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terça-feira, 21 de janeiro de 2014

Ícone de Maria, Mãe da Evangelização.

Ficha de leitura
Sr. Miriam Tamiano, O. Carm – Cerreto
Tradução: Érica Arruda

Cada ícone mariano carmelita recorda a relação de Maria com o Filho, buscando torná-la visível. Desde o século IV, temos imagens que refletem os principais aspectos da teologia mariana: o aspecto teológico segundo o qual Maria é fundamentalmente Theotókos, título que indica seu papel na história da salvação, e o aspecto espiritual que mostra seu papel de intercessora. ¹

¹ Estes aspectos dos ícones marianos se assemelham  ao desenrolar da presença de Maria na vida do Carmelo. contemplá-la como Mãe de Deus (aspecto teológico) é a base de qualquer aproximação à ela e senti-la como irmã e mãe. Pela sua proximidade com o Filho e com o homem, sua intercessão é garantia de esperança (aspecto espiritual), como também o seu fazer-se modelo de vida cumprida e no projeto de santidade pessoal (aspecto antropológico). Suas representações estão vinculadas ao papel que realiza (aspecto epifânico), manifestando a essencialidade do vínculo com Cristo.

Neste ícone, se apresenta também como Virgem Puríssima: o sinal autentico de estar cheia de graça é a sua virgindade ², que é a beleza de sua alma. Ela indica o caminho: Jesus, o Verbo de Deus e este gesto evangeliza. Como Mãe da evangelização, toca o íntimo do coração do homem com a pureza incorruptível de um espírito doce e sereno (1Pe 3,4); a verdadeira pureza do ser humano que transparece em toda a pessoa, resplandece no olhar, se expressa no sorriso, reflete na gesticulação. A posição dos quatro santos é harmônica e frontal; estão cercados como Maria e Jesus de um nimbo³ luminoso definido por um contorno externo branco.

Neste ícone, encontramos homens transfigurados: os santos. As imagens que constituem o espaço, símbolo de uma presença luminosa, não estão postas como de costume abaixo dos pés de Maria ou embaixo de seu manto. As figuras estão simetricamente colocadas nos quatro ângulos e estão situadas dentro de nichos extraídos com um efeito de diferente luminosidade do ouro; O mesmo acontece em torno de Maria, irradiação de uma enorme presença. A colocação de São Alberto de Jerusalém, Santa Teresa de Ávila, Beato Tito Brandsma e Santa Madalena de Pazzi ao redor de Maria está fora de um espaço e de um tempo preciso. Podemos contemplar sua presença entre nós, aqui mesmo. Não são temporais e sim “trans-temporais”, ou seja, atravessam toda a história estando dentro do nosso tempo.

Os contornos, irradiantes e elevados, símbolo de verdade e transparência, estão sustentados por uma luz que surge do fundo do ouro e parece querer projetar os santos dentro de uma realidade luminosa na qual Deus, sol de justiça, doa sua presença. Os perfis de Beato Tito e de Santa Madalena se apresentam ligeiros e encostam apenas na base, enquanto que São Alberto e Santa Teresa estão quase suspendidos, embora a estilização que transfigura o corpo humano sempre respeita sua realização. Uma certa seriedade das figuras, evidenciando de algum modo o impulso do homem até o eterno, como chama silenciosa que resplandece no olhar, se evidencia pelo deslizamento de um plano em que se ressalta a figura de Maria, mais divina nas dobras das roupas, que mudam nos pontos de luz branca do manto. Em Maria se conservam as cores próprias do hábito carmelita, mas podemos notar no manto e na túnica, nas linhas de seda e nas sombras, alguns vestígios do azul e do roxo, sendo fiel ao cânone da tradição expressa para a vestimenta da Hodighitria. A linguagem simples e universal.

A figura humana transfigurada e estilizada expressa a experiência de uma luz interior que atravessa também fisicamente a pessoa. O homem de luz resulta sobre todo o rosto.

A única que olha para a Mãe de Deus é Santa Teresa, ou outros olham para o observador, ou seja, para nós. O ícone permite o encontro dos olhares a mais níveis. Já não somos nós que observamos o ícone, somos observados. Seus olhos se pousam sobre nós, mas ao contrário do que vemos em alguns quadros em que a pupila dos olhos seguem todos os movimentos do ambiente em que estão colocadas, o ícone nos deixa sempre livres para voltar a olhá-lo e responder aquele olhar. O ícone não nos obriga a olhá-lo outra vez. Eles estão diante de nós e

 

²As três cruzes de luz- apenas duas são visíveis- se explicam habitualmente como símbolo da virgindade antes, durante e depois do parto; é interessante também a aproximação da Trindade em que se converte o sinal. Maria é lugar de sua presença, arca durante nove meses de Deus uno e trino.

³ Nimbo provém de Nimbus: “nuvem” da glória de Deus, particularmente evidente na pessoa santa. Se diferencia da aureola, de aures, que remete a coroa da vitória que o santo recebe ao concluir o bom combate. Concluindo, o nimbo sublinha o aspecto do dom, da graça, enquanto a aureola sublinha o mérito. Graficamente o nimbo é tridimensional, se vê sempre igual, mesmo que o santo se gire; a aureola se converte em um diadema, oval quando o santo se gira e as vezes até um disco plano.

4 A luz interior emerge pelo rosto; Lembra Qohelet: “ A sabedoria do homem faz brilhar seu rosto”

não em qualquer lugar e sim frontalmente.

As silhuetas dos carmelitas são sombrias na estilização da capa e as roupas possuem relevos que deslizam até a tonalidade cor terra do manto de São Alberto para serem iluminados, vivificados, acendidos e se juntar a transparência das roupas da Mãe de Deus. É nela que se reverberam as cores do céu e da profundidade dos abismos. Enquanto que a simplicidade da capa, na transparência do branco, emerge do fogo do roxo do manto, que como nuvem reveste aquele que olha, o envolvendo em um abraço de esperança e salvação.

Como em cada ícone em que a Mãe de Deus conduz ao caminho que é Cristo, aparecem duas fontes de luz dentro da representação: o rosto de Maria com pálpebras escuras veladas em tensão e relevos na frente e no nariz, que fazem a figura mais melancólica, mas sempre alongada e a figura de Jesus sentado no braço esquerdo em posição divinal apenas virado até a Mãe: É ele a fonte divinal e de luz, é ele o evangelizador por excelência e ao mesmo tempo das Boas Novas. Apresentado por Maria é por ela iluminado, convertendo-se por sua vez em fonte de luz e esperança. A cristo de dirige o gesto adorador de Santa Madalena e do Beato Tito.]

A posição da mão direita da Virgem, indica respeito e ao mesmo tempo intercessão diante o Filho. Mesmo que seja estático, o jogo das mãos sobre o fundo branco do manto, mostra a centralidade da atenção visual ligeiramente deslocada até o alto de acordo com a centralidade do campo visual e convida à escuta orante da Escritura cuja corda branca é segurada pela mão esquerda do Filho.

A ausência de horizonte situa a Mãe de Deus no centro e as testemunhas em uma dimensão de circularidade de acordo com Ela. Na iconografia não existe um verdadeiro e próprio horizonte e sim planos de atenção sobrepostos que posicionam a cena deixando-a suspendida no espaço porque o lugar e o tempo do evento é o presente. Maria está agora entre nós e acompanha nosso caminho de carmelitas.

O sentido da circularidade sublinha o que é central no ícone: o ventre de Maria e o Menino ligeiramente deslocado a sua esquerda. Ele é o Senhor da Vida, nosso Oriente para quem o olha. No quadro dos rostos, é ele o ponto de encontro.

Na tradição da igreja antiga, Orígenes fala de um Deus que se encarna revelando-se através de seu ícone, do visível e limitado. Ele, o Invisível, o Ilimitado. Nessa perspectiva, cada ícone também mariano deve se remeter ao verdadeiro ícone que é o ser humano, cujo protótipo é Jesus Cristo, esplendor do Pai. Contemplar a teofania de Jesus ou seja, o verbo vivo, é aquela experiência que os padres experimentaram no monte Carmelo, junto a fonte e impulsionou outros a seguir seu exemplo até nosso dias para que aprendessem a arte do “olhar interior” fonte refletora de verdadeira luz 5. Hoje também nós, na imagem de sua Mãe, no gesto benévolo com que se evangeliza, indicando Jesus como caminho, somos convidados a escrever no encontro e na amizade nosso ícone de carmelitas transfigurados na labareda de uma luz imaterial que o envolve, porque nosso olhar pode fazer novo o habitual e o comum. 6

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5 M.G. MUZI, Visione e sesenza Iconografia e teofania nel pensiero de André Gabar (Ed. La casa di Matriona; Milano 1995) 214.

6 A finalidade do ícone não é provocar nem exaltar um sentimento humano natural. Sem remover nada de nossa humanidade, nos orienta em direção a uma transfiguração de todos nosso sentimentos. Cada manifestação da natureza humana se reflete, adquire seu verdadeiro sentido, na harmonia comum da vida que progressivamente se abre para a visão do limite de sua habitualidade e beleza, no Mistério de uma humanidade transfigurada.

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