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A Palavra do Frei Petrônio

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sábado, 7 de junho de 2014

VAI ESPÍRITO SANTO...

*Frei Petrônio de Miranda, Padre e Jornalista Carmelita.

Vai Espírito Santo!
Converte os políticos corruptos do Brasil
E renovas o nosso país sob o domínio do mal. 
Abre os nossos olhos nas próximas eleições,
E concede-nos uma sociedade politizada.
Acaba com a violência em nossas cidades,
E fortifica-nos na luta pela justiça e pela paz.

 Vai Espírito Santo!
Derruba as paredes da indiferença religiosa,
E mostra-nos o caminho do ecumenismo. 
Destrói os muros da separação política e econômica,
E ensina-nos a valorizar a amizade e respeitar o próximo.
Arranca o espírito de competição, destruição e poder,
E enche o nosso coração de alegria e compromisso social.

 Vai Espírito Santo!
Liberta os jovens do tráfico de drogas,
E fortifica-nos na defesa da vida.
Conforta os aidéticos e deprimidos, 
E livra-nos da angústia da discriminação.
Desce nas penitenciárias e converte os presos,
Libertando-os do roubo e do mundo do crime.

 Vai Espírito Santo!
Entra no Palácio da Alvorada,
E lembra à Presidenta Dilma do seu passado.
Visita o Congresso Nacional e a Câmera dos Deputados,
E leva o grito de fome e dor do povo brasileiro.
Ilumina o Supremo Tribunal Federal, 
E concede aos nossos juízes os 7 dons.

 Vai Espírito Santo!
Passeia pelos corredores do Poder Legislativo,
E ensina os vereadores a ficar do lado do povo.
Clareia os corredores do Poder Executivo,
E mostra o verdadeiro sentido do poder.
Olha para a Ordem dos Advogados do Brasil,
E ensina-os a advogar com justiça e equidade.       

 Vai Espírito Santo!
Ampara o menor de rua, o órfão e a viúva,
E enxuga as lágrimas de suor e dor.
Acompanha os sem terra e sem casa,
E transforma as suas utopias em realidade.
Visita às comunidades quilombolas e as aldeias,
E fortalece-os na luta pela dignidade.

 Vai Espírito Santo!
Liberta-nos da intolerância, da raiva e da vingança,
E dá-nos um coração novo sem ódio e rancor. 
Destrói a nossa indiferença pelo sagrado,
E ensina-nos a respeitar Deus em nosso próximo.
Toca em nosso coração de pedra,
E torna-nos mais humanos e solidários.

Vai Espírito Santo!
Desce nas favelas, nos cortiços e nos morros,
E protege os corações despedaçados e ensanguentados.   
Vem com o teu fogo abrasador aquecendo-nos contra o mal,
E converte os difamadores, arrogantes e sanguinários.
Inspira-nos confiança na classe política e na justiça,
E não nos deixe desanimar diante dos fatos e acontecimentos. 


Vai Espírito Santo!
Destrói em nossa vida todo pensamento de perseguição,
E mostra-nos a leveza da tua presença confiante e serena.
Olha para os trabalhadores rurais
E conforta-os em sua labuta diária.
Concede força aos profissionais da comunicação,
E concedei-lhes a esperança do novo dia.

Vai Espírito Santo.... Vai... !!!
*O Frei Petrônio de Miranda, da Ordem do Carmo, reside no Convento do Carmo da Lapa, Rio de Janeiro. E-mail: missaodomgabriel@bol.com.br. Facebook: www.facebook.com/olharjornalistico ou, www.facebook.com/freipetronio2 Twitter: www.twitter.com/freipetronio. Site: www.olharjornalistico.com.br

A PALAVRA DO FREI PETRÔNIO. Nº 603. Vai Espírito Santo!

A PALAVRA DO FREI PETRÔNIO. Nº 602. O Dom de Fortaleza.

Pentecostes. O perdão para recriar o mundo

O Pentecostes é uma festa pascal; ela é o desenvolvimento do mistério da Páscoa. Não é uma festa independente do Espírito Santo; é a festa do Senhor ressuscitado que dá aos discípulos o seu Espírito, que é o Espírito de Deus Pai. É por isso que esta festa se situa, ao mesmo tempo, na noite da Páscoa no evangelho de São João, e 50 dias depois da Páscoa no livro dos Atos dos Apóstolos, inclusive na cruz da Sexta-Feira Santa em todos os evangelistas.
A reflexão é de Raymond Gravel, padre da Diocese de Joliette, Canadá, e publicada no sítio Réflexions de Raymond Gravel, comentando as leituras do Domingo de Pentecostes – Ciclo A do Ano Litúrgico (08 de junho de 2014). A tradução é de André Langer.
Referências bíblicas:
Primeira leitura: At 2,1-11
Segunda leitura: 1 Cor 12,3b-7.12-13
Evangelho: Jo 20,19-23

Eis o texto.
O Pentecostes é uma festa pascal; ela é o desenvolvimento do mistério da Páscoa. Não é uma festa independente do Espírito Santo; é a festa do Senhor ressuscitado que dá aos discípulos o seu Espírito, que é o Espírito de Deus Pai. É por isso que esta festa se situa, ao mesmo tempo, na noite da Páscoa no evangelho de São João, e 50 dias depois da Páscoa no livro dos Atos dos Apóstolos, inclusive na cruz da Sexta-Feira Santa em todos os evangelistas, em particular em João: “Tudo está realizado. E inclinando a cabeça, entregou o espírito” (Jo 19,30).
No mistério pascal, todos os elementos desse mistério – a Morte, a Ressurreição, a Ascensão e o Pentecostes – são tão importantes que os primeiros cristãos fizeram deles acontecimentos distintos separados no tempo: três dias para a Ressurreição, 40 dias para a Ascensão e 50 dias para o Pentecostes. Mas, na realidade, trata-se de um mesmo e único acontecimento teológico que nos fala simultaneamente de Deus, do homem, de Cristo e da Igreja. Não há, portanto, contradições entre os escritos e seus autores; encontramos simplesmente maneiras diferentes de descrever a riqueza do mistério cristão.
Desde o início do tempo pascal, nós lemos os relatos da Páscoa e da Ascensão. Hoje, celebramos o Pentecostes, a festa do Espírito de Cristo, o Espírito de Deus, a festa da Igreja. O que nos dizem os textos bíblicos que a Igreja nos propõe hoje?

1. Atos dos Apóstolos 2,1-11
Neste texto de Lucas, sobre o dom do Espírito Santo dado aos apóstolos reunidos, o autor não procura descrever um acontecimento material e histórico que aconteceu num dado momento da história da Igreja nascente. O fato de que Lucas tenha escolhido compor seu relato por meio de uma série de alusões ao Antigo Testamento, pode desviar a nossa atenção para uma leitura de tipo histórico, que procurasse determinar como as coisas se passaram. Devemos, ao contrário, compreender as mensagens que Lucas quer dar à sua comunidade sobre o papel e a força do Espírito:
1) O Pentecostes judaico celebrava o dom da Lei ao Povo de Israel, o povo da antiga Aliança. O Pentecostes cristão celebra o dom do Espírito ao novo Povo de Deus, a Igreja, o povo da nova Aliança.
2) Assim como Moisés subiu ao Sinai para dar ao povo a Lei de Deus, Cristo subiu ao céu para derramar o Espírito de Deus, o Espírito da nova Aliança.

3) Assim como para Moisés o barulho do trovão e o fogo das luzes acompanham o dom da Lei de Deus, aqui o barulho, o vento e o fogo acompanham a vinda do Espírito Santo.
4) No Sinai, de acordo com tradições judaicas, Deus propôs os mandamentos nas diversas línguas do mundo, mas apenas Israel os aceitou. No livro dos Atos dos Apóstolos, Deus repara esse fracasso: todas as nações compreendem a linguagem do Espírito: “Cheios de espanto e de admiração, diziam: ‘Esses homens que estão falando não são todos galileus? Como é que nós os escutamos na nossa própria língua?’” (At 2,7-8)
5) No Antigo Testamento, as 12 tribos de Israel estão reunidas para ouvir Moisés. Aqui, os 12 povos são chamados para ouvir os 12 apóstolos investidos pelo Espírito do Cristo, proclamar as maravilhas de Deus: “todos nós os escutamos anunciarem as maravilhas de Deus na nossa própria língua!” (At 2,11b)
Em suma, este relato de Lucas é o inverso de Babel, é a abertura à universalidade e o sopro do Espírito da nova Aliança que abole as fronteiras; não há mais exclusão nem rejeição.

2. 1 Cor 12,3b-7.12-13
Os coríntios acreditavam que o dom do Espírito Santo estava reservado a uma elite. Eles só reconheciam sua presença no sensacional, nos cristãos que tinham o dom de falar em línguas e, particularmente, naqueles que eram eloquentes na animação das assembleias. Paulo quer, aqui, restabelecer a realidade do Espírito Santo:
1) Todo fiel que proclamar que “Jesus é o Senhor” (1 Cor 12,3), é habitado pelo Espírito Santo. Portanto, o mais humilde e o menor dos batizados também recebeu o Espírito Santo.
2) O Espírito, o Senhor e Deus são inseparáveis. Sem mesmo chamá-lo pelo nome, Paulo nos fala da Trindade que se dispensa em carismas: dons da graça, mas o Espírito é o mesmo (v. 4), dons dos serviços na Igreja, mas o Senhor é o mesmo (v. 5) e dons das atividades, mas é o mesmo Deus que as realiza (v. 6). O Espírito põe, portanto, todos os fiéis a agir, cada um segundo seus carismas, em vista do bem de todos (v. 7).
3) Esta unidade na diversidade Paulo a exprime através de uma fábula, conhecida na sua época, sobre o corpo e seus membros, para significar que todos os cristãos, em sua diversidade, pertencem ao mesmo corpo, o Corpo do Cristo ressuscitado. Esta pertença transcende as clivagens étnicas: “De fato, todos nós, judeus ou gregos, escravos ou livres, fomos batizados num único Espírito, para formarmos um único corpo, e todos nós bebemos de um único Espírito” (1 Cor 12,13).

3. João 20,19-23
Para João, é na noite da Páscoa que o Espírito Santo é dado aos discípulos reunidos. Que mensagens podemos tirar dessa passagem bíblica?
1) O medo: os discípulos têm medo, eles são fracos, eles se sentem abandonados. As portas estão trancadas. Apesar disso, Jesus se apresenta a eles (v. 19). É, portanto, na humanidade dos discípulos que Cristo se faz presente.
2) A Paz: duas vezes Cristo oferece a sua paz (vv. 19.21). Mas, por que esta insistência? O sentido bíblico da palavra paz não é a ausência de guerra ou de conflitos; é a plenitude de vida que lembra a presença do Ressuscitado (cf. TOB, Lc 1,79 nota J). É, portanto, a sua Vida de Ressuscitado que Cristo dá aos seus discípulos. É uma promessa de Ressurreição também para eles.

3) A Alegria: João sublinha que o Ressuscitado da Páscoa é o Crucificado da Sexta-Feira Santa: “mostrou-lhes as mãos e o lado” (Jo 20,20a). O evangelista não quer dizer que se trata do cadáver de Jesus reanimado; o Ressuscitado se apresenta como aquele que fica para sempre marcado por sua humanidade, aquele que, pela cruz, testemunhou o Amor infinito de Deus. Do seu lado aberto nasceu a Igreja, ápice do sangue da Vida nova e da água viva do Espírito. Esta é a Alegria pascal experimentada pelos discípulos reunidos na noite da Páscoa.
4) O perdão: o sopro do Cristo sobre os seus discípulos nos remete ao sopro de Deus no Gênesis, sopro que dá a vida ao ser humano. Aqui, o sopro de Cristo significa a Vida nova dada aos discípulos, pelo dom do Espírito Santo, para que advenha um mundo novo. Entretanto, uma coisa é essencial para que nasça esse mundo novo: é o perdão. Deus deve, em primeiro lugar, apagar a nossa história passada, derramando sobre nós o sopro do perdão dos pecados: “A quem perdoardes os pecados, eles lhes serão perdoados; a quem os não perdoardes, eles lhes serão retidos” (Jo 20,23). Cabe a nós, portanto, fazer nascer esse mundo novo e é com toda a liberdade que nós podemos fazê-lo ou recusá-lo. Que responsabilidade!
Para terminar, é uma missão que nos é confiada: nós temos a responsabilidade de fazer nascer o mundo novo desejado pelo Cristo da Páscoa. Esta missão é confiada a todos os cristãos em geral e, em particular, aos padres no ministério do perdão. É, portanto, pela nossa abertura ao outro, pela nossa acolhida da sua diferença que nós testemunhamos o Cristo ressuscitado e que nós trabalhamos para fazer nascer esse mundo novo. O Espírito que nos habita não é um Espírito de medo que recusaria a novidade; é um Espírito que nos torna capazes de inventar, criar, decifrar, abrir novos caminhos, a fim de permitir às mulheres e aos homens de hoje encontrar e reconhecer o Cristo sempre vivo através dos seus discípulos. O perdão é fundamental para a recriação do mundo, e o Espírito nos dá a possibilidade de dá-lo ao outro e de recebê-lo do outro, a fim de que nasça esse mundo novo desejado pelo Cristo da Páscoa.
Bom Pentecostes!

O que Francisco quis dizer aos carismáticos?

Durante o seu discurso aos membros da Renovação Carismática, o Papa foi preciso em suas recomendações, a tal ponto que seus comentários foram amplamente comentados no início desta semana. Devem ser lidos como críticas ou como incentivos? Fonte: http://bit.ly/1l8Dyjv          
A reportagem é de Bosco d’Otreppe e publicada no sítio francês La Vie, 04-06-2014. A tradução é de André Langer.
"Quem ama corrige." Esta é, sem dúvida, uma das máximas de Francisco.
No domingo, 01 de junho, o Papa foi recebido por 52.000 pessoas em festa no Estádio Olímpico de Roma, que trocou as cores do futebol italiano pelas da Renovação Carismática mundial, por ocasião do 37º congresso desse movimento.
Francisco, que expressou a alegria que ele tinha por encontrá-los, preparou minuciosa e cuidadosamente as suas palavras. Palavras "paternais", mas firmes, e que alimentaram as conversas dessa segunda-feira em Roma, ao término desses dias de convenção.

Uma escola de samba?
Francisco, que prestou uma homenagem "à diversidade de carismas" da Renovação Carismática, não hesitou em criticar as possíveis lutas internas, a organização, por vezes, "excessiva", ou ainda o fato de querer "controlar a graça de Deus" ("Sejamos dispensadores da graça de Deus e não seus controladores").
O Papa comprometeu-se com a Renovação em 2017 quando esta comemora o seu Jubileu de Ouro, na Praça de São Pedro. A Rádio Vaticano, entrevistando Guy de Kerimel, o bispo de Grenoble-Vienne e oriundo das fileiras da Renovação Carismática, quis saber se o tom que Francisco usou em suas palavras era de advertência ou de encorajamento.
"O Papa reenvia a Renovação à sua graça", explicou o bispo. Ele "ajuda os seus membros a tomar consciência da graça que lhes foi dada, não só para si, mas para toda a Igreja."
O bispo não vê nelas, portanto, nenhuma chamada à ordem, mas pontos de atenção, explica à Rádio Vaticano. "Ele lembrou que Jesus é o único chefe. Em um grupo, há ocasionalmente a tentação do poder, de pensar que nós detemos o discernimento ou ainda temos o melhor carisma".
Finalmente, fiel a si mesmo, o Papa aproveitou esta oportunidade para definir uma Igreja unida e "dócil ao Espírito Santo", o que ele já lembrava na Exortação Apostólica Evangelii Gaudium. Surpreendendo a assembleia, Francisco reconheceu que na época da sua criação ele não gostava muito da Renovação Carismática, comparando-a com "uma escola de samba", mas que hoje ele "percebe sua graça de fundo", precisa o bispo Guy de Kerimel. "É por isso que ele quer que ela seja preservada".

O cuidado pastoral de Francisco
Mais uma vez, o Papa mostra o quanto ele quer incentivar, a que ponto ele cuida dos seus, analisa Marie Malzac, jornalista da agência I.Media. "Seu discurso foi cuidadosamente preparado e preciso. Ele está ancorado nas características próprias do movimento, na sua história. Francisco não ignora as dificuldades, mas quer converter cada um ao essencial dos seus carismas”.
Palavras similares àquelas que encontramos quando o Papa se dirige aos padres, advertindo-os contra o clericalismo, aos cardeais criticando neles o mundanismo, ou, ultimamente, ainda quando se dirigiu aos membros do Caminho Neocatecumenal. "Essas críticas, feitas dessa forma, ressoam como um incentivo e são um sinal do seu cuidado pastoral, assim como do seu amor pelos seus”.

Por outro lado, sua visão da Renovação Carismática está na linha daquela dos seus antecessores, "atentos e encorajadores, situando a Renovação na Igreja católica, para a Igreja e para o mundo", concluiu dom Guy de Kerimel, em sua conversa com a Rádio Vaticano.

sexta-feira, 6 de junho de 2014

PENTECOSTES: Mensagem do Frei Petrônio.

36º SODALÍCIO EM SAPOPEMBA/SP-04: Canto do Glória.

36º SODALÍCIO EM SAPOPEMBA/SP-04: Mensagem do André.

A PALAVRA DO FREI PETRÔNIO. Nº 603. Vai Espírito Santo!

A PALAVRA DO FREI PETRÔNIO. Nº 601. O Dom da ciência.

36º SODALÍCIO EM SAPOPEMBA/SP-03: A Capela.

36º SODALÍCIO EM SAPOPEMBA/SP-04: Flor do Carmelo.

quinta-feira, 5 de junho de 2014

A voz do Pastor - Pentecostes - Domingo 08/06/2014

A PALAVRA... Nº 600. O Dom do Entendimento.

*Explicação das leituras de PENTECOSTES: O NASCIMENTO DA IGREJA.

Pe. Bortolini
I. INTRODUÇÃO GERAL
No Pentecostes, coroa do Ciclo da Páscoa, todos nascemos e renascemos continuamente. Nascemos para a vida no Espírito e renascemos para o projeto de Deus, procurando falar a linguagem do Espírito para o mundo de hoje. Bebendo o mesmo Espírito que foi a base da ação e da palavra de Jesus, a comunidade cristã provoca o julgamento de Deus (evangelho). Reunida pelo Espírito de Jesus, torna-se a epifania de Deus, proclamando suas maravilhas (I leitura), levando o projeto de Deus a todos os povos. Forma o corpo de Cristo e bebe do único Espírito. Por isso, na comunidade cristã, cada pessoa é um dom do Espírito para formar a comum-unidade (II leitura). Ninguém possui plenamente o Espírito e ninguém está privado dele. Na união de todos é que se forma o corpo de Cristo, o templo do Espírito Santo.

II. COMENTÁRIO DOS TEXTOS BÍBLICOS

1. Evangelho (Jo 20,19-23):
A comunidade recebe o mesmo Espírito que animou Jesus
Nos evangelhos, João e Lucas têm perspectivas diferentes quanto a Pentecostes. Para João, ele se dá no próprio dia da ressurreição de Jesus, ao passo que Lucas faz coincidir a vinda do Espírito Santo com a festa judaica de Pentecostes, cinqüenta dias após a Páscoa. Embora as perspectivas sejam diferentes, a finalidade é a mesma, pois ambos mostram que o Espírito que sustentou a luta de Jesus para realizar o projeto de Deus é o mesmo Espírito que anima agora as lutas da comunidade cristã.
Fazendo coincidir Páscoa e efusão do Espírito no mesmo dia, o Evangelho de João quer sublinhar a continuidade entre Jesus e seus discípulos. O Espírito que agiu permanentemente em Jesus é comunicado aos seguidores no mesmo dia da ressurreição, sem pausas ou interrupções.

a. A criação da comunidade messiânica (vv. 19-21a)
O texto se inicia situando a cena no tempo. É a tarde do domingo da Páscoa. Para os judeus, já havia iniciado um novo dia. Para João, contudo, é ainda o dia da ressurreição, a nova era inaugurada pela vitória de Jesus sobre a morte. De fato, no Quarto Evangelho, tudo o que acontece depois da ressurreição de Jesus se insere num “dia pascal” que não tem fim. É a vitória definitiva da vida sobre a morte. A referência à tarde de domingo reflete a práxis cristã de se reunir para celebrar a memória da morte e ressurreição de Jesus. As portas fechadas mostram um aspecto negativo (o medo dos discípulos) e um aspecto positivo (o novo estado de Jesus ressuscitado, para quem não há barreiras).
Jesus se apresenta no meio da comunidade (ele é o centro e a razão de ser da comunidade) e saúda os discípulos com a saudação da plenitude dos bens messiânicos: “A paz (shalom) esteja com vocês!” É a mesma saudação de quando Jesus se despediu (cf. 14,27). Por sua morte e ressurreição, ele se tornou o vencedor do mundo e da morte. E por isso pode comunicar a paz, a plenitude dos bens. É, portanto, a saudação do vencedor que ainda traz em si os sinais da vitória nas mãos e no lado (v. 20). É a saudação do Cordeiro, do qual a comunidade vai alimentar-se. As cicatrizes de Jesus são uma característica dos textos joaninos (cf. Ap 5,6). O Ressuscitado não pode ser anunciado apenas em seu aspecto glorioso. As cicatrizes são memória permanente das torturas sofridas.
            Os discípulos estão de portas fechadas. São uma comunidade medrosa, pois ainda não possuem o Espírito de Jesus. O medo é um freio que lhes bloqueia a tarefa de testemunhar o Cristo ressuscitado. Jesus, presente nessa comunidade, transforma totalmente a situação, capacitando-os a ser os anunciadores da vitória de Jesus sobre os mecanismos de morte.
A reação da comunidade é a alegria (cf. 16,20) que ninguém, de agora em diante, poderá suprimir (cf. 16,22).

b. A comunidade continua a missão de Jesus (vv. 21b-23)
Fortificada pela presença de Jesus, a comunidade está pronta para a mesma missão que ele recebeu: “Como o Pai me enviou, assim também eu envio vocês” (v. 21b). Quem vai garantir a missão da comunidade será o Espírito Santo. Para João, a comunicação do Espírito acontece aqui, na tarde do dia da ressurreição: “Tendo falado isso, Jesus soprou sobre eles, dizendo: Recebam o Espírito Santo!” (v. 22). O sopro de Jesus é a nova criação e remete ao que Javé fez quando criou o ser humano (cf. Gn 2,7). É o sopro da vida nova. Aqui nasce a comunidade messiânica.
De agora em diante, batizados no Espírito Santo como Jesus (cf. 1,33), os cristãos têm o encargo de continuar o projeto de Deus. Esse projeto é sintetizado desta forma: “Os pecados daqueles que vocês perdoarem, serão perdoados; os pecados daqueles que vocês não perdoa-rem, não serão perdoados” (v. 23). O que é pecado para João? Consiste essencialmente em comprometer-se com a ordem injusta que levou Jesus à morte (e que hoje, de muitas formas, continua matando gente). Jesus veio para levar a vida à sua máxima expressão, e isso para todos. Mas seu projeto recebeu forte oposição dos que querem a vida só para si. Aí está a raiz do pecado, de acordo com o Evangelho de João. Os pecados são atos concretos decorrentes dessa opção fundamental contra a liberdade e a vida das pessoas.
Diante disso, qual é a tarefa da comunidade cristã? Jesus lhe dá o poder de perdoar ou não perdoar. Ela executa essa função mostrando onde está a vida e onde se aninha a morte; promovendo a vida e quebrando os mecanismos que procuram destruí-la; conscientizando as pessoas e desmascarando os interesses ocultos dos poderosos. Assim, os cristãos provocam o julgamento de Deus. Tarefa ímpar das comunidades cristãs, nem sempre fiéis a essa vocação. O que significa, por exemplo, não perdoar os pecados dos latifundiários, dos corruptos, dos políticos que utilizam o poder para defender seus interesses?
“Os discípulos continuam a ação de Jesus, pois ele lhes confere a mesma missão (20,21). Pelo Espírito que dele recebem, tornam-se suas testemunhas perante o mundo (15,26ss). Sua ação, como a de Jesus, é a manifestação, em atos concretos, do amor gratuito e generoso do Pai (9,4). Diante desse testemunho, acontecerá o mesmo que aconteceu com Jesus: haverá quem o aceite e quem endureça numa atitude hostil ao homem, rejeitando o amor e se voltando contra ele, chegando inclusive a perseguir e matar os discípulos em nome de Deus (15,18-21; 16,1-4). Não é missão da comunidade, como não era a de Jesus, julgar os homens (3,17; 12,47). Seu julgamento, como o de Jesus, não é senão o de constatar e confirmar o juízo que o homem faz de si próprio” diante do projeto de Deus (J. Mateos-J. Barreto, O Evangelho de São João, Paulus, São Paulo, 2ª edição, 1998).

2. I leitura (At 2,1-11):
O Espírito ensina a comunidade cristã a continuar o projeto de Deus

Páscoa e Pentecostes eram festas agrícolas muito antigas em Israel. Com o passar dos tempos, foram transformadas em festas religiosas: Páscoa revivia a saída do Egito; Pentecostes recordava o dia em que Moisés, no monte Sinai, recebeu a Lei, tida como o maior presente de Deus ao povo.
Quando Lucas escreveu os Atos dos Apóstolos (cerca de meio século após o Pentecostes), a evangelização já havia alcançado todas as nações até então conhecidas (os confins do mundo; cf. At 1,8). Isso quer dizer que, quando esse livro foi escrito, todos os povos que Lucas diz estar em Jerusalém no dia de Pentecostes já tinham recebido o anúncio de Jesus, já tinham sido evangelizados. Por que, então, Lucas recorda o evento de Pentecostes? Ele quer mostrar a universalidade do povo de Deus e da evangelização. Na ótica da fé, tudo isso é obra do Espírito de Jesus.
Ao descrever o episódio de Pentecostes, Lucas se serve de esquemas já presentes no Antigo Testamento. Ele situa a vinda do Espírito Santo cinqüenta dias após a Páscoa para fazê-la coincidir com o Pentecostes judaico, no qual o povo judeu celebrava o dom da Aliança no Sinai, a entrega da Lei (Decálogo), o surgimento de um arranjo social comprometido com a vida e a justiça. De fato, segundo Ex 19, cinqüenta dias depois que o povo saiu do Egito, Deus fez aliança com ele no monte Sinai, entregando-lhe, por meio de Moisés, a Lei. O fato foi acompanhado de trovões, relâmpagos e trombeta tocando. Ora, esse episódio é uma das bases sobre as quais Lucas constrói a narrativa do Pentecostes: cinqüenta dias após a Páscoa, estando os discípulos reunidos em Jerusalém, houve um barulho como o rebentar de forte ventania (At 2,1-2). Com isso, Lucas afirma que, em Jerusalém, se realiza a Nova Aliança; surge o Novo Povo de Deus; é dada a Nova Lei: o Espírito Santo.
Lucas se inspira em outro texto do Antigo Testamento: Números 11,10-30, em que Deus repartiu seu Espírito sobre Moisés e os setenta anciãos, para que pudessem organizar o povo. E Moisés exprimiu o desejo de que todo o povo recebesse o Espírito de Javé (Nm 11,29). Esse substrato serviu de molde para Lucas, a fim de mostrar que, finalmente, o Espírito de Deus foi derramado sobre todos no dia de Pentecostes. No início do evangelho, o Espírito tomara conta de Jesus (cf. Lc 4,18). No início dos Atos, o mesmo Espírito toma posse de todas as pessoas.
Finalmente, Lucas se serve de Gênesis 11,1-9, o episódio da torre de Babel, onde Deus confundiu a ambição das pessoas, que não se entendiam mais. Para Lucas, o Pentecostes é o oposto de Babel: aqui, “todos nós os escutamos anunciarem, em nossa própria língua, as maravilhas de Deus” (2,11).
Com o episódio de Pentecostes assim formulado, Lucas faz ver que a comunidade cristã é o novo povo de Deus, o povo da Nova Aliança, cuja Lei é o Espírito Santo. Não há fronteiras para esse povo, e o objetivo comum é viver o projeto de Deus. Esse povo é capaz de se entender e se unir porque fala a língua do Espírito de Jesus. De fato, o Espírito Santo é a memória sempre renovada e atualizada do que Jesus fez e disse (cf. Jo 14,26). Entregando seu Espírito, Deus realiza com a comunidade cristã a nova e definitiva Aliança, na consecução do projeto divino, confiado agora aos que sonham com a humanidade livre de todas as formas de opressão, violência e morte.
Não se deve confundir o fenômeno de Pentecostes com o falar línguas estranhas de 1Cor 12-14. Em At 2,1-11, todos os que estão aí à escuta – há gente de três continentes – ouvem na própria língua (entendem perfeitamente) o anúncio das maravilhas de Deus.

3. II leitura (1Cor 12,3b-7.12-13):
Ninguém possui plenamente o Espírito; ninguém é privado dele! A comunidade é o corpo de Cristo!
O texto de hoje se inicia apresentando o critério básico de distinção entre o que procede e o que não procede do Espírito Santo. Esse critério básico é o reconhecimento de Jesus como o único Senhor (v. 3b). Tudo o que não leva a isso não provém do Espírito. É provável que alguém, em Corinto, julgando-se movido pelo Espírito, tenha dito grave blasfêmia: “Maldito Jesus!” (cf. 12,3a). Para Paulo, a ação do Espírito leva sempre à confissão de que Jesus é o Senhor.
Os coríntios achavam que ter carisma fosse possuir dons extraordinários, como o falar em línguas estranhas e profetizar. Sua visão dos carismas era muito redutiva e personalística. Paulo começa abrindo brechas, afirmando que são distribuídos muitos dons (não alguns somente), mas o Espírito que os distribui é o mesmo: é o Espírito de Jesus (cf. 12,4). Toda ação tem sua origem no Pai; o que os cristãos fazem se baseia na ação de Jesus (cf. vv. 5-6). Note-se aí a formulação trinitária. Em Deus não há divisão, mas harmonia. Tudo colabora na execução do projeto de Deus. O mesmo se verifica na comunidade cristã: “A cada um é dado algum sinal da presença do Espírito Santo, para o bem comum” (v. 7). É uma quase definição de carisma. Mas salienta que o movimento do carisma é de dentro para fora, e não o contrário.
A seguir, Paulo emprega a imagem do corpo. Ele está pensando no corpo humano, que tem muitos membros, mas ao mesmo tempo pensa no corpo social, a comunidade cristã, que forma um todo com Cristo (v. 12; cf. 6,15: “Vocês não sabem que seus corpos são membros de Cristo?”). Então, pensa Paulo, se em Jesus, com o Pai e o Espírito, não há divisões apesar da diversidade, como pode havê-las na comunidade, que é o corpo de Cristo? De fato, o anúncio do evangelho em Corinto havia unido povos, categorias e classes sociais incompatíveis até então: judeus e gregos, escravos e livres (v. 13a; cf. Gl 3,28, que é uma das grandes sínteses do evangelho de Paulo).
O batismo havia elevado todos a um nível jamais atingido antes: todos receberam o mesmo Espírito, a fim de constituir um só corpo social, sem rupturas ou distinções: a comunidade cristã, corpo de Cristo. Assim, todos se alimentam e se inspiram na mesma fonte, que é o Espírito Santo (v. 13b). Têm sentido, portanto, as divisões escandalosas que as comunidades criam em torno de interesses pessoais, posições ou tarefas mais vistosas? Não é um atentado ao corpo de Cristo e ao Espírito de Jesus? Não é um atentado ao projeto de Deus?

III. PISTAS PARA REFLEXÃO
• Analisar a coordenação pastoral: com que espírito agimos na comunidade cristã? Que sentido têm os encargos, os postos, os serviços? É o Espírito de Jesus quem anima toda a pastoral?
• A diversidade dos membros da comunidade é fator de crescimento mútuo? Manifesta o novo povo de Deus nascido do Espírito? Nossas comunidades são Pentecostes ou Babel?
• O projeto de Deus continua na comunidade: somos abertos à nova criação do Espírito ou vivemos medrosos e de “portas fechadas”? Provocamos o “julgamento de Deus” numa sociedade que rejeita sistematicamente o projeto de Deus ou não nos distinguimos em nada da sociedade injusta e corrupta em que vivemos?
• Pentecostes é tempo de ecumenismo. Qual seria a grande proposta ecumênica que o Espírito nos faz? Não seria tempo de unir as pessoas do mundo inteiro, independentemente do credo que professam, em torno de um mesmo objetivo, a justiça e a vida para todos? Não seriam as palavras “justiça” e “vida” o novo sopro do Espírito?

*Da Revista Vida Pastoral – Pe. Bortolini

segunda-feira, 2 de junho de 2014

36º SODALÍCIO EM SAPOPEMBA/SP-02: Agradecimentos

QUEM TEM O ESPÍRITO DE JESUS...

Santo Agostinho, o amor, o sexo e o pecado... Um mal entendido?

Em sua intervenção no festival Philosophia, do qual La Vie é parceiro, o jesuíta Dominique Salin, professor de teologia e de literatura espiritual no Centro Sèvres, em Paris, varre os clichês segundo os quais Agostinho teria feito a Igreja pagar por sua renúncia à sexualidade. A reportagem é de Isabelle Francq e publicada no sítio da revista francesa La Vie, 09-05-2014. A tradução é de André Langer. Fonte: http://bit.ly/1krrLwV        
Embora esteja no centro das preocupações humanas, o amor não se mistura bem com a filosofia e, exceto Platão, poucos pensadores da Antiguidade fizeram dele um objeto de reflexão. Em Santo Agostinho, ao contrário, entre pecado e piedade, o amor é central. Para melhor demonstrar isso, essa grande figura da teologia que foi o primeiro a praticar a arte da autobiografia, detém-se sobre a sua experiência da paixão.
Antes da palestra que fará no festival Philosophia de Saint-Émilion, este ano dedicado ao amor, Dominique Salin, jesuíta e especialista em Agostinho, fala-nos sobre este grande pensador, ainda desconhecido, do Ocidente.

Um ex-mulherengo?
Um Don Juan arrependido, fulminado pela graça aos 33 anos, Agostinho (354-430) teria feito o cristianismo pagar sua própria renúncia à carne. Quando falamos de Santo Agostinho e do amor, devemos imediatamente abandonar esse clichê. No início do século V, seria ele, o bispo de Hipona (atual Annaba, na Argélia), o responsável pela doutrina cristã da sexualidade marcada pela proibição, pelo sentimento de culpa. Afinal, não é Agostinho o inventor do pecado original? Este pecado não vai estar em parte relacionado à sexualidade? Para muitos, a culpa de Adão e Eva foi ter comido da maçã, e de nos ter transmitido geneticamente, isto é, sexualmente, um desejo ilimitado por essa fruta metafórica, tão conhecida. A realidade é mais complexa e bela, filosófica e poeticamente.
“Eu me esbanjava e ardia nas minhas fornicações.” É a partir dessas observações que se esculpiu em Agostinho um costume e arrependido debochado. E não deixamos de notar que a sua primeira decisão, após sua conversão aos 33 anos, foi despedir sua concubina. A violência com que ele fustiga, em suas Confissões, o pecador que ele era, seria para alguns o sinal de uma forma doentia de obsessão sexual. As extravagâncias das quais Agostinho se acusa dizem respeito, porém, principalmente às férias forçadas que ele passa em Tagaste (Argélia), sua cidade natal, em torno dos 15 anos. Sendo seu pai um agricultor pobre, teve que esperar por uma bolsa para fazer seus estudos de retórica. Para passar o tempo, ele ia à missa aos domingos para aí arrastar as meninas (Confissões III, 3).
Essas loucuras não duraram muito. Aos 17 anos, estudante em Cartago, ele se casa com a mulher da sua vida, a mãe do seu filho, a quem será fiel durante 15 anos. Ele rompe com essa mulher que ele amava um ano antes da sua conversão, isto é, da sua decisão de se fazer batizar e tornar-se monge. Ruptura por razões de arrivismo. Na verdade, instalado na corte de Milão, orador titular do imperador – um adolescente sob a regência da sua mãe –, está prestes a ser nomeado governador de uma província do Império, ele atinge o topo da honras, mas não tem sorte. Ele termina com sua noiva para se prometer a uma rica herdeira. No entanto, ela tinha apenas 12 anos. A idade legal era 14 anos. Ele deve, portanto, esperar.
"(...) Incapaz de suportar o prazo imposto (dois anos antes de conseguir o que eu pedi), e menos afeito ao casamento que escravo da paixão, eu fui ao encontro de outra mulher; não era, certamente, para me casar, mas para alimentar a doença da minha alma e fazê-la perdurar, sob o olhar atento do Hábito, e isso até a chegada da esposa.” Cego da dependência do seu impulso sexual, a vergonha que aqui expressa é um ponto decisivo da concepção de amor de Agostinho. De fato, até esse dia de agosto 386 quando ouve uma voz vinda do além e decide fazer-se batizar e tornar-se monge, ele se julgou incapaz de viver na continência. Isso era para ele um sofrimento, uma frustração.
No início dos estudos, a leitura de Cícero e do estoicismo havia semeado nele o desejo de tornar-se um sábio, isto é, um santo. A valorização da continência não é uma invenção cristã. Ela não é dominante na sabedoria greco-romana pagã, mas também não está totalmente ausente; Plotino, o grande neoplatônico pagão, era celibatário. Isso não foi suficientemente enfatizado: o ideal de santidade que Agostinho se fixou aos 16 anos contemplava a continência. Mas, no momento em que ele está apaixonado, casa-se. A partir de então, sua vida conjugal é marcada por uma consciência deformada. Ele enfatiza que o fato de estar casado impediu-o de crescer em sua vida espiritual. Tudo muda quando ele aceita o que sente ser um convite de Cristo e de São Paulo para "tornar-se eunuco pelo Reino de Deus". Ele, finalmente, encontra a paz do coração, escreveu. Certamente, a continência é difícil. Mas ele nunca se arrependerá disso.

No princípio, o desejo
Para Agostinho, o amor ultrapassa o amor sexual. Amar é, em latim, appetere ("um apetite"); é motus ad aliquid, “um movimento em direção a algo”, ou alguém. O amor é desejo. Ele tem essa frase maravilhosa: “O amor estende o desejo e o desejo estende o amor”. O amor é tão natural ao homem quanto o desejo. É o desejo que faz o ser humano. O animal é conduzido por seus reflexos, instintos e necessidades. O homem também, mas ele é capaz de adiar a satisfação em vista de um prazer (delectatio) superior.
Ser de desejo, o homem é, portanto, marcado pela falta. Atrás de qual delectatio correr? O bem supremo, a "vida feliz", a "bem-aventurança", responde Agostinho. O estado psicológico que lhe corresponde é a alegria. Ele diz: o homem é feito para a alegria e Deus é a alegria do homem. Assim, buscando sua delectatio, é Deus que o homem procura, quer saiba ou não. “Tu nos fizeste para ti, Senhor, e o nosso coração está inquieto (inquietum) até que descanse em ti (quiescat in te).”
O desejo, infinito, de absoluto é, no homem, a marca de fábrica de Deus. O desejo de Deus, o amor de Deus, é o motor do homem. Quando ele pensa em procurar a segurança, o prazer, a tranquilidade, a serenidade, a justiça, quando ele pensa amar o dinheiro, as mulheres, o sucesso, na verdade, está buscando a Deus, diz Agostinho. A glória ou a alegria nunca serão suficientes. O desejo, ou melhor, a necessidade, incessantemente renascerá. Mas na maioria das vezes, o nosso desejo erra de alvo. A tendência do indivíduo de se preferir a si mesmo aos outros e de ver nas outras criaturas o meio de satisfazer suas necessidades leva, na teologia de Agostinho, a um nome fatal: o pecado original. Ele deforma o amor em amor de si, em vez de ser, em primeiro lugar, amor de Deus.

Os dois amores
Assim se esboça a antropologia agostiniana. Há apenas um amor, porque o desejo é um. Mas esse amor pode assumir duas formas incompatíveis de acordo com o objeto ao qual ele se dirige. Agostinho escreveu: "Quem ama quer formar um com quem ama”. Em consequência: “O ser humano torna-se o que ele ama: aquele que ama a terra, torna-se terra; aquele que ama o Deus eterno irá compartilhar da eternidade com Deus”. Este é o tema das duas cidades – terrestre e celeste – que ele formula em A Cidade de Deus (Volume 2, XIV, 28).
A chave da história humana é a oposição entre o amor que dá a primazia a Deus e aquele que ama, em primeiro lugar, a si mesmo, ao passo que ele ama as criaturas pelas vantagens que disso pode obter. No primeiro caso, o amor é mediado pelo amor de Deus: eu amo as criaturas com um amor que as respeita, que me respeita e que me permite respeitar a Deus. Eu O respeito em suas criaturas, através delas. No segundo caso, eu não respeito as criaturas, nem Deus nelas. Eu as amo pelos interesses que posso obter, pelo uso que posso fazer delas. E eu instrumentalizo o próprio Deus em vista do meu benefício. A primeira forma de amor Agostinho chamou de amor ou caritas ou dilectio. A outra, que instrumentaliza a Criação e o próprio Deus, ele a chama de cupiditas ou concupiscentia ou libido.

O “Pecado original”
O ideal seria viver permanentemente do amor e da caritas: “Amemo-nos uns aos outros!” Mas o mundo é marcado pelo mal, pelo sofrimento, pela concupiscência – que Agostinho chamou, na linha de São Paulo, de pecado. Desde a sua concepção, o ser humano é afetado pela violência, pela injustiça e pelo sofrimento. Ele sofrerá as consequências sendo ele próprio conduzido à violência, à injustiça, à ganância e à falsidade. Porque seus antepassados estão marcados por isso, desde Adão, desde as origens. Pecado original, universal; pecado das origens, que não poupa ninguém. Será preciso ter a ingenuidade de Jean-Jacques Rousseau para imaginar que a criança nasce pura e inocente. Freud, por sua vez, sobre este ponto, dá razão a Agostinho e à Bíblia.
Agostinho não é o inventor do pecado original. Ele o encontrou em São Paulo. Ele formalizou a doutrina e a endureceu na sua luta contra o pelagianismo, no final da sua vida. Para o herege Pelágio, o homem em si mesmo é saudável. Ele encontra em si mesmo os recursos necessários para alcançar a virtude, a santidade e a união com Deus. Agostinho respondeu-lhe que o homem comete o mal que não gostaria de cometer e não consegue praticar o bem que gostaria. O pecado é um mistério que nos ultrapassa. Somente Cristo pode iluminar o homem e guiá-lo para a luz.
Essa visão pessimista da natureza humana se agrava na aurora dos tempos modernos, quando Lutero e os jansenistas releem Agostinho e endurecem e caricaturizam seu pensamento. "Como o coração do homem é oco e cheio de lixo!", exclamou Pascal (Pensées, Sellier181, Lafuma 148). Mas podemos ser cristãos sem ser jansenistas. É verdade que o pecado original foi muitas vezes apresentado nos catecismos como uma doença sexualmente transmissível desde Adão. Daí a dizer que o ato de procriação é sujo, é apenas um passo. Dizia-se que fazer amor no casamento, era um pecado permitido. Devemos reconhecer que a concepção de sexualidade de Agostinho inclinou-se para esse lado. O caráter, às vezes, incontrolado da pulsão sexual parecia-lhe uma desordem; uma forma de violência desordenada que não estava nos planos de Deus. Ele via nisso um sintoma e uma consequência do pecado original.

"Ama e faz o que quiser!"
Para Agostinho, pode-se amar um homem ou uma mulher, a música, seu trabalho, seus filhos, seus amigos e também amar a Deus. Pode-se amar a Deus como se ama a sua esposa? A resposta encontra-se nas Confissões X, livro 6. Ele descreveu com as mesmas palavras o amor humano e o amor divino. Elas tomam um sentido metafórico quando se trata de Deus. Elas são deficientes também quando se trata do amor. Para dizer o amor, a linguagem menos inadequada é a da poesia, da música: da imagem, da metáfora. A linguagem poética não pretende dizer o indizível, divino ou humano, mas apenas sugeri-lo. É dessa maneira que toca o nosso coração.
Há em mim mais do que eu mesmo. Há em mim alguém outro, há em mim um Outro. Arthur Rimbaud disse-o melhor que ninguém: “‘Eu’ é um outro”. Este outro nele, Agostinho chama de “homem interior”: é ele que toma Deus em seus braços, é ele que Deus toma em seus braços. Eles são um, como o homem e a mulher. É a maneira de dizer o que o Mestre Eckhart afirmará no século XIV: “Deus e eu somos um, somos semelhantes, somos iguais”. Nesse nível, o mistério de Deus e o mistério do homem são o mesmo. Falar de Deus e falar do homem é a mesma coisa.
"Fale-me sobre o amor...". Tudo bem, mas como saber se é realmente o amor que me faz agir? Que garantia eu tenho contra os erros e as ilusões? Para o Evangelho, o amor é julgado pelos frutos. Agostinho não nega isso, e sua homilia sobre a Primeira Epístola de João (7,7-8) mostra como ele é sensível à complexidade das situações. Mas, para ele, é o amor que pode e deve ser a regra da ação. Sempre o Amor.

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