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A Palavra do Frei Petrônio

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sábado, 20 de abril de 2013

4º DOMINGO DA PÁSCOA: Ninguém as arrebatará da minha mão (Jo 10,27-30)


Sônia Mota e Nelson Kilpp
Sônia Mota é pastora presbiteriana (IPU) e Nelson Kilpp é pastor luterano (IECLB). Ambos são colaboradores do CEBI. Sônia é coautora de Maria de todas nós e de outros livros.

OLHANDO O CONTEXTO

O texto sobre o qual vamos refletir hoje faz parte do conhecido complexo que trata da relação entre o pastor e o seu rebanho (Jo 10). Busca-se, nesse capítulo, responder à questão: quais são os fundamentos da relação entre Jesus e sua comunidade. O trecho em foco, João 10,27-30, nasce, como tantos outros, do confronto entre Jesus e um grupo de judeus. Discute-se, aqui, como se pode estabelecer uma relação autêntica e duradoura com Deus. Para alguns judeus, o templo é a base desse relacionamento.
O confronto se deu quando Jesus estava no templo por ocasião da Festa da Dedicação ou da Purificação. Essa festa lembrava a purificação do Templo de Jerusalém, na época dos macabeus, três anos após o altar do templo ter sido profanado, ou seja, ter sido usado para oferecer sacrifícios ao Deus maior dos gregos, Zeus. A festa representava, portanto, a expulsão dos elementos estrangeiros do centro religioso da comunidade e a recuperação da identidade judaica baseada na pureza ritual e no exclusivismo étnico e religioso.
O templo  era, sem dúvida, um dos mais importantes elementos de agregação da comunidade judaica e, por isso, da preservação da sua identidade. Mas essa identidade estava sendo ameaçada com as afirmações que Jesus fazia sobre si, sobre Deus e sobre a natureza da relação com Deus. Jesus propunha uma relação com Deus, na qual a fé e a confiança são determinantes. Fé e confiança como base de uma relação de amizade sustentável com Deus e entre as pessoas costumam dispensar normas de pureza e ritos estipulados pela Lei. As pessoas que aderiam a essa proposta de Jesus passaram a desconsiderar as tradicionais normas de vida estabelecidas pela centralidade do templo. Isso podia ser entendido como ameaça à  identidade de diversos grupos no judaísmo.
Nessa controvérsia acerca dessas duas propostas de viver a fé, o evangelho de João vai insistir que identidade e coesão da comunidade somente são possíveis em torno do projeto e da pessoa de Jesus.  A pessoa de Jesus representa, no evangelho, essa nova maneira de construir a relação com Deus baseada na confiança e na amizade e, assim, de criar uma nova identidade que não mais depende das exigências de pureza do templo nem de restrições étnicas e religiosas do judaísmo.

DEGUSTANDO O TEXTO

V.27 As minhas ovelhas conhecem a minha voz, eu as conheço, e elas me seguem.  Conhecer e seguir: esses dois verbos indicam a profundidade da relação entre Jesus e as pessoas que em torno dele se congregam. Conhecer não é apenas algo racional e teórico, mas expressa uma relação existencial, profunda, quase íntima. Conhecer Jesus significa ter experimentado a presença  do Deus que liberta e dá vida plena. Conhecimento baseado na experiência: é isso que dá segurança às pessoas e as impulsiona ao seguimento.  Seguir a Jesus significa aderir a seus ensinamentos e suas propostas e ser cúmplice de seu projeto.  Aderir a essa proposta de relação de confiança com Deus implica vivê-la. É, portanto, uma decisão pelo discipulado.  

V. 28 Eu lhes dou a vida eterna; jamais perecerão e ninguém as arrebatará da minha mão. Em meio a um ambiente hostil, onde diversas vozes se levantavam para destruir a comunidade que começa a se formar, a pessoa de Jesus oferece segurança. As “ovelhas” ameaçadas pelos que querem dispersá-las podem ter a certeza de que não irão ao “matadouro”, pois Jesus já as conquistou com a sua vida para a eternidade. Sua promessa para quem ouvir sua voz e seguir sua proposta é de vida eterna. Num ambiente hostil, a confiança e a fé tornam-se os elementos aglutinadores para os seguidores de Jesus. Fé, confiança e vida solidária dão as forças necessárias para a comunidade continuar resistindo.  
V. 29 Meu Pai, que me deu tudo, é maior que todos; e da mão do Pai ninguém pode arrebatar.  Todas as pessoas que estão coesas e comprometidas em torno de Jesus podem ficar tranquilas e seguras, pois é Ele quem nos protege contra a ameaça de cair em mãos inescrupulosas e escravizadoras. A verdadeira comunidade que segue os princípios de Cristo não poderá ser arrebatada ou destruída, porque  Deus é mais forte do que tudo e todos. Outra versão também é possível: Aquilo que meu Pai me deu é maior do que tudo. Nesse caso, pensa-se normalmente na autoridade concedida pelo Pai ao filho. Mas talvez seja possível pensar também na comunidade como o maior bem que Jesus recebeu de Deus. Esse bem precioso ficará bem guardado sob a proteção de Deus.
V. 30 Eu e o Pai somos um.  Esta é a afirmação que causa grande escândalo entre os judeus e que faz do cristianismo uma fé singular: é na humanidade de Jesus de Nazaré que  encontramos Deus em sua concretude e humildade. É na vida, nos ensinamentos, nas ações, no comportamento, na paixão, na morte e na ressurreição de Jesus que Deus se revela aos seres humanos. Em e através de  Jesus, Deus se fez presente e se revelou a toda humanidade. Na comunhão dos que buscam uma vida que se assenta na confiança em Deus e na solidariedade entre as pessoas, ele continua a manifestar-se ainda hoje.

AMPLIANDO A MENSAGEM 

Ouvir, conhecer, confiar e seguir são atitudes fundamentais para o discipulado.  Jesus não é um senhor de escravos, que domina, coloca o cabresto ou prende suas “ovelhas” dentro do curral. Em sua vida mostrou-se como quem está a serviço dos que o seguem, que se interessa pelo bem estar de suas ovelhas, que caminha junto com elas e as conduz em e para a liberdade. A sua relação com as pessoas  está baseada na  confiança e não na  troca de favores ou na manipulação de pessoas em benefício próprio. Em Jesus, o Deus da vida, da misericórdia e da justiça se manifesta e nos convida a segui-lo.
A metáfora das ovelhas representa a vivência coletiva, já que elas não andam sozinhas, mas em grupo. A imagem nos desperta para olharmos para o outro e para a outra. Ela nos convida a romper com o individualismo que nos escraviza. Ela nos chama para a atuação em comunidade, estabelecendo relações de familiaridade, solidariedade e serviço.
Crer é aderir à proposta de Cristo. Isso implica seguimento e compromisso.  Talvez a nossa decisão pelo projeto de Jesus possa redundar em conflitos com mentes prontas e tradições estruturadas. Mas para essas pessoas existe a promessa de que não serão afastadas da comunhão com Deus porque estão guardadas em suas mãos.

sexta-feira, 19 de abril de 2013

4º DOMINGO DA PÁSCOA: Eu sou o Bom Pastor


Entre os tumultos e violências deste mundo, o verdadeiro pastor faz ouvir a sua voz e dá às suas ovelhas a vida que não mais termina. Rezemos hoje, junto com toda a Igreja, pelas vocações sacerdotais e religiosas - e as seculares também.

A reflexão é de Marcel Domergue, sacerdote jesuíta francês, publicada no sítio Croire, comentando as leituras do 4º Domingo de Páscoa (21de abril de 2013). A tradução é de Francisco O. Lara, João Bosco Lara e José J. Lara.

Eis o texto.
Referências bíblicas:
1ª leitura: Atos 13, 14.43-52
2ª leitura: Apocalipse 7, 9.14b-17
Evangelho: João 10, 27-30

Voz do Pastor, palavra do Pai

Aceitemos deixar-nos levar pela imagem do pastor de antigamente, herdeiro das grandes figuras do Gênesis e do Êxodo: Abraão, Isaac, Jacó, Moisés. Condutores de rebanhos e condutores de povos. O pastor caminha na frente, o rebanho o segue. Por que esta docilidade? Porque as “ovelhas” reconhecem a voz do pastor. Isso significa que identificam o pastor como sendo a Palavra que faz com que existam e que, sendo lógica consigo mesma, seguirá fazendo-as existir. O Salmo 23 fala de verdes pastagens e de águas tranquilas para se aplacar a sede; resumindo, fala do alimento, isto é, do que torna a vida possível. O evangelho nos fala de “vida eterna”. A voz do pastor é a voz do Pai, pois eles são apenas um; é a voz criadora que, em Gênesis 1, ordena aos seres que existam e eles existem. Isto significa que Aquele que nos funda continua a nos fazer existir e a nos levar até a última verdade do nosso ser. Todos os que escutam a sua voz, esta voz que nos revela ser o amor esta verdade, a natureza mesma de Deus, não haverão de morrer, pois, pelo amor, terão entrado já no próprio Deus. A voz do pastor fala sem cessar dentro de nós, e nós não a sentimos como estranha, pois foi dela mesma que nascemos. O pastor conhece as suas ovelhas e, como diz o versículo 14 (fora da leitura), também as ovelhas o conhecem. Em Cristo, estamos em nossa casa.

A dança das imagens

As imagens bíblicas não são definições. Elas sugerem, viajam... É preciso fazê-las nossas. Por que nossos textos falam unicamente de ovelhas, no feminino, e de cordeiros, na infância, mas nunca em carneiros? Sem dúvida, porque o carneiro evoca o gosto pela luta e pela violência, enquanto as ovelhas e os cordeiros simbolizam a doçura, a vulnerabilidade e até mesmo a inocência. Ovelhas e cordeiros são devorados pelos lobos todos da terra e, no entanto, não fazem mal a ninguém. Quanto ao pastor, vemos aqui algumas mudanças importantes. No versículo 3, fora da leitura, o pastor faz as ovelhas saírem, levando-as “para fora”. É a imagem do Êxodo, do acesso à liberdade, do caminho para o alimento e para a vida. De repente, no versículo 7, o pastor que faz sair torna-se aquele através de quem se pode sair: torna-se ele mesmo a porta. Na segunda leitura, o pastor, que é aquele que conduz, torna-se o cordeiro, aquele que é conduzido. Ou bem mais que isto: aquele que é imolado. Tudo isso só é compreensível à luz da Paixão e da ressurreição do Cristo. Aí, os contrários de fato se trocam: o primeiro se torna o último, o justo conhece o destino do culpado, a vida ganha a aparência da morte. O Cristo nos abre de fato as portas da morte, mas é por ele que é preciso passar; segui-lo em sua Páscoa. Ele é, com efeito, a vida e o caminho para a vida, a nossa última verdade. Ainda mais uma imagem desconcertante: temos que lavar as nossas vestes no sangue do cordeiro (2ª leitura). Curioso este saponáceo! Esta imagem não nos fala de outra coisa que não seja a nossa entrada na Páscoa do Cristo.

“Ninguém as arrebatará de minha mão”

A mão do Cristo é também a mão do Pai, pois eles são apenas um. Isto significa que nada no mundo pode nos impedir de seguir o Cristo. Por quê? Porque, por pior que seja a situação que qualquer um de nós possa conhecer, ele já a atravessou. Por todo lado erguem-se cruzes, sob as mais diversas formas. Mas seja o que quer que tenhamos que sofrer, vamos encontrar sempre aí o Cristo crucificado. Ele morreu de nossa morte e, por isso, cada uma das nossas mortes torna-se a sua, tendo como termo a vida eterna e a glória. No que diz respeito a tudo o que temos que suportar nesta vida, está muito bem, pensarão alguns; mas, e quanto às nossas insuficiências, traições, omissões... Em resumo, quanto ao pecado? Aí é que nos espera o mais desconcertante: a cruz do Cristo é a culminância da perversidade humana, é a superabundância do pecado. E é disto que o Cristo se utiliza para nos fazer entrar na vida. Aí o nosso mal perde o seu aguilhão mortal. A morte perece em sua própria vitória. Morte sim, mas morte da morte, autodestruição do mal. Não tenhamos, portanto, medo de mais nada. Eis-nos aqui diante da vida, diante de Deus, com as mãos vazias, sem títulos que fazer valer, sem méritos, sem justiça, mas se aceitamos esperar na paz, Ele é que encherá as nossas mãos. “Pois estou convencido de que nem a morte, nem a vida, nem os anjos, nem os principados, nem o presente, nem o futuro, nem os poderes, nem a altura, nem a profundeza, nem qualquer outra criatura poderá nos separar do amor de Deus manifestado em Cristo Jesus” (Romanos 8,38-39). No amor, tudo, até mesmo o que há de pior, é usado para o nosso bem (ver Romanos 8,28).