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A Palavra do Frei Petrônio

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sábado, 16 de novembro de 2013

CARMELITAS: Salve Regina.

33º Domingo do Tempo Comum: Apocalipse. Uma catástrofe ou uma esperança?

O estilo literário chamado apocalipse descreve simplesmente a realidade muitas vezes cruel da existência humana na qual nos encontramos, para lançar um grito de esperança, por causa da nossa fé na Ressurreição. Sim! Nós somos prometidos à Ressurreição, mas devemos passar pelo sofrimento e pela morte, por causa da nossa finitude humana. Não devemos, sobretudo, desesperar, e esses textos apocalípticos existem para nos fazer refletir.
A reflexão é de Raymond Gravel, padre da Diocese de Joliette, Canadá, e publicada no sítio Réflexions de Raymond Gravel, comentando as leituras do 33º Domingo do Tempo Comum – Ciclo C do Ano Litúrgico (17 de novembro de 2013). A tradução é de André Langer.
Referências bíblicas:
Primeira leitura: Ml 3,19-20a
Segunda leitura: 2 Tm 3,7-12
Evangelho: Lc 21,5-19
Eis o texto.
No domingo passado, nós ouvimos os saduceus colocarem Jesus à prova sobre a Ressurreição dos mortos; hoje, o próprio Jesus começa um discurso sobre o fim dos tempos. Ao invés de ter medo e viver na angústia, o discípulo deve utilizar o tempo que lhe é dado para suportar e testemunhar o Evangelho: “É permanecendo firmes que vocês irão ganhar a vida” (Lc 21,19). Quando chegamos ao fim do ano litúrgico, a cada ano, temos textos do evangelho de sabor apocalíptico. Mas atenção! Alguns gostariam de ver nisso anúncios de catástrofes e de tragédias que precedem o fim dos tempos, por causa das imperfeições e dos limites humanos... mas, não é nada disso. Pelo contrário, esse estilo literário chamado apocalipse descreve simplesmente a realidade muitas vezes cruel da existência humana na qual nos encontramos, para lançar um grito de esperança, por causa da nossa fé na Ressurreição. Sim! Nós somos prometidos à Ressurreição, mas devemos passar pelo sofrimento e pela morte, por causa da nossa finitude humana. Não devemos, sobretudo, desesperar, e esses textos apocalípticos existem para nos fazer refletir.
 1. A realidade de Lucas
No tempo em que Lucas escreve o seu evangelho (80-90 d.C.), estamos em um período de plena perseguição. A guerra judaica de 66, que desembocou na tomada de Jerusalém pelos romanos e na destruição do Templo em 70, poderia ser percebida tanto pelos judeus como pelos cristãos como sinais precursores do fim dos tempos, tanto mais que durante os anos que se seguiram a essas turbulências, os cristãos conheceram tempos muito difíceis, tempos de perseguições. O livro dos Atos dos Apóstolos reúne as provas encontradas pela jovem Igreja: “Os sacerdotes, o chefe dos guardas do Templo e os saduceus prenderam Pedro e João” (At 4,11-3); “Paulo e Silas tiveram suas vestes rasgadas, foram acoitados e lançados na prisão” (At 16,22-24). A fidelidade a Cristo por parte dos discípulos provoca a oposição de todos: dos judeus, dos pagãos, do Estado romano e da sua própria família: “Vocês serão odiados por todos, por causa do meu nome” (Lc 21,17). Por outro lado, apesar dos sofrimentos e das aflições, os discípulos podem continuar a ter esperança: “Isso acontecerá para que vocês deem testemunho. Portanto, tirem da cabeça a ideia de que vocês devem planejar com antecedência a própria defesa; porque eu lhes darei palavras de sabedoria, de tal modo que nenhum dos inimigos poderá resistir ou rebater vocês” (Lc 21-13-15). E mais ainda: “Mas não perderão um só fio de cabelo” (Lc 21,18).
2. Os falsos messias
O que torna o discurso de Lucas original é o anúncio dos falsos messias. Podemos assinalar a atividade dos profetas zelotes durante a guerra judaica (66-70) que, segundo Flávio Josefo, anunciam como iminentes os sinais da salvação. Na ótica de Lucas, trata-se antes de falsos doutores que perturbam as comunidades: “Cuidado para que vocês não sejam enganados, porque muitos virão em meu nome, dizendo: ‘Sou eu’. E ainda: ‘o tempo já chegou’. Não sigam esta gente” (Lc 21,8). Esses profetas da desgraça tinham uma influência maior sobre os cristãos à medida que esses eram realmente perseguidos: “Mas, antes que essas coisas aconteçam, vocês serão presos e perseguidos; entregarão vocês às sinagogas, e serão lançados na prisão; serão levados diante de reis e governadores, por causa do meu nome” (Lc 21,12).
Lucas reconhece que sua comunidade vive momentos difíceis e que a Igreja nascente atravessa tempos conturbados, mas esses momentos de prova podem ser encontrados ao longo de toda a história humana. Já o profeta Malaquias, no século V antes de Cristo, anunciava dias melhores, numa época de grandes turbulências, quando sua comunidade vivia um certo desânimo: “Vejam! O dia está para chegar, ardente como forno” (Ml 3,19a). Malaquias critica severamente o culto de seu tempo: faz críticas contra os fiéis que apresentam a Deus animais aleijados (Ml 1,8), críticas contra os sacerdotes negligentes que não ensinam a Lei de Deus (Ml 2,1-9). Por outro lado, o profeta compartilha seu otimismo: “Mas para vocês que temem a Javé brilhará o sol da justiça, que cura com seus raios” (Ml 3,20a).
Guerras, terremotos, fomes, epidemias e intempéries de todo tipo, sempre houve e sempre haverá. Este ano, houve terremotos em muitos países, um tufão acaba de destruir uma parte das Filipinas, a guerra continua a castigar na Síria e em outras partes do mundo; a aids continua a fazer vítimas nos países pobres e os cientistas temem catástrofes por causa do aquecimento climático. A partir destas duras realidades ainda existem profetas da desgraça e falsos messias para assustar as pessoas e para anunciar-lhes que é o fim do mundo. Chegam inclusive a anunciar que será em breve. Lucas nos reiterou: “Não sigam essa gente” (Lc 21,8b); “Não será logo o fim” (Lc 21,9b); “Isso acontecerá para que vocês deem testemunho” (Lc 21,13); “É permanecendo firmes que vocês irão ganhar a vida” (Lc 21,19).
3. Atualização
Ao atualizar a Palavra de hoje me dou conta de que sempre temos necessidade desses relatos de apocalipse para nos recordar que somos, em primeiro lugar, seres de finitude, isto é, seres materiais, frágeis, limitados, submissos às leis naturais e às regras muitas vezes cruéis da natureza humana, mas nós somos também seres espirituais, prometidos à Vida com V maiúsculo, porque salvos gratuitamente pelo Cristo ressuscitado. Como acontece, então, que na própria Igreja, ainda existem homens que ocupam funções importantes e que agem como profetas da desgraça e falsos messias? Quando se começou a falar de laicidade, o ex-arcebispo de Quebec, o cardeal Ouellet afirmou em alto e bom tom que em Quebec perdemos todos os nossos pontos de referência e que a sociedade laica na qual estamos dirigia-se para um beco sem saída. Felizmente, o bispo de Trois-Rivières da época disse exatamente o contrário. Ele optou por uma laicidade aberta; reconheceu que Quebec havia sofrido durante muito tempo um casamento às vezes fechado entre a religião e os governos, o que deixou um gosto amargo em muitos dos nossos contemporâneos.
Temos, pois, duas aproximações completamente diferentes: de um lado, o tom pessimista de um cardeal que fala de vazio espiritual, de ruptura religiosa e cultural, de crise da família e da educação, de cidadãos desorientados, desmotivados, sujeitos à instabilidade e apegados a valores passageiros e superficiais, ao relativismo religioso e ao fundamentalismo laicista... e de outro lado, o tom otimista de um bispo que, embora reconhecendo os limites da sociedade quebecoense atual, fala de esperança e de uma visão positiva sobre o futuro. Infelizmente, com o projeto de lei 60 do governo atual sobre os valores da laicidade, estamos em vias de dar razão ao cardeal Ouellet. E, assim mesmo, o bispo Vaillette escreveu coisas tão bonitas... Disse: “Eu defendo uma laicidade aberta... Eu não sou nostálgico da sociedade eclesial de antes de 1960 e, sobretudo, não quero restabelecê-la. O aumento da laicidade foi salutar para a sociedade e para a religião católica. Uma depuração. Um apelo que nos foi lançado, a nós católicos, para reencontrar as raízes profundas da nossa fé, para nos aproximarmos da humildade dos evangelhos e para continuar a trabalhar por um mundo melhor e mais justo numa economia de meios, mas animados pelo mesmo sopro. Eu faço um apelo por um diálogo com os defensores de todas as formas de laicidade. Um diálogo construtivo inspirado em nossos valores comuns e respeitosos da verdade da história”. Mas quando um governo quer proibir os seus funcionários de usar sinais religiosos, não estamos mais em uma laicidade aberta, mas numa espécie de perseguição daquelas e daqueles que tem fé e que querem simplesmente expressá-la.
Para terminar, gostaria de citar o exegeta francês Jean Debruynne, em seu comentário sobre o evangelho de hoje. Ele escreve: “... Virão dias em que não ficará pedra sobre pedra... É com estas palavras que Lucas anuncia a ruína do Templo de Jerusalém. Jesus, provavelmente, não se refere à demolição do prédio. Jesus não é um promotor que sonha em substituir uma velha igreja por uma nova, mais na moda e mais moderna. Jesus não quer mais o Templo porque não quer mais a religião. Chegou o momento em que seu Evangelho corre o risco de transformar-se rapidamente em religião: Muitos virão dizendo em meu nome: sou eu! Não sigam essa gente. Jesus não veio para anunciar uma religião, mas a fé”. E eu acrescentaria, a fé pode se expressar por um sinal e ninguém tem o direito de proibi-lo...

A PALAVRA... Nº 463. 33º Domingo do Tempo Comum. Ano-C.

sexta-feira, 15 de novembro de 2013

Papa Francisco: ''Deus perdoa os pecadores, mas não os corruptos''

"A vida do corrupto é podridão". Na missa em Santa Marta, Francisco critica abertamente quem é "benfeitor da Igreja (…) mas rouba o Estado e os pobres". A condenação da corrupção dentro e fora da Igreja é um tema dominante do pontificado. A reportagem é de Giacomo Galeazzi, publicada no jornal La Stampa, 12-11-2013. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

"Cristãos corruptos, padres corruptos", a "vida dupla" transforma o cristão em um "sepulcro caiado", talvez bonito externamente, mas "cheio de ossos mortos e podridão". Além disso, "Jesus diz que a esse tipo de cristão de vida dupla deve ser posta uma pedra de moinho ao pescoço e deve ser jogado ao mar".

Bergoglio sublinha a "diferença" entre pecar e escandalizar. "Quem peca e se arrepende, pede perdão, se sente fraco, se sente filho de Deus, se humilha", observa o pontífice, enquanto aquele que escandaliza "continua pecando, mas finge ser cristão", leva uma "vida dupla", engana, e "onde há engano não há o Espírito de Deus". Portanto, "nós devemos nos dizer pecadores, sim, todos aqui, todos o somos. Corruptos, não". De fato, "o corrupto é fixado em um estado de suficiência, não sabe o que é a humildade".

Jesus, sublinha Francisco, denuncia o comportamento de "sepulcros caiados". E "um cristão que se orgulha de ser cristão, mas não tem uma vida de cristão, é um desses corruptos". Além disso, "todos conhecemos alguém que está em uma situação semelhante, e quanto mal eles fazem à Igreja! Cristãos corruptos, padres corruptos, quanto mal fazem à Igreja! Porque não vivem no espírito do Evangelho, mas no espírito da mundanidade".

Bergoglio cita São Paulo, que adverte na Carta aos cristãos de Roma: "Não se conformem a este mundo, não entrem nos seus esquemas e parâmetros". Daí, de fato, "nasce a mundanidade que te leva à vida dupla".

A luta contra a corrupção é uma pedra angular do Evangelho social de Bergoglio. "A sua teologia é uma teologia da libertação que substitui o marxismo pela misericórdia cristã", observa o porta-voz da Comunidade de Santo Egídio, Mario Marazziti. "Ele coloca na centro a mudança e os direitos dos últimos, sem os quais não há dignidade humana, chamando a boa política a corrigir as distorções do capitalismo globalizado e a se retomar o primado na cena pública para não deixar o campo livre para a economia, para a religião da individualidade e para os interesses corporativos".

Além dos administradores desonestos, o papa se refere aos "gnomos das finanças". Na primeira viagem do pontificado, a Lampedusa, ele denunciou "a crueldade daqueles que, no anonimato, tomam decisões condições socioeconômicas que abrem o caminho para as tragédias das migrações". Uma abordagem de reformador que também encontra implementação na sua ação de limpeza financeira e organizativa da estrutura eclesiástica.

Uma verdadeira "perestroika" na Cúria que teve a sua incubação no "laboratório Buenos Aires", no qual se formou o primeiro pontífice jesuíta e sul-americano da história. Na América Latina, a batalha conquistou-lhe a estima dos líderes do movimento pelos direitos humanos, como Alicia de Oliveira, e o respeito das Mães da Praça de Maio, duríssimas contra a hierarquia católica.

Bergoglio nunca se curvou aos caudilhos, militares ou políticos, que se alternaram no comando da Argentina. Ele compartilha a postura política do seu antecessor, Antonio Quarracino, não distante da ala popular dos peronistas.

A PALAVRA... 461. Análise dos sites católicos-03

quinta-feira, 14 de novembro de 2013

CARMO: Todos os Santos e Santas da Ordem.

Papa Francisco está sob a mira da máfia, diz juiz italiano; Vaticano nega risco

O papa Francisco está sob a mira da máfia calabresa, a 'Ndrangheta, por causa de sua recente cruzada contra a corrupção no Vaticano. O alerta foi dado pelo juiz Nicola Gratteri, em entrevista ao jornal italiano "Il Fatto Quotidiano". Para o Vaticano, "não há motivo real" para preocupação.
Segundo o magistrado, conhecido por combater a máfia na região da Calábria, a tentativa de Francisco de trazer mais transparência para o Vaticano deixou os mafiosos que fazem negócios com religiosos corruptos mais "nervosos e agitados".
"O papa Francisco está desmantelando os centros do poder econômico do Vaticano. Os chefões da máfia não hesitariam em tentar qualquer coisa contra ele", afirmou. "Não sei se o crime organizado está preparado para fazer algo, mas certamente está pensando a respeito. Eles podem ser muito perigosos."
O Vaticano negou, nesta quinta-feira (14), que o papa Francisco esteja na mira de grupos mafiosos italianos.
"Não há nenhum motivo real para nos preocuparmos. Não é o caso de alimentar alarmes, estamos tranquilos", disse o porta-voz da Santa Sé, padre Federico Lombardi.
Reforma no Banco do Vaticano
Francisco promoveu uma reforma no Banco do Vaticano depois que a instituição foi alvo de investigações por lavagem de dinheiro.
"A máfia que investe, que lava dinheiro, é a que tem o real poder. É essa que ficou rica com a conivência de anos da igreja", disse Gratteri. "São essas pessoas que ficaram nervosas."
O juiz atacou padres e bispos do sul da Itália que, segundo ele, legitimam a ação de mafiosos.
"Os padres locais costumam visitar as casas dos chefes da máfia para tomar um cafezinho. Isso dá força e poder popular para o crime", afirmou.
Em 26 anos de trabalho, Gratteri contou nunca ter entrado na casa de um mafioso que não tenha uma imagem religiosa. Segundo uma pesquisa, 88% dos mafiosos presos na Itália se dizem religiosos.
"Os ritos de afiliação na máfia evocam a religião. A igreja e a 'Ndrangheta caminham lado a lado", disse. "Antes de matar, o mafioso reza. Ele pede proteção para Nossa Senhora." (Com agências internacionais)

quarta-feira, 13 de novembro de 2013

A PALAVRA... 460. Análise dos sites católicos-01


No Quadringentésimo sexagésimo vídeo; "A Palavra do Frei Petrônio", o Frei Petrônio de Miranda, Padre  Carmelita da Ordem do Carmo, estudante de Jornalismo da Fapcom- Faculdade Paulus de Tecnologia e Comunicação, fala sobre uma análise do desempenho de alguns sites católicos a partir do artigo, “Igreja e Mídia”, de José Lisboa Moreira de Oliveira, filósofo, teólogo, escritor, conferencista e professor universitário. Nesta primeira parte, veja a reflexão sobre a “Visão deturpada do Deus de Jesus”.  OBS: Leia o artigo na íntegra. Clique aqui: http://www.mensagensdofreipetroniodemiranda.blogspot.com.br/2013/11/igreja-e-midia.html. Convento do Carmo, São Paulo.  13 de novembro-2013. 

segunda-feira, 11 de novembro de 2013

Igreja e Mídia

"A análise do desempenho de alguns sites católicos nos permite identificar pelo menos três problemas teológicos sérios: visão deturpada do Deus de Jesus, ausência do senso eclesial e fuga do compromisso com os outros. (...) O que se questiona é a forma como se está utilizando este recurso; forma essa que termina por alimentar uma religiosidade melosa, mágica, egoísta, falsa e não-cristã", escreve José Lisboa Moreira de Oliveira, filósofo, teólogo, escritor, conferencista e professor universitário, publicado no blog O Chamado, 07-11-2013. Segundo ele, "o que se questiona é a forma como se está utilizando a internet; forma essa que termina por alimentar uma religiosidade melosa, mágica, egoísta, falsa e não-cristã".

Eis o artigo.

"Em 2011 o jornalista e pesquisador Moisés Sbardelotto publicava o resultado de uma pesquisa por ele realizada sobre a midiatização do sistema religioso católico. O objetivo da pesquisa era analisar alguns serviços religiosos disponíveis em sites católicos. O resultado foi inicialmente publicado no número 35 da revista eletrônica do Instituto Humanitas Unisinos - IHU, conhecida como Cadernos IHU, com o título: “E o Verbo se fez bit”. Uma análise da experiência religiosa na internet. Posteriormente o autor transformou sua pesquisa em livro, lançado em 2012 pela Editora Santuário de Aparecida (SP) com o título: E o Verbo se fez bit. A comunicação e a experiência religiosas na internet"

Mais do que fazer uma análise crítica dos conteúdos dos sites católicos, o autor pretendeu, com sua pesquisa, apenas registrar o fato de que, no contexto atual, as mídias são o ambiente onde tudo se move. Dentro dessa lógica, “o religioso já não pode ser explicado nem entendido sem se levar em conta o papel das mídias” (IHU, p. 5). Sbardelotto conclui, a partir de sua pesquisa, que os sites católicos analisados oferecem, além de informações gerais sobre religião, meios para um vínculo do fiel com Deus e elementos em ambiente online para a prática da fé. Deixa bem claro que os sites analisados não possibilitam um conhecimento racional da fé, mas, muito mais, estratégias para a experiência religiosa e uma modalidade de percepção da presença do sagrado, por parte das pessoas que acessam esses sites.

Nesse sentido, não era intenção do autor da pesquisa fazer uma análise teológica dos conteúdos. Somente na parte final do seu trabalho ele chama rapidamente a atenção do leitor para possíveis “escapes doutrinários”, ou seja, para elementos de crença que se distanciam do universo católico. Acredita que tais “escapes” se dão, antes de tudo, pela inferência dos fiéis que postam suas mensagens e suas preces nos referidos sites. O autor, salvo engano da minha parte, não faz nenhuma análise daquilo que é colocado nos sites pelos “sacerdotes da virtualidade” (Galimberti) e que, de certa forma, a meu ver, induz os fiéis aos deslizes doutrinários.

Seria arrogância da minha parte, pretender, num brevíssimo artigo como esse, fazer uma análise teológica do que aparece nos sites católicos. Porém, com a ajuda dos dados da pesquisa de Sbardelotto, e a partir de minhas próprias pesquisas, ouso fazer algumas considerações que poderão servir de pontapé inicial para uma reflexão maior. Quero aqui avaliar três aspectos que, a meu ver, aparecem nesses sites: a imagem de Deus, o modelo de Igreja apresentado e a compreensão do ser humano na perspectiva cristã, especialmente no que se refere ao compromisso cristão no mundo. Nessa análise sirvo-me de uma excelente reflexão que encontrei sobre o uso da internet e “mística virtual” no livro Rastros do Sagrado de Umberto Galimberti (Paulus, 2003, pp. 280-287). Uma análise bem anterior às pesquisas de Sbardelotto, mas nem por isso menos atual.

A primeira coisa que mais impacta nos sites católicos é a figura de Deus. De um modo geral, salvo algumas raríssimas exceções, é um Deus “pronto-socorro”, feito segundo os gostos dos clientes, sempre pronto a atender às necessidades imediatas e urgentes dos sujeitos. Um Deus mágico que atende prontamente aos pedidos, sob a condição de que esses fiéis acendam uma velinha virtual, acompanhem um terço online, façam uma adoração a um Santíssimo Sacramento que, de fato, não existe e, sobretudo, contribuam mensalmente para a manutenção de toda aquela parafernália virtual. Esse não é o Deus de Jesus, ao qual não precisamos ficar pedindo nada, pois ele já sabe de tudo o que precisamos, antes mesmo de o pedirmos. O multiplicar-se de palavras, de preces, de súplicas, de falatórios desses sites está mais para coisa de pagão, do que para cristão (Mt 6,5-8).

O segundo elemento é o reforço do individualismo religioso e a destruição da comunidade cristã a qual, necessariamente, deve estar situada em um lugar concreto (1Cor 1,2; Rm 1,7). E ao dizer da necessidade de estar situada num lugar concreto entendo falar não apenas da dominical “assembleia dos convocados” que define a Igreja, mas do encontro das pessoas entre si para conversarem pessoalmente sobre seus problemas e tocarem calorosamente os seus corpos uns nos outros através de um aperto de mão, de um abraço e de um beijo (Rm 16,16). Na “Igreja virtual” a pessoa não precisa mais sair de casa para obter graças e vantagens religiosas para si. As pessoas deixam de tomar parte ativa na vida concreta de uma comunidade e se transformam em meros consumidores de kits de salvação, disponíveis nos sites católicos. A Igreja passa a ser um supermercado virtual.

Com isso há sério risco de esfacelamento da Igreja, a qual se define como comunidade convocada e reunida pela Trindade. É verdade que nesses sites católicos aparecem pedidos e preces por outras pessoas. Mas, nos lembra Galimberti, falta o essencial de uma comunidade cristã que é a capacidade de fazer experiência. Pela maneira como são pensados e organizados, os sites católicos só são “capazes de pôr em comunicação milhões de solidões, que transformarão todos os solitários, privados exatamente pelos meios de comunicação da possibilidade de fazer uma experiência compartilhada, em habitantes de um mundo comum” (Galimberti, p. 287). Na virtualidade não há Igreja, mas massa anônima, consumidora de produtos religiosos virtuais, a qual geralmente só se encontra virtualmente através da degradação da individualidade.

O católico virtual que só acessa a “igreja do computador” não sai mais de casa. E, ao não sair de casa, ele se distancia da realidade, dos outros e dos problemas dos outros. Seu cristianismo ao invés de ser centrífugo (na direção do próximo), como pediu Jesus (Lc 10,29-37), se torna centrípeto (voltado somente para ele mesmo). É o católico “que não está mais com o outro, mas apenas ao lado do outro”, numa “fuga solitária que não compartilha com ninguém, ou no máximo com um milhão de solitários do consumo de massa, que ao mesmo tempo que ele, mas não junto com ele, cravam os olhos na tela” (Galimberti, p. 285).

A análise do desempenho de alguns sites católicos nos permite identificar pelo menos três problemas teológicos sérios: visão deturpada do Deus de Jesus, ausência do senso eclesial e fuga do compromisso com os outros. Não se trata aqui de “demonizar” a internet e a mídia, como, infelizmente, fazem alguns. Hoje o recurso midiático deve ser necessariamente usado na catequese, na evangelização, na informação e na formação da consciência crítica dos cristãos e das cristãs. O que se questiona é a forma como se está utilizando este recurso; forma essa que termina por alimentar uma religiosidade melosa, mágica, egoísta, falsa e não-cristã.

Por último, recordando o que nos diz ainda Galimberti (p. 283), não devemos esquecer que a mídia, em si, não é totalmente neutra. Ela, com seu poder, termina moldando a nossa natureza. Ela nos plasma, a tal ponto que, em vários lugares do mundo, já começam a surgir muitos casos de viciados em internet, precisando de tratamento psicológico e até psiquiátrico.

Na Igreja Católica já temos alguns casos de psicopatia eclesiástica: pessoas que chegam ao delírio de pensar que Jesus, o Verbo do Pai, é uma simples mercadoria, um software, a ser comercializado nas feiras católicas nacionais e internacionais.

Recentemente ouvi da boca de um desses organizadores da Expocatólica algo parecido: Jesus é um “produto” a ser oferecido através de um bom marketing. Com esses midiáticos voltamos a dois mil anos atrás, quando o Filho do Homem irritado com uma religiosidade mercadológica semelhante, pegou um chicote de cordas e botou todo mundo para correr dizendo: “Não façam da casa de meu Pai uma casa de negócios” (Jo 2,16). Não estaria na hora de alguém pegar um chicote não-virtual e expulsar da Igreja os que reduzem Jesus a um mero produto virtual?

domingo, 10 de novembro de 2013

32º Domingo do Tempo Comum: A vida depois da morte (Lucas 20,27-38)

O evangelho deste domingo traz à luz o antigo e sempre atual questionamento sobre o que acontece depois morte. Existe vida, ressurreição?

Jesus responde a esta pergunta. Mas, para entender sua resposta, precisamos conhecer um pouco sobre a fé na ressurreição no Primeiro Testamento.

Porque é dessa tradição veterotestamentária que bebe Jesus e os/as primeiros/as cristãos/ãs.

O texto explica claramente que os saduceus não acreditam na ressurreição. Eles se opõem ao pensamento inovador dos fariseus que afirmam a ressurreição, a existência de anjos e acreditam no juízo de Deus.

Quando lemos o Primeiro Testamento, descobrimos um Deus da vida e dos vivos. O livro do Deuteronômio O apresenta como "o Senhor da vida e da morte" (Deuteronômio 32,39).

O segundo livro dos Macabeus, em que se narra o martírio dos sete irmãos e sua mãe, expressa a esperança deles na ressurreição: "É o Criador do mundo que formou o homem em seu nascimento e deu origem a todas as coisas, que vos retribuirá, na sua misericórdia, o espírito e a vida..." (2 Macabeus 7,23).

Dessa maneira, este texto, assim como outros (Salmo 73,23; Isaías 26,19; Oseias 6,1-3), nos revelam um Deus que é fiel à aliança que fez com seu povo, e essa fidelidade é salvadora. Por isso, os justos, aqueles/as que vivem conforme a sua lei, não conheceram a corrupção, senão a vida em plenitude que Deus lhes dará em recompensa.

Jesus se situa em continuidade a esta fé. Tomando as palavras de Moisés, afirma sua crença num Deus que "não é Deus de mortos, mas de vivos, pois todos vivem para ele".

Ele conhece o amor de seu Pai a cada uma de suas criaturas e sabe também que esse amor criador, incondicional, é mais forte que a morte, a ponto de ele mesmo chegar a proclamar: "Eu sou a ressurreição e a vida, quem acredita em mim, mesmo que morra, viverá" (João 11,22).

O texto de hoje quer também esclarecer o conceito de ressurreição. Podemos fazer uma parada e nos perguntarmos qual é nossa ideia sobre a ressurreição dos mortos.

A pergunta dos saduceus a Jesus se baseia na lei judaica do levirato, que buscava proteger a viúva (Deuteronômio 25,5-10). Quando o homem morre sem deixar filhos, seu irmão deve tomar sua mulher para cuidar e também gerar prole. Então, "na ressurreição, de quem a mulher vai ser esposa?".

Esta pergunta desenha um imaginário errôneo de ressurreição como repetição desta vida, anulando a novidade que a ressurreição cria, gera, não regida mais pelas leis físicas ou biológicas, senão pelo amor de Deus no qual a criatura ressuscitada participa. Isso não quer dizer que a pessoa, ao ressuscitar, perde sua identidade, diluindo-se na presença de Deus.

Ao contrário! Assim como Jesus, ao ressuscitar, alcança sua plenitude humana, seus irmãos e irmãs que morrem, ao ressuscitar, não perdem sua identidade, continuam sendo eles/as e seu mundo de relações que os/as definem, mas de uma maneira mais plena, total, que transcende as barreiras do tempo e do espaço.

O teólogo espanhol Andrés Torres Queiruga, refletindo sobre a afirmação de Jesus de que na ressurreição os homens e as mulheres "não se casarão mais, porque não podem mais morrer, pois serão como os anjos", considera que estas palavras não anunciam uma vida abstrata ou despersonalizada.

Antes, elas aludem à plenitude do novo modo de existência, em que o amor, porque estará livre do egoísmo, não se submeterá à rivalidade e à exclusão. Os vínculos e o amor se conservarão, mas já não se limitarão à vida e às relações, mas se expandirão para alegria de todos.

Assim sendo, o evangelho de hoje é um convite a renovar nossa fé no Deus da vida, que fez de seu filho Jesus o primogênito dos que ressuscitam dos mortos, criando para nós o caminho da vida eterna.

Crer na ressurreição de Jesus nos leva a crer na nossa própria ressurreição, a celebrar a vida nova de nossos mortos e a esperar ativamente nos encontrarmos todos e todas no banquete eterno, onde todos, sem exceção, nos sentaremos na mesma mesa dos filhos e filhas de Deus.