Total de visualizações de página

Seguidores

A Palavra do Frei Petrônio

Loading...

quinta-feira, 27 de junho de 2013

E as manifestações nas ruas? (I e II)

Paulo Reims

         No início da semana passada, dia 17 de junho, escrevi sobre o assunto, e o partilhei no dia seguinte. Até este momento estava alegre com as manifestações nas ruas, apesar da preocupação com a violência, até então por iniciativa dos policiais, a mando do governo do Estado de São Paulo. Aliás, este foi o motivo principal a aumentar o número de manifestantes. Os dias foram se sucedendo, e minha alegria foi tomada por um misto de tristeza. Por quê?

Procurei acompanhar as manifestações bem de perto. Estava contente porque o povo estava despertando, e triste porque percebi que a maioria, sem se dar muita conta, após longos anos, acordou com cataratas, que deixam a visão muito embaçada. Como assim? Vamos recordar. No início, a reivindicação era a revogação do aumento das tarifas do transporte coletivo. A iniciativa foi do Movimento Passe Livre (MPL). A seguir, as manifestações foram tomando proporções maiores em número de pessoas, cidades, dentro e fora do país, e com uma pauta de reivindicações que aumentava dia após dia.

Dizia para mim mesmo: o MPL não está conseguindo coordenar as manifestações, e concluí que havia infiltrações de todo tipo, pessoas violentas, bandidos, saqueadores, depredadores. Mas, como ventilei no artigo da semana passada, havia infiltração truculenta e mascarada da direita burguesa, detentora do poder econômico, político que, por sua vez, é senhora, também, do Partido da Imprensa Golpista (PIG). Desta forma começou a conduzir o processo –dando a pauta das manifestações e provavelmente infiltrando alguns depredadores– o que poderia levar a um golpe, como aconteceu com as manifestações nas ruas em 1964. A direita quer o progresso, mas somente para os seus pares. Foi assim, inculcando terror na massa, que conseguiu fazer morrer na casca as reformas sociais incipientes do governo de João Goulart, e aumentar seus patrimônios.

Como faz falta a filosofia na escola, em todos os níveis e cursos! Creio que é a principal causa das cataratas nos olhos da massa, pois assim é manobrada com facilidade. Mas, então, você quer dizer que as manifestações não foram oportunas? Não é isso. Elas exerceram um papel importante ao fazer as "autoridades” despertarem, em todos os sentidos, também o da iminência de um golpe. Sacudiram as folhas secas para caírem e se transformarem em adubo, energia para uma retomada mais vigorosa do processo de transformação social, que tenha como escopo o bem comum, e não o acúmulo para aqueles que já têm demais.

Quando digo que o Brasil acordou com cataratas nos olhos, o faço pela parcialidade das manifestações. Como assim? Por acaso alguém viu um cartaz, faixa ou palavra de ordem contra o Judiciário, eivado de irregularidades, algumas clamorosas, como por exemplo: a venda de sentenças, viagens internacionais da esposas dos ministros do STF com dinheiro público, parcialidade nos julgamentos dos mensalões - até agora o processo contra o mensalão do PSDB está engavetado, sendo que é anterior ao do PT - , toda a privataria tucana, especialmente a da Vale do Rio Doce, e por aí...? Alguém viu uma palavra contra o Congresso Nacional, o mais bem pago do mundo, depois dos USA, e que continua agregando mordomias, com uma população tão pobre, uma das nações com a maior desigualdade social do mundo, apesar dos avanços dos últimos dez anos, não podemos negar? Nem os parlamentares da oposição se manifestam contra estas regalias e privilégios; com seus "bolsos” abarrotados eles silenciam, mesmo a custa do suor e do sangue dos verdadeiros trabalhadores que fazem o progresso deste país. Fora a manifestação contra as PECs 33 e 37, nada mais. Aliás, a PEC 37, quase por unanimidade, acabou de ser derrubada.

Ontem, dia 24 de junho, um senador do DEM foi contra a Presidente Dilma que, entre outras propostas concretas, anunciou a convocação de um plebiscito para uma constituinte exclusiva para fazer a reforma política, desde que o Congresso Nacional a aprove. Ele se pavoneou em dono da verdade, dizendo que isto é prerrogativa do Congresso Nacional. Igualmente, hoje, dia 25 de junho, Aécio Neves não perdeu tempo em também aparecer dizendo que as propostas da Presidente Dilma são uma afronta às reivindicações do povo nas ruas. Feliz mesmo foi o Presidente da OAB que falou da necessidade de se ouvir o povo, mas não criar uma constituinte, pois iria atrasar ainda mais o processo da reforma política. Admirável assessoria esta. E é isto que vai prevalecer.

Mas as saídas da oposição refletem que, na verdade, a voz do povo é um detalhe. Por que a Presidenta não pode propor uma constituinte através da escuta do povo? Qualquer cidadão pode fazer propostas que sejam do interesse da coletividade, e os parlamentares, se representam o povo, devem acolhê-las. A impressão que os membros da oposição passam, com suas reações, é a de que o povo é somente um detalhe que interessa na hora de lhes dar o voto.

Quero enaltecer o gesto da Presidenta Dilma por tal proposta, pois creio que a partir da reforma política, bem conduzida, muitas outras reformas de base poderão se suceder, se a direita fascista e a imprensa burguesa, assessorados pela CIA e outros mais, não derem o golpe. O MPL já percebeu esta intenção, tanto que avisou publicamente que saía das manifestações, uma vez que conseguiu o objetivo da sua luta: revogação do aumento das passagens do transporte coletivo.

E aqui uma vez mais se percebe que o Brasil acordou com cataratas nos olhos: onde estava a faixa solicitando do Congresso Nacional a regulamentação do artigo 14 da Constituição, para que tenhamos uma Democracia Participativa, ou seja, para que o povo seja sempre consultado a respeito dos assuntos importantes para a vida desta nação? Não encontrei nenhum cartaz contra a imprensa burguesa, e a favor da democratização e socialização da imprensa.

Realmente, as manifestações perderam sua originalidade na medida em que estão sendo parciais, permitindo, mesmo de forma incauta, a manipulação do terror da direita que quer voltar a tomar o poder para transformar nossos sonhos e ideais em pesadelos reais.

            Também não encontrei uma faixa que reivindicasse a reforma agrária, para diminuir a violência no campo e também a miséria...

Voltemos nosso olhar para aquilo que a imprensa vive chamando de primavera árabe. Com a desculpa de que queria ajudar estes povos a ter liberdade, a transformaram em rigoroso inverno. Um exemplo, a título de recordação: a Líbia tinha todos os seus jovens nas universidades. Hoje a Líbia virou ruína e miséria. É o que o Tio Sam e seus aliados sabem fazer. Os poderios econômico e bélico deles crescem e a miséria e o sofrimento dos países invadidos e subjugados também crescem assustadoramente. Quem será a próxima vítima?

Não estou afirmando que neste governo não existem problemas. Eles estão aí, são sérios e precisam ser enfrentados com vigor. A corrupção, infelizmente, é grande; desperdício de verbas também, a começar pela construção de algumas arenas que, após o mundial,terão pouco proveito; o orçamento para a transposição do Rio São Francisco já duplicou, e creio que não chegará ao fim, e se chegar será para satisfazer os donos do agronegócio; tem muita coisa errada sim. Porém, o atual senador Roberto Requião afirmou em uma entrevista à revista "Caros Amigos”, em 2005 –auge das denúncias do mensalão– "a gente não precisa nem de um roubômetro para avaliar; o FHC, com a privataria tucana, roubou 10.000 vezes mais do que qualquer possibilidade de desvio do governo Lula”. E que providências foram tomadas?

Concluo dizendo que precisamos cortar na própria carne, ou seja, precisamos fazer cirurgia para retirada de cataratas, para vermos melhor e agirmos de forma coerente e concreta.

Neste caso, proponho ao Congresso Nacional que tenha a coragem da Assembleia Nacional do Equador, que no dia 14 de junho pp, aprovou a sua Lei de Imprensa. Foram 108 votos a favor, 26 votos contra, certamente estes são os donos da imprensa de lá, e uma abstenção, ou seja, não sabe porque está lá. Realmente foi uma vitória popular. E aí, senhores senadores e deputados? Estão com medo de quem? Vocês representam o povo, ou os grupos econômicos que também são donos do PIG?

Precisamos urgentemente de uma Lei de Imprensa que venha favorecer a imprensa alternativa, para combater as mentiras com caras de verdades da imprensa burguesa e golpista.

Vamos lá, já, queremos enxergar melhor para sairmos às ruas com propostas concretas e sem parcialidade, pelo bem comum. Juntemo-nos aos movimentos sociais organizados, para não sermos manipulados pela direita fascista.

Este é o medo dos "poderosos” que tentam nos manter com cataratas, miopias, hipermetropia, astigmatismo...

E as manifestações nas ruas? (I)
Por Paulo Reims

          As manifestações tiveram início em São Paulo, a princípio contra o aumento das tarifas de transportes públicos. Mas, já se estendem por todo o país, com apoio no exterior, tendo várias reivindicações.

Jovens estudantes e trabalhadores, usando, também, a ferramenta das redes sociais, começam a despertar, sentindo o aperto no bolso.

O Movimento Passe Livre (MPL) já contagiou e agregou milhares de milhares por este país. Sinceramente, esta movimentação de pessoas despertando traz alegria e comprova que a esperança continua viva, apesar de uma multidão continuar em silêncio, induzida pela grande mídia, que também programa as mentes para o "delírio” durante as copas e carnavais, bem do jeito que os donos do poder apreciam.

E, de repente, se ouvem os adestrados do PIG anunciarem: "Manifestantes usam de violência e depredam patrimônios públicos e particulares”. Fiquei atento, e dizia para mim mesmo: Aí tem coisa! Certamente tem gente infiltrada para macular a imagem das manifestações e manipular a consciência dos incautos.

Depois veio à tona, pelos meios de comunicação alternativos, que havia policiais militares e civis, infiltrados à paisana, para dar início aos atos de vandalismo, a mando do governo estadual, justificando assim toda a violência do aparato militar, com bombas de efeito moral, tiros com balas de borracha, spray de pimenta, enfim, com toda truculência comparada à época da ditadura militar.

Pensei que fossem somente alguns da direita rançosa que estivessem infiltrados no meio da nossa juventude - que corre atrás do novo mundo possível - com o objetivo de distorcer os verdadeiros anseios juvenis, mas o velho chuchu também tentou produzir rebentos, dando ordens aos seus subordinados para que agissem com autoritarismo e violência.

           Realmente, as novas gerações que participaram e ou assistiram, no dia 13 de junho PP, toda a violência contra os manifestantes puderam ter uma ideia das repressões, torturas e mortes ocorridas durante os 21 anos de ditadura militar neste país, e uma multidão ficou atônita ao reviver a mesma realidade por algumas horas.

Toda esta truculência deve ser usada contra bandidos, mas quanto eu tenha conhecimento ali estava a juventude em busca dos seus ideais de vida, de dignidade.

Os bandidos estão em outras esferas. É nas esferas superiores que se encontram os baderneiros e vândalos do erário público. Quantas obras faraônicas, com desperdício de quantias astronômicas para satisfazer algumas pessoas e grupos inescrupulosos, em detrimento da quase totalidade do povo que tem que viver a duras penas.

Interessante é perceber a capacidade de se camuflar de alguns personagens que nos dias passados se apresentavam como ditadores. De repente, pareciam pessoas amistosas; e sobraram convites para o diálogo e negociações, vendo as manifestações tomarem grandes proporções.

Ficou muito feia a fotografia de várias autoridades deste país. Mas as imagens dos manifestantes, com algumas exceções, continuam repercutindo muito bem. É isso mesmo: "Sonho que se sonha junto é início de uma nova realidade”.

quarta-feira, 26 de junho de 2013

BAHIA: Os Protestos chegam ao sertão

A PALAVRA DO FREI PETRÔNIO, Nº 358. Caridade X Religião.

O desafio do jornalismo crítico numa democracia comprometida

Lúcio Flávio Pinto

 Entrevista do jornalista paraense Lúcio Flávio Pinto aos alunos de jornalismo da Unesp (Universidade do Estado de São Paulo) de Bauru.

Recentemente, um ranking sobre o nível de liberdade de imprensa nos países foi divulgado e o Brasil ficou em uma posição bem ruim por conta do alto número de assassinatos de jornalistas, da constante influência empresarial e política no ramo e de ações sociais contra blogueiros e sites. O que você acha que pode mudar essa situação?

É uma situação grave e paradoxal. Esta é a mais longa democracia que já tivemos na república brasileira. Graças a essa longevidade (para o liliputiano padrão brasileiro de democracia), começam a surgir instituições e outras se fortalecem. No entanto, há menos liberdade de crítica e mesmo de informação. Várias das instituições em vigor, sobretudo as que deviam ser os esteios da sociedade, com destaque para o judiciário e o executivo, se mostram refratárias à fiscalização e ao controle social. Quem ficar acima e fora do alcance das representações menos institucionais da sociedade, como a imprensa.

Claro que não existe "uma” ou "a” imprensa. Há uma variedade enorme de entes individuais sob esse conceito. Mesmo as piores, no entanto, são vitais para a democracia. Todos devem poder se expressar, sobretudo quando dirigem suas baterias na direção do poder institucionalizado. E as chamadas autoridades, de que natureza ou formato sejam, devem reagir com a verdade, ou contribuir para a sua busca. Mas geralmente reagem com intolerância, abusando do próprio poder.

O judiciário, como autor ou instrumento da repressão à liberdade, tem tipo papel destacado. Daí haver tantos processos contra jornalistas e outros personagens que manifestam crítica e opinião. Levada ao extremo, essa reação resulta em atentados contra a integridade e a vida por dito crime de opinião. O Brasil enriquece, mas a liberdade tem sido empobrecida.

Em 2005, você foi premiado com o Internacional Press Freedom Award pela defesa da liberdade de imprensa. Acredita que no Brasil ainda sofremos muito com esse tipo de censura?

A censura tem remotas raízes no Brasil. É um valor muito mais cultuado do que a liberdade. Quando se compara com a evolução histórica de um país que se constitui ao mesmo tempo, como os Estados Unidos, é um contraste brutal. A imprensa surgiu no novo continente, das Américas, um século antes de colocar os seus pés no Brasil. E quando surgiu já encontrou postada a junta de censura do império português, que tentava impedir a independência da sua colônia americana. O primeiro jornal teve que circular fora do país, em Londres, em 1808, quando a imprensa já estava estabelecida na parte hispânica e anglo-saxônica das Américas.

Assim, tanto a sociedade quanto o poder são sempre tentados a cercear a liberdade de expressão. Ou pela intervenção política direta das ditaduras ou pela coação pessoal, psicológica, sem falar no instrumento mais eficaz: a compra. É esse instrumento que age agora, na nossa longeva democracia, depois de duas décadas de ditadura. A autocensura é o fato mais destacado e perigoso dos nossos dias. Não só as empresas se automutilam para servir aos seus interesses. Os jornalistas também se colocam a mordaça – e às vezes sem ordem patronal ou coação externa. É porque muitos jornalistas também se tornaram extensões do poder coercitivo, cúmplices da manipulação da opinião pública.

 Após deixar a grande imprensa e começar a trabalhar no Jornal Pessoal, você acredita que conquistou uma maior liberdade para se expressar e divulgar suas opiniões e ideias?

Sem dúvida. Adotei o menor formato possível que qualquer publicação podia ter para se viabilizar com plena liberdade. Escrevo todo o jornal, tenho apenas a participação do meu irmão na edição e ilustração, mais a gráfica para imprimir e uma agência para distribuir os exemplares. Não há custo menor. Não uso cores nem fotos. Assim, pude dispensar a receita da publicidade, para isso aceitando ser pequeno e pobre. Mas há o lado ruim dessa opção: não tenho capital para bancar viagens e outras despesas.

Mais do que nunca, a informação custa caro. É uma ilusão infantil achar que ela está toda na rede mundial de computadores. Há informações que só se obtém indo aos locais onde os fatores acontecem e conversando com os personagens dos fatos, que, evidentemente, não caem dos céus como maná semiológico. Esta mobilidade e capacidade de penetração o meu jornal não tem.

Como eu já estava havia 21 anos no jornalismo profissional quando comecei o Jornal Pessoal, depois de atuar em algumas das principais empresas jornalísticas do Brasil, uso esse capital até hoje para suprir minhas deficiências. O que me surpreende – e me entristece – é que mesmo sendo um anão empresarial, consigo dar informações que jamais aparecem na grande imprensa.

Você já sofreu algum tipo de censura em relação ao seu trabalho? Se sim, como isso se deu?

Muitas e distintas, na ditadura e na democracia. Mas reagi a todas. Pedi demissão três vezes de grandes empresas jornalísticas por não concordar com a censura. Tive que fazer isso porque, apenas dois meses depois de ter ingressado no jornalismo, em 1966, consegui meu primeiro espaço de opinião. Era uma coluna cultural chamada "De gente, fatos e livros”. Às vezes tive de negociar a publicação de algum artigo que a direção da empresa não queria publicar. Quando houve intolerância, pedi o boné.

Nunca aceitei a censura como uma ordem. Ela pode ser uma condição, que não temos o direito de ignorar. Se existe, é por resultar de um ato de força, que pode estar disfarçado e ser sutil. Temos que reagir à sua origem. Com meu Jornal Pessoal deixou de haver censura. Nem mesmo a subconsciente, dentro de mim. Pago caro, mas gozo de plena liberdade, como nubca tivce.

Já presenciou algum tipo de censura? No local de trabalho ou com colegas da área?

Sou de uma geração que conviveu com a censura, sobretudo a que veio com fúria depois do AI-5, no final de 1968, o "ano que não terminou”. A única vantagem desse relacionamento é que sabíamos perfeitamente quem era o inimigo: era aquela pessoa mandada para a redação com a missão de mutilar o trabalho dos profissionais da imprensa. Fazíamos o que podíamos para resistir e nos contrapormos a esse personagem, Hoje o jornalismo está ao nosso lado e pode ser um de nós.

Você foi professor visitante em várias universidades. Como você vê o assunto ‘liberdade de imprensa’ sendo tratado nas instituições de ensino? Acredita que esse é o modo correto de tal assunto ser abordado?

Há um grande preconceito acadêmico contra o jornalismo. Inclusive nos cursos de comunicação social. Há um tipo de acadêmico que não considera o jornalismo como fonte de referência confiável. É difícil encontrar fontes jornalísticas na bibliografia das dissertações e teses universitárias. Em parte, a restrição procede. Muitos jornalistas não são rigorosos na apuração dos fatos e poucos utilizam métodos de observação científicos. Mas o jornalismo de linha de frente, que está nos acontecimentos quando os canhões ainda estão quentes, de fato ou metaforicamente falando, esse é imprescindível nos nossos dias de vida digital e virtual. Mesmo assim, os acadêmicos viram os olhos dessa fonte. E muitos encaram a imprensa com preconceitos e dogmas. Acham a imprensa nada mais do que arauto do poder estabelecido. É uma visão esquerdista, no sentido daquela doença ideológica apontada por Lênin (antes de também se sujeitar a ela).

Acredita que com a internet e o maior número de meios para divulgar artigos e trabalhos a liberdade de imprensa possa ser, vamos dizer, ‘mais praticada’?

De fato há incomparavelmente mais liberdade, mas a taxa de eficiência dessa liberdade é espantosamente baixa. O caldo dessa cultura é engrossado por opinião em cima de opinião. A internet é o paraíso do "achismo”, praticado por donos da verdade capazes de qualquer juízo de valor, mas pouco propensos a demonstrá-lo. O mundo digital, prometendo o paraíso. É um doce desvio para o inferno.

Você acha que as leis deveriam proteger melhor os jornalistas ao exercerem sua liberdade de imprensa?

Fiel às remotas origens autoritárias da vida coletiva no Brasil, o legislador sempre está mais preocupado em cercear a imprensa do que em liberá-las das amarras e condicionantes do poder. Voltando ao paralelo com os EUA: terminada a constituição americana, Jefferson se voltou ao texto enxuto e adicionou-lhe a primeira das duas dezenas que ele viria a ter nos dois séculos e meio seguintes. Foi para não deixar dúvida que os pais fundadores da pátria consideravam a imprensa mais importante do que o governo. A imprensa traduz melhor a sociedade do que o governo. É mais porosa e permeável, a despeito de todos os seus vícios e defeitos. Graças a ela, o New York Times pode publicar os documentos secretos do Pentágono sobre a guerra no sudeste asiático e o Washington Post seguiu na apuração do escândalo de Watergate, num momento em que o presidente Nixon queria mandar cortar os seios de Katharina Graham, a dona do jornal.

Os casos de assassinatos mais recentes ocorreram em anos eleitorais. Você acredita que isso é apenas uma coincidência?

Os casos mais recentes de assassinato estão acontecendo durante o ano inteiro. Pode haver maior incremento em eleições de assassinatos políticos, que incluem a imprensa. Mas é um incremento sazonal típico. Há outros no curso do exercício de sangue de todos os anos. A expansão do homicídio é a contrafação do enriquecimento abusivo de certos setores sociais do país, um dos mais injustos do planeta.

Por fim, qual a sua opinião sobre a liberdade de imprensa no Brasil?

Continua a ser principalmente a do dono, seja o dono da empresa jornalística como daquele que pode comprá-lo e aos demais. A liberdade passou a ser uma commodity de mercado.