro pontífice argentino a aceitar o mínimo de prevenção.
"Subam vocês no carro blindado!", contam que foi assim que ele acolheu a primeira oferta de proteção, rotineira, contudo. Durante a visita à paróquia de Tor Sapienza, na periferia romana, em dezembro de 2013, ele disse do púlpito: "Se alguma coisa perturbou vocês com essa visita, talvez um excesso de segurança, saibam que eu não concordo com isso, concordo com vocês".
E, alguns meses depois, quando decidiu ir visitar um amigo protestante em Caserta, na Campania, não foi fácil fazer com que ele entendesse que usar o carro em vez do helicóptero envolveria problemas maiores: Autostrada del Sole congestionada, escolta policial, postos de bloqueio. No fim, ele se adaptou a um pequeno helicóptero.
Ele não é um papa muito "manejável", embora tenha se acostumado a conviver com os imperativos da prevenção e a aceitá-los. Parece que até mesmo os seus colaboradores às vezes brinquem com ele sobre as ameaças de morte. "Santo Padre, ainda não o mataram hoje?", zombam, superando o temor reverencial que, mesmo assim, ele incute.
"Jorge, protegem-no o suficiente?", gritam-lhe os compatriotas nas audiências, sob os olhos inquietos dos agentes secretos com o fone de ouvido, estrategicamente dispostos à distância em torno dele, mesmo no adro da Praça de São Pedro.

O pontífice impôs um modelo de religiosidade que significa a destruição de qualquer barreira entre o papa-rei e os seus súditos: um estilo que o tornou um mito das multidões e um alvo terrorista potencialmente "fácil".

A bandeira preta no obelisco
Além disso, a Dabiq, a revista online do Isis, divulgada desde julho até na Europa, em diversos idiomas, em outubro de 2014 colocou na sua capa digital uma fotomontagem. Exibe uma imagem da Praça de São Pedro, com o obelisco encimado pela sua bandeira preta e o título: "A Cruzada fracassada".
O Isis promete não parar a jihad, a guerra santa do Islã, "enquanto nos encontrarmos sob as oliveiras de Roma e tivermos destruído aquele edifício obsceno que se chama Casa Branca". O nome da revista é altamente simbólico. Dabiq é o vilarejo sírio onde, em 1516, os otomanos derrotaram os mamelucos, consolidando o último califado da história. E as suas ameaças são levadas a sério.
Nas embaixadas ocidentais em Roma sente-se uma certa inquietação. Entre os diplomatas, trocam-se impressões que dão corpo aos cenários mais obscuros. Mas os serviços de segurança italianos e vaticanos parecem ser mais cautelosos.
Analisando a revista Dabiq, a sensação da inteligência é que, com as suas proclamações, o Isis (acrônimo para Islamic State of Iraq and Syria) está falando principalmente para dentro do mundo muçulmano, para impôr o primado sunita contra os odiados xiitas e credenciar-se como o único verdadeiro inimigo do Ocidente.
Mas não existem indícios de atentados flagrantes sendo preparados pelo grupo terrorista. O único temor é de que algum filiado europeu, por imitação, prepare uma ação demonstrativa faça-você-mesmo: talvez utilizando um drone pilotado sobre a Praça de São Pedro durante uma audiência. "Por enquanto", explicam, "o perigo não é o de grandes atentados, mas o da atomização da subversão".

O nó de Santa Marta
São informações semelhantes às que circulam nos centros de estudo sobre o antiterrorismo, de Washington a Londres. Foram examinados documentos e relatórios que falam de ameaças ao papa. Mas ainda não são considerados fortes o suficiente como validar a tese de um plano sofisticado em incubação ou de uma ameaça concreta.
A sensação dos analistas é que, por enquanto, o Isis está concentrando os seus assassinatos na Mesopotâmia, sem sair daquelas fronteiras religiosas e geográficas: embora exorte os seus seguidores europeus a atacar, e o número de terroristas ingleses e franceses "alistados" pela organização dá calafrios.
Mas o pontífice continua levando a vida de sempre. Uma dos aspectos que as pessoas que trabalham com ele apontam é que ele quer ser dono do seu tempo e da sua agenda, cioso da sua liberdade.
Uma vez, o cardeal norte-americano Timothy Dolan explicou em uma entrevista que Francisco deverá se acostumar com as restrições necessárias para garantir a sua incolumidade pessoal: ele mesmo havia se resignado a isso quando era presidente dos bispos norte-americanos.
Mas não está claro o quanto o pontífice realmente está adaptado para isso. Um cardeal italiano que conhece bem a Casa Santa Marta defende há muito tempo que, mais cedo ou mais tarde, poderia acontecer alguma coisa a ponto de sugerir a transferência do papa para o apartamento papal no Palácio Apostólico: aquele ocupado pelos seus antecessores, hoje vazio, até por ser identificado com as intrigas e os escândalos do Vatileaks: o furto de documentos confidenciais de Bento XVI, cometido pelo seu mordomo.

Mas Francisco não parece nem perturbado nem assustado com o que está acontecendo. Ele é atormentado pelas perseguições e pelos massacres dos cristãos no Oriente Médio e não deixa de lembrar as vítimas do terrorismo. Ele recém-condenou o último atentado à sinagoga de Jerusalém. Mas não se preocupa com os riscos que corre pessoalmente; nem tem a intenção de mudar de residência e de hábitos.
O jornal La Nación, de Buenos Aires, informou que Juan Carlos Molina, um padre argentino de uma organização que combate o tráfico de drogas, a Sedronar, no dia 12 de novembro, esteve conversando com Francisco por 40 minutos. Tomaram juntos o mate quente, típico do seu país.
E Molina contou que dissera ao papa, chamando-lhe de "tu", como fazem muitos padres que o conhecem desde os tempos em que era arcebispo de Buenos Aires: "Cuidado, podem te matar. E Francisco respondeu: 'É a melhor coisa que poderia acontecer. E também para ti...'".
Não eram palavras resignadas. Ele parecia dizer, mais simplesmente, que é preciso estar pronto até ao martírio.

quinta-feira, 20 de novembro de 2014

A PALAVRA DO FREI PETRÔNIO Nº 736. Zumbi dos Palmares.

História da Igreja na América Latina e no Brasil

            
O povoamento do continente americano é antigo (50.000 anos, ou mais, segundo dados arqueológicos mais recentes). Isso mostra que suas populações são variadas e portadoras de toda gama de formas culturais conhecidas. Antes do descobrimento da América por Cristóvão Colombo, as idéias e práticas religiosas dos povos que habitavam a América revelam uma cosmovisão intuitiva, aberta à natureza a ao cosmo (e não encerrada no ego), comunitária (e não individualista), em que todo visível é símbolo de uma realidade maior, da qual eles dependem.
Assim é fácil pensar no choque produzido no século XV quando o povo europeu chega a essa terra. Foi um choque entre dois estados de consciência, e por isso muito doloroso. No entanto, devido à superioridade mundo europeu em relação aos nativos, não é de se esperar outra coisa senão uma “dominação” européia no continente americano. Há diversos relatos históricos que mostram que essa colonização européia utilizou de métodos fortes e implacáveis para estabelecer sua hegemonia. O cristianismo que entrou na América em 1492, é de caráter regional limitado e não “universal”. Também lembrando que a Igreja vivia sobre o regime do Padroado, ou seja, o rei era quem determinava todas as coisas em relação ao clero. O clero ficava dependente do Estado. Dessa forma, a cruz e a espada eram usadas para ditar a fé e as regras dos colonizadores sobre os nativos. Para se entender melhor como foi à colonização na América, basta refletir sobre o fato ocorrido em 1500: foi promulgada pelos colonizadores a “lei das terras” que, na prática negou aos nativos a posse de terra neste país.
A colonização e evangelização no Brasil é marcada por duas etapas. A primeira tem início com a chegada de Pedro Álvares Cabral e sua frota de 13 navios no Brasil, em 1500. Junto aos colonizadores estavam sacerdotes diocesanos e 15 franciscanos, que chegaram ao Brasil para atender às necessidades religiosas dos portugueses e, assim, fizeram muito pouco pela evangelização dos índios e negros. Esse momento é marcado por questões que envolvem a humanidade dos índios (eles tem alma?), pois os portugueses que aqui chegaram, encontraram povos índios caçadores e não grandes civilizações como no México e no Peru. A primeira missa rezada no Brasil aconteceu no dia 26 de março de 1500, presidida pelo frei Henrique de Coimbra. A colonização propriamente dita começou no ano de 1530, com a chegada da expedição de Martin Afonso de Souza e com a introdução da cana de açúcar. A partir de então, começa em grande número o desembarque de escravos da África em terras brasileiras, o que com o tempo foi criando uma sociedade de senhores e escravos. Em 1543, o rei de Portugal, que gozava do direito do padroado, dividiu as terras do Brasil em 15 capitanias.
A segunda etapa é marcada com a chegada dos jesuítas na baía de Todos os Santos em 29 de março de 1549. Foi neste período que Tomé de Souza chega ao Brasil. A efetiva evangelização do vasto território brasileiro esteve a cargo, em particular, desses missionários jesuítas. Com o fracasso das capitanias, em março de 1549, Tomé de Souza, o primeiro governador geral chega ao Brasil. Junto dele vem um grupo de jesuítas, que ficaram responsáveis pela catequese dos índios, sob a direção de pe. Manuel da Nóbrega, que fez sentir logo seu impacto no Brasil. Em 1550 chegaram mais 4 jesuítas e, três anos depois chegou o ilustre jesuíta das ilhas das Canárias, José de Anchieta, que rapidamente redigiu uma rústica gramática em língua tupi-guarani e adaptou os ensinamentos cristãos às melodias dos índios. No entanto, esse trabalho dos jesuítas sofreu o obstáculo do bispo Dom Pedro Fernandes Sardinha (um escravagista que queria a escravidão dos índios), que proibiu aos jesuítas que a catequese fosse administrada na língua dos índios. Em 1553, com a criação da província jesuítica no Brasil, os jesuítas mantiveram sua independência com respeito ao bispo e continuaram seu trabalho de evangelização. Assim a evangelização no Brasil foi lentamente acontecendo.
A colonização e evangelização na América Latina foi mais rápida do que no Brasil. Bartolomeu de Las Casas – uma ilustre figura, que de colonizador passa a libertador e defensor dos índios, bem como de uma sociedade onde todos tivessem os mesmo direitos – escreve sobre como foi essa evangelização já em 1502. Os colonizadores que chegam a América Latina eram artesões, lavradores, fidalgos, diferentes dos colonizadores do Brasil. No entanto, a mentalidade que dominava esses colonizadores era a das encomendas (escravos), que começa em 1503. Os frades dominicanos criticam essas praticas, acusando-as de atos desumanos. A “batalha” dos encomendeiros com os dominicanos termina quando a situação é relatada ao rei, gerando a 1ª legislação índia: “Leyes de Burgos” (1512). Assim, a evangelização na América Latina deve ser entendida dentro do contexto de colonização opressora. Em Porto Rico, por exemplo, todos os índios foram escravizados e tiveram que fugir para outras ilhas. A própria Igreja estava “dividida” no processo de evangelização. Enquanto os religiosos se preocupavam com a evangelização, o próprio bispo D. Alonso Manso (1º bispo da América), não defendeu nem índios nem escravos, pois também era encomendeiro. Em 1588, introduz escravos negros na construção da Catedral. O resultado de tudo isso é uma evangelização mais qualitativa do que quantitativa.
Diante de toda essa mentalidade, a mulher também sentia o peso da “descriminação”. Desempenhava uma função secundaria e de inferioridade, tanto na vida social como na eclesial, era preparada para a vida do lar e na educação dos filhos. As mulheres índias, pior ainda, pois sofriam diversas formas de opressões de todos os lados.
A vida religiosa vivia sobre o regime do padroado, e, portanto, era controlada pelo Estado. A mentalidade que dominava os conventos era a mesma sentida em todo processo de evangelização: o de descriminação e opressão.
Dentro dessa dinâmica de colonização opressora e evangelização dividida sobre diversos interesses, os índios e os negros foram profundamente “martirizados” em nome de uma vontade imposta pelos europeus com sendo a “vontade de Deus”.

A estruturação de tudo isso (pelo menos no Brasil) só começa a acontecer do século XIX para os nossos dias, quando a Igreja começa a se estruturar, bem como a formação de seminários, das famílias, etc. E começa a nascer assim uma nova mentalidade para os povos da América.

segunda-feira, 17 de novembro de 2014

A PALAVRA DO FREI PETRÔNIO Nº 733. O Carmo no Rio.

Relatório do Sínodo. A íntegra do texto em português

Publicamos a seguir a íntegra do Relatório do Sínodo dos Bispos sobre a Família. O relatório pode ser lido no original italiano aqui. A presente tradução foi feita por Família Cristã, 13-11-2014.
Eis o relatório.

INTRODUÇÃO

I PARTE
A escuta: o contexto e os desafios sobre a família
O contexto sociocultural
A relevância da vida afetiva
O desafio às pastorais

II PARTE
O olhar em Cristo: o Evangelho da família
O olhar em Jesus e a pedagogia divina na história da salvação
A família no desígnio salvífico de Deus
A família nos documentos da Igreja
A indissolubilidade do matrimônio e a alegria de viver junto
Verdade e beleza da família e misericórdia para com as famílias feridas e fragilizadas

III PARTE
O confronto: perspectivas pastorais

Anunciar o Evangelho da família hoje nos diferentes contextos
Guiar os nubentes no caminho de preparação ao matrimônio
Acompanhar os primeiros anos da vida matrimonial
Cuidados pastorais para com aqueles que vivem o matrimônio civil ou em convivência
Curar as famílias feridas (separados, divorciados não casados novamente, família monoparentais)

A atenção pastoral para com as pessoas de orientação homosexual
A transmissão da vida e o desafio da nãonatalidade
O desafio da educação e o papel da família na evangelização

CONCLUSÃO
INTRODUÇÃO

1. O Sínodo dos Bispos, reunido com o Papa, reflete sobre todas as famílias do mundo, com suas alegrias, fadigas e esperanças. Ele sente, de modo particular, o dever de agradecer a Deus a generosa fidelidade com que tantas famílias cristãs correspondem à sua vocação e missão. E o fazem com alegria e fé, também quando o caminho lhe oferece obstáculos, incompreensões e sofrimentos.
A essas famílias dirigimos o apreço, o agradecimento e o encorajamento de toda a Igreja e deste Sínodo. Na vigília de oração celebrada na Praça São Pedro, no sábado, 4 de outubro, sobre a família, o Papa Francisco evocou de maneira simples e concreta a centralidade da experiência da família na vida de todos. Disse o seguinte: “Já cai a noite sobre a nossa assembleia. É hora em que se volta de boa vontade para casa, a fim de reencontrar-se à mesma mesa, na segurança dos afetos, do bem realizado e recebido, nos encontros que aquecem o coração e o fazem crescer, com o vinho bom que antecipa nos dias do homem a festa que não termina. É também a hora mais difícil para quem se reencontra com a própria solidão, no crepúsculo amargo dos sonhos e dos projetos fracassados: quantas pessoas arrastam os dias no beco sem saída da resignação, do abandono, ou mesmo do rancor; em quantas casas falta o vinho da alegria, portanto, o sabor – a sabedoria mesma – da vida [...] De uns e de outros, lembramos esta noite com a nossa oração, uma oração por todos”.
2. Fonte de alegrias e de provas, de afetos profundos e de relações, por vezes feridas, a família é de fato “escola de humanidade” (Gaudium et Spes, 52), da qual se sente fortemente necessidade. Não obstante sejam tantos os sinais de crise da instituição familiar nos vários contextos da “aldeia global”, o desejo de família permanece vivo, especialmente entre os jovens, e motiva a Igreja, especialista em humanidade e fiel à sua missão, a anunciar constantemente e com profunda convicção o “Evangelho da família”, que lhe foi confiado mediante a revelação do amor de Deus em Jesus Cristo e, ininterruptamente, ensinado pelos Padres, pelos Mestres de espiritualidade e pelo Magistério da Igreja.
Para a Igreja, a família assume uma importância toda particular, e, no momento em que todos os fiéis são convidados a sair de si mesmos, é preciso que a família se redescubra como sujeito imprescindível para a evangelização. Lembramos o testemunho missionário de tantas famílias.
3. Sobre a realidade da família, decisiva e preciosa, o Bispo de Roma convidou o Sínodo dos Bispos a refletir na Assembleia Geral Extraordinária de outubro de 2014, para aprofundar depois tal reflexão na Assembleia Geral Ordinária, que acontecerá em outubro de 2015, além do ano inteiro que decorre entre os dois eventos sinodais. “O próprio reunir-se todos em torno do Bispo de Roma já é um evento de graça, em que a colegialidade episcopal se manifesta num sentido de discernimento espiritual e episcopal.” Foi assim que o Papa Francisco descreveu a experiência do Sínodo, indicando-lhe as finalidades na dúplice escuta dos sinais de Deus e da história dos homens e na dúplice e única fidelidade que daí deriva.
4. À luz dessas palavras, recolhemos os resultados de nossas reflexões e dos nossos diálogos, nas três partes que seguem: a escuta, para contemplar a realidade da família hoje, na complexidade de suas luzes e sombras; o olhar fixo em Cristo, a fim de repensar, com renovado frescor e entusiasmo, tudo quanto a revelação, transmitida pela fé da Igreja, nos diz sobre a beleza, sobre a finalidade e dignidade da família; o confronto, à luz do Senhor Jesus, a fim de discernir os caminhos pelos quais renovar a Igreja, e a sociedade, no seu empenho pela família, fundada sobre o matrimônio entre homem e mulher.


I PARTE
A escuta: o contexto e os desafios sobre a família

O contexto sociocultural
5. Fiéis ao ensinamento de Cristo, contemplamos a realidade da família hoje, em toda a sua complexidade, nas suas luzes e nas suas sombras. Pensamos nos pais, nos avós, nos irmãos e irmãs, nos parentes próximos e distantes e nos laços entre duas famílias que todo matrimônio une. A mudança antropológico-cultural influencia todos os aspectos da vida e requer uma aproximação analítica e diversificada. Ressaltam-se, antes de tudo, os aspectos positivos: maior liberdade de expressão e melhor reconhecimento dos direitos da mulher e da criança, ao menos em algumas regiões. Mas, por outro lado, é preciso considerar também o crescente perigo representado pelo individualismo exasperado, que desnatura os laços familiares e acaba por considerar cada membro da família como se fosse uma ilha, e faz prevalecer em certos casos a ideia de um sujeito que se constrói segundo os próprios desejos, assumidos como um absoluto. A isso, acrescenta-se a crise da fé que atinge tantos católicos e, com frequência, está na origem das crises do casamento e da família.
6. Uma das maiores pobrezas da cultura atual é a solidão, fruto da ausência de Deus na vida das pessoas, bem como da fragilidade das relações. Existe uma sensação geral de impotência, perante a realidade socioeconômica que frequentemente acaba por destruir as famílias. Dessa forma, é pela crescente pobreza e precariedade de trabalho que ela vive por vezes como um verdadeiro pesadelo, ou por razão de um rigor por demais pesado que certamente desencoraja os jovens para o matrimônio. Com frequência, as famílias se sentem abandonadas pelo desinteresse ou pela pouca atenção da parte das instituições. As consequências negativas do ponto de vista da organização social são evidentes: da crise demográfica às dificuldades educacionais, da dificuldade em acolher a vida nascente até o perceber a presença dos anciãos como um peso, até mesmo a difundir um mal-estar afetivo que chega por vezes até a violência. É responsabilidade do Estado criar condições, através de leis e de trabalho a fim de garantir o futuro dos jovens e ajudá-los a realizar seu projeto de fundar uma família.
7. Há contextos culturais e religiosos que propõem desafios particulares. Em algumas sociedades, ainda vigora a prática da poligamia e, em alguns contextos tradicionais, a prática do “matrimônio por etapa”. Em outros contextos, permanece a prática dos matrimônios combinados. Nos países em que a Igreja católica é minoritária, são numerosos os matrimônios mistos e de disparidade de culto, com todas as dificuldades que isto comporta em relação à configuração jurídica, ao batismo e à educação dos filhos e ao recíproco respeito do ponto de vista da diversidade da fé. Nesses matrimônios, pode existir o perigo do relativismo ou da indiferença, mas pode haver também a possibilidade de favorecer o espírito ecumênico ou o diálogo inter-religioso, numa harmoniosa convivência de comunidade que vive no mesmo lugar. Em muitos contextos, e não somente no Ocidente, vai-se difundindo amplamente a práxis da convivência que precede o matrimônio, ou, ainda, de convivência não orientada para assumir a forma de um vínculo institucional. A isso se acrescente frequentemente uma legislação civil que compromete o matrimônio e a família. Por causa da secularização, em muitas partes do mundo, a referência a Deus é fortemente diminuta e a fé não é mais partilhada socialmente.
8. Muitas são as crianças que nascem fora do casamento, especialmente em alguns países, e muitas crescem com um só dos pais, ou num contexto familiar alargado ou reconstituído. O número de divórcios é crescente e, não raro, é o caso de escolhas determinadas unicamente por fatores de ordem econômica. As crianças são frequentemente objeto de contendas entre os pais, e os filhos são as verdadeiras vítimas das dilacerações familiares. Os pais frequentemente estão ausentes, não só por questões econômicas, em situações em que se percebe a necessidade de assumiremclaramente a responsabilidade pelos filhos e pela família. A dignidade da mulher precisa ser defendida e promovida. De fato, hoje, em muitos contextos a mulher é objeto de discriminação e, ainda, o dom da maternidade é com frequência penalizado, e não apresentado como valor. Não são nem mesmo esquecidos os crescentes fenômenos de violência dos quais a mulher é a vítima, e por vezes até mesmo no seio da família, e a grave e difundida mutilação genital da mulher em algumas culturas. O desfrute sexual da infância constitui uma realidade das mais escandalosas e perversas da sociedade atual. Também as sociedades atingidas pela violência por causa da guerra, do terrorismo ou da presença da criminalidade organizada, assistem a situações familiares deterioradas, sobretudo nas grandes metrópoles; e nas suas periferias cresce o assim chamado fenômeno das crianças prostituídas. A migração também representa outro sinal dos tempos a ser enfrentada com toda a carga de consequências na vida familiar.

A relevância da vida afetiva
9. Diante desse quadro social delineado, encontram-se em muitas partes do mundo, nos particulares, uma necessidade maior de cuidar da própria pessoa, de conhecer-se interiormente, de viver melhor em sintonia com as próprias emoções e os próprios sentimentos, de buscar relações afetivas de qualidade; essa justa aspiração pode levar ao desejo de empenhar-se na construção de relações de doação e reciprocidades criativas, responsáveis e solidárias, tais como as familiares. O perigo do individualismo e o risco de viver de forma egoísta são grandes. O desafio para a Igreja é de ajudar os casais no amadurecimento da dimensão emocional e o desenvolvimento afetivo, mediante a promoção do diálogo, da virtude e da confiança no amor misericordioso de Deus. O pleno desenvolvimento exigido pelo matrimônio cristão pode ser um forte antídoto contra a tentação do individualismo egoísta.
10. No mundo de hoje, não faltam tendências culturais que parecem impor uma afetividade sem limites, de que se querem explorar todas as consequências, também aquelas mais complexas. De fato, a questão da fragilidade afetiva é de grande atualidade: uma afetividade narcisista, instável e mutável, que nem sempre ajuda os sujeitos a atingirem maior maturidade. É preocupante certa divulgação da pornografia e da comercialização do corpo, favorecida também pelo uso distorcido da internet e que denuncia a situação daquelas pessoas que são obrigadas a praticar a prostituição. Nesse contexto, os casais são por vezes inseguros, hesitantes, e têm de se esforçar para encontrar as maneiras de crescer. Muitos são aqueles que tendem a permanecer nos estados primários da vida emocional e sexual. A crise dos casais desestabiliza a família e pode levar até à separação, e os divórcios produzem sérias consequências sobre os adultos, os filhos e a sociedade, enfraquecendo o indivíduo e os laços sociais. Também a queda demográfica, causada por uma mentalidade contrária à natalidade e promovida por uma política mundial de saúde reprodutiva, não somente determina uma situação em que a sucessão das gerações não é mais assegurada, mas arrisca conduzir ao longo do tempo um empobrecimento econômico e a uma perda de esperança no futuro. O desenvolvimento das biotecnologias têm tido também um forte impacto na natalidade.

O desafio às pastorais
11. Nesse contexto, a Igreja sente necessidade de dizer uma palavra de verdade e de esperança. É preciso partir da convicção de que o homem vem de Deus e, por isso, uma reflexão capaz de propor as grandes perguntas, sobre o significado de ser homem, possa encontrar terreno fértil nas expectativas mais profundas da humanidade. Os grandes valores do matrimônio e da família cristã correspondem à busca que perpassa a existência humana ainda mesmo num tempo assinalado pelo individualismo e pelo hedonismo. É preciso acolher a pessoa na sua existência concreta, saber sustentar a busca, encorajar o desejo de Deus e a vontade de sentir-se plenamente parte da Igreja, também em quem experimentou o fracasso ou se encontra em situações de segregação. A mensagem cristã traz sempre em si a realidade e a dinâmica da misericórdia e da verdade, que convergem para Cristo.

II PARTE

O olhar em Cristo: o Evangelho da família

O olhar em Jesus e a pedagogia divina na história da salvação
12. Com a finalidade de “verificar o nosso passo no terreno dos desafios contemporâneos, a condição decisiva é a de manter fixo o olhar em Jesus Cristo, manter-se na contemplação e na adoração da sua face [...]. De fato, toda vez que voltamos à fonte da experiência cristã, abrem-se de imediato novos caminhos e possibilidades impensadas” (Papa Francisco, Discurso de 4 de outubro de 2014). Jesus olhou com amor e ternura as mulheres e os homens que encontrou, acompanhando os seus passos com verdade, paciência e misericórdia, ao anunciar-lhes as exigências do Reino de Deus.
13. Dado que a ordem da criação é determinada a orientar-se para Cristo, ocorre distinguir, sem separar, os diferentes graus mediante os quais Deus comunica à humanidade a graça da aliança. Em razão da pedagogia divina, cuja ordem da criação envolve o da redenção através de etapas sucessivas, é preciso compreender a novidade do sacramento nupcial cristão, em continuidade com o matrimônio natural das origens. É assim que se entende o modo de agir salvífico de Deus, seja na criação, seja na vida cristã. Na criação: pois tudo foi feito por meio de Cristo e em vista dele (cf. Cl 1,16), os cristãos “alegram-se por descobrir e prontos para respeitar aqueles germes do Verbo que se encontram aí escondidos; devem seguir atentamente a transformação profunda que se verifica no meio dos povos” (Ad Gentes,11). Na vida cristã: ao passo que no batismo o crente é inserido na Igreja mediante a Igreja doméstica, que é a sua família, ele empreende aquele “processo dinâmico que avança gradualmente com a progressiva integração dos dons de Deus” (Familiaris Consortio, 11), mediante a conversão contínua ao amor, que salva do pecado e dá plenitude à vida.
14. O mesmo Jesus, referindo-se ao desígnio primeiro do casal humano, reafirma a união indissolúvel entre o homem e a mulher, embora dizendo que “pela dureza de vossos corações, Moisés permitiu-vos repudiar vossas mulheres, mas no princípio não foi assim” (Mt 19,8). A indissolubilidade do matrimônio (“Portanto, aquilo que Deus uniu o homem não separe” (Mt 19,6), não deve ser interpretada, antes de tudo como um “jugo” imposto aos homens mas, sim, como um “dom” feito às pessoas unidas em matrimônio. Desse modo, Jesus mostra como a condescendência divina acompanha sempre o caminho humano, cura e transforma com a sua graça o coração endurecido, orientando para o princípio, através do caminho da cruz. Dos Evangelhos emerge claramente o exemplo de Jesus, que é modelo para a Igreja. De fato, Jesus assumiu uma família, deu início aos sinais na festa nupcial de Caná, anunciou a mensagem referente ao significado do matrimônio como plenitude da revelação, que recupera o projeto original de Deus (cf. Mt 19,3). Mas, ao mesmo tempo, pôs em prática a doutrina ensinada, manifestando assim o verdadeiro significado da misericórdia. Isso aparece claramente nos encontros com a samaritana ( cf. Jo 4,1-30) e com a adúltera (cf. Jo 8,1-11), em que Jesus, numa atitude de amor para com a pessoa pecadora, leva ao arrependimento e à conversão (“vai e não peques mais”), condição para o perdão.

A família no desígnio salvífico de Deus
15. As palavras de vida eterna que Jesus deixou aos seus discípulos compreendiam o ensinamento sobre o matrimônio e a família. Tal ensinamento de Jesus nos permite distinguir em três etapas fundamentais o projeto de Deus sobre o matrimônio e a família. No início, há a família de origem, quando Deus criador instituiu o primeiro matrimônio entre Adão e Eva, como sólido fundamento da família. Deus não somente criou o ser humano macho e fêmea (cf. Gn 1,27), mas os abençoou a fim de que fossem fecundos e se multiplicassem (cf. Gn 1,28). Por isso, “o homem deixará seu pai e sua mãe e se unirá à sua mulher, e os dois serão uma só carne” (Gn 2,24). Essa união foi prejudicada pelo pecado e tornou-se a forma histórica do matrimônio do Povo de Deus, pelo que Moisés concedeu a possibilidade de dar um atestado de divórcio (cf. Dt 24,1ss). Tal forma era vigente no tempo de Jesus. Com seu advento e a reconciliação do mundo decaído, graças à redenção por Ele operada, terminou a era inaugurada com Moisés.
16. Jesus, que reconciliou consigo todas as coisas, deu ao matrimônio sua forma original (cf. Mc 10,1-12). A família e o matrimônio foram redimidos por Cristo (cf. Ef 5,21-32), foram restaurados à imagem da Santíssima Trindade, mistério do qual surge todo amor verdadeiro. A aliança esponsal, inaugurada na criação e revelada na história da salvação, recebe a plena revelação do seu significado em Cristo e na sua Igreja. Por Cristo, através da Igreja, o matrimônio e a família recebem a graça necessária para testemunhar o amor de Deus e viver a vida de comunhão. O Evangelho da família atravessa a história do mundo desde a criação do homem à imagem e semelhança de Deus (cf. Gn 1,26-27) até o cumprimento do mistério da Aliança em Cristo, e no fim dos séculos, com as núpcias do Cordeiro (cf. Ap 19,9; João Paulo II, Catechesi sull´amore umano).

A família nos documentos da Igreja
17. “No decurso dos séculos, a Igreja não deixou faltar seu constante ensinamento sobre o matrimônio e a família. Uma das mais altas expressões desse Magistério foi proposta pelo Concílio Ecumênico Vaticano II, na Constituição Pastoral Gaudium et Spes, que dedica um capítulo inteiro sobre a promoção da dignidade matrimonial e a família (cf. Gaudium et Spes, 47-52). Este definiu o matrimônio como comunidade de vida e de amor (cf. Gaudium et Spes, 48), pondo o amor no centro da família, e mostrou, ao mesmo tempo, a verdade desse amor perante as diversas formas de reducionismo presente na cultura contemporânea. O “verdadeiro amor entre homem e mulher” (Gaudium et Spes, 49) implica mútua doação de si, inclui e integra a dimensão sexual e a afetividade, correspondendo ao desígnio divino (cf. Gaudium et Spes, 48-49). Além disso, Gaudium et Spes, 48, sublinha o enraizamento dos esposos em Cristo: Cristo Senhor “Vem ao encontro dos esposos cristãos no sacramento do matrimônio” e com eles permanece. Na encarnação, ele assume o amor humano, purifica-o e leva-o à plenitude, e doa aos esposos, mediante o seu Espírito, a capacidade de vivê-lo, impregnando toda a sua vida de fé, de esperança e de caridade. Dessa forma, os esposos são como que consagrados e, mediante uma graça própria, edificam o Corpo de Cristo e constituem uma Igreja doméstica (cf. Lumen Gentium, 11), de modo que a Igreja, embora conservando plenamente o seu mistério, defende a família cristã, que o manifesta de modo genuíno” (Instrumentum Laboris, 4).
18. “Nos passos do Concílio Vaticano II, o Magistério pontifício aprofundou a doutrina sobre o matrimônio e sobre a família. De modo particular, Paulo VI, com a Encíclica sobre a encíclica Humanae Vitae, evidenciou a íntima ligação entre amor conjugal e geração da vida. São João Paulo II dedicou à família uma atenção particular através das suas catequeses sobre o amor humano, a Carta às Famílias (Gratissimam Sane) e, sobretudo, com a Exortação Apostólica Familiaris Consortio. Nesses documentos, o Pontífice definiu a família como ‘caminho da Igreja’; deu uma visão de conjunto sobre a vocação ao amor do homem e da mulher; propôs as linhas fundamentais para a pastoral da família e para a presença da família na sociedade. De modo particular, ao tratar da caridade conjugal (cf. Familiaris Consortio, 13), descreveu o modo em que os cônjuges, no seu mútuo amor, recebem o dom do Espírito de Cristo e vivem o seu chamado à santidade” (Instrumentum Laboris, 5).
19. “Bento XVI, na Encíclica Deus Caritas Est, ele voltou ao tema da verdade do amor entre homem e mulher, que acende-se totalmente, só à luz do amor de Cristo crucificado (cf. Deus Caritas Est, 2). Ele salienta, que: ‘O matrimônio baseado num amor exclusivo e definitivo torna-se o ícone do relacionamento entre Deus e seu povo e vice-versa: maneira de Deus amar torna-se a medida do amor humano’ (Deus Caritas Est, 11) . Além disso, na Encíclica Caritas In Veritate, destaca a importância do amor como princípio da vida em sociedade (cf. Caritas In Veritate, 44), um lugar onde você aprende a experiência do bem comum” (Instrumentum Laboris, 6) .
20. “O Papa Francisco, na Encíclica Lumen Fidei, sobre a ligação entre a família e a fé, escreve: “O encontro com Cristo, o deixar-se guiar pelo seu amor, alarga o horizonte da existência, doa-lhe uma esperança sólida que não desilude. A fé não é um refúgio para as pessoas sem coragem, mas a dilatação da vida. Ela faz descobrir um grande chamado, a vocação para o amor, e assegura que esse amor é confiável, que vale a pena entregar-se a ele, porque o seu fundamento se encontra na fidelidade a Deus, que é mais forte do que toda a nossa fragilidade” (Lumen Fidei, 53)”. (Instrumentum Laboris,7).

A indissolubilidade do matrimônio e a alegria de viver junto
21. O dom recíproco, que constitui o matrimônio sacramental, está radicado na graça do batismo, que estabelece a aliança fundamental de toda pessoa com Cristo na Igreja. No recíproco acolhimento e com a graça de Cristo, os nubentes prometem-se dom total, fidelidade e abertura para a vida, eles reconhecem como elementos constitutivos do matrimônio os dons que Deus lhes oferece, tomando a sério o seu recíproco empenho, em seu nome e perante a Igreja. Ora, na fé, é possível assumir os bens do matrimônio como empenhos melhor sustentáveis, mediante a ajuda da graça do sacramento. Deus consagra o amor dos esposos e o confirma com a indissolubilidade, oferecendo-lhes ajuda para viver a fidelidade, a integração recíproca e a abertura à vida. Portanto, o olhar da Igreja volta-se para os esposos como ao coração da família inteira, que volta, também ela, o olhar para Jesus.
22. Nessa mesma perspectiva, fazendo nosso o ensinamento do Apóstolo, segundo o qual toda a criação foi pensada em Cristo e em vista dele (cf. Cl 1,16), o Concílio Vaticano II quis exprimir seu apreço ao matrimônio natural e aos elementos válidos presentes em outras religiões (cf Nostra Aetate, 2) e nas culturas, não obstante os limites e as insuficiências (cf Ad Gentes,11), poderia ser aplicada, por alguns aspectos, também à realidade matrimonial e familiar de tantas culturas e de pessoas não cristãs. Portanto, há elementos válidos também em algumas formas fora do matrimônio cristão −, e entretanto, fundados em relações estáveis e verdadeiras entre um homem e uma mulher −, e que, em todo caso, consideramos sejam a ele orientados. Com o olhar voltado para a sabedoria humana dos povos e das culturas, a Igreja reconhece também essa família como a célula básica e fecunda da convivência humana.

Verdade e beleza da família e misericórdia para com as famílias feridas e fragilizadas
23. Com íntima e profunda consolação, a Igreja contempla as famílias que permanecem fiéis aos ensinamentos do Evangelho, agradecendo-as e encorajando-as pelo testemunho que oferecem. De fato, graças a elas, a beleza do matrimônio indissolúvel e fiel permanece acreditável e fiel para sempre. Na família, “que se poderia chamar de Igreja doméstica” (Lumen Gentium, 11), amadurece a primeira experiência eclesial de comunhão entre as pessoas, na qual se reflete, pela graça, o mistério da Santa Trindade. “É aqui que se aprende o esforço e a alegria do trabalho, o amor fraterno, o perdão generoso, sempre renovado e, sobretudo, o culto divino através da oração e da oferta da própria vida” (Catecismo da Igreja Católica, 1657). A Santa Família de Nazaré é o modelo admirável, em cuja escola nos “compreendemos porque devemos ter uma disciplina espiritual, se quisermos seguir a doutrina do Evangelho e tornar-nos discípulos de Cristo” (Paulo VI, Discurso sobre Nazaré, 5 de janeiro 1964). O Evangelho da família alimenta também aquelas sementes que ainda esperam para amadurecer e deve cuidar daquelas árvores que se tornaram áridas e necessitam de cuidados.
24. A Igreja, como mestra segura e mãe solícita, embora reconheça que para os batizados não haja outro vínculo nupcial senão o do batismo, e que toda ruptura deste é contra a vontade de Deus, tem consciência da fragilidade de muitos de seus filhos que sentem dificuldade no caminho da fé. “Portanto, sem diminuir o valor do ideal evangélico, precisa acompanhar com misericórdia e paciência as possíveis etapas de crescimento das pessoas que se vão construindo dia por dia. [...] Um pequeno passo, em meio aos grandes limites humanos, pode ser mais agradável a Deus do que uma vida externamente correta que transcorre seus dias sem enfrentar maiores dificuldades. A todos deve chegar o consolo e o estímulo do amor salvífico de Deus, que age misteriosamente em cada pessoa, não obstante seus defeitos e suas quedas” (Evangelii Gaudium, 44).
25. Sobre uma aproximação pastoral das pessoas que contraíram matrimônio civil, e que são divorciados e casados pela segunda vez, ou que simplesmente convivem, compete à Igreja revelar-lhes a pedagogia divina da graça na sua vida e ajudá-las a chegar à plenitude no plano de Deus para elas. Seguindo o olhar de Cristo, cuja luz brilha em todo homem (cf. Jo,1,9; Gaudium et Spes, 22), a Igreja volta-se amorosamente para aqueles que participam de sua vida de modo incompleto, e reconhece que a graça de Deus age também em suas vidas, dando-lhes coragem para fazer o bem, para cuidar com amor um do outro e estar a serviço da comunidade na qual vivem e trabalham.
26. A Igreja olha com apreensão a desconfiança de tantos jovens para com o compromisso conjugal, sofre com a precipitação com que tantos fiéis decidem pôr fim ao vínculo conjugal, assumindo outros. Tais fiéis, que fazem parte da Igreja, precisam de uma atenção pastoral misericordiosa e encorajadora, que distinga adequadamente as situações. Os jovens batizados são encorajados a não hesitarem diante da riqueza que o sacramento do matrimônio oferece aos seus projetos de amor, fortes pela sustentação que lhes dá a graça de Cristo e pela possibilidade de participarem plenamente da vida da Igreja.
27. Nesse sentido, uma nova dimensão da atual pastoral familiar consiste em dar atenção à realidade dos matrimônios civis entre homem e mulher, aos matrimônios tradicionais e, feitas as devidas diferenças, também às convivências. Quando a união atinge uma estabilidade notável através de um vínculo público, tem uma conotação de afeto profundo, de responsabilidade em relação à prole, à capacidade de superar as provações pode ser vista então como uma ocasião de acompanhar um desenvolvimento para o sacramento do matrimônio. Mas com frequência, ao invés, a convivência se estabelece não em vista de um futuro matrimônio, sem intenção alguma de estabelecer uma relação institucional.
28. Conforme o olhar misericordioso de Jesus, a Igreja deve acompanhar com atenção e solicitude os seus filhos mais frágeis, marcados pelo amor ferido e desviado, dando-lhes novamente confiança e esperança, como a luz do farol de um porto ou de uma chama posta no meio das pessoas, a fim de iluminar aqueles que se desviaram da rota ou se encontram em meio à tempestade. Conscientes de que a misericórdia maior é dizer a verdade com amor, vamos para além da compaixão. O amor misericordioso, assim como atrai e une, também transforma e eleva. Convida à conversão. Do mesmo modo, entendemos a atitude do Senhor, que não condena a adúltera, mas lhe pede que não peque mais (cf. Jo 8,1-11).

III PARTE
O confronto: perspectivas pastorais

Anunciar o Evangelho da família hoje nos diferentes contextos
29. O diálogo do Sínodo considerou atentamente algumas instâncias pastorais mais urgentes a serem confiadas à concretização em cada Igreja local, na comunhão cum Petro et sub Petro. O anúncio do Evangelho da família constitui uma urgência para a Nova Evangelização. A Igreja é chamada a atuá-lo com ternura de mãe e clareza de mestra (cf. Ef 4,15), na fidelidade à kenosis misericordiosa de Cristo. A verdade se encarna na fragilidade humana não para condená-la, mas para salvá-la (cf. Jo 3,1-17).
30. Evangelizar é responsabilidade de todo o povo de Deus, cada qual segundo o próprio ministério e carisma. Sem o testemunho alegre dos cônjuges e das famílias, igrejas domésticas, o anúncio, ainda que correto, arrisca a ser incompreendido ou a afogar-se no mar de palavras que caracteriza a nossa sociedade (cf. Novo Milennio Ineunte, 50). Os Padres sinodais sublinharam várias vezes que as famílias católicas, em força da graça do sacramento nupcial, são chamadas a ser, elas mesmas, sujeitos ativos da Pastoral Familiar.
31. Será decisivo ressaltar o primado da graça, e, portanto, a possibilidade de que o Espírito Santo a conceda no sacramento. Trata-se de fazer a experiência de que o Evangelho da família é alegria que “enche o coração e a vida inteira”, porque em Cristo “somos libertados do pecado, da tristeza, do vazio interior e do isolamento” (Evangelii Gaudium,1). À luz da parábola do semeador (cf. Mt 13,3), é nossa tarefa cooperar na semeadura: o restante é obra de Deus. Não é preciso nem mesmo esquecer que a Igreja que prega sobre a família é sinal de contradição.
32. É por isso que se requer de toda a Igreja uma conversão missionária: é preciso não se manter num anúncio meramente teórico e desligado dos problemas reais das pessoas. Jamais se esqueça de que a crise de fé é que trouxe a crise do matrimônio e da família; e, como consequência, interrompeu-se com frequência a transmissão da mesma fé dos pais para os filhos. Perante uma fé forte, a imposição de algumas perspectivas culturais que enfraquecem a família e o matrimônio não encontra espaço.
33. A conversão deve estender-se também à linguagem, para que seja de fato significativa. O anúncio deve fazer experimentar que o Evangelho da família é resposta às atitudes mais profundas da pessoa humana: à sua dignidade e à plena realização na reciprocidade, na comunhão e na fecundidade. Não se trata apenas de apresentar uma norma, mas de propor valores, respondendo à necessidade de que isso aconteça também nos países mais secularizados.
34. A Palavra de Deus é fonte de vida e espiritualidade para a família. Toda a pastoral familiar deverá se deixar modelar interiormente e formar membros da Igreja doméstica, mediante a leitura orante e eclesial da Sagrada Escritura. A Palavra de Deus não é somente uma boa notícia para a vida particular da pessoa, mas também um critério de julgamento e uma luz para discernir nos vários desafios que enfrentam os cônjuges e as famílias enfrentam.

35. Ao mesmo tempo, muitos Padres sinodais insistiram num aspecto mais positivo das riquezas das várias experiências religiosas, sem calar sobre suas dificuldades. Nessas diversas realidades religiosas e na grande diversidade cultural que caracteriza as nações, é oportuno apreciar primeiro as possibilidades positivas e, à luz destas, avaliar seus limites e carências.
36. O matrimônio cristão é uma vocação que se recebe com uma adequada preparação num itinerário de fé, com discernimento maduro, e não deve ser considerado apenas como uma tradição cultural ou uma exigência social ou jurídica. Portanto, é preciso realizar percursos que acompanhem a pessoa e o casal, de modo que à comunicação dos conteúdos da fé se acrescente a experiência de vida de toda a comunidade eclesial.
37. Foi repetidamente lembrada a necessidade de uma renovação radical da práxis pastoral à luz do Evangelho da família, que supere a ótica individualista que ainda a caracteriza. Por isso se tem insistido sobre a renovação da formação dos presbíteros, dos diáconos, dos catequistas e de outros agentes de pastoral, mediante um maior envolvimento das próprias famílias.
38. Ao mesmo tempo, encareceu-se a necessidade de uma evangelização que denuncie com franqueza os condicionamentos culturais, sociais, políticos e econômicos, como o excessivo espaço dado à lógica do mercado, o qual impede uma verdadeira vida familiar,= e que determina discriminação, pobreza, exclusões e violência. Por isso, desenvolvam-se um diálogo e uma cooperação com as estruturas sociais e encorajem-se e sustentem-se os leigos que se empenham, como cristãos, em âmbito cultural e sociopolítico.

Guiar os nubentes no caminho de preparação ao matrimônio
39. A complexa realidade social e os desafios que a família de hoje deve enfrentar requerem um empenho maior de toda a comunidade cristã, em preparação dos nubentes ao matrimônio. É preciso lembrar a importância das virtudes. Entre elas, a castidade, como condição preciosa para o genuíno crescimento do amor interpessoal. Relativamente a essa necessidade, os Padres sinodais concordam em sublinhar a exigência de um maior envolvimento de toda a comunidade, privilegiando o testemunho das próprias famílias, além de uma radical preparação ao matrimônio no caminho de iniciação cristã, sublinhando o nexo do matrimônio com o batismo e os outros sacramentos. Evidenciou-se ao mesmo tempo a necessidade de programas específicos para a preparação próxima ao matrimônio, que sejam uma verdadeira experiência de participação na vida eclesial e que aprofundem os vários aspectos da vida familiar.

Acompanhar os primeiros anos da vida matrimonial
40. Os primeiros anos de matrimônio constituem um período vital e delicado, durante os quais os casais crescem na consciência dos desafios e do significado do matrimônio. Daqui emerge a exigência de um acompanhamento pastoral que continue após a celebração do sacramento (cf. Familiaris Consortio, parte III). Resulta, de grande importância para essa pastoral, a presença de casais de esposos com experiência. A paróquia é considerada como o lugar onde os casais experientes possam ser colocados à disposição dos mais jovens, com o eventual concurso de associações, movimentos eclesiais e novas comunidades. É preciso encorajar os esposos para uma atitude fundamental de acolhimento do grande dom dos filhos. Destaca-se a importância da espiritualidade familiar, da oração e da participação na Eucaristia dominical, encorajando os casais a reunirem-se com regularidade para promover o crescimento da vida espiritual e a solidariedade nas exigências concretas da vida. Liturgia, práticas devocionais e Eucaristia, celebradas pelas famílias, sobretudo no aniversário de casamento, são mencionadas como vitais para favorecer a evangelização através da família.

Cuidados pastorais para com aqueles que vivem o matrimônio civil ou em convivência
41. Enquanto continua a anunciar e promover o matrimônio cristão, o Sínodo encoraja também o discernimento pastoral das situações de tantos que não vivem mais essa realidade. É importante entrar em diálogo pastoral com tais pessoas, a fim de evidenciar os elementos de sua vida que possam conduzir a uma maior abertura para o Evangelho do matrimônio, na sua plenitude. Os pastores devem favorecer a evangelização e o crescimento humano e espiritual. Uma nova sensibilidade da pastoral moderna consiste em colher os elementos positivos presentes nos matrimônios civis e, respeitadas as devidas diferenças, nas convivências. Acontece que na proposta eclesial, embora afirmando com clareza a mensagem cristã, indicamos também elementos construtivos nessas situações que não correspondem ainda ou que não mais correspondem.
42. Notou-se também, em muitos países, um “crescente número de casais que convivem ad experimentum, sem qualquer matrimônio, nem canônico, nem civil” (Instrumentum Laboris, 81). Em alguns países, isso acontece sobretudo no matrimônio tradicional, acertado entre a família e, frequentemente, celebrado em várias etapas. Em outros países, ao contrário, cresce continuamente o número daqueles que, após terem vivido juntos por longo tempo, pedem a celebração do matrimônio na igreja. A simples convivência é, frequentemente, aceita por causa da mentalidade geral contrária às instituições e aos empenhos definitivos, mas também pela espera de uma segurança existencial (trabalho e salário fixo). Em outros países, ao invés, as uniões são de fato muito numerosas, não somente pela rejeição dos valores da família e do matrimônio, mas sobretudo pelo fato de que o se desposar é percebido como um luxo, por causa das condições sociais, de modo que a miséria material impele a viver uniões de fato.
43. Todas essas situações são enfrentadas de modo construtivo, procurando transformá-las em oportunidade de caminho para a plenitude do matrimônio e da família, à luz do Evangelho. Trata-se de acolhê-las e acompanhá-las com paciência e delicadeza. A esse respeito é importante o testemunho atraente de autênticas famílias cristãs, como sujeitos da evangelização da família.

Curar as famílias feridas (separados, divorciados não casados novamente, famílias monoparentais)
44. Quando os esposos vivem problemas nas suas relações, devem contar com a ajuda e o acompanhamento da Igreja. A pastoral da caridade e da misericórdia tende a recuperar as pessoas e as relações. A experiência mostra que, com uma adequada ajuda e com a ação de reconciliação da graça, um grande porcentual de crises matrimoniais se supera de maneira satisfatória. Saber perdoar e sentir-se perdoado é uma experiência fundamental na vida familiar. O perdão entre os esposos permite experimentar um amor que dura para sempre e que não passa jamais (cf. 1Cor 13,8). Às vezes é difícil, mas quem recebeu o perdão de Deus tem a força para dar o autêntico perdão que regenera a pessoa.
45. No Sínodo ressoou uma clara necessidade de decisões pastorais corajosas. Reconfirmando com força a fidelidade ao Evangelho da família e reconhecendo que a separação e o divórcio são sempre uma ferida que causa profundo sofrimento para os cônjuges e filhos filhos, os Padres sinodais sentiram a urgência de novos caminhos pastorais, a partir da realidade real da fragilidade familiar, sabendo que essa, com frequência, é “mais percebida” como sofrimento do que escolhida com plena liberdade. Trata-se de situações diferentes, seja por fatores pessoais, culturais ou socioeconômicos. É preciso um olhar diferenciado, como são João Paulo II sugeria (cf. Familiaris Consortio, 84).
46. Cada família seja, primeiro de tudo, ouvida com respeito e amor, fazendo-se companheiro de caminhada, como Cristo com os discípulos na estrada de Emaús. Valham de modo particular, em tal situação, as palavras do Papa Francisco: “A Igreja deverá iniciar os seus membros – sacerdotes, religiosos e leigos – nesta ‘arte de acompanhamento’, a fim de que todos aprendam sempre a tirar as sandálias perante a terra santa do outro (cf. Ex 3,5). Devemos dar ao nosso caminho o ritmo salutar da proximidade, com um olhar respeitoso e pleno de compaixão, mas que, ao mesmo tempo, seja sadio, livre e encorajador, para amadurecer na vida cristã” (Evangelii Gaudium, 169).
47. É indispensável um discernimento particular para acompanhar pastoralmente os separados, os divorciados, os abandonados. Acolha-se e valorize-se, sobretudo, o sofrimento daqueles que são constrangidos pelos maus-tratos do cônjuge, a romper a convivência. O perdão pela injustiça sofrida não é fácil, mas é um caminho que a graça torna possível. Surge daqui a necessidade de uma pastoral da reconciliação, através também de centros de acolhida especializada, a ser implantada nas dioceses. Ao mesmo tempo, tenha-se em conta que é sempre necessário considerar, de modo leal e construtivo, as consequências para os filhos, da separação ou do divórcio, as quais são sempre vítimas inocentes da situação. Eles não podem ser um “objeto” de contendas e devem ser considerados na forma melhor, a fim de que possam superar o trauma da cisão familiar e crescer, o mais possível, de maneira serena. Em todo caso, a Igreja deve sempre ter em conta a injustiça que, frequentemente, causa a situação do divórcio. Especial atenção seja dada ao acompanhamento das famílias monoparentais, de modo particular sejam ajudadas as mulheres que devem levar sozinhas a responsabilidade da casa e da educação dos filhos.
48. Um grande numero de Padres sublinharam a necessidade de tornar mais acessível e ágil e, possivelmente gratuito, os procedimentos para reconhecimento dos casos de nulidade. Entre as propostas, foram indicadas: a superação da necessidade da apresentação da dupla sentença concorde; a possibilidade de determinar, por via administrativa, sob responsabilidade do bispo diocesano; um processo sumário a ser enviado nos casos de nulidade notória. Todavia, alguns Padres se dizem contrários a essa proposta, porque não garantiriam um juízo confiável. Contesta-se que, em todos esses casos, trata-se de um acerto entre a verdade da validade do vínculo. De acordo com outras propostas devem, então, ser dada a oportunidade de dar importância ao papel da fé dos nubentes, em ordem à validade do sacramento do matrimônio, entre os batizados, mantendo que todos os casamentos são sacramento válido.
49. Acerca das causas matrimoniais, a atenuação do procedimento exigido por muitos, além da preparação de agentes suficientes, clérigos e leigos com dedicação particular, exige que se tenha em conta a responsabilidade do bispo diocesano, o qual poderia, na sua diocese, encarregar consulentes devidamente preparados que possam gratuitamente conciliar as partes sobre a validade do seu matrimônio. Tal função pode ser realizada por um oficial ou pessoas qualificadas (cf. Dignitas Connubii, art. 113,1).
50. As pessoas divorciadas, mas não casadas em segundas núpcias, que frequentemente são testemunhas da fidelidade matrimonial, podem ser encorajadas a encontrar na Eucaristia o alimento que as sustenta no seu estado. A comunidade local e os pastores devem acompanhar tais pessoas com solicitude, sobretudo quando há filhos ou é grave a situação dessas pessoas, por causa da pobreza.

51. Também a situação dos divorciados, casados pela segunda vez, exige um atento discernimento e um acompanhamento de grande respeito, evitando-se toda linguagem e atitude que os façam se sentirem discriminados e se promova a sua participação na vida da comunidade. Ter cuidado com eles não é, para a comunidade cristã, um enfraquecimento da sua fé e do seu testemunho sobre a indissolubilidade do matrimônio; antes, esse cuidado exprime exatamente a sua caridade.
52. Refletiu-se sobre a possibilidade de que os divorciados e casados em segundas núpcias tenham acesso aos sacramentos da Penitência e da Eucaristia. Diversos Padres sinodais insistiram em favor da disciplina atual, em virtude da relação entre a participação da Eucaristia e a comunhão com a Igreja e o seu ensinamento sobre o matrimônio indissolúvel. Outros se expressaram por um acolhimento não generalizado à mesa eucarística, em algumas situações particulares em condições bem precisas, sobretudo quando se trata de casos irreversíveis e ligados a obrigações morais para com os filhos, que viriam a sofrer injustamente. O eventual acesso aos sacramentos deveria ser precedido por um caminho penitencial, sob a responsabilidade do bispo diocesano. Aprofundou-se ainda a questão, tendo bem presente a distinção entre situações objetivas de pecado e circunstâncias atenuantes, dado que “a imputabilidade e a responsabilidade de uma ação podem ser diminuídas ou anuladas” [...] “por diversos fatores psíquicos ou mesmo sociais” (Catecismo da Igreja Católica, 1735).
53. Alguns Padres afirmaram que as pessoas divorciadas e novamente casadas, ou que convivem, podem recorrer com fruto à comunhão espiritual. Outros Padres perguntaram por que então não podem ter acesso à comunhão sacramental. Foi, portanto, solicitado um aprofundamento da temática para fazer emergir a peculiaridade das duas formas e a respectiva conexão com a teologia do matrimônio.
54. As problemáticas relativas aos matrimônios mistos voltaram frequentemente nas intervenções dos Padres sinodais. A diversidade da disciplina matrimonial da Igreja ortodoxa coloca, em alguns contextos, problemas sobre os quais é preciso refletir em âmbito ecumênico. Analogamente, para os matrimônios inter-religiosos será importante o contributo do diálogo com as religiões.

A atenção pastoral para com as pessoas de orientação homossexual
55. Algumas famílias vivem a experiência de ter no seu interior pessoas com orientação homossexual. A esse respeito, interrogamo-nos sobre qual atenção pastoral seja oportuna perante tal situação, em referência a quanto ensina a Igreja: “Não existe fundamento algum para assimilar ou estabelecer analogias, nem mesmo remotas, entre as uniões homossexuais e o desígnio de Deus sobre o matrimônio e a família”. Apesar disso, os homens e as mulheres com tendências homossexuais devem ser acolhidos com respeito e delicadeza. “A respeito deles, evitar-se-á toda atitude de discriminação injusta” (Congregação para a Doutrina da Fé, Considerações sobre os projetos de reconhecimento legal das uniões entre pessoas homossexuais, 4).
56. É de todo inaceitável que os Pastores da Igreja sofram pressões nesta matéria e que os organismos internacionais condicionem as ajudas financeiras aos países pobres para a introdução de leis que instituam o “matrimônio” entre pessoas do mesmo sexo.

A transmissão da vida e o desafio da nãonatalidade
57. Não é difícil constatar que se difunde uma mentalidade que reduz a geração da vida a uma variável da projeção individual ou de casal. Os fatores de ordem econômica determinam um peso por vezes determinante, contribuindo para uma forte queda na natalidade, o que debilita o tecido social e compromete a relação sobre as gerações e torna mais incerto o olhar sobre o futuro. A abertura para a vida é exigência intrínseca do amor conjugal. Nessa luz, a Igreja apoia as famílias que acolhem, educam e circundam com seu afeto os filhos com diferentes dons.
58. Também aqui ocorre a necessidade da escuta às pessoas e dar a razão da beleza e da verdade de uma abertura incondicional à vida, como aquilo de que o amor humano necessita para ser vivido em plenitude. É sobre essa base que se pode apoiar um ensinamento adequado sobre os métodos naturais para a procriação responsável. Esta ajuda a viver de maneira harmoniosa e responsável a comunhão entre os cônjuges, em todas as suas dimensões, juntamente com a responsabilidade de gerar. E redescobre-se a mensagem da encíclica Humanae Vitae, de Paulo VI, que sublinha a necessidade de respeitar a dignidade da pessoa na avaliação moral dos métodos de regulação da natalidade. A adoção de crianças órfãs e abandonadas, acolhidas como filhos próprios, é uma forma específica de apostolado familiar (cf. Apostolicam Actuositatem, III,11), mais vezes reclamada e encorajada pelo magistério (cf. Familiaris Consortio, III,II).
A escolha da adoção e da entrega exprime uma fecundidade particular da experiência conjugal, não somente quando esta é marcada pela esterilidade. Tal escolha é sinal eloquente do amor familiar, ocasião para testemunhar a própria fé e restituir a dignidade filial a quem dela foi privado.
59. É preciso ajudar a viver a afetividade também no vínculo conjugal, como um caminho de amadurecimento, no acolhimento sempre mais profundo do outro e na doação sempre mais plena. Deve-se insistir, nesse sentido, sobre a necessidade de oferecer caminhos de formação que alimentem a vida conjugal e a importância de um laicado que ofereça um acompanhamento feito de testemunhas vivas. É de grande ajuda o exemplo de um amor fiel e profundo, feito de ternura, de respeito, capaz de crescer ao longo do tempo e que, no seu completo abrir-se à geração da vida, faz a experiência de um mistério que nos transcende.

O desafio da educação e o papel da família na evangelização
60. Um dos desafios fundamentais em que se encontra a família hoje é seguramente a da educação, tornada mais exigente e complexa pela atual realidade cultural e pela grande influência das mídias. Tem-se na devida conta as exigências e atitudes de famílias capazes de ser, na vida cotidiana, lugar de crescimento, de transmissão concreta e essencial das virtudes que dão forma à existência. Isso indica que os pais podem escolher livremente o tipo de educação a dar aos filhos, de acordo com suas convicções.
61. A Igreja tem um papel precioso de sustento às famílias, a partir da iniciação cristã, através da comunidade acolhedora. A esta se pede hoje, mais ainda do que ontem, tanto nas situações complexas como naquelas ordinárias, de apoiar os pais no seu empenho de educar, acompanhando as crianças, adolescentes e jovens, no seu crescimento, através de caminhos personalizados capazes de introduzir ao sentido pleno da vida e de suscitar escolhas e responsabilidades, vividas à luz do Evangelho. Maria, pela sua ternura, misericórdia, sensibilidade materna pode nutrir a fome de humanidade e vida, por quem for invocada das famílias e do povo cristão. A pastoral e uma devoção mariana são um ponto de pertença oportuno para anunciar o Evangelho da família.

Conclusão
62. As reflexões propostas, fruto do trabalho sinodal, realizado em grande liberdade e num estilo de escuta recíproca, querem colocar questões e indicar perspectivas que deverão ser amadurecidas e precisadas pelas reflexões das igrejas locais durante o ano que nos separa da Assembleia Geral Ordinária do Sínodo dos Bispos prevista para o mês de outubro de 2015, dedicada à vocação e à missão da família na igreja e no mundo contemporâneo. Não se trata de decisões tomadas, nem de perspectivas fáceis. Entretanto o caminho colegial dos bispos e o compromisso de todo o povo de Deus sob a ação do Espírito Santo, olhando para o modelo da santa família, poderão guiar-nos a encontrar vias de verdade e de misericórdia para todos. São os auspícios que desde o início de nossos trabalhos o Papa Francisco nos manifestou convidando-nos à coragem da fé e à acolhida humilde e honesta da verdade na caridade.