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A Palavra do Frei Petrônio

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sábado, 2 de novembro de 2013

*Lidar com a morte, manipulando nossos mecanismos de memória

Familiares de quem morreu costumam crer em algum tipo de transcendência, e que a pessoa continua existindo em algum lugar. Por isso, cultivam a individualidade de quem se foi, assinala Fábio Augusto Steyer

Por: Márcia Junges

De acordo com o historiador e jornalista Fábio Augusto Steyer, “as relações do homem com a morte (ou as atitudes humanas diante dela) presentes nos cemitérios das cidades gaúchas Santo Antônio da Patrulha e Caraá, podem ser observadas e analisadas a partir dos epitáfios, objetos colocados nos túmulos, arquitetura tumular, estatuária, disposição espacial dos cemitérios, entre muitas outras coisas”. Ele destaca que, em larga medida, existe uma postura de negar a morte “como fim último da existência, a partir da necessidade de crença em algum tipo de transcendência”. Acontece, também, “a afirmação da individualidade do morto. As pessoas querem acreditar que o morto continua existindo em algum lugar, depois da morte, e mantendo a mesma individualidade que tinha na terra”. As afirmações fazem parte da entrevista exclusiva concedida por Steyer à IHU On-Line, por e-mail.

Steyer é graduado em Jornalismo, Letras e História, pela Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUCRS). Pela mesma instituição, é especialista em Produção Cinematográfica e mestre em História. Em seu doutorado em Letras, na Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), defendeu a tese A estrada perdida de Telmo Vergara. De sua produção bibliográfica, citamos: Cinema, imprensa e sociedade em Porto Alegre - 1896-1930 (Porto Alegre: EDIPUCRS, 2001) e Ser disperso (Porto Alegre: WS Editor, 2003). Na obra Cemitérios do Rio Grande do Sul: arte, sociedade, ideologia (2. ed. Porto Alegre: EDIPUCRS, 2008), organizada por Harry Rodrigues Bellomo, colaborou com o capítulo “Manifestações antropológicas da morte em alguns cemitérios do Rio Grande do Sul”.

IHU On-Line - Quais são as representações e manifestações antropológicas da morte que você detectou com sua pesquisa em cemitérios gaúchos?

Fábio Steyer - As manifestações são as mais variadas, e muitas diferenças e semelhanças podem ser encontradas nas diferentes regiões do estado. Para sua análise, se deve levar em conta principalmente as características culturais de cada região, que envolvem questões de imigração (alemã, italiana, polonesa etc.), religiosas, entre outras. De qualquer forma, as relações do homem com a morte (ou as atitudes humanas diante dela) presentes nos cemitérios podem ser observadas e analisadas a partir dos epitáfios, objetos colocados nos túmulos, arquitetura tumular, estatuária, disposição espacial dos cemitérios, entre muitas outras coisas.

HU On-Line – O que as inscrições tumulares revelam sobre as concepções de morte do homem contemporâneo?

Fábio Steyer - A postura predominante é de negação da morte como fim último da existência, a partir da necessidade de crença em algum tipo de transcendência (especialmente a religião cristã, com seus preceitos) e da afirmação da individualidade do morto. As pessoas querem acreditar que o morto continua existindo em algum lugar, depois da morte, e mantendo a mesma individualidade que tinha na terra. Como já disse Edgar Morin,  existe uma necessidade antropológica da parte do homem em acreditar que a morte não é o fim de tudo. Mesmo que não exista consenso sobre seu real significado. Dessa forma, vemos inscrições que supervalorizam a biografia do morto, destacando apenas suas qualidades, e nunca seus defeitos, além de aspectos marcantes de sua vida, como a profissão, por exemplo. Você nunca vai encontrar uma inscrição que diga que fulano traía a mulher, batia nos filhos. Mas sempre que foi bom marido, pai zeloso. Além disso, os epitáfios normalmente têm a função antropológica de “tranqüilizar” a família, dizendo que o morto está bem, em algum lugar da eternidade. É muito comum um tipo de epitáfio em primeira pessoa, como se o próprio morto estivesse falando com a família e a tranqüilizando. Também há epitáfios em que a família se dirige ao morto, como que estabelecendo algum tipo de “comunicação” com ele. Faz parte dessa nossa necessidade antropológica para lidar com a morte, manipulando nossos mecanismos de memória.

IHU On-Line – Como essas inscrições tumulares se relacionam com a preservação da memória do falecido?

 Fábio Steyer - Remeto à questão anterior. É a supervalorização da biografia do morto. Se é jogador de futebol, isso aparece no epitáfio. Se foi advogado, já vimos a placa do escritório de advocacia colocada no mausoléu. Se teve morte trágica, faz-se questão de colocar isso no epitáfio. E assim se preserva a memória do morto, aquilo em que ele se destacou durante a vida. E, como já destaquei, há aquela questão de manipular os mecanismos de memória, colocando no epitáfio (e não apenas ele exerce essa função, mas o túmulo como um todo, com os objetos colocados) apenas aquilo que se quer lembrar na hora do culto ao morto, geralmente apenas as coisas boas.

IHU On-Line – Quais são as diferenças entre os túmulos de crianças de Santo Antônio da Patrulha, no Rio Grande do Sul, e os de adultos?  Há peculiaridades entre as formas de marcar a memória do falecido se ele é adulto ou criança?

 Fábio Steyer - Faz tempo que visitei os cemitérios de Santo Antônio e hoje muita coisa deve estar diferente. Contudo, de um modo geral, sem dúvida há diferenças marcantes. Algo muito comum não só no estado, mas por todo o país, são as fotos de crianças mortas colocadas nos túmulos. É algo tétrico, mas normalmente são recém-nascidos que não haviam tirado nenhuma foto. Então se tira uma foto da criança no caixão, ou mesmo tenta se disfarçar a foto, como se ela estivesse ainda viva, mas analisando bem se vê que já está morta. Há também os túmulos das crianças “sem nome”, também recém-nascidos que são enterrados nos jazigos da família. Então, aparece lá: “um membro da família”. E também há o caso do “nome que não vingou”. No caso, a mulher tem problemas para engravidar, e perde vários bebês. Então, encontramos uma série de túmulos, um ao lado do outro, com o mesmo nome, todos de bebês recém-nascidos. A família dá a todos o mesmo nome, pois foi o nome que “não vingou”. Fora isso, tem aquela coisa que até hoje me impressiona bastante de colocar os brinquedos das crianças nos túmulos, ou até mesmo chocolates (na época de Páscoa, como encontramos certa vez em Gramado e Canela), tratando a criança como se ela estivesse viva.

IHU On-Line – Nesse sentido, como a morte é interpretada por determinadas culturas, como, por exemplo, a gaúcha?

Fábio Steyer - Seja numa concepção cristã mais tradicional ou mais frouxa, temos essa necessidade antropológica de negar a morte e crer em algum tipo de transcendência, mantendo a individualidade do morto. Isso é a base de tudo. O afrouxamento de que falo diz respeito a um certo desligamento dos valores cristãos mais tradicionais. Assim, quanto mais recentes os túmulos, mais comum é vermos menos epitáfios com textos bíblicos ou referências aos preceitos cristãos, e mais epitáfios que valorizam a individualidade do morto, a sua biografia, ou formas mais individuais de ligação com o lado religioso e espiritual. Além disso, os símbolos cristãos (estátuas de santos e anjos, símbolos como a palma, a pomba e tantos outros) têm seu significado original esvaziado, sendo para as famílias muito mais apenas adornos para os túmulos do que símbolos ligados ao cristianismo e sua visão de vida e morte.

HU On-Line - Alguns estudiosos afirmam que o homem contemporâneo posterga e nega a morte ao recorrer a expedientes que o mantém sempre jovem. Há uma fuga da morte em nossos tempos?

Fábio Steyer - Vou citar mais um exemplo que evidencia isso. É muito comum que pessoas que morrem bastante idosas coloquem no túmulo fotografias de quando eram bem mais jovens. Sem dúvida, isso é a negação da morte.

Cemitérios se adaptam à laicização da morte

As cinzas humanas estão lá, espalhadas ao pé das árvores. A poucos passos da entrada do cemitério intermunicipal de Joncherolles (Seine-Saint-Denis), na França, perto do crematório, que recebendo 1.200 corpos por ano, o "Jardim da Recordação" tem uma atmosfera de tranquilidade. A reportagem é de Frédérique Mounier, publicada no jornal La Croix, 29-10-2013. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Desejado em todos os municípios de mais de 2.000 habitantes pela lei de 19 de dezembro de 2008, relativa à cremação, já como parte preponderante das exéquias, o "Jardim da Recordação" de Joncherolles conheceu uma evolução interessante. Mathieu Legrand, seu conservador, a explica: "Teoricamente, as cinzas devem ser derramadas no 'poço das cinzas'".

O poço, fechado por uma plataforma de pedras, é cercado por um memorial composto por placas nominativas que lembram a identidade dos falecidos. Mas eis que "as árvores se tornaram sepulturas. É um modo diferente de viver o luto", constata o conservador. Como explica Annie Paggetti, diretora do crematório, "a cremação não significa nem o desaparecimento do vínculo, nem do lugar". Ela não acredita na "privatização das cinzas", muitas vezes denunciada.

O cemitério de Joncherolles, com seus 25 hectares, com 14 mil lugares, pulmão verde prensado entre as oficinas de conserto ferroviário, armazéns e uma zona industrial, é uma vitrine as mudanças ignoradas por muitos da paisagem funerária francesa. Estando situado no departamento 93 (Seine-Saint Denis), a primeira religião dos "seus" defuntos é o Islã. E das 9.000 sepulturas não muçulmanos e não judias, 7.500 não apresentam nenhum sinal religioso.

O cálculo foi realizada por Patricia Duchesne, responsável pela capelania do cemitério, única na França. O seu escritório, sóbrio e sem símbolos religiosos, fica ao lado do de Annie Paggetti. A sua constatação: "Realizamos 300 cerimônias religiosas por ano. Ou seja, 25% do total. Para as pessoas que vêm aqui, as palavras 'paróquia', 'padre', 'sacramento' não têm nenhum sentido. Muitas vezes, estão abatidos, destruídos, feridos. Elas nos dizem: 'Ajudem-me apesar de tudo, salvem-me embora eu não creia'. Nesse sentido, estamos aqui como a Igreja fora da Igreja, como missionários às margens".

Evidentemente, ela acha muito importante o convite do Papa Francisco de ir às periferias. Para essa leiga encarregada por Dom Pascal Delannoy, bispo de Saint-Denis, "estamos no extremo limite da diminuição do cristianismo na França". Por isso, paradoxalmente, ela vê a sua capelania como "uma porta de entrada na Igreja".

Do outro lado da França, o arquiteto Marc Barani, prêmio nacional de arquitetura de 2013, se apaixonou pelos cemitérios: "Eu poderia construí-los por toda a vida!", diz ele hoje. Por quê? Porque, retornando de um ano no Nepal, ele renovou em 1992 o cemitério de Roquebrune-Cap Martin (Alpes-Maritimes), justamente onde está enterrado o seu grande "colega" Le Corbusier.

Impressionado pela continuidade oriental entre a morte e a vida, o arquiteto lamenta, no Ocidente, "a dificuldade de se estabelecer em um tempo longo", "a aceleração do tempo ligada à negação da morte, que se tornou inominável" e "o abandono da arte funerária".

Ele constata a "substituição do princípio da imortalidade da alma pelo nosso próprio princípio de imortalidade: com o cancelamento das concessões perpétuas, passamos da 'última morada' para o 'último hotel'". Ele nota que "a desagregação das famílias não favorece a unidade de tempo e de lugar". E vê na explosão da cremação "um modo de matar a morte mais rapidamente, simplesmente porque a decomposição dos corpos dá medo".

 

Ainda em 2002, o sociólogo Jean-Hugues Dechaux tinha entrevisto o "processo de intimização" do funeral: "A morte, desritualizada, diz respeito cada vez mais à subjetividade de cada um. Ela não encontra outro modo para se expressar socialmente do que a partir da experiência íntima. Daí deriva a regressão dos ritos antigos, que afiliam e celebram uma passagem, regulando socialmente uma expressão da dor".

O padre Jean-Marie Humeau, pároco de Taverny (Val-d'Oise), responsável diocesano da pastoral dos funerais, não compartilha essa severidade. Certamente, de acordo com a doutrina da Igreja, que, depois do Concílio Vaticano II, não condena mais a cremação, mas não a favorece, ele explica: "Destruir o corpo que foi o templo do Espírito com um ato voluntário não é a mesma coisa que pô-lo na terra, continuando assim a obra da criação". No entanto, constatando que em Essonne "os funerais civis já são 50%", ele continua: "Quando a Igreja propõe, a proposta é acolhida".

Ele vê nisso duas condições: "Tudo depende da iniciativa deixada aos leigos formados e responsáveis pela pastoral dos funerais", que hoje são cerca de uma centena em cada diocese. E, acima de tudo, da presença da Igreja nos crematórios, sabendo que alguns bispos e alguns responsáveis desses locais de incineração manifestam uma oposição real a tal presença.

Em Joncherolles, Mathieu Legrand, não está preocupado: "Os cemitérios não vão desaparecer. Eles vão se transformar, vão se adaptar à demanda de cremação, às cerimônias civis, tornando-se mais 'paisagísticos'". Uma constatação compartilhada pela sua "capelã", Patricia Duchesne, que já constata essa transformação.

Os profissionais do ato fúnebre, atentos à evolução desse que também é um mercado, além disso, não estão isentos de sentido espiritual. Prova disso é a qualidade formal das "salas de apresentação", das "salas de entrega da urna" ou das "salas conviviais" (abertas às famílias durante a cremação) oferecidas às famílias, aos parentes e amigos dos falecidos no cemitério de Joncherolles. A equipe dos gestores enfatiza a "acolhida vivida como cuidado", observa Annie Paggetti. Discursos, projeção de fotos e vídeos, e música já pontuam as cerimônias civis, que são as mais numerosas.

Daí deriva a insistência do padre Humeau: "Muitas vezes, essas lembranças se voltaram ao passado. Quando nos pedem uma celebração católica, nós propomos às famílias que façam essas lembranças no início do rito, porque ele tem o objetivo de abrir para o futuro".

31º Domingo do Tempo Comum- Dia de todos os Santos. Do nudista à anoréxica. Santos para todos os gostos

Os santos? Há alguns que são muito populares e incrivelmente próximos à vida cotidiana das pessoas graças à devoção. Entretanto, entre os 20.000 nomes da “Bibliotheca Sanctorum” aparecem muitíssimos um tanto estranhos. Para não dizer “anômalos”. Precisamente, “Os Santos anômalos” é o título do novo livro que acaba de ser publicado pela editora EdB, que descreve as “formas raras de vida cristã”. Trata-se da obra póstuma de um dos grandes escritores da hagiografia, o monge beneditino belga Reginald Gregoire, que faleceu no ano passado. A reportagem é de Giorgio Bernardelli, publicada no sítio Vatican Insider, 01-11-2013. A tradução é do Cepat.
Depois de muitas publicações dedicadas às figuras dos santos, o padre Gregoire quis reunir numa espécie de lista de todos aqueles santos que são, por uma ou outra razão, ao menos problemáticos. Algumas vezes, há muitas dúvidas do ponto de vista histórico. Nas narrações de suas vidas se encontram ecos das vidas de outros santos. Nesta lista de Gregoire, não faltam figuras que são um tanto “anômalas” do ponto de vista da ideia que geralmente temos sobre a santidade.
Passando pelas páginas deste livro, descobrimos, por exemplo, que a Serapione (monge do século IV) lhe diziam “o Sindonita”, alcunha que hoje em dia corresponderia a nossa palavra “nudista”; efetivamente, como sinal de pobreza absoluta, Serapione usava somente uma “síndone”, ou seja, uma camisa de linho. David de Tessalônica, também do século IV, pertence à categoria dos santos dendritos, ou seja, os que passaram a maior parte de suas vidas entre os galhos de uma árvore como penitência. Isto sem falar do caso (mais difundido do que normalmente se acredita) das santas “travestidas”: mulheres que viveram durante anos sob uma falsa identidade para fugir da violência ou por outros motivos. Particularmente, estranha é a história de “Paola a barbuda”, santa venerada em Ávila. De acordo com uma lenda do século XIV, para fugir das más intenções de um jovem que a perseguia, teria se refugiado numa capela e, após invocar a ajuda divina, teria conseguido fugir de seu perseguidor graças a uma cerrada barba, acompanhada de bigodes.
Se esta lenda pode provocar risos, há outras que suscitam questões mais sérias. Como a história da virgem Lidvina, mística holandesa do século XIV, que era completamente anoréxica. Sua biografia, escreve o padre Gregoire, é um documento interessante para a história da medicina. E também aparecem algumas figuras cujas histórias descrevem essa tênue e perigosa fronteira entre o suicídio e o martírio, problema que se advertia desde a antiguidade, pois no ano de 852 um Concílio precisou expressar claramente que não se podia procurar o martírio voluntariamente (proibição que a doutrina da Igreja sempre afirmou).
E também aparece o interessante caso dos santos chamados “cefalóforos”, ou seja, portadores da própria cabeça. O padre Gregoire reuniu 80 histórias de mártires cujas cabeças teriam sobrevivido em relação ao resto do corpo. Uma história claramente inverossímil, mas que responde a uma tradição teológica segundo a qual a profissão de fé tinha que vencer, de alguma maneira, perante a morte violenta do martírio.
Outro capítulo do livro dos santos “apesar de”, aqueles que foram reconhecidos como modelos de vida cristã apesar de terem sido protagonistas de histórias não tão lineares. Por exemplo, os casos dos fundadores de ordens religiosas que acabaram nas mãos do Santo Ofício, como Giuseppe Calasanzio. Contudo, também há outros santos que foram seguidores dos anti-papas, como o dominicano do século XV, Vincenzo Ferrer.
Trata-se de um livro que recorda que a santidade é um fenômeno muito mais complexo do que parece. E que na história da Igreja não faltaram casos de influências emotivas decoradas com auréolas um pouco apressadamente. Tudo isso, explica em suas conclusões o padre Gregoire, não deve provocar uma desmistificação do conjunto, mas, sim, para que a efervescência da devoção popular ajude a fazer surgir, entre o povo cristão, cada vez mais santos de verdade.

COISAS DE FRANCISCO: O menino no trono de Francisco

O vovô Francisco falava do seu modo afável de sempre, e o menino saltitava ao seu redor, como se estivesse no jardim de casa. Como se o avô estivesse podando uma cerca em uma tarde ensolarada qualquer de outono, deixando que o netinho se movesse livremente com a promessa de não se afastar muito. Ele poderia muito bem lhe dizer: "Cuidado que você vai cair", como diz um idoso um pouco ansioso a uma criança irrequieta. A reportagem é de Paolo Di Stefano, publicada no jornal Corriere della Sera, 29-10-2013. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Isolado do contexto, podia ser um retrato íntimo, de família, mas estávamos na Praça de São Pedro, durante uma homilia, a despeito de milhares e milhares de fiéis incrédulos. Um quadro terno e cômico ao mesmo tempo, porque o avô não era ninguém menos do que o papa, e o menino tinha escapado da multidão para ficar lá em cima, ao lado do vovô que lhe acariciava a cabeça, voltando ocasionalmente a abraçá-lo para um apelo irresistível de afeto e daquela cumplicidade que só os avós conseguem ter com os netos.

Esse papa sabe dar naturalidade a palavras e a gestos que até recentemente pareciam impensáveis. Tudo de uma simplicidade desarmante, como o primeiro "boa noite" do dia 13 de março. Como as caretas sorridentes e confidenciais com o pequeno. Como aquela agitação do menino "impertinente", que, com a sua camisa amarela de mangas longas demais, ia se sentar por um instante no trono pontifício. Talvez alheio a tudo, talvez bem consciente daqueles poucos minutos de celebridade, enquanto o vovô Francisco continuava falando tranquilo ao oceano da Praça de São Pedro, sem prestar muita atenção ao moleque que agora já estava ao seu lado mexendo com uma mão nas pregas do hábito branco.

Era o encontro das famílias, mas já tínhamos visto muitas crianças em torno do vovô Francisco. Em julho, no Rio de Janeiro, ele abraçou Nathan, um garoto de nove anos que escapou da multidão para alcançar o papa, que, para cumprimentá-lo, pediu que o motorista parasse o carro. Em setembro, ele quis telefonar para Federico, de seis anos, que de Chivasso tinha lhe enviado um desenho de flores coloridas. Em Assis, outro abraço com uma criança que tinha se jogado no seu colo sacudindo uma bandeira. Não um abraço qualquer, mas um apertão pleno, forte, reconfortante e, depois, a caminhada acima nas escadas, de mãos dadas.
Certamente, não foi um avô que disse "Deixai vir a mim as crianças", mas não importa.
Fonte: http://www.ihu.unisinos.br

sexta-feira, 1 de novembro de 2013

POR QUE TER MEDO DA MORTE?

Frei Petrônio de Miranda, Frade Carmelita. E-mail: missaodomgabriel@bol.com.br
 
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Se sou justo e humano
Por que ter medo da morte?
Se vivo sem medo de ser feliz
Por que ter medo da morte?
Se sou alegre e fraterno
Por que ter medo da morte?
Se abro as portas para os pobres
Por que ter medo da morte
Se com Cristo eu irei me encontrar?
 
Se não firo ninguém com palavras ou atos
Por que ter medo da morte?
Se procuro sempre fazer o bem 
Por que ter medo da morte?
Se mostro a todos os valores cristãos
Por que ter medo da morte?
Se penso bem antes de tomar uma decisão
Por que ter medo da morte
Se com Cristo eu irei me encontrar?
 
Se luto para que todos sejam amados
Por que ter medo da morte?
Se sujo as mãos para a construção de um novo dia
Por que ter medo da morte?
Se amo o meu trabalho e agradeço por tudo que tenho
Por que ter medo da morte?
Se encontro paz e harmonia no meu lar
Por que ter medo da morte
Se com Cristo eu irei me encontrar?
   
Se gosto de caminhar e trilhar novos caminhos
Por que ter medo da morte?
Se uso a minha inteligência para gerar vida
Por que ter medo da morte?
Se conscientizo a todos dos seus direitos e deveres
Por que ter medo da morte?
Se gosto de silenciar e escutar grito da natureza
Por que ter medo da morte
Se com Cristo eu irei me encontrar?
 
Se encontro forças para sair das noites escuras da vida
Por que ter medo da morte?
Se acredito que após uma tempestade vem o brilho do sol 
Por que ter medo da morte?
Se sei contemplar o brilho das estrelas mesmo na escuridão
Por que ter medo da morte?
Se procuro construir portas quando todos me sufocam
Por que ter medo da morte?
Se gosto de remar mesmo contra a maré
Por que ter medo da morte
Se com Cristo eu irei me encontrar?

quarta-feira, 30 de outubro de 2013

Frei Cláudio van Balen, mestre e amigo.

Frei Gilvander Luís Moreira, O.Carm.

 "Frei Cláudio tem uma história de compromisso com a luta pelos direitos humanos durante a ditadura militar-civil-empresarial, pois, junto com outros frades, colocou a Igreja do Carmo como uma trincheira que oxigenava a luta contra a ditadura. Por isso teve que responder Inquérito militar. Com essa história, frei Cláudio sempre compreendeu minha luta ao lado dos movimentos sociais populares, pois sabe que hoje uma ditadura econômica paira sobre a maioria do povo", escreve em artigo Gilvander Luís Moreira, frei e padre da Ordem dos carmelitas, assessor da Comissão Pastoral da Terra – CPT, assessor do Centro Ecumênico de Estudos Bíblicos – CEBI, assessor do Serviço de Animação Bíblica - SAB e da Via Campesina em Minas Gerais.

Eis o artigo.

Pelo frei Cláudio van Balen nutro uma eterna gratidão e o considero um dos meus mestres. Tive a alegria e a responsabilidade de morar na mesma comunidade junto com frei Cláudio e ao lado dele trabalhar na pastoral daIgreja do Carmo, de Belo Horizonte, MG, durante dez anos, de junho de 2000 a junho de 2010.

Durante o meu mestrado em exegese Bíblica em Roma, Itália, fui muito apoiado, através de cartas e etc, por muita gente do CEBI , da CPT , das CEBs e do MST de Minas Gerais, pois antes de ir para Roma eu tinha trabalhado na assessoria do CEBI, CPT, CEBs e MST de Minas. Por isso eu sentia-me com a missão de continuar a missão em Minas. Perguntei ao frei Cláudio se eu poderia fazer parte da Comunidade do Carmo, após voltar de Roma. Ele, prontamente, disse que sim. Fui vigário na Igreja do Carmo por 7,5 anos, auxiliando frei Cláudio na condução de uma evangelização emancipatória na comunidade do Carmo, ao mesmo tempo em que assessorava as CEBs, CPT, CEBIe o MST em Minas Gerais. Isso implicava que eu tinha que viajar muito e ficar boa parte do meu tempo fora da Igreja do Carmo. Frei Cláudio sempre se mostrou compreensivo diante de minhas “ausências”. Aliás, sempre me apoiou e sempre me incentivou a continuar apoiando a luta dos pobres que buscam seus direitos de forma organizada. Inclusive me disse algumas vezes: “Se eu tivesse a sua idade – 30 anos mais jovem -, eu estaria como você colocando fogo no mundo”.

Frei Cláudio tem uma história de compromisso com a luta pelos direitos humanos durante a ditadura militar-civil-empresarial, pois, junto com outros frades, colocou a Igreja do Carmo como uma trincheira que oxigenava a luta contra a ditadura. Por isso teve que responder Inquérito militar. Com essa história, frei Cláudio sempre compreendeu minha luta ao lado dos movimentos sociais populares, pois sabe que hoje uma ditadura econômica paira sobre a maioria do povo.

Com frei Cláudio, os momentos de almoço, de reuniões, de palestras, de correção de textos e conversas informais eram sempre momentos de formação teológica na linha libertadora. Eu sempre pedia ao frei Cláudio e ao saudosoEliseu Lopes – grande biblista do CEBI – para corrigirem os meus textos. Com alegria eu acatava quase todas as sugestões de melhorias nos meus textos. E frei Cláudio humildemente sempre pedia que eu corrigisse os seus textos e aceitava quando eu sugeria mudar algumas palavrinhas, em uma troca mútua de conhecimentos e experiências.

Durante 10 anos eu celebrei a missa na Comunidade da Vila Acaba Mundo, comunidade da Igreja do Carmo, aos domingos, às 09:00h da manhã. Eu voltava e fazia questão de chegar a tempo de assistir a homilia do frei Cláudio na missa das 11:00h. Quanto aprendizado! Frei Cláudio, assim como o profeta Oséias, nos estimula sempre a fazermos autocrítica e não nos acomodar no jeito de pensar e agir tradicionalmente Frei Cláudio é um exímio crítico do poder religioso. Hoje, na sociedade capitalista – individualista, consumista e mercantilizadora de tudo – para as igrejas e pessoas religiosas criticarem os podres da política e da economia é menos difícil, mas criticar o poder religioso e os funcionários do templo é muito complicado, é mexer em um vespeiro. Mas frei Cláudio, destemidamente, ajuda-nos a desmascarar as opressões veladas, sutis e, muitas vezes, disfarçadas de propostas religiosas que aparentemente se dizem humanizadoras, mas são na prática moralistas, doutrinadoras, proselitistas e domesticadoras, infantilizando pessoas. Por isso vejo muitas semelhanças entre frei Cláudio e Oséias, o profeta das relações de amor e da anti-idolatria religiosa. Em ambos vejo uma profecia que vai do miúdo da vida para o macro, do cotidiano para as questões globais, mas revelando a interdependência e o entrelaçamento das várias dimensões da vida humana e social. O profeta Oséias e frei Cláudio denunciam o poder opressor localizado nas grandes instituições, mas também desvenda a microfísica do poder: todas as relações interpessoais (sociais, etc) são permeadas de relações de poder. O poder não está localizado somente nas grandes instituições, mas está presente nas micro-relações. Estão permeadas de poder as relações homem-mulher, adulto-criança, professora-estudante, governante-governados, branco-negro, sadio-doente...

Com frei Cláudio aprendi muitas perspectivas teológicas que inspiram minha atuação ao lado dos pobres na luta pelos seus sagrados direitos. Aprendi, por exemplo, que nenhum dualismo é cristão e evangélico. O divino está no humano. A luz e a força divina permeiam e perpassam todos e tudo. O profano é o que existe de mais sagrado. Muitas orações transferem para Deus responsabilidades que são nossas. Que a eucaristia não é prêmio para os puros, mas é alimento espiritual para todos e que ninguém tem o direito de excluir ninguém da eucaristia. A primeira eucaristia foi um jantar e certamente Jesus de Nazaré não excluiu nenhum dos que estavam na caminhada. Jesus veio para todos a partir dos pecadores e dos doentes. Logo, todos devem se sentir convidados de honra para participar da mesa da eucaristia. É terrorismo religioso excluir alguém da eucaristia por questões morais, por ser divorciado/a, desquitado/a, homossexual etc.

Mas, após 7,5 anos sendo auxiliar do frei Cláudio, a pedido dele por se sentir cansado, com menos força física e também para que ele tivesse mais liberdade para “fazer o que mais gosta”: escrever de forma teológica para contribuir no processo de humanização das pessoas, eu aceitei assumir a coordenação da Igreja do Carmo, tornei-me pároco, o que fiz durante 2,5 anos. Diminuí muito minhas viagens e me dediquei à coordenação do trabalho pastoral da Igreja do Carmo. Aprendi muito, sofri muito e, sem querer, fui ocasião de sofrimento para muitas pessoas e motivo de alegria para outras. Experimentei o desafio que é aliar lutas por solidariedade, por promoção humana, com lutas por justiça. Alguns amigos/as de frei Cláudio não compreenderam a nossa opção de tentar unir as perspectivas do profeta Oséias, o que frei Cláudio faz com muita destreza e sabedoria, com a perspectiva do profeta Amós: luta por justiça social, o que eu tento fazer caminhando ao lado dos pobres que lutam de forma organizada por terra, moradia digna, direitos sociais etc. Assim, saí da Igreja do Carmo, mas sendo sempre grato ao frei Cláudio e o reconhecendo como um dos meus mestres, bem como, diga-se de passagem, também sou grato a muitas pessoas da Comunidade da Igreja do Carmo.

Frei Cláudio, que beleza você celebrando 80 anos de vida e de muitas lutas! Obrigado por tudo o que você me ensinou e tem ensinado a tanta gente.

segunda-feira, 28 de outubro de 2013

Opinião: 'Black bloc' visa chamar atenção de um Estado ausente

*ESTHER SOLANO E RAFAEL ALCADIPANI

 O "black bloc" acontece nas ruas. Esta afirmação aparentemente elementar nos motivou a sair de nossos cômodos ambientes universitários e ir para a rua buscar compreender este complexo fenômeno social que tantos desafios institucionais e tanta estupefação têm ocasionado na sociedade.

Nossa rotina de pesquisa consiste em acompanhar muito de perto as manifestações, observar, perguntar, conversar com pessoas que utilizam a tática "black bloc", policiais e membros da imprensa.

Das conversas que tivemos, e das observações que realizamos, ficou claro que para estes jovens a violência simbólica funciona como uma forma de se expressar socialmente, um elemento provocador que tem o intuito de captar a atenção de um Estado percebido como totalmente ausente.

O uso da violência simbólica também serve, na versão deles, para induzir a sociedade a refletir sobre a necessidade de uma mudança sistêmica: "protesto pacifico não adianta nada, só com violência que o governo enxerga nossa revolta", "a intenção é transgredir, incomodar, deixar visibilidade, chamar para um debate".

A ação direita se faz contra símbolos de um sistema político-corporativo que eles reconhecem como perverso.

Os jovens que utilizam a tática "black bloc" dizem usar uma violência teatral que chama a atenção para o que eles caracterizam como o verdadeiro vandalismo. Tal vandalismo seria uma ordem das coisas que engole o cidadão numa tirania continua.

Exemplos de frases que retratam isso são: "a causa do 'black bloc' agir é o descaso público. As pessoas estão sendo torturadas psicologicamente pelo cotidiano", "não somos vândalos, vândalo é o Estado que deixa as pessoas horas esperando na fila do SUS".

 

SUJEITOS POLÍTICOS

Estes jovens com os quais viemos conversando em São Paulo estão na faixa etária entre 17 e 25 anos.

São de classe média baixa, a maioria trabalha, alguns formados ou se formando em universidades particulares, embora já dialogamos também com alguns alunos da USP.

Alguns acumulam leituras teóricas sobre anarquismo. A maioria deles consegue formular, refletir e dialogar fluidamente sobre a precariedade do Estado e da situação atual do Brasil. Pensam-se como sujeitos políticos com uma mensagem de melhoria do país.

Todavia, eles não formam uma organização homogênea. Já presenciamos discussões, durante as manifestações, entre aqueles que são a favor de uma violência mais focada, estritamente simbólica, e aqueles que defendem uma ação mais pesada.

Notamos divergências entre aqueles que são contra agredir policiais porque, na sua reflexão, o inimigo central é o Estado, e aqueles de cujas falas destila-se uma raiva profunda contra a corporação policial. Uma frase que explica isso foi dita uma vez por um jovem para quem "nem todo o mundo pensa igual embora se vista igual".

 

FETICHE MIDIÁTICO

Um dos aspectos que surge como central na nossa pesquisa é o papel da mídia neste fenômeno. É muito simbólico ver a enorme quantidade de jornalistas que aparecem nas ruas sempre que a tática é utilizada.

 

"Black bloc" virou um fetiche, uma construção midiática. Notamos isso ao perceber o quanto os órgãos de imprensa estão falando e escrevendo sobre o "black bloc".

Enquanto isso, pouco se fala a respeito das taxa de homicídios nas periferias ou o número de mortes no trânsito. Tais violências se naturalizaram no cotidiano brasileiro. O "black bloc" desmascarou esta lógica dual de tratar a violência.

Talvez o fenômeno mais preocupante até agora seja a polarização entre a Polícia Militar e os defensores da tática.

O Estado, guardião da propriedade pública e privada, guardião da ordem, emprega uma ação policial cada vez mais dura e um aparato legal cada vez mais criminalizador.

A consequência pode ser o aumento da presença da tática "black bloc" nas ruas, num efeito de reação. Como eles nos dizem: "Quanto mais repressão, mais revolta".

Uma parte dos jovens com quem conversamos já foi detida durante as manifestações. Cabe agora saber se eles continuarão saindo às ruas mesmo com a ameaça de voltar para a delegacia, desta vez como reincidentes. E mesmo com a ameaça da lei de associação criminosa.

A pergunta essencial que cabe, como sociedade, é por que estes jovens, que desprezam a rigidez hierárquica partidária, que não se sentem representados pelo atual modelo político e econômico, enxergam a violência como única possibilidade de expressão?

*ESTHER SOLANO é professora de relações internacionais da Unifesp. RAFAEL ALCADIPANI é professor de estudos organizacionais da FGV-EASP

A PALAVRA DO FREI PETRÔNIO, Nº 444. A Imprensa e o Black Bloc.