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A Palavra do Frei Petrônio

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quinta-feira, 16 de maio de 2013

A PALAVRA DO FREI PETRÔNIO, Nº 327. São Simão Stock, Carmelita.

Um coração preocupado: O Trágico na vida e os sofrimentos da humanidade.

John Welch, O. Carm

Whitefriars Hall , Washington

          Uma dos aspectos que tornam atraente a tradição carmelitana é sua luta honesta com os problemas e as forças obscuras que atacam o corpo e o espírito. O Carmelo não evita o trágico na vida, mas o enfrenta diretamente. O sofrimento é uma grande parte da experiência do povo, e uma espiritualidade que não reconheça o sofrimento será ignorada. Os santos do Carmelo compartilham as dificuldades da vida .
Edith Stein e Tito Brandsma experimentaram a profundidade da crueldade humana e do mal inexplicável. Teresa de Lisieux em sua curta e escondida vida experimentou uma grande quantidade de sofrimento. Teresa de Lisieux conheceu o sofrimento produzido pela luta  tanto  no interior  como no exterior  de sua alma. A forte reputação de João da Cruz, seu mesmo nome, e sua imagem da “noite escura” falam de uma espiritualidade que leva a sério assumir um compromisso com o lado obscuro da vida. Pensemos também nos primeiros carmelitas que foram à periferia da sociedade e aí , sem distrações, abriram suas vidas à luta interior entre os bons e os maus espíritos.
As pessoas se sentem atraídas para uma espiritualidade que encontra palavras para seus sofrimentos mais profundos, e ao mesmo tempo oferece  uma esperança  ao coração  nestes tempos escuros. Os santos do Carmelo, nos diferentes séculos e culturas, compartilharam os sofrimentos comuns da humanidade. Um peregrino de qualquer época pode relacionar-se com os sofrimentos dos santos  do Carmelo e desejar tê-los como companheiros de caminho neste vale de sofrimentos. É bom voltar a recordar suas dificuldades.
Por exemplo, hoje em dia muitas pessoas podem identificar-se com os problemas de Teresa de Lisieux. Quando menina experimentou, não somente a perda de sua mãe, mas também a perda das seguintes mães que cuidaram dela.  Frágil continuou e  conheceu o sofrimento  da neuroses e a debilitação causada  pelas doenças psicossomáticas. Observou impotente a deteriorização mental de seu pai, uma figura heróica em sua vida, e seu internamento num asilo. O Carmelo foi para ela como um deserto e em sua última  doença mental e física, conheceu  a tentação do suicídio. Sua aparência doce nunca enganou aos devotos  de Teresa.  Reconheciam nela uma companheira de sofrimentos  que sabia por experiência o difícil que pode ser a vida.  No entanto, deu testemunho do amor que estava presente em tudo  e nunca a abandona.
Teresa expressou seu desejo de toda  vida: sofrer.  Sentia uma atração tão misteriosa pelo sofrimento que se não o tivesse relacionado  com o amor, seria suspeito. Desde que entrou no Carmelo, Teresa começou a experimentar secura no coração e permaneceu  nesta condição através do resto do breve tempo que esteve ali. E, assombrosamente, sua autobiografia com seu atraente manuscrito “B” foi escrito  enquanto ela estava  passando por uma terrível  noite escura  do espírito  e quando tudo estava em dúvida.  A idéia  do céu  que tinha inspirado  toda sua vida  na qual acreditava e se afastava dela. Intelectual e afetivamente não tinha certeza  alguma em relação à direção de sua vida.  Ao mesmo tempo escrevia essa linda  passagem a respeito de ser o amor no coração da Igreja e enviava cartas inspiradoras a seus irmãos missionários.
          Teresa estava experimentando sua própria transformação no forno de um amor obscuro. O único que ficava era o centro de sua fé, sua confiança, seu amor.  Quando ela nos anima a confiar e a acreditar  que “tudo é graça” não o faz a partir de uma posição de deleites tangíveis da presença amorosa de Deus, mas a partir de sua experiência da ausência  de Deus  e das rejeições de sua mente.  O Cardeal Daneels se perguntava se Teresa  poderia  ser chamada a “Doutora da esperança”  devido a seu testemunho na possibilidade humana de continuar adiante quando todos os apoios desapareceram.
O amor obscuro de Deus 
Teresa de Ávila advertiu que as lutas dentro de nossos frágeis psiquismos são muito mais difíceis que as externas.  Teresa teve que vencer muitos obstáculos em sua reforma. Teve que lutar com os opositores, com a compra de casas adequadas para suas comunidades, contratar operários para reformá-las, arrecadar fundos para sua manutenção, recrutar  membros para a comunidade, relacionar-se com vários eclesiásticos que não a apoiavam, viajar pelos difíceis caminhos da Espanha em más condições e enfrentar algum litígio com a corte.
Não obstante, ela comunicou que estas batalhas não se comparam com as batalhas enfrentadas em sua alma, enquanto ela se ocupava de suas profundidades na oração. “...Escutar  Sua voz dá mais trabalho que não escutá-la”.  Pode parecer que a reflexão de Teresa  sobre o “entrar em si mesmo” seria como ir para casa; que as batalhas  de fora são uma coisa, mas dentro da alma tudo é harmonia.  Entretanto, foi o contrário,  pois ao entrar em seu interior, verificava que estava em guerra consigo mesma.
A oração lança luz sobre aspectos de nossa alma que anteriormente não tínhamos  examinado.  As compulsões, os apegos, as maneiras não autênticas de viver, o falso eu, e os falsos deuses, tudo sai à luz enquanto a pessoa vai se afinando mais na verdade. Esta desagradável experiência pode conduzir ao medo, à debilidade  do coração  e à tentação de abandonar o  itinerário  existencial. O chamada de Teresa à valentia e a determinação através  de uma vida  de oração  não é demasiadamente dramática.  Aquilo de que a alma necessita, escreveu Teresa, é do conhecimento de si mesma. E a porta  desse conhecimento  de si mesma,  a porta  ao interior  do castelo,  é a oração  e a reflexão.
Sem um esforço orante, nos manteremos desesperançosamente fechados na periferia de nossas vidas perguntando aos outros e à criação  o que somente  Deus  pode nos dizer, isto é, quem somos.  Sem um verdadeiro centro que emerja de nossas vidas, viveremos  com muitos  “centros”, fragmentados e dispersos, pedindo a cada um deles que realize os desejos do nosso coração.  O único antídoto contra a morte certa que decorre do apego aos ídolos, é a dolorosa  batalha que supõe entrar em si mesmo  através da oração.
Os leitores modernos podem simpatizar  com Teresa enquanto  ela enumera as dificuldades de sua vida  que são, ter sido elogiada demais, injustamente criticada, tendo além de tudo que sofrer as contradições de homens bons que pensavam que suas experiências de oração  vinham  do demônio  e diariamente  tinha que enfrentar-se a sua saúde precária.
           Porém sua experiência mais difícil surgiu justamente quando sua relação com o Senhor era mais íntima.  Ela começou a questionar todo seu itinerário existencial, perguntando se tudo não fora criado por sua imaginação,  ou, se era de fato a presença de Deus em sua vida. Teria  imaginado que Deus  tinha sido bom com ela no passado?  Ela própria tinha sido boa no passado ou tinha imaginado isso? Em outras palavras, quando se esperaria  que a amizade com Deus  fosse base  sólida, então  surgiram as dúvidas.  Há alguém em casa,  no centro?  Tendo entregado sua vida  e sua melhor energia ao seguimento dessa “chama” , ela começou a perguntar-se se tudo era ilusão.
 
A pergunta  também seria feita de outra maneira: O  final será todo bom?  Tudo isso: a criação, o plano da salvação, o próprio Deus, é para nós?  Ou somos uma paixão inútil? O imenso desejo  de nosso coração, a fome da alma, serão frustrados no final de tudo? Ou existe uma realidade, um amor do tamanho do nosso desejo? Todas estas perguntas estão no coração do peregrinar humano.
O tempo, a perseverança, e a graça de Deus, deram a Teresa a resposta às suas dúvidas. Mais tarde ela nos fala da ausência dessas dúvidas que lhe corroíam a alma, e da certeza de uma relação profunda, mas não preocupante com o Senhor.  Porém, ainda nessa condição que ela identifica com o “desponsório espiritual” diz que confia mais no sofrimento. Ainda nos momentos em que estava presa na periferia da vida, ela sabia  que o discípulo de Jesus  levaria a cruz e que através desta surgiria  a vida.  Ela não construía cruzes artificiais em sua vida,  mas também não fugia das cruzes que a vida lhe apresentava. Ela tinha aprendido  a confiar nesse, às vezes, obscuro amor de Deus.
Noites escuras
A metáfora da noite escura de João da Cruz nos lembra que a experiência de amor de Deus, não é sempre uma experiência pronta da união de toda criação. Na noite escura o amor de Deus se aproxima de uma maneira que parece negar-nos, parece que Deus está contra nós. Mas João afirma que nada no amor é escuro ou destrutivo, mas por causa da nossa necessidade de purificação,  é que experimentamos o amor como escuro.
João nos dá uma descrição convincente sobre os momentos da vida em que se desvanecem as consolações e orar é impossível. O desejo está ainda presente, mas se esgotou no esforço para  libertar-se dos ídolos.  O teólogo Karl Rahner comentou que todas as sinfonias da vida permanecem sem conclusão.  Em cada relação, em cada posse sempre haverá um momento em que surgirá a sensação de carência.  Esta frustração do desejo e a atração por algo mais além, é a inquietude que causa o contínuo convite de Deus para uma união mais profunda.
Quando os deuses morrem durante a noite, se eclipsa a personalidade. Carl Jung, o psicólogo, disse que não podia distinguir os símbolos dos deuses que representam o ser humano. Quando uma pessoa perde seu Deus-símbolo a personalidade começa a desintegrar-se. Esta afeição obscura permanece até que emerja um novo símbolo-Deus antigo.
O conselho que dá João da Cruz durante esta crise na vida é de muita ajuda.  Ele nos dá certeza  de que o amor de Deus está em algum lugar presente no meio dos restos da vida, mas que inicialmente não será experimentado como amor. João aconselha paciência, confiança e perseverança. Esta atividade amorosa de Deus nos liberta dos ídolos e restabelece a saúde de nossas almas. Os “deuses” morrem na noite e a alma necessita passar por um processo de sofrimento. O caminho incorreto seria solucionar ou curar esta condição  artificialmente, ou nega-la totalmente. João aconselha a enfrentar a condição, entrar nela com paciência, e ali onde o coração estiver lutando com mais força, ficar atentos à chegada do amor. João nos convida a uma “atenção amorosa” na escuridão; é tempo de ser um guardião na noite.  A contemplação é uma abertura ao amor transformante de Deus, especialmente quando Ele aparece disfarçado.
A intensa experiência que João chama a noite do espírito é simultaneamente uma forte experiência de nosso pecado, da finitude de nossa condição humana, e a sempre emergente transcendência de Deus. Enquanto se está nesta condição as palavras carecem de significado.  João escreve que é tempo de “moer o pó”. Tudo o que cada um pode fazer é realizar o próximo ato de amor que se apresente. No deserto o peregrino continua sua viagem existencial, apoiado numa verdadeira fé bíblica.  João está convencido de que somente no contexto desta fé purificada é pode acontecer a relação com Deus. Como aconteceu com Teresa de Lisieux que seu pensamento sobre o céu se desvaneceu, ao peregrino que já não possui o objeto de sua esperança, recorda que a esperança é aquilo que ainda não se possui.
Os escritos de João não se limitam ao sofrimento.  Sua poesia e seus comentários, foram escritos a partir do outro lado das lutas. A noite se converteu numa experiência iluminadora e num guia mais seguro que o dia.  A chama que uma vez doeu agora é cauterizada  e curada . E a ausência que o levou `a procura do Amado se revela como uma Presença compassiva  escondida  no seu desejo.
Uma nova espiritualidade      
          As testemunhas contemporâneas do Carmelo que testemunharam sua fé no meio de um sofrimento monstruoso, são as vítimas dos campos de concentração, Titus Brandsma e Edith Stein.  Brandsma resistiu à propaganda nazista e Stein se identificou com seu povo perseguido. Eles foram presos na poderosa corrente do mal social do Século 20. Na experiência de serem despojados de toda segurança e apoio, estes carmelitas deram testemunho de uma vida de fé, esperança e amor no meio das condições mais difíceis. No reconhecimento de seu testemunho a Igreja confirma a autenticidade de suas vidas e os coloca entre aqueles arriscaram tudo no seguimento de Cristo.  A regra do Carmelo conduz a várias  formas de ser discípulo, mas todas levam a abraçar a Cruz.
Os Gerais das duas Ordens Carmelitas nos chamam a uma ”nova espiritualidade” para complementar a “nova evangelização”. Esta nova espiritualidade surgirá do crescente conhecimento que o Carmelo vai tendo sobre a realidade mundial que as pessoas experimentam?  Enquanto o rosto do Carmelo vai mudando e entram  novos membros na ordem, especialmente vindos dos países mas povoados e pobres, a situação das massas empobrecidas do mundo chegarão às portas do primeiro mundo. A internacionalidade da ordem e o vinculo internacional da família carmelitana nos oferecem uma oportunidade única para escutar o Espírito nos diversos contextos, e esta escuta nos desafia a dar uma resposta.
João Paulo II ampliou a imagem da noite escura de João da Cruz para incluir os sofrimentos do mundo moderno:
Nossa época conheceu tempos de sofrimento que nos tem feito compreender melhor esta expressão e dar-lhe um certo caráter  coletivo.  Nossa época fala do silêncio ou da ausência de Deus. Conheceu tantas calamidades, tantos sofrimentos  infligidos  pelas guerras e por matanças de tantos seres inocentes. Usamos agora o termo noite escura   para todos os aspectos da vida e não somente par uma fase da viagem espiritual.  Recorremos à doutrina do santo como resposta a este mistério do sofrimento humano.
Faço referência específica ao mundo do sofrimento. Sofrimento físico, moral, espiritual, como as doenças, como as pragas da fome , a guerra, a injustiça , a solidão , a falta de sentido da vida, a fragilidade da existência humana, o doloroso conhecimento do pecado, a aparente ausência de Deus; são para o crente experiências purificadoras, às quais se podem chamar noite da fé .
A esta existência São João da Cruz deu o nome simbólico e evocador de noite  escura e se refere explicitamente à inquietante obcuridade do mistério da fé . Ele não tenta dar resposta ao terrível problema do sofrimento na ordem especulativa; mas à luz das Escrituras e da experiência descobre algo da maravilhosa  transformação que Deus efetua na escuridão, posto que, “...de modo tão sábio e formoso sabe ele tirar dos males bens;...” ( Cant. B 23: 5). Finalmente, nos dispomos a viver o mistério da morte e a ressurreição de Jesus em toda sua verdade..
Resumo
O Carmelo não tem resposta para o mistério do mal. Mas o Carmelo fez a experiência do  caminho difícil e oferece uma palavra de esperança para o peregrino que sofre. O sofrimento profundo e as experiências do trágico na vida fazem parte da caminhada de cada pessoa.  As limitações de nossa condição humana e as forças destrutivas presentes no mundo com freqüência atacam nossa fé. Apesar da evidência contraria, o Carmelo testemunha que o amor de Deus está sempre presente ainda nos restos de nossas vidas.
O Carmelo nos oferece uma análise particular e poderosa do impacto do amor de Deus no espírito e na personalidade humana. Convidando para uma relação mais profunda, ele desafia o peregrino a largar todos os apoios e a caminhar com confiança para o futuro de Deus.  O cristão com freqüência experimenta ataques tanto no espírito como na psique, enquanto vai desenvolvendo o ambiente divino.  O Carmelo oferece uma linguagem e umas imagens expressivas para estes sofrimentos, e é muito eloqüente ao recomendar uma vigília silenciosa para esperar a chegada de Deus.
Os santos do Carmelo confiaram no sofrimento e com freqüência expressaram seu desejo de levar a cruz em seu discipulado.  Entretanto, este desejo de sofrimento só tem significado no contexto de resposta amorosa às iniciativas do amor de Deus . O sofrimento de Jesus na Cruz nasceu do seu amor ao Pai e aos irmãos e não do amor ao sofrimento.
 Perguntas para refletir               
1-Qual tem sido minha experiência de caminhar pelo caminho escuro? Tenho deixado outros caminhos para ser conduzido por um caminho não escolhido por mim?  O quê  mais me ajudou?
2-Como devo proceder quando o caminho não está claro?
3-Que consolo ou orientação o Carmelo oferece às pessoas que vivem situações dolorosas?
4-Como a Ordem do Carmo responde à noite escura que sofre tanta gente no mundo? Poderia ser isto parte da nova espiritualidade a que nos chamam os Gerais de nossas Ordens?

O Escapulário do Carmo na vida dos Santos

SANTO AFONSO MARIA DE LIGUORI[1]
 
            A devoção a Maria é o perfume da nossa fé, é o sorriso celestial para as almas dos fiéis, é a música alegre para os nossos corações, é o palpitar mais querido da nossa vida cristã.
            Compreende-se, portanto, que o amor a Maria, graças à sua dignidade sublime de Mãe de Deus e à sua missão de Mãe dos homens, tenha em todos os tempos arrebatado os Santos. E assim existe uma fileira imponente de Santos Padres e Doutores - e vai crescendo um século depois do outro - que têm páginas admiráveis sobre Maria e nos ensinam a verdadeira devoção a Nossa Senhora.
            O grande Bispo e Doutor Santo Afonso Maria de' Liguori foi com certeza um dos Santos mais devotos de Maria. A santidade da Virgem, a sua pureza e beleza, a devoção cheia de ternura que nutria para com Ela fizeram-lhe brotar do coração o doce canto:
 
            Sois pura, sois pia,
            Sois  bela, ó Maria!
            Toda  alma  já sabe,
            Que  mãe assim terna
             No mundo não cabe.
 
            À "dulcíssima Senhora", à "sua caríssima Rainha" Santo Afonso nada mais pede que amá-la sempre mais e fazê-la amada por todos. "Ficai sabendo - escreve ele na súplica colocada no início do livro das suas GLÓRIAS - que desta minha pequena homenagem eu quero uma recompensa; e esta seja que de hoje em diante eu Vos ame mais do que antes e cada um, em cujas mãos chegar esta minha pequenina obra, fique inflamado de amor por Vós".
            Difundir a devoção a Maria, falar a seu respeito, cantar as suas glórias, celebrar as suas prerrogativas, tornar conhecida a ternura do seu amor e o seu poder junto ao trono de Deus, eram os anseios do nosso Santo. "É costume - dizia - dos amantes deste mundo falar muitas vezes sobre as prerrogativas das pessoas amadas e louvá-las, para verem assim o seu amor louvado e aplaudido também pelos outros. Muito medíocre, portanto, deve supor-se o amor daqueles que se gabam de amar a Virgem Maria e, no mais, pouco pensam em falar sobre Ela e fazê-la amada também pelos outros".
            "Não agem assim os que verdadeiramente amam esta amabilíssima Senhora; gostariam eles de louvá-la por toda parte, e vê-la amada pelo mundo inteiro, e, por isso, sempre que lhes é possível ou em público ou privadamente procuram acender nos corações de todos aquelas benditas chamas, pelas quais se sentem inflamados de amor para com a sua amada Rainha". (As Glórias de Maria).
            Manter-se-á sempre fiel a este programa, e da sua iluminada inteligência correrão rios de doutrina sobre a devoção a Maria, devoção que chama os pecadores à penitência e lhes aponta o caminho da salvação. "Todos os que se salvam - escreve ele no livro citado - não se salvam senão por intermédio desta divina Mãe; por necessária conseqüência pode dizer-se que da oração a Maria e da confiança na sua intercessão depende a salvação de todos".
            Santo Afonso associava às práticas interiores da devoção à Santíssima Virgem o exercício das práticas exteriores. O santo Doutor conhecia bem quanto as tradicionais práticas de piedade, sejam úteis, desde que sejam feitas da maneira devida, e assim via nelas outros tantos eficacíssimos meios para conquistar a proteção de Maria e tornar-se merecedor do seu santo amor. Nele já desde os primeiros anos foi muito cheia de carinho a devoção ao Rosário e ao Escapulário do Carmo. De fato ele escrevia no livro "As Glórias de Maria": «Devoções assim tão piedosas foram-me queridas desde a infância». Esta terna e sincera confissão brotou espontânea do seu coração amargurado pela leviandade de um escritor seu contemporâneo que tivera a ousadia de chamar "devoçõezinhas" estas práticas de piedade, que eram para ele um estímulo constante a recorrer à divina Mãe, a invocar o seu patrocínio a cada instante.
            Sempre ligou grande importância ao santo Escapulário: nele via um sinal de destinação ao serviço da celestial Rainha, um uniforme que distingue os prediletos de Maria e os admite à sua filiação: "Como os homens têm como uma honra ter alguns o seu uniforme, assim Maria fica feliz quando os seus devotos trazem o se Escapulário como um sinal de que estão dedicados ao seu serviço e são do número dos familiares da Mãe de Deus" ("As Glórias de Maria").
            Ensina-nos Santo Afonso também que a devoção ao Escapulário se apóia sobre bases sólidas, visto que é de origem celeste. Eis o que escreve a respeito no livro citado: "Pelo ano de 1251 Maria apareceu ao Bem-Aventurado Simão Stock, inglês, e dando-lhe o seu escapulário disse-lhe que aqueles que o houvessem trazido estariam livres da eterna condenação; foram estas as suas palavras: "Recebe, filho muito querido, este escapulário da tua Ordem, sinal da minha confraternidade, privilégio para ti e todos os carmelitas; quem com ele morrer não padecerá o fogo eterno". É a Mãe de Deus que intervém para assegurar aos filhos, que se apressem em oferecer-Lhe homenagens e orações, a fim de se tornarem dignos de tão grande dom.
            Hereges e críticos que não disseram para desacreditar o uso do santo Escapulário? Mas a devoção dos fiéis tem resistido a todos os golpes sem nunca enfraquecer-se, e os Sumos Pontífices, prestando reconhecida homenagem à bondade de divina Mãe, enriqueceram esta devoção com numerosas Indulgências. É conhecido o grande bem que o sagrado Escapulário tem oferecido às almas, e por isso exclama o nosso Santo: "Oh! Quantos que hoje estão no inferno ter-se-iam salvo se tivessem perseverado nos obséquios a Maria, aos quais uma vez deram início!"
            O caminho que conduz ao céu está semeado de espinhos; inimigos traiçoeiros escondem-se de emboscada, e o viajante temeroso sente a necessidade de um guia que lhe infunda coragem e o acompanhe ao seu destino. A devoção a Maria, diz Santo Afonso, é arma poderosíssima para vencer em todos os combates: invocando o seu nome, apertando ao peito o seu Escapulário, desvanecer-se-ão as tentações e a alma conservará toda a beleza espiritual.
            O Bentinho do Carmo não é somente defesa da pureza, mas também refúgio nos perigos que ameaçam a vida na terra e despedaçam o delicado fio da existência humana. O santo Bispo aponta as virtudes singulares conferidas por Maria ao Escapulário do Carmo e, segundo o testemunho do sábio e piedoso Pe. Crasset, narra como um soldado ferido de morte, recomendando-se à Virgem Santíssima, cujo escapulário carregava, alcançou tempo para reconciliar-se com Deus e salvar-se. Conta ainda sobre um homem que, golpeado de cheio no peito por uma bala, ficou incólume, servindo-lhe o bentinho de escudo.
            A proteção de Maria não se limita à nossa vida mortal, mas se estende para além do túmulo, em favor das almas que sofrem no Purgatório: "Naquela prisão das almas esposas de Jesus Cristo, escreve Santo Afonso, Maria tem um certo domínio e autoridade plenipotenciária, tanto para aliviá-las como também para libertá-las daquelas penas". O Bentinho do Carmo dá prova disto, uma vez que a Santíssima Virgem prometeu a quem o trouxer dignamente libertá-lo do Purgatório no primeiro sábado depois da morte.
            Privilégio singular e preciosíssimo, confirmado pelos Sumos Pontífices e enriquecido de Indulgências; privilégio, graças ao qual Santo Afonso nutria uma devoção toda particular ao Escapulário, privilégio que recomendava, especialmente aos sacerdotes, na sua "Floresta de matérias a serem pregadas".
            Como todos devotos de Maria, Santo Afonso não passava um dia sem ter prestado a Nossa Senhora a ardorosa homenagem da sua veneração, com a esperança de ser acolhido na feliz eternidade. E cantava a Maria:
            Concede-me ainda, ó minha Rainha,
            sempre te ame. até que no céu
            possa um dia sem véu
            ver a tua beleza.
            A Divina Providência conservou incólumes os sagrados restos mortais do grande Doutor da Igreja; e a Rainha do Carmelo quis manifestar quanto lhe tinha sido grata a devoção do apóstolo das suas glórias, conservando intacto o sagrado Escapulário que repousou sobre o coração de Santo Afonso, com o qual morreu e foi sepultado.
 
 
 SÃO CLÁUDIO DE LA COLOMBIÈRE SJ[2]
 
            Os devotos da Virgem do Carmo experimentam sentimentos de íntima alegria diante do hino que, em louvor do Escapulário, entoou o Bem-Aventurado Cláudio de la Colombière, da Companhia de Jesus. Este grande filho de Santo Inácio, que ilustrou a Igreja de Deus com o esplendor das suas virtudes e com a sua doutrina, e foi cingido pelo Pontífice reinante, Pio XI, com a auréola dos Bem-Aventurados, une-se ao coro dos Santos que foram devotos de Maria e propagaram o culto do Santo Escapulário.
            Testemunho eloqüente desta devoção é um sermão sobre o Escapulário, que pregou na igreja dos Padres Carmelitas de Lião.
Da cátedra, donde se anuncia a verdade, o Beato indicou o Escapulário de Maria como um sinal seguro de predestinação: "Entre todas as práticas de piedade inspiradas aos fiéis para honrar a Mãe de Deus, ouso eu afirmar que nenhuma existe tão segura (...), porque não houve nenhuma que tenha sido confirmada por tão portentosos e tão autênticos prodígios (...), de tal modo que não poderiam ser negados ou postos em dúvida sem que se venha a ser tachado de atrevida temeridade e de condenável audácia".
            A sua voz ainda hoje quer ser ouvida, pois que é sempre presente o problema do destino eterno e, como diz o Apóstolo, "ninguém sabe se é digno de ódio ou de amor". Ainda que seja viva a nossa fé, e se fundamente a nossa esperança sobre bases sólidas e a caridade inflame o nosso coração, trememos diante do futuro que nos aguarda.
            As ciladas de Satanás hoje mais do que nunca tomam formas sedutoras; as máximas do mundo contrárias ao Evangelho exercem um influxo deletério; a vida vivida no meio dos prazeres arrasta as almas para as mais desregradas paixões. E assim o caminho que conduz ao céu parece-nos mais longo, mais pontilhado de espinhos, e parece distanciar-se de nós a luz que desejamos alcançar. É verdade, Deus, como um Pai providente, estende-nos as suas mãos benéficas para arrancar-nos do abismo, mas nós não sentimos em nós a força de deixar-nos guiar por Ele! E então o pensamento do futuro apresenta-se assustador à nossa mente. Desesperar-se? Não! Às almas presas de tão horríveis angústias se faz ouvir a palavra consoladora do Bem-Aventurado: "Creio poder dizer-vos algo para os confrades do Santo Escapulário mais vantajoso do que tudo o que comumente se diz em favor de todos os servos de Maria. Não basta falar que a veste da Santíssima Virgem seja um sinal de predestinação como são todas as outras santas práticas inventadas pelos seus devotos para honrá-la (...). Digo-vos mais que não existir entre ela outra que torne mais certa a nossa predestinação". Palavras mais solenes e mais consoladoras não poderiam sair a não ser dos lábios de quem à profunda doutrina une a santidade. É o pensamento dos Santos e dos Doutores da Igreja: São Boaventura, Santo Antônio, São Pedro Damião, Santo Anselmo, São Germano de Constantinopla; eles são unânimes em afirmar a eficácia da proteção de Maria: "A proteção da Virgem é muito maior do que é nossa inteligência capaz de compreender" (São Germano).
            O Beato de la Colombière sabe que a Virgem une ao seu poder o mais terno amor pelos homens, e é do seu coração de Mãe ornado de todas as virtudes e, por isso, grato aos testemunhos de afeto que lhe tributam os seus filhos que provém a certeza da sua proteção. "Sendo Maria adornada de todas as virtudes, Ela é também cheia de gratidão e, por isso, não pode deixar de amar e proteger os que se dedicaram ao seu serviço". Um pensamento elevado a Maria, sentido com sinceridade, basta para torná-la propícia, e para que com o seu sorriso dissipe todas as trevas.
            Feliz, portanto, seria o homem - continua o Beato - se a própria Mãe de Misericórdia lhe concedesse um sinal sensível da sua proteção. Muito sensíveis são os ataques do demônio e torna-se muito evidente a fraqueza da alma!
            Que consolação estabelecer a nossa esperança do Paraíso num sinal sensível da proteção de Maria! Mesmo porque não sabemos se as nossas devoções agradam como devem a Maria: "É muito provável, - diz o Beato - que as nossas homenagens não agradem como devem à Soberana Senhora, e conseqüentemente não estabeleçam a nossa salvação num mesmo grau de certeza". Mas então se desvanecerá qualquer temor se a própria Mãe de Misericórdia nos confortar, revelando-nos que a nossa devoção Lhe agrada e que Ela nos guia pelas estradas da salvação. E aqui o Beato descreve a origem celeste do Escapulário, as promessas que Maria juntou a este sinal do seu amor, e conclui: "Aqui é Ela mesma quem na sua revelação fala pessoalmente com São Simão Stock. É a própria Virgem quem promete aos confrades do Escapulário aquela proteção sobre a qual tantos Santos Doutores tecem tão grandes louvores".
            Exposta a excelência do Escapulário por Maria elevado a sinal de salvação, o Beato exclama: "Agora que teremos nós de fazer para obrigar a Mãe Amabilíssima a velar sobre nós, a tomar sobre si os nossos interesses e a nossa defesa? Que havereis da fazer? Se quiserdes acreditar em mim, levareis os santo Escapulário e levareis até à morte". Dúvida nenhuma pode perturbar a confiança em Maria, uma vez que Ela se empenhou com as palavras mais tranqüilizadoras: "Para arrancar de vós todas aquelas angústias, que vos causa a incerteza da vossa salvação, poderíeis vós ditar à Virgem as palavras com as quais gostaríeis que Ela se empenhasse, poderíeis vós encontrar outras mais precisas e mais formais do que as de Maria?"
            Compreende-se, por isso, porque a devoção do Escapulário tanto se propagou entre os fiéis: "Ora não me admiro mais que ao primeiro aviso de uma promessa tão magnífica, os fiéis acorressem de todas as partes a procurar aqueles santos religiosos feitos por Maria depositários de tal tesouro. Senhores, príncipes, até mesmo os próprios reis coroados, que como todos têm uma alma para salvar, correm à porfia e vão apresentar-se para serem eles também participantes daquele privilégio dos religiosos e colocarem assim em seguro a própria salvação, que o seu cargo expõe a tantos perigos". Os Sumos Pontífices João XXII e muitos outros seus sucessores tendo reconhecido no dom do Escapulário uma devoção conforme com a bondade e o poder da Mãe de Deus, enriqueceram-no com "um número quase infinito de Indulgências".
            E, após estas considerações o Beato Cláudio continua: "A nossa confiança não estar melhor fundada: é um Santo, é um dos mais célebres favorito da Maria aquele que pediu e alcançou o santo Escapulário. A Virgem concedeu-o em favor de uma Ordem por Ela escolhida e que sempre fez particular profissão de honrá-la. O Espírito Santo o autorizou pela boca dos Vigários de Cristo; todos os fiéis sempre o receberam com o máximo respeito e, recebendo-o das mãos de Maria, acreditaram estar recebendo um penhor infalível da sua eterna salvação; há mais de quatrocentos anos que esta devoção se mantém na Igreja Católica, apesar das perseguições de pessoas soberbas e dissolutas, instigadas pelo inferno de tempos em tempos, e depois que fizeram tudo que podiam fazer para derrubá-la, para destruí-la, vai ela, todavia, a despeito deles, dilatando-se sempre mais, sempre mais crescendo na estima e no fervor".
            É desta maneira que o Beato de la Colombière trata da importância do Escapulário. Que confiança em Maria e que amor ao santo Escapulário!
            Para tornar-nos mais seguros da benéfica proteção de Maria o próprio Deus interveio confirmando com numerosos prodígios a devoção do Escapulário. "Ouso afirmar, diz o Beato de la Colombière, que entre as práticas devotas introduzidas na Igreja em honra da Mãe de Deus, a devoção do Escapulário é a mais segura, porque não há nenhuma delas confirmada por tão portentosos e autênticos prodígios". E aqui o Beato vai narrando milagres operados por Deus em virtude do santo Escapulário, seja alcançando a cura de febres, doenças e males incuráveis, seja salvando tantos infelizes das chamas e das ondas tempestuosas do mar. Ele recorda depois o seguinte prodígio: quando Luís XIII assediava Montpellier em 1622, um general que estava ao seu lado recebeu uma bala em pleno peito: foi empurrado, mas não caiu. Quando foi apalpado debaixo das vestes encontrou-se a bala detida no Escapulário de Maria. Diante de tal milagre o próprio rei quis revestir-se com o Escapulário. "Não acabaria nunca, acrescenta o Beato, se quisesse contar todos os perigos mortais de que foram libertados os filhos de Maria por meio do santo Escapulário".
            Em seguida põe-se a tratar de maneira mais particular sobre o valor do Escapulário: "Sei que por maiores e autênticos que sejam estes milagres, eles não obrigam prestar à revelação de São Sifão Stock a mesma fé devida às revelações feitas por Deus à Igreja; sei que poder-se-ia dizer que estes milagres foram operados para garantir a piedade dos fiéis mais do que para confirmar aquela revelação. Contudo ouso afirmar que eles estabelecem o fato de aparição da Santíssima Virgem a São Sifão num grau de certeza que muito se aproxima da certeza da fé de tal maneira que se não poderia pôr em dúvida sem cair numa espécie de temeridade, da qual bem devem resguardar-se as pessoas prudentes e piedosas, visto que não parece que Deus tão sábio quanto poderoso teria permitido que se baseasse numa fábula uma devoção que era tão do seu agrado, como se vê cada dia; uma devoção que Ele queria tornar célebre com o número de tantos milagres". Estas palavras consolam as almas desejosas de luz e de verdade, e assim os cristão podem ter plena confiança na Mãe de Deus e estar orgulhosos de trazer consigo as insígnias celestial Rainha.
            A seguir o nosso Beato responde a estas objeções: "Poderia a Virgem salvar por meio do Escapulário uma alma mergulhada nos vícios e nas sombras da morte? Poderia o Escapulário fazer brilhar a luz da divina graça lá onde reina o pecado?" Sim! responde o Beato Cláudio, porque todas as graças divinas estão nas mãos de Maria, que pode dispor delas para o bem das almas, como o demonstram tantos fatos prodigiosos; e conta como um soldado crivado de feridas mortais dizia aos seus agressores: "Façam-me vocês em pedaços, sou filho de Maria, tenho sobre o peito o santo Bentinho e não morrerei sem ter feito a minha confissão". De fato sucedeu em tempo de reconciliar-se com Deus.
            Mas a Santíssima Virgem não tem necessidade de servir-se de tais meios extraordinários do seu poder para arrancar as almas do abismo do pecado, tendo meios mais naturais e mais conformes aos caminhos ordinários da Providência. "Todas as misericórdias de Deus, diz São Pedro Damião, estão nas mãos de Maria - In manibus ejus sunt omnes miserationes Domini". Do imenso tesouro das graças, do qual Maria é a depositária, saberá Ela escolher uma que mudará o coração do pecador, o encherá de compunção, e de um sensual, de um avarento, de um perverso fará um santo. Não se passa de uma vida licenciosa e desregrada para uma vida de santidade a não ser pelo caminho da penitência, e Maria saberá,  portanto, converter os corações mais endurecidos. Quando menos se pense, A Virgem do Escapulário fará com que resplandeça um raio de luz no meio das trevas, e com a sua proteção até os maiores pecadores serão chamados à penitência e alcançarão o Paraíso.
            E se o pecador quisesse perseverar no pecado vangloriando-se de salvar-se porque está com o Escapulário não conseguiria fugir do castigo de Deus. Mas então, acrescenta o Beato, o pecador impenitente antes de ir ao encontro da morte eterna, na sua terrível psicologia, lançaria longe o Escapulário; e recorda como um jovem, lançando-se nas ondas para suicidar-se, vinha sempre à tona porque estava com o Escapulário, e só conseguiu realizar o seu crime quando arrancou de si este sinal de salvação.
            A glória da Mãe de Deus juntamente com o seu poder resplandecem, portanto, maravilhosamente no dom do Escapulário. Maria quer por meio deste dom sensível atrair para o seu amor os seus filhos prediletos, de tal modo que a devoção do Escapulário participa da própria natureza da virtude da religião, e como a religião é um ato de adoração a Deus e, ao mesmo tempo, assume uma forma exterior pra prestar a Deus o culto devido, os Escapulário é assim uma expressão exterior da piedade e da veneração devida a Maria. Disto deduz-se uma outra vantagem do Escapulário: o compromisso que assume a Virgem Santíssima de vir em nosso auxílio, pois Ela não poderia deixar esperar em vão ou permitir a condenação daqueles que Lhe professam publicamente a sua devoção.
            É, portanto, necessário que a devoção seja perseverante, que não consista somente em algum jejum ou prática de piedade, mas sobretudo num firme propósito de evitar o pecado e de deixar-se guiar pela divina Mãe no caminho que leva à salvação. É preciso que o Bentinho seja trazido sempre e por toda parte, sem respeito humano, se desejamos que seja um sinal de predestinação.
            A magnífica e sábia pregação do Bem-Aventurado Cláudio de la Colombière é uma linda apologia do Escapulário, conforme com a doutrina da Igreja.
 
 SANTA TERESA DE JESUS[3]
 
            A devoção a Maria elevada por Deus à suprema dignidade de Mãe, Mestra e Medianeira do universo apareceu, ainda em vida dos Apóstolos, como pequeno rio junto ao cristianismo, e com o cristianismo alargou-se e espalhou-se pela terra inteira.
            Ao coro unânime dos séculos a aclamarem Maria une-se o ardente amor dado a Mãe de Deus pelos Carmelitas; ou, antes até, a devoção do Carmelo é a primeira na ordem do tempo, e a mais antiga devoção mariana. Devoção que nos filhos do Carmelo se abrasou sempre mais quando nas suas dificuldades a Ela recorreram e nunca em vão.
            Os Carmelitas têm em Maria uma Mãe, que em seu favor parece esgotar todos os recursos do seu amor maternal. Prova disto é o dom do Escapulário, precioso sinal da sua predileção e da nossa consagração ao seu serviço. Quem está revestido do Santo Escapulário descansa tranqüilo no colo de Maria e, abaixo de Deus, deposita em Maria a esperança da própria salvação. Uma devoção, que se arraigou profundamente no povo católico e na qual, como em límpida fonte, se dessedentaram os Santos mais excelsos.
            Neste artigo citaremos Santa Teresa de Jesus.
            Não faltaram no passado nem faltam em nossos dias escritores e hipercríticos adversários do Escapulário. "O argumento onde mais se refugiam e que alguns dos nossos adversários costumam aduzir é o silêncio dos antigos, especialmente de alguns Santos, que no alvitre deles deviam ter falado sobre a devoção ao Escapulário, e de Santa Teresa de Jesus, sobretudo, que como Reformadora do Carmelo e amante das suas glórias, segundo eles, parece que devesse estar obrigada a fazer o elogio do Escapulário ou, quando menos, escrever algumas linhas sobre este penhor de salvação, para recomendá-lo aos fiéis. Mas, no dizer deles, nada disso fez ela: e daí tiram a conclusão de que, no tempo dela, na Espanha, não se falava sobre o Escapulário"[4].
            Em primeiro lugar é justo observar que Santa Teresa nos seus escritos, verdadeiras obras-primas de espiritualidade cristã, manifestou muitas vezes o palpitar do seu coração enamorado pela Rainha do Carmelo. Ilude-se, portanto, quem nas suas obras - seja nas maiores como "Caminho da Perfeição" ou "O Castelo Interior", seja nas menores - pretende encontrar amplos tratados ou louvores do Escapulário e das outras práticas da piedade cristã. Nem deve isto causar maravilha. Obrigada a escrever por determinação da obediência ou por urgentes motivos de utilidade, a Santa o faz a intervalos, visto ser impedida pelas circunstâncias e ocupações onde a mergulham as suas extraordinárias atividades, e ela, além disso, não espalha nos seus escritos todos os tesouros que enchiam o seu coração. A própria devoção à divina Mãe não é tratada ex professo por Santa Teresa: ninguém, contudo, ousaria duvidar da ternura do seu amor a Maria e da sua devoção ao Santo Escapulário.
            Como dissemos, o Escapulário é o hábito dos Carmelitas, a libré que os consagra à filiação de Maria, o sinal da sua proteção. Santa Teresa não o ignora! Com insistência repete que a sua Ordem é a Ordem da Virgem, e nas graças que pede ao rei Filipe II e ao Geral João Batista Rossi para levar a feliz cumprimento os desígnios que alimenta no seu coração, manifesta a esperança de que os seus desejos se satisfaçam porque a Ordem pela qual se afadiga é a Ordem de Maria (carta 74-77), porque a Virgem Santíssima é a sua Mãe, Padroeira e gloriosa Senhora (carta 13).
            É de se notar ainda que no tempo da Santa a devoção pelo Escapulário era na Espanha tão comum e popular que o Pe.José Falcone de Placência podia, em 1595, escrever: "Hoje em dia (a devoção ao Escapulário) floresce na Espanha, onde não há casa, onde não se leve o hábito do Carmo a fim de se gozar das infinitas Indulgências carmelitanas. Ambas as filhas do rei Filipe com todas as suas damas de honra trazem, na Espanha, o hábito de Nossa Senhora do Carmo amplo e comprido igual ao dos Padres da Ordem, que lhes foi dado pelas próprias mãos do Revmo. Geral João Batista Rossi. Não parece toda a Espanha, Portugal inclusive, um convento carmelita? Todos querem ser revestidos com estas armaduras como válida arma contra enfermidades corporais e espirituais. Em toda a Espanha há conventos carmelitas e inumeráveis companhias carmelitanas"[5].
            Nem se pode acreditar que, ainda que não sentisse precisar de enaltecer a devoção do Escapulário porque já estava tão difundida e profundamente sentida pelos fiéis, Santa Teresa deixe de recordar nas obras saídas da sua pena ardorosa este penhor do amor, que nos tem Maria. Freqüentemente fala sobre o Escapulário, ora chamando-o com o nome de hábito ora com o próprio nome de escapulário. Na verdade o hábito de que se gloriava de trazer consigo como "indigna carmelita" assegura-lhe a proteção da Virgem no cumprimento dos compromissos a ela impostos pela obediência; e ao entregar-se a escrever o "Castelo Interior" e as "Fundações" põe a confiança na ajuda daquela de cujo hábito está revestida: "Visto que não me é possível não ser quem eu sou, não me resta senão apoiar-me na sua clemência e confiar nos merecimentos do seu Filho e da Virgem, sua Mãe, cujo hábito carrego indignamente" (Castelo Interior - cap.I). Começo em nome do Senhor, com a ajuda da sua gloriosa Mãe, cujo hábito, embora indigna, carrego" (Fundações - Prólogo). Para o Serafim de Ávila a devoção ao hábito da Santíssima Virgem é vida que se manifesta no agir para dar gosto a Deus e a Maria: "Praza a Deus que seja tudo para o seu louvor e sua honra e para o louvor e a honra da Gloriosa Virgem Maria, cujo hábito carregamos" (Autobiografia - cap. 36); é vida que se manifesta, além disto, no zelo pela perfeição: "Esforcemo-nos, filhinhas minhas, por imitar ao menos em alguma coisa a humildade da Santíssima Virgem, cujo hábito nós trazemos" (Caminho da Perfeição - cap.13); vida que se manifesta especialmente na esperança de uma santa morte: "Tanta paz e tranqüilidade eu vi também em outras religiosas depois daquela (...). Espero na bondade de Deus, pelos merecimentos do seu Filho e da Gloriosa sua Mãe, cujo hábito nós levamos, que esta graça seja concedida a nós também" (Fundações - cap.16).
            Eis como Santa Teresa ama o seu hábito. Repete com insistência que o seu hábito é o hábito de Maria e faz entrever a sua devoção pelo dom preciosos do Escapulário, já no seu tempo objeto de veneração por parte dos fiéis. E escrevendo ao Pe. Graciano, pelos anos de 1585, ela lhe diz: "Muito me alegro com a sua carta, que esta noite me entregaram com os Escapulários (...). A duquesa voltou a escrever-me (...). Depois de amanhã partirão para Madri. Encaminharei os negócios de Vossa Reverendíssima. De edificação são os Escapulários, despertam devoção. Dom Francisco (sobrinho da Santa) mandou pedir um a sua irmã" (Carta 395; tomo 55 da Biblioteca de Autores Españoles p.311).
            Portanto, bem podemos dizer que à vasta e fervorosa devoção ao Escapulário não podia o grande Serafim do Carmelo deixar de corresponder com acentos de amor e de veneração.


    [1]. Il Monte Carmelo  1938  p. 42-45
    [2]. Ibid  p.63-65  e  86-89. Então era apenas Beato.  Foi canonizado por João Paulo II no dia 31 de maio de 1992.
    [3]. Ibid  p.111-114
    [4]. P. Florenzo del Bambino Gesù OCD em Il Carmelo - Tradizione e storia   Cremona  1930  p.311.
    [5]. Pe. José Falcone Chronica Carmelitana  Placência  1595  p.506-507