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A Palavra do Frei Petrônio

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sexta-feira, 27 de junho de 2014

LIMEIRA/SP: Retiro com Frei Petrônio- 01

OURO PRETO-MG: Homilia do Frei Petrônio.

A PALAVRA DO FREI PETRÔNIO. Nº 623. O Carmo em Ouro Preto.

OBEDIÊNCIA E CASTIDADE: RETIRO COM FREI PETRÔNIO DE MIRANDA.


ORDEM TERCEIRA DE LIMEIRA/SP.
Encontro sobre a Espiritualidade Carmelitana.
Dias 28 e 29 de junho-2014.
Com Frei Petrônio de Miranda, 0. Carm
(E-mail do Frei: missaodomgabriel@bol.com.br)
1º Tema: Obediência e Castidade na vida do Terceiro Carmelita.

O espírito da Ordem é, naturalmente, a observância da regra. Um terceiro, sendo uma pessoa religiosa, vivendo os desafios do dia a dia, procura seguir Jesus Cristo e contrai deveres diante de Deus, deveres sérios, sagrados e, por isso é obrigado a cumpri-los sob pena de exclusão da fraternidade. A vida de um terceiro é, por isso, diferente da vida de um leigo ou leiga não consagrado (a).
Para o leigo Carmelita, o voto de obediência se intitula primariamente para aceitação da obediência dos estatutos da regra e da Província Carmelitana de Santo Elias. Como um ponto de clareza, o voto da obediência não significa que se torna submisso. Entretanto, ele realmente implica cultivar uma atitude de legitimidade tanto quanto um sério compromisso com os pedidos do diretor provincial em assuntos relacionados com a vida de um leigo Carmelita, como consolidar na regra e estatuto do Sodalício. Pela virtude do voto de obediência, o terceiro carmelita deve obedecer aos superiores da ordem e o assistente espiritual do grupo em tudo que é pedido a eles a fazer, de acordo com a regra para sua própria vida espiritual.
A obediência é a alma da vida do terceiro e da terceira carmelita; é o caminho mais seguro e mais curto para chegarmos à Santidade; é de todos os meios, mais eficaz para domarmos as nossas paixões; para submetermos e sujeitarmos a nossa vontade a vontade de Deus e para nos imolarmos inteiramente à sua gloria. Santa Teresa dizia a suas religiosas: - “Eu olho, como a graça mais preciosa, passar um só dia no exercício da humildade e da obediência, do que passar muitos dias em oração contínua... A alma não terá vantagens das longas orações, sem obediência e caridade”...
A obediência e a humildade são tanto mais admiráveis quanto mais elevadas são por natureza, as pessoas que obedecem e se humilham, e quanto mais baixo se colocam por sua livre escolha. A obediência e a humildade são a base essencial de todo o edifício espiritual, a guarda de toda a virtude, de tal modo que, sem elas, a virtude se corrompe e não passa duma impostura. A obediência é para nós, cristãos, e, principalmente para nós terceiros, uma coisa séria para chegarmos à presença de Deus.
Obediência não significa que a pessoa deva perder ou abdicar a sua vontade. Significa, ao contrário, ativar a própria vontade ao máximo, até ela estar em conformidade total com a vontade de Deus. Deste modo, a pessoa imita a Jesus que disse: "Nada faço por mim mesmo, mas falo como me ensinou o Pai... Faço sempre o que lhe agrada" (JO 8,28-29; JO 3,11; 8,38). "Quem me vê, vê o Pai!" (Jo 14,9).
Foi por obediência que Jesus morreu na cruz. Foi por obediência que o profeta Elias encontrou com o senhor Deus, (1º Reis, 19, 9-14). Foi por obediência que Santa Teresinha do Menino Jesus encontrou o caminho da santidade no Carmelo de Lisieux, na França. Graças à obediência São Pedro lançou as redes ao mar. (Lc 5, 5). Enfim, foi através da promessa da obediência que nós, frades, freiras, leigos e leigas carmelitas, nos consagramos a Deus. Portanto, quebrar tal compromisso é afirmar que estamos fora desta família mariana e Eliana.       

Castidade.
A Castidade é vivida de maneira diferente de acordo com o estado de vida que a pessoa tiver escolhido: casada ou solteira. Para todos, significa viver o amor em plenitude. A vivência da castidade ajuda a pessoa a estar disponível para Deus e para os irmãos e as irmãs e, assim, ser um sinal do futuro que Deus oferece a todos. Não significa que a pessoa não casada deva viver frustrada ou complexada, como se não fosse plenamente humana. Pelo contrário! Significa ativar a amizade e o amor ao máximo, a ponto de poder irradiar o amor de Deus para todos com que convive. Deste modo, a pessoa imita a Jesus que disse: "Não chamo vocês de empregados, porque o empregado não sabe o que faz o seu patrão; mas eu chamo vocês de amigos, porque tudo que ouvi do meu Pai dei a conhecer a vocês!" (JO 15,15).
O voto de castidade para um leigo Carmelita está baseado não apenas em uma promessa- promessas muitas vezes se quebra. Não, o nosso compromisso evangélico vai mais além, ele tem uma profunda obrigação espiritual carmelitana para cumprir a Lei de Deus do 6º- mandamento, “Não pecar contra a castidade” e do 9º, “Não desejar a mulher do próximo”. Tendo como pano de fundo a vivência de tais mandamentos, o terceiro e terceira carmelita dedica esta finalidade de uma maneira especial a Deus e a Nossa Senhora. Em outras palavras, a profissão da promessa do voto de castidade é um sério compromisso que se faz a Deus para observar a regra da Ordem dos leigos Carmelitas até a morte!
Entre os conselhos finais que São Paulo dá a Timóteo, na primeira carta que lhe escreveu, está o seguinte: Conserva-te puro ou, “torna censurável por terem rompido o seu primeiro compromisso”. (1Tm 5, 12). 
Os Terceiros do Carmo têm seu estímulo na pureza da Virgem Maria- A Senhora do Carmelo, que procuram glorificar por um voto feito a Deus. Quando a gloria de Maria foi a sua pureza virginal, a castidade dos Terceiros deve ser também a sua gloria.
Se casado-como casado ele vive casto e puro, no próprio uso dos direitos que lhe são concedidos pelo santo matrimônio, ele comporta-se como pessoa espiritual; o sacramento do matrimônio, mesmo nos justos direitos que lhe são permitidos.
Se solteiro-como solteiro ele se comporta diante de si mesmo e dos demais como pessoa espiritual, casta e pura, torna-se até muito mais livre e desimpedida para dedicar-se a Deus e às coisas de Deus e se ele chegar à renúncia total e livre aos direitos do matrimônio é porque ele vislumbrou o valor, a excelência e grandeza de sua imolação. Para os Carmelitas Seculares solteiros a castidade em seu estado é também uma prática que o exercita na preparação para o casamento ou para a consagração total a Deus e às causas de Deus, seja numa Ordem ou Congregação Religiosa seja por uma vida consagrada no mundo.
Finalizamos dizendo que a observância do voto de Obediência e da Castidade, é o comprometimento mais certo, seguro e sério com os conselhos evangélicos, que os faz aproximar mais perto de Cristo, modelo e exemplo do ponto de união entre nós, filhos e filhas do Profeta Elias e Nossa Senhora do Carmo.
PARA REFLETIR:
1º Os votos de obediência e de castidade me ajudam a viver a alegria de ser carmelita ou me torna uma pessoa insoça, açúcada demais a ponto de ser enjoativa, insuportável e arrogante? (Lc 1, 46-56).  
ARTIGOS CARMLITAS, FOTOS E VÍDEOS DA ORDEM TERCEIRA. ACESSE:


ORDEM TERCEIRA DO CARMO: Retiro com Frei Petrônio de Miranda, 0.Carm.


ORDEM TERCEIRA DE LIMEIRA/SP.
Encontro sobre a Espiritualidade Carmelitana.
Dias 28 e 29 de junho-2014.
Com Frei Petrônio de Miranda, 0. Carm
(E-mail do Frei: missaodomgabriel@bol.com.br)
3º Texto. O Voto de Pobreza.
Pode um empresário, político, médico, advogado... Enfim, um renomado profissional no mundo econômico, social ou político ser terceiro carmelita e viver o voto de pobreza? Óbvio que sim. Aliás, nunca devemos entender pobreza com miséria. Deus não que os seus filhos e filhas passando fome, sem casa, terra para plantar ou que  sejam explorados no mundo do trabalho e escravizados. Pobreza é pecado, mas abuso da riqueza, ostentação e consumismo é pecado.
Num mundo em que o apego aos bens materiais e sua distribuição injusta são fontes de divisão e ódio, nós, carmelitas terceiros, devemos através do voto de pobreza testemunhar que Deus é a nossa verdadeira riqueza e nos quer solidários com os pobres e assumindo a nossa parte de trabalho no meio dos homens, queremos assim participar da promoção das pessoas e dos povos por causa do Reino.
Conscientes da nossa responsabilidade de terceiros, comprometemo-nos a viver a pobreza conforme o Evangelho segundo a nossa condição de vida. Assim, Cristo nos convida a colocar nossa confiança no Pai que dá a terra a todos. É um apelo para repartirmos o que somos e temos a serviço dos outros. Isso exige um verdadeiro desapego de todo tipo de posse para chegarmos a uma maior liberdade interior e nos colocarmos do lado dos pobres e dos oprimidos.
O exemplo da comunidade primitiva, (Atos, 2, 37-47), nos motiva a sermos não apenas um grupo devocional do Escapulário ou de Nossa Senhora do Carmo, mas, a luz do Boa Nova, nos comprometer com um mundo mais solidário, humano e justo.
Pobreza não significa que a pessoa deva ser relaxada ou viver na miséria. Pelo contrário! Significa que se deve ter o máximo cuidado com os bens que Deus nos concede.
Na primeira Exortação Apostólica do Papa Francisco, intitulada, “Evangelii Gaudium” ou, “A alegria do Evangelho”, no parágrafo 198, ele diz, “Por isso, quero uma Igreja pobre para os pobres”. Esta sua afirmação apenas confirma a sua grande preocupação para com um mundo baseado no consumo e na produtividade, gerando assim exclusão através dos milhares de pobres espalhados pelo mundo e, muitas vezes, no trabalho escravo.
Podemos afirmar que viver o voto de pobreza é imitar a Jesus que viveu pobre com os pobres, partilhava com eles o que possuía, e denunciava a riqueza injusta (Lc 6,20.25; 12,22-34; 16,19-31).

Para refletir. (Atos, 2, 37-47),
1º- Como viver a radicalidade do Evangelho a partir do voto de pobreza num mundo em que parece não haver lugar para tal radicalidade?

ARTIGOS CARMLITAS, FOTOS E VÍDEOS DA ORDEM TERCEIRA. ACESSE:


A PALAVRA DO FREI PETRÔNIO. Nº 622. Tiradentes Carmelita-01

segunda-feira, 23 de junho de 2014

DOM VITAL: Local do acidente-04.

CARMO DE OURO PRETO-MG: Homilia do Frei Petrônio.

Aos 86 anos, d. Pedro Casaldáliga ainda enfrenta 'lobos' e fala de esperança.

Aos 86 anos, dom Pedro Casaldáliga segue enfrentando ameaças, o sistema político, o agronegócio, os impérios. Em nome da esperança, se apresenta como soldado de uma causa invencível.  A reportagem é de Sônia Oddi e Celso Maldos e publicada pela Rede Brasil Atual – RBA, 21-06-2014.
São Félix do Araguaia, nordeste mato-grossense, 10 de maio de 2014. Numa pequena capela, no fundo do quintal, uma oração inaugura o dia na casa do bispo emérito de São Félix, dom Pedro Casaldáliga. A simplicidade da arquitetura ganha força com o significado dos objetos ali dispostos.
No altar, uma toalha com grafismos indígenas. Na parede, um relevo do mapa da África Crucificada, um Cristo rústico no crucifixo, uma cerâmica de mãe que protege seu filho com um braço e carrega um pote no outro. No chão de cimento, bancos feitos de toras de madeira, que lembram aqueles de buriti, usados pelos Xavante, em uma competição tradicional, em que duas equipes se enfrentam numa corrida de revezamento, carregando as toras nos ombros, demonstração de resistência e força, qualidades de um povo conhecido por suas habilidades guerreiras. Cercada de plantas, a luz entra por todas as faces das tímidas e incompletas paredes. Nesse ambiente orgânico, assim como tem sido a vida de Pedro, os amigos se aninham para tomar parte da oração.
José Maria Concepción, companheiro de Pedro de longa data, e recém-chegado da Espanha, inicia a leitura:
“1795: José Leonardo Chirino, mestiço, lidera a insurreição de Coro, Venezuela, com índios e negros lutando pela liberdade dos escravos e a eliminação de impostos.
1985: Irne García e Gustavo Chamorro, mártires da justiça. Guanabanal, Colômbia.
1986: Josimo Morais Tavares, padre, assassinado pelo latifúndio. Imperatriz, Maranhão, Brasil”
Os martírios lembrados referem-se àquela data, 10 de maio. Inúmeros outros, centenas deles, são e serão lembrados ao longo de todo o ano, de acordo com a Agenda Latino-Americana. E continua: “2013: Ríos Montt, ex-ditador guatemalteco, condenado a 80 anos de prisão por genocídio e crimes contra a humanidade. A Comissão da Verdade calcula que ele cometeu 800 assassinatos por mês, nos 17 meses em que governou, depois de um golpe de Estado.”
O jovem padre Felipe Cruz, agostiniano, de origem pernambucana, conduz um canto, a reza do pai-nosso e a leitura de uma passagem da edição pastoral da Bíblia. O encerramento se dá com a Oração da Irmandade dos Mártires da Caminhada Latino-Americana, escrita por dom Pedro, onde na última linha pode-se ler “Amém, Axé, Awere, Aleluia!”, em respeito à diversidade de crenças do povo brasileiro.
Em nome desse respeito, dom Pedro nunca celebrou uma missa na Terra Indígena Marãiwatsédé, dos Xavante, comunidade que desde sempre contou com o seu apoio na luta pela retomada da terra, de onde haviam sido deportados em 1968 e para onde começaram a retornar em 2004. “Se o bispo está aqui celebrando a missa, significa que nós estamos em pleno direito aqui. E, por orientação do Cimi (Conselho Indigenista Missionário) e da igreja da Prelazia, ele, pessoalmente, não fez nenhuma celebração na reserva”, testemunha José Maria.
Por apoiar a luta quase cinquentenária dos povos originários daquela região de Mato Grosso, Pedro foi ameaçado de morte algumas vezes. Na última, no final de 2012, quando o processo de desintrusão (medida legal para efetivar a posse) dos fazendeiros e posseiros da TI (terra indígena) Marãiwatsédé avançava e se efetivava, decorrente da determinação da Justiça e do governo federal, ele teve de se ausentar de São Félix.
Perseguições, ameaças de morte e processos de expulsão do país têm marcado a trajetória de Pedro, que chegou à longínqua região do Araguaia, como missionário claretiano, em 1968, aos 40 anos. De origem catalã, ele nasceu em 1928 – e aos 8 anos teve sua primeira experiência com o martírio, quando um irmão de sua mãe, padre, foi assassinado quando a Espanha estava mergulhada em uma sangrenta guerra civil.
A Prelazia de São Félix, uma divisão geográfica da Igreja Católica, foi criada em 1969 e abrange 15 municípios: Santa Cruz do Xingu, São José do Xingu, Vila Rica, Santa Terezinha, Luciara, Novo Santo Antônio, Bom Jesus do Araguaia, Confresa, Porto Alegre do Norte, Canabrava do Norte, Serra Nova Dourada, Alto Boa Vista, Ribeirão Cascalheira, Querência e São Félix do Araguaia. Atualmente, conta com uma população estimada em 135 mil habitantes, uma área aproximada de 102 mil quilômetros quadrados e 22 chamadas paróquias.
Pedro, em meio às distâncias, encontrou um povo carente, sofrido, abandonado, à mercê das ameaças dos grandes proprietários criadores de gado. Os pobres do Evangelho, a quem havia escolhido dedicar a sua vida, estavam ali.
Em 1971, pelas mãos de dom Tomás Balduíno (que morreu em maio último, aos 91 anos) foi sagrado bispo da prelazia. A partir de 2005, quando renunciou, recebeu o título de bispo emérito.
Um dos fundadores da Teologia da Libertação, o seu engajamento nas lutas dos ribeirinhos, indígenas e camponeses incomodou os latifundiários e a ditadura. Ainda hoje, incomoda os homens ricos e poderosos do Centro-Oeste brasileiro.
A política dos incentivos fiscais, levada a cabo pelos militares, por meio da Superintendência do Desenvolvimento da Amazônia (Sudam), foi o berço do agronegócio. E também dos conflitos advindos da expropriação da terra das populações originárias, da exploração da mão de obra, do trabalho escravo e toda sorte de violências, que indignou o missionário Pedro e o fez escolher do lado de quem estaria.
“O direito dos povos indígenas são interesses que contestam a política oficial”, diz dom Pedro. “São culturas contrárias ao capitalismo neoliberal e às exigências das empresas de mineração,  das madeireiras. Os povos indígenas reivindicam uma atuação respeitosa e ecológica.”
Em plena ditadura, nos anos 1970, fundou, junto com dom Tomás Balduíno, o Cimi e a Comissão Pastoral da Terra (CPT), como resposta à grave situação dos trabalhadores rurais, indígenas, posseiros e peões, sobretudo na Amazônia. Ainda nesse período, em 1976, presenciou o assassinato do padre João Bosco Burnier, baleado na nuca quando ambos defendiam duas mulheres que eram torturadas em uma delegacia de Ribeirão Cascalheira (MT).
Pedro faz seções de fisioterapia algumas vezes na semana. Aos 86 anos, e com o Parkinson diagnosticado há cerca de 30, esse cuidado se faz necessário para minimizar os avanços do mal que provoca atrofia muscular e tremores. Ele segue disciplinadamente uma dieta alimentar, o que de certa maneira retardou, mas não cessou, segundo seu médico, o avanço da doença.
A disciplina se repete na leitura diária de e-mails, notícias, artigos, acompanhado mais frequentemente por frei Paulo, agostiniano,  que assim como dom Pedro tem sempre as portas abertas para moradores da comunidade e viajantes. Durante a visita da Revista do Brasil, por exemplo, há uma pausa para acolher Raimundo, homem alto, pardo, magro que, aflito, emocionado, de joelhos, pedia a sua bênção.

A casa é simples, de tijolos aparentes, sem acabamento nas paredes. Porém, tal como a capela no fundo do quintal, é plena de significados e ícones que atestam o compromisso com as causas humanas, de quem vive sob aquele teto.

Che, Jesus, Milton
No quarto, na salinha, na cozinha, no alpendre dos fundos, no escritório, um devaneio para os olhos e para o coração. Imagens de significados diversos: Che Guevara, Jesus Cristo, Milton Nascimento, padre João Bosco Burnier, dom Hélder Câmara, monsenhor Romero, Pablo Neruda. Textos de Martín Fierro, São Francisco de Assis, Joan Maragall, Exodus. Pôsteres da Missa dos Quilombos, da Romaria dos Mártires da Caminhada, da Semana da Terra Padre Josimo. Calendários da Guerra de Canudos, de operários no 1º de Maio. E ainda fotos, pequenas lembranças e artefatos populares, em meio a estatuetas de prêmios recebidos.
O seu compromisso com as causas populares extrapola as fronteiras do país. Em 1994, dom Pedro apoiou a revolta de Chiapas, no México, afirmando que quando o povo pega em armas deve ser respeitado e compreendido. Em 1999, publicou a Declaração de Amor à Revolução Total de Cuba. Fala com convicção da importância da unidade latino-americana, idealizada por Simon Bolívar (1783-1830) e defendida pelo ex-presidente da Venezuela Hugo Chávez (1954-2013).
“Eu dizia que o Brasil era pouco latino-americano, a língua comum dos povos castelhanos fez com que o Brasil se sentisse um pouco à parte do resto”, diz dom Pedro. “Por outro lado, o Brasil tem umas condições de hegemonia que provocava nos outros povos uma atitude de desconfiança. Hugo Chávez fez uma proposta otimista, militante, apelando para o espírito de Bolívar, com isso se conseguiu vitórias interessantes, como impedir a vitória da Alca.”
Ele recorda de um encontro com o ex-presidente brasileiro. “Quando Lula esteve na assembleia da CNBB, estávamos nos despedindo, ele se aproximou de mim e me deu um abraço. E eu falei, vou te pedir três coisas. Primeiro, que não nos deixe cair na Alca, segunda, que não nos deixe cair na Alca, terceira, que não nos deixe cair na Alca. Só te peço isso”, conta, em referência a Área de Livre Comércio das Américas, ícone do neoliberalismo.
“E realmente não entramos na Alca. Porque a América Latina tem de se salvar continentalmente, temos histórias comuns, os mesmos povos, as mesmas lutas, os mesmos carrascos. Os mesmos impérios sujeitando-nos, uma tradição de oligarquias vendidas. Tem sido sempre assim. Começavam com o império, o que submetia as oligarquias locais. Os exércitos e as forças de segurança garantiam uma segurança interesseira. Melhorou, inclusive os Estados Unidos não têm hoje o poder que tinham com respeito ao controle da América Latina. Somos menos americanos, para ser mais americanos.”

Esperança e diálogo
É preciso de todo jeito salvar a esperança, defende dom Pedro. “Insistir nas lutas locais, frente à globalização. Se somar as reivindicações, sentir como próprios, as lutas que estão acontecendo nos vários países da América Latina. El Salvador, Uruguai, Bolívia, Equador... Claramente são países muito próximos nas lutas sociais.”
Há tempos dom Pedro Casaldáliga não concede entrevistas pela dificuldade que tem encontrado em conciliar a agilidade do raciocínio com o tempo possível da articulação das palavras. A ajuda de José Maria, seu amigo e conterrâneo, foi fundamental para a compreensão das pausadas e esforçadas falas, enquanto discorria sobre assuntos por ele escolhidos.
Otimista com a atuação do papa Francisco, ressalta que “ele fez gestos emblemáticos, muito significativos”. “A Teologia da Libertação se sentiu respaldada por ele. Tem valorizado as Comunidades Eclesiais de Base, com o objetivo de uma Igreja pobre para os pobres. Estimulou o diálogo com outras igrejas... Chama a atenção nele o diálogo com o mundo muçulmano e com o mundo judeu, e agora essa visita a Israel... Muito significativa. Desmantelou todo o aparato eclesiástico, seus colaboradores tiveram de se adaptar.”
Ele reconhece as limitações que o sistema político impõe à atuação do governo, que segundo dom Pedro tem “um pecado original”: as alianças. “Quando há alianças, há concessões e claudicações. Enquanto esses governos todos se submeterem ao capitalismo neoliberal teremos essas falhas graves. A política será sempre uma política condicionada. Tanto o Lula como a Dilma gostariam de governar a serviço do povo mesmo, mas as alianças fizeram com que os governos populares estivessem sempre condicionados”. Para ele, deve haver uma “atitude firme, quase revolucionária”, em relação a temas como saúde, educação e comunicação.
Morto em março do ano passado, o ex-presidente da Venezuela Hugo Chávez é lembrado com determinação pelo religioso. “Ele tentou romper, rompeu o esquema. Por isso, a direita faz questão de queimar, queimar mesmo, a Venezuela. Nos diários e noticiários, a cada dia tem de aparecer alguma coisa negativa da Venezuela”.

Direitos indígenas x ruralistas
Ele aponta a “atualidade” da causa indígena, e as ameaças que não cessam. “Nunca como agora, se tem atacado tanto. Tem várias propostas para transformar a política que seria oficial, pela Constituição de 1988, que reconhece o direito dos povos indígenas de um modo muito explícito. Começam a surgir propostas para que seja o Congresso quem defina as demarcações das terras indígenas, sendo assim já sabemos como será a definição. A bancada ruralista é muito grande...”, observa dom Pedro.
Por outro lado, prossegue, nunca os povos indígenas se organizaram como agora. E o país criou uma “espécie de consciência” em relação a essa causa. “Se querem impedir que haja uma estrutura oficial com respeito à política indígena, tentam suprimir  organismos que estão a serviço dessas causas. Isso afeta os povos indígenas e o mundo rural . Tudo isso é afetado pelo agronegócio, o agronegócio é o que manda. E manda globalmente. Não é só um problema do Mato Grosso, é um problema do país e do mundo todo. As multinacionais condicionam e impõem.
“A retomada da TI Marãiwatsédé é bonita e emblemática. Os Xavante foram constantes em defender os seus direitos. Quando foram expulsos, deportados – esta é a palavra, eles foram deportados –, seguiram vinculados a esse terreno, vinham todos os anos recolher pati, uma palmeira para fazer os enfeites. E reivindicavam sempre a terra onde estão enterrados nossos velhos. E foram sempre presentes”, testemunha. “Aqui, nós sempre recordamos que essa terra é dos Xavante, que esta terra é dos Xavante. Os moradores jovens, meninos, outro dia diziam – nossos vovôs contam que essa terra é dos índios, nossos papais contam que essa terra é dos índios.”
A essa altura, dom Pedro lembra de “momentos difíceis” em que o Cimi se vê obrigado a contestar certas ações do governo. “Quando se diz que não há vontade política pelas causas indígenas, eu digo que há uma vontade contrária ao direito dos povos indígenas, isso é sistemático. A Dilma, eu não sei se se sentisse um pouco mais livre, respaldaria as causas indígenas. Alguns pensam que ela pessoalmente não sintoniza com a causa indígena. Tem sido criticada porque nunca recebeu os índios. Faz pouco foi o primeiro encontro com um grupo.
Todos esses projetos de Belo Monte, as hidrelétricas. Se ela tem uma política desenvolvimentista, ela tem de desrespeitar o que a causa indígena exige: em primeiro lugar seria terra, território, demarcação, desintrusar os invasores. Seria também estimular as culturas indígenas e quilombolas”, diz, sem meio-termo. “Se você está a favor dos índios, você está contra o sistema. Não adianta colocar panos quentes aí.”
Dom Pedro defende a presença de sindicatos, mas critica o movimento. “Eles são a voz dessas reivindicações todas dos povos indígenas, do mundo operário. Na América Latina, estiveram muito bem os sindicatos, ultimamente vêm falhando bastante. Foram cooptados. Quando se vê um líder sindicalista transformado em deputado, senador, ele se despede”, afirma, vendo a Via Campesina como uma alternativa, por meio de alianças de grupos populares em vários países.
“Daí voltamos à memória de Hugo Chávez, que estimulou essa participação”, observa. “De ordinário acontece que antes as únicas vozes que os operários tinham eram o sindicato e o partido. Nos últimos anos, tanto o partido como o sindicato perderam representatividade. Em parte foram substituídos por associações, alguns movimentos. Mas continuam sendo válidos. Os sindicatos e partidos são instrumentos conaturais a essas causas do povo operário, camponês.”
Para fazer campanha eleitoral, todo candidato operário a deputado, senador, tem de “claudicar” em algum aspecto, acredita dom Pedro.  “Por isso, é melhor que não se candidate. Por outra parte, não se pode negar completamente a função dos partidos e dos sindicatos. Não é realista, ainda continuam sendo espaços que se deve preencher.”
Lúcido, Pedro conclui a conversa lembrando a frase de um soldado que lutava contra a ditadura franquista na Guerra Civil Espanhola: “Somos soldados derrotados de uma causa invencível”.

DESCOBERTA HISTÓRICA: Tiradentes foi da Ordem Terceira do Carmo de Ouro Preto-MG.

O Carmo não se opôs a Tiradentes, descendente de família sem fortuna, e deu-lhe a credencial para quem chegava a Vila Rica com intenção de prosperar.
Ao proceder a amplo trabalho de pesquisa nos arquivos da Ordem Terceira do Carmo de Ouro Preto, que resultou em livro referencial, a historiadora Maria Agripina Neves encontrou, naqueles anais, um registro de significado maior. Trata-se do ingresso de Joaquim José da Silva Xavier, o Tiradentes, no sodalício mais importante e seletivo de Vila Rica. O assento se acha à folha 152 do Livro Segundo de Entradas.
Morador na sua vila natal, São José del Rei, conforme anotado no termo respectivo, ele foi recebido como irmão do Carmo, em 20 de maio de 1775, 14 anos antes de sua prisão como conspirador contra a rainha, ocorrida em 10 de maio de 1789, no Rio de Janeiro. Em 20 de agosto de 1776, ganhou a patente da ordem.
No livro sobre os carmelitanos de Ouro Preto, a autora destaca a presença de Tiradentes entre os irmãos que contribuíram para a construção dos altares, à época do governo de Dom Rodrigo José de Menezes (1780-84), ele próprio prior da irmandade e também doador. Durante os três primeiros anos da estada em Vila Rica, dom Rodrigo assumiu o priorato do Carmo (18 de julho de 1780), após ter apresentado sua patente da cidade do Porto e sido eleito pelos pares mineiros. Rodrigo José de Menezes foi à primeira autoridade a diagnosticar a decadência da exploração aurífera nas Minas e a necessidade de mudança nos rumos da administração colonial.
No rol dos que fizeram doações, ao lado de Tiradentes, aparecem Joaquim Silvério dos Reis, delator da conjuração ao visconde de Barbacena, o inconfidente tenente-coronel Francisco de Paula Freire de Andrade (filho de José Freire de Andrade, ex-governador e segundo conde de Bobadela) e seu sogro, José Álvares Maciel, o qual não pertencia à Ordem. Todos tinham títulos militares e certamente agradavam ao governador capitão-general, no seu propósito de viabilizar, como prior, a fatura dos altares laterais. O historiador Francisco Antônio Lopes, na obra clássica sobre o Carmo de Ouro Preto, publicada pelo Iphan em 1942, cita essa lista como “documento avulso” (página 74) e diz ter sido assinada por 84 pessoas, que “concorreram com esmolas”, sem no entanto identificar qualquer delas.
Maria Agripina Neves sublinha, ainda, que o contratador João Rodrigues de Macedo, cuja residência, a Casa dos Contos, foi transformada em cárcere dos conjurados presos em Vila Rica, elegeu-se prior em 5 de julho de 1789, um mês e um dia depois da morte do poeta Cláudio Manuel da Costa, no grande cômodo cuja porta está sob a escada da bela residência da Rua São José. Empossado no dia 16, data em que se celebra a Virgem do Carmo, ele permaneceu exatamente um ano no alto cargo de prior do Carmo, sendo sucedido pelo sargento-mor João Carlos Xavier da Silva Ferrão, tio de Marília de Dirceu.
O fato de os carmelitanos terceiros da sede da Capitania das Minas terem acolhido Tiradentes, em 1775, é prova evidente de que, aos 29 anos (nasceu em 1746, tendo sido batizado em 12 de novembro na Capela de São Sebastião do Rio Abaixo, filial da matriz de São João del-Rei), tinha abertas as portas do grêmio mais restrito da capital e ali haveria de subir socialmente e preparar sua inserção na elite do tempo. Fez-se em seguida conhecido e amigo de personalidades influentes, que iria procurar envolver na conjuração. O Carmo não se opôs a Tiradentes, descendente de famílias sem fortuna, mas conceituadas, e deu-lhe a credencial decisiva para quem chegava a Vila Rica e tinha intenção de prosperar na “pérola” do Brasil, assim chamada a metrópole mineira pelo cronista do “Triunfo eucarístico”.
*Leia o artigo na íntegra. Clique aqui: http://divirta-se.uai.com.br/app/noticia/pensar/2013/05/04/noticia_pensar,142068/o-inconfidente-na-ordem.shtml

A PALAVRA... Nº 617. Seremos julgados pelo amor.