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A Palavra do Frei Petrônio

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sábado, 23 de março de 2013

Vida despedaçada.


Frei Petrônio de Miranda, Padre Carmelita da Ordem do Carmo, estudante de Jornalismo da Fapcom- Faculdade Paulus de Tecnologia e Comunicação. Convento do Carmo, São Paulo. 23 de março-2012.  

Vida? Que vida? No morro não se nasce, não tem passos, não tem laços, não tem braços. No morro tem fracasso, tem um grito, um suspiro, um lamento, um olhar e um destino já marcado, traçado, crucificado, condenado, amarrado e deletado.

No morro do Alemão ele nasceu. Era um dia de chuva. Os raios e trovões o acolheram naquela tarde quente. Sua mãe, Teresa Joaquina da Silva, vítima de um estupro com o traficante Pedrão da Pedra Lascada Quente, foi mais uma vítima das estatísticas violenta contra a mulher.   

Mulheres? No morro não tem mulheres. Lá tem objetos do prazer. Cobaia para traficar, bumbum para alegrar, cabelos para enfeitar, sorriso para enganar e carne para saborear. 

A família de Teresa era da Igreja do Apocalipse Ardente. Não importava se foi estupro ou não, para eles a criança tinha que nascer. Aborto era coisa do diabo e pecado mortal.

Pecado mortal? No morro não tem pecado. Todos querem sobreviver, lutar, ganhar a vida, cantar, ultrapassar os conceitos e pré-conceitos. Falar com Deus com o baseado na mão e dar glórias a Jesus com um tiro de escopeta. 

Mesmo assim, aquela aflita mãe tentou várias vezes matar o filho. Todas em vão. Foram nove meses gerando uma criança que seria vítima do destino ensanguentado e da falta de sorte. Destino por seguir os passos do pai e falta de sorte por a sua infância roubada.

Destino? Que destino! Destino se faz na raça, na luta e labuta, no tiro e no grito, no agito e na raça.
No dia treze de janeiro de 2013 nascia Pedrinho. Sua cor negra já trazia a marca da discriminação. Os seus olhos pareciam assustados, suas mãos inquietas eram com se já estivessem pedindo socorro.

Socorro? No morro não tem socorro, tem sorte, tem luta, labuta, corrida contra o tempo a morte e a sorte. Sim meu velho, no morro se vive o céu de manhã, o purgatório à tarde e o inferno à noite.

Por alguns anos aquela criança foi à alegria da casa. Teresona, nome de guerra da mãe, voltou a se encontrar com o traficante Pedrão. Entre a violência doméstica, o choro e a miséria, o menino crescia e convivia em um mundo cão.

Mundo cão? Cão é o dia cinzento, escuro e frio. Sim, frio nos becos, rua e vielas marcadas pelas balas berdidas, os sonhos partidos e as vidas cruzadas.

Aos oito anos Pedrinho desceu o morro. Mas para onde ele foi? Para a escola? Para o Parque de Diversões?  Não, não... Ele foi apresentado ao tráfico por seu pai. Religiosamente todos os dias às 13 horas, horário de pico na Praia do Leblon, lá estava o menino entre os carros, transeuntes e os turistas vendendo drogas, pedindo dinheiro e, muitas vezes, fazendo pequenos furtos.

Pai? Que pai? No mundo das drogas não se ama, não se perdoa, não se conversa, não se confia. Lá se troca, se vende, se mata, se consome e se despedaça.

Ao voltar para casa era recebido com gritos e a saudação das grandes mãos de sua mãe. Eram gritos de alegria? Sua mãe o abraçava? Não, não... Drogada e bêbada, aquela infeliz mulher xingava o filho e com as suas mãos batia no seu rosto e nas costas como se estivesse se vingando do estupro do seu pai. A cena se repetiu ao longo de cinco anos. Por sua vez, Pedrinho crescia cresceu revoltado e prometia a si mesmo que um dia daria um fim naquele inferno familiar.

Inferno? Inferno é ser negro, discriminado, favelado, sem ter nome, estatus social, uma família para amparar, uma mãe carinhosa para conversar e irmãos para brincar.

Finalmente naquela tarde, após roubar um turista na Lagoa, seguindo os mesmos passos do pai, Pedrinho comprou um arma. Ao subir o morro estuprou uma mulher. A pobre jovem gritava, pedia socorro e como se estivesse voltado no tempo o menino viu nos olhos da vítima a sua própria mãe sendo violentada por seu pai. Passado e presente se encontraram naquela paranoia psicológica. O então adolescente, nos seus 17 anos não suportou a tal angustia e perturbação mental, pega o revolver calibre 38 de fabricação do exército e tira a sua própria vida.

Vida? Que vida? Foram 17 anos de morte. Sonhos despedaçados, alegria roubada, infância perdida, família falida e adolescência repartida. Sim meu caro leitor, céu e inferno, fogo e frio, destino e sorte. Tudo, tudo tinha parado no tempo e no espaço com aquele tiro fatal. Pedro da Pedra Lascada Quente- o pai ou Pedrinho- o filho?. Não sei, só sei que as vidas se cruzaram, o temo parou, o  morro sangrou e  Teresa Joaquina da Silva- a mãe, até hoje nunca mais sonhou.

Histórico encontro entre Papa Francisco e Bento XVI: "Somos irmãos"


Castel Gandolfo (RV) - O Papa Francisco encontrou-se neste sábado, 23, pela primeira vez com seu predecessor, o Papa emérito, Bento XVI, em Castel Gandolfo, nas proximidades de Roma. Ao meio-dia Francisco se dirigiu de helicóptero à pequena cidade para o encontro com o Papa emérito onde almoçaram juntos num fato sem precedentes na história da Igreja.
Após um voo de 20 minutos o Papa Francisco aterrissou no heliporto das Vilas Pontifícias de Castel Gandolfo, acolhido pelo Papa emérito Bento XVI. Presentes também o Bispo de Albano, Dom Marcello Semeraro e Saverio Petrillo, Diretor das Vilas Pontifícias e Dom Georg Gänswein. Papa Francisco e Bento XVI utilizaram o mesmo automóvel para chegar até a Residência Pontifícia.
Segundo o Diretor da Sala de Imprensa da Santa Sé, Padre Federico Lombardi, o helicóptero papal aterrissou às 12h15, hora de Roma. O Santo Padre estava acompanhado pelo Substituto da Secretaria de Estado, Dom Becciu, por Mons. Sapienza e por Mons. Alfred Xuereb.
Apenas o Papa tocou terra, Bento XVI se aproximou dele e houve um abraço belíssimo entre os dois, disse Pe. Lombardi. Na Residência Apostólica os dois protagonistas deste histórico encontro foram até o apartamento e imediatamente à capela para um momento de oração.
Na capela, o Papa emérito ofereceu o lugar de honra a Papa Francisco, mas esse disse: “Somos irmãos”, e pediu que se ajoelhassem juntos no mesmo banco, contou Pe. Lombardi. Após um breve momento de oração, se dirigiram para a Biblioteca privada, e por volta das 12h30, teve início o encontro reservado que durou cerca de 45 minutos.
Padre Lombardi destacou ainda que o Papa emérito estava vestindo uma simples batina branca, sem faixa e sem capa; ao invés Papa Francisco usou uma batina branca com faixa e capa.
Presentes ainda no almoço os dois secretários, portanto, Dom Georg e Mons. Xuereb.
Padre Lombardi referiu também que Papa Francisco presenteou Bento XVI com um ícone de Nossa Senhora da Humildade. O Santo Padre explicou a Bento XVI que “esta Nossa Senhora é a da Humildade, e eu pensei no senhor e quis dar-lhe um presente pelos muitos exemplos de humildade que nos deu durante o seu Pontificado”, destacou Papa Francisco.
Desde o dia 28 de fevereiro, Bento XVI reside neste local, onde acompanhou a eleição do Cardeal Bergoglio como Sumo Pontífice, e aguarda o fim das reformas no mosteiro Mater Ecclesiae dentro do Vaticano.
Papa Francisco, nos seus discursos, tem manifestado palavras de afeto a Bento XVI, chamando-o, seguidamente de “meu Predecessor, o querido e venerado Papa Bento XVI”.
Já na sua primeira aparição no balcão central da Basílica de São Pedro disse “Rezemos pelo nosso Bispo emérito Bento XVI. Rezemos todos juntos por ele, para que o Senhor o abençoe e a Virgem Maria o proteja”. Após o almoço Papa Francisco retornou ao Vaticano. (SP)

sexta-feira, 22 de março de 2013

Quando o celibato obrigatório “cair”!


Pe. Dirceu Benincá[1]

         Há uma contradição estrutural e de orientação pastoral na Igreja Católica. E é bom que se discuta sobre isso. Alguns falam até em esquizofrenia, o que já caracterizaria uma espécie de doença. Ocorre que se prega a importância da Missa dominical e da Eucaristia nas comunidades, o que, de fato, é fundamental na vida cristã. Para a realização do ritual da consagração é necessário que haja ministros ordenados, que são proporcionalmente poucos entre os católicos.
         Ao longo de sua história, a Igreja tem adotado a estratégia de incentivar a oração pelo surgimento de vocações sacerdotais celibatárias. Entretanto, essas vocações não conseguem atender muitas demandas existentes. Como forma de diminuir esse problema, em tempos recentes inovou-se, instituindo ministros e ministras extraordinários que têm a função de distribuir a Eucaristia. Mas, o poder de consagrar continua restrito aos homens declaradamente celibatários.
         Se, por um lado, se estimula a Comunhão Eucarística dos fiéis – o que em muitos lugares não acontece por falta de ministros ordenados – por outro, não se consegue avançar na criação de alternativas que permitam todos os cristãos terem acesso dominical ao banquete sacramental. Assim, o que é essencial na vida cristã (a Eucarística) fica prejudicado em função de uma norma disciplinar de caráter secundário estabelecida pela própria instituição.
         Em geral, a hierarquia tem séria resistência a tratar desse assunto, tomado quase sempre como doutrina certa, única e dogmática. Na Conferência de Aparecida, por exemplo, destacou-se o celibato como um dom (DA 196), o que não deixa de ser. Porém, há pessoas que não tem o dom do celibato, mas tem o dom da vocação sacerdotal. Por falta daquele, anula-se esse. Na verdade, existem muitos elementos teológicos, bíblico-pastorais, eclesiais, culturais, sociológicos, antropológicos e até psicológicos que dão suporte para pensar alternativas sensatas, renovadoras, oportunas e muito úteis para a vida da Igreja. Entre eles, vale lembrar que vários dos discípulos de Jesus eram casados. Portanto, Jesus não instituiu o celibato obrigatório como condição sine qua non para segui-lo, servi-lo e dar continuidade à sua missão.
         Fora isso, também não determinou que as mulheres não pudessem ser ordenadas e fossem impedidas de presidir os rituais sagrados como a da consagração. Há mulheres que afirmam: ‘Uma mulher (Maria) foi o primeiro sacrário vivo, carregando Jesus em seu ventre. Hoje, contraditoriamente, todas as mulheres estão impedidas de consagrar’. É bom lembrar ainda que no momento eucarístico mais radical, que foi a entrega de Jesus na cruz, lá estavam três mulheres: Maria, sua mãe, Maria de Cléofas e Maria Madalena (Jo 19,25). Agora a doutrina oficial ensina que a Igreja Católica admite e administra sete sacramentos. Porém, falta dizer explicitamente que os sete sacramentos só são possíveis para os homens. Para as mulheres existem apenas seis, já que não se permite a elas o sacramento da Ordem.
         A propósito do tema, é significativa a declaração de Pablo Richard, teólogo e biblista chileno: “A posição da Igreja sobre a integração da mulher nos ministérios eclesiais ordenados segue um esquema dogmático que não é coerente com as origens da Igreja e que contradiz tudo o que ela afirma acerca da natureza e dignidade das mulheres. A exclusão absoluta e para sempre das mulheres do diaconato e presbiterado põe a Igreja em uma crise irreversível” (Revista Pasos, Costa Rica, nº 133, set./out. 2007, 1-17).
         Essas questões nos fazem pensar, como aconteceu recentemente no mosteiro de Itaici, em Indaiatuba – SP, durante o 12º Encontro Nacional dos Presbíteros, quando um grupo de padres sugeriu a abertura da discussão sobre a obrigatoriedade do celibato na Igreja Católica. A proposição coloca-se no sentido de buscar novas formas de ministério, ou seja, possibilitando a ordenação de mulheres, de homens casados, a reabilitação dos padres casados e o próprio casamento dos sacerdotes que desejarem, sem desmerecer o valor que o celibato tem aos que optam livremente por ele. 
         Quando o celibato deixar de ser obrigatório e as mulheres puderem ser ordenadas – o que talvez um dia seja possível – será sinal de que a Igreja avançou, como haverá de avançar em vários outros aspectos. Terá ampliadas chances de ser mais coerente, mais democrática, igualitária, justa, acolhedora, discípula e missionária de Jesus Cristo na construção do Reino de Deus. Superar a dogmatização em torno do celibato obrigatório e da não ordenação de mulheres está entre os grandes desafios da Igreja na atualidade. Admitir essa necessidade é o primeiro e grande passo!


[1] Doutorando em Ciências Sociais, PUC/SP; e-mails: dirceuben@gmail.comdirceuben@ig.com.br