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A Palavra do Frei Petrônio

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sábado, 13 de julho de 2013

O que procuram esses jovens?

Dom Odilo P. Cherer, Cardeal Arcebispo de São Paulo.

 
Aproxima-se a Jornada Mundial da Juventude do Rio de Janeiro (JMJ-Rio 2013). Foram quase dois anos de intensa preparação desde que o papa Bento XVI anunciou, em julho de 2011, no final da Jornada de Madrid, que a próxima seria realizada no Rio!

No dia 18 de setembro sucessivo começou a movimentação para a JMJ-Rio 2013, com a acolhida da cruz da Jornada e do ícone de Nossa Senhora, em São Paulo. Iniciou-se, então, a peregrinação desses sinais de Jesus e de sua Mãe, que percorreram todas as 274 dioceses do Brasil, encontrando as realidades mais diversas vividas pelos jovens: igrejas, escolas e universidades, prisões, locais de recuperação de dependentes químicos, favelas e situações de degrado, como a "cracolândia", em São Paulo.

Agora esses mesmos sinais já estão no Rio de Janeiro, a esperar a chegada dos jovens peregrinos que para lá acorrerão em grande número, procedentes de todo o Brasil e também do exterior. Quase 200 países estarão representados! Dia 22 chegará o papa Francisco, peregrino também ele, para o abraço do Cristo Redentor e o encontro com essa multidão, que mostrará o rosto jovem da humanidade e da Igreja Católica.

As JMJs são pensadas e organizadas como peregrinações, com um significado primariamente religioso, sem deixar de ter múltiplos outros significados. Assim, também estão impostados os principais momentos do programa da Rio 2013, que se estende de 22 a 28 de deste mês. Haverá três manhãs de "catequeses", oferecidas em dezenas de línguas e em cerca de 200 locais diversos; elas proporcionarão aos jovens peregrinos a reflexão sobre alguns aspectos da sua vida, à luz da fé cristã. Não faltarão iniciativas culturais e de solidariedade social.

Sucessivamente, os encontros com o papa Francisco terão o mesmo objetivo: aprofundar a experiência do encontro da grande família humana, unida por laços comuns muito profundos, cujo movente será a experiência religiosa e eclesial, mas cuja base, de fato, é a nostalgia latente no coração humano (ou será utopia?) de ver a família dos povos reunida, reconciliada e vivendo em paz, malgrado todas as diferenças nela existentes.

Os pontos culminantes desta JMJ serão a grande vigília de jovens com o papa Francisco no sábado, dia 27, e a missa no "campo da fé" na manhã seguinte. Nesses momentos intensos, mais uma vez os jovens farão a experiência da peregrinação, com todos os esforços e sacrifícios que isso geralmente requer: sair de casa e pôr-se a caminho para alcançar uma meta; encontrar outros companheiros andando na mesma direção; conversar com algum desconhecido que se encontre no mesmo trecho e busca a meta comum; partilhar o pão e a água, socorrer quem já se cansou ou machucou o pé, festejar a chegada... Tudo isso não é uma parábola da própria vida?

Somos todos peregrinos e trazemos no mais íntimo de nós o desejo de chegar ao lugar do nosso descanso, à paz e felicidade tão sonhadas, meta que move nossos passos todos os dias, mesmo sem termos consciência disso. Os jovens da JMJ farão essa experiência de peregrinação na fé, ao encontro dos outros e de si mesmos, ao encontro de Deus, que os atrai de maneira sutil, mas irresistível, meta final da existência humana.

Mas esta peregrinação também é movida pela busca de fundamentos sólidos, que deem consistência e sentido ao convívio humano, em que as diferenças não sejam vistas como barreiras ou fossos intransponíveis, mas como riquezas a compartilhar. Não é também algo disso que se percebe nas manifestações de rua das últimas semanas, com grande adesão de jovens, que descem às ruas e se põem em marcha? Aonde querem chegar?

 

Protestam contra o que não está bem na política, na economia, no ordenamento social; acreditam que as coisas podem melhorar e têm vontade de contribuir para isso... Nem sempre os clamores estão plenamente afinados, mas é certo que revelam uma desarmonia profunda no convívio político e social brasileiro. Há a percepção de uma meta que não é simplesmente o vão livre do Masp, na Avenida Paulista, mas o Brasil e o mundo melhores do que estão sendo. Os jovens dão mostras de que não se satisfazem em navegar na rede nem se conformam com o tentador aceno das praias da corrupção, do degrado moral e cívico. São peregrinos da verdade e da justiça. Sinais de esperança!

A Jornada de 2013 já estava prevista há cerca de três anos e os jovens, por certo, não irão ao Rio de Janeiro para protestar contra o governo brasileiro nem darão vazão às insatisfações com a política de seus países de origem. Eles irão ao encontro do Cristo Redentor, que os espera com os braços em cruz para o amplexo da vida e da esperança. No final da sua peregrinação encontrarão a mesma cruz peregrina que foi antes ao encontro deles nos muitos espaços e ambientes onde vivem. Cruz de madeira, tosca, nada brilhante, como foi a de Cristo; como as cruzes que abraçamos cada dia...
          Em torno dela se juntarão, às centenas de milhares, com o papa Francisco, para proclamar a sua fé no Deus da vida e da esperança; fé que também é necessariamente um compromisso pessoal e comunitário com a edificação de um mundo melhor, como eles bem o sabem sonhar, movido pelo amor, sem mais violência nem cruzes que esmagam!

E o que esperar desta JMJ? O mesmo que se espera de um campo semeado: quem pode garantir seus frutos? O tempo e a paciência os mostrarão. Sem semear não há esperança de colher. Vale a pena investir nos jovens.

E o Brasil terá muito fruto a colher. Serão centenas de milhares de jovens a percorrer o País, em direção ao Rio de Janeiro. As imagens de nosso povo e de nossa cultura, recolhidas nessa peregrinação, serão levadas para todo o mundo. E isso tem um valor inestimável!  


 

quinta-feira, 11 de julho de 2013

ORDEM TERCEIRA DO CARMO: Vida de oração (Regra de Vida).


Os leigos carmelitas, impregnados pelo espírito da Ordem, que é "vacare Deo" (ter tempo para Deus), pretendem viver o carisma na escuta silenciosa da Palavra, na oração constante na sua vida, deixando-se entusiasmar pelo Espírito Santo em favor das obras grandiosas, que Deus realiza e para as quais Deus pede o seu empenho e eficaz contribuição. Para o carmelita a oração, numa intensidade crescente, torna-se uma atitude mais do que um exercício; comporta um reconhecimento cada vez mais agudo da presença da mão de Deus [em toda a obra da criação e na sua própria criação; no seu modo contemplativo de agir, a oração é muitas vezes modelada pela prática da presença de Deus numa grande variedade de formas. No Carmelo a oração é sobretudo um deixar-se amar por Deus]; a procura (de torná-la) não somente habitual, mas atual, de acolher o [tão grande] amor gratuito de Deus; [um tomar] a consciência sempre mais profunda da ação de Deus, que pervade toda a existência pessoal, como Santa Teresa de Lisieux tão fortemente testemunhou.
            a) Os sacramentos, especialmente a Eucaristia, são a vida de Jesus a se difundir nos fiéis, que por meio deles podem unir-se a Ele[1]. A participação, possivelmente diária, no sacrifício do altar[2], será assim a sua seiva vital.
            b) A Liturgia das Horas[3], ao menos a das Laudes matuti-nas, Vésperas e Completas (Oração da Noite), seja a expressão eclesial do encontro do Terceiro com Deus. Os lugares e as di-versas circunstâncias poderão indicar outras formas eventuais de oração litúrgica.
29 (27). A vida espiritual não se esgota só com a Liturgia. Mesmo que esteja convocado para a oração em comum, o cristão sempre é obrigado a entrar no seu quarto para orar ao Pai no segredo[4]. Mais, segundo o ensinamento de Jesus[5], reforçado também pelo Apóstolo[6], o cristão é obrigado a rezar sem cessar[7].
 
30 (28). Desta maneira os Terceiros reservem cada dia um tempo conveniente para a oração individual (que é uma relação de íntima amizade, um constante entreter-se a sós com Aquele que sabemos nos amar[8]) e, segundo a tradição constante do Carmelo, cultivem no máximo grau a oração nas suas várias formas: a oração mental, a oração de aspiração, além das eventuais práticas tradicionais[9]. Recomenda-se, de modo particular, a "lectio divina". Mas, sobretudo, aprendam na sua vida ordinária, a engrandecer com a Virgem ao Senhor e a exultar em Deus, seu Salvador[10].
31 (29). Na verdade, Maria, enquanto vivia na terra uma vida igual à de todos, cheia de solicitude pela família e dedicada ao trabalho, estava sempre unida ao seu Filho e de maneira especial cooperava com a obra do Salvador[11].
            Os nossos Terceiros terão o Escapulário em grande estima, como símbolo do amor maternal de Maria, pelo qual, Ela, tomando a iniciativa, guarda dentro do seu coração os seus irmãos e irmãs carmelitas, e assim provoca neles a imitação das suas virtudes preclaras: uma caridade universal, o amor à oração, a humildade, a pureza, a modéstia[12]. A Ela eles se dirigirão também com um culto particular, praticando com amor os exercícios de piedade recomendados pela Igreja no decorrer dos séculos, especialmente a recitação do Rosário[13].
32 (30). A cooperação de Maria continua de modo especial na celebração da liturgia, que pretende tornar atual para todas as gerações a obra salvífica de Jesus. Como a Virgem participou ativamente na obra da Redenção, unida a Cristo, seu Filho, assim Ela continua a mesma obra através da Liturgia, como nosso modelo, impelindo-nos a celebrar os mistérios de Jesus, imitando as suas disposições e atitudes; a pôr em prática a Palavra de Deus e meditá-la com amor; a louvar a Deus com exultação e agradecer-Lhe com alegria; a servir a Deus e aos próprios irmãos com generosidade, dando até a própria vida por eles; a rezar ao Senhor confiantemente e com perseverança; a vigiar, aguardando a Vinda do Senhor[14].
33 (31). Na família, no ambiente de trabalho e de profissão, nas responsabilidades sociais, que desempenham, nas ações de cada dia, nos relacionamentos com os outros, os leigos (os terceiros) procurem os vestígios escondidos dos passos de Deus (nos caminhos da história), reconheçam-nos e façam germinar a semente da salvação segundo o espírito das Bem-Aventuranças por meio do humilde e constante exercício daquelas virtudes de probidade, espírito de justiça, sinceridade, cortesia, fortaleza de ânimo, sem as quais não pode haver verdadeira vida humana e cristã. "A sua comunhão com Deus e com os outros em fraternidade dá origem à missão, e a missão se cumpre na comunhão"[15].
 
    [1]. LG 7
    [2]. Regra do Carmo 10
    [3]. Regra do Carmo 8
    [4]. Mt 6,6
    [5]. Lc 18,1
    [6]. 1Ts 5,17
    [7]. SC 12 e Const.Ord.Carm. 73
    [8]. Santa Teresa de Jesus Vida 8,5
    [9]. Const.Ord.Carm. 53-54
    [10]. Lc 1,46-47
    [11]. AA 4
    [12]. Carta Apostólica de Pio XII "Neminem profecto"
    [13]. Const.Ord.Carm. 69; Marialis Cultus 45
    [14]. AA 4
    [15]. CfL 32

quarta-feira, 10 de julho de 2013

ESCAPULÁRIO DO CARMO: História e espiritualidade.

1-Ligada à história e aos valores espirituais da Ordem dos Irmãos da Bem-Aventurada Virgem Maria do Monte Carmelo, a devoção a Maria se exprime, entre os carmelitas, mediante o Escapulário. Por isso quem o recebe torna-se membro da Família da Ordem e se compromete a viver a sua espiritualidade de acordo com as carac-terísticas do seu estado de vida.
 
I - TRAÇOS HISTÓRICOS
 
Um projeto mariano de vida evangélica
 
2-A Ordem dos Irmãos da Santíssima Virgem Maria nasceu no Monte Carmelo, na Terra Santa, no século XII. Um grupo de eremitas oriundos do Ocidente, ali se estabeleceram para viverem o seguimento de Jesus na terra de Jesus. Diante do pedido deles, o Patriarca Alberto deu-lhes uma norma de vida, que, entre outras coisas, lhes pedia a construção, no meio das celas, de um oratório, onde se reunissem para a Eucaristia (1). Dedicaram-no a Maria, pretendendo deste modo ligar-se a Ela de maneira especial, a ponto de serem identificados, pelo povo primeiro, e depois oficialmente, como os "Irmãos da Santíssima Virgem Maria do Monte Carmelo".
            O itinerário evangélico ou o compromisso cristão dos Carmelitas assume, portanto, uma característica profundamente mariana. Na verdade, Maria engrandece o Senhor e exulta nas maravilhas do seu amor            misericordioso (Lc 1,46); escuta e contempla no seu coração todos os acontecimentos, que se referem a Jesus ( Lc 2,19.51). Identifica-se com o seu povo, especialmente com os necessitados, com os pobres de pobreza espiritual e material, com os marginalizados (Lc 1,39ss; Jo 2,3).  É assídua na oração, aberta ao fogo do Espírito, que é a força de qualquer doação apostólica (At 1,14; 2,1-4).
 
Na fraternidade do Carmelo
 
3-Desde os tempos antigos houve fiéis que, atraídos por este ideal de vida e pelas suas características, solicitaram compartilhá-lo. A sua particular situação de vida em família e nas realidades do mundo não foi um obstáculo a participarem da fraternidade do Carmelo.
            Sinal externo de admissão a esta fraternidade foi o hábito (ou parte do hábito) da Ordem. A princípio, este sinal foi especialmente a capa branca, mas bem depressa veio a ser representado definitivamente pelo Escapulário.
            O Escapulário do Carmo ou bentinho (ou ainda outros nomes, que se lhe dêem, de acordo com os lugares diversos) é uma das devoções mais queridas do Povo de Deus. Parece que a sua grande difusão deve levar-nos à tradição de uma visão de Nossa Senhora documentada ao menos desde os fins do século XIV.
4-Num período de dificuldades a Ordem rezava para conseguir pleno reconhecimento e estabilidade na Igreja. Maria, protetora do Carmelo, teria respondido com uma aparição ao carmelita inglês São Simão Stock. Segurava na mão o Escapulário e tranqüilizava o santo Prior Geral dizendo: "Este é o privilégio em teu favor e em favor dos teus: todo aquele que morra com este Escapulário será salvo" (2).
            Mais tarde começou-se a crer piedosamente que a Virgem, logo no primeiro sábado depois da morte, libertaria do Purgatório os carmelitas como também os confrades, que tivessem guardado a castidade segundo o seu estado, feito orações e trazido o hábito do Carmelo. É o assim chamado "privilégio sabatino" (3).
            Os fiéis então entenderam imediatamente que revestir-se do hábito significava entrar para a vida de Irmãos da Ordem e de Maria. Correspondendo ao amor da Virgem, vivem seguros da sua proteção nos perigos da vida e na hora da morte, confiantes de que, mesmo depois da morte, intervirá em seu favor Aquela que "no seu amor de Mãe cuida dos irmãos do seu Filho, (...) até que sejam conduzidos à pátria bem-aventurada" (4).
            Mais recentemente, graças a um conhecimento mais profundo da nossa tradição, fruto da pesquisa e do processo de renovação, que vigora em toda a Igreja, mudou-se a maneira de se olhar para a religiosidade popular e, por isso mesmo, para a devoção ao Escapulário (5).
 
5-A história e a evolução da devoção a Maria por meio do Escapulário apresentam hoje várias categorias de devotos que, levando em conta o grau de identificação e pertença à Família do Carmelo, podem resumir-se nos seguintes:
            a) Os religiosos e as religiosas:
            b) A Ordem Secular (já chamada Ordem Terceira);
            c) Os que pertencem à Confraria do Escapulário;
            d) Todas as pessoas que recebem o Escapulário e vivem a sua
            espiritualidade nas diversas modalidades de associação;
            e) Os que receberam o Escapulário e vivem esta devoção fora
            de qualquer associação (6).
Todos estão obrigados a se empenharem em viver a característica mariana da espiritualidade carmelitana na sua totalidade e com fervor, mas nas formas correspondentes à   natureza do vínculo, que os liga a essa "família de Maria" (7).
 
II - NATUREZA E CARÁTER
 
6- "O Escapulário é essencialmente uma veste. Quem o recebe, em virtude de o ter recebido, é associado à Ordem do Carmo num grau mais ou menos íntimo" (8). O Escapulário ou bentinho, de fato, é a miniatura do hábito desta Ordem, que para viver "no seguimento e serviço de Jesus Cristo" (9), escolheu a experiência espiritual da familiaridade com Maria (10), irmã, mãe e modelo.
7-A agregação à Família Carmelitana e a familiaridade com Maria assumem um caráter fundamentalmente comunitário e eclesial, porque Maria "ajuda todos os seus filhos, onde quer e como quer que vivam, a encontrarem em Cristo o Caminho rumo à casa do Pai (11). E assim o Escapulário é um pequeno "sinal" do grande ideal do Carmelo: intimidade com Deus e amizade entre os discípulos.
 
 Simbolismo Bíblico
 
8-Já no Antigo Testamento a veste - e de maneira especial, o manto - era símbolo dos benefícios divinos, da proteção do Alto, do poder transmitido a um enviado de Deus.
            A veste especial de José foi símbolo da predileção (cf Gn 37,3); a capa de Jônatas presenteada a Davi foi um símbolo da amizade (cf 1Sm 18,4). Em Isaías lemos: "Alegro-me imensamente no Senhor, a minha alma exulta no meu Deus, porque me revestiu com as vestimentas da salvação e envolveu-me com o manto da justiça" (Is 61,10). Quando Elias, o Profeta, foi arrebatado da terra, o seu manto caiu sobre Eliseu, seu discípulo, transmitindo-lhe o espírito do mestre ( 2Rs 2,14ss).
 
9-No Novo Testamento até as fímbrias do manto de Jesus tocadas com fé comunicam o seu poder benfazejo (Mc 5,25ss). São Paulo, mais de uma vez, apresenta a vida em Cristo como um revestir-se de Cristo (Rm 13,14; Gl 3,27); assumir os mesmos sentimentos de Jesus, isto é, a vida da graça filial do cristão, se descreve com a imagem da vestimenta. O hábito religioso, do qual o Escapulário é uma parte e um símbolo, significa de modo particular este seguimento de Jesus.
 
Na Trindade com Cristo
 
10-Maria, a bendita entre as mulheres, é a obra-prima da Santíssima Trindade, com quem se associa, na sua pessoa levando o feminino ao máximo da realização, como ícone da ternura de Deus e da sua vontade salvífica (12). Maria, a Mulher, na qual "tudo se refere a Cristo e tudo dEle depende; em atenção para com Ele, Deus Pai A escolheu desde toda a eternidade como sua Mãe inteiramente santa, adornando-A com dons do Espírito Santo nunca a nenhum outro concedidos" (13). Nossa Senhora é para toda a Igreja o modelo daquele "louvor de glória da Santíssima Trindade", que somos todos chamados a ser.
 
11-O Escapulário é símbolo e reconhecimento filial e agradecido pela missão, que a Santíssima Trindade quis confiar a Maria na História da Salvação: "mistério de misericórdia" (1Tm 3,16). Na boca de Maria foram postas estas palavras verdadeiramente significativas: "Trago-te um Escapulário como penhor da minha bênção e do meu amor e, ao mesmo tempo, como sinal do mistério que em ti cumprir-se-á. Venho para terminar de «revestir-te de Jesus Cristo» (Gl 3,27), a fim de que tu sejas «enraizada nEle» (Cl 2,7), estrada real, na profundidade do abismo, com o Pai e o Espírito de amor" (14).
 
Caminhada-Peregrinação eclesial
 
12-Através do espaço e do tempo, e mais ainda, através da história dos seres humanos, Maria está presente como aquela "que teve fé" (cf Lc 1,45), como aquela que progredia na peregrinação da fé, participando como nenhuma outra criatura no mistério de Cristo (15).
 
13-A Igreja na sua peregrinação de fé encontra o seu modelo melhor em Nossa Senhora. "A força do exemplo da Santíssima Virgem (...) leva os fiéis a se conformarem com a Mãe para melhor se conformarem com o Filho. Mas a Virgem leva-os também a celebrarem os mistérios de Jesus com os mesmos sentimentos e atitudes com que Ela esteve ao lado do Filho nos mistérios do nascimento e da epifania, da morte e da ressurreição. Anima-os por isso a guardarem carinhosamente a palavra de Deus e nela meditarem amorosamente; a louvarem a Deus cheios de contentamento e darem-Lhe graças com alegria, a servirem-no com fidelidade e aos irmãos, oferecendo por eles generosamente a própria vida; a rezarem ao Senhor com perseverança e implorarem-no confiantemente; a serem misericordiosos e humildes; a observarem a lei do Senhor e a cumprirem a sua vontade; a amarem a Deus em tudo e acima de tudo; a vigiarem à espera do Senhor que vem" (16).
 
14-O Carmelo seguiu por esta trilha, propondo aos seus membros transformarem-se em Maria, a fim de poderem ser estabelecidos na intimidade divina, seguindo os seus exemplos. Os três graus desta Subida do Monte Carmelo são: imitação de Maria, união com Ela e sua semelhança (17).

A PALAVRA DO FREI PETRÔNIO, Nº 373. Devoção Mariana (2ª Parte).

A PALAVRA DO FREI PETRÔNIO, Nº 372. Devoção Mariana (1ª Parte).

terça-feira, 9 de julho de 2013

NOVENA DO CARMO: Homilia do Frei Petrônio.

Esquemas para um Retiro Carmelitano.

Tema: Jardim Fechado.
Por Frei Tito Brandsma, Beato Carmelita.
 1º dia: Um Carmelo- Símbolo: um Jardim.
        Fazer do nosso coração um CARMELO, um jardim, um jardim de delícias. Depois de longa estiagem, parece um verdadeiro matagal, onde vicejam ervas daninhas, cardos, espinhos e abrolhos. "Exsiccatus est vertex Carmeli"[1]. Santa Teresa nos fala sobre quatro maneiras de irrigar; antes, porém, faz-se mister capinar, amanhar a terra.
            Existem em nossa literatura mística dois belos opúsculos: o de Beatrice, e o de Henrique Mande, que na realidade copia o que escreveu Beatriz.
            Primeiro: cavar e revolver a terra e dela tirar as pedras e outros objetos estranhos e duros, a fim de que nunca mais voltem: são eles a ira, a teimosia, a obstinação, o ódio, a inveja, os caprichos.
            Segundo: manter afastadas definitivamente as ervas daninhas: são elas a vaidade, a leviandade, a vanglória, a gula.
            Terceiro: adubar. Recordar a vida passada com as suas faltas: arrependimento e penitência. Enterrar bem o adubo, não o deixando aparecer por fora. "Cum jejunaveris oleo unge caput tuum"[2]. O nosso amor a Deus deve encobrir os nossos pecados, que estão perdoados. A sua lembrança, porém, deve ficar, sem perturbar-nos, no entanto. Fé, esperança e caridade.
            Belo pensamento de um grande místico flamengo: "Antes de tudo me parece que deveis ser espiritualmente alegres; devem desagradar-vos as vossas faltas, não, porém, ao ponto de vos angustiar ou molestar".
            O jardineiro olha cheio de confiança para a terra amanhada, arada e preparada, cheia de fertilidade. Em seguida lança confi- antemente a semente de plantas e flores. Reza para que Deus dê o crescimento.
            Quarto: é preciso manter afastado tudo quanto possa ser ofensivo: abrir vala profunda ao redor, diz Henrique Mende, que nela vê a imagem do abismo, que deve haver entre os nossos novos conceitos e os do mundo. Já não colocamos no centro de tudo a nós mesmos, e sim a Deus, isto é, ao amor. "Nostra autem conversatio in cælis est"[3]: estamos num outro mundo.
             Quinto: além da vala vem um muro bem alto. Deus é a nossa fortaleza[4]: confiança em Deus e viver na sua intimidade, e nada poderá prejudicar-nos. Começar nova vida com coragem e ânimo.
            Sexto: uma cancela. Prudência: não admitir a tudo e a todos. Só Deus pode entrar e tudo quanto Lhe seja agradável. "Sto ad ostium et pulso"[5]. É preciso deixá-Lo entrar logo e sempre.
            Devemos conservar os olhos abertos, fixos em Deus, e precaver-nos contra tudo o que não é Deus e não vem dEle.
            Podemos, então, segura e confiantemente lançar a semente, certos de que hão de brotar as flores. O Dono do jardim, o Jardineiro celeste terá gosto de permanecer aí e aí estar à vontade. "Hic habitabo, quoniam elegi eam"[6].
Resumo: Cavar e cercar. Romper com o passado e tomar as medidas para o futuro.
2º Dia: Recolhimento - Símbolo: O Girassol[7]
             Está muito vazio o jardim do nosso coração. Devemos aproveitar os dias do retiro para nele plantar toda espécie de flores, que devemos selecionar cuidadosamente. O jardim aí está. Comecemos por plantar no fundo, junto à cerca, flores bem altas, grandes, a fim de proteger o lado norte. Plantas altas e fortes, que possuam a dom especial de manter o coração voltado para o sol desde que nasce até que se põe, de modo a sempre receberem o seu calor e a sua luz diretamente. O resultado é que as suas sementes amadurecem em abundância e com rapidez. Estas flores são o símbolo do próprio sol, que se reflete nelas para nós na sua forma e na sua cor de ouro.
            Eia aí a imagem do recolhimento, a primeira flor que deve desabrochar dentro do nosso coração. Devemos mantê-lo orientado para Deus, tornando-nos susceptíveis à sua luz e ao fogo do seu amor. Mantenhamos os olhos fitos em Deus, vejamos Deus em tudo, e Ele, em compensação, olhará sempre para nós e dar-nos-á com abundância a sua graça: em conseqüência, o sol da graça fará amadurecer as sementes das virtudes rápida e abundantemente.
            Distinguem-se dois tipos de recolhimento: o ativo e o passivo. No primeiro somos nós que procuramos a Deus; no segundo é Deus que se nos impõe de tal forma que não podemos deixar de olhar para Ele. Ele atrai os nossos olhos, orientando o seu direcionamento.
            Deus organizou a natureza e a graça de tal modo que essas duas formas de recolhimento por vezes se confundem. Certamente Ele quer que, orientados pelo conhecimento que temos dEle, nós O procuremos ao mesmo tempo como Causa e Fim da nossa vida. Foi Ele quem nos criou, mas é Ele também que nos conserva na existência de momento a momento na continuidade do seu ato criador. Mas, por outro lado, se fez o objeto mais elevado do nosso conhecimento, que fala às nossas faculdades de maneira clara e convincente.
            Se fizermos justiça à nossa Inteligência, sem nos mantermos à superfície das coisas, elevar-nos-emos do finito ao infinito, e encontraremos prazer na sua contemplação. Se O procurarmos, nós O acharemos. Se dEle fizermos o objeto dos nossos olhares, Ele nos cativará infalivelmente. E, no processo do nosso recolhimento em Deus, haverá assim um intercâmbio ininterrupto entre o elemento passivo e ativo, que até poderíamos chamar de conversão para Deus.
            Que a nossa conversão para Deus seja ao mesmo tempo recolhimento e introspecção corresponde à formulação de Santo Agostinho: podemos procurar a Deus em toda parte, mas em parte nenhuma O encontraremos melhor do que dentro nós mesmos.
            Santa Teresa afirma isto também quando, ao descrever as glórias do Castelo Interior, diz que dispensamos muito pouca atenção ao Hóspede Divino, que acolhemos na alma, e que é preciso começar a procurá-lo e conversar com Ele.
Resumo: Como o girassol, sempre voltados para Deus, de modo ativo e passivo.
Símbolo: o Girassol
3º Dia: O Amor -Símbolo: A Rosa
             A segunda flor a ser plantada no nosso jardim é a flor por excelência: a rosa. O nosso jardim deve ser um roseiral. A rosa é símbolo do amor, a rosa encarnada. As mais belas rosas crescem no lugar mais ermo e mais pedregoso do mundo: o Calvário, onde sangram as chagas de Jesus! A rosa é símbolo do amor divino, o maior amor: "Exemplum dedi vobis"[8]. Quem dera pudéssemos amar assim! A nossa vida por Jesus. "O que fizestes as menor dos meus irmãos, foi a Mim que o fizestes"[9]. Viver de amor. Não é fácil. Jesus foi coroado de espinhos, a fim de ser o Rei do Amor. É por amor a nós que tem espinhos essa rosa, e espinhos bem pontiagudos.
            A rosa encarnada é símbolo de um amor ardente. "Vim trazer fogo à terra e que desejo senão que arda?"[10] A roseira deve ser enxertada. Cortar o contacto com o mundo e incorporar-nos em Cristo. Viver, crescer e florescer no tronco, que é Cristo.
            O tronco está no jardim, mas os seus galhos são vigorosos. Devemos viver nEle e dEle, e julgar a tudo e a todos como Ele. Deus perdoa o nosso próximo, e nós continuamos a resmungar e a murmurar.
            A rosa é de aparência agradável, um encanto, um primor. Assim a nossa presença deve ser encanto, alegria, consolação. Deve constituir verdadeira festa assim como as rosas fazem pensar em festa. Sempre serenos e alegres, sempre serviçais.
            Santa Teresinha, a "Rosa Desfolhada". A rosa não deve ficar a balançar nos ramos da roseira, mas ser desfolhada, a fim de atapetar o caminho, por onde passará Nosso Senhor: isto é uma imagem de como devemos preparar o caminho de Nosso Senhor para os corações dos homens.
            "Illum oportet crescere, me autem minui"[11], dizia São João Batista. Renunciar a todas as honras e glórias, sem alegar direitos, a fim de ganhar almas para Jesus. Amor até ao extremo, até à loucura: a loucura da Cruz.
            A nossa caridade deve tornar-se proverbial. Que ninguém nos vença em matéria de caridade. É a primeira, a mais alta, é a virtude divina. Plínio saudou um escravo para admiração dos romanos, que estavam na sua companhia. Plínio explicou-se, dizendo que certamente não podia deixar-se vencer por um escravo quanto às boas maneiras e à afabilidade, se é que se considerava superior a ele. São grandes, por vezes, as nossas pretensões. "Qui major est vestrum, erit minister vester"[12]. E no amor, e na caridade. Jesus é o nosso modelo. Cresça e floresça, pois, no jardim nosso a rosa do amor.
            Existe um belo quadro, "Maria im Rosenhag", quer dizer, "Maria cercada de rosas". Se somos rosas, que esteja Maria no meio de nós.
Resumo - O amor é a virtude mais elevada, a primeira.       
Modelo: Jesus na Cruz a sangrar por mil feridas.
Símbolo: a rosa encarnada no meio dos espinhos e no fim desfolhada totalmente.
 4º Dia: A Pureza - Símbolo: O Lírio
            A terceira flor no jardim do Carmelo é flor inteiramente característica deste jardim: o lírio, símbolo da pureza. É a flor da Virgem das Virgens, que não pode faltar no seu jardim, o Carmelo, onde deverá desenvolver-se viçosa e bela.
            Ontem falávamos sobre as rosas encarnadas no Calvário. O Rei das Virgens é ao mesmo tempo o Rei dos Mártires! Quantas virgens tornaram-se mártires, para conservar a sua virgindade! Esposas de Cristo. Costumamos considerar a pureza, geralmente, de modo demasiado negativo, isto é, evitar o que possa manchá-la. Foi neste sentido que fizemos voto de pureza?
            Queríamos pertencer a Nosso Senhor: não contentes só com o amor terreno, desejávamos tornar-nos objeto do seu Amor. A pureza deve estar radicada no amor, no mais genuíno amor. Eis que o seu pior inimigo é o amor terreno, seja este dedicado aos outros, seja ainda dedicado a nós mesmos. Belo o exemplo de Santa Liduína, que desejava não somente amar unicamente a Deus, mas também ser amada unicamente por Ele. Renunciou a todos os seus encantos pessoais para que ninguém mais a amasse. São João da Cruz: "Pati et contemni pro Te"[13].
            Devemos gostar de estar junto de Nosso Senhor. Ver no próximo a sua imagem e servi-Lo na pessoa dos outros. Deve ser essa a tendência do nosso amor. A pureza não é anti‑social: enobrece e santifica o nosso trato com os outros. É mister, porém, reprimir sentimentos e paixões, que ofereçam perigo à nossa pureza, pois não somos insensíveis.
            O lírio ergue-se esguio por sobre a folhagem verde. Livre. Nobre. Símbolo de como devemos saber elevar-nos acima das coisas da terra, sem que elas nos estorvem. Radiantes de brancura. Como a inocência irradiada pelos olhos das crianças, principalmente na hora que elas comungam, quando muito sérias rezam para Deus.            "Nisi efficiamini sicut parvuli"[14]. O que faz com que nos devamos tornar semelhantes às crianças é o seu apego a Deus. Mas como se ofusca facilmente este brilho! A paixão, a princípio, torna-nos incertos, hesitantes, gradualmente desviando-nos de Deus, desviando-nos para as criaturas, para o prazer e para as distrações. Tornamo-nos moles. O lírio vai definhando; as flores começam a inclinar-se e murcham. Vem a tempestade. Coloca-se um arrimo à planta para melhor sustentá-la. É a cruz, isto é, a mortificação contínua, que deve manter-nos firmes em Deus.
            São Paulo nos fala deste estímulo da carne e reza para que dele seja libertado; a resposta é que a graça de Deus lhe deve ser suficiente. A vida é luta, combate, mas combate digno de ser travado. Torna-se necessário o domínio sobre si mesmo, a disciplina, a mortificação. Exercitar-se nas pequeninas coisas: mortificar a vista e os ouvidos. Fazê-lo espontaneamente mesmo quando não corremos perigo algum, para sermos fortes na hora do perigo. Como alguém que aprende a nadar para que possa salvar-se, se algum dia cair na água. Ou como quem aprende a esgrimir ou lutar para que possa defender-se quando necessário. Assim também devemos aprender a mortificar a vista e os ouvidos, a fim de subtrair-nos aos perigos. É preciso, porém, ser comedidos na mortificação e ter uma direção espiritual. Jamais chegaremos a matar o inimigo. Devemos aprender a lutar contra ele. E sem deixar-nos abater pela luta.
            "Sufficit tibi gratia mea"[15]. Sempre tornar a unir-nos de novo com Deus. E fugir dos perigos. Evitar pessoas que exercem atração sobre nós, que nos perturbam ou pelas quais nos sentimos atraídos. Fazê-lo, porém, sem que elas o percebam ou sofram as conseqüências. Proceder com muita prudência e cautela, a fim de não nos enganarmos a nós mesmos. Neste assunto, principalmente, se faz necessária a direção espiritual. Por via de regra, não praticar nada de extraordinário que dê na vista, mas elevar-nos acima das coisas e unir-nos a Deus. Se isto não bastar, tomar outras medidas em concordância com o nosso diretor espiritual. Mas sempre esforçar-nos por retornar à prática positiva da virtude.
Resumo - A pureza é virtude positiva. (Modelo: Maria, a Rainha das Virgens).
Símbolo: O Lírio. A mortificação e o domínio de si mesmo sustentam esta flor.
A Sagrada Comunhão é "o vinho que faz brotar almas virginais"[16]. "Ecce Sponsus venit! Exite obviam Ei!"[17]
5º Dia: A Humildade - Símbolo: O Gramado Beato Tito
            Alguma coisa está fazendo falta ao nosso jardim. Ao fundo estão os girassóis que olham para o sol, símbolo da nossa conversão para Deus. Na frente deles, as grandes roseiras com rosas encarnadas, símbolo do nosso amor, que se sacrifica. Um grande canteiro alvejante de lírios simboliza a nossa pureza, que nos consagra inteiramente a Deus.
            Há, porém, muito espaço aberto, muito terreno vago. O nosso jardim de delícias não está pronto. Queremos aumentar a sua beleza com um gramado. A relva, na mística, simboliza a humildade, a raiz de todas as virtudes.
            Não pode faltar este símbolo em nosso jardim. Um relvado parece coisa simples. Exige, porém, bastante trabalho. Supõe um terreno inteiramente limpo, bem regular e plano. Note-se o costume de se apascentar nele as ovelhas e cordeirinhos para manter a grama bem aparada. E assim o Cordeiro de Deus poderá apascentar pelo terreno do nosso coração e manter sempre aparada a nossa grama. Ela não pode crescer. Flores são respeitadas, mas relva deve ser pisada. Quanto mais baixa tanto mais linda. Assim não vira capim seco, mas sempre permanece verde e macia.
            Na morte está escondida a vida. A grama é o símbolo da humildade. Sempre baixa, submissa, pisada. Não é bom religioso quem faz valer os seus direitos. Seria contradição. O símbolo do verdadeiro religioso é esse gramado. Frequentemente a foice ou a máquina passam por cima dele para aparar as pontas, que a seguir são recolhidas e tiradas. É preciso que esteja sempre aplainado.
            Flor nenhuma pode interromper-lhe a planura. Uma só é aí tolerada, sem ofender a vista, pois se confunde com a relva: é a margaridinha-rasteira[18]. É imagem da Virgem Maria, que se abre e fecha ao Sol Eterno: simboliza principalmente o seu "Ecce ancilla Domini!" Este símbolo dá à nossa humildade, que é representada pela grama, novo sentido e novo vigor. Ser humildes com a Virgem Maria na sua submissão à divina Vontade.
            A margaridinha é cortada e pisada juntamente com a grama. Identifica-se com ela. Torna, porém, a erguer sempre a sua cabecinha com a sua flor linda e viçosa. Tem muita semelhança com o girassol. Abre-se também ao sol e se fecha à hora do poente. Sinal de como devemos estar disponíveis para receber o Hóspede Divino. O fundamento será a humildade, que é a raiz de todas as virtudes. Na humildade Maria Santíssima é o nosso modelo.
            Considera a Filha do Rei na simplicidade da sua vida em Nazaré, escolhida para ser a Mãe de Deus. A humildade não rebai-xa, mas, pelo contrário, dá verdadeira grandeza, reduzindo tudo às suas verdadeiras dimensões, onde Deus é o Senhor de tudo, pois é na sujeição a Ele que se alcança o supremo ideal e o penhor da mais alta glória. "Quem se humilha será exaltado". "Reputavimus illos humiliatos, et ecce sunt inter filios Dei"[19].
 6º Dia: A Obediência- Símbolo: As Trepadeiras
             A fim de deixar mais belo o aspecto do nosso jardim, erguemos ao lado sul um caramanchão, uma pérgula coberta de plantas e flores, trepadeiras que se estendem por todos os lados, entre elas principalmente a mais bela: o "lathyrus" das mais variegadas cores[20]. São o símbolo da obediência. Estas plantas, por mais belas que sejam, não se desenvolvem sozinhas, mas precisam de um sustentáculo e seguem pela direção, que lhes quisermos dar. Se lhes vier a faltar esta orientação, rastejam pela terra e se expõem a serem pisadas. Quando bem dirigidas, constituem autêntico ornamento para o jardim. Quanto mais alto se elevarem, tanto mais sobressairão a sua beleza e encanto. Deixam-se atar e dirigir à vontade e crescem onde quer que haja sol.
            O próprio muro já é símbolo da reclusão do claustro, da necessidade de manter-se dentro dele. Que haveríamos de procurar fora dele? Como tomar de volta algo do sacrifício, que fizemos quando nos dedicamos inteiramente ao serviço de Deus? Nós o fizemos sem limites nem restrições. Infelizmente alguns se esquecem da generosidade inicial. Que força e que vitalidade se escondem numa Ordem ou Congregação, quando todos estão prontos para tudo! A união faz a força.
            Que ordem perfeita reina no universo! Todas as criaturas servem umas às outras. Uma coisa existe em função da outra. Depois de um período de independência e de egoísmo meramente individualista, acentua-se de novo a interdependência mútua. Nela reside a grande força da vida religiosa: todos a serviço do grande ideal que a todos une. Tal união, porém, deve manifestar-se nas coisas corriqueiras de cada dia.
            O jardineiro percorre diariamente o jardim, para examinar e amarrar as suas plantas. Se nisto for negligente, desaparece em pouco tempo a beleza. E há as flores destinadas a serem cortadas e colocadas em vasos. Duram pouco. Aparentemente é uma pena colhê-las, mas o que o jardineiro tem em mira é ostentar a beleza delas. Quando as corta, outras logo aparecem.
            A obediência pode, por vezes, tirar de nós a honra resultante do nosso trabalho: outros ficarão com ela. Nem sequer nos agradecem pelo serviço prestado. Ninguém o enxerga. Ninguém o aprecia. Assim nas trepadeiras muitas estão ocultas, ainda que às vezes apareçam mais tarde. Crescem e desenvolvem-se de modo caprichoso e esquisito, de maneira que as flores nem podem ser cortadas. Mas a beleza está no conjunto. Qual a cor ou a flor mais bela? Ninguém o sabe. Ninguém pergunta por isso.
            O que faz a beleza é exatamente a variedade de matizes, a combinação das várias cores. É o que se dá com o trabalho imposto pela obediência. Importante é o trabalho do porteiro e do cozinheiro; é importante que a casa esteja limpa e é importante o ensino ministrado nas escolas. Qual dentre eles é o mais importante? Tudo é necessário. "Oportet hæc facere et illa non omittere"[21].
            A comparação do corpo humano aplicada à Igreja: "non omnes prophetæ etc."[22] Na vida religiosa se dá o mesmo. A comunidade é como que um corpo místico: Cristo é a Cabeça e nós somos os membros. Uns se revezam com os outros; uns se compadecem dos outros; completam-se mutuamente. Cada qual está contente no lugar que lhe foi indicado. Ninguém mais infeliz do que o religioso descontente. O prazer do mundo não lhe é dado, e a felicidade do convento é por ele rejeitada. (A obediência) é a primeira virtude, condição para todas as outras. "Virtus quæ cæteras inserit insertasque custodit"[23], dizem as nossas Constituições
            As trepadeiras amarradas e guiadas fazem-nos pensar em Nosso Senhor pregado na Cruz, pendente de três cravos. As flores, qua na trepadeira desabrocham por toda parte, indicam as feridas espalhadas por todo o divino Corpo chagado. "Factus pro nobis oboediens usque ad mortem, mortem autem crucis"[24]. Eis o nosso modelo de obediência. As trepadeiras do nosso jardim são apenas símbolos.
Resumo: "Si quis diligit Me, tollat crucem suam et sequatur Me". "Oboediens usque ad mortem"[25].
Modelo: Jesus Crucificado.
Símbolo: As trepadeiras.
 7º Dia: Renúncia e pobreza -  Símbolo: Árvores caducifólias
          Duas coisas estão faltando em nosso jardim. No gramado plantaremos árvores, e à sua sombra há lugar para uma fonte. Na frescura benfazeja, junto ao repuxo, nós nos sentamos para nos deliciarmos com a beleza das plantas e das flores, do céu e da luz; em horas determinadas tiramos água da fonte para regarmos abundantemente as plantas, que do contrário haveriam de secar.
            Hoje plantaremos um alameda de árvores frutíferas em forma de "M", ou melhor, já as encontramos plantadas pela mão de Deus e, como a figueira do Evangelho, frondosas, cheias de folhagem.
            Que significam essas árvores no jardim? Nos simbolismos da literatura mística, encontramos árvores com o seu tronco alto e liso, que no outono perdem as folhas e durante todo o inverno estão aí despidas e vazias, como símbolo da renúncia e da pobreza. Para simbolizar melhor estas virtudes escolhemos uma alameda de árvores frutíferas. Delgado broto perfura a crosta da terra e vai crescendo, elevando-se cada vez mais. Assim também nós devemos desprender-nos da terra e renunciar a tudo o que possa deter a nossa marcha. Estamos na terra e no mundo, é verdade, mas "conversatio nostra in cælis est". "Ubi est thesaurus tuus, ibi et cor tuum erit"[26].
            Este tesouro não se encontra na terra. A árvore aponta para o alto. A árvore é bela pela folhagem que ostenta, mas esta mesma folhagem é passageira. Revezam-se as estações do ano. Durante todo o inverno a árvore está aí despida, nua: símbolo da pobreza.
            Sob muitos aspectos nada nos falta. "Nihil habentes, et omnia possidentes"[27]. Vez por outra, porém, sentimos os efeitos da pobreza. Somos obrigados a pedir. Às vezes nos negam, podem negar-nos alguma coisa. Gostaríamos de ter isto ou aquilo. Não podemos ter só para nós: tudo nos é comum.
            "Reliquimus omnia"[28]. Que era este "omnia"? Talvez bem pouco, talvez muito. De qualquer maneira pouco, em comparação com aquilo que Ele nos dá em troca: "Centuplum accipietis"[29]. E a vida eterna.
            Que generosidade no dia da Profissão! E agora?! A que coisas nos apegamos tantas vezes? A bagatelas, a coisas insignificantes. Talvez, por ora, nada nos falte, mas a situação pode mudar. Podem vir dias maus. No entanto não devemos preocupar-nos. "Martha, Martha, turbaris erga plurima!"[30] A inveja e o descontentamento tão comuns no mundo por vezes penetram também no convento. Pobres mundanos! Não são infelizes aqueles a quem falta alguma coisa, mas sim os descontentes.
            Outra forma (de incoerência): repugnância por trabalhos que devem ser feitos, que alguns, porém, consideram abaixo da sua dignidade. Querem ser "grandes senhores" na casa religiosa, ainda que vestidos de pobre. Fariseus! Veste de pobre naquele que não ama a pobreza!... Um perigo muito atual é certamente o apego ao conforto, o gosto por uma série de coisas desnecessárias. Procuramos encobrir este comodismo com a capa do asseio, da ordem, da técnica. Mas no fundo não passa de comodismo e apego ao luxo.
            A árvore que, por sua vez, é o símbolo do lenho da cruz, ostenta-se nua, despida de folhagem. "Super vestem Ejus miserunt sortem"[31]. Nada Lhe resta. Devemos ter verdadeiro entusiasmo pela pobreza. Quem, como São Francisco, a escolhe como sua esposa? O asseio pode andar junto com a maior simplicidade. Fazemos voto de pobreza e queremos ser "grandes senhores" mais do que convém. Somos capazes de escandalizar as pessoas do mundo. E, além do mais, tornamo-nos ridículos diante de Nosso Senhor, que recebeu o nosso voto de pobreza.
            Com Maria Santíssima estamos de pé debaixo da árvore da Cruz. Vede como se tornou pobre por nossa causa e como sacrifica por nós o seu maior tesouro. Maria foi pobre porque Jesus queria Mãe pobre. José foi pobre, porque Jesus queria passar por "Filho do Carpinteiro"[32]. E nós a procurar os ricos e tributar-lhes honra!... É justo que reconheçamos as classes sociais, mas em nosso coração o pobre não deve valer menos do que o rico. Os pobres pertencem à nossa espécie, mas nós não queremos ser do número deles. Olhai para a árvore na sua nudez. Vede como a sua força vital é toda interna. Devemos assim considerar os pobres: filhos prediletos de Deus.
            Aprendamos com a árvore as vicissitudes da vida, a caducidade das coisas terrenas. E contemplai como, a seu tempo, Deus torna a revesti-las de beleza e glória. Mais confiança. Nosso Senhor no-lo diz expressamente no Evangelho[33], e o exemplo dos Santos o confirma admiravelmente: não devemos preocupar-nos demasiadamente com as coisas da terra; devemos renunciar a tudo e confiar unicamente nEle. Mas, apesar de tudo, preocupamo-nos... "Marta, Marta!"
Resumo: Pobreza e desapego, virtudes indispensáveis para um  religioso. Sem essas virtudes não passa de um fariseu.
Modelo: A árvore da Cruz nua e despida.
Símbolo: E a árvore desfolhada é o seu símbolo eloqüente.
 8º Dia: Devoção à Eucaristia - Símbolo: A fonte
         No último dia antes da sua Morte, exclamava Jesus no Templo: "Si quis sitit, veniat ad Me et bibat, et de ventre ejus fluent aquæ vivæ"[34]. No jardim do nosso coração não pode faltar essa água viva. Do contrário, tudo haveria de secar. Essa água viva é o próprio Jesus. Todos os dia devemos pedir-lhe essa água viva. Ele no-la dará na Sagrada Comunhão, para a qual diariamente nos convida.
            A Sagrada Eucaristia é a fonte, que colocamos no centro do nosso jardim místico. Não só para gozarmos sempre da presença de Jesus, mas também para podermos haurir sempre a água viva, com que precisamos regar as plantas e flores. Jesus poderia sustentar a nossa vida de outra maneira, mas de fato a Sagrada Eucaristia é o penhor de que Ele nos sustenta. "Nisi comederitis Carnem Filii Hominis et biberitis ejus Sanguinem, non habebitis vitam in vobis"[35].
            Que felicidade podermos receber diariamente a Sagrada Comunhão! Mas tiramos dela realmente a força que nos sustenta? A água que nos faz viver a vida perfeita? E as plantas do nosso jardim? Estão realmente vivas? E dão flores? Todas as flores possíveis? Por que não dão? As nossas comunhões poderiam ser mais frutuosas, se melhor nos lembrássemos do nosso jardim. Já no dia seguinte poderíamos contar a Nosso Senhor como agora estão crescendo e florescendo melhor. Mas é que nos contentamos com pouco. Basta-nos que Jesus esteja conosco. Mas a sua presença deveria produzir frutos, fazer crescer as virtudes. Ele é o trigo dos eleitos, é o vinho que faz germinar almas virginais. E em nós? Sim. O Sacramento opera "ex opere operato"[36], mas as disposições são de grande valor para os frutos.
            Durante oito dias estivemos trabalhando em nosso jardim; nele se encontram as plantas essenciais. Vamos comungar com a intenção de cultivar essas plantas. Com o Divino Jardineiro e Maria Santíssima visitemos o nosso jardim todos os dias. Maria é a fonte donde brotou para nós a Água Viva. Por seu intermédio recebemos a graça de Deus. Foi Ela quem colheu o primeiro e melhor fruto da morada do Hóspede Divino. Quem dera pudéssemos receber a Sagrada Comunhão da maneira que Ela, em Nazaré, recebeu em Si o Filho de Deus!  Pudéssemos fazer desabrochar em nós as virtudes que nEla floresceram pela graça de Deus! Espelhemos-nos muitas vezes neste sublime modelo, imitemos as suas virtudes, que devemos praticar como bons religiosos e bons filhos de Maria!
Resumo: A Sagrada Comunhão é a fonte, que nos fornece a   água viva, com que devemos regar o jardim do nosso coração.
Modelo: Maria Santíssima: receber Jesus como a Virgem    Santíssima O recebeu.
Símbolo: A fonte ou chafariz.



    [1]. "Está seco o cimo do Carmelo (Am 1,2)"
    [2].  Citação de cor. "Tu autem cum jejunas, unge caput tuum (...)" (Mt 6,17). = "Quando fizeres o teu jejum perfuma com óleo a tua cabeça"
    [3].  "Nos céus, porém, está a nossa cidadania" (Fl 3,20).
    [4].  cf. Ex 15,2
    [5].  "Estou junto à porta e estou batendo" (Ap 3,20).
    [6].  "Aqui habitarei, porque foi a ela que Eu escolhi" (Sl 131 [132],14).
    [7].  Helianthus annuus  
    [8].  "Eu vos dei o exemplo" (Jo 13,15)
    [9].  Mt 25,40
    [10]. Lc 12,49
    [11].  "É preciso que Ele cresça, que eu, porém, diminua" (Jo 3,30)      
    [12]   Cita de cor. "Sed quicumque voluerit inter vos major fieri, sit vester minister" (Mt 20,26) = "Quem quer, porém, que desejar no meio de vós tornar-se o maior, seja o vosso servidor". 
    [13].  "Padecer e ser desprezado por amor de Ti"
    [14].  "Se não vos tornardes como os pequeninos" (Mt 18,3)
    [15].  "A ti basta a minha graça" (2Cor 12,9). 
    [16].  "Vinum germinans virgines"
    [17].  "Eis que o Esposo vem chegando! Saí vós ao encontro dEle!" (Mt 25,6)
    [18]. "Bellis perennis"  nome científico
    [19]. Citação de cor. São dois trechos: 1º "Et nos putavimus eum quasi leprosum, et percussum a Deo, et humiliatum" (Is 53,4). 2º "Ecce quomodo computati sunt inter filios Dei, et inter Sanctos sors illorum est" Sb 5,5.
    [20].  A ervilha-de-cheiro (Lathyrus odoratus)
    [21].  "Estas coisas era necessário praticar e não omitir aquelas outras" (Mt 23,23; Lc 11,42).     
    [22].  "Numquid omnes apostoli? Omnes prophetæ?" Por acaso todos são apóstolos? Todos são profetas?" (1Cor 12,29)    
    [23].  "Virtude que insere as outras virtudes e guarda aquelas que  inseriu"
    [24].  "Fazendo-se por nosso amor obediente até à morte, e morte de cruz" (Fl 2,8).  
    [25].  "Se alguém me ama, tome a sua cruz e siga-me" (Mt 16,24; Mc 8,34; Lc 9,23). "Obediente até à morte" (Fl 2,8). 
    [26].  De cor. "Nostra autem conversatio in cælis est" (Fl 3,20). = "A nossa cidadania é nos céus". "Ubi enim est thesaurus tuus, ibi est et cor tuum" (Mt 6,21). = "Onde está o teu tesouro aí também está o teu coração".   
    [27].  "(...) não tendo nada e tudo possuindo" (2Cor 6,10)
    [28].  "Deixamos tudo" (Mt 19, 27).
    [29].  De cor. "Centuplum accipiet" (Mt 19,29) = "Receberá o cêntuplo"
    [30].  "Martha, Martha, sollicita es, et turbaris erga plurima!" (Lc 10.47) = "Marta, Marta, estás preocupada e te perturbas com muitíssimas coisas!"
    [31].  "et super vestem meam miserunt sortem" (Sl 21 [22], 19). = "E sobre a minha veste lançaram a sorte".
    [32].  cf. Mt 13,55
    [33].  cf. Mt 6,25-34: O Evangelho da Divina Providência
    [34].  De cor; e foi bem antes da sua Morte, na Festa dos Tabernáculos ou das Cabanas, no último grande dia da Festa: "Si quis sitit, veniat ad Me et bibat. Qui credit in Me, sicut dicit Scriptura, flumina de ventre ejus fluent aquæ vivæ" (Jo 7,37-38). = "Se alguém tem sede, venha até Mim e beba. Quem tem fé em Mim, torrentes de água viva jorrarão do seu seio".
    [35]. De cor. "Nisi manducaveritis carnem Filii hominis, et biberitis ejus sanguinem, non habebitis vitam in vobis" Jo 6,54. = "Se não comerdes a Carne do Filho do Homem e não beberdes do seu Sangue, não tereis a vida em vós".
    [36].  Pela sua própria força, desde que não encontre obstáculo