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A Palavra do Frei Petrônio

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sábado, 25 de janeiro de 2014

Arquidiocese de São Paulo: Esclarecimentos sobre transferências de Párocos. Nota do arcebispo de São Paulo.

Eis a nota.
Tendo regressado, hoje, de um período de descanso, tomei conhecimento de manifestações e interpretações, nem sempre corretas, de alguns grupos, insatisfeitos por causa de transferências de alguns Párocos na Região Episcopal Ipiranga nos dias 6 a 9/12/2013, por mim decididas após reunião com a Comissão de Presbíteros e o Vigário Episcopal daquela Região, e após dialogar pessoal e individualmente com eles. Tendo em vista a repercussão que tais manifestações suscitaram, a bem da verdade, venho esclarecer o que segue.
Tenho compreensão por visões e pareceres diferentes sobre a questão, que algumas pessoas possam ter; e me alegro em saber do apreço pelos Padres, sinal de que eles marcaram positivamente a comunidade com seu trabalho e dedicação. Deus seja louvado!
No entanto, é prática usual na Igreja que haja transferências de párocos e que estes possam ser chamados a desempenhar novas missões, conforme previsto pelas orientações e normas da Igreja. Tal decisão, finalmente, deve ser assumida, em consciência, por quem de direito e dever: o bispo diocesano. Afirmo que nada foi feito à revelia do que a Igreja prescreve para as transferências de párocos.
Esclareço também que nenhum padre ficou sabendo de sua transferência por mídias sociais, uma vez que essas decisões só foram confirmadas com eles no diálogo pessoal de cada padre interessado comigo. E apenas um padre, por escolha dele mesmo, foi atendido na Catedral metropolitana, após a celebração de uma Missa, no dia 8 de dezembro.
Agradeço a cada padre que se dispôs aceitar uma nova missão, mesmo que isso lhe possa ter custado alguma renúncia ou desconforto. Agradeço aos leigos e às comunidades, que aceitaram generosamente, mesmo com alguma dor, “perder” o seu pároco e “ganhar” um outro. As mudanças, vistas à luz da fé eclesial, trazem benefícios e fazem crescer.
Convido todos os paroquianos a acolherem bem os novos párocos, em qualquer parte da Arquidiocese de São Paulo e a colaborar com eles no desempenho da sua missão. Acolhamos bem igualmente o convite do Papa Francisco a sermos uma “Igreja em saída”, em processo de conversão missionária, sempre prontos a renovar-nos na missão, para prestar um bom serviço ao Evangelho e a Jesus Cristo, Pastor dos pastores” (cf Evangelii Gaudium /A Alegria do Evangelho, nn. 19-49).
Nestes dias, em que nos preparamos para a festa do nosso Patrono, o apóstolo São Paulo (25/01), quero recordar uma palavra insistente dele à comunidade de Corinto, onde estavam sendo infiltradas sementes de divisão e discórdia: “Irmãos, eu vos exorto, pelo nome de Nosso Senhor Jesus Cristo, a que estejais todos unidos no que falais e que não haja divisões entre vós, Pelo contrário, sede bem unidos no sentir e no pensar” (1Cor 1,10). Que São Paulo nos contagie mais e mais com seu ardor missionário! Deus abençoe a todos!

sexta-feira, 24 de janeiro de 2014

CAPÍTULO/2014: Entrevista com o Prior Geral

CAPÍTULO/2014: Entrevista com o Prior Geral (2ª Parte)

AS CARACTERÍSTICAS DA MÍSTICA (1ª Parte)

Dom Vital João Wilderink, OCarm.
A experiência mística só acontece em pessoas concretas, pessoas que têm as suas limitações, seus problemas, suas alegrias e tristezas. Não são pessoas exóticas. O exotismo sempre recorre a métodos,  lança mão de todo um instrumental. Se alguma coisa de “extraordinário” possa existir no místico, é a sua receptividade, sua atitude de mãos abertas e vazias. Atitude preliminar que não traduz nenhuma exigência com respeito à própria experiência mística. Teresa de Ávila escreve: “Quando Sua Majestade o quer, nos ensina o todo num instante de uma maneira que me espanta”.[1] É a partir dos escritos que os místicos nos deixaram que é possível descrever, de certa maneira, as características da experiência mística.  Descrições que não são categóricas no sentido de não admitir nenhum variável. A leitura de textos místicos é muitas vezes difícil porque neles está descrito o que não foi escrito.
Um conhecimento sem mediações
Nas experiências relatadas no Prólogo e em outras experiências semelhantes, as coisas já conhecidas revelam uma realidade que é maior. Realidade que se desvela como se fosse ao clarão de um relâmpago, mas que vem do interior.  É um conhecimento por uma presença. Não é um conhecimento adquirido através dos  sentidos, ou do discurso, dos conceitos ou das imagens. É uma presença direta e sem mediações. Não é só conhecimento, é vida. É que as palavras de Deus são obras.[2]
Talvez o fenômeno tenha mais clareza para nós quando se trata de uma experiência semelhante em pessoas que alimentam sua vida com as verdades da fé cristã, embora Deus não se deixe condicionar na sua iniciativa de amor por nada e ninguém. Hadewijch de Antuérpia dizia que Deus pode escolher até pecadores e pessoas a-religiosas. Aliás, quem teria coragem de colocar-se completamente fora dessas categorias! Mas há pessoas que buscam a presença de Deus e tentam ser fiéis a Ele, com todas as dificuldades que têm em manter a sua fé. De repente, Deus está ali! Não que tenham pensado nele com maior intensidade ou que tenham provado um amor mais profundo por Ele. Mas elas sentem, como um raio que lhes atravessa, algo de estranho, de completamente novo. Parece que um muro desabou. Assim aconteceu com Dag Hammarskjoeld  que foi secretário geral das Nações Unidas nos anos 50. Depois de sua morte num desastre de avião, encontraram no seu apartamento em Nova York seu diário espiritual. Em uma das páginas ele escreve: “... naquele momento eu vi que o muro nunca tinha existido, que o  ‘inaudito’ se encontra aqui e agora, não outra coisa, que ‘o sacrifício’ está aqui e agora, sempre e em toda parte;  só isto: estar entregue ao que Deus - em mim - dá de si mesmo a si mesmo”.[3]
Nos exemplos citados a experiência mística é descrita como um conhecer a Deus sem mediações, sem idéias ou conceitos. Normalmente o conhecimento que o ser humano tem de Deus sempre é através de algo que não é Deus. Qualquer um, dotado ou não, precisa sempre de indicações, de sinais. Pode haver momentos em que sentimos uma consolação, uma alegria profunda rezando ou refletindo diante de Deus. Mas é algo que sentimos por Deus, não de Deus como sendo o Outro. Continua havendo como que um biombo entre Deus e o ser humano em busca de Deus. Na experiência mística essa mediação é afastada. Este tipo de encontro com a presença de Deus é tão novo, tão incomparável que, de início,  pode assustar e provocar dúvidas. Mas no seu interior profundo o místico tem uma certeza: “É Deus!”. É uma primeira característica da experiência mística. Santa Teresa de Ávila a descreve com a vivacidade que lhe é peculiar:
No princípio, atingiu-me uma ignorância de não saber que Deus está em todas as coisas, e que, como Ele me parecia estar tão presente, eu achava ser impossível. Eu não podia deixar de crer que Ele estivesse ali, pois achava quase certo que percebera a sua presença. Os que não tinham letras me diziam que Ele só estava ali mediante a graça. Eu não podia acreditar nisso, porque, como digo, sentia a Sua presença. Por isso ficava aflita. Um grande teólogo da Ordem do glorioso São Domingos me tirou dessa dúvida, ensinando-me que o Senhor está presente e se comunica conosco, o que me trouxe imenso consolo.[4]
A experiência mística faz perceber, sentir diretamente a presença de Deus. Isto não significa que se trata de um conhecimento claro. Por isto o termo conhecimento talvez não seja o mais adequado. Dizer que o místico tem consciência da presença direta de Deus elimina um pouco a noção de categorias que sempre acompanham o conhecimento humano. A percepção mística vai além de categorias e referências, mesmo doutrinais e teológicas. Na reflexão dos próprios místicos sobre a sua experiência encontramos constantemente uma teologia negativa. Falam de trevas, da nuvem do não-saber, ou, como diz João da Cruz: “Estando a alma naquele excesso de altíssima sabedoria de Deus, toda a sabedoria humana torna-se evidentemente baixa ignorância”.[5] Mais forte ainda é a expressão do Pseudo-Dioníso: ”Deus é tudo aquilo que é e nada daquilo que é”.[6]

A passividade     
A descrição do primeiro traço característico da experiência mística já deixa prever um segundo: ela é fruto de uma iniciativa gratuita de Deus. Não é uma conquista humana, de emoções intensas ou de uma intensa atividade intelectual, nem  mesmo de uma conduta moral exemplar. A experiência mística é um sofrer a irrupção de Deus (patiens Deum). É a passividade mística. Por isto o Mistério só é compreendido na medida em que Ele se deixa compreender. Não é o conhecimento que ilumina o Mistério, é o Mistério que ilumina o conhecimento, inclusive o conhecimento da fé. Essa passividade já tem uma raiz na própria fé enquanto virtude teologal, dom de Deus. A experiência é mística quando a iniciativa e o conduzir pertencem ao Outro. Por esta razão na mística afetiva (o Amado é meu e eu sou do Amado) o caráter passivo da experiência aparece mais claramente. O mesmo pode ser dito da mística da glória que em certos místicos se entrelaça com a mística do amor.[7]
A “passividade” não tem nenhuma conotação de não-liberdade humana. O receber não é menos livre que o fazer. Receber de Deus é fonte de liberdade. Não existe apelo mais exigente à liberdade humana que a gratuidade de Deus porque ela é transformadora. É permitir a Deus que Ele seja Deus na nossa vida. Nesta perspectiva Teresa de Lisieux  se expressa numa oração: “Para amar-vos como me amais, preciso tomar de empréstimo o vosso próprio amor”.[8]
A passividade indica que o místico já não é o centro da sua própria existência e percebe que é movido por Deus. Não há dúvida que ele mesmo pode ter feito um trabalho (ascese) para reduzir esse ego-centrismo que comanda sua vida cotidiana. Não se trata só de um egocentrismo em sentido moral, mas da tendência das faculdades humanas sempre ativas em buscar e apropriar-se os seus objetos específicos. O toque divino atinge além do domínio do ego, um ponto ou uma região que nos escritos dos místicos recebe vários nomes de acordo com a visão que têm da estrutura da psique humana: essência da alma, centro da alma, núcleo definitivo do ser humano. Mas a presença mística de Deus é pura gratuidade. Ela nunca é fruto de uma preparação ascética, mesmo realizada com a ajuda da graça de Deus, embora nos escritos dos grandes místicos a mística apareça freqüentemente como coroação de uma caminhada, nunca, porém, como fruto e prêmio.
Na mística da criação a passividade é menos acentuada. Nela há um despertar de uma consciência à medida em que o místico desce no fundo do seu próprio ser, que tem como o outro lado da medalha, o Ser Incriado. O indizível e o arrebatador deste experiência têm conotações diferentes.[9] 
União com Deus
A presença de Deus percebida na experiência mística envolve o místico de tal maneira  que desaparece a relação sujeito-objeto, entre o que vê e o que é visto. Esta união ou unidade mística  é o terceiro e mais importante traço característico. União essa que não pode ser descrita porque não é alcançada pela atividade das faculdades humanas (sentidos, intelecto, vontade). A própria fonte original da ação humana é deslocada em Deus. É por isto que o místico entra numa nuvem escura: “É no silêncio que se aprendem os segredos destas trevas... que brilha com a luz mais fulgurante, enche de esplendores mais belos da beleza as inteligências que sabem fechar os olhos”.[10] É um descer no abismo do amor. A descrição desta união com Deus é feita pelos místicos em linguagem simbólica. Há imagens e expressões que aparentemente desfazem a distinção entre Deus e a criatura., embora não seja esta a intenção dos próprios místicos. É conseqüência da limitação inerente a qualquer expressão por ser uma incarnação imperfeita do inexprimível. Mas por  isto mesmo vale a pena ser dita.


[1] Livro da vida, 12, 6, Obras Completas, São Paulo, Ed. Loyola, 1995.
[2] Ibidem, 25,18.
[3] Merkstenen, Brugge-Utrecht, 1965, p. 104. Citado por Paul Momaers, em Wat is Mystiek, pp. 45-46.
[4] Livro de vida, cap. 18, 15, em Obras Completas, São Paulo, Ed. Loyola, 1995, pp.117-118.  No seu escrito Cuentas de conciencia (66,10) Santa Teresa afirma que é impossível duvidar da presença das três Pessoas divinas. Presença que traz tantos bens que não é necessário tecer considerações para saber que Deus está ali.
[5] Cântico espiritual, Canção XXVI, 13. São Paulo, Ed. Paulinas, 1980, p.183.
[6] Citada por Jean Daniélou no prefácio do seu livro Dieu et nous, na coleção Livre de vie, Paris, 1956.
[7] “No estado de matrimônio espiritual de que vamos falando, quando a alma chega a este grau, embora não tenha ainda a perfeição e amor que terá na glória, contudo, há nela uma viva imagem e vislumbre daquela perfeição, a qual é totalmente inefável” (João da Cruz, Cântico espiritual, XXXVIII, 4). No Diário Espiritual de Maria Crocifissa Cúrcio, Fundadora das Carmelitas Missionárias de S. Teresa do Menino Jesus, aparece em muitas páginas essa passagem da mística do amor para a mística da glória.
[8] Teresa do Menino Jesus e da Sagrada Face,  Obras completas, Edições Loyola,, São Paulo, 1997, p.262. Manuscrito C 35f.
[9] Kees Waaijman, Spiritualiteit, pp. 846-847.
[10] Dionísio Areopagita Teologia mística, I,1. Citado por João Paulo II na alocução catequética em 19.01.2000, em L’Osservatore Romano, ed. portuguesa, 22.01.2000.

Desafios da realidade de hoje para a família Carmelitana

Frei Carlos Mesters, O. Carm.
No Monte Carmelo, bem perto da fonte do profeta Elias sai do chão um tronco de árvore, velho e ressequido. Parece que já nasce cansado, pois não se rege em pé e se curva quase até o chão, estendendo-se, seco e sem folhas, por mais de um metro. Bem no fim, de repente, saem brotos verdes, dezenas, em todas as direções. É a imagem perfeita da Família Carmelitana. Como que de repente, nos últimos dois séculos, ela renasce nos vários cantos do mundo e da Igreja. Somos desafiados a fazer renascer o carisma. Chamados a recriar, não a repetir!
Os três pólos que geram os desafios para nós
Estamos sempre entre três pólos que geram os desafios para nós: (1) De um lado, estão a realidade de hoje e as necessidades do povo. (2) Do outro lado, está o nosso carisma, nossa origem, a tradição mística do Carmelo; estão os nossos santos e santas, nossas fundadoras e fundadores. (3) Entre os dois, estamos nós como Família Carmelitana. Os três, em nome de Deus, nos desafiam e fazem apelo à nossa consciência, cada um a seu modo. O Carisma nos oferece a forma concreta de como nós, carmelitas, devemos viver a Boa Nova de Deus que Jesus nos trouxe. A Realidade, o povo, os pobres, no meio do qual vivemos e ao qual servimos, denunciam qualquer forma de riqueza acumulada que é causa de privação para os outros, inclusive a riqueza acumulada da tradição religiosa. A Família Carmelitana é a forma concreta com que o carisma procura responder às exigências da realidade. Muitas vezes, porém, nossa forma de vida está desatualizada e exige maior fidelidade tanto ao carisma como às exigências da realidade de hoje.
Vejamos, sucessivamente, os desafios que nos vêm de cada um destes três pólos: do carisma, da realidade dos pobres e da situação concreta da nossa Família.
1. Desafios que nos vem da nossa origem, do Carisma
Nosso carisma é aquilo que, vindo do passado, desde a Regra dada por Santo Alberto, nos define e nos dá identidade. É a forma sob a qual a Boa Nova de Deus que Jesus nos trouxe se apresenta a nós. Desta nossa origem não podemos abrir mão, sob pena de perdermos nossa identidade e nossa razão de ser. Não há carmelita que não seja sensível aos apelos que lhe vêm do seu passado, dos seus santos e santas, de suas fundadoras e fundadores. É como uma saudade que se coloca lá na nossa frente, como um ideal a ser alcançado, um grande e permanente desafio que se apresenta a nós sob muitas formas:
1. Viver e inculturar o Carisma do Carmelo em cada continente e cultura.
O nosso maior desafio será sempre o mesmo, até o fim da nossa vida: viver o ideal do Carmelo, para que penetre em nós; ideal que, sempre de novo, deve ser relido e inculturado em cada época, cada cultura, cada situação. Não podemos impor o modelo europeu para os países da Ásia, nem o modelo da América latina para os países da África. Neste ponto pecamos e continuamos pecando. Europa não é superior aos outros países, e os outros povos não podem criar complexo de inferioridade. Muitas vezes, exportamos um modelo de carisma e não o recriamos na cultura do povo a que servimos. Como fariam nossos fundadores e fundadoras se tivessem de recriar hoje o nosso carisma?
2. Recuperar a magia original do Carisma para que fale à juventude:
No seu livro “Como Pedras Vivas” frei Emanuel Boaga mostra que os primeiros irmãos nossos, depois que vieram do Monte Carmelo para Europa em 1238, em menos de 70 anos, de 1238  até o fim daquele século, fundaram em torno de 160 mosteiros em quase todos os países da Europa. Só este fato tão simples que a história registra, mostra uma coisa muito importante. Eles souberam apresentar o evangelho como um forte apelo para a juventude da época. Este é um desafio para nós hoje: recuperar a magia e o frescor do Carisma, para que fale à juventude de hoje. A juventude de hoje está cansada do sistema consumista e busca experiências novas. Muitos as buscam nas drogas. Será que o Carmelo pode ser uma resposta para eles? Penso que sim, e muito!
3. Nossa origem mendicante como forma de vida
Um aspecto da nossa origem é a mendicância. Nascemos como alternativa de Vida Religiosa numa época de transformação social, nos séculos XII e XIII. Os Mendicantes surgiram como resposta aos apelos da realidade: servir aos “menores”, os pobres da época. No mundo de hoje, a maior produção é a exclusão e a pobreza. Somos desafiados a despertar dentro de nós a origem mendicante como resposta aos problemas de hoje, e isto em três níveis: (1) entre as nossas próprias Congregações, sem que isto nos desvie do nosso carisma; (2) em parceria com os outros mendicantes que, como nós, surgiram na mesma época; (3) no processo de formação, para que esta nossa origem comum ocupe um lugar privilegiado nas várias etapas da formação inicial e na formação permanente?
4. Origem leiga da nossa família
Na origem, nossos primeiros confrades eram leigos na sua maioria. Alguns nem sabiam ler. Pouco a pouco, por força das circunstâncias e para poder servir melhor aos “menores”, o ramo masculino tornou-se uma ordem “clericalis”. As religiosas já não são vistas como leigas. Sem definição clara, elas estão entre o clero e os leigos. Hoje, porém, em muitos lugares, a vivência do carisma começa a ser partilhada e vivida com e pelos leigos e leigas. Esta re-descoberta de que o carisma não é propriedade das Congregações, mas sim da Igreja como um todo, não é fruto de uma concessão benévola da parte do clero, mas é um sopro do Espírito, um Sinal dos Tempos. Estamos sendo desafiados a fazer com que a vivência do carisma deixe de ser algo do clero e se torne propriedade da Família inteira. O desafio é criar um ambiente de participação que permita a partilha das experiências, em pé de igualdade, entre frades, monjas, irmãs, leigos e leigas, e que crie também estruturas jurídicas para esta participação, pois novas formas de vida carmelitana já estão surgindo em várias partes do mundo, para as quais anda não há lugar concreto dentro do direito normal que rege a nossa vida. Por exemplo, a fraternidade carmelitana leiga de Belo Horizonte; o mosteiro Monte Carmelo composto de ex-drogados; os Pequenos Carmelos da Delegação Geral de Colômbia; as comunidades na Holanda e em Cartagena, onde convivem frades e irmãs e leigas; os múltiplos encontros da Família Carmelitana em toda parte, etc.
5. A Origem própria de cada Congregação ligada à Família Carmelitana
Cada Congregação Carmelitana tem a sua origem própria, tem o seu carisma e, por isso mesmo, tem a sua maneira de viver o carisma comum a todos nós. É um grande desafio fazer (1) com que cada Congregação aprofunde e explicite para si e para todos nós o seu jeito próprio de viver o carisma carmelitano e (2) criar mecanismos para partilhar entre nós nossa vivência e, assim, enriquecer-nos mutuamente para aprofundar o carisma comum e melhorar nosso serviço ao povo de Deus e aumentar, assim, o louvor devido a Deus. (3) Algumas Congregações ou mosteiros estão no fim. Humanamente falando, na atual forma em que estão organizadas, não têm futuro. Mas o seu carisma faz parte da vida da Igreja e deve continuar. Somos desafiados a fazer renascer o carisma para além da morte da instituição. É uma forma de crer na ressurreição.
2. Desafios que nos vem da situação de hoje no mundo
Nunca na história da humanidade houve tantas mudanças em tantos setores e níveis diferentes em tão curto espaço de tempo como agora neste nosso tempo. Elas estão mudando os esquemas do nosso pensamento e o modo de viver a vida, a fé, os costumes ancestrais, o contato entre as pessoas, entre os povos, entre os continentes, entre as religiões. Mudanças que se expressam nos fenômenos da secularização, da pos-modernidade, do pentecostalismo, do interesse tão marcante pelo religioso, nas formas múltiplas do fundamentalismo, na massificação crescente. Diante disto, duas grandes tendências se enfrentam tanto na Igreja como na humanidade como um todo: os que querem renovar e os que querem restaurar. Esta realidade de hoje traz consigo desafios imensos que exprimem apelos de Deus para nós e afetam nossa maneira de viver o carisma.
1. O sistema neoliberal e o silêncio profético que a Regra recomenda
O sistema neoliberal que hoje é hegemônico no mundo está gerando uma pobreza crescente em toda parte. Nós não temos o controle das forças econômicas que geram esta situação antievangélica de injustiça e de exploração, mas como seguidores e seguidoras de Jesus não podemos ficar impassíveis diante do que está acontecendo no mundo. Pois, a partir da sua experiência de Deus, Jesus disse que veio anunciar a Boa Nova aos pobres. Na realidade, muitos cristãos, dominados e enganados pelo barulho da propaganda do sistema, perderam a visão crítica das coisas. Já não sabem quem é “O Deus da nossa contemplação”. Como carmelitas, não podemos ser ingênuos diante desta situação de injustiça. A Regra nos ensina que a justiça deve ser cultivada pelo silêncio. A prática do silêncio ajuda a combater a injustiça. De que maneira? Devemos fazer silenciar dentro de nós o barulho da propaganda. Este silêncio exige disciplina e controle, estudo e análise da realidade, para que possamos perceber os mecanismos escondidos que geram esta situação de injustiça. Nossas comunidades devem ou deveriam ser lugares, onde silencia a voz do sistema opressor e onde aparece uma alternativa de convivência humana, uma amostra e uma prova de que “um outro mundo é possível”. Quantos carmelitas estavam no Fórum Social Mundial? Na guerra do Iraque, em torno de 70% do povo americano era a favor de Bush, apesar de o Papa e o mundo inteiro gritar: “A guerra é satanás!” Como explicar? Quando as pessoas são dominadas pelos meios de comunicação fica mais difícil formar consciência crítica. Como fazer com que nós religiosos possamos ter consciência crítica e não sermos dominados pelos meios de comunicação?
2. O pluralismo religioso e o conceito tradicional da Missão
Muitos de nós entramos na Vida Religiosa para ser missionários e levar a Boa Nova para outros povos. Muitas Congregações nasceram como o mesmo objetivo. Hoje, uma nova experiência de Deus, do mundo, da humanidade e da cultura está mudando o conceito de missão e o jeito de anunciar a Boa Nova de Deus que Jesus nos trouxe. O contato com outras religiões e culturas e o estudo da história das missões mostram que, no passado, muitas vezes, fomos mais colonizadores do que missionários. Descobrimos que Deus está presente também nas outras religiões e povos. O anúncio da Boa Nova de Deus trazida por Jesus não pode ser um proselitismo que quer ganhar almas para Deus nem um anúncio autoritário que ameaça com condenação eterna, mas deverá ser marcado pelo respeito às convicções do outro, pelo diálogo de quem quer aprender do outro, pela defesa da vida humana e luta pela Justiça e Paz, pelo entusiasmo do testemunho de coerência de vida de acordo com a Boa Nova de Deus que Jesus nos trouxe, e pela atitude de amor gratuito que deseja compartir com os irmãos e as irmãs o bem maior da presença de Deus que ele ou ela mesma experimentou na vida . Nosso modo de pensar e de sentir já está mudando, mas a estrutura da nossa vida ainda continua antiga. O vento já mudou, mas o navio ainda não. O canal é muito estreito, e o navio é largo e pesado.
3. O avanço das ciências e a imagem que temos de Deus
A imagem que temos de Deus depende muito da educação que recebemos e da visão do mundo dentro do qual fomos criados. Diante do progresso das ciências, tanto no micro (a descoberta do segredo do átomo) como no macro (a descoberta da origem do universo), a imagem que tínhamos de Deus já não corresponde mais. Dois fenômenos, aparentemente opostos entre si, revelam a mudança que está em andamento. De um lado, o processo generalizado de secularização nos países ditos cristãos é um atestado de que a imagem de Deus que revelamos já não corresponde ao que a humanidade deseja e precisa. De outro lado, existem o crescimento dos movimentos pentecostais e o fundamentalismo religioso em todas as religiões: fundamentalismo cristão, evangélico, muçulmano, judeu, hindu, e até secularizado. Esta tendência fundamentalista se manifesta no fortalecimento do autoritarismo e dos movimentos conservadores, que buscam o fundamento da certeza nas observâncias. Sem certeza não se vive. Mas que certeza nós, carmelitas, buscamos? A certeza baseada nas nossas observâncias, no que nós fazemos por Deus, ou a certeza mais evangélica de gratuidade e de entrega que se baseia no que Deus faz por? Será que, como o profeta Elias, temos a coragem de andar pelo deserto, quarenta dias ou quarenta anos, até re-descobrir o novo rosto de Deus que responde ao desejo da humanidade de hoje?
4. O movimento feminista e as congregações religiosas femininas
Uma revolução está em andamento contra o patriarcalismo que dominou durante milênios e que teve e tem muita influência tanto na Bíblia como na organização da Igreja. Qual a função das religiosas, mulheres consagradas, nesta revolução tão importante? Podemos ignora-la? Já é triste de constatar que tanto esta como tantas outras revoluções nasceram fora da Igreja e, muitas vezes, combatidas por ela! O movimento feminista critica a visão patriarcal de Deus que se infiltrou em setores da vida eclesiástica e que leva as pessoas a não se sentir mais em casa dentro da Igreja oficial e até dentro da Bíblia, onde transparece esta mesma visão patriarcal.
5. Ecumenismo e defesa da vida
A preocupação ecológica com a preservação da vida leva a uma atitude ecumênica que já não consegue interessar-se tanto pelas diferenças doutrinais e rituais, mas busca unir pessoas de diferentes credos e religiões em defesa da vida que Deus criou. A preocupação holística, para além das divisões e preocupações confessionais e doutrinais, busca situar a vida como um todo no conjunto da harmonia da natureza e do universo. Também aqui, o movimento ecológico e profundamente ecumênico em defesa da vida no planeta nasceu fora da Igreja. E nós carmelitas? Até hoje, o santo mais ecumênico é Elias. O santo que mais lutou em defesa da vida e da saúde do povo é Eliseu!
3.Desafios que nos vem de nós mesmos como família hoje
Carmelitas, somos muitos! Milhares, no mundo inteiro, irmãos e irmãs das várias Ordens e Congregações, das Ordens Terceiras, dos movimentos e associações carmelitanas. Somos aquilo que fazemos: família, trabalho profissional, missões, paróquias, colégios, orfanatos, pastorais, administração, etc. Esta é a nossa realidade concreta e atual, o peso de cada dia, cheio de ambivalências. Também dela chegam até nós os apelos de Deus, os desafios. É a fidelidade que devemos às nossas famílias e comunidades, aos nossos confrades e irmãs, à igreja e ao povo que nos foi confiado. É esta realidade ambivalente que mais pesa na tomada das decisões, pois, muitas vezes, esta realidade nos faz entrar em conflito com as exigências do nosso carisma e da opção pelos pobres. Daqui nascem vários e dolorosos desafios:
1. Itinerância mendicante e a passagem do primeiro mundo para o terceiro mundo
Dois fatos que nos questionam e desafiam: (1) Atualmente, no ramo masculino, a maior parte dos membros ainda vive no primeiro mundo. Mas a previsão é que dentro de menos de dez anos, a maioria estará nos países do assim chamado terceiro mundo: Ásia, África e América Latina. Como nos preparamos para esta mudança inevitável, por exemplo, no nível da cultura, da construção das casas, na escolha dos lugares, na preparação de formadoras, na escolha dos assuntos para os nossos encontros, na tomada das decisões, etc.  (2) Temos um convento numa cidade do Brasil. Quando foi escolhido o lugar, nos anos 40, aquilo era uma favela. Hoje é bairro rico de classe média alta. Uma casa não se abandona com facilidade. O que fazer quando, devido às circunstâncias históricas acabamos envolvidos em situações que certamente não queríamos anteriormente? As novas situações em que nos encontramos exigem mudança. Muitas vezes, nosso modo de viver perdeu a capacidade de itinerância que é uma característica dos mendicantes. Congregações fundadas para ensinar a juventude pobre, vivem fechadas e imobilizadas em colégios de ricos.
2. Tendência restauradora na Igreja, vida no meio dos pobres e imagem de Deus
Apesar da abertura do último sínodo, o vento restaurador cresce na Igreja. A Igreja institucional é cada vez mais clerical e disciplinar. Isto é fonte de muitas tensões no interior das Congregações e das pessoas. É muito freqüente o conflito entre a visão de igreja que anima as comunidades inseridas no meio dos pobres e a que orienta a pastoral das Dioceses. Em nível local, isto se concretiza no conflito com o vigário que não concorda com as religiosas inseridas e as marginaliza. Nas periferias das grandes cidades, a vida do povo está sendo massacrada, o número dos excluídos aumenta cada vez mais, a violência já acontece entre os próprios pobres. Pobre explorando o pobre! Parece a ausência total do Reino! Viver no meio deste mundo tão violento e desumano é muito exigente. É o que muitas religiosas sentem e vivem. Eles dizem: “Como viver consagrada a um Deus que permite tal coisa. É possível?” É urgente que se tome consciência dos limites e da deficiência da imagem que temos de Deus. A tentação restauradora é grande! É mais cômodo buscar a certeza nas nossas observâncias, isto é, naquilo que nós fazemos por Deus, do que naquilo que Deus faz por nós. Só uma nova experiência autêntica de Deus, como a do profeta Elias, poderá ajudar a superar esta crise. Eficiência e gratuidade. A eficiência das observâncias marca a vida do sistema da vida moderna. A gratuidade é uma característica do amor. Como combinamos no concreto estes dois valores tão importantes na vida? Como aparecem na nossa vida comunitária? Como viver a gratuidade do amor num mundo marcado pela eficiência?
3. A necessidade de um processo da formação permanente e estilo de vida
Antigamente, havia uma estrutura de vida dentro da qual as pessoas cresciam e que as ajudava na formação da sua consciência e no fortalecimento das suas convicções. Hoje, tudo mudou. O amadureci­mento psicológico tornou-se mais lento e mais problemático. As pessoas necessitam de mais tempo e necessitam de estruturas comunitárias adequadas, sobretudo nas casas de formação. A dispersão e a desintegração são grandes. Existe uma perda de valores. Como fazer para refazer a pessoa, para que ela tenha uma experiência real de Deus e seja um sinal de Deus. Qual a formação que damos? Formamos em função de que e para que? Quais as opções pastorais que marcam nossa vida? Qual a visão de Igreja que nos anima e que marca o estilo da nossa vida: a restauradora ou a renovadora? Qual o estilo de vida religiosa que apresentamos aos que nos procuram na inserção? Qual o estilo de vida religiosa inserida que poderia oferecer aos jovens, ao mesmo tempo, uma resposta à sua busca pessoal interior e uma resposta à sua preocupação social, ao seu desejo de contribuir para a reconstrução da convivência humana? Como criar um caminho de inserção gradual que leve em conta estes problemas?
4. A vivência dos votos e o questionamento que vem dos pobres
Hoje, a vida religiosa está sendo questionada. Pois muitos pobres, que não são religiosos, vivem melhor o evangelho do que muitos de nós que professamos a Vida Evangélica. Qual a relevância da nossa vida religiosa inserida para a vida dos pobres com que convivemos? O que representamos para eles? O que eles esperam de nós? O que eles vêem em nós? Como viver a radicalidade do Evangelho num mundo em que parece não haver lugar para tal radicalidade? A impotência da Vida Religiosa inserida, sentida diante da situação de opressão e de exploração em que se encontra o povo. Uma pergunta que se ouve: “O que fazer como religioso e como religiosa diante do número crescente dos pobres que enchem as ruas das cidades, sem esperança nenhuma de que possa ocorrer uma mudança sócio-política e econômica? Depois de vinte anos ou mais de inserção no meio dos pobres, nada mudou e, em vez de melhorar, a situação piorou. A previsão é de que o número dos pobres irá aumentando sempre mais”. Qual é mesmo o objetivo da nossa Vida Religiosa ?

quinta-feira, 23 de janeiro de 2014

CAPÍTULO PROVINCIAL/2014: 12ª Parte.

CAPÍTULO: Aniversário do Prior Geral

Olhar Carmelitano do Beato e Mártir, Frei Tito Brandsma, Carmelita.

ESTAR EM GESTAÇÃO COMO MARIA
Da colocação de Frei Tito Brandsma no congresso mariano de Tongerloo em 1936
Embora a nossa união com Deus não seja tão excelsa como aquela que se verificou na divina maternidade de Maria, mesmo assim nos podemos com pleno direito chamar-nos “Theotokos”, “portadores de Deus”, e também para nos o Senhor envia o seu anjo para nos pedir que se abra o nosso coração à luz do mundo para levá-lo por toda a parte como um luzeiro.
Também nos devemos receber Deus no nosso coração, levá-lo debaixo do coração, alimentá-lo e deixá-lo crescer em nas, para que ele nasça de nós, e viva conosco como Deus conosco, isto é Emanuel.
Para Deus, o coração de Maria permaneceu sempre aberto. Dela devemos apreender a expulsar do nosso coração tudo o que não pertença ao Senhor e que para Ele o nosso coração esteja sempre aberto para se encher da graça divina; e então Jesus descerá no nosso peito e crescerá em nós, renascerá de nós e manifestar-se-á com as nossas ações e viverá de nossa vida. Com Maria, cheios também nós de graça, devemos viver uma vida divina, não buscando outra glória e outra salvação, que não a união com Deus.
 O QUE É ORAÇÃO
Apontamentos de Frei Tito Brandsma para um retiro espiritual
 Nossa vida é como uma marcha pelo deserto até o monte Horeb, para dar uma dimensão total nova à nossa existência na contemplação de Deus. Preliba-se o céu buscando de ver Deus entre nós, o Deus vivo e atuante na nossa realidade. Nunca mais deve haver nos nossos corações divisão entre Deus e a realidade. A oração é vida, não um oásis no deserto da vida.
 SOLIDÃO PROFUNDA
Na cela da prisão
Embora não saiba como isto irá terminar (as conseqüências do encarceramento) sei muito bem que estou nas mãos de Deus. O que me separara da caridade de Deus? Ele é o meu único refugio e sinto-me protegido e feliz. Permanecerei aqui, se Ele assim o dispuser. Raramente estive assim tão feliz e contente.
Fiz para mim um pequeno altar: é um modo de dizer. Na cela havia uma estante de papelão com suporte e também um pedaço de papel de embrulho. Cobri com isto a estante. Com um preguinho - canivete e tesoura foram-me tirados, daí a necessidade de me arrumar - fiz pequenos entalhes fixando assim três imagens de meu breviário; no meio um Cristo pregado na Cruz de Fra Angélico, incompleto, mas, só até à altura da chaga de seu Sagrado Coração; de um lado uma estampa de Santa Teresa de Jesus - “Sofrer ou morrer” - e, de outro, São João da Cruz com seu lema “Sofrer e ser desprezado”. Encontrei dois alfinetes; servi-me de um para fixar abaixo das outras imagens uma tira comprida de papel sobre a qual escrevi as palavras de Santa Teresa: “Nada te perturbe” e também as palavras de um provérbio alemão: “Deus tão próximo e tão distante, mas, sempre aqui” e, finalmente, aquele que me é tão familiar: aceitar os dias como eles chegam; os alegres com o coração reconhecido; os adversos com esperança para com os futuros que ainda virão, porque o mal e a tristeza são passageiros.  
Ainda não me aborreci. Estou sozinho, é verdade. Mas, nunca Deus esteve tão perto de mim. Uma alegria intensa reina em meu coração porque Ele se deixou encontrar inteiramente sem que eu me possa desviar para os homens ou estes me atingirem.
Ele e a minha única consolação. Sinto-me seguro e feliz. Gostaria de continuar sempre aqui se Ele desejar assim.

ORAÇÃO E MEDITAÇÃO: Na força da Cruz.

Edith Stein
 
Será que é impossível dispor de urna horinha de manhã, na qual sem distração se recolhe, na qual, sem consumir-se, procura-se ganhar força para passar o dia inteiro? Sim, exige-se mais do que uma hora. Deve-se viver de uma tal hora para outra de um jeito em que se possa retomar. Não há mais possibilidade para um caminhar sem objetivo, nem por tempo limitado. Não podemos nos esquivar do juízo daqueles com quem nos relacionamos diariamente. Mesmo que nenhuma palavra seja trocada, percebemos a atitude dos outros para conosco. Tentaremos acomodar-nos ao ambiente e, quando isto não é possível, a convivência torna-se então um martírio. Desta forma, sentimos também a convivência diária com o Senhor! A sensibilidade torna-se cada vez mais aguçante para aquilo que Lhe agrada ou não. Se antes eu me encontrava mais ou menos satisfeito comigo mesmo, a situação agora muda. Acha-se tanto o que é mau, e procura-se mudar na medida do possível. Descobre-se algo que se pode achar feio e ruim e também a dificuldade em mudar. Aí então, pouco a pouco, ficamos muito pequenos e humildes, pacientes e indulgentes contra os ciscos em olhos alheios, porque ainda temos muito trabalho com a trave no nosso próprio olho. Aprendemos finalmente também a suportar-nos a nós mesmos na luz inexorável da presença divina e a entregar-nos à misericórdia divina, que poderá sanar tudo isso, que é tão impossível para nossas forças.
Pode-se mostrar ainda como o domingo deveria ser uma porta larga, pela qual pudesse entrar vida eterna para os dias da semana e força para o trabalho da semana inteira, e como as grandes festas, os tempos de festas e tempos de jejum, vivenciados no espírito da Igreja, fazem amadurecer o homem de ano para ano mais e mais para a eterna paz do Sabbat. Será tarefa essencial de cada um de nós refletir como planejar o decurso do dia e do ano, conforme dotes e estilo de vida de cada um de nós, para preparar os caminhos do Senhor. A distribuição externa deverá ser diferente para cada um e no decorrer dos anos deverá acomodar-se elasticamente à variedade das situações. Também a situação íntima da alma vária na diversidade das pessoas. Os meios ideais para estar em sintonia com o Eterno, para ficar atento ou também para renovar-se — como meditação, leitura espiritual participação litúrgica, devoções populares, etc. — não são todos igualmente de proveito para cada um e em todas as fases e épocas. A meditação, por exemplo, não pode ser exercida por todos e sempre de maneira igual. É importante encontrar, no entanto, o mais eficaz e dele tirar proveito.

Existem, evidentemente, dois caminhos para a união plena com Deus e com isso para a perfeição do amor: um subir penoso, feito alpinista, por esforço próprio, logicamente com a ajuda divina da graça, e “um ser carregado para o alto, que requer muito estorço próprio, cuja preparação e conseqüência íntima exigem, no entanto, enormes esforços da vontade própria.

Na infância da vida espiritual, quando iniciamos entregar nos à direção de Deus, aí sentimos a mão que guia bem forte e firme. Claro como o sol, está diante de nós o que devemos fazer ou deixar de fazer. Más isto não fica sempre assim. Quem pertence a Cristo, deve viver total e inteiramente a vida de Cristo. Ele deve crescer na maturidade de Cristo e também galgar o caminho da cruz, indo por Getsêmani e Gólgota. E todos os sofrimentos vindos de fora não são nada em comparação com a noite escura da alma, quando a luz divina não mais ilumina e a voz do Senhor já não fala mais. Deus está aí, mas Ele está escondido e fica em silêncio.

E um caminho longo de auto-satisfação de um “bom católico” que “cumpre seus deveres”, lê um “bom jornal”, “vota corretamente”, etc., mas de resto faz o que lhe agrada, até uma vida na mão divina e pela mão divina, na simplicidade da criança e na humildade do cobrador de ônibus. Mas quem percorreu uma vez esse caminho, não dá mais um passo para trás.

Por natureza, nosso interior é plenificado por muitas maneiras. Tanto é que um fato sempre reprime o outro e o mantém em constante movimento, muitas vezes em tempestade e tumulto. Quando pela manhã acordamos, deveres e preocupações do dia já nos querem cercar (caso já não tiverem atrapalhado a tranqüilidade do sono da noite). Aí aparece a inquietante pergunta: Como poderei vencer isso tudo num só dia? Quando poderei fazer isto. quando aquilo? E como poderei resolver isto, como aquilo? A gente gostaria de agitar e começar tempestivamente. Mas significa que devemos tomar as rédeas na mão e dizer: Devagar! Em primeiro lugar, agora nada deverá perturbar-me. Minha primeira hora matutina pertence ao Senhor. “Quero iniciar o trabalho do dia-a-dia que ele me manda fazer. E Ele me dará a força paia executá-lo. Assim desejo caminhar para o altar de Deus. Ali não se trata de minhas pequenas preocupações, mas sim, do grande sacrifício de reconciliação.

Agora começa o trabalho do dia: talvez servir na escola quatro ou cinco horas, uma atrás da outra. Significa estar atento e presente ao que se está fazendo, pois cada hora tem sua tarefa diferente. Nessa ou naquela hora (escolar) não se consegue o que se queria, talvez em nenhuma. Cansaço próprio, interrupções imprevistas, algo do que as crianças não entendem, alguns dissabores, algo revoltante, algo angustiante.

Ou serviço burocrático: relacionamento com propostos e colegas desagradáveis, exigências não satisfeitas, censuras injustas, miséria humana, talvez necessidades várias. Vem a hora do almoço. Chega-se em casa exausto e cansado e esperam-se eventualmente novas improcedências. Onde está agora a renovação da alma, vivida na manhã? De novo queremos ferver e estourar; indignação, aborrecimento, arrependimento. E tanto ainda por fazer até a noite: Não devemos ir logo adiante? Não, enquanto não tiver encontrado novamente por um momento a serenidade e a paz. WS 47f

Quando o intelecto alcança o seu máximo, ele chega aos seus próprios limites. Ele tenta encontrar a verdade mais sublime e última, e descobre que todos os nossos conhecimentos são apenas fragmentos. Então, quebra-se o orgulho e enxergamos duas coisas; ou ele cai no desespero ou coloca-se em humildade e temor diante da verdade impenetrável e recebe, humildemente na fé, o que não pode ser conquistado pela” atividade natural do intelecto. Então o intelecto chega, na luz da verdade divina, à correia sintonia para com seu próprio intelecto. Ele enxerga que as verdades mais sublimes e últimas não podem ser desvendadas por intelecto humano e que nas questões mais essenciais, e por isso na forma e comportamento da vida prática, uma simples criança pode estar em situação superior ao maior sábio pela iluminação mais sublime. Por outro lado, ele reconhece a esfera legítima da atividade intelectual natural e cumpre aqui seu trabalho, como o agricultor lavra seu campo, como algo que é bom e útil, mas que é cercado por limites estreitos como toda e qualquer obra humana.

Quem chegar a tal ponto, não olhará mais as pessoas “de cima para baixo”. Ele terá aquele sentimento humano simples e natural, a profunda modéstia sem hipocrisia, que atravessa todas as barreiras livre e desimpedidamente. Ele poderá falar sem medo sua linguagem intelectual em meio do povo, porque lhe é tão natural como a do povo e porque ele manifestadamente não o sobreestima. E ele poderá seguir seus problemas intelectuais, porque faz parte de seu ambiente natural. Ele usará o seu intelecto da mesma forma que o carpinteiro — mão e plaina — e, quando puder ser útil aos outros com seu trabalho, estará sempre pronto para ajudar. E, como todo trabalho honesto, que é feito pela vontade divina e para glória de Deus, também esse pode ser um instrumento de santificação. Assim me imagino Santo Tomás de Aquino: um homem que tinha recebido de Deus como seu tesouro um extraordinário intelecto para com ele pulular; que caminhara silenciosamente e sem exigências o seu caminho e se aprofundara nos seus problemas enquanto o deixava em paz; sempre pronto a quebrar a cabeça, dando as devidas informações, quando lhe faziam perguntas difíceis. Assim ele se toma um dos maiores guias, justamente porque não desejara.

Cada um deve conhecer a si mesmo para saber onde e como poderá encontrar a serenidade e a paz. O melhor é jogar todas as preocupações, por curto tempo, diante do Santíssimo, frente ao Sacrário, para quem não é possível, para quem é necessário talvez um repouso corporal, uma pausa em seu próprio quarto. E quando não há possibilidade para um repouso exterior, porque não existe lugar para onde se retirar, quando deveres irrecusáveis impedem a hora silenciosa, pelo menos fecharemos o nosso interior por um momento contra todo resto e nos refugiaremos no Senhor. Ele está aí e nos oferece nesse único momento aquilo de que precisamos. Assim continuará o resto do dia, talvez com muito cansaço e labuta, mas tranqüilo e em paz. E, quando a noite vier e mostrar o retrospecto de que tudo só fora algo em pedaços e muita coisa ficou para fazer do que se pretendia, e (anta coisa nos chama para a vergonha e arrependimento, então, tudo aceitar como é: colocar nas mãos de Deus e entregar-Lho. Assim se poderá repousar nEle, descansar de verdade e começar o novo dia como uma nova vida.

Ninguém penetrou de uma tal forma nas profundezas da alma como aquelas pessoas que abraçam o mundo com um coração cheio de calor e então, libertadas, pela mão forte de Deus, de todo laço externo, foram atraídas para o próprio íntimo é interior. Ao lado de Teresa de Ávila está aqui, em primeiro lugar, Santo Agostinho que com ela se parece profundamente e por isso tanto a influenciou. Para estes mestres do auto-conhecimento e auto-apresentação iluminaram-se as misteriosas profundezas da alma: não somente os fenômenos, a movimentada superfície da vida da alma constituíram o inegável fato experimentar, mas também as forças, que ativam conscientemente a vida da alma e, finalmente, até a essência de Deus.

O caminho para a vida interior é Cristo. Seu sangue é a cortina, pela qual entramos no santíssimo da divina vida. No batismo e no sacramento da penitência Ele nos purifica do pecado, abre-nos os olhos para a luz eterna, torna atentos os ouvidos para colher a palavra divina e os lábios para o louvor, oração de expiação, pedido e agradecimento - todas formas diferentes de adoração; isto é, a criatura presta homenagem diante do Onipotente e do infinitamente Bondoso. No sacramento do crisma, Ele confirma e fortifica o militante de Cristo para a franca e corajosa confissão. Antes de tudo, no entanto, é o sacramento no qual o próprio Cristo está presente e nos torna membros de seu corpo. Compartilhando o sacrifício e a cela, alimentados pela carne e sangue de Jesus, nós mesmos nos tornamos sua própria carne e seu próprio sangue. Na medida em que somos membros de seu corpo, pode animar-nos o espírito de Jesus e em nós reinar.

No diálogo silencioso de pessoas consagradas a Deus antecipam-se os acontecimentos visíveis da história da igreja, os quais renovam a face da terra. A Virgem, que conservava cada palavra em seu coração, é exemplo das pessoas que escutam e nas quais o coração sacerdotal de Jesus se repete sempre de novo. Mulheres, que se esqueciam de si mesmas na imitação da vida e sofrimento de Cristo, o Senhor as escolhia de preferência como instrumento para grandes obras na Igreja: uma Santa Brígida, Catarina de Sena e Santa Teresa, a grande reformadora de sua ordem em tempo de grande perda da fé, a qual, querendo ajudar a Igreja, via como meio eficaz para tal a verdadeira renovação da vida interior.

O ponto central da alma é o lugar de onde se escuta a voz da consciência, é o lugar da livre decisão pessoal. Porque a entrega livre e pessoal é assim e porque é essencial para a união amorosa com Deus, por isso o lugar da decisão livre deve ser ao mesmo tempo o lugar da união livre com Deus. Daí se entende também por que Teresa de Ávila vê na entrega da vontade ao Divino o mais fundamental para a união com Ele: a entrega de nossa vontade é o que Deus exige de todos nós e é o que podemos produzir. Ela é a medida de santidade. Ao mesmo tempo, ela é a condição para a união mística, sobre a qual não temos poder, mas é graça pura e livre de Deus. Por isso temos também a possibilidade de fazer da nossa alma o ponto central, de formar a si mesmo e sua vida, sem ter também recebido especificamente a graça da mística.

Dentro da Igreja existem experiências comunitárias de formas variadas: devoção, entusiasmo, obras de misericórdia, etc., mas a Igreja não deve a todos eles sua existência. E sim, que cada um de modo singular situa-se diante de Deus na força contrária ou unida da liberdade divina e humana, em que lhe é dada a força de estar ao lado de todos. E esse “cada um por todos e todos por um” faz com que a Igreja seja Igreja. Quanto mais alguém é plenificado pelo amor divino, tanto mais ele estará capacitado a entrar em substituição de cada um.

Na aridez e no vazio, a alma tornar-se-á humilde. O orgulho anterior desaparece, quando não se encontra mais nada dentro de si, que poderia ser motivo de olhar com certo desprezo para com os outros. Pelo contrário, agora os outros parecem-nos muito mais perfeitos. Amor e estima despertam o coração por eles. Estamos agora por demais preocupados com a nossa própria miséria para olharmos para os outros. Pelo desamparo e abandono, a alma torna-se submissa e obediente; ela anseia por aconselhamento para chegar ao caminho certo.

O espírito e voto quer dizer não somente o intelecto, mas também o coração está familiarizado por ocupar-se continuamente com Deus, ele O conhece e O ama. Esse conhecimento e amor fazem parte de seu ser, como o relacionamento de duas pessoas que convivem há longo tempo juntas intimamente familiarizadas. Tais pessoas não precisam mais de informações sobre a outra pessoa para se conhecerem mutuamente e convencerem-se de sua amabilidade. Quase não precisam trocar palavras. Cada nova convivência, no entanto, traz para elas um novo despertar e um crescimento de amor, talvez um conhecimento mais profundo de alguns traços novos. Mas isto acontece automaticamente, não precisando de maior esforço. Assim também é a convivência de uma alma com Deus, depois de longo exercício na vida espiritual. Ela não precisa mais de meditar, para conhecer a Deus e aprender a amá-Lo. O caminho já está muito atrás dela, pois ela repousa nEle. Assim que ela começa a orar, está em Deus e permanece, pela entrega amorosa, em sua presença. O silêncio da mesma Lhe agrada mais do que muitas palavras.

É graça, quando nos alcança o anúncio da fé, a divina verdade revelada. E graça, que nos oferece a força para colher o anúncio da fé — mesmo que seja exigida de nós a decisão livre — e com isso crescer na fé. Sem a ajuda da graça não existe oração e não é possível meditação. Mesmo assim, exige-se a nossa liberdade e opera-se com a ajuda de nossas próprias forças. Depende também de nós, se de que maneira e quanto tempo demoramos em oração.

A poderosa realidade do mundo natural e de graças sobrenaturais deve ser movida por meio de uma realidade mais poderosa ainda. Isto acontece na noite passiva (da alma), pois sem ela a ativa nunca poderia chegar à meta. A mão forte do Deus vivo deve interferir para soltar a alma dos laços de tudo que foi criado e para atraí-la a si. Esse intervir é a escura e mística contemplação, ligada à privação de tudo aquilo que até agora fora luz, sustento e consolo.

A alma se entrega a Deus para operar nela aquilo que Ele deseja com tais comunicações sobrenaturais. Assim mesmo, permanecerá na escuridão da fé, porque ela não somente aprendeu mas experimentou que tudo isto não é Deus, que ela, no entanto, possui tudo na fé o que lhe é preciso: o próprio Cristo, que é eterna sabedoria, e nEle o Deus incompreensível. Ela estará pronta para tal renúncia e perseverança na fé tanto mais quanto estiver purificada pela noite escura.

Porque o intelecto natural não pode compreender a luz divina, deve o mesmo ser guiado pela contemplação na escuridão.

Por isso, a alma pode considerar a aridez e a escuridão quais sinais felizes: sinais que Deus está operando nela, libertando-a de si; Ele tira das mãos suas forças da alma. Certamente ela poderia ter trabalhado muito com isso, mas jamais tão perfeita, segura e firmemente como agora, quando Deus a tomou na mão. Ele a guia como a um cego por caminhos escuros sem e/a saber onde e para onde - por caminhos que e/a mesma no caminhar mais feliz com o uso de seus próprios olhos e pés Jamais poderia ter encontrado. Com isso ela progride muito, sem poder ainda imaginar a si mesma, pois se encontra na convicção de estar perdida.

Já se tem pronunciado o pensamento de que os sofrimentos da “noite escura” participam do sofrimento de Cristo, em especial do sofrimento mais profundo: o abandono de Deus. “O canto espiritual” (de São João da Cruz) deu sua impressionante confirmação, porque aqui o desejo ardente pelo Deus escondido é o sofrimento que domina integralmente o caminho místico. Nem mesmo acaba na beatitude de união dos noivos; até aumenta com o crescimento do conhecimento e do amor divinos, porque com os mesmos pressentimos cada vez maiores o que a clara contemplação de Deus na glória nos poderá trazer.

A ORAÇÃO NO CAMINHO HISTÓRICO DA ORDEM: Elias e Maria

Frei Emanuel Boaga, O. Carm.

Nos autores Carmelitas dos séculos XIII e XIV o aprofundamento da dimensão contemplativa do Carmelo se faz a partir das figuras bíblicas de Elias e Maria. A referência Eliana vai se desenvolvendo até á formação de uma dupla consideração que torna Elias como Pai (filiação Eliana) e Elias como chefe (modelo de contemplação e apostolado). Resultou do desenvolvimento da consciência Eliana, nesta época, a ênfase colocada na figura do Profeta como modelo da vida contemplativa e de união com Deus. Refere-se, então, continua e preferivelmente, a Elias-eremita, a Elias-o-homem-em-contato-com-Deus-na-oração, a Elias-o-homem-que-fala-face-a-face-com-Deus.
Nos séculos seguintes os autores espirituais da Ordem continuam acentuando estes aspectos contemplativos, mas, acrescentando alusões e referências explícitas as atividades apostólicas de Elias que oferecem elementos de inspiração apostólica.
O relacionamento mariano leva as gerações carmelitas deste tempo a verem na Virgem Maria a forma ideal de encarnação de sua própria vivência contemplativa. Nasce a exemplaridade da virgindade de Maria, vista não só como imunidade do pecado e de toda a espécie de apegos humanos (condição para o encontro com Deus), mas, também como disposição radical na linha de ATITUDE EXISTENCIAL para a ESCUTA da PALAVRA de DEUS e UNIÃO com ELE, porque a Virgem puríssima, cheia de FÉ, ESPERANÇA e AMOR, e a melhor abertura a esta PALAVRA que se FEZ CARNE em suas entranhas.
O desenvolvimento da característica mariana conduz, através dos tempos, a uma vivência familiar com Maria como caminho para chegar a Cristo.